Diários de uma ApotecáriaVolume 8 – Capítulo 20 – Capítulo 20: Xeque
Capítulo 8.2Era o meio da noite, e Maomao sacolejava dentro de uma carruagem. Depois que terminou o trabalho naquele dia, uma carta havia chegado para ela: era de Jinshi, e foi entregue com muita discrição.
O que será que ele quer?
Até então, nenhuma convocação dele tinha trazido boas notícias para ela, e não havia motivo para acreditar que dessa vez seria diferente. Mas ela não tinha posição para recusar.
A última vez que tinham se visto havia sido no torneio de Go. Por mais que odiasse admitir, a presença daquele estrategista excêntrico tinha sido reconfortante; ela sabia que Jinshi não conseguiria aprontar nada enquanto ele estivesse por perto. Mas agora...
Para onde será que irei?
Uma viagem de carruagem geralmente significava que ela estava indo até a residência de alguma pessoa importante: a vila de Ah-Duo, o palácio da Imperatriz Gyokuyou ou o pavilhão de Jinshi. Mas agora estavam seguindo na direção oposta aos aposentos de Jinshi. Quanto mais luxuosos ficavam os edifícios ao redor, mais Maomao começava a suar, de forma intensa e desagradável.
Quando a carruagem chegou ao destino e ela foi convidada a descer, Suiren já esperava por ela.
— Já faz um bom tempo — comentou ela.
— Sim, senhora — disse Maomao.
— Peço que desculpe a falta de formalidades, mas gostaria que você entrasse e se despisse.
Maomao não disse nada; apenas entrou no edifício, arrastando os pés com relutância. Era preciso revistar qualquer pessoa ao entrar no palácio interno… seria algo parecido?
— Foi o Mestre Jinshi quem me convocou — disse Maomao, depois de um momento.
— Foi, sim. E, se fosse apenas o jovem mestre, não precisaríamos passar por toda essa bobagem — respondeu Suiren. Em outras palavras, havia mais alguém ali.
Suiren tirou o manto de Maomao. Das dobras da roupa, ela tirou um estojo de escrita, um bloco de papel, alguns remédios e ataduras, um após o outro, até parecer completamente exasperada.
— Você anda sempre com tudo isso? — perguntou ela.
— Deixei meu kit de costura em casa — respondeu Maomao.
Enquanto isso, ela tirou até as roupas íntimas, deixando seu corpo magro exposto ao ar frio. Arrepios percorreram sua pele.
— O que você é, um esquilo? Abra a boca. É melhor eu verificar suas bochechas.
Como se já não bastasse ter de ficar nua, agora Suiren estava examinando o interior de sua boca.
— Seus dentes são muito alinhados, Maomao — observou a velha dama de companhia, satisfeita.
— Muicho brigada — respondeu Maomao, sem conseguir falar direito.
— E sua pele é tão macia... Mas talvez você possa tirar isto? — Suiren desfez a atadura do braço esquerdo de Maomao. Desde que Yao a proibiu de se machucar, o braço estava em condições relativamente boas.
— Por que fui chamada aqui? — perguntou Maomao.
— Ah? Vai me dizer que não faz ideia? Será que está preparada? — O tom era provocador, mas, por algum motivo, isso tranquilizou Maomao.
— Sua Majestade está aqui hoje?
Todo aquele cuidado para garantir que ela estivesse desarmada sugeria que alguém de enorme importância estaria presente. As revistas no palácio interno eram muito mais simples, mas sempre havia guardas por perto. Ela sabia que vários deles ficavam postados do lado de fora dos aposentos sempre que o Imperador fazia uma visita noturna a uma de suas concubinas.
— Não tem graça provocar você, Maomao. Não ficou curiosa para saber se foi chamada aqui para um encontro amoroso?
Não posso dizer que essa ideia não passou pela minha cabeça. Apesar de todos os defeitos dele, Jinshi costumava seguir as regras. Ela queria acreditar que ele não faria algo tão precipitado. Além disso, se fosse para isso, pelo menos eu tomaria um banho, e não apenas trocaria de roupa.
Ela passou os braços pelas mangas das roupas limpas, depois apagou as sardas do rosto e espalhou pó branco sobre as bochechas. Quando terminou de se trocar, foi conduzida até uma porta guardada por soldados, que se curvaram quando ela entrou. Além da porta havia outro corredor e, depois dele, um aposento. Uma luz fraca iluminava seus pés, revelando um único caminho, quase como se mostrasse a entrada para outro mundo.
