Diários de uma ApotecáriaVolume 9 – Capítulo 06 – Capítulo 06: Um Convite Para a Capital do Oeste
Capítulo 9.06— Vou ficar com isto — disse En'en, envolvendo cuidadosamente o Livro de Kada em um pano. Ela e Maomao haviam imaginado que tipo de livro provavelmente era, mas Yao não. Mesmo assim, ela o tinha visto. Por vários minutos, permaneceu imóvel, paralisada pelo choque.
Ainda assim, acho que isso mostra que ela amadureceu um pouco. Quando Maomao a conheceu, Yao teria feito muito mais escândalo por causa do livro. Seis meses como assistente médica pareciam ter permitido que ela aceitasse ideias que antes não aceitaria.
Lahan mandou avisar Luomen, que viria buscá-las no dia seguinte. Maomao esperava conseguir organizar os próprios pensamentos antes disso.
— Receio que eu tenha uma coisa para fazer — disse ela a Yao e En'en. Ela estava preocupada com o estado delas, mas havia outro problema do qual ela precisava cuidar, e esse ela não podia fugir.
Logo depois, ela estava sacolejando dentro de uma carruagem, voltando da casa do estrategista excêntrico para o dormitório. Seria muito mais rápido se eu pudesse ir direto para lá, pensou ela. No entanto, ela não queria ir até a vila de Jinshi na carruagem que Lahan havia providenciado para ela. Outra carruagem iria buscá-la no dormitório. A mulher que administrava o prédio lançou um olhar desconfiado para Maomao, mas não fez perguntas. Talvez o salário dela incluísse algum extra para garantir que continuasse assim.
Assim que Maomao chegou à vila, sentiu a tensão no ar. O ambiente era tão sombrio que parecia que Jinshi estava tentando cultivar cogumelos. Gaoshun andava de um lado para o outro com a testa constantemente franzida, enquanto Suiren parecia inquieta e murmurava: — Ora, ora… — O único ponto alegre no aposento era Chue, a criada. Ela trouxe chá para Maomao, produzindo aquele característico rangido a cada passo.
— Este é um chá fermentado do oeste — disse ela. — Tem um aroma agradável e fica delicioso com um pouco de bebida destilada, mas me disseram para não deixar você beber nada. — Ela lançou um olhar na direção de Suiren. Maomao desejou poder tomar o chá com álcool. Na verdade, preferia que nem servissem o chá. Depois de um instante de hesitação, Maomao perguntou:
— Devo perguntar? — Ela não queria realmente saber, mas Jinshi parecia prestes a espalhar esporos a qualquer momento, e ela não queria que nenhum caísse sobre si.
— Se puder fazer essa gentileza... — respondeu Chue e Gaoshun veio apressado até elas. Não havia sinal de Basen, e parecia improvável que aparecesse enquanto o seu pai estivesse de serviço.
— Bem... Ele vai para a capital do oeste novamente — disse Gaoshun.
— Ah. Entendo. Coitado.
O rosto de Jinshi se contorceu de irritação. Atrás dele, Gaoshun fazia um enfático gesto de "não", cruzando os braços em forma de X. Por algum motivo, Chue o imitava, embora, no caso dela, parecesse mais uma dança. De algum jeito, aquilo parecia até divertido.
— Afinal, quem é ela? — perguntou Maomao a Suiren antes que conseguisse se conter.
— Ajudaria se eu dissesse que ela é a nora de Gaoshun? — respondeu Suiren.
— Nora? Então ela é casada com o filho dele?
— Sim. Não com Basen. Além da filha mais velha, ele também tem outro filho mais velho.
— Entendi.
Enquanto Maomao conversava com Suiren, a nuvem metafórica de esporos ao redor de Jinshi praticamente já havia tomado forma. Ela voltou a atenção para ele, resignada ao fato de que teria de ouvir o restante da história.
[Noelle: Isso me lembra da cena dele encolhido no chão e o Gaoshun olhando kkkk]
— Então… hã, por que isso? Ele não acabou de ir para lá no ano passado?
