Diários de uma ApotecáriaVolume 10 – Capítulo 19 – Capítulo 19: Arranhões
Capítulo 10.19Sua visão voltou, mas estava turva.
Hã? O que eu estava fazendo mesmo?
Maomao se sentou devagar; seu corpo parecia pesado.
— E aí! Você acordou? — disse uma voz animada. Ela vinha acompanhada de um rosto familiar.
— M-Mestre Lihaku?
Era aquele soldado grandalhão, com cara de cachorro amigável. Maomao olhou ao redor, tentando fazer o cérebro funcionar. Ela não estava em um cômodo, mas em uma tenda. De um lado, viu Chue cozinhando alguma coisa em uma panela.
Tudo bem até aí… mas então ela viu um inseto no canto de sua visão. Ela se levantou em um pulo. — Gafanhoto! — ela gritou, esmagando-o imediatamente com o pé. Mas como ela tinha acabado de acordar, o movimento quase a fez cair.
— Ei! Calma, mocinha. Matar um gafanhoto não vai fazer diferença nenhuma, está bem? E você precisa ir devagar — disse Lihaku.
— Ele tem toda a razão, senhorita Maomao. Aqui, coma isto. — Chue fez com que ela se sentasse novamente na cama e lhe ofereceu uma tigela com alguma coisa. Ela a pegou e deu uma mordida. Era um pudim de arroz levemente salgado.
Assim que Maomao colocou um pouco de comida quente no estômago, as lembranças começaram a voltar. Havia um enxame de gafanhotos, depois uma tempestade de granizo e então...
— Quanto tempo eu fiquei desacordada? — ela perguntou.
— Um dia inteiro — respondeu Chue. — Você levou uma bela pancada na cabeça de um grande pedaço de granizo. Fiquei com medo de que fosse perigoso movê-la, então colocamos você aqui nesta tenda.
Maomao achou que ela tinha tomado a decisão certa. Também se sentiu completamente patética por ter desmaiado justo quando mais precisavam dela.
Parece que eu estava bem mal.
Maomao era apenas humana. Ninguém a culparia se aquela situação sem precedentes a tivesse levado ao limite. Mas ainda era verdade que, ao sucumbir, ela tornou a vida mais difícil para os outros.
E pensar que o taibon não me incomodou. A sala trancada cheia de cobras e insetos venenosos na fortaleza do clã Shi não tinha sido problema algum.
— Não precisa ficar para baixo, senhorita Maomao. Você só ficou um pouquinho confusa e exagerou um pouco na matança dos insetos. Seu pesticida da marca Maomao é bem forte. Pode até envenenar a terra, sabe? Mas funcionou! Nós o diluímos e agora estão usando para matar o restante dos insetos.
— O restante deles?
— Resumindo, já passamos pelo pior. Ajudou muito o fato do granizo ter chegado e baixado a temperatura. Mas alguns desses gafanhotos são uns bichinhos resistentes, então eles estão lá fora lidando com eles.
— Eu estou ajudando com isso — entrou Lihaku na conversa, levantando a mão. Mas por que ele estava ali? — Um enxame de gafanhotos também apareceu na capital do oeste. Não eram tantos quanto aqui, mas a situação ficou feia. Nosso bom amigo Jinshi ficou fora de si… ele me ordenou que fosse imediatamente até a vila onde você estava, mocinha. Cheguei aqui cerca de meio dia atrás.
— Enquanto isso, meu irmãozinho bobo voltou para acompanhar o Príncipe da Lua. Este foi o seu relatório sobre a situação!
Provavelmente aquilo era o máximo que Jinshi podia fazer. Basen, por sua vez, provavelmente ainda estaria cheio de energia, mesmo depois de uma cavalgada rápida de volta.
— Cara, foi uma coisa e tanto! — disse Lihaku. — Aqueles caras da capital do oeste pareciam nunca terem visto uma praga de insetos antes. Quer dizer, eu também nunca vi, não é? Mas eles avisaram que alguma coisa estava vindo. Avisaram várias e várias vezes!
Lihaku era, como sua aparência sugeria, um homem de coração forte. Ele tinha sido uma excelente escolha para essa expedição.
— Ah, é! — acrescentou. — O velho rabugento também estava lá — ele ficou: “Maomaoooo! Onde está minha Maomaaaoooo?!”. Rapaz, ele ficou maluco! O pobre médico velho estava tremendo de medo no consultório!
