Diários de uma ApotecáriaVolume 8 – Capítulo 13 – Capítulo 13: O Ladrão de Grampos de Cabelo
Capítulo 8.13O frango realmente ficou crocante por fora e macio e suculento por dentro. Só de lembrar disso já era o bastante para fazer Maomao salivar.
Aquele foi um jantar delicioso, pensou ela, deixando a mente vagar até a refeição do dia anterior enquanto trabalhava. Ela moeu algumas ervas em um almofariz e engoliu a saliva.
Maomao se considerava uma cozinheira razoável, mas tinha que admitir que não chegava nem perto de En’en na cozinha. En’en havia mencionado de passagem certa vez que seu irmão mais velho era um chef profissional, mas ela mesma também era muito habilidosa quando se tratava de preparar comida. A pele do frango tinha sido grelhada à perfeição, escondendo sob ela uma carne rosada e macia. Quando Maomao deu uma mordida, sucos quentes explodiram em sua boca. O prato tinha sido temperado com sal e um pó preto crocante que parecia ser, de todas as coisas, pimenta! En’en não economizava quando se tratava de alimentar Yao; Maomao achava que a maior parte do salário dela devia ir para comida. E, com Maomao participando de tantas refeições delas ultimamente, certamente aquilo não estava ficando mais barato.
Maomao parou. Ao pensar nisso dessa forma, percebeu que talvez devesse ao menos contribuir com algum dinheiro para a alimentação. Ainda era muito melhor do que comer em algum restaurante barato por aí; talvez pudesse pelo menos ajudar a pagar os ingredientes.
— Hum, certo — disse ela, assentindo para si mesma.
Yao apareceu ao lado dela.
— Por que você está balançando a cabeça? O Dr. Liu está chamando você.
— Ah, certo — respondeu ela, limpando o almofariz e as ervas.
— Eu posso cuidar disso. Vá logo. O que você aprontou dessa vez?
— Nada ainda.
Nada mesmo, por enquanto. A expressão de Yao sugeria que a pergunta era sua versão de uma piada, embora uma um tanto provocativa. Maomao tinha muito mais experiência como apotecária do que Yao ou En’en, então frequentemente recebia tarefas que as outras duas não recebiam. Era comum que a mandassem sair para coletar ingredientes, por exemplo. A diferença entre as atribuições delas incomodava Yao, daí seu humor sarcástico.
Mas ela amoleceu bastante desde que nos conhecemos, pensou Maomao. Será que Yao tinha mudado ou era apenas Maomao que a enxergava de forma diferente agora?
[Noelle: Continua chata…] | [Kessel: :( … Hater!]
Ela foi até a sala onde o médico a aguardava.
— O senhor precisa de mim, doutor Liu?
— Hum... Aqui.
Ele lhe entregou uma carta selada com cera e marcada com um selo familiar.
Imperatriz Gyokuyou...
Provavelmente havia outras maneiras de fazer uma carta chegar até ela, pelo menos em circunstâncias normais. O fato de estar nas mãos do doutor Liu sugeria que se tratava de algo urgente.
— Sua presença foi requisitada no palácio dela imediatamente — disse ele. A carta dizia praticamente a mesma coisa; não continha nenhum detalhe.
— Muito bem, — disse ela. — Vou procurar Luomen e...
— Não. Apenas você.
Ela não entendeu. Um eunuco como seu velho deveria ser perfeitamente qualificado para examinar a Imperatriz. Por que apenas ela?
— Vejo que tem perguntas. Mas você sabe quem enviou essa carta e sabe o que ela quer. Não há nada que eu possa acrescentar. Não perca tempo; vá logo.
O doutor Liu também parecia ter suas próprias reservas, mas estavam lidando com a Imperatriz. Nem mesmo um médico-chefe poderia discutir com ela.
— Sim, senhor — respondeu Maomao e então, como lhe foi ordenado, ela partiu.
Ela foi levada do consultório médico ao palácio de Gyokuyou em uma carruagem. Ela não sairia dos terrenos do palácio, mas seria inadequado simplesmente caminhar entre a Corte Externa e a Corte Interna. Ela passou por uma série de portões e finalmente chegou ao pavilhão da Imperatriz.
A residência de Gyokuyou no palácio interno já era extremamente luxuosa, mas tinha sido ofuscada por sua moradia atual. A residência da Imperatriz devia ter pelo menos o triplo do tamanho que da Concubina Preciosa. Maomao desceu da carruagem e parou diante da porta, que foi aberta por uma mulher esguia e bonita.
Haku-u, pensou Maomao. Elas tinham servido juntas no Pavilhão Jade, ainda que por pouco tempo. Haku-u era uma das três damas de companhia vindas da cidade natal de Gyokuyou, um trio de irmãs com um ano de diferença entre cada uma. Como eram muito parecidas, elas usavam acessórios de cores diferentes para ajudar as pessoas a distingui-las. O laço branco no cabelo daquela jovem lembrava a todos que ela era Haku-u, cujo nome significa “Pena Branca”. As outras eram Seki-u e Koku-u, embora Maomao tivesse tido pouco contato com elas, exceto com a mais nova, Seki-u.
— Faz tempo — disse Haku-u. Normalmente Maomao era recebida por Yinghua e suas companheiras, e não tinha visto Haku-u nem suas irmãs na última vez em que esteve ali para as inspeções. — Estávamos esperando por você. Por favor, venha por aqui. — Ela adotou o tom que alguém empregaria com uma desconhecida. Diferentemente do trio falante formado por Yinghua e as outras, as três irmãs eram mais reservadas, ou talvez fosse melhor dizer mais maduras. De qualquer forma, Maomao entendeu a mensagem: não há necessidade de cumprimentos, apenas entre.
Maomao estava acostumada a ver Yinghua, Guiyuan e Ailan rondando ao seu redor quando chegava, mas naquele dia estava tudo silencioso.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou ela. Ela já estava desconfiada desde o momento em que foi convocada para ir até ali sozinha.
Haku-u apenas a conduziu até a sala de recepção e disse: — Aqui. Você pode perguntar diretamente a Sua Majestade. — Então foi embora.
Maomao entrou na sala e encontrou Gyokuyou sentada em um sofá, com Hongniang ao lado dela. Maomao fez uma reverência lenta e respeitosa.
— Já faz um bom tempo — disse Gyokuyou, acenando para ela em resposta.
— Sim, senhora. Lamento que tenha passado tanto tempo.
Na verdade, fazia apenas cerca de um mês desde o exame médico; não era tanto tempo assim.
— Tem alguma ideia do motivo pelo qual mandei chamá-la? — perguntou a Imperatriz.
Maomao balançou a cabeça. Gyokuyou parecia mais contida do que o habitual; o brilho travesso em seus olhos havia desaparecido.