O interior do cômodo estava quente. Maomao ouvia o crepitar de um braseiro misturado às conversas e às risadas de três nobres.
— Eu a trouxe, senhor — disse Suiren. Em seguida ela fez uma reverência e se retirou.
Maomao ficou sem palavras ao ver quem estava ali. Ela esperava encontrar Jinshi e o Imperador, mas não a Imperatriz Gyokuyou.
Na verdade, o espaço era formado por dois aposentos interligados, com a porta de correr entre eles aberta. O segundo parecia ser um quarto de dormir, enquanto o primeiro, onde as três figuras ilustres estavam sentadas, possuía um sofá, uma mesa e também uma escrivaninha. A mobília era magnífica, e um aroma marcante pairava no ambiente.
Que cheiro é esse? Maomao se perguntou. Parecia familiar, mas ela não conseguia identificá-lo. Por se tratar de uma sala cheia de nobres, ela esperava poder presumir que não fosse nada perigoso.
— Que companhia mais interessante você reuniu, Príncipe da Lua. O que pretende fazer? — perguntou Gyokuyou, escondendo a boca atrás da manga enquanto ria.
— Concordo, estou me perguntando a mesma coisa — disse o Imperador, em tom bem-humorado. — Com ela aqui, tenho certeza de que será algo bastante intrigante.
Isso está parecendo até... um ambiente caseiro. O que está acontecendo?
Não importava por que ângulo olhasse, Maomao estava completamente deslocada naquele aposento. Será que tinha sido chamada apenas para relaxar junto com os três? Não havia damas de companhia nem guardas à vista, tampouco Gaoshun ou Hongniang.
Mantendo a cabeça baixa, ela tentava descobrir o que deveria fazer. Será que estava ali para divertir a alta nobreza? Que tipo de palhaçada absurda esperavam que ela apresentasse?
Deixa eu ver se consigo lembrar de alguma boa piada do distrito dos prazeres... Não… Gyokuyou provavelmente se divertiria bastante, mas era bem provável que Jinshi não apreciasse. Piadas daquele tipo costumavam terminar mal para os homens envolvidos. Melhor guardá-las para si mesma.
Se eu soubesse o que estava acontecendo, poderia ter vindo mais preparada. Talvez tivesse trazido um dos meus manuais de "visitas noturnas".
Não, isso também não serviria. O Imperador gostava daqueles livros, mas ela não poderia exibi-los na frente de Gyokuyou. Além do mais, Suiren certamente os teria encontrado e confiscado durante a revista.
Ela ainda tentava decidir o que fazer, ou se havia algum pequeno número divertido que pudesse apresentar, quando viu algo que a fez duvidar dos próprios olhos.
Sobre uma bandeja havia uma fina camada de areia, na qual um galho e uma pedra tinham sido colocados de maneira quase displicente. Parecia uma pequena representação de um jardim, feita apenas para agradar os visitantes. Mas o que chamou a atenção de Maomao foram os materiais daquele "jardim".
Chifre de veado aveludado, long gu e... aquilo é uma bile de urso?!
O chifre de veado aveludado era, como o nome dizia, um chifre de veado; long gu, ou "osso de dragão", era o nome dado a grandes ossos fossilizados; e a bile de urso era exatamente isso: a vesícula biliar (bezoar) de um urso. Todos eram ingredientes medicinais extremamente caros. O chifre estava disposto como se fosse um galho de árvore, enquanto os long gu imitavam pedras. Só a bile de urso que estava simplesmente... ali, bem no meio de tudo. Será que o colocaram naquele lugar justamente para que Maomao o notasse?
Eles estão tirando sarro da minha cara? Pensou ela. Com certeza sabiam que um tesouro daqueles jamais escaparia à atenção dela, por mais casualmente que tivesse sido colocado. Ela temia começar a babar enquanto contemplava aqueles medicamentos.
— O que exatamente pretende fazer aqui? — perguntou a Imperatriz Gyokuyou. — Maomao vai resolver algum mistério fascinante para nós? — Os olhos dela brilhavam. Maomao havia se perguntado se as coisas ficariam estranhas entre as duas depois do que aconteceu antes, mas, pela expressão atual de Gyokuyou, parecia que tudo estava bem. Ela suspeitava que a situação fosse diferente entre as damas de companhia. Hongniang talvez aliviasse para o lado dela, mas Haku-u e as irmãs provavelmente não estavam nada satisfeitas.
