Diários de uma ApotecáriaVolume 8 – Capítulo 11 – Capítulo 11: Diversão e Medo
Capítulo 8.11Faltavam apenas alguns dias para a festa no jardim, e a Imperatriz Gyokuyou estava coordenando suas roupas com as de suas damas de companhia.
— Tem certeza de que isso não está simples demais, Lady Gyokuyou? — perguntou Yinghua. Ela estava ocupada tentando combinar um acessório com sua roupa. As mulheres vestiriam vermelho, como sempre fizeram, mas em um tom mais escuro do que na época em que Gyokuyou era apenas uma concubina. — Não seria melhor... chamar mais atenção?
— Vai ficar perfeito com as cores do próprio banquete — respondeu Hongniang, a chefe das damas de companhia, enquanto passava um pente pelos cabelos de sua senhora. — E combina com o que Sua Majestade vai usar. Isso é especialmente importante.
Apesar da resposta confiante, Hongniang também parecia um pouco inquieta; ela pousou o pente e foi até o guarda-roupa. Yinghua adicionou outro grampo de cabelo ao que já tinha escolhido. Antes, quando estavam no palácio interno, a única questão era como superar o brilho das outras concubinas, e as damas de companhia encontravam maneiras de se divertir sem ultrapassar os limites do bom gosto, e do bom senso. Agora, porém, estavam em uma posição diferente.
— Tem certeza de que isso vai funcionar, Lady Hongniang? — perguntou Yinghua, empalidecendo ao ver o grampo que Hongniang havia escolhido.
— Hmm. Você não acha que combina?
— Acho que fica bom. Mas usamos esse no último chá com a Imperatriz Viúva. Garanto que as damas de companhia dela vão notar.
— Hã. Que pena — disse Hongniang, devolvendo o grampo ao lugar. Em geral, roupas ou acessórios usados em um grande banquete não eram usados novamente em uma ocasião semelhante. Os acessórios mais bonitos eram remodelados em outras formas e relegados a pequenos chás elegantes. Os acessórios menores podiam ser usados várias vezes, mas não seria adequado deixar que as pessoas pensassem que você tinha apenas uma única coisa para vestir.
— Ainda assim, parece que está faltando alguma decoração — disse Yinghua, observando o traje de Gyokuyou.
— É... — concordou Hongniang. As duas soltaram sons pensativos. Gyokuyou simpatizava com elas.
— Combinar as cores é ótimo e tudo mais, mas eu queria algo que realmente chamasse atenção. Uma joia grande ou algo assim — disse Yinghua.
Jade era algo que a Imperatriz possuía em abundância, mas não combinava com aquele traje. O ideal seria algo mais translúcido, algo capaz de atrair o olhar de quem observasse.
— Como cristal — disse Yinghua. — Ou um daqueles diamantes lapidados do oeste!
— Duvido que consigamos um desses com tão pouca antecedência. Se tivéssemos um diamante bruto, poderíamos pedir a um artesão que o lapidasse, mas ele teria de trabalhar rápido. Diamantes não são fáceis de trabalhar — disse Hongniang. Os diamantes eram duros, tão duros que apenas outro diamante podia riscá-los. Isso tornava difícil realizar trabalhos delicados neles. Mesmo assim, seria bom encontrar algo apropriado. Hongniang voltou-se para o cômodo onde ficava o guarda-roupa de Gyokuyou. Gyokuyou sempre foi menos inclinada à ostentação do que as outras concubinas, mas agora era Imperatriz. Certamente devia ter um cristal ou dois guardados em algum lugar.
A própria Gyokuyou, porém, mostrou a língua de forma brincalhona e disse:
— Isso simplesmente não parece muito divertido.
Ela tinha tido tão poucas coisas para entretê-la desde que deixou o palácio interno. Sim, passar os dias com os filhos era agradável, e o Imperador demonstrava à sua Imperatriz todo o favor que podia, mas seu pedido mais recente ele havia recusado.
Se ao menos sua provadora de comida, Maomao, estivesse ali, talvez ela pudesse ajudá-la a passar o tempo. Gyokuyou tinha pouco mais de vinte anos; sua curiosidade juvenil permanecia intacta.
