Diários de uma Apotecária — Capítulo 9.03: Volume 9 – Capítulo 03 – Capítulo 03: O Livro de Kada (Parte 1)

Diários de uma Apotecária
Cap. 9.03
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Diários de uma Apotecária

Volume 9 – Capítulo 03 – Capítulo 03: O Livro de Kada (Parte 1)

Capítulo 9.03

5.440 palavras~24 min de leitura

No dia seguinte, Maomao foi acordada por um grito da mulher que administrava o dormitório.

— Você tem uma visita! — ela chamou.

Maomao se trocou, esfregando os olhos o tempo todo, depois foi até a porta da frente para ver quem era. Ela encontrou um senhor idoso de aparência gentil, mas com um ar perpetuamente preocupado, seu pai adotivo.

— O qu… — Ela estava prestes a perguntar o que havia acontecido, mas então se lembrou. Ela tinha falado com Jinshi na noite anterior sobre entrar em contato com Luomen.

Ele trabalha rápido!

A julgar pela expressão de Luomen, a carta de Jinshi explicava exatamente o que Maomao queria saber.

— Hum... então, pai… — Ela não fazia ideia de como explicar, mas seu pai estreitou os olhos e soltou um pequeno suspiro.

— Talvez seja melhor termos essa conversa em outro lugar. — Ele pousou a mão sobre a cabeça de Maomao.

Uma carruagem aguardava do lado de fora. Com o joelho debilitado, até caminhar pela cidade já era quase demais para Luomen. Mas para onde ele pretendia levá-la?

Enquanto a carruagem seguia sacolejando pelas ruas, Maomao conversava, embora se sentisse desconfortável o tempo todo por ter que guardar segredos.

— O senhor também está de férias, pai?

— Só hoje. Amanhã volto ao trabalho. A equipe médica não tem direito a férias prolongadas.

Era verdade. Praticamente ninguém na corte tinha esse privilégio. Sempre era necessário manter um número mínimo de profissionais da saúde de plantão. Com certeza haveria problemas se não existisse pelo menos um médico qualificado para atender toda a alta nobreza.

Queria poder fazer parte disso, pensou Maomao, embora soubesse que havia limites para o que damas da corte como ela podiam fazer. Sem contar que ela tinha quase certeza de que trabalhava muito mais do que alguns dos jovens médicos menos dedicados.

Depois de mais algum tempo sendo chacoalhada pela carruagem, eles chegaram diante de uma mansão que despertou em Maomao uma sensação desagradável e difícil de explicar. Ficava na extremidade leste da capital, não exatamente na região das melhores residências, mas ainda assim era uma propriedade enorme. Em sua época, devia ter sido uma construção impressionante, embora agora já demonstrasse claramente o peso dos anos.

A primeira coisa que chamou sua atenção foi um monumento estranho perto do portão. Parecia um enorme tabuleiro de Go, cercado por gigantescas pedras pretas e brancas. Daria para jogar uma partida comum com elas, não fosse o tamanho absurdo.

Além das pedras pretas e brancas, havia também o que pareciam ser peças de shogi. Estas eram de madeira, não de pedra, e a tinta usada para escrever seus nomes já estava bastante desbotada. Se os caracteres não tivessem sido entalhados na madeira, talvez fosse impossível identificar qual peça era qual.

O tabuleiro tinha linhas cuidadosamente trabalhadas e parecia servir tanto para Go quanto para shogi. Pelo tamanho, devia ser um único bloco de pedra maciça. Ela nem conseguia imaginar quanto havia custado transportá-lo até ali. Que desperdício de dinheiro, se já houve algum.

Será que o dono da casa o havia encomendado ou alguém o presenteou com aquilo? Fosse como fosse, a maneira como foi projetada só servia para atrapalhar a passagem e nada mais.

A essa altura, certamente não precisamos explicar melhor a casa de quem eles tinham chegado.

Maomao e seu pai passaram pelo portão em ruínas, e então ele surgiu com um sorriso malicioso no rosto.

— Tio-avô! Maomao! Sejam bem-vindos de volta! — Era Lahan, cujos olhos já estreitos se fecharam ainda mais com seu sorriso bajulador.

Sim. Eles estavam na casa do estrategista excêntrico.

— Esta é a casa de um estranho — disse Maomao.

— E eu fui expulso daqui — acrescentou Luomen. Cada um rejeitou as boas-vindas de Lahan à sua maneira.

