Diários de uma Apotecária — Capítulo 8.18: Volume 8 – Capítulo 18 – Capítulo 18: O Dono dos Dedos

Diários de uma Apotecária
Cap. 8.18
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Diários de uma Apotecária

Volume 8 – Capítulo 18 – Capítulo 18: O Dono dos Dedos

Capítulo 8.18

4.720 palavras~21 min de leitura

O intruso enfurecido era o pai dos infames trigêmeos; seu nome era Bowen. Os caracteres do nome significavam algo como "especialista culto", mas ele estava longe de ser a pessoa calma e ponderada que o nome sugeria. Sua gritaria era tão perturbadora que os competidores foram obrigados a interromper a partida. Bowen parecia ciente da presença de Jinshi e do estrategista excêntrico, mas considerava que sua própria situação era mais importante.

— Estes são os dedos do seu filho? — perguntou Luomen. Os espectadores tinham sido mandados para casa depois de toda a confusão, e agora apenas a equipe do evento permanecia no local. Maomao não conseguia imaginar que o estrategista excêntrico normalmente teria tolerado uma interrupção daquelas. Talvez ele realmente não estivesse passando bem. Em algum momento, ele acabou adormecendo com o rosto apoiado sobre o tabuleiro.

Seu assistente cuidava dele em um canto do teatro naquele momento. Ele olhou para Maomao como se implorasse para que ela assumisse os cuidados do estrategista no lugar de seu pai, mas ela respondeu com um olhar tão cortante que o fez se calar. Em vez disso, En'en e Yao passaram a cuidar do estrategista. Era discutível se elas estavam ou não "envolvidas" no evento, mas, ainda assim, ali estavam. Infelizmente, isso significava que Maomao também não podia simplesmente ir embora.

Yao parecia prestes a desmaiar ao ver os dedos sobre a mesa. Ela já estava se acostumando a lidar com ferimentos, mas membros decepados ainda eram difíceis para ela. Entre a interrupção e o estado do estrategista excêntrico, parecia inevitável que a conclusão da partida fosse adiada.

— Não se preocupem, eu registrei a posição do tabuleiro — disse Lahan a Jinshi. — Continuaremos quando as coisas se acalmarem um pouco.

Jinshi não pareceu totalmente satisfeito com isso. Ele estava a um passo da vitória, mesmo tendo sido obrigado a explorar a própria aparência e recorrer a todos os truques impiedosos que pôde para chegar até ali.

Por outro lado, nem mesmo o estrategista excêntrico deve conseguir se recuperar de uma desvantagem dessas. Lahan parecia torcer para que seu "honrado pai" perdesse. Era o tipo de pessoa que venderia o próprio pai e o próprio avô pelo preço certo; então, o que seria um pai adotivo para ele? Talvez eu devesse investigar isso, pensou Maomao. Não... Parecia que seria uma história muito longa.

Ela estava mais preocupada com Bowen, que continuava descarregando sua fúria sobre seu pai, enquanto os próprios filhos tentavam contê-lo.

— Talvez você pudesse explicar exatamente o que está acontecendo — disse Jinshi. Os três invasores obviamente não pertenciam àquele lugar, e, se Bowen pretendia partir para a violência, não podia reclamar de ser contido. Jinshi permanecia sentado diante do tabuleiro, pego completamente de surpresa por aquela reviravolta. Sua partida tinha ido por água abaixo, e ele parecia se esforçar para compreender o que estava acontecendo. — Vamos ouvir. — Sua voz ficou mais firme. — Você poderia muito bem ter jogado um balde de água fria em mim. Imagino que tenha um bom motivo para isso. — Havia um tremor de irritação em sua voz, algo incomum nele.

Difícil culpá-lo, depois de toda a preparação que fez para isso.

Apesar da própria fúria, Bowen ainda conservava lucidez suficiente para não desafiar Jinshi. Estava tendo dificuldade para falar, então um de seus filhos falou por trás dele.