— Já que vou usar alguma coisa, então que seja algo interessante — disse ela, levantando-se da cadeira com um sorriso. Calmamente, ela pegou um item específico. As duas damas de companhia não perceberam o que ela havia pegado nem de onde.
— Hongniang, Yinghua — disse Gyokuyou.
— Sim, milady? Aconteceu alguma coisa? — responderam, aproximando-se. Ela lhes mostrou algumas pedras repousando sobre um pedaço de tecido. Três pedras, cristais altamente translúcidos, tão claros que era possível enxergar através deles.
— Eu não sabia que tínhamos pedras preciosas assim — disse Hongniang, confusa. Yinghua, porém, alternou o olhar entre Gyokuyou e os cristais, com os olhos arregalados. Gyokuyou percebeu o que ela estava pensando e piscou para ela, fazendo um sinal de positivo onde Hongniang não pudesse notar.
A Imperatriz foi até sua escrivaninha e pegou um pincel, desenhando um esboço simples. — Talvez possamos moldá-los assim — disse ela. Ela havia desenhado um grampo de cabelo que lembrava um pouco uma lanterna tradicional; o cristal ficaria encaixado dentro dele como se estivesse em uma pequena cesta. Ela entregou o cristal e o papel a Yinghua. — Vá pedir que façam isso para mim, Yinghua.
— Mas, Lady Gyokuyou, sou eu quem sempre faz esses pedidos para a senhora... — Hongniang começou a estender a mão para pegar os objetos, mas Gyokuyou a impediu.
— Certamente podemos dar algo para Yinghua fazer de vez em quando também. Tenho certeza de que ela entendeu o que eu quero.
— Tenho certeza de que sim, milady, mas... Lady Gyokuyou, o que está planejando?
A Imperatriz não respondeu imediatamente. Hongniang era perspicaz. Não havia se tornado chefe das damas de companhia por acaso, e conhecia muito bem o jeito de Gyokuyou, já que a acompanhava desde que a Imperatriz era uma menina. Assim como Hongniang conhecia Gyokuyou, Gyokuyou conhecia Hongniang.
— Não posso fazer você cuidar de todas as minhas tarefas para sempre, posso? — perguntou a Imperatriz. Ela baixou o olhar para o chão e então encarou Hongniang com uma expressão suplicante.
A expressão da outra mulher apenas se tornou mais firme.
— Enquanto eu for sua chefe das damas de companhia, Lady Gyokuyou, juro que cumprirei meu dever.
— Mas como você vai se casar desse jeito?
A palavra casar teve o efeito desejado. Hongniang pareceu tão chocada quanto alguém atingido por um trovão inesperado.
— C-C-Casar... — disse ela.
Hongniang ainda era vibrante e bonita, mas também já tinha ultrapassado bastante a idade média para o casamento. Enquanto a maioria das pessoas se casavam entre a metade da adolescência e o início dos vinte anos, Hongniang tinha agora trinta anos... mais dois. Tanto que, quando estavam no palácio interno, ela tentou arranjar um casamento com Gaoshun, mesmo acreditando que ele fosse um eunuco. Na verdade, ele não era um eunuco, mas já tinha uma esposa mais velha e dominadora. Ao descobrir isso, Hongniang abandonou imediatamente qualquer interesse nele.
[Kessel: Ih! Gaoshun e Hongniang juntos… acho que até combinariam. Mas eu jamais trocaria a Taomei! Vocês vão conhecer ela no próximo volume… hehe!]
— Você sempre quer cuidar de tudo sozinha. O que vou fazer se um dia você partir? Preciso que algumas das minhas outras damas adquiram experiência.
A competência excessiva de Hongniang também afastava os membros mais injustos do sexo oposto. Quando Gyokuyou entrou no palácio interno aos quatorze anos, Hongniang veio com ela. O palácio interno era um antro de intrigas perigosas demais para uma jovem conseguir se virar sozinha; ela precisava de acompanhantes capazes. Gyokuyou também havia sido acompanhada por várias outras mulheres que a serviam havia muito tempo, mas quando se tornou companheira de leito de Sua Majestade e atentados contra sua vida passaram a ser uma possibilidade real, e depois uma realidade, suas servas retornaram para casa uma após a outra. Algumas se casaram, mas outras ficaram incapacitadas depois de provar sua comida.