Aquela expressão, pensou Maomao. Ela se lembrava daquela expressão. Era a mesma que Gyokuyou tinha na primeira vez que Maomao a viu, quando ela confrontou a Concubina Lihua por causa da misteriosa doença que ameaçava os filhos de ambas. Uma expressão de ansiedade.
— Ficar rodeando o assunto não ajudará ninguém. Melhor explicar tudo de uma vez. Não concorda, Hongniang? — disse Gyokuyou, voltando-se para sua dama de companhia-chefe.
Hongniang colocou sobre a mesa algo embrulhado em tecido. Ela desfez o embrulho e revelou um grampo de cabelo de prata trabalhado com um desenho intrigante: na ponta havia um pingente que lembrava uma lanterna ou uma pequena cesta. Era uma peça esculpida com riqueza de detalhes, obra de um verdadeiro mestre.
Mas há algumas manchas escuras, observou Maomao. A prata oxidava rapidamente, e as manchas faziam o adorno parecer apenas metade do que deveria ser. O trabalho de escultura em si era espetacular, mas, ao olhar a peça como um todo, ela parecia estranhamente incompleta, desigual ou inconsistente. Como se faltasse algo, alguma parte essencial.
Não é realmente... bonito o bastante para uma imperatriz usar. Maomao lançou um olhar intrigado ao grampo.
— O que é isso, milady?
— Foi isso que eu usei na festa do jardim — respondeu Gyokuyou.
— Usou, senhora? — perguntou Maomao franzindo a testa. Gyokuyou tinha usado aquilo em público? Parecia improvável. Principalmente porque Hongniang jamais teria permitido.
— Sei o que está pensando. Não, a Imperatriz jamais teria usado isso na festa se estivesse assim — interrompeu Hongniang.
Eu devia ter imaginado. Se até Maomao conseguia perceber que faltava algo ao acessório, então Hongniang, muito mais perceptiva, e muito menos contida, certamente não teria ficado calada a respeito disso. Maomao se perguntou que roupa Gyokuyou estava usando para combinar com esse acessório.
— Pedimos ao artesão que fizesse isso em pouco tempo, mas era uma peça excelente. Agora ela tem essas manchas escuras, mas estava impecável quando a recebemos. E havia um enfeite dentro desse pingente. Algo com cerca de metade do tamanho dessa pequena cesta.
— Um enfeite? — perguntou Maomao. Talvez algum tipo de pedra preciosa. Certamente ficaria impressionante ali. Talvez até produzisse um som delicado, como um sino, quando a Imperatriz caminhasse. — Se me permite dizer, não parece mais estar aí. — A trama da pequena cesta era fina o bastante para que ela duvidasse que a pedra simplesmente tivesse caído.
— Eu estava usando isso com meu primeiro traje na festa do jardim — disse Gyokuyou. — Saí do meu lugar pouco antes do meio-dia para trocar de roupa, e foi quando descobri que o enfeite tinha desaparecido.
Maomao não respondeu imediatamente. Não houve troca de roupas durante a festa do jardim no palácio interno. De qualquer forma, não havia tantas pessoas que pudessem se aproximar das damas de alta posição. Talvez apenas suas acompanhantes.
— Será que alguma das damas de companhia ao seu redor teve dedos leves? — arriscou Maomao. Claro, não uma das próprias servas da Imperatriz Gyokuyou, mas talvez uma das mulheres que tinham vindo servir a refeição.
Gyokuyou balançou a cabeça, mas foi Hongniang quem respondeu.
— Francamente, estaríamos menos preocupadas se simplesmente tivesse sido roubado. Mas este grampo de cabelo está entre alguns presentes oferecidos a Sua Majestade hoje.
Se tivessem muita sorte, isso significaria apenas que o ladrão teve um ataque de consciência e decidiu devolvê-lo. Mas, nesse caso, a própria ladra precisaria ter muita sorte para conseguir colocar o objeto entre os tributos destinados à Imperatriz.
Pouco provável, não é?
O que significava que aquilo era uma ameaça. Posso me aproximar de você, dizia a mensagem. Posso até mesmo introduzir coisas escondidas dentro do seu palácio.
Como concubina no Palácio Interno, Gyokuyou já tinha sido alvo de mais de uma tentativa de envenenamento por outras mulheres. Agora ela era a mãe do Príncipe Herdeiro e vivia em seu próprio palácio. Isso deveria tê-la afastado ainda mais do perigo, mas então isso acontece...
— Você pode voltar quando quiser.
Era uma oferta que Maomao já tinha recebido mais de uma vez, um convite para voltar a trabalhar para Gyokuyou. Só agora ela percebeu, um pouco tarde, que não era apenas a familiaridade pessoal que tinha levado a Imperatriz a fazer aquela sugestão.
— Maomao... Você acha que conseguiria encontrar o culpado? — perguntou a Imperatriz Gyokuyou. Havia um sorriso em seu rosto, mas era um sorriso inseguro, e suas mãos tremiam visivelmente.
[Kessel: Apotecárias e Apotecários, o Grande Exército de Proteção à Imperatriz está convocado. Alistem-se já nos comentários, agradecemos de antemão!]
Maomao sempre considerou Gyokuyou uma pessoa tão despreocupada. No Palácio Interno, qualquer mulher que desfrutasse do afeto imperial de Sua Majestade estava sujeita às represálias mais cruéis de suas rivais, mas Gyokuyou nunca deixava de sorrir. Ela mantinha uma curiosidade quase infantil pelo mundo que, combinada com sua força de caráter, fazia Maomao acreditar que ela ficaria perfeitamente bem sem sua ajuda.
Mas talvez eu estivesse errada. Ela podia ser a Imperatriz, a mãe da nação, mas ainda era um ser humano.
Maomao estava em um quarto do palácio da Imperatriz, observando o grampo de cabelo. Já era tarde quando terminaram a conversa, então ela recebeu ordens para passar a noite ali. Disseram-lhe que seu dormitório já havia sido informado. Enquanto isso, o jantar foi servido em seu quarto.
Ela ainda estava um pouco surpresa. Seu dormitório ficava a menos de trinta minutos dali. Ficar fora uma noite toda era uma coisa, mas uma pessoa de fora pernoitar no palácio da Imperatriz devia causar um enorme alvoroço.
Acho que ela não vai se sentir segura até descobrir o que aconteceu com esse grampo de cabelo. Ainda assim, será que realmente não havia ninguém além de Maomao a quem a Imperatriz pudesse confiar esse assunto? Ou havia outra razão?
Maomao sentou-se na cama do quarto que havia sido preparado para ela e cruzou os braços.
Prata manchada...