— Não conseguimos encontrar meu irmão mais velho. Não encontramos o er ge!

Er ge: isto é, "segundo irmão", o filho do meio entre os três. Era justamente ele quem havia sido acusado recentemente de agredir uma jovem. Como aquele homem se referia ao segundo filho como seu irmão mais velho, ele só podia ser o caçula.

— Ninguém o vê há três dias. E, esta manhã, este pacote chegou à nossa casa — disse o outro filho, que, por eliminação, só podia ser o mais velho.

Ele abriu o pacote novamente. Os dedos pertenciam a um homem adulto, o segundo filho desaparecido, se o que eles diziam era verdade. O primogênito tinha um arranhão vermelho na palma da mão. Será que havia se machucado?

— Deixe-me examinar isso — disse Luomen.

— E quem diabos é você?! — exigiu Bowen, mas Jinshi rosnou: — Cale a boca e deixe-o examinar. — Ele lançou um olhar tão severo para Bowen que o homem se calou.

Maomao não estava exatamente envolvida naquilo, mas conhecia as circunstâncias. O mesmo valia para Yao e En'en. Mas havia outra pessoa ali também. E não tenho certeza se gosto da ideia de deixá-lo ficar por aqui.

Era o chamado Sábio do Go, que observava a partida de Jinshi. Sentado em sua cadeira, parecia completamente desinteressado. Dava a impressão de estar tão acima de toda aquela situação que Bowen e seus filhos sequer dirigiam a palavra a ele. Talvez quisessem, provavelmente havia muitas coisas que gostariam de pôr para fora, mas, com Jinshi observando, sabiam que precisavam se controlar e explicar tudo.

Bowen respirou fundo antes de começar sua história.

— Graças a vocês, meu filho foi preso. E, para piorar, um monte de gente apareceu fazendo acusações sobre coisas que ele supostamente fez no passado.

Bom, e de quem é a culpa disso? Os outros dois filhos desviaram o olhar ao mesmo tempo. Sem dúvida haviam tentado colocar parte das próprias maldades nas costas do irmão do meio. Bowen deveria direcionar suas reclamações ao estrategista excêntrico, afinal, foi ele quem arrastou o velho de Maomao para essa história. Ou talvez tivesse pensado em fazer isso, mas perdeu a coragem e resolveram descontar tudo em Luomen.

Pessoalmente, eu teria muito mais medo de arrumar briga com o meu velho.

Bowen era um pai preocupado com o filho, mas toda aquela ansiedade paterna chegou tarde demais. Durante toda a vida, ele sempre justificou e protegeu os filhos das consequências de suas libertinagens. Será que nunca percebeu a lição que estava lhes ensinando?

— E você acha que alguém os sequestrou? — perguntou Luomen.

— O que mais poderia ser?! — gritou Bowen, batendo na mesa.

— Você tem alguma ideia de quem poderia ter feito isso?

— Como eu vou saber? Por acaso é minha obrigação vigiar meu filho a cada maldito minuto?

Talvez devesse ser, pensou Maomao. Ela olhou para os dedos. As extremidades decepadas já estavam ficando negras. Talvez ainda fosse possível recolocá-los se estivessem frescos...

Por outro lado, ela se pegou pensando se eles não tinham sido cortados depois da morte do dono. Já tinha ouvido dizer que o comportamento de um corpo humano durante o esquartejamento variava conforme a pessoa estivesse viva ou morta. Ela imaginava que seu pai seria capaz de perceber isso, e a expressão pesarosa em seu rosto enquanto examinava os dedos parecia responder à questão.

Havia outra coisa também.

As unhas mudaram de cor. A base das unhas assumiu um tom azul-escuro.

Em silêncio, Maomao puxou as mangas de Yao e En'en.

— O que foi? — perguntou Yao.

— Só pensei que pelo menos deveríamos servir um chá. Vocês me ajudam?

— Ah, boa ideia.

