Diários de uma Apotecária — Capítulo 9.07: Volume 9 – Capítulo 07 – Capítulo 07: Tabu

Diários de uma Apotecária
Cap. 9.07
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Diários de uma Apotecária

Volume 9 – Capítulo 07 – Capítulo 07: Tabu

Capítulo 9.07

4.720 palavras~21 min de leitura

No dia seguinte, a biblioteca da casa do estrategista excêntrico havia sido cuidadosamente arrumada. O tapete estava de volta ao seu lugar, e as estantes também. Se havia alguma diferença, era apenas que o velho tapete desbotado tinha sido substituído por um novo.

— O mestre Lahan mandou um dos criados arrumar tudo — informou En'en.

— Foi mesmo? — disse Maomao, aliviada. Ela havia saído logo depois dos acontecimentos do dia anterior e se sentia culpada por ter deixado Yao e En'en para arrumarem toda aquela bagunça.

— Mandei, sim, e o mínimo que você poderia fazer era demonstrar um pouco de gratidão, irmãzinha — disse alguém a quem ela definitivamente não queria agradecer. Ele estava sentado tranquilamente em uma cadeira.

— O que diabos você está fazendo aqui? — perguntou Maomao.

— Que jeito de falar! Com meu estimado pai fora, eu estou no comando desta casa.

— Em outras palavras, você está com tempo de sobra. Meu pai vem ou não?

— Maomao, controle esse tom — disse En'en. Yao já estava sentada, esperando ansiosamente.

[Kessel: Isso, minha querida En'en. Coloque juízo na cabeça dessa desbocada.]

Luomen chegou, anunciado pelo som de sua bengala batendo no chão. Ao entrar na biblioteca, agradeceu ao criado que o acompanhava.

En'en fechou a porta. As janelas também estavam fechadas; velas haviam sido acesas para iluminar o ambiente, enchendo a sala não apenas de luz, mas também de um suave aroma de mel.

Não gosto muito da ideia de usar fogo dentro de uma biblioteca… Maomao faria questão de apagar as velas e abrir as janelas assim que aquela conversa terminasse.

Ela puxou uma cadeira para Luomen.

— Obrigado — disse ele, mas parecia preocupado. Provavelmente por causa do livro que estava sobre a mesa.

— O senhor se importa se eu ficar, tio-avô? — perguntou Lahan.

— Talvez seja melhor pensar duas vezes antes de se envolver nisso, Lahan — respondeu Luomen.

— Entendo o seu ponto, mas quero saber o que está acontecendo na minha casa. Não faz parte do meu jeito fugir da responsabilidade dizendo que não sabia.

Em alguns aspectos, Lahan tinha uma personalidade completamente oposta à de Maomao. Talvez simplesmente confiasse que conseguiria lidar com qualquer problema que surgisse.

— Estamos certos? Este é o Livro de Kada? — perguntou Yao, levantando-se e apoiando o grosso volume encadernado em pele de carneiro.

— Sim... Eu o compilei enquanto estudava no oeste.

O rosto de Yao ficou tenso. En'en permaneceu impassível, enquanto Lahan parecia, se possível, ainda mais interessado.

— Então essas ilustrações também foram feitas pelo senhor, mestre Luomen? — perguntou Yao. Ela folheou algumas páginas, revelando desenhos de corpos humanos abertos.

— Fui eu quem as desenhou. Também fui eu quem realizou as dissecações.

Ao ouvir a palavra dissecações, o rosto de Yao endureceu ainda mais. Poucas pessoas consideravam dissecar um corpo humano algo aceitável. Profanar um cadáver era visto como um ato imoral e era proibido.

— Eram... criminosos? — perguntou Yao.

Luomen balançou a cabeça tristemente.

