Diários de uma ApotecáriaVolume 8 – Capítulo 15 – Capítulo 15: O Torneio de Go (Interlúdio)
Capítulo 8.15— Pronto, isso deve resolver. — Maamei terminou parte do trabalho e parou para se espreguiçar. O escritório do Príncipe da Lua estava muito mais organizado e ordenado do que antes, depois de redistribuírem a montanha de papéis para as pessoas cujas funções realmente pertenciam àquelas tarefas.
Apenas outra pessoa estava no escritório com Maamei: seu irmão mais novo, Baryou, que ocupava um canto separado da sala.
— Ryou, acha que consegue terminar tudo? — ela perguntou. Ela podia usar um tom tão informal porque estavam só os dois ali. Ainda assim, ela provavelmente agiria exatamente da mesma forma mesmo se o Príncipe da Lua estivesse presente.
— Sim, acho que consigo terminar o resto hoje — disse Baryou. Seu rosto, pálido como uma cabaça ainda verde, apareceu por cima da divisória. Ele quase nunca falava ou sequer se mostrava, exceto diante de quem era mais próximo. Agora ele disse: — Tem algo aqui que não é como os outros. — Ele passou uma folha para Maamei. — Acho que talvez isso envolve o nosso querido Kan.
— Kan? — o sobrenome sozinho não foi suficiente para Maamei entender.
— O homem de La. O Grande Comandante Kan.
— Ah, o estrategista excêntrico. Não faça rodeios; diga logo o que quer dizer.
O irmão dela talvez não fosse muito bom com companhia humana, mas tinha um domínio perfeito de quem trabalhava onde e quais eram seus nomes. Ele tinha uma mente afiada, mas um corpo frágil e uma constituição psicológica sensível. Maamei tinha plena consciência de que corpo saudável, mente firme e capacidade robusta raramente coexistiam em uma mesma pessoa. Se Baryou pudesse ser misturado com outro dos seus irmãos mais novos, seria perfeito.
— Se não for urgente, vamos levar isso para ele depois — ela disse.
— Tem certeza?
— Não acho que isso sirva de nada mesmo se levarmos agora. — Maamei puxou uma folha de dentro das dobras do seu manto. Nela estava escrito “Torneio de Go” e seus detalhes.
— Ah, era hoje? — disse Baryou. Ele tinha algum interesse em Go, mas não tinha coragem de ir a um lugar com tanta gente. Mesmo que tivesse ido ao torneio, provavelmente teria ficado tonto na multidão e simplesmente desabado.
— Ele é um dos principais organizadores. Duvido que esteja fazendo outro trabalho.
— Tem certeza de que vai ficar tudo bem? — Baryou perguntou em tom preocupado enquanto desaparecia novamente atrás do seu painel. Maamei conseguia ouvi-lo mexendo nos papéis; evidentemente ele não usaria aquilo como motivo para diminuir o ritmo.
— Tudo bem ou não, ele mesmo procurou isso.
Kan Lakan, o chamado estrategista excêntrico, e o Príncipe da Lua não pareciam se dar muito bem. Talvez por isso Lakan fosse o principal responsável por empurrar seu trabalho para aquele escritório. Repassar tudo de volta para ele tinha sido a principal tarefa de Maamei recentemente.
— Preciso dizer que estou surpresa — ela disse. — Nunca imaginei que ele realmente faria o trabalho que devolvemos para ele. — Sim, o acordo era que o estrategista poderia usar o local do torneio em troca de fazer o trabalho, mas, considerando quem eles eram, ela achou que ele encontraria algum jeito de escapar disso. — E eu ainda tinha outro plano caso ele não colaborasse. — Sua estratégia de mudar todas as refeições dele para mingau de cenoura, em outras palavras, puro assédio, não serviu para nada. Vale notar que a informação sobre a aversão de Lakan a cenouras veio do filho adotivo dele.
— Dizem que ele está dormindo metade do tempo normal. O Grande Comandante Kan, quero dizer — disse Baryou.
— O quê, sério? Eu não tinha ouvido isso.
— O senhor Lahan esteve aqui enquanto você estava fora, irmã. Eu o ouvi falando bastante animadamente com o mestre Jinshi.
— De que lado você acha que ele está? — ela disse antes de conseguir se conter.
Lahan, afinal, também tinha lhe dado informações. — Espero que a saúde do comandante não esteja em risco. Já faz bastante tempo que começaram a enviar trabalho para ele.
— Pelo que entendi, não é um problema. Ele pode dormir metade do tempo normal, já que dormia metade do dia para começar a conversa.
— Como um bebê!
O rosto de Baryou apareceu novamente, repreendendo-a por aquele tom desrespeitoso. Maamei, por sua vez, tinha dois filhos e ficaria muito feliz em ter uma criança que dormisse tanto assim. Aliás, o Príncipe da Lua finalmente tinha conseguido aumentar seu sono para seis horas por noite. Isso mostrava o quanto ele estava sobrecarregado.