Na verdade, não precisavam de três pessoas para preparar chá, mas Maomao sabia que, se chamasse Yao, En'en inevitavelmente iria junto, e, se chamasse En'en, Yao faria cara feia por ficar de fora. Então, as três foram.

— Será que temos chá? Eu só lembro de um monte de água com gengibre — comentou Yao.

— Temos, mas acho que uma coisa um pouco melhor seria mais apropriada. — En'en lançou um olhar para Jinshi. Ela sabia quem ele era, então jamais serviria algo inferior ao que ele merecia. Ela não tinha nenhum carinho especial por ele, mas era uma dama da corte competente o bastante para demonstrar o devido respeito.

— Ele vai ficar aqui? — perguntou Yao, olhando também para Jinshi.

— Meter o nariz nos assuntos dos outros é praticamente o hobby dele, então acho que vamos ter de aguentá-lo — respondeu En'en.

Ela realmente não tinha piedade. Mas, enquanto Maomao pensava no quanto aquilo era uma observação fria, lembrou-se das muitas vezes em que ela mesma havia dito coisas parecidas.

— Temos bastante suco. Jarros cheios, todos para o Mestre Lakan. Não sei se eram destinados aos jogadores ou aos espectadores, porém.

— Suco? — Maomao coçou o queixo. Aquilo talvez fosse perfeito, na verdade. — Tem suco de uva?

— Sim, acho que sim. Deve ser dos bons também. Estava numa linda garrafa de vidro — respondeu En'en, espiando atrás do palco.

— Então vamos levar esse. — Maomao seguiu para a sala de descanso atrás do palco.

— Ah... Não deveríamos pedir permissão primeiro? — perguntou Yao.

— Você mesma disse que ele tem bastante. Ele não vai sentir falta de uma garrafa. Principalmente porque está dormindo.

— Bem, se Maomao diz que tudo bem, acho que podemos confiar nela — disse En'en.

Com a concordância dela, as três começaram a procurar entre os inúmeros presentes e quitutes até encontrar a bebida escolhida.

Quando voltaram, trazendo um copo para cada pessoa, descobriram que a discussão continuava sem sair do lugar. Bowen ainda berrava, Luomen continuava ouvindo em silêncio, e Jinshi aparentemente não fazia nada além de permanecer sentado. Mesmo assim, pelo modo como brincava distraidamente com a tigela de pedras de Go, parecia estar pensando em seu próximo movimento.

O Sábio de Go continuava com uma expressão indecifrável. Maomao ainda não fazia ideia do motivo dele estar ali. Lahan também permanecia no local, mas estava ocupado tentando encerrar tudo relacionado ao torneio. Não apenas a organização e limpeza do local, como também quebrava a cabeça para descobrir o que escrever às pessoas que haviam reservado partidas de instrução com o estrategista (e já haviam pago pelo privilégio).

— Aqui estão.

Yao e En'en começaram a distribuir as bebidas.

— Isso é álcool? — perguntou Lahan, desconfiado. Então ele aproximou o copo do nariz e deu uma cheirada cautelosa, percebendo que era apenas suco. Ele não suportava bebida alcoólica melhor do que o estrategista excêntrico. Os copos usados eram próprios para vinho, então não dava para culpá-lo pela dúvida.

En'en aproximou-se para entregar um copo ao filho mais velho de Bowen. No instante seguinte, o copo voou pelos ares. Líquido vermelho espirrou para todos os lados, enquanto o copo de metal bateu no chão com um estrondo.

— Irmão! — exclamou o caçula, com uma expressão aflita.

En'en sequer vacilou, embora agora estivesse completamente encharcada de suco. Ainda bem que não foi a Yao, pensou Maomao. Só de imaginar o que En'en teria feito era assustador. Ela certamente não teria permanecido tão impassível quanto estava agora. Claro, ela jamais teria deixado sua jovem senhora chegar perto de um mulherengo conhecido desde o começo.