Quando Luomen sugeriu mudarem de lugar, Maomao jamais imaginou que ele os levaria até ali. Pior ainda, por coincidência, havia mais duas pessoas presentes naquele momento.

— Bom dia, Mestre Luomen. Maomao, que gentileza sua se juntar a nós. — disse En'en, aproximando-se por trás de Lahan. Ela fez uma reverência respeitosa para Luomen e, para Maomao, apenas um breve aceno de cabeça acompanhado de um olhar de reprovação.

— Acredite, essa nunca foi minha intenção — respondeu Maomao.

— Pois deveria ter sido. É aqui que você pertence. — En'en continuava lançando olhares para trás. Maomao seguiu sua direção e viu Yao escondida atrás de um pilar. Os olhos de En'en pareciam dizer: A jovem senhora até desperta pena. Mas ela é tão fofa!

Lahan, talvez ciente das tendências de En’en, olhou para ela com um ar um tanto crítico, depois se voltou para Luomen. — Quantos anos faz desde a última vez que o senhor morou aqui, tio-avô? O senhor foi embora antes mesmo de eu conseguir guardar lembranças... e acho que nunca mais voltou, não é?

— Deixe-me ver... Deve fazer pelo menos dezoito anos. Voltei uma vez para buscar minhas coisas, mas foi só isso. — O pai de Maomao olhava para o horizonte com nostalgia. Sua expulsão daquela casa devia coincidir aproximadamente com a época em que ele começou a criar Maomao.

— Seu quarto continua aqui, tio-avô. Embora eu preferisse que tivesse me avisado um pouco antes que viria. — Ele coçou a bochecha. — Acabei de emprestar o anexo para essas duas. A biblioteca continua intacta... mas, se pretende ficar, posso preparar um quarto na casa principal. O que acha?

— Não, obrigado. Não precisa se preocupar com isso. Não vou passar a noite aqui. Vim apenas dar um pouco de lição de casa para Maomao. Mas devo dizer que este lugar ficou bem mais abandonado desde a última vez que o vi.

— Não se preocupe. Nós limpamos tudo regularmente.

Lição de casa? Maomao pensou. Parecia que Luomen pretendia preservar sua dignidade diante do pedido de Jinshi da melhor forma possível. Se essa lição tivesse relação com cirurgia, Maomao participaria da encenação sem reclamar. Ainda assim, tinha a sensação de que não seria algo tão simples.

Enquanto Maomao refletia, Lahan continuou conversando com Luomen.

— De qualquer forma, tenho certeza de que meu honrado pai ficaria radiante se o senhor viesse morar conosco.

— Receio que não. Minha perna ruim torna o dormitório muito mais conveniente. Fica perto da corte. Esta casa é distante demais para mim.

— Isso é fácil de resolver. Basta usar uma carruagem.

Maomao suspeitava que a verdadeira intenção de Lahan era convencer Luomen a ajudá-lo a cuidar daquele velho rabugento, o que devia ser um trabalho enorme para ele sozinho.

Luomen continuou sorrindo, mas recusou educadamente. Lahan, por sua vez, não insistiu naquele momento, embora parecesse disposto a continuar pensando no assunto.

— Yao. En'en. Gostaria de ir até o anexo. Tudo bem para vocês? — perguntou Luomen.

— Não me importo, — disse En’en, — Mas… — Ela olhou para Yao, que, para responder à pergunta de Luomen, finalmente saiu de trás do pilar.

— P-por mim... também está tudo bem… — Parecia haver algo por trás daquelas palavras. Ela lançou um olhar para Maomao, mas Maomao respondeu apenas com uma reverência educada. Estava muito mais interessada em descobrir que lição de casa era aquela de que Luomen falava.

— O que é essa história de lição de casa? — perguntou Yao. — Maomao vai receber instruções especiais que a gente não vai receber? — Sua expressão estava um pouco assustadora. Fora do campo de visão de Yao, En'en fazia gestos desesperados para tentar transmitir alguma coisa a Maomao.

Desculpe... Não estou entendendo.

Luomen pareceu incomodado com o tom crítico de Yao, mas respondeu:

— É uma pergunta justa. Na verdade, quando Lahan me contou que vocês estavam aqui, achei que era o momento perfeito. Não seria bom ensinar certas coisas apenas à Maomao.

— Então o senhor vai nos ensinar medicina? — perguntou Yao, e as nuvens que pairavam sobre seu humor pareceram se dissipar um pouco.

— Ainda não. Antes é preciso provar que se é digno de aprender os segredos da medicina. Quero ter certeza de que vocês duas... ou melhor, vocês três, incluindo Maomao... estão preparadas para fazer o que for necessário. Tudo bem?