O desejo de fazer o próprio torneio acontecer tinha tornado o comandante mais maleável. E ele havia sido informado de que permissão para tal evento não seria dada caso houvesse pilhas de trabalho pendentes. Assim, nos últimos dias ele vinha trabalhando como um homem possuído, de modo que o acampamento militar estava, por enquanto, mais movimentado do que o habitual. Como resultado, o Príncipe da Lua conseguiu voltar para casa mais cedo e, por incrível que pareça, tirar folga hoje e amanhã, suas primeiras férias em meses.
— Ainda assim, acho estranho.
— O que é estranho, Ryou? — Maamei alinhou alguns papéis na mesa enquanto falava.
— Quero dizer, por que um torneio de Go? Eu achava que o Grande Comandante Kan preferia Shogi.
— Mas ele também não é um jogador forte de Go?
— Sim, é. Tão forte que dizem que só o Sábio consegue vencê-lo. Mas ainda assim... — Baryou ficou pensativo por um momento. — No Shogi, ninguém consegue vencê-lo. Ele é um monstro no jogo.
— Um monstro? — perguntou Maamei. Baryou fazia parecer que o comandante pertencia a outro plano de existência.
— Acho que o Grande Comandante enxerga um mundo que nós não vemos. Um mundo multifacetado, estranho e cheio de maravilhas. Talvez por isso ele não consiga diferenciar as pessoas, nós somos simples demais para ele.
— Você fala como se o conhecesse muito bem. — Maamei espiou por cima da divisória. O irmão estava imerso em papéis, continuando o trabalho enquanto conversavam.
— O serviço civil está cheio desse tipo de gente. Pessoas que enxergam um mundo ao qual o resto de nós não tem acesso. Sir Lahan talvez seja o exemplo mais claro. Eu era praticamente comum perto deles.
— Se você é comum, então o que eu sou?
— Uma irmã, uma esposa, uma mãe. É isso que você é.
— Bastante comum, não acha?
Ela podia estar trabalhando agora, mas tinha filhos em casa. Estava tudo bem; eles gostavam da babá e já tinham sido desmamados. O marido era um soldado. No momento, ele provavelmente estava trabalhando ou espiando o torneio de Go; não era possível saber. Ele era um bom homem, bom o bastante para permitir que Maamei voltasse ao trabalho, então ela não o pressionava sobre como ele passava os dias.
— O comum é bem difícil... eu invejo você — disse Baryou, soltando um longo suspiro. Ele tomou um gole de chá de um recipiente de bambu cortado. O bambu era sua escolha; uma xícara era fácil demais de derrubar. Ele preferia seu cantil. — É por isso que eu não entendo.
Maamei ia perguntar o que ele não entendia, mas se conteve.
— Por que alguém que não é humano teria interesse em um torneio? — Baryou voltou ao trabalho, como se aquilo realmente não fizesse sentido algum para ele. Maamei decidiu seguir o exemplo e voltar ao que fazia.
— Tenho outra coisa para resolver, então vou deixá-lo sozinho. Tudo bem? Se precisar de algo, chame o guarda lá fora — ela disse.
— Eu sei, irmã. Eu sei.
Maamei saiu do escritório, embora não se sentisse completamente tranquila ao fazê-lo.
Seria bom dizer que, com os papéis devidamente entregues aos seus departamentos, o trabalho de Maamei estava concluído, mas ainda havia mais uma tarefa a cumprir.
Ela seguiu em direção ao pavilhão pessoal do Príncipe da Lua, passando por uma série de portões conforme se aproximava da corte interna. Cada vez mostrava sua autorização e entrava.
O pavilhão, relativamente simples à primeira vista para a residência do irmão mais novo do Imperador, usava apenas os melhores materiais; qualquer burocrata que o considerasse modesto estaria, na verdade, se denunciando como alguém de riqueza recente, incapaz de reconhecer a verdadeira sofisticação.
O guarda do pavilhão deixou Maamei entrar assim que a reconheceu. Ao entrar, ela foi recebida por um aroma doce e agradável. Ela seguiu o cheiro até a cozinha, onde encontrou uma mulher mais velha com alguns doces assados em um recipiente quadrado.
— Seja bem-vinda — disse Suiren, a assistente do Príncipe da Lua, com um sorriso.
— Peço desculpas pela intrusão — respondeu Maamei educadamente, olhando para os lanches. — Eles parecem deliciosos.
— E são mesmo. Ficaram muito bons, mas já fiz vários e eles não estão mais quentinhos. Também tenho alguns feitos há alguns dias, eu estava prestes a fazer uma prova para ver quais são os mais gostosos.
— Então cheguei em um ótimo momento.
Ela pensou nisso como um bônus do trabalho. Mas, lembrando do trabalho, Maamei não podia esquecer o motivo de estar ali. Seria errado se perguntar se podia levar alguns doces para os filhos como um pequeno presente, mas só de imaginar a alegria deles, seu rosto suavizou em um sorriso.
— Alguma coisa na sua cabeça? — perguntou Suiren.