— Mil perdões — disse ela, com tranquilidade. — Eu não sabia que não seria do seu agrado.

Então começou a limpar a sujeira. De propósito, Maomao entregou copos a Bowen e ao outro filho. Eu sabia, pensou ela enquanto fazia isso. As rugas no rosto de seu pai tinham ficado mais profundas, e sua testa pendia com tristeza. Ele jamais deixaria de notar aquilo que também havia chamado a atenção dela.

Luomen soltou um longo suspiro e levantou-se da cadeira.

— Você desgosta tanto assim de vinho de uva? — perguntou ele ao filho mais velho.

— Não. — respondeu o homem, mas ele demorou um pouco para responder e soou desconfortável.

— Eu sei que é a sua bebida favorita — comentou Bowen, lançando-lhe um olhar curioso. Em seguida continuou: — Mas isso não importa agora. Encontre meu filho! Ou então eu...

— Não há necessidade de ameaças. Eu já sei onde seu filho está. — Luomen balançou a cabeça e ergueu o olhar.

— O-Onde?! Me diga!

— O rapaz que desapareceu... é o seu segundo filho, correto?

— Isso mesmo!

Até Maomao começou a sentir o peso da situação aumentar. Por mais escândalo que Bowen estivesse fazendo, ele realmente acreditava que seu filho estava desaparecido. Mas havia uma coisa fundamental que ele não estava conseguindo compreender.

Ele nem consegue distinguir os próprios filhos!

Luomen apontou para o filho mais velho, o mesmo que havia derrubado a taça de vinho.

— É melhor você contar a verdade agora. Até quando pretende continuar fingindo ser seu irmão mais velho antes que alguém perceba?

Os dois irmãos restantes empalideceram.

Maomao vasculhou a memória. Fazia pouco mais de um mês que haviam interrogado os três irmãos. Ela estava ocupada anotando tudo, mas se lembrava de que o filho mais velho estava com uma aparência ruim e, de vez em quando, estremecia, abrindo e fechando a mão involuntariamente. Na época, ela não deu muita importância; apenas presumiu que ele estivesse doente.

— O que está acontecendo aqui? — perguntou Bowen, olhando para os filhos, genuinamente sem entender.

— Foi seu filho mais velho quem desapareceu. Acho que você deveria pedir a esses dois que expliquem os detalhes — respondeu Luomen.

— Que absurdo! Acha que vai escapar inventando esse monte de besteiras?! — Ele se levantou e tentou agarrar o pai de Maomao, mas um soldado interveio e o impediu.

— Ele está certo! O que vocês estão dizendo é um absurdo! — gritou o filho mais novo, embora seu rosto estivesse se contraindo nervosamente.

Antes que pudesse se conter, Maomao deu um passo à frente. — Muito pelo contrário. É a verdade... e vocês dois sabem disso melhor do que ninguém. — Merda, agora eu me meti nisso, pensou, tentando discretamente dar meio passo para trás.

— Talvez pudessem explicar sobre o que exatamente estão falando, para que até alguém com a minha limitada compreensão consiga entender — disse Jinshi, finalmente voltando à conversa. Ao lado dele, o Sábio de Go assentiu com a cabeça. Jinshi provavelmente percebeu que nada seria resolvido sem sua intervenção. E, de fato, isso fez todos pararem e recuperarem a compostura.

— Meus sinceros pedidos de desculpas. Nunca imaginei que você estivesse aqui, Príncipe da Lua — disse Bowen.

— Pois estou. E você interrompeu minha partida. Mas tudo bem; neste momento, a melhor forma de satisfazer minha curiosidade é descobrir exatamente o que está acontecendo. Entendo o que estão tentando dizer, mas vou precisar que fique calado por um instante. Essa conversa não vai chegar a lugar algum desse jeito. E vocês dois, aí atrás, nem pensem em tentar escapar. — Quanto a isso, Jinshi foi absolutamente claro. — Luomen. Se estiver relutante em falar, talvez permita que sua aprendiz faça isso? Ela é bastante capaz e acredito que ela já tenha chegado à resposta.