— Foi um pedido do senhor Gyoku-ou. Ele quer que o mestre Jinshi veja como as coisas estão funcionando sem problemas mesmo na ausência do senhor Gyokuen.
— Nossa… — comentou Maomao, mas em sua cabeça, ela pensou: Que saco.
Gyokuen era o pai da imperatriz Gyokuyou, que naquele momento estava morando na capital. Se Maomao não estava enganada, o irmão mais velho da imperatriz, Gyoku-ou, era quem administrava atualmente os assuntos da capital do oeste.
A viagem até aquela cidade distante levava mais de duas semanas por terra. Considerando a ida, a volta e o tempo que passaria lá, Jinshi poderia facilmente ficar mais de um mês e meio longe da capital.
— Talvez não seja meu lugar sugerir isso, mas não seria possível que outra pessoa fosse no lugar do mestre Jinshi desta vez? — perguntou Maomao. Era uma sugestão bastante sensata. Gaoshun e Suiren concordaram com um aceno de cabeça. Apenas Chue balançou a cabeça negativamente, continuando sua dança.
Ela realmente chama atenção... Não sei bem o que fazer com ela, pensou Maomao. Ela tentava manter a seriedade, mas, com Chue saltitando na periferia de sua visão, sentia que podia cair na gargalhada a qualquer instante. Talvez essa fosse justamente a intenção. Principalmente porque fazia aquilo de um jeito que só Maomao conseguia ver. Que maldade. Eu sei que você está tentando me fazer rir. Ela fez o possível para olhar para qualquer lugar onde não enxergasse a outra mulher.
Seu olhar deve ter chamado a atenção de Suiren, porque logo depois Chue levou um leve golpe na parte de trás da cabeça, dado pela velha senhora. Gaoshun tinha uma nora realmente incomum. Ele pediu desculpas a Suiren pelo comportamento de Chue.
— Sinto muito, mas acho melhor irmos para outro lugar — disse Jinshi, inevitavelmente distraído pela confusão.
— Claro, jovem mestre — disse Suiren. Ela foi até o cômodo ao lado preparar bebidas. Aquilo caiu perfeitamente para Maomao, que estava ansiosa para tratar do ferimento de Jinshi.
Ela o seguiu até a sala ao lado e fechou a porta. Agora sem sua cuidadora e sem sua vigilante, Jinshi soltou um longo suspiro.
— Posso continuar a conversa? — perguntou ele.
— Fique à vontade. Posso dar uma olhada no seu ferimento enquanto isso?
— Fique à vontade.
Maomao tirou as ataduras e o remédio. Jinshi retirou a sobreveste, revelando a faixa enrolada em seu abdômen.
Chue quase tinha feito Maomao esquecer do que estavam falando. Sobre o que era mesmo? Felizmente, Jinshi refrescou sua memória enquanto ela removia o curativo.
— O próprio senhor Gyoku-ou me pediu para voltar à capital do oeste. Pensei em recusar, considerando que acabei de voltar de lá. Mas primeiro a imperatriz Gyokuyou e depois Sua Majestade me pediram que fosse. Então acho que a questão está resolvida.
— O imperador e a imperatriz? Você acha que eles planejaram isso? — Maomao sentiu um suor frio percorrer suas costas. O ferimento exposto ainda estava avermelhado. Ela havia conseguido estancar o sangramento, mas era evidente que a lesão ainda era recente.
— A carta do senhor Gyoku-ou chegou ontem à noite. Ele quer que alguém vá verificar como as coisas estão andando na capital do oeste sem o senhor Gyokuen presente.
Maomao não disse nada. Jinshi já parecia estar se preparando mentalmente. Se ele fosse para o oeste, Maomao também teria de acompanhá-lo. Enquanto verificava se o ferimento não apresentava sinais de infecção, em seguida, aplicou mais pomada.
Preciso fazer o meu velho me ensinar cirurgia, e rápido. A questão era ainda mais urgente do que ela havia imaginado. Se eu soubesse substituir a pele danificada por pele nova… Jinshi estava tentando encurralá-la, mas ela se recusava a simplesmente fazer o que ele queria. Será que alguém já conseguiu fazer isso com sucesso?