Eram pessoas que já desconfiavam até mesmo do meio-irmão de Gyokuyou. Certamente não deviam gostar da ideia dela se encontrar pessoalmente com Jinshi, mesmo com Sua Majestade presente.
Maomao mantinha um olho em Gyokuyou, mas deixou o olhar percorrer o aposento, e logo encontrou ainda mais preciosidades medicinais. A pedra de tinta sobre a escrivaninha era, na verdade, gelatina de pele de jumento, um bloco escuro de cola gelatinosa. Entre as folhas de chá, ela identificou hortelã e canela.
O aroma peculiar que pairava pelo aposento devia ser a mistura de todos aqueles diferentes medicamentos.
— Não, o papel de Maomao ainda virá depois. Primeiro, poderiam ouvir o que tenho a dizer? — disse Jinshi com um largo sorriso, enquanto remexia o grande braseiro junto à parede.
— Posso fazer isso! — respondeu Maomao, com os olhos brilhando. Ela já estava imaginando se também haveria alguma coisa interessante dentro do braseiro.
— Não, hoje não. Fui eu quem a convocou. E agora ordeno que se sente. — disse Jinshi. Ele apontou para uma das extremidades do sofá, e Maomao não teve escolha senão obedecer. O assento estofado era recheado de algodão e, combinado com o calor do aposento, dava um sono terrível.
Não! Preciso ficar acordada! Pensou ela, balançando a cabeça de leve e respirando fundo. Quando um fogo permanecia aceso por muito tempo, o ar do ambiente podia ficar ruim e dificultar a respiração. Não havia guardas dentro do aposento, nem janelas. Era o lugar perfeito para uma reunião secreta. Pelo menos havia algumas aberturas para permitir a circulação do ar.
Mesmo assim, Maomao se perguntava o que significava toda aquela coleção diante dela. Na verdade, questionava até a presença daqueles itens, considerando a revista rigorosa pela qual havia acabado de passar. Remédio em excesso podia virar veneno, e praticamente qualquer coisa podia ser perigosa, dependendo de como fosse usada.
Aquelas tiras brancas ali... Será que é poria? Ela se perguntou. Elas estavam em uma tigela, com pétalas de crisântemo espalhadas por cima.
Os medicamentos estavam expostos de forma tão evidente... Será que isso significava que seriam dados a ela depois?
— Então, qual é esse assunto misterioso que deseja nos contar? — perguntou o Imperador, acariciando a barba e estreitando os olhos. A expressão era investigativa, mas também carregava um toque de gentileza.
Sobre a mesa havia vinho acompanhado de petiscos apropriados. Os olhos de Maomao demoraram um instante sobre a bebida, mas não parecia haver necessidade de prová-la; os próprios nobres já estavam servindo uns aos outros.
Remédios são ótimos... Mas eu também gosto de vinho.
— Gostaria de um pouco? — perguntou a Imperatriz Gyokuyou, que havia percebido Maomao observando as bebidas. — Este vinho é muito bom. Não é mesmo, Majestade? — A Imperatriz já havia desmamado o filho e agora podia voltar a apreciar bebidas alcoólicas.
Sim! A rigor, sua posição social deveria impedi-la de beber naquela companhia. Mas, se uma superior lhe oferecesse uma taça, seria imperdoável recusar. Sim, ela não tinha escolha a não ser aceitar a bebida.
— De fato — disse o Imperador. — Este parece ser um bom e legítimo vinho de uva. — Essa ressalva sugeria que os rumores sobre o vinho envenenado haviam chegado até mesmo aos ouvidos imperiais.
— Eu jamais serviria algo envenenado ao senhor, Majestade — disse Jinshi. — Preciso que viva uma vida longa e próspera. — Ele balançou delicadamente sua taça. Então Maomao realmente não ganharia vinho algum. Jinshi estava sentado e havia tirado a veste externa. Talvez estivesse aquecido pelo fogo e pelo vinho.
— Tem certeza de que não há uma taça para Maomao, Príncipe da Lua? — perguntou Gyokuyou. Maomao olhou para ela com os olhos brilhando.
— Não. Maomao ainda não pode beber. Ela terá trabalho a fazer mais tarde.