— Não, apenas observei que há alguns cozidos no vapor e outros assados.
— Isso mesmo. Os cozidos mantiveram melhor o formato, mas os assados têm um aroma mais agradável.
Alguns estavam dourados; pareciam ter sido colocados em uma forma de bolo lunar e assados.
Suiren cortou cuidadosamente um deles com uma faca e ofereceu um pedaço à Maamei. Estava cheio de frutas secas, mas a textura era um pouco diferente da de um bolo lunar.
— E aqui está este — disse Suiren, passando também um dos doces cozidos no vapor. Esse era leve e fofinho, mas perdia um pouco do aroma.
— Será que não daria para assar, mas de um jeito quase como se tivesse sido cozido no vapor? — perguntou Maamei.
— Eu tive a mesma ideia. Sim, isso seria perfeito. — Suiren pegou os doces do recipiente quadrado, cortou e entregou mais alguns a Maamei.
— Acho que prefiro esse — disse a jovem, mal conseguindo esconder o sorriso. Era macio e leve, mas tinha nozes que davam uma crocância agradável, enquanto a doçura das jujubas e das uvas-passas se espalhava aos poucos. Maamei conseguia sentir o aroma de manteiga, e havia outra fragrância ali também.
— Agora experimente este; ele está aqui há três dias — disse Suiren, passando a Maamei um pedaço de outro doce.
Ela colocou na boca e descobriu que o sabor das frutas havia permeado toda a massa. Havia um molho doce por cima, talvez para evitar que ressecasse, e era espesso e delicioso.
— Você acha que eu poderia levar um pouco disso para meus filhos? — perguntou Maamei. Horrorizada com a própria pergunta, ela levou a mão à boca, mas as palavras já tinham saído antes que pudesse impedir.
— Para seus filhos? Receio que esses não possam ser levados. Mas pode levar o quanto quiser destes aqui.
Suiren abriu uma gaveta e revelou uma variedade inteira de doces, cada um feito de uma forma ligeiramente diferente. Quantos tipos ela tinha preparado? — O que você está provando agora é algo que vou servir ao jovem mestre amanhã. Mas volte outra hora para pegar mais.
— S-sim, claro... — disse Maamei, com uma ponta de decepção, colocando o resto do doce na boca. Parecia que ela tinha sido chamada ali apenas para aquela degustação.
— Eu estava em dúvida sobre qual era o melhor, mas agora tenho certeza. Obrigada — disse Suiren.
— Foi um prazer. Mas isso é tudo o que precisava ser feito hoje?
— É sim. Você deveria descansar de vez em quando. Sei que seus filhos não dão muito trabalho, mas se não a virem de vez em quando, vão esquecer quem você é!
Aquilo doeu. Maamei gostava do trabalho, mas, claro, amava seus filhos.
— O Príncipe da Lua está aqui, se me permite perguntar? — ela perguntou. Se ele estivesse presente, achava que deveria prestar seus respeitos antes de ir embora, mas Suiren balançou a cabeça.
— Ele passou o dia inteiro com o tutor, estudando. Por favor, não o interrompa. Não se preocupe, sei que amanhã será um dia cheio para ele. Vou garantir que ele durma cedo.
— Ah. Eu tinha certeza de que ele teria ido ver o torneio de Go — disse Maamei. Ainda assim, ela sabia que o Príncipe da Lua era dedicado aos estudos, então aquilo não lhe pareceu estranho.
— Ah, sim, claro. Ele ainda não foi. Mas tenho algo mais importante para lhe perguntar. Maamei, você consideraria se tornar dama de companhia do pequeno mestre? Sei o quanto você é uma trabalhadora dedicada, já que ele volta para casa cedo todos os dias.
— Dama de companhia? Desculpe, mas não tenho tanta certeza... eu tenho filhos para cuidar.
Ser assistente do Príncipe da Lua significaria passar todo o tempo na companhia de Suiren, e sua própria mãe, que também foi ama do Príncipe da Lua junto com Suiren, já tinha contado histórias suficientes sobre aquela mulher para fazê-la pensar duas vezes. Como estavam as coisas, Suiren tratava Maamei com polidez profissional, mas se ela começasse a trabalhar diretamente para ela, poderia se tornar verdadeiramente assustadora.
— Não? Que pena. Vou ter que encontrar outra pessoa, então — disse Suiren, embora não parecesse tão desapontada assim. Na verdade, já parecia saber quem seria essa pessoa.
Suiren embalou os doces para Maamei, e a jovem se retirou do pavilhão. Um aroma apetitoso vinha do pacote, mas parecia de alguma forma inferior ao que ela tinha provado minutos antes. Ela ficou pensando nisso enquanto olhava para o céu.
— Parece que amanhã vai ser mais um dia de céu limpo — disse, imaginando se o torneio de Go tinha sido um sucesso. Então olhou de novo para os doces e, ao imaginar a alegria dos filhos, não conseguiu evitar um sorriso.
[Kessel: Adorei esse capítulo. Estou encantado com a Maamei, que personagem incrível!]
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