Por fim, restaram apenas Hongniang, Yinghua, Guiyuan e Ailan, e as três últimas eram jovens e inexperientes. Gyokuyou conseguia entender por que Hongniang sentia que precisava cuidar de tudo.
Uma ama de leite foi contratada temporariamente após o nascimento da Princesa Lingli, mas Gyokuyou ainda assim não aceitou novas damas de companhia. Tendo sido criada em uma terra de areias sopradas pelo vento e sem jamais ter certeza de quem era amigo ou inimigo, ela preferia continuar cercada pelas pessoas que já conhecia.
Foi no meio de tudo isso que Maomao apareceu. As coisas eram tão divertidas quando ela estava por perto. Gyokuyou poderia facilmente se perder nas lembranças, mas sabia que não havia tempo para nostalgia. No momento, precisava concentrar toda a sua energia em despistar Hongniang, nem que fosse apenas para ganhar tempo.
[Kessel: Sempre me emociona um pouco ver o quão querida a Maomao é pela Gyokuyou. Sabemos que a Maomao jamais se contentaria em uma vida de dama de companhia, mas elas combinaram tão bem!]
— Meu pai comentou comigo que simplesmente precisamos encontrar um excelente pretendente para você, Hongniang.
— O Mestre Gyokuen disse isso? — perguntou Hongniang, visivelmente emocionada.
Não era exatamente mentira. O pai de Gyokuyou havia comentado: — Se aquela Hongniang tivesse um filho, ele iria longe neste mundo, fosse menino ou menina. — Já seria tarde demais para que tal criança se tornasse irmã de leite de alguém, mas sem dúvida teria um futuro promissor.
— Tenho mais damas de companhia do que antes — acrescentou Gyokuyou. — Você não precisa carregar tudo nos ombros. — Após o nascimento do Príncipe Herdeiro, mais três jovens vieram da terra natal de Gyokuyou para servi-la. — Eu entendo suas preocupações. Para uma mulher, isto ainda é um campo de batalha, mesmo que não seja tão ruim quanto o palácio interno. Nenhuma de nós sabe o que pode acontecer. Mas você não está mais sozinha. Precisa começar a pensar no seu próprio futuro e viver por si mesma.
Francamente, Gyokuyou impressionou até a si mesma com a fluidez daquele pequeno sermão. Com uma língua tão afiada, talvez até conseguisse sobreviver a essa guerra entre mulheres.
— Lady Gyokuyou... Eu não fazia ideia de que a senhora se sentia assim a meu respeito... — Os olhos de Hongniang estavam cheios de lágrimas. — Muito bem. Vou chamar Ailan e Guiyuan. Embora eu questione quantas das minhas responsabilidades aquelas garotas realmente serão capazes de assumir.
Hongniang saiu da sala apressadamente, de repente totalmente convencida pelo raciocínio de Gyokuyou. Suas bochechas estavam tão coradas quanto as de uma jovem vivendo os primeiros sentimentos do amor.
Sozinha na sala, Gyokuyou voltou a pegar seu pincel de escrita. Ela não pretendia deixar que aquilo fosse apenas uma simples brincadeira. Escreveria para seu pai, que agora estava na capital, para perguntar se ele conhecia algum bom pretendente.
— Lady Gyokuyou?
Ela ficou tão surpresa com o reaparecimento de Hongniang que quase deixou o pincel cair.
— Sim? Aconteceu alguma coisa? — perguntou ela. Ela tentou parecer tranquila e serena enquanto observava Hongniang. O rosto de sua chefe das damas de companhia estava repentinamente pálido, e Koku-u estava do lado de fora com as bochechas igualmente sem cor.
— Isto... Isto é para a senhora — disse Hongniang, estendendo uma carta. Ela estava cuidadosamente dobrada e selada com cera. O selo trazia a impressão de uma papoula-comum, mas estava desgastado, sinal de quão longe a carta havia viajado. Gyokuyou reconheceu imediatamente a insígnia, teria reconhecido o remetente mesmo que não houvesse nome algum nela.
— É... É do meu irmão mais velho — disse ela. As palavras que haviam saído com tanta facilidade poucos minutos antes agora pareciam pesadas e difíceis. Seu irmão mais velho era filho da esposa legítima de seu pai. A própria mãe de Gyokuyou havia sido uma dançarina que se apresentava na capital do oeste quando Gyokuen a viu e se apaixonou por ela. Algum tempo depois, ela deu à luz Gyokuyou; a Imperatriz herdou os cabelos vermelhos e os olhos de jade da mãe.