O ânimo de Maomao despencou. Ela lançou um olhar fulminante para Jinshi, mas ele mal pareceu notar.
— Que trabalho? Fico com pena dela, sendo a única que ficou sem beber — disse o Imperador.
Isso mesmo, diga a ele! E mande que me dê aquele remédio! Maomao fechou os punhos em triunfo. Mesmo assim, Jinshi não deu sinal algum de providenciar outra taça. Em vez disso, disse:
— Precisarei dela quando fizer meu pedido a Vossa Majestade sobre o futuro do trono.
— Ora, ora. A noite inteira você vem me tratando como se eu fosse um velho gagá.
— De forma alguma, senhor. Mas Vossa Majestade compartilha da credulidade do antigo soberano em relação a remédios místicos capazes de prolongar a vida ou até conceder a imortalidade? Presumo que não.
Ei, eles podem muito bem existir!
Maomao não gostou nem um pouco daquilo. Era verdade que ainda não haviam descoberto um remédio assim, nem mesmo o vasto conjunto de ingredientes naquela sala poderia tornar alguém imortal.
Argh... Onde ele quer chegar com isso? Queria que ele fosse logo direto ao ponto...
— Preciso muito que Vossa Majestade permaneça vivo por pelo menos mais vinte anos — disse Jinshi. O número era estranhamente específico.
— Príncipe da Lua... Parece que você tem algo muito específico em mente — disse Gyokuyou. Ela não conseguiu esconder o desconforto. O Imperador ainda estava na casa dos trinta anos e gozava de excelente saúde. Não havia motivo para pensar que não continuaria forte e saudável por muito tempo.
— E o que exatamente acontecerá daqui a vinte anos? — perguntou Sua Majestade com um leve tom de irritação em sua voz. Maomao ficou tensa sem perceber. Não podia se dar ao luxo de esquecer que aquele homem de barba exuberante ocupava o posto mais elevado de toda a nação.
— Será quando o Príncipe Herdeiro assumirá oficialmente seu título, e eu finalmente poderei descansar — respondeu Jinshi.
Foi Gyokuyou quem falou. — O Príncipe Herdeiro? — perguntou ela.
— Sim, milady. Aos dez anos, ele ainda será uma criança. Aos quinze, entrará oficialmente na idade adulta, mas seria difícil confiar plenamente nele nessa fase. Aos vinte... Bem, ainda será bastante jovem, é verdade, mas, se garantirmos que esteja cercado de boas pessoas até lá, não haverá problema.
Sobre o que Jinshi estava falando? Apesar do calor agradável da sala, Maomao sentiu um arrepio percorrer seu corpo. Talvez até tivesse empalidecido, se não tivesse avistado um pouco de fungo-lagarta e mu dan pi (casca de raiz de peônia).
O Imperador pousou a taça e estreitou os olhos. Já não parecia estar de tão bom humor. — Talvez você queira nos dizer em que baseia esse cenário. — Aquilo não era exatamente um convite, e era justamente isso que tornava suas palavras tão assustadoras.
Se me chamaram aqui só para ouvir conversas perturbadoras, por favor, me deixem ir para casa... com lembrancinhas. Maomao desejou poder tapar os ouvidos e se esconder em algum canto da sala. A Imperatriz Gyokuyou também não parecia nada à vontade. Provavelmente não esperava que um assunto tão desagradável surgisse naquela ocasião.
— Minha base é a seguinte: se algo acontecesse com Vossa Majestade neste exato momento, a corte esperaria e pressionaria para que eu assumisse o trono. — Jinshi tirou das dobras da roupa uma pequena caixa, do tamanho da palma da mão. Dentro havia uma única pérola dourada, aproximadamente do tamanho de uma unha, com a superfície completamente impecável.
Pérolas daquele tamanho eram extremamente raras, especialmente em um estado tão perfeito. Até mesmo alguém leigo como Maomao conseguia perceber que uma joia daquelas seria vendida por uma fortuna capaz de fazer qualquer um arregalar os olhos. Até mesmo o preço do zhen zhu, um ingrediente medicinal obtido pela pulverização de pérolas de qualidade inferior, poderia causar esse efeito.
— Um presente bastante luxuoso para enviar junto ao retrato de uma possível noiva, não acha? — perguntou Jinshi.
— Não vou perguntar quem enviou. Sei que você é cavalheiro demais para contar de qualquer forma — respondeu o Imperador.