Provar que somos dignas? Aquele tipo de discurso não parecia com o meu velho, pensou Maomao.

Ele adorava compartilhar o que sabia e distribuía seus conhecimentos livremente a qualquer pessoa que demonstrasse interesse. Nunca gostava de privilegiar alguém ou considerar uma pessoa mais merecedora do que outra.

[Noelle: Tá vendo né Kessel, como que o ranço some? E se ele quiser ensinar só pra Maomao? Eles estão de férias, ele é o PAI DELA e pode fazer o que quiser, uai! Essas coisas não me descem, sorry.]

[Kessel: Sem favoritismos aqui! É dever de um professor ensinar a todos seus alunos igualmente. hihi!]

— Explicarei quando chegarmos ao quarto. Sei que Maomao está pronta. E vocês duas?

— Eu estou pronta — respondeu Yao.

— Se Lady Yao está preparada, então eu também estou — disse En'en.

As duas seguiram o pai de Maomao e, naturalmente, Maomao também.

Então elas vão mesmo conosco? Maomao sentiu uma onda de ansiedade. Ela sabia exatamente sobre que tipo de "medicina" seu pai pretendia ensinar. As outras duas, porém, não faziam ideia. Yao era uma jovem de educação refinada, e En'en era sua criada.

Eu sei que não vamos ensinar ninguém a criar misturas revolucionárias nem nada parecido, mas mesmo assim… En'en talvez fosse flexível, mas Yao podia ser bastante teimosa. Continuando apreensiva, Maomao seguiu Luomen. Como quase ninguém falava durante o caminho, ela ocupou a mente observando os arredores. Pelo menos não há nada tão estranho quanto aquele tabuleiro de Go gigante do lado de fora, pensou ela.

Havia um jardim, mas quase sem plantas ornamentais. Algumas pedras grandes estavam distribuídas pelo terreno de forma simples, porém elegante. Parecia obra de Lahan.

Ela também não conseguiu deixar de notar uma quantidade inquietante de marcas de queimaduras e cortes nos pilares e corrimãos da casa. Será que aconteceu alguma batalha aqui dentro?

Bem, ele expulsou a própria família e acumulou um bom número de inimigos políticos. Talvez ela não devesse ter ficado surpresa se ele tivesse se envolvido em uma ou duas brigas violentas no terreno da própria casa.

Na verdade, era a primeira vez que Maomao visitava a casa daquele excêntrico. Quando ela era pequena, ele tentou levá-la embora várias vezes, mas, em todas elas, a velha madame o espancou com a vassoura e resgatou Maomao. Sem falar nas inúmeras ocasiões em que Lahan precisou aparecer para levar embora o velho maluco, amarrado como um porco.

— Tem muitos bandidos por aqui? — resmungou Maomao, passando os dedos sobre um dos pilares queimados. A laca vermelha havia desaparecido completamente, e era evidente que ninguém via vantagem alguma em restaurá-la.

— Você faz este lugar parecer um antro de criminosos — respondeu Lahan. — Use os olhos! Essas marcas de queimadura foram feitas pelo meu honrado pai. E não dá para perceber como esses golpes de espada já são antigos? Nos últimos dez anos quase não houve invasões.

Ao ouvir aquilo, Yao e En'en deram um passo para trás.

Então ainda acontecem algumas, pelo visto...

Talvez as marcas de queimadura tivessem sido causadas por pólvora ou algo do tipo. Isso sim é um incômodo para a vizinhança.

— Pode deixar isso com seu querido irmão mais velho. Contratei o dobro de guardas desta vez!

— O que significa que normalmente você contrata só metade do necessário. Não pode haver ladrões por aqui — resmungou En'en. Ela não tinha feito todo aquele esforço para afastar Yao do terrível tio apenas para vê-la ser atacada por bandidos.

Lahan respondeu apenas com um sorriso presunçoso. Eles passaram pela casa principal e seguiram em direção ao anexo. Era menor que a residência principal, mas ainda assim muito melhor equipado do que a casa de um plebeu comum.

— Chegamos — anunciou Lahan.

Maomao deu uma olhada no interior. O lugar não era extravagante, mas também estava longe de ser simples. Se En'en havia considerado aquele um lugar adequado para sua jovem senhora ficar hospedada, então não devia ser ruim.