— Ugh... — Maomao conseguia imaginar muito bem a reação daquele estrategista maluco.
— Nosso amigo Jinshi, acho que ele pensou rápido, porque disse para ele não se preocupar, que ele tinha mandado você para um lugar onde não havia praga. A maior mentira que já ouvi!
— Enquanto eu estava literalmente na linha de frente… — É verdade que Maomao tinha se oferecido para aquilo, mas a mentira era conveniente, sem dúvida.
— O velho rabugento organizou uma equipe para exterminar os gafanhotos. Ele também ajudou a controlar o caos na cidade.
Maomao não respondeu imediatamente. Na verdade, parecia que as coisas estavam mais ou menos sob controle na capital do oeste. Eram as outras vilas agrícolas que a preocupavam.
Falando nisso...
— O irmão do Lahan... Ele está bem? — ela perguntou em voz alta.
— Ahhh, você quer dizer o Cara da Batata?
— Se ele não mandou nenhuma carta, isso provavelmente é uma boa notícia, não é? — disse Chue.
— Não sei. A última coisa que ele mandou parecia bem ruim, e agora estamos aqui, com gafanhotos por toda parte...
Entre os agricultores comuns, ele era bastante notável, mas foi obrigado a servir nessa expedição e depois enviado diretamente para o caminho do enxame que se aproximava.
Obrigada, irmão do Lahan… Maomao olhou para o teto da tenda. Ela tentou imaginar o rosto sorridente do irmão do Lahan, mas então percebeu que não tinha certeza se já o tinha visto sorrir. Normalmente, ele estava bravo, desesperado ou fazendo alguma piada às custas de alguém.
Será que ele ainda está vivo? Ela sabia que ele tinha sido enviado com um guarda-costas de confiança, então queria acreditar que ele tinha sobrevivido a tudo aquilo.
— Por acaso você sabe qual foi a extensão dos danos? — ela perguntou. O enxame tinha vindo e ido embora; isso não podia mais ser mudado. A questão era como eles responderiam àquilo.
— Cerca de oitenta por cento da colheita de trigo já tinha sido recolhida — informou Chue. — O trigo que não foi colhido foi destruído, mas a colheita deste ano foi excepcional, maior que a média. Descontando o trigo da única casa que pegou fogo, a colheita ficou em cerca de setenta por cento de um ano normal.
— Setenta por cento? — Considerando a escala da destruição, aquilo parecia quase milagroso para Maomao. Talvez o irmão do Lahan realmente fosse um professor e guia tão bom assim. Mas não podiam pensar apenas em termos de trigo. — E os outros danos? — ela perguntou.
— A maior parte da palha foi comida, assim como a maior parte da pastagem para os animais. Os campos de batata praticamente ficaram reduzidos aos talos, mas achamos que podem voltar a crescer.
Chue fez aquilo parecer tão simples, mas devia estar desconfortável com a gravidade da situação, porque flores e bandeiras continuavam aparecendo e desaparecendo de suas mãos. Lihaku a observava atentamente, sem jamais parecer se cansar daquele espetáculo.
— Sendo sincera, as outras vilas agrícolas provavelmente foram praticamente destruídas — disse Chue.
— O bom e velho Jinshi continua enviando cavalos de correio para a vila mais próxima sempre que recebia uma carta do irmão do Lahan, mas aposto que a maioria dos lugares não estavam tão bem preparados quanto este aqui — acrescentou Lihaku.
— Verdade. As coisas não ficaram tão caóticas por aqui — disse Chue.
Então isso foi “não tão caótico”, hein? Maomao achava que estava acostumada a certo nível de confusão, mas parecia que Chue era ainda mais calma do que ela.
E ainda havia a questão da pessoa que fez mais do que qualquer outra naquela ocasião...
— Onde está Rikuson?
— Lá fora, eu acho. Quer vê-lo? — perguntou Chue.
Em meio àquela confusão, Rikuson permaneceu completamente calmo. Na verdade, ele parecia estar acostumado com aquilo. Ele fez mais do que simplesmente manter a calma e matar gafanhotos… ele parecia entender profundamente como as pessoas agiriam em meio ao pânico. O que fez, correndo de uma casa para outra e conversando com os aldeões, talvez não parecesse grande coisa, mas, sem aquilo, era possível que muito mais grãos tivessem queimado.