— Talvez. Mas imagino que Vossa Majestade consiga adivinhar.
Dava para contar nos dedos de uma mão quantas pessoas poderiam, e estariam dispostas a, enviar uma pérola gigantesca ao irmão mais novo do Imperador na esperança de que ele se casasse com sua filha.
E, se alguém com tantos recursos estava tentando estabelecer uma ligação com Jinshi...
Só podia ser alguém que aumentaria o próprio poder com esse casamento ou alguém que pretendia exercer influência indireta por meio dele. Se fosse o segundo caso, teria condições de se equiparar à Imperatriz Gyokuyou.
— E tem mais uma coisa. — Desta vez, Jinshi tirou uma colher. Era de prata, mas o metal estava opaco. — Havia veneno no chá servido em meu escritório. E, durante um ritual, alguém atirou uma flecha contra mim.
Essas coisas aconteceram mesmo? Maomao pensou. Se nada disso chegou aos seus ouvidos, então Jinshi certamente ordenou que todos os envolvidos mantivessem silêncio. Havia quem quisesse tê-lo como aliado, mas também existiam aqueles que o viam como um obstáculo. Era assim que funcionava o mundo da política.
— Por acaso a Imperatriz Gyokuyou sabe algo sobre isso? — perguntou Jinshi.
— Não, absolutamente nada — respondeu Gyokuyou, parecendo levemente abatida. Ninguém acreditava que a própria Imperatriz estivesse por trás das tentativas contra a vida de Jinshi, mas sempre existia a possibilidade de algum parente agir sem seu conhecimento. Era isso que provavelmente explicava o tremor em sua voz. E, se algum membro de sua família estava envolvido, então seu pai, Gyokuen, parecia um forte candidato a também ter participação no caso.
— Vossa Majestade sabe muito bem que não tenho o menor interesse em me tornar imperador — disse Jinshi. Mas o soberano não assentiu. — Caso contrário, por que eu teria passado seis anos fingindo ser um eunuco no palácio interno?
Maomao não conseguiu evitar. Levou as mãos aos ouvidos, mas Jinshi, sorrindo, segurou seus pulsos, afastou suas mãos e as colocou sobre seus joelhos. Era óbvio que ele queria que ela ouvisse o que ele estava prestes a dizer.
— Não sinto prazer algum em lidar com assuntos tão complicados — continuou Jinshi. — Vossa Majestade tem dois filhos. O senhor Gyokuen recebeu um nome. Talvez esta seja uma boa oportunidade para conceder um nome a mim também.
Conceder um nome? Maomao inclinou a cabeça. Ela olhou de um para o outro, tentando entender o significado daquilo, até encontrar os olhos de Gyokuyou.
— Receber um nome significa tornar-se um servo do Imperador. Em outras palavras, deixar a família imperial — explicou ela. Ela ainda estava pálida, e suas palavras pareciam menos uma resposta à ignorância de Maomao do que uma forma de confirmar se havia entendido corretamente o que Jinshi queria dizer.
Ei, ei, ei. Não. Espera aí.
Talvez fosse complicado e, francamente, irritante lidar com todas as manobras exigidas de um membro da linhagem imperial, mas não podia ser tão simples quanto pedir para sair da família. Para começar, quantos homens ainda existiam na família imperial? Todos os irmãos do antigo imperador haviam morrido de doença. Talvez houvesse parentes pelo lado materno que Maomao desconhecia, mas, até onde se sabia, os únicos homens da família imperial eram o Imperador, Jinshi, o filho da Imperatriz Gyokuyou e outro filho nascido da Concubina Lihua. Apenas quatro pessoas. E os filhos do Imperador ainda eram bebês. Um bebê podia morrer a qualquer momento; simplesmente não havia como saber. Não importava o quanto se cuidasse deles ou o quanto fossem criados com carinho, uma doença podia levá-los de um dia para o outro.
Ele nunca vai ver seu desejo realizado. Se até mesmo Maomao sabia disso, certamente o Imperador também não deixaria de perceber.
Um estrondo ecoou tão alto que fez a enorme mesa tremer, e Maomao sentiu os cabelos arrepiarem. Alguns pãezinhos recheados caíram de um prato. A origem do tremor? O Imperador, que havia golpeado a mesa com o punho. Seu rosto, normalmente afável, embora reservado, agora era uma máscara de fúria.
Por favor, não!
