Diários de uma Apotecária — Capítulo 8.16: Volume 8 – Capítulo 16 – Capítulo 16: O Torneio de Go (Parte Dois)

Diários de uma Apotecária
Cap. 8.16
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Diários de uma Apotecária

Volume 8 – Capítulo 16 – Capítulo 16: O Torneio de Go (Parte Dois)

Capítulo 8.16

3.878 palavras~17 min de leitura

Eu quero ir para casa, Maomao pensou enquanto mexia uma mistura de mel, gengibre e suco de tangerina espremido na hora. Ela estava no mesmo lugar em que esteve no dia anterior, no torneio de Go, em um canto do teatro, preparando bebidas o mais rápido que conseguia.

Ela tinha trabalhado no dia anterior; hoje deveria estar de folga. E seus planos de se enfiar no dormitório e ler os tratados médicos que o Dr. Liu tinha emprestado para ela?

E ainda por cima estar ali, justamente ali! Yao e En’en também estavam lá; como Maomao no dia anterior, tinham sido enviados pelo Dr. Liu, embora En’en gostasse de Go e parecesse estar se divertindo. Maomao queria estar trabalhando com as duas, mas seu pai tinha dito: — Preciso de você aqui — e a colocou no teatro. Precisa mesmo mencionar o motivo?

Maomao fervilhava de raiva ao lembrar de quando fora arrastada para lá no dia anterior. Quando o velho a viu, fez um escândalo, como sempre. Digamos apenas que coube ao pai dela acalmá-lo e deixar por isso mesmo.

Havia uma variedade de tabuleiros de Go espalhados pelo teatro. Nas arquibancadas, os vencedores de fora se enfrentavam entre si, e aqueles que continuavam vencendo podiam subir ao palco. Poucas pessoas tinham chegado lá no dia anterior, então os jogos do estrategista excêntrico tinham sido separados. Hoje mais pessoas alcançavam aquela plataforma tão desejada, e naquele momento o “estrategista esquisito” enfrentava três pessoas ao mesmo tempo.

Alguém poderia achar isso confuso, mas aquilo era totalmente a cara do estrategista. Ele mal conseguia levar a vida cotidiana direito, mas ia despachando seus oponentes um após o outro, com a cabeça baixa. De vez em quando lançava olhares rápidos na direção de Maomao entre uma jogada e outra, mas ela ignorava.

— Está tudo pronto, Maomao? — perguntou Yao, se aproximando com uma chaleira.

— Sim, aqui. Só preciso de mais tangerinas; já acabaram. — Ela despejou a bebida com mel na chaleira.

— Claro.

— Além disso...

— Sim?

— Eu queria sentar em outro lugar. — Ela se sentia mal por ficar parada enquanto Yao e En’en precisavam correr de um lado para o outro o tempo todo.

— Ah, não tem problema. Não é nada demais. — Yao bateu no próprio peito farto como se dissesse: deixe tudo com a gente! — Estou mais preocupada com os lanches. Está dando conta?

Enquanto as garotas circulavam para ver se alguém estava passando mal, também distribuíam lanches aos participantes. A taxa de entrada parecia ter sido calculada para cobrir os custos.

— Não tenho certeza, mas acho que vai acabar rápido — disse Maomao, olhando na direção do estrategista excêntrico. Ele tinha uma montanha de bolos lunares e pãezinhos de feijão ao lado. Jogar exigia muito do cérebro, o que fazia a pessoa querer doces. Aquilo parecia uma das justificativas para distribuir os lanches, mas Maomao sentia a mão de Lahan naquele plano: tanto os pães quanto os bolos lunares tinham recheio de batata-doce.

Batata-doce não era muito comum nos mercados. Provavelmente aquilo fazia parte do plano de espalhá-la. Era doce o suficiente para reduzir a quantidade de açúcar necessária nas receitas, diminuindo o custo geral dos ingredientes.

Não eram apenas os participantes do torneio que podiam aproveitar; barracas tinham sido montadas para vendê-los aos visitantes, que podiam comprar se gostassem do sabor. Ele tinha sido muito minucioso.

— Como estão as coisas lá fora? — perguntou Maomao.

— Sem grandes problemas. Algumas brigas começaram quando o pessoal continuou perdendo, e algumas crianças caíram por causa da multidão e se machucaram.