[Kessel: Então o prólogo é realmente sobre ela!]
Entre Gyokuyou e seu irmão havia mais de vinte anos de diferença de idade, sendo mais próximos de sobrinha e tio do que de irmã e irmão. Não havia nenhum calor familiar entre eles.
— Filha de estrangeira!
Quando Gyokuyou foi capaz de compreender o significado dessas palavras, já havia aprendido a fugir para longe do irmão. Ainda assim, parecia que nunca conseguia escapar dos filhos dele. Naturalmente, as crianças imitavam o desprezo aberto do pai. O que mais ela podia fazer além de rir? Ela erguia os cantos da boca e gargalhava, não importava o que fizessem com ela. Chorar apenas lhes daria mais prazer, e se ficasse zangada, eles inverteriam a situação e diriam que ela havia sido cruel com eles. Tudo o que podia fazer era rir de qualquer coisa que lhe fizessem.
Quando seu pai ordenou que ela entrasse no palácio interno do recém-entronizado Imperador, Gyokuyou viu sua oportunidade. Uma oportunidade de ir para um lugar onde seu irmão e os filhos dele não poderiam alcançá-la, onde havia todo tipo de coisa divertida para aproveitar. Sim, ela ficou triste por deixar sua casa, mas também sentiu muita felicidade.
Gyokuyou rompeu o selo da carta, ou melhor, terminou o trabalho que o tempo e os elementos já haviam começado. A carta estava escrita em uma caligrafia fluida e elegante, algo incomum para seu irmão.
— O que ele diz? — perguntou Hongniang, com o rosto tomado pela preocupação.
Gyokuyou ergueu os cantos da boca e forçou o coração a parar de bater tão rápido. Sorria, disse a si mesma. Ria.
— Ele começa com um comentário perfeitamente comum sobre o clima. Pelo menos sabe demonstrar um mínimo de respeito. — Ela tinha certeza de que ele escreveu aquilo cerrando os dentes. Sabia muito bem o quanto ele desprezava essa filha de uma concubina estrangeira.
Com seu pai, Gyokuen, nas regiões centrais, sem dúvida o irmão de Gyokuyou estava tratando a capital do oeste como seu feudo particular. Havia grandes chances de que Gyokuen simplesmente permanecesse ali, e seu irmão assumisse a administração de sua terra natal.
Gyokuyou também tinha vários outros irmãos mais velhos, mas apenas o primogênito demonstrava esse desejo de ascender cada vez mais. Foi por isso que seu pai solicitou alguém da capital para auxiliá-lo. Ela ouviu dizer que um dos homens do Grande Comandante Kan havia sido enviado. Quando ela descobriu pela primeira vez que o Grande Comandante era o pai de Maomao, ficou chocada, mas, pensando bem, talvez nem tanto.
Enquanto lia a carta do irmão, percebeu indícios de uma nova ambição.
— Ele diz que deseja enviar a filha dele para o palácio interno — contou a Hongniang. Isso significava sua sobrinha. Diziam que a garota tinha dezesseis anos, mas Gyokuyou não se lembrava de seu irmão ter uma filha dessa idade. Devia ser filha de alguma concubina ou então uma jovem adotada de algum lugar. Um pequeno retrato dela foi incluído na carta. O que teria motivado seu irmão a fazer isso?
Gyokuyou observou a imagem em silêncio por um momento. Então, sem dizer uma única palavra, rasgou-a em pedaços. Ela sabia perfeitamente que não era culpa da garota estar sendo enviada ao palácio interno, mas a intenção de seu irmão era transparente, e aquilo a enojava.
O retrato mostrava uma jovem de cabelos vermelhos e olhos verdes. As marcas de uma criança de sangue estrangeiro. Exatamente o tipo de pessoa que seu irmão tanto odiava.
[Kessel: Filho da… lembram-se do GEPL? O Grande Exército de Proteção à Lishu? Parece que estamos próximos de convocar um novo exército… o GEPI. O Grande Exército de Proteção à Imperatriz.]
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Atenciosamente,
Scan Moonlight Valley
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