— Vocês duas dormiram bem ontem à noite? Se precisarem de qualquer coisa, não hesitem em me avisar. — disse Lahan dirigindo essas palavras às duas hóspedes de maneira muito mais respeitosa do que jamais falava com Maomao.

Talvez elas só precisem de um lugar onde ninguém invada a casa, pensou Maomao.

— Obrigada. Sim, dormimos muito bem. Foi uma noite tranquila e, desde que nenhum ladrão apareça, acho que ficaremos bem — disse En'en, sem deixar passar a oportunidade de reforçar o recado enquanto fazia uma reverência respeitosa para Lahan.

— E vocês têm criados suficientes?

— Sim. Enquanto eu estiver aqui, a jovem senhora não precisa de mais ninguém para cuidar dela. — En'en estufou o peito; Yao desviou o olhar, constrangida.

— Bem, se não precisam de mais nada, então vou voltar para a casa principal — disse Lahan.

Maomao lançou mais um olhar para o jardim. Havia muito poucos empregados para uma propriedade daquele tamanho. As únicas pessoas que viu foram um homem fazendo alguns reparos na casa e três crianças de cerca de dez anos. Pensando melhor, talvez uma delas fosse um menino.

— Você contrata crianças? — perguntou Maomao, impedindo Lahan de ir embora.

— Eu diria que é menos uma contratação e mais um investimento — respondeu Lahan.

— Ah, francamente...

Yao e En'en também passaram a ouvir a conversa com interesse.

— Meu honrado pai às vezes acolhe crianças que não têm para onde ir. Ele diz que acredita que elas serão úteis no futuro.

— Ah. Entendi.

O estrategista excêntrico era um caso perdido como ser humano, mas tinha um talento extraordinário para julgar o caráter das pessoas.

— Na verdade, pretendíamos acolher apenas uma criança — acrescentou Lahan. — Mas as outras duas vieram por conta própria, e acabamos ficando com as três. Ele não parecia considerar aquilo um mau negócio. Criar três crianças para, no futuro, conseguir excelentes funcionários. Agora eram três bocas para alimentar, mas o investimento renderia frutos anos depois.

— Hum... — disse Yao, levantando a mão com hesitação. — Quando o dono da casa, Mestre Lakan, vai voltar?

Era exatamente isso que Maomao também queria saber.

— Ele vai ficar fora por pelo menos três dias. Provavelmente mais. Ele comentou algo sobre uma disputa em melhor de três partidas contra o Sábio de Go, e eles não conseguem terminar uma única partida em apenas um dia. — Enquanto falava, Lahan olhou diretamente para Maomao, como se quisesse tranquilizá-la de que o excêntrico realmente não estava ali. — Talvez não seja um compromisso oficial, mas certamente haverá espectadores. Provavelmente vão alugar um prédio para que todos possam ficar hospedados lá.

— Ele não fez isso só por nossa causa, fez? — perguntou Yao, surpresa.

— Não. Eles fazem isso todos os anos. Será que eu não posso aproveitar alguns dias por ano longe da vigilância do meu pai? A carta de vocês apenas chegou no momento perfeito.

— Então o senhor realmente não se importa que estejamos aqui? — perguntou Yao.

— Está tudo bem. Desde que vocês não tenham más intenções, meu pai não vai se importar. Mesmo que ele volte enquanto vocês ainda estiverem aqui, fiquem à vontade para ficar. Apesar da mania dele de acolher crianças abandonadas, ele não tem uma memória muito boa para lembrar quem já trouxe para esta casa.

Havia algo naquele excêntrico que lhe permitia distinguir amigos de inimigos quase de imediato. Enquanto Yao e En'en não demonstrassem hostilidade, não haveria problema algum.

— Bem, acho que minha presença só vai atrapalhar vocês daqui para frente, então vou deixá-los à vontade. Foi bom revê-lo, tio-avô. Quando quiser voltar para casa, é só me avisar que providenciarei uma carruagem.

— Certamente. Muito obrigado.

Lahan já estava prestes a voltar para a casa principal quando parou de repente.

— Ah, é mesmo. Maomao.

Maomao não respondeu.

— Se algum dia você decidir que quer morar aqui, será bem-vinda a qualquer hora.

— Não vamos perder tempo falando de coisas que nunca vão acontecer. — disse ela, lançando um olhar fulminante para ele, como se aquele idiota de óculos estivesse delirando.

— Nunca? Acho que você pode acabar querendo ficar aqui por um bom tempo. Temos algo que você deseja. Além disso, este lugar está cheio de surpresas interessantes. — Depois desse comentário moderadamente sinistro, Lahan foi embora.