A prata corroía facilmente; bastava descuidar dela para que perdesse o brilho. Era preciso polir o metal constantemente. Ainda assim, a nobreza gostava de usar utensílios de prata, ou, mais precisamente, precisava usá-los. Afinal, a prata também escurecia quando exposta ao arsênico. O arsênico não tinha sabor, cheiro nem cor, mas graças a essa propriedade singular da prata era fácil detectá-lo. Pode-se dizer que pessoas em posições elevadas não podiam se dar ao luxo de não utilizá-la.
Será que a Imperatriz Gyokuyou havia sido exposta ao arsênico de alguma forma? Não, era improvável: apesar de seu mau humor, ela parecia gozar de boa saúde física. Não apresentava sinais de ter sido envenenada. Mas, então, o que havia acontecido com o grampo de cabelo?
Talvez ele tenha se corroído depois de ser roubado? Suponha que alguém tenha tentado envenenar a Imperatriz e falhado, então roubou o grampo de cabelo para chantageá-la. Não, decidiu Maomao. Muito complicado. Se havia alguma intenção por trás disso, Maomao não conseguia entender qual seria. O que o ladrão poderia estar buscando?
Havia outra coisa que também a incomodava.
— Não há sinais de que tenha sido aberto à força. — Hongniang tinha dito que havia um grande cristal dentro dele, mas agora não havia sinal algum da pedra.
Um cristal...
Maomao sacudiu o grampo delicadamente. Não era como se ela esperasse que a pedra caísse de alguma fenda escondida, mas, para sua surpresa, um pequeno grânulo branco caiu sobre sua saia.
— O que é isso? — Ela o pegou e olhou com os olhos semicerrados. Tentou cheirá-lo. De forma silenciosa buscou um pouco de água e um pano de mão, então colocou a partícula sobre a língua. — Ei. Isto é… — Ela mal tinha acabado de sentir o gosto quando alguém bateu à porta.
— Maomao? Tem um minuto? — Era Yinghua, de todas as pessoas.
— Sim? O que foi?
Normalmente, Yinghua apareceria para conversar ou fofocar, mas hoje ela não parecia estar nesse clima. Mesmo assim, Maomao ficou feliz em vê-la; havia algo que ela queria perguntar.
— S-Sobre o grampo de cabelo... — disse Yinghua. Ela parecia desconfortável, mas para Maomao o momento não podia ser mais perfeito.
— O ‘cristal’ que estava incrustado nesse grampo de cabelo. Será que há alguma chance… — Ela se lembrou de algo que tinha feito quando servia no Pavilhão Jade. — Era um cristal de sal?
Pedaços brancos, salgados ao paladar. Ela tinha produzido alguns de tamanho considerável enquanto trabalhava no Pavilhão de Jade e presenteado a então Concubina Gyokuyou com os melhores exemplares. Quem não soubesse do que eram feitos juraria que eram cristais de verdade. Ela tinha mantido aquilo em segredo de Hongniang, então a chefe das damas de companhia não sabia de nada.
Yinghua pareceu surpresa por um instante, mas então assentiu.
— Muito bem, Maomao. Estou impressionada que tenha descoberto.
— Então eu estava certa. — Ela pegou o grampo com o pano e o sacudiu novamente. — O que eu não entendo é por que colocar um pedaço de sal em um grampo de cabelo. Era inevitável que acabasse se desfazendo e caindo. Quando ela entregou os cristais de sal, Maomao avisou Gyokuyou de que eles derreteriam se fossem guardados em lugares úmidos. Ela também lhe deu carvão para agir como dessecante, mas o sal continuava sendo sal, por mais bonito que parecesse.
— Lady Gyokuyou anda tão entediada ultimamente. Achou que pelo menos poderia se divertir um pouco na festa do jardim.
Então a própria Imperatriz Gyokuyou tinha sido a mente por trás daquilo. Naturalmente, ela não contou nada à sua correta chefe das damas de companhia. Maomao entendia perfeitamente por que Yinghua parecia tão constrangida.
— E o que ela pretendia fazer se o cristal quebrasse durante a festa do jardim?
Esses eventos eram ocasiões em que as mulheres avaliavam umas às outras dos fios de cabelo até a ponta dos pés. Quando Maomao ainda estava no Palácio Interno, muitas concubinas de posição média e baixa imitavam tudo o que Gyokuyou fazia na esperança de atrair a atenção do Imperador. Sem dúvida muitas ainda fazem isso. Um ornamento vazio em seu grampo seria humilhante.
— Foi por isso que ela planejou trocar de roupa. Ela achou que o cristal duraria pela hora necessária antes de trocar de traje.
O formato de lanterna do grampo era marcante e incomum; inevitavelmente chamaria a atenção de todos. Todos perguntariam que pedra era aquela. Especialmente as mulheres que ajudavam no banquete: não eram apenas as damas do Palácio Interno que buscavam conquistar o afeto de Sua Majestade.
Talvez Gyokuyou tivesse se divertido confundindo as pessoas ao redor, sabendo que todas estavam se perguntando que tipo de pedra ela usava e onde a encontrou. Ou talvez ela apreciasse a emoção de não saber exatamente o que faria se a “pedra” se quebrasse enquanto ainda estivesse cercada por aquela companhia distinta e cruel. Era algo muito característico de Gyokuyou, Maomao tinha que admitir. Mas também era perigoso.
Será que foi a dama de companhia encarregada de vigiar os grampos quem o pegou? Perguntou-se Maomao. Era perfeitamente possível. Se tudo o que a mulher tinha feito fosse roubá-lo e depois, tomada pelo remorso ou pelo medo, devolvê-lo, sinceramente seria um alívio. Mas o grampo não era algo tão simples de devolver.
— Você se importaria se eu perguntasse como estava o ambiente na festa do jardim? — disse Maomao a Yinghua.
— Não tenho certeza do que quer dizer.
— Quero dizer a disposição dos assentos, por exemplo, e como as coisas estavam nos bastidores.
— Entendi. — Yinghua saiu do quarto e voltou com papel e materiais de escrita. Então fez rapidamente um esboço do banquete. — Este era o centro da festa, onde estava Sua Majestade. À esquerda dele estavam a Imperatriz Viúva e Mestre Jin… quero dizer, o Príncipe da Lua. Lady Gyokuyou estava à direita. Mestre Gyokuen estava um pouco mais distante. Tecnicamente ele ainda é apenas um governador regional, então recebeu um lugar equivalente ao de um primeiro-ministro.
Um governador regional… em outras palavras, alguém que governava uma das províncias. Na prática, Gyokuen administrava toda a região oeste de Li, tendo como centro a Capital do Oeste. (Então pelo menos um pouco daquele estudo ficou na cabeça de Maomao.) O assento de primeiro-ministro estava atualmente vago. Havia quem esperasse que Jinshi o ocupasse agora que Shishou não estava mais no cargo, mas ele havia recebido um título diferente.