Desafiar o Imperador poderia significar perder a própria vida. Mas ele costumava estar sempre tão bem-humorado quando Maomao o encontrava que ela havia começado a perder um pouquinho do temor que sentia por ele. Agora, porém, seu coração disparou. Ela olhou ao redor da sala, torcendo para que alguma das ervas presentes servisse para acalmar uma pessoa enfurecida.
O rosto de Gyokuyou havia ficado completamente pálido. Talvez aquela também fosse a primeira vez que ela via o Imperador tomado por uma ira verdadeira.
Apenas Jinshi permaneceu impassível.
— O senhor prometeu, não prometeu? Ou pretende voltar atrás em sua palavra, Majestade?
— Pense bem. Este é o momento e o lugar para dizer esse tipo de coisa?
— É, sim. Se eu não resolver isso rapidamente, perderei minha chance de escapar.
Não jogue mais lenha na fogueira! Maomao pensou, sentindo o suor começar a escorrer. Ela alternava o olhar entre Jinshi e o Imperador, desviando os olhos apenas de vez em quando para o bezoar no canto da sala. Queria poder ficar olhando aquele bezoar o dia inteiro.
Infelizmente, seu modesto sonho foi destruído.
— Você não fará de mim uma pessoa comum? — perguntou Jinshi.
Um estalo seco ecoou pela sala.
Jinshi sentou-se, com o rosto voltado para o chão. O punho do Imperador tremia.
Sem conseguir se conter, Maomao correu até Jinshi e abriu sua boca à força. Nenhum dente quebrado, apenas o lábio partido. Mesmo assim, ele havia levado um soco em cheio no rosto. Logo apareceria um inchaço. Maomao também queria examinar a mão de Sua Majestade, mas não ousava sequer se aproximar dele.
— Foi por isso que insistiu para que a apotecária não bebesse? — perguntou o Imperador, conseguindo, de alguma forma, não levantar a voz. Gyokuyou segurou seu pulso.
A sala era destinada a reuniões privadas. Os guardas não entrariam correndo só porque alguém bateu na mesa. Gyokuyou também não podia gritar, mesmo que quisesse. Se pedisse socorro, talvez o próprio Imperador a impedisse.
— Não precisa se preocupar, Imperatriz — disse Jinshi.
Como assim não precisa?! Maomao pensou enquanto limpava o sangue do lábio de Jinshi com um lenço. Será que a chamaram até ali só para assistir a dois irmãos brigando? Se fosse esse o caso, ela preferia que tivessem deixado ela e a Imperatriz Gyokuyou fora daquilo.
— Eu sabia no que estava me metendo ao vir aqui. Estou preparado para muito mais do que um lábio rachado. — Jinshi se levantou, tirou mais uma camada de roupa e caminhou lentamente até o braseiro. — Fique tranquila, Imperatriz Gyokuyou. Jamais serei seu inimigo.
Jinshi sorriu e afrouxou o cinto, expondo o abdômen, o umbigo. Assim que o cinto se soltou, ele pegou um atiçador no fogo. E então fez algo que nenhum deles esperava. Algo que nenhum deles sequer imaginava.
Um suspiro coletivo tomou conta da sala, seguido pelo cheiro de carne queimada. Até mesmo a resoluta Gyokuyou perdeu os sentidos, e Maomao correu para ampará-la. O Imperador apenas observava, horrorizado. Nem sequer tentou fechar a boca, que permanecia escancarada.
Jinshi suportou a dor, obrigando-se a sorrir. Depois devolveu o atiçador ao fogo.
Maomao acomodou a Imperatriz Gyokuyou em um divã e, em seguida, encarou o abdômen de Jinshi. Ele evitou atingir a barriga, mas havia uma queimadura na lateral do corpo, logo acima da pelve. Ela reconheceu o desenho. Era o brasão concedido à Imperatriz Gyokuyou.
Ele não deve ter atingido nenhum órgão interno. Mas...
Mas uma queimadura tão profunda deixaria uma cicatriz que jamais desapareceria.
Não acredito que ele já tinha preparado tudo isso.
— Agora, Imperatriz Gyokuyou, nunca poderei desafiá-la. Mesmo que Sua Majestade deixe este mundo, não posso nem vou representar uma ameaça ao Príncipe Herdeiro.
Maomao se lembrou de um caso que encontrou na capital ocidental. Uma noiva que fingiu o próprio suicídio por medo dos terríveis abusos do marido. As mulheres daquela família suportavam havia gerações serem marcadas a ferro como gado.