Mesmo depois dos severos avisos de Maomao para não usarem fogo, os moradores ainda o fizeram. Presos em casas sufocantes e sem luz, com vozes enlouquecidas gritando do lado de fora, qualquer pessoa teria sido levada ao limite. Maomao percebeu então como era importante ter uma voz calma vindo do lado de fora.
Qual é a história dele? ela se perguntou enquanto saía da tenda. Chue veio atrás, talvez para ficar de olho nela.
Lá fora estava frio, um efeito que ainda permanecia da tempestade de granizo. Os gafanhotos continuavam rastejando pelo chão, e algumas pessoas tentavam capturar os que ainda estavam no ar. No centro da vila havia uma pilha preta e horrível de algo que Maomao presumiu serem os insetos recolhidos. Parecia que eles estavam se contorcendo bem de leve, e ela não queria chegar muito perto.
Os moradores que tinham ficado trancados dentro de suas casas começaram a sair para as ruas, atordoados. Quando deixaram os campos de trigo, levando as espigas para dentro de casa, os campos estavam cheios de talos — mas agora estavam devastados e sem valor algum. Mesmo tendo ouvido o relatório de Chue sobre os danos, Maomao teve dificuldade para compreender a realidade diante de seus olhos. Ela passou pelos campos de batata, reduzidos a talos, e viu com os próprios olhos os pastos completamente desnudados.
Os campos de capim estavam menos destruídos que os de trigo, mas a diferença era apenas de grau. Os animais tinham sido soltos nos campos, mas pareciam inquietos e desconfortáveis. Galinhas bicavam os gafanhotos aqui e ali no chão.
Será que têm um gosto bom? Maomao, na verdade, já tinha experimentado alguns uma vez, mas não conseguia superar a aparência deles… simplesmente não pareciam apetitosos.
O pato olhava para um lado e para o outro, examinando a região. Talvez estivesse procurando Basen.
— Não está curiosa para saber o sabor dos gafanhotos, senhorita Maomao?
— Desculpe, senhorita Chue?
Maomao teve um mau pressentimento sobre isso.
— Preparei isso rapidinho… só para ver se era comestível! — Ela tirou algum tipo de refogado de lugar nenhum. Era muito a cara de Chue fazer algo assim, e ela parecia ter lido os pensamentos de Maomao.
Maomao não disse nada.
— Tirei as cabeças, as carapaças e as pernas — não pareciam boas para a digestão. Também joguei fora as vísceras — nunca se sabe o que eles andaram comendo.
Não era preciso explicar que alimento era aquele… embora Chue tivesse conseguido disfarçá-lo completamente.
— Você fez bem em tirar as vísceras. Eles comeram plantas venenosas e até uns aos outros. Mas, depois de tirar tudo isso, não sei o que sobra.
— Tem razão — tem tão pouco deles que dá para comer! Enfim, pode provar!
Maomao deu uma mordida sem muito entusiasmo.
— E então?
— Hm... Bem, não é fisicamente intragável...
— Mas, considerando o trabalho necessário para prepará-los, você recomendaria outra coisa.
— Sim, eu diria que sim.
Como era uma comida preparada pela Chue, era de se esperar que tivesse temperos bem saborosos. O fato de, apesar disso, ela ainda ter chegado apenas ao nível de “não ser intragável” não dizia muito a favor dos méritos daquele prato. E as pessoas que permaneciam paradas, olhando sem expressão para os campos devastados pelos gafanhotos, provavelmente não estariam muito interessadas em se virar e comê-los. A pequena quantidade de nutrientes que eles forneciam seria uma compensação insignificante pelos estragos que tinham causado.
O restante do prato de Chue desapareceu de volta no ar, e então ela puxou a manga de Maomao, como se tivesse percebido alguma coisa. — Por aqui, por favor! — disse ela.
Maomao a seguiu até que pararam em frente a uma das casas devastadas. Ela podia ouvir vozes lá dentro. Quando olhou para dentro, encontrou Rikuson conversando com alguns moradores.
— Eu entendo — ele dizia. — Vamos fingir que isso nunca aconteceu.
— Eu sinto muito. Odeio voltar atrás em uma promessa, mesmo que tenha sido algo informal. — Vários moradores, junto com o próprio chefe da vila, abaixaram a cabeça diante de Rikuson.