Ele se levantou e abriu o livro na última página, onde havia o retrato de uma mulher. Ela parecia estrangeira. Seus cabelos esvoaçavam, e sua pele clara havia sido retratada com delicadas pinceladas. Seus órgãos internos apareciam desenhados de maneira extremamente realista, enquanto seu rosto possuía a expressão serena e estilizada de um bodisatva. Havia manchas de tinta espalhadas pela página, que estava visivelmente mais desgastada do que as demais.

— As terras a oeste conhecem muitas coisas que nós ignoramos, e há muito que podemos aprender com elas. Mas isso não significa que tudo o que fazem esteja certo. Muitas vezes vi pessoas serem punidas sem terem cometido crime algum. — Havia tristeza nos olhos de Luomen. Era como se ele estivesse olhando para um passado distante. — Diziam que essa mulher era uma bruxa. Para testar se a acusação era verdadeira, amarraram-na a uma grande pedra e a lançaram na água. Ela afundou.

Maomao estremeceu.

Luomen raramente falava sobre o período em que estudou além das fronteiras de Li. Quando comentava alguma coisa, geralmente eram histórias sobre ferimentos e doenças que havia encontrado.

— Se ela não voltasse à superfície, provaria que não era uma bruxa. Se flutuasse, significaria que era uma bruxa e seria queimada viva. Eles concluíram que ela não era uma bruxa... mas isso não devolveu o ar aos seus pulmões.

Yao estava pálida, e suas mãos tremiam. Ela parecia dividida entre tapar os ouvidos e ouvir até o fim; sentia que precisava escutar, mas não queria fazê-lo.

En'en fez a pergunta que estava na mente de todos.

— Essas bruxas... eram criminosas?

— Não. Algumas seguiam uma religião diferente. Eram consideradas hereges. Outras estudavam medicina. Às vezes, até pessoas comuns que viviam viajando eram tratadas como bruxas. Nesse sentido... talvez eu também fosse uma delas. — Luomen fechou o livro, passando os dedos pela palavra bruxaria na capa. — Ela entendia por que a acusavam de ser uma bruxa. Foi ela quem me ensinou a medicina ocidental. Ela mesma me pediu que utilizasse seu corpo para uma dissecação depois de sua morte. Pelo progresso da medicina, ela ofereceria o próprio corpo… — Sua voz tremeu quase imperceptivelmente. — Foi graças a ela que consegui salvar a imperatriz viúva e seu filho.

A imperatriz viúva havia engravidado muito jovem e não conseguia dar à luz naturalmente. Foi preciso abrir seu ventre.

Yao bateu na mesa com a mão ainda trêmula.

— Então o senhor abandonou a própria mestra, mestre Luomen?! Isso é horrível!

A tensão tomou conta da sala. Luomen não negou. En'en também permaneceu em silêncio.

— Não... — Maomao começou a dizer, mas foi interrompida por ninguém menos que Lahan.

— Acho que meu tio-avô fez a escolha certa — disse ele. — Pense nas circunstâncias. Se a mulher fugisse, isso provaria que ela era uma bruxa. Se alguém a resgatasse, também provaria que era uma bruxa. E quem a salvasse? Um estudioso estrangeiro que havia viajado até aquele país para "aprender". Bruxo na certa. Mesmo que isso tivesse acontecido antes de meu tio-avô ser castrado, o que ele poderia fazer sozinho? Você parece imaginar uma história de conto de fadas. Um único homem enfrentando o mundo inteiro, salvando a princesa capturada, derrotando os vilões, e todos vivendo felizes para sempre. Era isso que você imaginava? Não foi isso que teria acontecido. A única coisa que teria sido diferente é que haveria dois cadáveres em vez de um.

— Mas... mas… — Yao entendia aquilo racionalmente, mas aceitá-lo emocionalmente era muito mais difícil.

[Noelle: Lahan sempre sensato! E nem vem defender Kessel que ela não conhece o mundo e tals, Lahan nunca viveu como Maomao e é sensato.]

[Kessel: Que horror! O Luomen abandonou a própria mestra a sorte! En'en jamais abandonaria a Lady Yao.]