A disposição dos lugares era bastante razoável, considerando que um dos principais objetivos da festa era conceder um nome a Gyokuen. O que, naturalmente, viria acompanhado de um aumento em seu prestígio.
— E onde Lady Gyokuyou foi trocar de roupa?
— Como o banquete aconteceu perto do palácio dela desta vez, ela simplesmente foi até lá. — Também havia um banheiro ali, o que tornava tudo mais conveniente para as damas. — Mas isso deixou a cozinha bem mais longe. Eu sei que a comida sempre esfria, mas deve ter sido ainda pior ter que carregar tanta comida por uma distância tão grande.
Maomao sabia que os pratos sempre esfriavam durante o processo de verificação contra venenos. Ela sempre achava um desperdício ver sabores tão refinados se perderem com o frio.
— Colocaram um grande caldeirão aqui, perto do palácio — disse Yinghua, fazendo uma marca em seu mapa.
Maomao o estudou por um instante. — Havia algum guarda vigiando?
— Acho que não. Provavelmente era a comida destinada às pessoas sem assento. A comida daqueles cujas refeições precisavam passar pela inspeção contra venenos ficava em outro lugar.
— E o grampo desapareceu enquanto esse caldeirão estava ali?
— Sim, exatamente. Bem no meio da refeição. Fui chamada para resolver uma coisa, então deixei Lady Gyokuyou sozinha por um tempo, mas quando voltei todos estavam em pânico por causa do grampo.
Ahh, então é isso que está acontecendo aqui. Maomao olhou para o grampo de cabelo. Agora tudo fazia sentido. Ela sabia de onde vinham as manchas.
— Parece que você tem uma ideia, Maomao.
— Parece?
— Parece sim! O que foi? Me conta!
Aquele era um pedido complicado. Ela ainda não podia provar nada; até então, eram todas suposições.
— Ainda não tenho informações suficientes.
— Claro que tem! Me conta! — Yinghua insistiu.
Maomao soltou um gemido, mas sabia que continuar recusando não faria Yinghua desistir.
— Está bem, está bem — cedeu ela. — Mas antes quero confirmar mais uma coisa.
— O quê? Eu quero saber o que está acontecendo! Agora mesmo!
— Receio que tenha que esperar. Não quero dizer algo errado e acabar confundindo a Imperatriz.
Yinghua estufou as bochechas, mas foi obrigada a aceitar.
— Você sabe quem estava no palácio naquele momento? Não importa se não se lembra de todos. Só me diga aqueles de quem você tem certeza.
— Certo, então...
Ela começou a listar nomes, e Maomao anotou todos.
Talvez fosse exagero dizer que tinha resolvido o mistério, mas ela já tinha uma boa ideia de para onde o grampo havia desaparecido.
Embora isso traga um problema completamente diferente.
Entre as informações que Yinghua havia lhe dado e as próprias deduções de Maomao, tudo apontava para uma direção muito suspeita. Ela queria tranquilizar a Imperatriz Gyokuyou, mas não tinha certeza se deveria contar toda a verdade. Temia que isso apenas a deixasse ainda mais abalada.
Como vou contar para ela? Maomao ainda refletia sobre a questão quando alguém bateu à sua porta. Quem será desta vez? Ela abriu a porta e encontrou Haku-u. — O que foi? — perguntou Maomao.
— Está um pouco frio. Achei que você pudesse estar com frio, então trouxe um cobertor extra — disse Haku-u.
— Muito obrigada. Daqui para frente eu mesma cuido disso.
— Não. Hoje você é uma convidada. — Haku-u mostrou ser tão diligente quanto parecia, entrando no quarto e certificando-se de que o cobertor estava perfeitamente arrumado na cama de Maomao. Maomao ficou ao lado da janela observando, sentindo-se um pouco estranha. Ela espiou por entre as ripas da janela e viu que estava nevando. — Acho que realmente está frio. — disse ela.
Em seguida, Haku-u colocou mais carvão no braseiro. — Gostaria de algum incenso? — perguntou.
— Não, obrigada.
Haku-u era claramente muito boa no que fazia, mas Maomao não sentia que houvesse qualquer necessidade especial dela fazer tudo por ela. Pelo que se lembrava, Gyokuyou conhecia Haku-u desde a juventude na Capital Ocidental. Ela não estava ali há muito tempo, mas Yinghua e as outras mulheres que Maomao conhecia desde seus dias no Pavilhão Jade pareciam respeitá-la.
Ela poderia ter enviado alguém um pouco mais abaixo na hierarquia.
— Certamente não. Você é uma visitante importante demais. Não correríamos o risco de fazer algo de forma inadequada — disse Haku-u. Ops. Será que Maomao falou isso em voz alta? Ela cerrou os lábios com força para impedir que qualquer outra coisa escapasse.
Essas pessoas não fazem muito sentido para mim, pensou Maomao. Exceto por Seki-u, a mais nova, Maomao não tinha uma noção clara de como as irmãs eram como pessoas. Ela as tinha visto provocando a irmã caçula, mas apenas um pouco. Maomao observou Haku-u trabalhar em silêncio por mais alguns instantes, então tirou as anotações que havia feito durante sua conversa com Yinghua. Ficou feliz por tê-las mantido por perto; não gostaria que Haku-u começasse a fazer perguntas caso as tivesse notado.
Maomao decidiu dormir cedo naquela noite, mas seu coração estava acelerado.
Dormir não é muito restaurador quando se tem algo ocupando a mente. Maomao esfregou os olhos cansados e se sentou. Ela ficou feliz por Haku-u ter trazido o cobertor extra; sua respiração formava névoa no ar da manhã e suas orelhas estavam vermelhas. Quando abriu a janela, viu que a neve havia se acumulado no chão do lado de fora. Ela estremeceu enquanto se trocava para suas roupas do dia e, mal terminou de se vestir, ouviu uma voz vindo do corredor.
— Maomao! Vamos tomar café da manhã! — Era Yinghua, com seu bom humor matutino.
Maomao decidiu aceitar o convite. Guiyuan e Ailan também estavam tomando café da manhã. Guiyuan não parecia ter mudado muito, exceto talvez por estar um pouco mais rechonchuda do que antes; ela continuava gentil e tranquila. Ailan parecia ter continuado crescendo, pois Maomao precisou erguer ainda mais a cabeça do que de costume para encontrar seus olhos. Era o bastante para despertar inveja na Maomao de baixa estatura. Ainda assim, ela não conseguiu evitar um pequeno sorriso ao se ver novamente entre rostos tão familiares.