Maomao não acreditou no que estava ouvindo.

— E, como bom professor, naturalmente corrigirá qualquer erro dela, caso ela esteja enganada — acrescentou Jinshi.

— Maomao… — Seu velho lançou-lhe um olhar que dizia claramente que ela não precisava fazer nada que não quisesse.

Eu poderia simplesmente deixar isso com ele. Mas seu pai era um homem gentil. Gentil até demais. Ele sentiria compaixão até pelos suspeitos... mesmo que fossem dois irmãos imprestáveis. Luomen era perspicaz e talvez encontrasse alguma circunstância atenuante que Maomao sequer havia considerado, algo que justificasse o que os irmãos fizeram. Ou talvez simplesmente se recusasse a contar a verdade a Bowen. Assim como havia feito no caso da sacerdotisa de Shaoh...

Maomao deu um passo à frente. — Muito bem.

Pensando por onde começar, ela se virou para os dedos. O dono deles já estava morto. Se por causas naturais ou assassinato... bem, talvez fosse melhor começar por aí.

— Gostaria que prestassem atenção nas unhas — disse ela. Elas estavam descoloridas, e várias linhas brancas eram visíveis. Dedos decepados, porém, não eram algo agradável de observar, nem mesmo para adultos. Yao parecia angustiada, mas mesmo assim olhou.

— A coloração das unhas indica contato com veneno — continuou Maomao. — Arsênico ou chumbo, muito provavelmente.

Assim como aconteceu com a dona da loja de maquiagens.

— Chumbo — repetiu Maomao, olhando para Bowen. — Seu filho mais velho gostava muito de vinho de uva, não é?

— Sim... Não posso negar — disse Bowen.

— E posso supor que os gostos dele eram... um tanto baratos?

Ela se lembrou das anotações que havia feito a pedido do pai. O filho mais velho havia mencionado que costumava beber em lugares baratos. E havia muito vinho barato e saboroso circulando pela cidade naquela época. Maomao esperava ter a oportunidade de prová-lo, mas, infelizmente, não conseguiu.

Se eu tivesse tomado um gole quando tive a chance...

Bem, talvez ela tivesse juntado as peças antes.

O vinho de uva ficava amargo quando armazenado por tempo demais. O mesmo processo de fermentação que produzia álcool, se continuasse indefinidamente, acabava transformando o vinho em vinagre. Vinhos transportados de terras distantes, após longas viagens, podem azedar. Mas o vinho vendido nos mercados era doce. Maomao olhou para Jinshi.

— Vinho misturado com chumbo fica doce, não é? — perguntou ele.

— Exatamente, senhor. — Ele claramente se lembrava da conversa que tiveram.

Daquele ponto em diante, Maomao precisaria especular. Seu pai não ficaria satisfeito, mas ela também não acreditava que ele a contradissesse. — Nos últimos meses, caravanas trouxeram enormes quantidades de vinho de uva do oeste. Com um volume tão grande, era inevitável que parte da carga estragasse.

— Onde quer chegar? Vá direto ao ponto! — interrompeu Bowen.

— Achei que tinha mandado ficar calado — retrucou Jinshi.

Maomao não queria simplesmente revelar sua conclusão; queria explicar como havia chegado até ela.

— O vinho estragado ficaria amargo e impossível de vender. Os comerciantes, que o compraram por um preço baixo, tentariam encontrar alguma forma de escoar a mercadoria. E se, por acaso, tivessem à disposição uma substância capaz de adoçar esse vinho?

Maomao observou todos os presentes. Seu pai sabia a resposta, mas preferiu permanecer em silêncio. En'en provavelmente também havia entendido onde Maomao queria chegar, mas estava ocupada observando Yao, que refletia profundamente. Foi Jinshi quem respondeu.