Maomao estendeu a mão para o livro, tentando abri-lo novamente na última página, mas Luomen manteve a mão sobre a capa, impedindo-a.

— É isso mesmo — disse ele. — Eu era impotente diante da situação. Minha mestra fazia qualquer coisa para salvar pessoas. Vestia-se como homem para participar das reuniões de médicos e colaborava nas dissecações de criminosos. Conseguiu salvar muitas pessoas, mas houve vidas que nem ela pôde salvar. Ela sempre perguntava o que mais podia fazer e nunca rejeitava nenhuma resposta. No dia anterior à sua prisão como bruxa, foi chamada para atender um paciente. Ela foi à cidade vizinha ajudar uma criança ferida, mas alguém disse que seus métodos eram antinaturais. Quem a acusou foi uma mulher que também era suspeita de bruxaria. Para provar a própria inocência, ela ofereceu minha mestra como sacrifício.

A história podia parecer um desvio do assunto, mas Maomao compreendeu o que Luomen queria transmitir. Na verdade, eram duas coisas. Primeiro, que a dissecação podia ser considerada um tabu, mas era uma forma de salvar vidas. Segundo, que qualquer forma de heresia seria perseguida.

O Livro de Kada, de que meu pai fala, é herético, mas não é maligno. Mesmo assim, as pessoas insistem em tratar as duas coisas como se fossem iguais.

Quando ele lhes disse para estudarem o Livro de Kada, não queria apenas que aceitassem aquelas práticas consideradas "desviantes". Também queria que entendessem que, ao fazê-lo, elas próprias estariam se afastando das normas aceitas pela sociedade.

As mulheres tinham pouco prestígio em Li. Não podiam se tornar médicas e, se de alguma forma participassem de uma dissecação, ninguém sabia como seriam tratadas. Luomen não se preocupava apenas com o futuro de Maomao, mas também com o de Yao e En'en.

A expressão de En'en continuava difícil de interpretar. Ela havia dito que seguiria qualquer decisão de Yao, mas a história de Luomen claramente havia abalado ela. Yao também estava profundamente perturbada.

Quanto a Maomao, ela já sabia o que precisava fazer.

— Certo! Tio-avô, uma pergunta! — disse Lahan levantando a mão com tanta força que praticamente cortou a tensão que dominava o ambiente. Maomao adoraria expulsar dali aqueles óculos e aquele cabelo despenteado. — Foi por causa dessa autópsia que o senhor voltou de suas viagens?

— Sim, foi. Eu desenterrei o túmulo dela e fiz a dissecação. Quando tentei devolvê-la ao lugar onde descansava, fui descoberto e quase morto. Se um colega de estudos não tivesse me ajudado, provavelmente eu estaria no fundo de um rio neste momento. Meu amigo roubou um cavalo e me levou em segurança até a propriedade de um mercador que tinha ligações com Li. Foi assim que sobrevivi.

No fim das contas, Luomen podia demonstrar bastante coragem quando era necessário.

— Esse amigo... seria o doutor Liu? — perguntou En'en.

— Tenho de admitir... Dei muito trabalho ao doutor Liu ao longo dos anos.

Doutor Liu… Maomao conseguia imaginar perfeitamente o rosto sempre cansado do médico. Ela já sabia que ele era particularmente rigoroso com ela por causa de seu parentesco com Luomen. Agora essa impressão apenas se confirmava.

— Mais uma pergunta, se me permite — disse En'en. — Se não me engano, as leis de Li só permitem a dissecação de criminosos executados. No entanto, o senhor dá a entender que o doutor Liu também tem experiência com dissecações. — Ela escolhia cuidadosamente cada palavra. Para Maomao, parecia que En'en já sabia quase toda a resposta, mas ainda assim queria ouvi-la da boca de Luomen.