— Nem pensar... — resmungou Maomao enquanto olhava ao redor do anexo.

O edifício era antigo. À medida que avançavam pelo corredor, ela encontrou uma cozinha e uma sala de estar à esquerda, enquanto o quarto ficava à direita. Mas o que mais chamou sua atenção, foram as paredes. Elas eram feitas com dois tipos diferentes de madeira, formando um padrão de duas tonalidades. Ela abriu a porta no fim do corredor e parou. Ela sentiu o cheiro de papel.

A sala além da porta estava repleta de estantes cheias de antigos tratados médicos. Encostado na parede oposta havia um armário de gavetas do tipo usado para guardar remédios. As paredes exibiam o mesmo padrão de duas tonalidades dos outros cômodos, o chão era coberto por um tapete desbotado e, no teto, havia uma imagem semelhante a uma mandala dividida em nove partes.

Mas ela não tinha atenção suficiente para reparar em tudo aquilo.

Agora entendi. Ela olhou para Luomen, cuja mão acariciava as estantes com nostalgia.

— Isso é incrível. Não acredito que exista um lugar assim. Deve ser, no mínimo, tão bom quanto os arquivos médicos — disse Yao, mas as palavras entraram por um ouvido e saíram pelo outro para Maomao. Ela já puxava as gavetas do armário de remédios, com os olhos brilhando. Como esperava, elas estavam vazias, mas o cheiro dos antigos medicamentos impregnado na madeira fazia cócegas em seu nariz.

Em seguida, ela pegou um dos livros, um exemplar velho roído por traças. Seu velho havia se mudado para o distrito dos prazeres para criá-la; o velho eunuco, depois de deixar o Palácio Interno, provavelmente saiu de lá sem levar quase nada além das roupas do corpo.

Maomao avistou muitos livros pelos quais já havia se metido em encrenca por tentar dar uma espiada quando era mais jovem. Ela podia sentir a baba escorrendo pela boca.

En'en aproximou-se dela discretamente. — Mal consegui acreditar quando vi isto ontem. São obras importantes sobre medicina.

— Hã! — Maomao limpou a boca e tentou parecer calma e controlada, mas o sorriso logo voltou a tomar conta do seu rosto.

— Não existe a menor possibilidade de alguém ler tudo isso em uma única noite — disse Yao. — Acho que nem conseguiríamos terminar todos esses livros durante todas as férias.

— É verdade. Uma pena. Se você ficasse hospedada aqui conosco, Maomao, poderia ler tudo isso. — En'en deu uma leve cotovelada significativa em Maomao.

Naquele momento, Maomao finalmente entendeu o que Lahan queria dizer. Ele estava tentando fisgá-la apelando justamente com aquilo que ela mais gostava.

Maomao deu uma palmada forte nas duas bochechas e olhou para Luomen. — Então, hum, papai. Como exatamente vamos provar que somos dignas? — Apesar da presença de Yao e En’en, ela voltou a falar com um tom familiar.

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Luomen, ainda com a testa franzida, tocou uma das estantes.

— É bem simples. Vocês precisam ser capazes de ‘pegar’ um certo tratado médico que está em algum lugar desta sala.

— Pegar?

Que maneira estranha de dizer isso. Ele queria dizer que não era para pegá-lo fisicamente, mas sim aceitar seu conteúdo? Estaria dizendo que precisavam demonstrar que eram capazes de compreender esse livro?

— O que é esse tal tratado? — perguntou Yao, focada no problema diante delas.

— Chama-se O Livro de Kada — respondeu Luomen. Kada era o nome de um médico lendário. Dizia-se que possuía um conhecimento médico incomensurável e a capacidade de curar qualquer enfermidade. Muitas das histórias o faziam parecer menos um homem de verdade e mais um imortal mítico.

— Não estou entendendo, senhor — disse Yao. A franqueza dela era uma de suas maiores qualidades.

— Nesse caso, suponho que esta tarefa será muito difícil para você — respondeu Luomen. Era estranho vê-lo tão frio; normalmente ele jamais seria tão ríspido.

Todo esse papo sobre ser digno... Acho que ele não quer nos ensinar, pensou Maomao. Ela começava a achar que tinha sido um erro trazer Yao e En'en até ali. Talvez Luomen tivesse tornado o desafio ainda mais difícil do que planejou originalmente para poupá-las do que quer que estivesse acontecendo. Pelo bem do futuro delas, ele não queria que Maomao nem nenhuma das duas continuasse seguindo o caminho da medicina.