Ela vasculhou a memória em busca de algo que tivesse lido. No passado, havia relatos de tentativas de enxertar dentes e pele em escravos, mas todas as histórias que conhecia terminavam em fracasso. Ainda assim, havia alguns casos de sucesso ao transferir a própria pele de uma pessoa de uma parte do corpo para outra.
Talvez, se eu escolhesse uma parte do corpo de Jinshi que não chamasse atenção...
As nádegas, talvez. Distraidamente, ela puxou um pouco a calça dele.
Jinshi quase saltou de susto.
— O-O que você pensa que está fazendo?!
Melhor não dizer que eu estava tentando dar uma olhada na bunda dele.
[Noelle: kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk amo kkkkk]
— Desculpe. Eu precisava afrouxar um pouco sua calça para conseguir aplicar a pomada.
— Você podia ao menos me avisar. Você não tem vergonha nenhuma? — Ele a encarou com a expressão mais estranha.
— É agora que o senhor resolveu se preocupar com vergonha?
Maomao havia passado por dias bastante estressantes por causa das explosões emocionais de Jinshi, mas agora estava em seu elemento. Quando uma nova forma de tratamento lhe vinha à mente, seu cérebro começava a funcionar em uma velocidade impressionante.
Ela espalhou cuidadosamente o remédio sobre o ferimento e depois refez o curativo.
— Eu realmente preciso que o senhor aprenda a fazer isso sozinho — disse ela, mostrando mais uma vez o procedimento por precaução.
Ela se afastou e Jinshi vestiu novamente seu manto, parecendo, por algum motivo, abatido.
— Isso significa que vou ter de acompanhá-lo até a capital do oeste, não é? — perguntou Maomao.
— Sim. É isso mesmo.
Na última viagem, ela tinha quase certeza de que havia um médico de verdade entre os funcionários, embora não tivesse prestado muita atenção nele. Talvez houvesse... Talvez não. A memória de Maomao não era confiável para esse tipo de coisa. Seria tão conveniente se ela conseguisse lembrar das pessoas depois de vê-las apenas uma vez. E, por acaso, ela conhecia alguém que fazia exatamente isso.
Rikuson. Era esse o nome. O assistente do estrategista excêntrico estava agora na capital do oeste. Talvez ela o encontrasse.
— Entendido, senhor. Quanto tempo ficaremos lá?
Se fosse mais ou menos o mesmo período da última vez, ela achava que conseguiria dar um jeito.
— Não sei. Imagino que, no mínimo, três meses.
— Três meses? — Era muito tempo. E aquilo era apenas o mínimo? De repente, ela teve um pensamento: aquilo era uma missão punitiva. Jinshi havia feito algo impensável diante das duas pessoas mais importantes do país. Era natural que houvesse consequências.
— Mestre Jinshi...
— Eu sei. Não diga.
[Noelle: Ele sendo punido e agora punindo a Maomao kkkk tadinha vai perder seu estagio]
Será que ele sabia exatamente no que ela estava pensando, ou imaginava outra coisa? Ele podia pedir que ela não perguntasse, mas havia uma pergunta que ela precisava fazer. Ainda assim, escolheria uma mais fácil.
— Tenho muitas perguntas, mas deixe-me fazer esta primeiro: por que a Lady Gyokuyou insistiria tanto para que o senhor fosse?
O Imperador ela conseguia entender, mas até a imperatriz havia dito a Jinshi para ir até a capital do oeste. Por quê? Aquela região era governada pela família dela, e Jinshi acabou de jurar lealdade a ela.
— Ainda não tenho certeza, mas tenho uma ideia — disse Jinshi, falando mais para si mesmo. — A filha do senhor Gyoku-ou logo entrará para o palácio interno.
— Ah?
Maomao assentiu, mas continuava intrigada. Entrar para o palácio interno significava que a jovem se tornaria esposa do Imperador. Até mesmo Sua Majestade teria dificuldade para recusar a filha de um dos homens mais poderosos da capital do oeste.
Uma parente dele já é a imperatriz, a esposa oficial de Sua Majestade, pensou Maomao. Será que Gyoku-ou está tentando fortalecer ainda mais a influência de sua família, colocando outra parente de sangue na corte?