— Não posso dizer nada sobre o que acontecerá daqui em diante. Mas deixe-me perguntar uma coisa: se você é habilidosa com bordados, isso significa que conseguiria costurar pele humana logo na primeira vez? Conseguiria cortar carne humana com a mesma facilidade com que corta um peixe na cozinha?

A resposta, naturalmente, era não. Talvez En'en tenha considerado aquelas perguntas óbvias demais, pois permaneceu em silêncio.

Por um longo momento, ninguém disse nada. Quem rompeu o silêncio foi Lahan.

— Talvez um médico devesse fazer pelo menos algumas dissecações, não acham? Sabemos, com certeza, que a experiência do meu tio-avô nessa área permitiu que ele salvasse a imperatriz viúva e seu filho. E dificilmente essa será a última vez que um membro da família imperial se verá em uma situação crítica, seja por doença ou por ferimentos.

Maomao teve vontade de mandar Lahan calar a boca, mas havia uma pergunta que ela mesma queria fazer, então preferiu permanecer em silêncio. Um membro da família imperial ferido… Aquilo lhe trouxe à mente uma lembrança que ela preferia esquecer.

Luomen voltou a parecer preocupado. — Acho que isso exige outra história — disse ele. Maomao sabia muito bem que as histórias dele às vezes tomavam caminhos inesperados. — Há muito, muito tempo, existiu um médico chamado Kada. Não o Kada das lendas, mas um médico real, de habilidade incomparável. Seu nome vinha tanto de seu talento para a medicina quanto de um distante vínculo com a linhagem imperial.

Será que foi uma das razões pelas quais Luomen chamou este texto de Livro de Kada?

— E o que aconteceu com ele? — perguntou En'en.

— Dizem que ele realizou muitas dissecações em nome do avanço da medicina. Também não tinha receio de usar a autoridade que possuía como membro da família imperial, por mais distante que fosse esse parentesco, para levar seu trabalho adiante. Não se limitava aos criminosos executados; recolhia os corpos de qualquer pessoa que morresse de doenças incomuns. Confiava plenamente em sua habilidade e na convicção de que estava fazendo a coisa certa.

Luomen prosseguiu:

— Mas ele cometeu um único erro de cálculo. Entre os corpos que ele reuniu havia o de um jovem príncipe, filho do imperador reinante e o maior orgulho de seu pai. O príncipe morreu ainda muito novo, vítima de uma doença misteriosa.

Quase todos à mesa compreenderam imediatamente as implicações daquilo. Apenas Yao parecia ter dificuldade para acompanhar.

Os corpos dos membros da família imperial deviam permanecer durante um ano no mausoléu antes do sepultamento definitivo. Era óbvio que o imperador ficaria furioso ao descobrir que Kada não apenas retirou o corpo de seu local de descanso, como também o havia dissecado.

— Kada foi expulso da família imperial e executado. Seu verdadeiro nome não foi preservado para a posteridade, e, a partir daquele momento, até mesmo o lendário médico passou a ser chamado de Genka. Todos os pergaminhos e anotações que Kada havia produzido foram queimados, e os médicos ficaram proibidos de realizar dissecações. Considerando o estado de espírito do imperador naquela época, duvido que alguém tenha ousado se opor.

Naqueles dias, até pronunciar o nome Kada era proibido.

— Assim, esse homem foi apagado da história... exceto entre os próprios médicos, que continuaram transmitindo sua história uns aos outros. Seus atos salvaram muitos pacientes. Mas ele não era um deus nem um imortal. Era apenas um ser humano, como você ou eu.

Maomao percebeu que Luomen elogiava os grandes feitos daquele médico sem nome, mas, ao mesmo tempo, condenava sua arrogância.

— Isso fez com que os conhecimentos médicos regredissem drasticamente? — perguntou ela, tomando o cuidado de usar um tom respeitoso para que En'en não se irritasse.

— Sim, drasticamente. Caso contrário, talvez tivéssemos conseguido salvar os ilustres irmãos do antigo imperador. Há quem sussurre que a antiga imperatriz viúva mandou assassiná-los, mas existem registros que indicam que, na verdade, eles morreram de tuberculose.