Marcar alguém como se fosse uma propriedade era praticamente torná-lo um escravo.
O Imperador não disse nada. O rosto que, momentos antes, estava distorcido pela fúria agora permanecia vazio, atônito. Ele jamais poderia imaginar que Jinshi, o irmão mais novo do Imperador, marcaria a si mesmo como um escravo.
Só havia uma coisa que Maomao podia fazer. A temperatura extremamente alta da queimadura evitava muito sangramento, mas a pele continuava vermelha e inchada. Ela encharcou o lenço em água fria e o pressionou contra a lateral do corpo de Jinshi. Depois olhou desesperadamente ao redor da sala, procurando óleo, cera de abelha e qualquer coisa que pudesse tratar uma queimadura. Irritada por não ter as ferramentas adequadas, pegou uma tigela de aparência caríssima da prateleira e começou a misturar o óleo com a cera de abelha. Não se importava se a tigela quebrasse ou se a colher se partisse. Não tinha tempo para isso.
Talvez fosse mais rápido sair da sala e pedir que alguém trouxesse um remédio para queimaduras, mas isso exporia o ferimento de Jinshi. Embora todos os presentes soubessem que aquela marca havia sido feita por ele mesmo, seria perigoso que qualquer outra pessoa descobrisse sua existência.
— Seu maldito masoquista... — resmungou Maomao enquanto preparava a pomada de óleo e cera de abelha. Ninguém a repreendeu. Ela provavelmente só estava dizendo o que todos pensavam. Talvez até o próprio Jinshi.
Maomao ouviu um baque surdo. Quando olhou, viu que era o Imperador, que acabava de se sentar no divã.
— Você odeia tanto assim a ideia de se tornar imperador? — murmurou ele.
— Eu sempre disse que odiava, não disse? — respondeu Jinshi, fazendo uma careta. — Se Vossa Majestade ainda insistir em me manter na linha de sucessão, vou ter que abrir um belo ferimento na minha bochecha esquerda também.
Na mesma hora, Maomao segurou o rosto de Jinshi com as duas mãos, mas ele sorriu. — Isso foi uma piada.
Ela soltou seu rosto, mas não baixou a guarda. Não havia como prever o que ele faria em seguida.
A Imperatriz Gyokuyou ainda estava atordoada, mas permanecia consciente. Jinshi voltou-se para ela.
— Imperatriz, sei que esperava que Maomao pudesse permanecer para sempre como sua serva, mas receio que tenha de desistir desse sonho. Agora que tenho esta marca, não posso permitir que qualquer pessoa veja meu corpo.
Bem, e a culpa é de quem? A pomada estava pronta. Maomao começou a espalhá-la sobre a queimadura de Jinshi.
— Agora nem posso pedir que minha dama de companhia me ajude a trocar de roupa, muito menos permitir que um médico me examine. E, acima de tudo… — Ele se levantou, passou um braço em volta da cintura de Maomao e a puxou consigo. O pano que resfriava sua queimadura escorregou e caiu.
— E-Espera! Mestre Jinshi! — Maomao tentou se desvencilhar, mas, com a ferida dele bem ali, não podia resistir com muita força.
— Minha esposa terá de ser uma mulher em quem eu possa confiar completamente.
Isso fez Maomao empalidecer rapidamente. Ela ergueu o olhar: de onde estava, aninhada no braço de Jinshi, pôde ver que ele exibia um sorriso gentil.
— E-Então era isso que você queria o tempo todo? — perguntou Gyokuyou, franzindo a testa.
— Não sei do que está falando — respondeu Jinshi, fingindo não entender, embora Maomao ainda estivesse presa sob seu braço.
Desesperada, Maomao estendeu a mão na direção da Imperatriz. Em resposta, Gyokuyou apenas lançou um olhar cheio de pena e balançou a cabeça.
— Maomao, acho que metade da culpa por isso é sua.
Como diabos você chegou a essa conclusão?! Ela quis protestar, dizer que era inocente e que aquilo não tinha nada a ver com ela. Mas Jinshi colocou a mão sobre sua boca, impedindo-a de falar.
— E, se realmente é responsável, então peço que assuma essa responsabilidade — disse ele.
Não haveria ajuda alguma por parte da Imperatriz Gyokuyou. Maomao então voltou o olhar para o Imperador. Ele fitava os dois, completamente absorto.