— Não faço ideia do que o mestre Gyokuen pensa disso, mas não lhe parece que isso coloca a imperatriz Gyokuyou em uma posição bastante delicada? — perguntou Maomao. A filha de seu irmão mais velho seria sobrinha da imperatriz. Casamentos políticos frequentemente envolviam pessoas com laços de sangue próximos, mas Gyokuyou dificilmente ficaria satisfeita com essa perspectiva. E quanto a Gyokuen? Com a posição de sua filha já garantida, ele realmente desejaria que uma neta também entrasse para a corte?
Isso se ela realmente for uma parente de sangue.
Maomao tinha a impressão de estar vendo rachaduras na fachada da família de Gyokuyou.
— A imperatriz é contra a entrada da sobrinha no palácio interno? — perguntou ela. Jinshi não respondeu de imediato, e Maomao interpretou aquele silêncio como confirmação de que estava no caminho certo. A expressão dele dizia tudo.
Por fim, ele falou:
— É verdade que ela não está entusiasmada. No entanto, ela também não pode expulsar a garota do palácio interno. Isso significa que será preciso encontrar um meio-termo.
Havia pouquíssimos príncipes na atual linhagem imperial. Na verdade, apenas três… e dois deles ainda eram bebês. Restava apenas um candidato realmente viável.
— Meus parabéns pelo casamento, mestre Jinshi! — disse Maomao batendo palmas.
Sem dizer uma palavra, Jinshi segurou a cabeça dela com as duas mãos e apertou. Ela soltou um grito de surpresa. Quando ele a soltou, esfregou a lateral da cabeça e lembrou a si mesma que, às vezes, era melhor manter a boca fechada.
— Você acha que eu vou me casar... com este corpo?!
Foi o senhor quem escolheu esse corpo! Maomao protestou em pensamento, mas desta vez teve juízo suficiente para guardar aquilo para si. Em vez disso, perguntou:
— Apenas por curiosidade, existe alguém além do senhor que seja adequado para se casar com ela?
— Seria preciso voltar várias gerações na família imperial. Pessoas que hoje em dia passam quase todo o tempo trancadas em templos, lendo textos sagrados e mantendo distância do mundo comum. A menos que algum deles tenha desenvolvido ambições desmedidas e esteja disposto a iniciar uma rebelião, não vejo nenhum candidato entre eles.
— E imagino que ela e o pai dela não aceitariam um vassalo de mérito como marido.
Se, porém, Jinshi partisse para a capital do oeste justamente quando a jovem chegasse, o casamento poderia ser adiado por meses. O pai da noiva nem sequer teria como reclamar, já que foi ele mesmo quem convocou Jinshi.
Tenho pena da garota. Viajar tudo isso para cá só para ficar esperando.
Por mais que sentisse certa compaixão, Maomao não podia fazer nada a respeito. Além disso, se Jinshi estivesse disposto a se casar apenas para fazer uma jovem feliz, não faltariam moças com histórias tristes batendo à sua porta.
Não posso me preocupar demais com os problemas dos outros.
Maomao tinha outras coisas para fazer.
— Quando o senhor acha que vai partir? — perguntou ela.
— Daqui a dois meses — respondeu ele.
Não era muito tempo. Ela tinha muita coisa para aprender e precisaria fazer isso às pressas.
Jinshi parecia querer dizer mais alguma coisa, então ela perguntou:
— Há mais alguma coisa em sua mente, senhor?
Ele hesitou por um instante antes de responder:
— Ainda não tenho informações suficientes. Entrarei em contato com você em outra ocasião.
— Muito bem, senhor. — Maomao reuniu seus remédios e ataduras, confirmou quando deveria voltar e, em seguida, deixou a vila.
[Noelle: Eita que rolo em? Sei que é da história, mas ainda acho estranho que logo o Imperador não possa rejeitar alguém, ainda mais de uma família que ele já aceitou uma, e que ainda por cima é a Imperatriz. Vamos ver como será o desfecho disso tudo.]
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Atenciosamente,
Scan Moonlight Valley
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