Tuberculose? Maomao ficou surpresa. Ela só ouviu dizer que os irmãos haviam morrido de uma doença contagiosa. A tuberculose realmente era extremamente letal, mas, para matar todos os irmãos do antigo imperador, o tratamento devia ter sido iniciado tarde demais.

Ou não isolaram o primeiro doente... ou acharam que era apenas um resfriado.

Ela sempre imaginou que o antigo imperador escapou da doença por causa de sua linhagem, mas talvez tivesse sido simplesmente porque passava pouco tempo com os outros príncipes. Afinal, ela ouviu dizer que sua mãe, frequentemente chamada de imperatriz reinante, havia sido uma das concubinas de menor posição.

— Quando os estudos são abandonados, não existe limite para o quanto uma área do conhecimento pode decair. Fui estudar no oeste porque a antiga imperatriz viúva ficou alarmada com a pobreza dos conhecimentos médicos que possuíamos.

Tenho certeza de que ela queria evitar que o próprio filho morresse por causa de alguma doença.

— Por mais que gostasse de promover mudanças revolucionárias, o caso de Kada ainda tornava impossível revogar publicamente a proibição das dissecações. Imagino que ela compreendesse a dor de um pai cujo filho teve o corpo tratado com tamanho desrespeito.

Ela não podia alterar a lei abertamente. Essa era a questão. Nos bastidores, longe dos olhos do público, médicos ainda realizavam autópsias em segredo para fazer a medicina avançar.

— Talvez possamos encerrar esta conversa por aqui? — Luomen olhou para cada um deles como se realmente esperasse uma resposta.

Yao permaneceu em silêncio.

— Sim, senhor — respondeu En'en. Ela ainda parecia abalada, mas também completamente exausta.

— Está bem — disse Maomao com firmeza. Ela ainda queria saber muitas outras coisas, mas Luomen claramente não pretendia responder mais perguntas.

— Hum. Então era essa a história — comentou Lahan. Ele havia começado aquela conversa apenas como um espectador e a terminou parecendo tão pouco envolvido quanto antes.

— Se decidirem não seguir esse caminho, aconselho que esqueçam tudo o que ouviram aqui hoje. Será melhor para vocês. — Mesmo naquele momento, Luomen ainda fazia questão de lhes deixar uma saída. Ele confiava que Yao, En'en e até mesmo Lahan guardariam aquele segredo. — Vou voltar agora. Lahan, há uma carruagem disponível?

— Providenciarei uma imediatamente.

Luomen guardou cuidadosamente o livro entre as dobras de suas vestes.

— Este livro não pode mais ficar aqui — disse ele, e então deixou a biblioteca, apoiando-se na bengala, cujo toque ritmado ecoava pelo chão. Maomao tirou um lenço de dentro da manga e o entregou a ele.

— Não dá para sair carregando um livro tão valioso desse jeito. Alguém pode roubá-lo. — Ela falou baixo o suficiente para que En'en não a ouvisse.

— É verdade. Obrigado. Vou tomar cuidado.

Ela o observou partir, ouvindo apenas o som da bengala se afastando. Ela poderia tê-lo acompanhado até a carruagem, mas Lahan já estava fazendo isso, então decidiu permanecer. Naquele momento, estava muito mais preocupada com as outras duas mulheres na biblioteca.

Estou com fome. O sol já ia alto no céu, mas En'en não dava sinal de que prepararia a refeição. Maomao resignou-se a cozinhar ela mesma.

— Certo, a comida está pronta — disse Maomao. Na cozinha principal eles estavam preparando pães cozidos no vapor, e ela convenceu os cozinheiros a lhe cederem alguns ingredientes. Ela recheou alguns deles com carne, transformando-os em verdadeiros bolinhos recheados. Se podia dizer algo em sua defesa, era que tinham ficado muito bons. Ela poderia ter parado por aí, mas encontrou outros ingredientes interessantes e resolveu preparar mais um prato. Agora estava diante das outras duas mulheres, que pareciam sem muito apetite, segurando os bolinhos e um prato que nenhuma delas conhecia.