— Não, eu entendo. Considerando a dimensão da destruição, não posso culpá-los. Na verdade, considero uma sorte que os danos não tenham sido ainda piores.
Bastou um olhar para a bolsa sobre a mesa entre as partes para explicar do que estavam falando. Era a mesma que Rikuson tinha usado para motivar os moradores acomodados antes do enxame chegar… a bolsa cheia de dinheiro. Ele tinha prometido comprar o trigo deles pelo dobro do preço de mercado.
Essa não pode ser a única vila que sofreu um estrago desses. E acho que eles não podem se dar ao luxo de vender o excedente.
— Tenham um bom dia, senhor. — Rikuson colocou a bolsa entre as dobras da roupa e saiu da casa. Ao sair, viu Maomao. — Maomao, você acordou? Você está bem?
Ela mostrou a cabeça e as palmas das mãos. A cabeça estava bem, mas a mão ainda latejava. Chue tinha cuidado dela enquanto estava inconsciente, aplicando uma pomada e fazendo um curativo, então estava melhor do que poderia estar.
Chue deu uma cutucada em Rikuson. — Você tem coragem de ficar carregando isso por aí, senhor Bolsa-de-Dinheiro! Sabe que pode haver bandidos por aqui, não sabe?
— Oh, céus. Sou apenas um burocrata de nível mediano. Não tenho dinheiro para comprar todo o estoque de trigo de uma vila. — Ele mostrou a língua de brincadeira e então tirou a bolsa. Ela estava cheia de pedras de Go.
— Ora, ora! — disse Chue.
— Eu as carrego comigo para todo lugar. Um hábito do meu último cargo.
Aquilo, é claro, tinha sido quando ele era assistente do estrategista maluco. Rikuson, Maomao pensou, tinha se mostrado um vigarista de primeira.
— Desculpe. Você precisava de alguma coisa comigo? — ele perguntou.
Precisava de alguma coisa? Hum.
Ela tinha praticamente só seguido Chue. Chue e Lihaku, juntos, já tinham lhe dado uma boa ideia de como estavam as coisas, então não havia realmente necessidade de perguntar a Rikuson sobre aquilo. Ainda assim, Maomao achava que Rikuson provavelmente tinha sido quem mais ficou chocado quando ela perdeu a consciência. Ela sentiu que deveria se desculpar.
— Sinto muito por ter apagado daquele jeito. Fui mais um problema quando você já tinha o suficiente para resolver. — Ela também fez uma reverência para Chue, só por garantia.
— De jeito nenhum. Só fico feliz que você não tenha se machucado seriamente.
— Tudo bem, então. Até mais.
— O quê? Só isso?
“Só isso?” Bem, havia outras coisas que ela queria perguntar a Rikuson, mas não havia necessidade de pressa. Ainda havia muitos gafanhotos por ali, e ela achava que deveria ficar fora do caminho. Talvez Rikuson estivesse cansado de pensar em gafanhotos e quisesse mudar de assunto. Infelizmente, Maomao não estava em posição melhor que ele para pensar em alguma coisa que distraísse os dois.
Em vez disso, ela disse: — Você parece saber muito bem o que está fazendo aqui, Rikuson. Tem algum tipo de experiência com esse tipo de coisa? — A maneira como ele se manteve a calma o tempo todo… nem mesmo ter sido assistente do estrategista maluco seria suficiente para explicar tamanha compostura.
Rikuson deu a ela um sorriso gentil. — Aprendi com minha mãe. “Você nunca deve perder de vista quem é, não importa qual seja a situação”, ela dizia. — Então, por um segundo, sua expressão vacilou. — As últimas palavras dela para mim foram: “Quando você mais quiser desmoronar, é justamente quando deve ficar mais calmo”.
— As últimas palavras dela?
— Sim... Nossa casa foi atacada por bandidos. Minha mãe e minha irmã mais velha me esconderam onde ninguém me encontraria... e então foram mortas diante dos meus olhos.
Essa conversa tinha ficado muito mais sombria do que Maomao esperava.