— Já resolvemos esse problema. Os comerciantes que usavam o pó de maquiagem para adoçar o vinho foram presos. A única quantidade restante deve ser a que chegou ao mercado antes das prisões.

— Trabalho rápido, senhor.

Foi ele quem decretou a proibição; era natural que tivesse ligado os fatos.

Misturando chumbo ao vinho, ele ficava mais doce. Os comerciantes conseguiam transformar duas mercadorias sem valor em um produto vendável: vinho barato e saboroso que agradava aos clientes. Provavelmente os consumidores não ficariam tão satisfeitos se soubessem que estavam sendo envenenados. Se bebessem o suficiente, os sinais do envenenamento começariam a aparecer nas unhas.

O filho mais velho já parecia indisposto quando Maomao o viu. Se continuasse bebendo aquele vinho depois disso, seu estado só poderia ter piorado. Já o filho do meio parecia perfeitamente saudável e, até onde Maomao conseguia lembrar, seus dedos não apresentavam nenhum sinal de consumo do vinho envenenado. Mesmo que sua memória não fosse perfeita, seu velho certamente se lembraria.

— As unhas humanas crescem cerca de três milímetros por mês. Quando registrei o depoimento dele, essas linhas brancas já deviam estar visíveis nas unhas desse rapaz — disse Maomao. Ela olhou para o pai. Ele parecia desconfortável, mas mesmo assim falou. — Um dos três rapazes escondia os dedos. Os outros dois não apresentavam nenhuma anormalidade nos dedos ou nas unhas.

— Havia alguma anormalidade nos dedos do segundo filho? — perguntou Jinshi.

— Não — respondeu Luomen. — Portanto, pelo menos podemos concluir que estes dedos decepados não pertencem a ele.

Aquilo ele afirmou sem a menor hesitação. Quanto aos dedos, era algo de que podia ter absoluta certeza.

— Seu filho mais velho parece ter estado bastante doente nos últimos meses. Pelo que descobri, ele faltava ao trabalho com frequência. — A observação veio de Lahan, que aparentemente investigou o histórico dos soldados em algum momento.

— É possível que os dedos pertençam a uma pessoa completamente sem relação com este caso, mas, dadas as circunstâncias, acho razoável supor que pertençam ao irmão mais velho de vocês. — disse Maomao olhando para os dois homens de rosto idêntico. — Talvez alguém o tenha confundido com o segundo filho e o sequestrado. Nesse caso... por que ele simplesmente não disse que estavam com a pessoa errada? — Ela fez uma expressão exageradamente intrigada.

Os dois homens permaneceram calados. Apenas trocaram olhares, evitando encarar Maomao.

— Vocês já estão prontos para admitir que foram vocês? — ela disse por fim.

— Eles?! Você acha que eles fizeram isso?! — exclamou Bowen. Pelo menos ele era fácil de entender.

— Acho. O que nos leva à pergunta: o que eles tinham a ganhar armando toda essa encenação? Talvez tenha algo a ver com o envolvimento deles na morte do próprio irmão.

No mesmo instante, todos começaram a falar ao mesmo tempo. Apenas Luomen permaneceu em silêncio, observando com seriedade os dois trigêmeos restantes.

— D-Do que você está falando? Isso não faz o menor sentido! — disse o suposto filho mais velho, que, na realidade, provavelmente era o filho do meio. Ele tentava fingir ignorância, porque sabia que, se admitisse que Maomao estava certa, tudo teria acabado. Bowen continuava olhando para ele, completamente incrédulo.

— Tenho uma pergunta. — disse alguém. Era o Sábio de Go, levantando a mão para chamar a atenção.

— Sim? — Como ninguém mais disse nada, Maomao respondeu como uma professora chamando um aluno na sala de aula.

— Se um trigêmeo começasse a se passar por outro, é plausível que o terceiro não percebesse?

— Excelente pergunta. Por mais parecidos que os três fossem, não acredito que conseguissem enganar uns aos outros sobre quem era quem. Mesmo que conseguissem confundir o próprio pai...

