Diários de uma Apotecária — Capítulo 8.14: Volume 8 – Capítulo 14 – Capítulo 14: O Torneio de Go (Parte Um)

Diários de uma Apotecária
Cap. 8.14
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Volume 8 – Capítulo 14 – Capítulo 14: O Torneio de Go (Parte Um)

Capítulo 8.14

2.268 palavras~10 min de leitura

Maomao deu um forte tapa nas bandagens estendidas. A brisa de outono agarrou as tiras brancas de tecido enquanto elas tremulavam contra o céu azul sem nuvens. O tempo parecia exatamente o oposto das nuvens que escureciam o coração de Maomao.

Ela tinha sentido que não podia simplesmente sair do palácio da Imperatriz Gyokuyou depois de uma conversa como aquela. Ela acabou sendo salva por uma mensagem do Dr. Liu. Ele podia ser duro com os subordinados, mas também sabia cuidar deles.

Maomao não tinha percebido o quanto a Imperatriz estava encurralada, e não por algum inimigo político óbvio, mas por alguém da própria família.

O irmão mais velho dela...

Ela tinha ouvido dizer que a Imperatriz era filha de uma concubina. Gyokuen já era um homem velho, então Gyoku-ou, o meio-irmão de Gyokuyou, devia ser consideravelmente mais velho do que ela. Relações familiares complicadas não eram raras entre a nobreza, e parecia que Gyokuyou não era exceção.

Fico imaginando o que vai acontecer depois disso. Pelo que Haku-u tinha dito, Gyokuen tinha seus próprios jogos em andamento. Ele só seria aliado da Imperatriz Gyokuyou enquanto isso lhe trouxesse vantagem, então o que aconteceria se ela perdesse o favor do Imperador? Ou, mais ainda, se algo acontecesse com o Príncipe Herdeiro?

Mesmo quando não se está interessado em poder, há momentos em que ele é necessário para sobreviver, pensou Maomao. Ela suspirou enquanto mergulhava as mãos na água congelante. Estava tão frio que parecia que seus dedos iam cair. E o clima só ficaria mais frio, tornando o trabalho com água ainda mais desagradável. En’en, com sua devoção intensa à jovem senhora, tinha passado pomada em Yao para evitar que a pele rachasse.

Enquanto observava o céu azul, Maomao teve um pensamento. Será que aquilo do desenho tinha a ver com o quê? A imagem estranha desenhada pela garotinha Jazgul.

Isso a lembrou de que a sacerdotisa do oeste ainda estava em Li. Como será que ela estava? Bem, provavelmente, com a ex-concubina Ah-Duo cuidando dela. Ainda assim, embora tivesse sido uma das mulheres do Imperador, Ah-Duo parecia destinada a carregar todos os segredos obscuros do país. Sua casa era um refúgio para as crianças sobreviventes do clã Shi, além de Suirei, que, embora não reconhecida, era neta do antigo imperador e sobrinha do atual. E agora também a donzela do santuário de Shaoh, que deveria estar morta.

Ah-Duo, a beldade em roupas masculinas, lidava com tudo isso com naturalidade, mas como isso parecia aos olhos dos outros? Em certo sentido, não parecia nada. Tudo aquilo era mantido em completo segredo e não seria descoberto facilmente. Mas havia muitas pessoas de faro aguçado na corte.

Espero que ninguém consiga farejar isso por lá.

Com esse pensamento, Maomao despejou o restante da água do balde no canal.

— Não há trabalho de um dia inteiro aqui — resmungou o Dr. Liu. Era um horário em que o consultório médico normalmente estaria lotado de soldados feridos, mas naquele dia estava vazio.

— O que podemos fazer? Todo mundo está matando serviço, começando pelo chefe — disse o jovem médico Tianyu, com um sorriso sarcástico, embora parecesse decepcionado. Em sua mão, ele segurava um livro de Go. — E ainda mais oficiais civis também faltaram ao trabalho. Dizem que houve briga séria pra ver quem conseguiria folga hoje. Pelo menos os soldados podem fingir que estão indo vigiar as coisas.

Maomao sabia que o próprio Tianyu tinha desesperadamente tentado tirar o dia de folga, mas acabou ficando ali. Era preciso manter uma equipe mínima no setor médico, então os médicos tinham mais dificuldade do que a maioria para tirar férias.

— Já que praticamente não tem nada pra fazer, eu posso ir pra casa, não posso? — perguntou Tianyu, tentando insistir, mas isso não funcionava com o Dr. Liu.

— Já que finalmente temos tempo, vamos aproveitar para preparar medicamentos e repor o estoque. — O velho médico abriu um sorriso desagradável; estava claramente gostando de apertar os subordinados.

Os olhos de Maomao brilharam ao ouvir sobre fazer remédios.

— O que vamos preparar, senhor? — perguntou ela.

— Er, cof cof... Sim. Desculpe tirar seu entusiasmo quando finalmente apareceu, mas... — Ele estendeu um pacote enrolado em pano. — Quero que você faça uma entrega para mim.