Yao foi a primeira a reagir.

— O que é isso?

— Acho que podemos chamar de basi hongshu... batatas-doces em calda puxada. — Em outras palavras, batatas-doces cobertas por uma calda espessa de amido. Ela cortou as batatas em cubos, mantendo a casca, fritou tudo em óleo e depois cobriu os pedaços com a calda.

— Parece que esta casa sempre tem muita batata-doce. Praticamente virou um alimento básico por aqui — comentou En'en.

— Tenho um parente que é produtor de batata-doce — disse Maomao. Mais especificamente, o pai biológico de Lahan.

— Acho que tenho visto muitas delas no mercado. Será que o mestre Lahan está vendendo?

— Ah! Basi, é? — Yao pegou um pedaço de batata com os hashis. Ela pareceu se divertir ao ver os longos fios de calda se esticando enquanto levantava o pedaço. Ao menos Maomao conseguiu distraí-la.

— Vai esfriar se não comermos. Vamos começar? — Maomao pegou um dos pães do cesto de vapor e deu uma grande mordida.

— Aqui, Lady Yao. Use isto. — En'en lhe entregou um lenço umedecido. Yao o pegou, limpou as mãos e então apanhou um dos pães.

— Está gostoso, mas sinto que falta alguma coisa — disse ela.

— Por favor, não compare a minha comida com a da En'en.

— Para uma cozinheira amadora, ficou muito bom, senhorita Yao. — Até o comentário de En'en soou... um pouco ofensivo.

Bom, eu realmente sou uma amadora.

Maomao esperava que a comida ajudasse a quebrar o gelo, mas a conversa nunca aconteceu. As três comeram em silêncio.

En'en parecia ainda mais abalada pela conversa anterior do que Yao.

O que ela fará se sua preciosa jovem senhorita decidisse estudar dissecação?

Maomao sabia que En’en sempre pensava em Yao acima de tudo. Por enquanto, ela afastava todos os homens que se aproximavam como se fossem insetos incômodos, mas um dia seus pensamentos se voltariam para o casamento de Yao.

Já até consigo imaginar isso.

Se aparecesse algum jovem nobre capaz de superar todas as barreiras impostas por En'en, Yao provavelmente seria completamente sincera sobre seu trabalho. Mas até mesmo um homem esclarecido o bastante para aceitar que uma mulher trabalhasse talvez tivesse dificuldade em aceitar que ela realizasse dissecações.

Além disso, não podemos deixar que ela saia contando os segredos dos médicos.

Também havia a questão de por quanto tempo ela poderia continuar vinculada ao Departamento Médico como dama da corte. Cargos criados recentemente muitas vezes desapareciam poucos anos depois.

Muitos obstáculos pela frente, pensou Maomao.

Ela também teria seus próprios desafios para enfrentar, mas ela era quem era. Enquanto tivesse ingredientes medicinais e pessoas doentes, ela continuaria seguindo em frente com sua habitual teimosia.

As três ainda estavam comendo quando a porta se abriu.

— Fazendo um lanche sem mim? Isso não é justo. — O de óculos despenteados estava de volta. Lahan sentou-se na cadeira vazia como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo e pegou um dos bolinhos restantes.

— Hum. Está faltando alguma coisa.

— Guarde essa opinião para você.

Por que todo mundo naquela casa era tão obcecado com sabor?

As batatas-doces, pelo menos, pareciam ter agradado. Ninguém fez críticas. A garganta de En'en devia estar seca, pois ela tomou um gole de chá.

— Mestre Lahan, o que o senhor pensa sobre isso? — perguntou enquanto pousava a xícara.

— Sobre o quê?