Aquilo foi uma alfinetada direta em Bowen.

É claro que, cedo ou tarde, a verdade provavelmente viria à tona. Por mais parecidas que três pessoas fossem, isso não significava que fossem idênticas em todos os aspectos.

— Posso presumir, então, que o irmão mais novo sabia que o irmão do meio havia assumido o lugar do mais velho?

— Eu diria que sim. — Maomao mantinha um dos olhos nos irmãos. Eles pareciam querer contestar, mas não encontravam as palavras certas.

— Por quê?

Acho que o senhor já sabe a resposta, pensou Maomao. Ninguém se tornava um mestre de Go sendo tolo. A resposta para aquela pergunta era simples o bastante para que todos a compreendessem. Ela suspeitava que ele a fez de propósito.

— Porque, se o segundo filho desaparecesse, todos os pecados deles seriam apagados. Não é?

Ela olhou para o irmão mais velho... não, para o irmão do meio. Ele lançou um olhar feroz para ela, mas não havia nada que ele pudesse dizer. Apenas cerrou os punhos.

— Isso… Isso é verdade? — perguntou Bowen olhando para os filhos.

— Você realmente não consegue perceber? Você realmente não consegue distinguir um dos seus filhos dos outros? — disse Maomao.

Bowen permaneceu encarando os três em silêncio.

— Maomao... — disse Luomen.

— Perdoe-me. — disse ela, dando um passo para trás.

— Nesse caso, os dois irmãos restantes devem saber onde está o irmão mais velho — disse Jinshi. Ao ouvir aquilo, eles se viram obrigados a falar. Esse era o poder da beleza de Jinshi.

— O... o que aconteceu com nosso irmão… — Foi o terceiro filho quem falou. — E-Eu não fiz nada! Foi o er ge!

— O quê?! Traidor! — O segundo filho agarrou o caçula pela gola.

— A culpa é toda sua! — gritou o irmão mais novo. — Foi você quem estragou tudo ao mexer com aquela garota! Por que não escolheu alguém que não pudesse nos causar problemas?!

— Você fala como se fosse melhor! Nunca consegue escolher uma vítima que não acabe virando um problema para nós!

Que bela rivalidade entre irmãos.

— Então devo entender que vocês dois mataram o irmão mais velho — disse Maomao.

— Não fui eu! Foi ele!

— Não, foi ele quem fez isso!

Já nem dava para saber quem estava acusando quem. Enquanto isso, Luomen voltava a examinar os dedos. Ele havia percebido outro detalhe. Além das linhas brancas, havia sujeira debaixo das unhas. Maomao lançou um olhar curioso para os dedos. À primeira vista, pareciam apenas sujos, mas, observando melhor, percebeu que havia pele sob as unhas.

— Acho que vocês não têm mais como se safar dessa só com palavras. — Maomao segurou a mão do segundo filho. Havia um arranhão vermelho que percorria toda a palma até o pulso. Como se alguém o tivesse arranhado com as unhas.

— E-Eu não o matei! Ele caiu sozinho! — O rosto do segundo irmão estava completamente distorcido. Ele encarava o suco de uva derramado.

— Foi o vinho... Foi o vinho! Havia alguma coisa errada com o da ge...

O terceiro filho explicou, hesitante. A história acabou surgindo aos poucos, entre um e outro. O irmão mais velho vinha passando mal há algum tempo e também andava extremamente irritadiço.

— De repente ele explodia de raiva ou começava a gritar. Mas não parava de beber.

Às vezes, a intoxicação podia se manifestar como alterações de personalidade. O estado das unhas indicava um envenenamento por chumbo já bastante avançado.

— Deixa o da ge podia fazer o que quisesse. Não era problema meu. Mas ele fez um escândalo tão grande que chamei meu irmão e fomos até o anexo onde ele morava.