— Se eu fizesse algum barulho, também teria sido morto. Mas eu não conseguia — não conseguia gritar, não conseguia berrar. Minha mãe, sabendo muito bem que eu gritaria de raiva e tentaria me lançar contra os assassinos, colocou uma mordaça na minha boca e amarrou minhas mãos e meus pés. Então, incapaz de fazer qualquer coisa, assisti minha mãe e minha irmã morrerem… mas, por causa disso, sobrevivi.
Não era uma história fácil de responder. Maomao respondeu da única maneira que conseguiu pensar. — Porque você sobreviveu, esta vila também sobreviveu.
O que quer que tivesse acontecido no passado não era da conta dela… mas, se, como resultado de suas experiências, Rikuson conseguiu salvar aquela vila, então ela precisava ser grata por essas experiências. E também precisava reconhecer a coragem incomum dele.
— Agradeço isso, Maomao… por enxergar dessa maneira.
— Hã?
Ela não era Rikuson. Não tinha como saber como ele teria reagido se ela tivesse respondido com emoção demais. Ele era um homem adulto, não uma adolescente emburrada, então ela concluiu que não havia necessidade de enchê-lo de simpatia exagerada.
Rikuson sorriu novamente. — Sinto que nós dois nos damos muito bem, Maomao. Acha que eu poderia pedir sua mão em casamento?
— Certamente você está brincando — disse ela. Ela não pretendia levar aquela conversa educada a sério.
— Sim, claro. Certamente — disse Rikuson, soltando uma risada.
Não tenho certeza se tinha percebido que ele era do tipo que fazia esse tipo de piada, pensou Maomao, surpresa. Por outro lado, ele tinha dito algo parecido no ano passado, na última vez em que estiveram na capital do oeste. Talvez aquilo fosse apenas outro lado dele.
[Noelle: eu sentindo a química daqui kkkkk que desperdício! Aquela brincadeira com fundo de verdade kkk]
Chue se enfiou na conversa. — Uau-uau! Vão deixar a senhorita Chue de fora no frio? Tem espaço para mais uma nesse dramazinho de relacionamento de vocês?
— A senhorita Chue é uma mulher casada — disse Rikuson calmamente.
— Sim! Casada e com filho! Mas todo mundo diz que eu não pareço. Como você sabia? — Chue inclinou a cabeça, confusa.
Ela realmente não parece. Chue estava muito, muito longe da ideia que Maomao fazia de uma dona de casa comum.
— Bem, veja, o filho mais velho do clã Ma é famoso em certos círculos.
— Ah, sim! Meu marido passou no exame do serviço público quando ainda era adolescente… isso é o bastante para deixar qualquer um famoso. Pena que ele largou tudo rapidinho. Por causa dele, a senhorita Chue teve que voltar ao trabalho logo depois de dar à luz! — Ela juntou as mãos.
— E o que aconteceu com seu filho? Ainda não deve ser muito velho, certo? — perguntou Rikuson.
— Minha cunhada está cuidando dele muito bem!
Maomao sabia, em termos gerais, que aquela criança existia, mas agora percebeu que Chue não parecia nem um pouco preocupada com seu filho. Maomao percebeu que não só nunca tinha ouvido o nome da criança, como nem sequer sabia se era menino ou menina. Mesmo sabendo que Maamei, a cunhada de Chue, sem dúvida faria um excelente trabalho criando a criança, a atitude dela parecia extremamente despreocupada.
— Tudo bem, preciso voltar e ajudar com os gafanhotos — disse Rikuson, fazendo uma leve reverência com a cabeça.
— Certo. Eu...
Justamente quando Maomao se perguntava o que, afinal, iria fazer, uma voz veio de trás dela.
— Eiii! — Ela se virou e encontrou Nianzhen acenando para ela. O que o velho caolho queria? — Tem mais daquele veneno?
— Veneno? — Maomao olhou para ele, com uma expressão interrogativa.
— Aquele que mata insetos! O que você ferveu naquela panela enorme. Não estou chegando a lugar nenhum esmagando os insetos um por um. Quero espalhar aquilo em tudo e acabar com eles.
— Ah! Você quer dizer o pesticida. — Maomao tinha uma lembrança nebulosa de sua busca desesperada para produzir aquilo.
— Isso! O veneno!
— Veneno...
Maomao queria apontar que aquilo não era exatamente o que ele chamava de veneno, mas Rikuson parou enquanto ia embora e disse: — Sim, aquele veneno foi incrivelmente eficaz.
— Tudo bem, espere...