Então, dentre todos os inúmeros livros desta sala, elas precisavam encontrar o tal Livro de Kada, fosse lá o que fosse, e compreender seu conteúdo.

Que tarefa diabólica. Era um tipo de problema bem diferente daqueles que Jinshi costumava lhe causar.

Luomen já ia saindo da sala, como se estivesse indicando que não tinha mais nada a dizer, quando En'en levantou a mão e disse:

— Com licença, senhor. Há uma coisa sobre a qual eu gostaria de ter certeza.

— E o que seria?

— Esse livro... Ele está nesta sala, não está?

— Está, sim. Ou pelo menos estava quando deixei esta casa. Desde que ninguém tenha mexido nas coisas por aqui, ele ainda deve estar aqui.

— E o livro recebeu esse nome por causa de Kada? — perguntou En'en, desenhando os caracteres com o dedo para garantir que estavam falando da mesma coisa.

O semblante de Luomen se abateu por um instante.

Eu sabia que a En'en era esperta, pensou Maomao. Aquela pequena mudança de expressão era o sinal de Luomen sempre que ele se via encurralado. Era praticamente uma confirmação de que En'en tinha acertado em cheio o ponto principal da questão.

— Sim, isso mesmo — respondeu ele. — Embora eu não garanta que o livro tenha exatamente esse título. Mas sim, é sobre Kada.

Maomao procurou na memória alguma outra pergunta que pudesse fazer ao pai, mas En'en já tinha abordado praticamente tudo o que importava.

— Eu também tenho uma pergunta — disse Yao, levantando a mão.

— Pode falar.

— Essa é uma tarefa que a Maomao poderia realizar sozinha?

Após uma pausa, Luomen respondeu:

— Duvido. Para ser bem sincero, a presença de vocês duas aqui foi um erro de cálculo da minha parte. — Sem dizer mais nada, ele saiu da sala mancando, apoiado em sua bengala.

— Não faço ideia do que ele está querendo dizer... — resmungou Maomao, ao mesmo tempo que pegava um livro. O volume estava completamente corroído por insetos depois de quase vinte anos parado. Entre a umidade, o sol e as pragas, alguns livros estavam desbotando, enquanto outros praticamente se desfaziam. A maioria era feita de papel, e não escrita em tábuas de madeira, que provavelmente ocupariam espaço demais para guardar tantas obras em uma única sala.

— Eles nunca arejaram esses livros. Olha o estado deles — comentou Yao.

— Pois é. Eu gostaria de copiar todos eles. Seria um desperdício perder tantos livros — respondeu Maomao. Ela imaginou convencer o médico charlatão a conseguir papel de alta qualidade em sua terra natal para que pudesse fazer cópias limpas. A maioria dos livros continha informações úteis e, se não fosse pela "lição de casa" de Luomen, ela teria prazer em ler todos com calma.

Ooh, esta é uma fórmula que eu nunca experimentei!

Ela balançou a cabeça, tentando se convencer a não se perder no livro volumoso que segurava. Não tinha tempo para isso. Ao anoitecer, teria que voltar para Jinshi. Queria fazer isso e encerrar o assunto.

— Então... vocês duas. Disseram que estão lendo esses livros desde ontem, certo? O que acharam deles?

— Bem... Todos parecem valiosos — respondeu Yao.

— Concordo. Todos são muito úteis. Mas não vimos nada que eu chamaria de Livro de Kada — acrescentou En'en.

O primeiro problema era entender o que exatamente era o "Livro de Kada".

De uma coisa eu tenho certeza: meu velho jamais nos daria um problema sem solução. Ele afirmou que existia um livro que correspondia à descrição, e disse para elas "pegá-lo".

Maomao observou as estantes, soltando um baixo resmungo. Luomen era um gênio; bastava descobrir uma coisa para deduzir outras dez. Ele sabia perfeitamente o que provavelmente tinha acontecido com aqueles livros ao longo dos últimos vinte anos. Mesmo que, como ele havia dito, que ninguém tivesse tocado neles, ainda assim estariam infestados de insetos e se desfazendo. Alguns talvez nem fossem mais legíveis.

— Yao, En'en. Que tal organizarmos primeiro tudo o que sabemos?

Luomen disse que Maomao não conseguiria resolver aquilo sozinha. Ela presumiu que fosse porque havia livros demais para uma única pessoa examinar, mas mesmo três pessoas juntas não pareciam ter muito mais chances. O que significava que existia algum obstáculo além da simples quantidade.