[Kessel: Que gracinha! Fico muito feliz em ver a Maomao confortável ao redor de suas amigas. Por mais que não sejam grandes amizades como a Xiaolan, Shisui, Yao e En’en (em construção…), ela sempre demonstra gostar da presença das damas de companhia da Gyokuyou…]
— O café da manhã está especialmente caprichado hoje — anunciou Yinghua. — Tem abalone seco!
— Uau! — exclamaram as outras em coro; até Maomao sentiu vontade de aplaudir. Talvez Yinghua tenha pegado o ingrediente dos restos separados para o jantar da Imperatriz Gyokuyou na noite anterior.
A sopa era simples, feita com um bom caldo e apenas um leve toque de sal. Com o abalone, porém, ficou extremamente saborosa. O arroz também era da melhor qualidade, demonstrando que, quando uma mulher se tornava Imperatriz, a alimentação de suas damas de companhia melhorava junto.
Enquanto as quatro conversavam, Maomao olhou ao redor. Percebendo sua inquietação, Guiyuan perguntou:
— O que houve?
— Nada demais. Mas as outras não tomam café da manhã? — Ela não via as irmãs "-u", nem as outras novas damas de companhia que Gyokuyou certamente havia reunido após se tornar Imperatriz.
— Ah! A senhorita Haku-u e as irmãs dela comem em outra sala, e as outras damas de companhia nem comem no palácio.
— É mesmo — acrescentou Ailan. — É uma pena. Seria uma boa oportunidade para conhecê-las melhor. Elas são sempre tão sérias quando estão trabalhando.
Acho que o problema é mais que vocês três são um pouco relaxadas demais... Ainda assim, isso tornava fácil conviver com elas.
Yinghua e suas companheiras serviam Gyokuyou havia muito tempo, desde seus dias como concubina no Palácio Interno, mas Haku-u conhecia a Imperatriz desde ainda antes disso, o que provavelmente explicava por que Guiyuan sentia a obrigação de tratá-la com tanta deferência. Talvez Haku-u não ocupasse uma posição tão alta quanto Hongniang, a chefe das damas de companhia, mas Maomao tinha a impressão de que ela ainda estava acima de Yinghua e das outras.
Talvez até mais do que da última vez que estive aqui. Yinghua e suas amigas eram conhecidas por enfrentar as damas de companhia de outras concubinas, mas apenas quando elas falavam mal de Gyokuyou. Haku-u e suas irmãs eram companheiras e colegas, e Maomao duvidava que Yinghua ou as outras garotas sentissem qualquer hostilidade verdadeira em relação a elas.
Falando em Yinghua, ela perguntou:
— Então, Maomao. Já sabe quem é o culpado?
— A situação é um pouco complicada — respondeu Maomao. Uma maneira elegante de evitar a pergunta. As outras pareceram desapontadas.
— Se ainda não descobriu, Maomao, você poderia voltar para cá — sugeriu Yinghua. — Talvez não consigamos convencê-los a deixar você vir apenas para fazer remédios e essas coisas, mas se houvesse algum motivo...
— É verdade — acrescentou Guiyuan. — Temos muito mais quartos do que tínhamos no Pavilhão Jade. E muitos fogões!
— Aposto que você conseguiria colocar as mãos em alguns remédios importados aqui — ofereceu Ailan.
Remédios importados! Maomao quase pulou da cadeira diante daquela possibilidade. Não! Maomao, comporte-se!
Ela tomou um gole de chá para se acalmar. — No momento estou aprendendo meu ofício com meu pai e os outros médicos. Não posso simplesmente trocar de trabalho. Imaginem o transtorno que isso causaria às pessoas com quem estou trabalhando.
Ela admitia livremente que a ideia de servir à Imperatriz Gyokuyou tinha seus atrativos. Mas entrar para o séquito da grande senhora traria problemas próprios.
Como aquele esquisitão.
E se o estrategista de monóculo começasse a rondar o palácio da Imperatriz? Na cabeça dele, estaria apenas tentando ver Maomao, mas não era isso que os observadores escandalizados enxergariam.
Era impensável que a Imperatriz Gyokuyou ainda não soubesse da relação entre Maomao e o estrategista, não era? Mais especificamente, que tudo aquilo existia apenas na imaginação dele e que os dois eram completos estranhos.
Para ser bem sincera, Maomao às vezes se perguntava se não havia ocorrido algum engano; se ela não seria filha de algum outro cliente da Casa Verdigris. Pelo menos era nisso que ela gostava de acreditar. Embora soubesse que as chances eram pequenas.
As coisas teriam sido muito mais fáceis se Gyokuyou simplesmente visse Maomao como uma peça útil a ser usada, mas ela realmente valorizava as habilidades de Maomao. Não posso simplesmente ignorá-la. Sem mencionar que os olhares de Yinghua, Guiyuan e Ailan estavam praticamente queimando um buraco nela naquele momento.
Ela ainda tentava decidir como escapar daquela situação quando uma jovem usando uma faixa vermelha no cabelo entrou na sala. Ela se parecia muito com Haku-u, mas seu rosto mostrava que era um pouco mais nova, aproximadamente da idade de Maomao. Era a mais jovem das três irmãs e a única com quem Maomao realmente tinha alguma familiaridade. Ela costumava entregar as cartas de Xiaolan para ela.
— O que foi, Seki-u? — perguntou Yinghua.
— A Imperatriz Gyokuyou está chamando Maomao — respondeu ela, sem dar mais explicações. Maomao terminou o café da manhã e pegou sua tigela.
— Não se preocupe, eu cuido disso. Pode deixar aí — disse Guiyuan, e Maomao assim fez.
— Mal posso esperar para saber quando você vai se juntar a nós! — gritou Yinghua, enquanto as três jovens acenavam para ela com entusiasmo. Maomao respondeu com uma reverência e foi encontrar a Imperatriz.
No aposento de Gyokuyou, Maomao encontrou não apenas Hongniang e Haku-u, mas também o príncipe e a princesa. A princesa estava espalhando uma infinidade de brinquedos ao redor do Príncipe Herdeiro, que em sua maior parte os ignorava. Talvez ela acreditasse que os dois estavam brincando juntos.
Quando Haku-u viu que Maomao havia chegado, pegou o Príncipe Herdeiro nos braços. — Seki-u, a princesa — disse ela.
— Sim, claro — respondeu Seki-u, pegando Lingli pela mão.
— Brincar mais! — disse a princesa. Ela devia ter cerca de três anos agora e claramente estava aprendendo a falar. Mas não parecia se lembrar de Maomao, observando seu rosto como se a estivesse vendo pela primeira vez. Maomao ficou um pouco desapontada com isso, mas era o que era. Ela acenou amigavelmente para a menina.