O semblante de Maomao fechou imediatamente.

— Eu conheço esse olhar. Você está pensando: “quem esse velho acha que é?” — disse ele.

— Jamais, senhor — respondeu ela, de forma educada.

— Senhor, talvez eu possa fazer essa entrega... — arriscou Tianyu.

— Não, não pode.

Bem. Não havia espaço para discussão. Se aquilo precisava ser entregue pessoalmente por ela, ela temia até imaginar o que seria.

— Quero que leve isso aqui — disse o Dr. Liu, abrindo um mapa da capital e apontando para uma praça pública perto do teatro onde a Dama Branca tinha realizado seus milagres.

— Aqui, senhor?

— Não é seu lugar favorito, pelo visto. Dá pra ver pela sua cara.

Não era mesmo, porque naquele momento aquela praça estava recebendo um grande evento. Um relacionado a Go. Era fácil demais adivinhar quem estaria lá.

Maomao não sabia o quanto de influência ele tinha usado para conseguir um local tão bom, e ainda por dois dias, devia ser um torneio enorme.

— Presumo que o Dr. Kan estará lá. Ele não foi designado para o evento, mas se ofereceu para assumir a liderança.

Maomao entendeu o que o Dr. Liu queria dizer. Ele está criando uma proteção pra mim.

Não havia como prever o que o estrategista excêntrico poderia fazer, mas ter o “velho” dela por perto ajudaria a evitar problemas. Provavelmente, ela estava sendo enviada pelo mesmo motivo.

— Tem muita gente lá, então alguém vai acabar passando mal, seja jogando Go ou por qualquer outra coisa. Isso não é algo que o consultório médico normalmente cuidaria, mas não acha que momentos assim são uma boa hora para dar uma mãozinha? — disse o Dr. Liu, mas soava ensaiado.

Ela sentiu o cheiro de Lahan, que provavelmente tinha organizado o torneio de verdade. Ele sabia que o Dr. Liu não recusaria, e usou isso para chegar até Maomao.

Aquele inútil...

En’en estava interessada em Go, então ela e Yao tiraram o dia de folga, enquanto Maomao ficou presa ali.

— Agora é seu trabalho. Confio que você vai agir profissionalmente — pressionou o Dr. Liu. Tudo o que restou a Maomao foi concordar. E ignorar Tianyu, que a encarava verde de inveja.

Ela não precisou olhar o mapa para saber onde ir, só seguiu o fluxo de pessoas carregando livros de Go. Tabuleiros estavam montados por toda parte na praça, atraindo gente de todos os tipos, jovens e velhos, homens e mulheres.

Um pano havia sido pendurado, uma tentativa fraca de proteção contra o vento, e havia apenas caixas de madeira para apoiar os tabuleiros. Um cenário pobre. E fazer um evento ao ar livre tão perto do fim do ano era praticamente um convite para pegar um resfriado.

Ainda assim...

Com tanta gente, aquele espaço improvisado começava a parecer surpreendentemente vivo, quente até. Restaurantes e tavernas tinham montado pontos de venda na praça. Crianças pediam doces às mães. Água de gengibre quente e vinho eram distribuídos para aquecer, embora o vinho tivesse sido aquecido o suficiente para evaporar o álcool.

Já vimos muitos bêbados causando problemas em festivais.

Não era só material de Go também, peças de shogi, cartas e até peças de mahjong apareciam por ali, provavelmente por influência dos organizadores. Havia até lojas vendendo acessórios e enfeites, então até quem não ligava para Go acabava preso na multidão.

Isso tem muito a cara do Lahan, pensou Maomao. Ele adorava o comércio. Provavelmente estava cobrando das lojas pelo espaço privilegiado.

Maomao atravessou a multidão até reconhecer rostos familiares.

— Yao! En’en!

Lá estavam elas. Yao passava pomada em um joelho ralado de uma criança, enquanto En’en oferecia chá medicinal a um idoso que tremia de frio.

— Maomao? O que você está fazendo aqui em vez de trabalhar? — perguntou Yao, lançando um olhar que deixava claro que achava que ela tinha fugido do consultório médico.

— O Dr. Liu me mandou em uma tarefa. E, de qualquer forma, o que aconteceu com o não trabalhar?

— Ah. Isso é graças ao seu, hum, “irmão mais velho” — respondeu Yao.

Isso imediatamente fez Maomao franzir o rosto.

— O Dr. Kan não deveria estar trabalhando hoje também, mas acabou sendo puxado pra isso. E então seu irmão mais velho disse que era coisa demais pro Dr. Kan cuidar sozinho e que queria que nós ajudássemos também.