— Brigas? — Era de se esperar. Não dava para juntar tanta gente sem algum tumulto.

— Não passou de alguns machucados leves. Os soldados estavam todos por perto, então separaram tudo rápido. Acho que isso até conta como trabalho. — Yao não parecia muito impressionada. Ela pegou a chaleira cheia e disse: — Doces e tangerinas, então, certo?

— Sim, por favor. — Maomao a observou ir embora.

— Ei, com licença! Senhorita? Eu ganhei! — alguém gritou da entrada. Maomao foi até lá conferir, pensando consigo mesma: Eles podiam pelo menos contratar um recepcionista! Quanto a Lahan, que tinha delegado todo o trabalho, não estava em lugar nenhum.

Maomao recolheu as plaquinhas com os nomes dos oponentes derrotados do novo participante. Nesse torneio, quando alguém vencia, o oponente entregava uma placa com o próprio nome. Ao juntar três dessas placas, era possível entrar no local principal. Nem todas as vitórias eram iguais, porém. Algumas pessoas apenas venciam oponentes fracos repetidamente. Tecnicamente não era contra as regras; quando perguntaram a Lahan, ele disse: “Se pagaram a entrada, não me importo.”

Não importa muito. Se não forem bons, vão descobrir aqui dentro. Se perdessem, tinham que voltar para a praça e recomeçar. Maomao entregou ao novato uma nova placa, uma bebida e um bolinho de feijão. — Tem alguém esperando uma partida nas cadeiras à direita. Pode ir jogar com ele.

Não dava para escolher o oponente. O homem diante de Maomao não pareceu nada feliz, mas aceitou e foi para a área de assentos. Se ele tivesse reclamado, mesmo que fosse uma palavra, Maomao o teria expulsado do teatro na hora: seu pai e vários homens do estrategista estavam posicionados ao redor justamente para garantir que o excêntrico não aprontasse nada.

— Com licença — disse um homem se aproximando timidamente de Maomao. — Você acha que eu poderia pegar mais bolos lunares?

Ele não era participante, era um subordinado do estrategista, um homem que tinha substituído Rikuson recentemente como assistente do estrategista. Era de estatura e porte médio; não parecia muito militar. Era o mesmo que tinha ficado desesperado quando o estrategista conseguiu se envenenar com o próprio suco. Rikuson era bonito, mas firme quando precisava; esse homem parecia muito mais fácil de intimidar.

— Tudo bem — disse Maomao, embora sua expressão fosse de incredulidade exasperada: ele já tinha acabado com todo o estoque? Ela trouxe alguns pães, deixando claro o quanto aquilo era um incômodo. — Aqui.

— E-eu não... — o subordinado parecia tentando dizer algo difícil. — Talvez... você pudesse levar isso ao Mestre Lakan pessoalmente?

Maomao ficou completamente em silêncio.

Só de olhar para ela, ele recuou. — D-desculpa! Você está claramente ocupada! Eu levo sozinho. — Pelo menos ele era rápido para entender.

— Maomao... — disse alguém atrás dela, com tristeza. Ela encontrou seu pai ali. — Não faz essa cara.

— Que cara? — Ela levou as mãos ao rosto e percebeu que as têmporas estavam tensas, os lábios torcidos de forma feia. — Ah. Desculpa — disse ao subordinado.

Seu pai, por sua vez, olhou para o velho infame. — O Lakan não está se sentindo bem? — perguntou ele.

— Você consegue perceber? — o subordinado respondeu. — Em antecipação alegre a este torneio, ele tem estado... de forma muito atípica, devo dizer; da maneira mais estranha; é uma história verdadeiramente inacreditável, sim… mas o Mestre Lakan tem trabalhado sem parar.

Maomao ficou em silêncio. Quão pouco aquele desgraçado normalmente trabalhava?

— Normalmente, ele chega ao escritório por volta do meio-dia e já vai embora antes do pôr do sol, mas, ultimamente, tem ficado na mesa tanto quanto qualquer outro… e nem sequer tem tirado cochilos!

— O rapaz está realmente se esforçando, então. Normalmente, ele passa metade do dia dormindo — comentou Luomen. Então, o que estava acontecendo era que aquele esquisito finalmente estava assumindo uma carga de trabalho normal.