— Sobre o que o mestre Luomen disse. Mais especificamente, gostaria de saber sua opinião sobre moças receberem uma formação equivalente à de um médico.

— Você quer saber o que eu penso ou o que as pessoas pensam?

— Se possível... os dois.

Lahan olhou para o teto por um instante, refletindo.

— Quanto às dissecações, acredito que sejam necessárias. Se você deixa de avançar, isso é a própria definição de estagnação. Água parada acaba apodrecendo. — Era uma visão surpreendentemente progressista. — Porém, tornar essa prática pública neste momento só provocaria perseguição. As pessoas temem o que foge do comum e odeiam as minorias. Se vocês desejam uma vida tranquila, eu sugeriria abandonar imediatamente essa ideia insensata de se envolver com o Departamento Médico.

— Eu esperava que pelo menos o senhor fosse diferente, mestre Lahan! Então acredita que mulheres devem ficar em casa?! — Yao levantou-se em um salto, indignada. A mesa balançou, e Maomao segurou rapidamente as xícaras de chá para impedir que caíssem. — Achei que o senhor julgasse as pessoas por suas capacidades, não pelo sexo!

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— Lady Yao... — disse En'en, tentando acalmá-la.

Lahan, por sua vez, permaneceu completamente tranquilo.

— Você está certa. É mais difícil para uma mulher trabalhar do que para um homem. Um homem não pode gerar filhos... embora possa criá-los.

Isso é o óbvio.

Homens e mulheres eram biologicamente diferentes, e os papéis que costumavam desempenhar também.

— Homens e mulheres simplesmente não conseguem exercer exatamente o mesmo trabalho nas mesmas condições. Ainda assim, reconheço que existem muitas mulheres de capacidade extraordinária.

— Então por que você diria a elas para ficarem em casa?!

— Você ainda não ouviu tudo o que eu tenho a dizer. Se me permite. Eu comecei dizendo que isso vale para quem deseja uma vida tranquila. Homens e mulheres jamais estarão em igualdade de condições no ambiente de trabalho. Existem responsabilidades fora do trabalho que inevitavelmente recaem com mais força sobre as mulheres. Se duas pessoas percorrem a mesma estrada, mas uma delas está acorrentada, ela precisará de algo para compensar essa desvantagem: muito mais conhecimento, força física... qualquer vantagem. Ela precisará de mais apenas para estar no mesmo ponto de partida.

— É verdade.

— Então você já entende. Mesmo entre os homens, ser médico já é considerado uma profissão extremamente exigente. Para uma mulher entrar nessa área, será preciso muito talento e uma determinação ainda maior. Se sua decisão pode ser mudada apenas pela minha opinião, então acredito que seria melhor desistir e voltar para casa.

Lahan normalmente era extremamente cortês na presença de mulheres, mas, quando resolvia falar o que pensava, fazia isso sem rodeios. Yao e En'en permaneceram imóveis.

— Sou a favor de que mulheres possam exercer os mesmos trabalhos que os homens. No entanto, nem toda mulher pode ou deve entrar no mercado de trabalho. Além disso, a sociedade como ela é hoje está longe de receber bem mulheres que trabalham. Existem muitos homens incompetentes... e muitas mulheres também. Mesmo dentro de um mesmo grupo existem diferenças individuais, então não há como todos conseguirem trabalhar quando alguns já começam carregando correntes. Se lhe parece difícil demais, se você acredita que não conseguirá suportar, então não é lógico procurar outro caminho para sua vida?

Na verdade, Maomao concordava com Lahan, mas, com Yao presente, preferiu não demonstrar isso.