— Você deveria simplesmente ter dito não a ele. — Ela se sentia mal pelo “velho” dela, mas Yao e En’en deveriam estar de folga hoje. Elas não tinham obrigação de trabalhar como o resto do consultório. Lahan devia simplesmente ter contratado médicos da cidade em vez de usar o pai dela e as meninas para tudo. E agora estava usando a própria Maomao também. Era a cara daquele pão-duro. — Você devia mandar uma conta pra ele — disse Maomao, de repente com vontade de arrancar algumas moedas daquele homem de óculos redondos e cabelo bagunçado.

— Ah, eu não me importo. Não tenho muito interesse em Go — disse Yao. Ela terminou de tratar o ferimento da criança e o dispensou com um “Prontinho”.

— Obrigado, moça! — disse a criança.

Oh hoh. Maomao notou o pequeno sorriso no rosto de Yao enquanto ela acenava para a criança. O sorriso desapareceu imediatamente quando Yao percebeu que estava sendo observada por ela. En’en lançou para Maomao um pequeno polegar levantado, como quem dizia: Viu? A minha senhorita não é fofa? Ela parecia estar se divertindo, mesmo sem jogar Go.

— Se você está em uma tarefa, imagino que esteja procurando o Dr. Kan? Ele está ali — disse ela, apontando para o teatro onde a Dama Branca havia feito suas apresentações. Era um prédio grande, usado frequentemente para eventos, mas estava fechado havia algum tempo. — Acho que a ideia inicial era fazer o torneio inteiro lá dentro. Mas… bem, como pode ver. — Os tabuleiros espalhados pela praça deixavam claro quantas inscrições havia.

— Ainda bem que está sendo um sucesso, eu acho, mas claramente tem mais gente do que o permitido aqui — concordou Maomao. Pelo menos a praça serviu como “válvula de escape”, mas isso criava vários problemas. Ela supôs que haveria gente se machucando ou passando mal. Se ao menos tivessem feito o torneio em uma estação mais quente.

O idoso que En’en estava atendendo parecia melhor; abriu um sorriso banguela e já parecia pronto para voltar a jogar Go, então En’en colocou um lenço em seu pescoço. O clima estava claro, mas seco. Se alguém ficasse com a garganta irritada e começasse a tossir, um resfriado poderia se espalhar rápido.

O pai de Maomao, claro, sabia disso muito bem. Pessoas iam e vinham entre os jogadores carregando copos e garrafas grandes. Sempre que alguém levantava a mão, alguém servia uma bebida quente, provavelmente água de yuzu ou gengibre. Cobertores também eram distribuídos para quem tremia. Havia até fogo para quem não conseguia se aquecer só com os cobertores. Seu velho tinha feito tudo o que podia.

— Ei, Maomao — En’en se aproximou e sussurrou em seu ouvido. — O Dr. Kan não é o único lá. O Grande Comandante Kan também está. — Maomao não respondeu, mas olhou para o pacote da entrega com uma expressão de profundo desgosto. — Queria dizer que eu entregaria isso pra você, mas, honestamente, meio que preciso que você entregue — disse En’en.

— Por quê?

— Porque quando tudo acabar, a En’en vai jogar uma partida contra o Grande Comandante — disse Yao.

— Isso mesmo. É uma grande honra!

Em outras palavras, Maomao devia ficar quieta e ir ver o estrategista maluco.

— Não acredito que vou ter esse privilégio de graça — disse En’en.

— Como assim “de graça”?

— Normalmente custaria dez peças de prata, mas disseram que se ajudássemos poderíamos jogar de graça.

Pra mim nada disso parece ter o valor que dizem que tem, pensou Maomao. Quem pagaria esse tipo de dinheiro?

— Acho que não daria pra pagar com nossos salários — disse Yao.

Seus doces também não são baratos… O lanche diário dela para “beleza, saúde, e busto” não era nada barato. Será que ela sabia quanto aquilo custava por mês? Provavelmente alguém está se certificando de que ela não perceba, refletiu Maomao. Típico da En’en.

— Vamos guardar nossos pensamentos para nós mesmos — disse En’en. (Isso parecia ser dirigido a Maomao.) — Se você ganhar três partidas aqui fora, pode entrar no teatro. E se ganhar mais três lá dentro, ganha o direito de desafiar o Grande Comandante.

— Então não é só pagar pra jogar? Mesmo jogando rápido, seis partidas levariam um tempo — disse Maomao, com um olhar confuso a En’en.

— Isso mesmo. Você tem que lutar pelo privilégio. E o torneio vai até amanhã. Eu não conseguiria ganhar seis partidas, então, se conseguir uma partida de aprendizado com ele, já vou me considerar muito sortuda.

Até que ponto ele poderia ser condescendente? Maomao se perguntou. Além disso, no dia seguinte, ela deveria estar de folga.

Mas eu aposto que vão me chamar mesmo assim. Com um “Argh” bem claro, ela seguiu em direção ao teatro.

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Atenciosamente,

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Fim da leitura

Capítulo 8.14 concluído

Volume 8 – Capítulo 14 – Capítulo 14: O Torneio de Go (Parte Um)