O pai dela continuou olhando fixamente na direção do estrategista. Evidentemente o excêntrico parecia fatigado, embora Maomao não conseguisse ver. Ele ficava tão concentrado nos jogos de Go que era difícil notar.

— Acho que amanhã ele volta ao trabalho, mas posso pedir que lhe concedam um tempo para dormir? Quando ele não descansa o suficiente, sua capacidade de julgamento diminui drasticamente — disse Luomen.

— Julgamento? Ele não só fica se debatendo normalmente? — resmungou Maomao, provocando um olhar melancólico de seu pai. Ele sempre teve um fraco por aquele excêntrico.

— Vou dar uma olhada lá fora, Maomao — disse ele.

— Certo. Eu chamo se acontecer alguma coisa. — Ou aceno para o soldado mais próximo. Maomao imaginava que ela e seu pai estavam ali porque Lahan tinha calculado que serviriam como barreira útil contra o estrategista. O velho estava se comportando por enquanto, e Luomen achava mais importante ver se alguém lá fora precisava de ajuda. — Vai devagar, tá? Tem muita gente lá fora.

— Vou ficar bem. — Era fácil dizer, mas seu pai tinha um joelho ruim e andava com bengala. Ela comeu um bolinho lunar e ficou preocupada se ele não iria tropeçar na multidão.

— Eles deviam ter colocado biscoitos de arroz também — disse ela. O bolinho era gostoso, mas doce demais. Maomao voltou a preparar bebidas com mel, ainda desejando algo salgado.

Já era tarde, e os números eram: três pessoas passando mal por focarem demais nos jogos, duas que começaram brigas por acusações de trapaça e uma criança que caiu ao esbarrar em um espectador distraído. O fluxo de pessoas no teatro ia e vinha. Alguns apareciam duas ou três vezes.

— Tem certeza de que ele não está trapaceando? — sussurrou Maomao para Lahan depois de admitir um homem pela quarta vez.

— Nada disso — respondeu Lahan, organizador da festa, claramente satisfeito consigo mesmo.

Porque você está lucrando, com certeza. A taxa de entrada era pequena, mas ele devia ter outras formas de recuperar o investimento. Maomao franziu a testa para o homem de cabelo desgrenhado e óculos redondos. — E ainda me faz trabalhar de graça.

— Não, você vai ser compensada. Já confirmei que estamos no lucro. — Então ela tinha acertado sobre o bom humor dele. — Aquele homem que você acabou de admitir é profissional. Ganhar três jogos contra amadores é algo simples para ele. Embora ele esteja jogando em cantos de bar para ganhar dinheiro de bebida.

— Hum. — Maomao demonstrou total desinteresse conferindo o estoque de pães e xícaras de chá.

— Você podia parecer mais interessada na conversa, sabe? Não podia soltar um “Uau, sério?!” ou “Você sabe de tudo mesmo!”? Talvez “Esse é meu estimado irmão mais velho!” Cadê o carinho?

— Você realmente acha que se sentiria elogiado se eu dissesse essas coisas?

— Ponto para você. Eu me sentiria completamente ridicularizado.

O que, para Maomao, significava que era melhor não fingir elogios vazios. — Não importa. Não acho que você seja do tipo que baixa a guarda para alguém se insinuar assim.

— Uma irmãzinha bastante perspicaz.

Maomao ignorou. Ele tinha saído do ventre da mãe já falando, ela sabia que, se discutisse, ele não pararia mais.

Lahan, aparentemente desapontado, abriu os braços e deu de ombros. — O negócio dele pode até ser ganhar apostas em jogos de Go agora, mas ele já foi um instrutor de altíssimo nível — disse. No passado, como Maomao de alguma forma já esperava.

— Deixa eu adivinhar. Algum velho inútil acabou com ele e ele perdeu o emprego.

— Acertou em cheio. Aparentemente, um figurão que queria derrubar meu honrado pai induziu o instrutor a jogar contra ele, e o resultado foi que o homem perdeu feio.

— Que pena. — Devia ser desmoralizante lutar tanto para subir só para ser derrubado de novo. Se realmente custava dez moedas de prata desafiar o estrategista, aquele homem podia falir.