— Como assim? Quer dizer falar sobre que livros existem? — perguntou Yao.

— As estantes estão organizadas por assunto. Gostariam que eu fizesse um esquema? — perguntou En'en.

— Se você puder, por favor.

En'en começou a escrever cuidadosamente em uma folha de papel, indicando a localização de cada estante e o tema dos livros guardados em cada uma.

— Ah, isso me lembra... Há números na lombada de cada livro para facilitar a catalogação.

Maomao olhou para o livro que segurava.

A capa era feita de um material resistente e, por isso, havia escapado dos insetos. Ainda era possível ler claramente a inscrição na lombada:

二—1—I.

— Eu... não entendo muito bem, mas você disse que isso são números, certo? — perguntou Yao.

Não era de se admirar que ela estivesse confusa; ela não sabia ler idiomas estrangeiros. Já Maomao e En'en conheciam o básico e conseguiam acompanhar o sistema de numeração.

— Sim. São números ocidentais — explicou En'en, acrescentando o sistema de numeração ao diagrama.

Maomao examinou o livro atentamente e então percebeu algo.

— Com licença... Alguma de vocês pegou o livro que deveria estar aqui?

Ela apontou para o espaço entre dois livros na estante.

— Não. Eu devolvi todos os que tirei — respondeu En'en.

— Eu também. O que estou com ele agora peguei de outra estante. Por quê? O que houve? — perguntou Yao.

— Está faltando um dos números.

Os livros estavam organizados em sequência de acordo com a numeração das lombadas, mas um deles não estava ali.

— Qual número? — perguntou En'en.

— 一-2-II — respondeu Maomao. — Vou conferir as outras estantes.

Ela começou imediatamente a procurar. Yao tentou ajudar, mas, como não conseguia ler a maior parte da numeração, acabou apenas observando Maomao trabalhar. Por fim, Maomao disse:

— Deste lado não falta nenhum.

— E nas outras?

— Eu teria que verificar... Mas duvido.

Um único livro desaparecido.

Será que meu velho levou? Maomao resmungou novamente. Ela não se lembrava de haver livros na cabana onde viviam no distrito dos prazeres.

— Acha que deveríamos perguntar ao Mestre Lahan? — sugeriu En'en, anotando o número 一-2-II. Depois pousou o pincel. Encontrar informações era um dos seus pontos fortes, e Maomao depositava grandes esperanças nisso. — Ele provavelmente aparecerá perto do meio-dia — disse En'en, olhando pela janela para conferir a posição do sol.

— Então ele vem avisar quando o almoço está pronto?

— Não. Ele vem para comer. Falando nisso, já devo começar a cozinhar.

— Você cozinha? — perguntou Maomao, incrédula.

— Ele disse que providenciaria as refeições, mas a En'en insistiu em cozinhar. O Mestre Lahan fornece os ingredientes e a cozinha, mas parece gostar muito da comida dela. Ele jantou aqui ontem e tomou café da manhã conosco hoje — explicou Yao. Que explicação conveniente.

Entendi...

Lahan gostava de coisas bonitas, de coisas agradáveis, e isso incluía sabores. Poder desfrutar de uma refeição requintada na companhia de duas belas mulheres devia ser o paraíso para ele.

Que canalha.

Maomao achava que En'en estava cedendo demais. Ela devia saber que aquele sujeito despenteado de óculos nunca se cansava de mulheres bonitas.

— Então vou indo. Vou preparar seu prato favorito, senhorita: pato! Maomao, por favor, cuide das coisas por aqui.

En'en saiu da sala.

Acho que a En'en está muito mais preocupada com a alimentação da sua senhorita do que com essa história de ser digna ou qualquer coisa assim. Maomao começava a se arrepender de confiar que En'en a ajudaria a descobrir o que queria saber.

— Ela nem precisava pedir. Eu sei muito bem como procurar em estantes — disse Yao, emburrada. O Instinto de Senhorita da En'en devia estar apitando, porque, embora tivesse acabado de sair, Maomao percebeu que ela espiava pela fresta da porta. Ela decidiu fazer um favor a En’en e não dizer nada. En’en observava Yao atentamente, como se estivesse gravando sua expressão na memória.

— Vamos perguntar ao Mestre Lahan sobre o livro desaparecido. Até lá, talvez devêssemos examinar os que restaram? — disse Yao.