— Ah! É a Senhorita do Veneno! — disse um dos moradores que tinha visto Maomao. — Acha que poderia preparar mais veneno para nós?
— Sim, eu preciso de um pouco de veneno, por favor. Do tipo que precisa ser diluído para não matar ninguém! — disse outro morador.
— Aquele veneno funcionou como nada que eu já vi. O que havia nele, afinal?
Os moradores se aglomeraram ao redor dela.
Não é ve-ve-ve...
Antes que Maomao conseguisse dizer as palavras, Chue bateu no ombro dela. Deu-lhe um olhar cúmplice e balançou a cabeça. Maomao engoliu em seco.
— Por favor, usem apenas conforme as instruções — disse ela.
E foi assim que Maomao se viu recolhendo ervas tóxicas mais uma vez.
Quando Maomao terminou de preparar uma quantidade generosa de pesticida, Lihaku chamou: — Heeey, mocinha!
— Sim? O que foi?
— Parece que você já terminou de preparar seu veneno. Pensei que, em vez de ficar por aqui, deveríamos voltar para a capital do oeste para prestar contas. Posso deixar os soldados que vieram comigo para ajudar a limpar o restante dos insetos. Tudo bem?
— É, pode ser uma boa ideia... E, por falar nisso, isto não é veneno, é pesticida.
Maomao olhou para a vila. Ela tinha mostrado aos agricultores como preparar o pesticida e até escrito instruções simples para eles.
— Se não voltarmos logo, aquele velho vai descobrir que foi enganado — disse Lihaku.
— Ah, é mesmo. Disseram a ele que eu estava em algum lugar onde não havia peste, não foi? Fico impressionada que ele tenha acreditado.
Por mais maluco que fosse, o sexto sentido inexplicável do estrategista maluco parecia estar sempre funcionando. Era estranho pensar que alguém tinha conseguido mentir para ele com sucesso.
— Nosso amigo Jinshi não é nenhum estrategista de segunda. Ele usou o velho médico.
O velho médico. Em outras palavras, o charlatão. Maomao sabia que Jinshi tinha se aproximado do médico recentemente. Ela se perguntou como ele o tinha usado.
— Ele explicou ao velho médico o que estava acontecendo com você e deixou ele contar ao velho. Sabe, ele falou com ele indiretamente!
Maomao ficou em silêncio: aquilo realmente era uma boa ideia. Além disso, o velho médico isso e o velho aquilo parecia algo que podia ficar confuso.
O médico charlatão era um homem gordinho de meia-idade, mas, em termos zoológicos, ele estava mais ou menos na mesma categoria que ratos ou esquilos. Ele ocupava aproximadamente o mesmo lugar na hierarquia que o pato de Basen.
— Assim que as coisas se acalmarem, precisamos aparecer rapidinho, senão o velho vai começar a suspeitar de algo.
Maomao olhou para a palma da mão. Ela ainda estava visivelmente marcada por ter preparado o pesticida.
— O que fazemos com isso? — ela perguntou.
— Tenho uma muda de roupa extra para você! — disse Chue, prontamente tirando as roupas de algum lugar.
— É só dizer que alguma coisa deu um pouco errado, sabe? Você já tem todas aquelas coisas no braço esquerdo — disse Lihaku, apontando para o membro em questão, que estava coberto de cicatrizes de quando Maomao usou a si mesma como cobaia para seus medicamentos. Ela nunca tinha mencionado isso especificamente, mas, aparentemente, ele tinha descoberto.
Agora que penso nisso...
Por mais superprotetor que o estrategista maluco pudesse parecer, ele nunca tinha se oposto ao fato dela ser provadora de comida, verificando se havia veneno. Ele imediatamente pressionaria qualquer pessoa que ameaçasse fazer o menor mal a Maomao… mas talvez ele escolhesse não interferir quando se tratava de ameaças que a própria Maomao escolhia enfrentar.
Ela se perguntou se Lihaku tinha percebido instintivamente esse aspecto do estrategista.
— Faz sentido — disse ela. Ela achou que ele tinha razão: ninguém questionaria um pequeno ferimento nas mãos naquele momento. — Tudo bem. Vamos para casa?
E assim ela deixou para trás a vila devastada.
Comentários do capítulo 10.19
Converse sobre este capítulo. Marque spoilers para proteger outros leitores.