Haku-u estava prestes a sair carregando o príncipe nos braços quando Maomao, por impulso, segurou sua manga. — O que foi? — perguntou Haku-u, sua expressão revelando desagrado diante daquela falta de etiqueta.
— Poderia ficar aqui? — perguntou Maomao.
— Com que propósito?
— Gostaria que você ouvisse essa conversa.
A expressão de Haku-u não mudou, mas Hongniang saiu para o corredor e chamou Ailan, que por acaso passava por ali. — Cuide da criança, por favor — disse ela, pegando o príncipe dos braços de Haku-u e entregando-o a Ailan. O menino balbuciou e puxou os cabelos dela; com um sorriso forçado, Ailan o levou embora.
— Você tem alguma ideia em mente, Maomao? — perguntou a Imperatriz Gyokuyou.
Nem ela nem Hongniang disseram nada sobre a permanência de Haku-u no aposento. Pareciam achar que seria mais rápido simplesmente prosseguir com a conversa.
— Isto — disse Maomao, estendendo o grampo de cabelo da Imperatriz.
— Você descobriu quem esteve por trás do desaparecimento dele? — perguntou Gyokuyou.
— Receio que não, Vossa Majestade. Mas acredito que posso explicar por que ele ficou manchado e por que a pedra que havia dentro desapareceu.
— Está falando sério?
— Sim, senhora. — Maomao tirou o diagrama que Yinghua havia desenhado na noite anterior. — A senhora voltou ao seu palácio para trocar de roupa, correto? E foi enquanto fazia isso que percebeu que o grampo havia desaparecido.
— Isso mesmo. Infelizmente, não houve tempo para procurá-lo. Eu precisava me trocar.
Como eu pensei. O alvoroço não havia acontecido no momento em que o grampo desapareceu.
— A senhora pensou que talvez simplesmente o tivesse deixado cair, em vez de acreditar que havia sido roubado?
— Sim, eu estava com muita pressa. Um galho roçou minha cabeça quando passei por ele. Achei que talvez o grampo tivesse caído naquele momento.
— Isso teria sido por aqui? — perguntou Maomao, apontando para um local no diagrama.
— Sim, bem ali. Havia uma barraca bem no meu caminho e, quando tentei contorná-la, o galho me atingiu.
Uma estrutura de apoio. Em outras palavras, provavelmente o caldeirão de ensopado. Maomao lançou um olhar para Haku-u, mas a expressão da mulher permaneceu inalterada. Talvez eu esteja errada sobre isso, pensou. Mas, de qualquer forma, ter Haku-u ali tornaria as coisas mais rápidas.
— Para resumir a história, acredito que o grampo de cabelo não foi roubado… acho que simplesmente caiu — disse ela.
— O que quer dizer com isso? — perguntou Gyokuyou.
— Exatamente isso. Milady, a causa da sua preocupação é acreditar que o grampo foi roubado e depois devolvido como uma ameaça. — O grampo estava descolorido, a pedra havia desaparecido, como se dissesse: É isso que farei com você. Qualquer nobre que visse prata escurecida pensaria imediatamente em veneno.
— A senhora não se sentiria muito melhor se soubesse que nenhuma dessas coisas foi intencional?
— Suponho que sim...
— Além disso, Milady, estou errada ao pensar que a senhora tem alguma ideia do que aconteceu com a pedra?
A Imperatriz Gyokuyou enrolou uma mecha de cabelo no dedo. Seus olhos transbordavam emoção.
— Vá direto ao ponto, por favor! O que aconteceu com a pedra que estava no grampo? — exigiu Hongniang, incapaz de esperar mais.
— Imperatriz... A senhora ainda tem mais daquelas pedras? — perguntou Maomao.
— Acho que mais cedo ou mais tarde eu teria que contar a verdade — disse Gyokuyou, resignada. Ela se levantou e buscou uma pequena caixa em um canto do aposento. Ao abri-la, revelou um cristal translúcido de muitas facetas.
— Posso usar isto? — perguntou Maomao.
— Foi você quem me deu.
Maomao pegou o cristal com uma mão e uma jarra de água com a outra.
— Alguém poderia me trazer um recipiente?
Haku-u trouxe uma tigela. Maomao colocou o cristal dentro dela e então a encheu com água.
— Está... derretendo? — disse Hongniang.
— Talvez você queira experimentar um gole. Mas aviso desde já que pode se assustar. Porque isso é sal.
— Sal?! — Hongniang realmente não sabia. Se soubesse, jamais teria permitido que a Imperatriz usasse um falso cristal no grampo. — L-Lady Gyokuyou! O que significa isso?! — exclamou ela.
— H-Hee hee... Bem, era tão bonito. E ninguém percebeu, percebeu? — Um sorriso travesso surgiu no rosto da Imperatriz. Isso combinava muito mais com ela do que a ansiedade sombria que carregava antes.
— Eu nunca imaginei que o sal pudesse assumir uma forma tão bonita — disse Haku-u, observando o cristal se dissolver.
— Normalmente não assume. Escolhi aqueles que cristalizaram nas formas mais bonitas. Você coloca sal em água fervente, mas não demais, apenas o suficiente para que tudo se dissolva. Depois deixa esfriar. É preciso colocar algo pequeno dentro para servir de núcleo e então deixar a água evaporar. Repetindo o processo várias vezes, o cristal vai crescendo aos poucos. Acho que o mais importante é lembrar que a seda é o melhor material para o fio do qual ele fica pendurado.
— Maomao... Você fez isso enquanto estava no Pavilhão Jade? — perguntou Hongniang.
Maomao não respondeu. Hongniang não podia ficar zangada com ela agora, podia? O prazo para reclamar certamente já havia expirado.
— Certo, então a “pedra” se dissolveu. Ela desapareceu — disse Hongniang. — Mas e a prata descolorida?
— Muitas coisas podem fazer a prata perder o brilho — disse Maomao, desenhando um pequeno círculo em um canto do diagrama. — Ovos, por exemplo.
— Ovos?
As outras três mulheres a olharam, confusas.
— Isso mesmo. Conhecem o cheiro de um ovo podre?
As três balançaram a cabeça. Eram as criadas que retiravam o lixo; provavelmente nunca tinham sentido o odor da decomposição. Maomao decidiu tentar outra comparação.
— E ovos cozidos? Vocês conhecem aquele cheiro, não conhecem?
— Ah, esse eu conheço — disse Gyokuyou.
— É um aroma bem característico, mas existe outro lugar onde se sente exatamente o mesmo cheiro: em certas fontes termais.
— Ah! Sei do que está falando — disse a Imperatriz.
Ela provavelmente já havia tomado banho em uma fonte termal antes. Talvez tivesse passado por uma ou duas delas durante a viagem da Capital do Oeste até aquela cidade.