O irmão mais velho estava em seu quarto, completamente fora de si. Assim que os outros dois entraram, ele se lançou sobre eles.

— Eu o empurrei antes mesmo de perceber o que estava acontecendo, mas ele veio para cima de mim de novo. — Foi nesse momento que ele recebeu o arranhão na palma da mão. — Eu só estava tentando mantê-lo longe de mim... Só isso!

O irmão mais velho caiu para trás e bateu a cabeça na quina de uma mesa.

— Mas que diabos?! — Bowen exclamou, agarrando seu segundo filho. — Você tem noção do que fez?!

— Do que eu fiz? Isso aconteceu porque você nos abandonou para resolver tudo sozinhos!

Nenhum dos dois parecia exatamente digno de elogios.

— Eu ia chamar alguém. Mas o er ge disse… — O terceiro filho olhou para o segundo.

Vamos dizer a todos que quem morreu fui eu. E eu vou assumir o lugar do nosso irmão mais velho.

Eles precisavam de provas para tornar aquilo convincente. Enterraram o corpo, mantendo apenas os dedos, que cortaram. Depois bastava escrever uma carta de ameaça. Haveria inúmeros suspeitos possíveis para os investigadores. Toda a situação ficaria envolta em confusão.

E foi exatamente isso que fizeram: cortaram os dedos do irmão e enviaram a carta para a própria casa.

Mas precisavam escolher que parte enviar. Talvez não fizesse diferença. Mesmo que tivessem enviado a cabeça ou os pés, ainda seria possível identificar os sintomas. Talvez não, se tivessem escolhido as orelhas.

Mais cedo ou mais tarde, eles acabariam sendo descobertos. Eles devem ter sentido que estavam completamente encurralados. Maomao sabia que, naquele momento, deveria sentir vontade de rezar pelo descanso da alma do falecido, mas, naquele caso específico, não conseguia deixar de pensar que ele apenas colheu o que plantou. Seu pai, porém, continuava olhando para os dedos com uma tristeza evidente.

— Vocês dois são uma vergonha! Uma desonra! — gritou Bowen.

— Não mais do que você! — retrucou o segundo filho, batendo na mesa. — Quando percebeu que não conseguiria proteger todos nós, decidiu jogar toda a culpa em mim! Mas o da ge era o pior de nós! E você também não vale nada! Quem foi que sempre arranjou um álibi para você toda vez que tentava passar a mão nas concubinas do pai?!

Então foi por isso que o irmão mais novo entrou nessa, percebeu Maomao.

— Isso é verdade?! — exigiu Bowen, voltando-se para o terceiro filho.

— É verdade, sim! — continuou o segundo. — Aquela irmãzinha de três anos que você tanto ama? Ela é filha dele! Você vive mimando sua "primeira filha"... mas, na verdade, ela é sua primeira neta!

— Er ge! Você jurou que nunca falaria disso!

— Isso é verdade?! Quero uma resposta!

Que absurdo, pensou Maomao. E, muito provavelmente, todos os outros pensavam a mesma coisa. Cortar os dedos de um homem depois que ele já estava morto… Maomao acreditava que, depois da morte, uma pessoa simplesmente deixava de existir. Ela não saberia mais o que acontecia com o próprio corpo. Ainda assim, aqueles dedos deixavam muito claro o quanto toda aquela história era deplorável.

Mas ele não é de quem eu mais sinto pena.

Esse posto cabia a um certo nobre, que agora parecia profundamente frustrado. Ele havia feito uma preparação meticulosa, recorrido a todos os meios, honestos ou não, para alcançar a vitória... e talvez realmente tivesse conseguido, se sua partida não tivesse sido interrompida.

[Noelle: Que capítulo em gente? kkkkk]

[Kessel: Que loucura.]

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Atenciosamente,

Scan Moonlight Valley

Fim da leitura

Capítulo 8.18 concluído

Volume 8 – Capítulo 18 – Capítulo 18: O Dono dos Dedos