De repente, Maomao sentiu um mau pressentimento. — Não me diga que a multidão de desafiantes deste torneio é composta em grande parte ou totalmente por pessoas com rancor contra o velho? — Isso explicaria a necessidade de tanta segurança.

— Você está meio certa. Alguém pode tentar algo contra ele a qualquer momento, é por isso que os guardas nunca descansam, mas, contanto que ninguém o esfaqueie direto no coração e o matem com um único golpe, meu honrado tio deve conseguir fazer algo para salvá-lo.

— De todas as razões idiotas e triviais para chamar meu pai! — Ela pisou com força nos dedos do pé de Lahan.

— Ai! Ai ai ai ai! Para com isso!

Percebendo que outro ferimento só aumentaria sua carga de trabalho, Maomao cedeu. — E qual é a outra metade? — perguntou ela.

Lahan segurou o próprio pé com cuidado e fez questão de esfregar os dedos machucados enquanto dizia: — Só o Sábio do Go tem uma chance realista de vitória contra meu pai nesse jogo. Se algum outro jogador conseguisse derrotá-lo, mesmo que precisasse usar este torneio para isso, certamente chamaria a atenção dele.

— Chamar a atenção dele. Sim.

Eles estavam lidando com um homem que via o rosto das pessoas como nada além de pedras de Go. Até a ideia de que ele pudesse se lembrar de alguém já era suficiente para ser explorada.

— Bem, esse boato ganhou vida própria — disse Lahan, estreitando ainda mais os olhos já pequenos atrás dos óculos. — Até que começaram a dizer uns aos outros que, se você derrotasse Kan Lakan em uma partida de Go, ele concederia qualquer pedido.

A mandíbula de Maomao caiu e ela não conseguiu fechá-la. — Eu nunca ouvi nada tão absurdo na minha vida! Quem diabos inventou isso? E de onde diabos tiraram isso?

— Quem sabe. — Lahan não chegou a encará-la, o que deixou Maomao praticamente certa de que ele era a origem do boato. Considerando que era o dinheiro dele preso nesse projeto, parecia que ele estava disposto a qualquer coisa para recuperar o investimento.

— E olha só quantos miseráveis gananciosos acreditaram nessa história — resmungou Maomao. Nesse exato momento, um novo competidor entrou.

— É aqui que eu me inscrevo? — disse o recém-chegado, e sua voz era como música celestial descendo do céu.

Muito em silêncio, Maomao ergueu o olhar e encontrou um homem usando uma máscara de aparência séria. Os cantos dos olhos estavam enrugados em um sorriso. Sobre a mesa de recepção, ele havia colocado as placas dos oponentes, prova de vitória em três partidas. Lahan lançou um olhar cuidadoso para o homem. Ele provavelmente sabia quem era, e parecia achar uma pena a máscara.

— Aqui. Seu prêmio de participação. — Maomao lhe entregou chá e um bolinho lunar, mas não conseguia afastar uma sensação de desconforto. Ela se lembrou do que ele tinha dito da última vez que se encontraram.

— Vou aceitar o chá, mas vou recusar o lanche. Meu assistente vai trazer algo para mim; apenas deixe para depois.

— Certo — disse Maomao depois de um instante. Era tudo o que ela podia dizer, sabendo com quem estava falando. — Então, por favor, alinhe-se ali e espere uma partida.

Lahan estava radiante. Se havia um rosto bonito por perto, ele não se importava se pertencia a homem ou mulher. — Você está certa. Miseráveis gananciosos… e ainda por cima ingênuos — disse ele, olhando para ela como se dissesse: “E então o que acha?” Ele parecia tão satisfeito consigo mesmo que ela se viu obrigada a pisar nos dedos dele outra vez.

Em sua primeira partida no teatro, o homem mascarado, também conhecido como Jinshi, acabou sendo colocado contra um homem de meia-idade mais corpulento, que lançava olhares desconfortáveis para o oponente mascarado ao longo do jogo. Jinshi venceu com facilidade.

— Ouvi dizer que ele não era ruim, mas parece que é muito bom — comentou Lahan.