— Bem... quanto a isso… — Maomao vinha considerando inúmeras possibilidades. Ela sabia muito mais sobre seu pai, Luomen, do que Yao ou En’en, por isso, tinha mais chances de adivinhar o que ele estava tramando. Ela pegou outro livro da estante e começou a folheá-lo. P Faltavam pedaços de algumas das páginas desgastadas pelo tempo, enquanto outras estavam grudadas por causa da umidade. Tentar separá-las à força provavelmente as tornaria ilegíveis. — Tenho a impressão de que o Livro de Kada não é um livro como este.

— Como assim? — perguntou Yao.

— Meu velho... quer dizer, Luomen disse para encontrar o Livro de Kada. Eu não sei exatamente o que ele quis dizer com "pegar", mas, se nem conseguimos ler o conteúdo, nunca vamos chegar a lugar nenhum, certo? Ela fez questão de falar não de Luomen, o médico, mas de Luomen, seu pai.

— Bem... é verdade.

— Se Luomen não quer fazer alguma coisa, ele pode muito bem nos dar uma tarefa extremamente difícil. Mas nunca nos daria um problema sem solução. É por isso que não acredito que a resposta esteja em um livro abandonado por vinte anos sem ninguém para cuidar dele. Pelo menos não num livro escrito em papel tão frágil.

Yao olhou para ela.

— Talvez ele simplesmente não imaginasse que os livros estariam em tão mau estado. Você não está pensando demais?

— Duvido. Meu pai é um gênio. Disso eu tenho absoluta certeza — respondeu Maomao.

Yao fez uma expressão um pouco exasperada, mas continuou:

— Certo. Supondo que não seja um livro comum, então que tipo de livro seria?

— Essa é uma boa pergunta. — Maomao pegou um dos rolos de tábuas de madeira da prateleira inferior.

Como ocupavam mais espaço, havia muito menos deles do que livros de papel. Fossem feitos de madeira ou de bambu, ambos duravam muito mais do que papel de baixa qualidade.

— Acho que isto seria mais resistente.

— Tá, e daí?

Mesmo assim, algo ainda parecia errado. Maomao desamarrou o cordão do rolo e o abriu, produzindo um leve estalar. Sim, duraria muito tempo, mas era muito mais fácil escrever em papel, e aquele rolo não continha nada especialmente interessante. Como havia poucos deles, bastou que cada uma pegasse uma pilha para examinarem tudo rapidamente.

— Parece que também não é isso — disse Yao.

— Também acho.

As duas suspiraram e guardaram os rolos de volta.

— Livro de Kada! Afinal, o que isso quer dizer?!

— Concordo. O que ele tem de tão "Kada"? — disse Maomao. Ela gostaria de ter insistido um pouco mais na pergunta que En'en havia feito a Luomen. — Por que não Genka?

— Esse não é outro nome de Kada? Na verdade, é até o mais usado — respondeu Yao. Ela conhecia medicina o suficiente para estar familiarizada com o nome. Também sabia que o lendário Kada era chamado com mais frequência de Genka. Quanto ao motivo...

— Nomes que usam o caractere Ka, o caractere de "flor", não são bem-vistos. Mesmo que ele tenha vivido muito antes da fundação de Li — explicou Maomao.

De modo geral, em Li, apenas a família imperial podia usar aquele caractere em seus nomes. Às vezes algum camponês analfabeto acabava dando esse nome ao filho sem saber, ou alguém o usava deliberadamente como provocação...

Como minha irmã Joka.

Ela adotou aquele nome, que significava "mulher-flor", quando se tornou cortesã. Condenada a viver uma vida incompatível com alguém que odiava homens, sem dúvida nutria ressentimento por aqueles que viviam em um mundo ao qual eram concedidas "flores". Aquele nome era sua pequena forma de desafiar esse mundo.

— Um médico da corte serve ao governo. Em princípio, ele nem deveria pronunciar o nome Kada — disse Yao. E ela tinha razão. Era um fato que certamente não passou despercebido por Luomen.

Nesse caso… Maomao sentiu que estava cada vez mais perto de desvendar o enigma deixado por Luomen. Ela ainda não fazia ideia de onde aquele livro poderia estar, mas começava a imaginar o que ele realmente era.

Se for o que estou pensando, então não vai estar em nenhum lugar óbvio. Podiam descartar tudo o que estava nas estantes, inclusive os rolos.

Então... onde estava?

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Atenciosamente,

Scan Moonlight Valley

Fim da leitura

Capítulo 9.03 concluído

Volume 9 – Capítulo 03 – Capítulo 03: O Livro de Kada (Parte 1)