— Certas substâncias presentes nessas fontes contêm enxofre. Os ovos cozidos também contêm. Se você os comer usando talheres de prata, eles podem ficar manchados.
— Claro, é verdade — disse Hongniang, parecendo não acreditar que não tivesse pensado nisso antes.
Ela já tinha uma boa ideia do motivo do grampo ter escurecido, pois sabia o que havia sido servido na festa do jardim.
— O grampo caiu dentro de um caldeirão que continha ovos cozidos — disse Maomao. — O cristal de sal se dissolveu na água, enquanto os ovos descoloriram a prata.
Isso provavelmente também explicava por que Lihaku tinha achado a sopa insuportavelmente salgada.
[Kessel: Nem lascando!!!]
— Mas como o grampo foi parar dentro do caldeirão? — perguntou Gyokuyou. — Acha que ele simplesmente caiu ali por acaso?
— Receio não saber. Pode ter sido coincidência ou alguém pode tê-lo colocado lá.
— E por que alguém faria isso? — perguntou Haku-u, estreitando os olhos para Maomao.
— Imagine que alguém esteja preparando uma refeição quando encontra um grampo de cabelo ornamentado. Então uma dama de companhia aparece perguntando se a pessoa viu um grampo exatamente como aquele. O que acha que ela faria?
Será que levantaria o objeto imediatamente e diria: “É isto que você está procurando?” Ou fingiria não saber de nada? Ou haveria uma terceira possibilidade...
— Ela poderia entrar em pânico e tentar escondê-lo em algum lugar — disse Maomao.
— Está sugerindo que, antes mesmo de pensar direito, ela o teria jogado no caldeirão à sua frente? — perguntou Haku-u.
— Sim — respondeu Maomao, embora se sentisse um pouco culpada pela natureza vaga daquela hipótese. — Então o grampo acaba dentro do caldeirão, de forma intencional ou acidental. Mas, quando é retirado, a prata está manchada e a pedra desapareceu.
Definitivamente não era um estado em que pudesse simplesmente ser devolvido.
— Espere um momento. Se um dos serviçais o encontrou... Bem, não seria bastante difícil devolvê-lo? — perguntou Hongniang.
— De fato seria.
E assim chegaram à questão de como o grampo havia retornado para a Imperatriz.
— Não acredito que um simples serviçal pudesse esconder o grampo entre uma remessa de presentes destinada à senhora. Deve ter recebido ajuda.
E foi nesse momento que o grampo, que parecia apenas perdido, passou a parecer uma ameaça.
Maomao não podia ter certeza do que havia acontecido, mas tinha suas suspeitas. Era justamente por isso que pediu para Haku-u permanecer no aposento. Contudo, apesar de observá-la atentamente, não tinha percebido nada de estranho em sua expressão ou comportamento. Talvez ela simplesmente fosse muito boa em esconder o que sentia. Ou talvez realmente não soubesse de nada.
E se uma das damas de companhia da própria Imperatriz tivesse encontrado o grampo perto do palácio? Alguém nessa posição poderia facilmente colocá-lo entre uma remessa de presentes. Maomao estava praticamente certa de que uma das damas de Gyokuyou havia devolvido o grampo, embora certamente soubesse da aflição que aquilo causaria ao devolvê-lo naquele estado.
Hongniang teria relatado o caso diretamente a Gyokuyou; conhecia a Imperatriz bem o suficiente para saber que não precisava temer uma punição arbitrária. O mesmo valia para Yinghua, Guiyuan e Ailan. As três sabiam do “cristal” de sal; poderiam explicar o que havia acontecido e não tinham motivo para esconder nada.
Mas e Haku-u? Pela posição que ocupava, seria natural esperar que simplesmente fosse honesta e informasse Gyokuyou sobre o grampo. Ela sabia que a Imperatriz era generosa e dificilmente aplicaria uma punição severa por causa de um único grampo estragado. Precisava haver algum motivo para ela ter escolhido não se manifestar.
— É quase como se uma das damas de companhia tivesse devolvido deliberadamente o grampo sem dizer nada, apenas para fazer a Imperatriz acreditar que estava sendo ameaçada — disse Maomao.
— O-O que quer dizer com isso? — perguntou Hongniang, perturbada.
— Exatamente o que eu disse. A Imperatriz Gyokuyou é uma mulher gentil e alegre. Pessoalmente, gosto muito dela. Mas consigo imaginar alguém pensando que ela é gentil demais para sobreviver neste covil de víboras.
Maomao olhou para Haku-u. Ela havia considerado a possibilidade de alguma outra criada do palácio estar envolvida, mas quando analisou a lista de pessoas que Yinghua havia mencionado como presentes ao redor da Imperatriz durante a festa do jardim, não encontrou nenhum nome desconhecido. Havia apenas as quatro damas habituais e o trio de irmãs.
— Ahh. Então era disso que se tratava — disse a Imperatriz Gyokuyou, com um toque de frustração na voz. Ela se virou lentamente para Haku-u. — Foi um aviso para que eu me comportasse de maneira que as pessoas ao meu redor não me considerassem fácil de manipular. — Ela disse exatamente o que estava passando pela mente de Maomao. A Imperatriz parecia já ter sua própria suspeita sobre a identidade do culpado.
— Não foi você quem fez isso, foi, Haku-u? E eu sei que Seki-u jamais teria coragem — disse Gyokuyou. — O que nos deixa...
— Koku-u — disse Haku-u, pronunciando o nome da irmã sem demonstrar qualquer emoção.
— Koku-u? Mas por quê? — perguntou Hongniang. Ela parecia surpresa, mas Gyokuyou parecia entender perfeitamente o que estava acontecendo.
— Acho que isso deve ter a ver com a carta que recebi outro dia — disse ela. — Foi a Koku-u quem me entregou.
— Ah! — exclamou Haku-u.
Carta? Alguém teria enviado algo ameaçador para a Imperatriz? Talvez viesse de um inimigo político, pensou Maomao. Chegou a considerar por um instante a possibilidade de ter sido a Concubina Lihua, que também tinha um filho pequeno. Mas logo descartou. Não, não ela. Então talvez o antigo herdeiro aparente, o irmão mais novo de Sua Majestade, Jinshi. Sim, também não parece provável.
Mas então... E quanto a Haku-u e suas irmãs? Ninguém as acusaria de ser menos que devotadas à Imperatriz Gyokuyou, mas havia algo que as diferenciava das damas de companhia mais antigas.
— Se me permite uma pergunta, Lady Haku-u — disse Maomao. — A senhora pensou, talvez, que fosse o Mestre Jinshi quem tivesse roubado e depois devolvido o grampo?
Depois de uma pausa relutante, Haku-u respondeu:
— Bem, não parece a coisa mais óbvia?