— Você acha? — disse Maomao. Ela havia servido Jinshi por um tempo, mas não lembrava dele jogando Go com tanta frequência. Ele era competente o bastante para conhecer o básico, talvez um pouco acima da média. — Tem certeza de que esse cara contra quem ele jogou não era só ruim? — Jinshi tinha vencido tão facilmente que quase dava para suspeitar de trapaça por parte do homem mais velho.

— Sim, talvez. Um sorteio favorável — disse Lahan.

Jinshi fez uma reverência educada sobre o tabuleiro e seguiu para o próximo adversário. — Você não vai punir o cara por trapaça? — perguntou Maomao.

— Se ele quiser voltar, vai ter que pagar a taxa de inscrição de novo. Por que eu afastaria uma vaca leiteira?

Maomao não respondeu. Lahan não tinha esperanças mesmo.

— Ah, estou brincando — disse ele. — Seja lá como ele chegou aqui, se pagar a moeda, pode enfrentar meu pai. Qual é o problema?

— Achei que eles precisavam vencer antes de você tirar ainda mais dinheiro deles.

— Partidas de treino são diferentes de uma partida oficial. Embora seja uma questão em aberto se meu pai entende o que significa ensinar. Não se preocupe, vou garantir que a En’en jogue outra vez outro dia. — Lahan lançou olhares rápidos na direção do estrategista.

— Outro dia? Achei que seria mais tarde hoje, depois que tudo acabasse.

— Sim, bem… acho que ele está chegando no limite. Meu palpite é que ele vai dormir assim que o torneio terminar. — Lahan começou a fazer contas mentais.

O velho de Maomao tinha dito que aquele excêntrico dormia metade de cada dia, mas apagar assim que terminasse o trabalho? Uma criança conseguia ficar acordada melhor do que isso. Ela já tinha ouvido falar de uma doença que fazia as pessoas caírem no sono de repente, mas não parecia ser o que estava acontecendo com aquele velho.

Enquanto isso, Lahan murmurava para si mesmo. — Se dissermos a quem já pagou que ele virá outro dia… não, que iremos até cada um individualmente… isso seria um problema. Tem que haver uma forma de apagá-lo e depois acordá-lo de novo… não, isso não vai funcionar…

— Cegado pelo brilho do dinheiro, hein? — Maomao lançou um olhar exasperado e voltou a observar Jinshi, que já tinha encontrado o próximo oponente. — Ele não vai ganhar desse — disse ela: era o profissional de antes.

Ela observava a partida, pensando vagamente o que o havia levado a entrar naquele torneio. Uma multidão se formava ao redor do tabuleiro; um homem de máscara despertava curiosidade.

Maomao sabia um pouco de shogi, mas não tanto de Go, então se contentava em fazer check-in e observar quem passava mal. Queria que as pessoas tivessem mais cuidado antes de sair… pensou, ao notar migalhas em vários assentos. Estava limpando quando ouviu um suspiro decepcionado vindo dos espectadores ao redor de Jinshi. Grande parte da multidão era de jogadores que já tinham perdido qualquer esperança de vitória.

Maomao foi até Lahan, que havia se infiltrado entre eles. — O que aconteceu? — perguntou ela.

— Ele jogou bem, mas pegou o adversário errado. Agora está sendo pressionado.

Em outras palavras, Jinshi tinha perdido.

— Entendo — disse Maomao, assentindo. Era mais ou menos o que ela esperava. — Nenhuma chance de virada?

— É possível, mas improvável, desde que o oponente não cometa erros sérios. E não acho que esse tipo de pessoa vá cometer um erro de principiante para explorar…

Assim que Lahan disse isso, um burburinho percorreu a multidão. A máscara, tão fora de lugar ali, foi retirada. Cabelos negros lustrosos se espalharam no ar, acompanhados de um aroma de perfume embutido em roupas elegantes. Era como uma ninfa celestial descendo das nuvens… uma comparação ridícula, mas inevitável, porque era verdade.

Já faz um tempo que não vejo isso, pensou Maomao, observando uma cena que já tinha visto à exaustão no palácio interno: Jinshi em seu estado mais brilhante. Houve uma inspiração coletiva; as pessoas queriam reagir, mas o som não saía. A figura diante deles parecia uma criatura do céu, vista apenas em pinturas.