— Pelo jeito como você fala, Yao, parece até que trabalhar é o único caminho digno, enquanto cuidar de uma casa não tem valor algum. Mas acredito que esse pensamento também esteja errado. É comum ver funcionários dedicados zombando de suas esposas durante um banquete, chamando-as de inúteis. No entanto, na maioria das vezes, são eles que vivem na palma da mão dessas mulheres. Quanto mais alto alguém sobe na sociedade, mais precisa de refinamento. Como dizem, o hábito faz o monge. Claro, existem exceções. Mas um homem sem grandes talentos precisa, ao menos, parecer apresentável. Quanto menos talento possui, melhor precisa parecer. Então sua esposa escolhe suas roupas, calça seus sapatos e o manda para o trabalho. Na verdade, acho que você demonstra certo desprezo pelas mulheres que não entram no mercado de trabalho e permanecem em casa.

Não era preciso dizer em quem ele estava pensando ao falar das exceções. A boca de Yao se abriu algumas vezes, mas nenhuma resposta saiu.

— Minha mãe foi escolhida pelo meu avô para se casar com meu pai. Orgulho nunca lhe faltou. Todos os móveis elegantes que você ainda vê nesta casa foram comprados por ela com o que restava de sua própria fortuna. O que mais a entristeceu quando foi expulsa desta família foi perder a vida luxuosa da capital. À primeira vista, ela pode parecer uma pessoa sem qualidades, mas tinha um gosto refinado. Quando os móveis desta casa foram vendidos, muitos alcançaram praticamente o mesmo valor que custavam quando eram novos. Alguns até valorizaram! Se eu tivesse sido um pouco mais esperto naquela época, talvez tivesse encontrado outro trabalho para minha mãe em vez de deixá-la ser enviada para o interior. Ela teria tido muito mais sucesso como esposa de um mercador... ou como mercadora... do que casada com um homem simples da família La. Embora, para ser justo, minha mãe fosse orgulhosa demais para entrar no comércio ou aceitar se casar com um simples comerciante.

Lahan estava falando muito mais do que de costume e, ainda assim, nada do que dizia despertava em Maomao a vontade de interrompê-lo com algum comentário sarcástico.

— Afinal, aonde o senhor quer chegar, mestre Lahan? — perguntou En'en.

— Ah... Acho que dei voltas demais. O que quero dizer é simplesmente que também me tornei bastante teimoso e odeio ver pessoas talentosas seguirem um caminho incompatível com suas habilidades. É algo muito ineficiente... e nada bonito. Vocês duas têm talento. Trabalhem sob os holofotes ou nos bastidores, acredito que terão sucesso. Tornarem-se verdadeiras mestras é outra história. Mas ver alguém perseguindo aquilo que realmente deseja... independentemente da eficiência, essa paixão torna essa busca algo belo.

No fim das contas, para Lahan, tudo parecia se resumir a uma questão de estética.

Ele tomou mais um gole de chá, levantou-se da cadeira parecendo bastante satisfeito consigo mesmo e disse:

— Se me dão licença, vou me retirar. — Ele limpou os óculos e saiu imediatamente.

Maomao apoiou o queixo nas mãos enquanto o observava partir. Ninguém a repreendeu por sua falta de modos. En'en olhava para o chão. Yao, por outro lado, mantinha os olhos fixos à frente e fez uma pequena reverência na direção de Lahan enquanto ele se afastava.

Entendi. Maomao teve a impressão de perceber para quem Lahan realmente havia dirigido todo aquele discurso. Que atencioso da parte dele.

Ela já sabia o que faria, independentemente da resposta que Yao e En'en dessem a Luomen. Ela não tinha o direito de interferir na vida das duas, qualquer que fosse o caminho que escolhessem.

Ela pegou o último pedaço de batata, que permanecia intocado, comeu-o e terminou o restante do chá.

[Noelle: Por isso gosto do Lahan, sensato e claro sempre!]

[Kessel: O Lahan é realmente um personagem muito legal. O clã La está muito bem representado por ele. Dito isso, Lady Yao diva feminista. Lutando por seus direitos desde cedo!]

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Atenciosamente,

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Fim da leitura

Capítulo 9.07 concluído

Volume 9 – Capítulo 07 – Capítulo 07: Tabu