— Zui... — disse ele. — Este é o caminho que você escolheu?
— É.
— E você não vai se arrepender?
— Não vou.
Havia tristeza e solidão nos olhos do Imperador. Por um instante, pareceu que o soberano de barba exuberante diria mais alguma coisa, mas então lançou um breve olhar para Gyokuyou e engoliu as palavras. Em vez disso, disse: — Vou voltar. Meus guardas vão passar frio se tiverem de ficar lá fora a noite toda. — A sala estava aquecida, mas continuava sendo uma noite de inverno. — Avisarei aos seus criados que você passará a noite aqui.
— Meus mais profundos agradecimentos pela consideração de Vossa Majestade. — Jinshi fez uma reverência profunda. Seu lábio ainda estava inchado, e Maomao nem sequer havia terminado de tratar sua queimadura.
— Vou com você — disse Gyokuyou, levantando-se. Ela parecia tão exausta… Maomao desejou que ela pudesse descansar um pouco, mas isso parecia improvável naquela noite.
Espera... Só um instante. Se essas duas figuras ilustres forem embora, deixariam ela sozinha com Jinshi.
Ela ficou de boca aberta e olhou fixamente para ele.
— Você poderá beber depois que terminar de cuidar do meu ferimento — disse ele. Claro, agora ele resolve falar isso!
Maomao estava desesperada para sair da sala junto com o Imperador e a Imperatriz, mas não podia simplesmente deixar o ferimento de Jinshi sem tratamento. Ela ficou presa ali, entre a cruz e a espada… E também entre o torso e a axila de Jinshi. Só então ele tirou a mão de sua boca. Em seguida, pegou o long gu que estava na prateleira.
— Eu não sabia exatamente o que seria útil, então tentei reunir o máximo de medicamentos que consegui.
Maomao não respondeu. Mesmo contra a própria vontade, sentiu o coração acelerar.
— Pode usar tudo livremente. Qualquer um deles, o quanto quiser.
Aquela breve distração a impediu de perceber Gyokuyou deixando a sala, com as mangas balançando enquanto se afastava. Jinshi parecia incrivelmente animado para alguém que acabou de levar um soco no rosto e, logo depois, causar uma queimadura tão grave em si mesmo.
— M-Mestre Jinshi... Deixe-me terminar seu tratamento. Rápido.
— A noite ainda é longa. Podemos fazer isso sem pressa.
— Não. Quero acabar com isso logo!
Jinshi franziu os lábios, mas ainda não a soltou. — O que a deixou tão descontente?
— Descontente? Eu mal consigo entender o que está acontecendo! Quem marca o próprio corpo com um ferro em brasa?!
— Um maldito masoquista.
Essas palavras foram dele, não minhas!
Ele ainda conseguiu inverter a situação. Sua aparência era surpreendentemente boa, considerando que devia estar sofrendo com a dor. Nada daquilo fazia o menor sentido. Então Jinshi começou a caminhar em direção ao aposento interno.
— Aonde vamos? — perguntou Maomao.
— Gostaria de dormir um pouco depois que você terminar meu tratamento.
— Então deixe que eu termine aqui mesmo.
— Não. Você pode fazer isso enquanto eu estiver deitado.
Maomao teve vontade de partir para a violência, mas sabia que ainda não podia. Enquanto isso, aquele verdadeiro monstro em resistência física entrou tranquilamente no quarto.
— Ou será que você não quer me acompanhar até o quarto?
Dessa vez, Maomao realmente ficou sem palavras. Ela percebeu o tom provocador em sua voz e desviou o olhar. Então ouviu uma longa expiração, e Jinshi disse:
— Você não precisa se preocupar. Eu entendo. — Em seguida, ele acariciou a franja dela. — De qualquer forma... dizem que eu tenho um tamanho apenas razoável...
Maomao quase se engasgou. O sorriso de Jinshi nunca pareceu tão malicioso. Maomao, esquecendo-se completamente do ferimento de Jinshi, lutava com todas as forças agora, e quem poderia culpá-la?
Mesmo que isso a tenha feito perder o que Jinshi disse em seguida, ela fez um murmúrio baixo:
— No fim das contas... nunca consegui receber o favor que eu queria.
[Noelle: E o sapão aparece novamente kkkkk]
[Kessel: Não sei nem o que falar. Que loucura!]
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