Ele era tão belo que, à primeira vista, poderia ser confundido com uma mulher, mas o pomo de Adão e os ombros largos o denunciavam. Havia também uma ponta de decepção no meio do espanto: na bochecha direita de Jinshi havia uma cicatriz que nunca desapareceria, como um arranhão em uma joia perfeita.

A beleza de Jinshi já era excepcional mesmo entre as flores do palácio interno. Ali, era suficiente para deixar todos em silêncio absoluto.

Eu tinha esquecido como a aparência dele é praticamente perigosa para a saúde. Quando Jinshi colocou uma pedra no tabuleiro com um clique firme, parecia o próprio ideal de um homem jogando Go. A multidão reagia a cada movimento com “ahh!” admirado. Maomao não sabia o que o havia levado a tirar a máscara, mas aquilo claramente desestabilizava o adversário. O outro homem estava em controle até então, mas agora estava pálido.

Jinshi tinha virado o jogo? Maomao refletiu. Não exatamente ainda. Mas se era verdade que o adversário já tinha ensinado Go à nobreza, então ele conhecia o palácio. Talvez tivesse reconhecido Jinshi, ou pelo menos suspeitado, pela reputação, de quem era o homem com a cicatriz.

Ainda há chance de vitória ali.

O público em geral ainda não parecia ter entendido quem ele era. Rumores sobre o irmão mais novo do imperador ter uma cicatriz na bochecha direita circulavam, mas ninguém esperava que ele estivesse ali jogando Go. Alguns, porém, reconheceram, e seus rostos mudaram de cor, ficando pálidos ou vermelhos. Mas ninguém conseguia falar; apenas abriam e fechavam a boca como peixes.

Se ele não cometer um erro sério… pensou Maomao, mas então o oponente cometeu exatamente isso.

Com o rosto sem cor e os dedos suando, o homem abaixou a cabeça. — Eu perdi — disse. Estava tremendo, por causa do erro ou pelo medo de ter ofendido Jinshi sem querer?

Me sinto meio mal por ele, pensou Maomao, mas só pôde oferecer simpatia silenciosa.

Por que Jinshi estava usando aquela máscara? Se não era para mantê-la, por que simplesmente não usar? Será que ele tinha feito isso só para revelação e desestabilizar o adversário no momento certo?

Isso é um truque sujo, pensou Maomao, mas Jinshi venceu a segunda partida. Vitória é vitória; ele não quebrou nenhuma regra.

Por mais sujas que fossem suas táticas, Jinshi sempre foi assim. Ele já tinha usado sua aparência ao máximo no palácio interno, fazendo damas e eunucos se dobrarem por ele. Por que ele deveria desprezar tais métodos só porque agora detinha um pouco de poder no mundo?

Ele está realmente aqui para vencer, percebeu Maomao. Será que ele estava tão desesperado por uma partida com o estrategista excêntrico? Ela lançou um olhar para ele: ele realmente tinha acreditado naquele boato do Lahan, tinha?

Um arrepio percorreu sua espinha. Ela se virou e viu um velho de barba rala olhando em direção ao palco. Era o estrategista.

— Afaste-se, Maomao, por gentileza. Meu pai não consegue se concentrar com você aí — disse Lahan.

— Certo.

— Mas ele já aprendeu a distinguir o Príncipe da Lua.

— Você quer dizer que antes não conseguia?!

— Acho que é a cicatriz que entrega.

Era um fardo não conseguir distinguir as pessoas.

Maomao voltou para a área de espera, com os materiais de limpeza na mão. Havia outro jovem recém-saído de vitórias no balcão de recepção, então ela lhe serviu chá e um lanche. Ele não devia ter mais do que vinte anos, e a ingenuidade estava escrita em seu rosto. Maomao o viu fechar o punho, os olhos brilhando; ele claramente acreditava que sua vitória estava apenas começando.

Tenho pena desse cara, pensou Maomao. Ele não tinha como saber que sua próxima partida seria contra alguém da mesma idade, brilhante como um sol ofuscante, que o quebraria como um graveto seco e o mandaria embora com o espírito em frangalhos.

[Noelle: Gente kkkkkkk Eu jurava que ele ia ganhar sem trapaça kkkkkk]

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Atenciosamente,

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Fim da leitura

Capítulo 8.16 concluído

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