— Haku-u, eu já disse a você que ele, justamente ele, jamais faria algo assim — disse Gyokuyou, com um sorriso triste. Ela sabia muito bem que ele não tinha qualquer interesse em disputas de sucessão. Hongniang, assim como Yinghua e as outras, também conheciam Jinshi o suficiente para saber que ele não faria ameaças desse tipo. Maomao também sabia muito bem que Jinshi via seu próprio status como nada mais do que um fardo. E era justamente por isso que ela havia abordado Haku-u com aquela suposição.
— Você acha que, pelo jeito como ela age, é só questão de tempo até que alguma pessoa desagradável se insinue na vida da Lady Gyokuyou — disse Maomao.
— Sinto muito, mas sim, acho — disse Haku-u, e era impossível não notar que ela estava olhando para Maomao. Hongniang ficou chocada.
Sério? É por esse caminho que ela está indo? Pensou Maomao, um pouco desconfortável.
— A Lady Gyokuyou precisa perceber que há inimigos por toda parte — disse Haku-u.
— Eu entendo isso — disse Gyokuyou. — Mas isso não é motivo para mostrar as garras até para os meus amigos. Haku-u... isso foi algo que você ouviu do seu pai?
— Não, Vossa Majestade. Eu pensei nisso por conta própria. — Ela então voltou seus olhos amendoados para a Imperatriz. — Mas a senhora está dizendo que até o Mestre Gyoku-ou pode ser confiável?
Gyoku-ou? Era um nome novo para Maomao, embora ela presumisse que fosse algum parente de Gyokuyou.
— O que havia naquela carta que ele lhe enviou? — pressionou Haku-u.
— Entendo. Koku-u deve ter lido escondido — disse Gyokuyou. Sua cabeça se inclinou.
Então Koku-u tinha espiado... uma carta? O que está acontecendo aqui? Maomao não conseguia entender nada, mas esse Gyoku-ou era, evidentemente, alguém de quem se devia tomar cuidado.
— Ele é meu irmão mais velho. Não escreveu nada fora do lugar — disse a Imperatriz. Maomao sabia que Gyokuyou tinha um irmão mais velho e que ele administrava as terras do oeste enquanto o pai deles ficava na capital. O antigo assistente do estrategista excêntrico, Rikuson, havia sido enviado para o oeste por causa de Gyoku-ou. Mas parecia haver algo acontecendo ali.
— Tem tanta certeza de que ele não é um vilão? — perguntou Haku-u. — Certamente sabe quem foi que, repetidas vezes, encontrou motivos para não enviar novas servas quando o número das suas damas de companhia diminuía uma a uma.
Aquilo surpreendeu Maomao, mas Haku-u não tinha terminado.
— Se não tivéssemos vindo, Vossa Majestade não poderia viver como convém ao seu posto! — Havia firmeza na voz dela, nada da habitual postura contida.
Talvez eu devesse sair daqui? Maomao pensou. Isso não tinha nada a ver com ela, e talvez fosse melhor se retirar, mas, por mais que tentasse, não conseguia encontrar uma forma adequada de orquestrar sua saída.
— Se não vai me dizer o que havia na carta, Imperatriz Gyokuyou, então eu vou adivinhar. Antes de eu deixar a Capital do Oeste, soube que o Mestre Gyoku-ou adotou uma jovem estrangeira. Já faz mais de um ano, tempo suficiente para ela ter adquirido a educação esperada de uma dama bem-nascida.
— Haku-u!
— Lady Hongniang, eu não vou agir às escondidas como Koku-u fez. Vou dizer o que penso. Não me importa se o Mestre Gyoku-ou é filho do Mestre Gyokuen ou irmão mais velho da Lady Gyokuyou; eu não confio nele! Ele está tentando enviar uma jovem que se parece exatamente com a Lady Gyokuyou para o Palácio Interno. Por quê? Bem, imagine se ela conquistasse o afeto de Sua Majestade e do Príncipe Herdeiro, e então algo acontecesse com nossa senhora.
Era pura especulação, e ainda assim não estava fora do reino das possibilidades.
— Meu pai jamais permitiria isso — disse Gyokuyou.
— O Mestre Gyokuen é inteligente o suficiente para enxergar através das tentativas fracas do Mestre Gyoku-ou — disse Haku-u.
Hongniang pareceu aliviada. — Então não há problema.
— O problema é justamente a perspicácia dele. O Mestre Gyokuen certamente apoiará quem quer que traga mais benefícios — disse Haku-u, com a voz vazia. — Assim como fez quando destruiu o clã Yi.
O clã Yi!
Eles já tinham sido um dos clãs nomeados e governavam as regiões do oeste, até caírem em desgraça perante a imperatriz regente e serem aniquilados.
— Devemos muito à Senhora Gyokuyou, e uma das razões pelas quais a servimos aqui é para protegê-la. O Mestre Gyokuen não é meu, nosso, governante, nem o filho dele.
Havia fogo nos olhos de Haku-u ao dizer isso.
Imagino o que ela já vivenciou durante sua vida, pensou Maomao, mas não era seu lugar perguntar.
— Por favor, tenham cuidado com o Mestre Gyoku-ou. Eu imploro. Peço isso com todo o meu coração… — O olhar de Haku-u lentamente se voltou para Maomao. — ...Por favor, cerquem-se de pessoas em quem confiam. Nunca se sabe o que pode acontecer.
Gyokuyou e Hongniang também olharam para Maomao, que disse:
— P-Por que todo mundo...? — Ela tinha uma sensação muito ruim sobre aquilo. E não ia embora.
— Maomao... Espero que considere isso — disse Gyokuyou, com olhos de filhote.
— Você não gostaria de ver a Lady Gyokuyou ser envenenada, gostaria? — perguntou Hongniang, com um leve sorriso.
— O mundo é um lugar perigoso, mas há pessoas que jamais trairiam a confiança — acrescentou Haku-u.
Ela está nisso também?
Maomao desviou deliberadamente o olhar das três, mas sentia que estava praticamente encurralada.
[Noelle: Que capítulo em? Eu particularmente fico exausta com a insistência delas mesmo sabendo de tudo da Maomao e as consequências que essa escolha pode acarretar… Essa insistência beira apenas o egoísmo, gente, a garota está estudando com médicos renomados, elas sabem que o príncipe da lua gosta dela e fora de quem ela é filha, e querem meter a menina em um cubículo fechado que elas mesmas acham entediante, onde ela nem pode crescer mais, mesmo o Imperador tendo negado já… Talvez a autora achou que seria bonito mostrar a confiança que elas tem na Maomao mas para mim isso já fica até feio para as personagens essa insistência chata… e vocês, o que acham?]
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Atenciosamente,
Scan Moonlight Valley
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