Diários de uma Apotecária — Capítulo 9.08: Volume 9 – Capítulo 08 – Capítulo 08: Lições Secretas

Diários de uma Apotecária
Cap. 9.08
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Diários de uma Apotecária

Volume 9 – Capítulo 08 – Capítulo 08: Lições Secretas

Capítulo 9.08

5.646 palavras~25 min de leitura

Maomao foi ao distrito dos prazeres verificar como Sazen estava e à vila de Jinshi cuidar dele; então, suas férias chegaram ao fim. Ela escreveu uma carta para Luomen dizendo que sua determinação permanecia inabalável e que queria aprender ainda mais sobre a medicina. As férias terminaram antes que ela recebesse uma resposta.

Quando voltou ao consultório médico, encontrou uma montanha de roupas para lavar esperando por ela. Não havia nada pior do que trabalho acumulado depois de um longo período de folga.

— Lave a roupa. Agora mesmo, se não se importar — disse o doutor Liu. Ele fez parecer algo tão simples, mas lavar roupa no inverno era uma perspectiva nada agradável. Suas mãos ficariam dormentes de tanto frio. Ela adoraria lançar um olhar fulminante para ele, mas, agora que sabia o quanto Luomen havia dado trabalho ao doutor Liu na juventude dos dois, sentia que não podia dizer nada além de: — Sim, senhor.

Só havia uma coisa a fazer: obedecer. A pilha de roupas revelava que, enquanto Maomao e as outras moças estavam de folga, os médicos continuaram trabalhando.

— Acho melhor começar — disse Maomao.

A maior parte da roupa era composta por ataduras que precisavam ser desinfetadas. O primeiro passo seria separá-las entre as relativamente limpas e as completamente sujas de sangue ou outros fluidos corporais. As mais imundas seriam descartadas, enquanto as mais limpas cortariam as partes manchadas para reutilizar o restante. Ataduras eram materiais de consumo; era esperado que fossem jogadas fora depois de certo tempo de uso. Maomao, em especial, não queria usar nada que tivesse sangue. Sangue humano podia ser uma fonte de contaminação.

— O que é isso? — perguntou Yao, mordendo o polegar com preocupação. Ela olhava para o jaleco branco de alguém. Quem quer que o tivesse usado devia ter tratado um paciente gravemente ferido, pois ele estava coberto de sangue. Havia também um leve cheiro de álcool, provavelmente de alguma tentativa de desinfecção.

— Os médicos não podem simplesmente jogar seus jalecos nesta pilha. De quem é este? — perguntou En'en. Ela examinou o forro. Como todos os uniformes dos médicos eram iguais, seus nomes estavam bordados na parte interna. Ela não disse nada, mas franziu a testa. Maomao olhou por cima do ombro dela e encontrou o nome Tianyu. Um dos médicos mais jovens, um sujeito um tanto... despreocupado. Ele já tinha tentado convidar En'en para sair várias vezes, mas ela sempre o ignorava.

Ela simplesmente jogou o jaleco para o lado...

En'en continuou separando as ataduras como se nada tivesse acontecido.

As duas ficaram abaladas pela conversa com Luomen, mas, pelo que Maomao podia ver, En'en parecia ter se recuperado durante o restante das férias. Só não faço ideia da resposta que deram a ele.

Luomen nem sequer havia respondido à carta dela ainda; ela duvidava que tivesse respondido às de En'en e Yao.

— Já que vamos lavar roupa mesmo, En'en, por que não lavamos o jaleco dele também? — sugeriu Yao.

— Lady Yao, a senhorita não deve mimar essas pessoas, mesmo que sejam médicos. Regras são regras.

Mais especificamente, a regra dizia que os próprios médicos eram responsáveis por lavar suas roupas de trabalho.

— Mas eles trabalharam enquanto nós estávamos de folga...

En'en fez uma expressão incomum de raiva contida. Sem dúvida, não gostava nem um pouco de ver Yao dando a Tianyu o benefício da dúvida.

— Só não sei como tirar essas manchas de sangue — disse Yao.

En'en não fez nenhum movimento para resolver o problema, então Maomao deu um passo à frente.

— Me dê isso um instante.

Ela observou as manchas de sangue já desbotadas. Tempo suficiente havia passado para que elas adquirissem um tom vermelho-escuro. Maomao não tinha certeza de que conseguiria removê-las, mas, ainda assim, encheu um balde com água fria e mergulhou o jaleco nele.

— O que pretende fazer? Vai usar cinzas? — perguntou Yao. Era um método comum para remover sujeira das roupas. A jovem senhorita havia aprendido algumas coisas durante os meses em que passou lavando roupa. Mas, naquele caso, seria preciso algo diferente.

— Vou buscar alguns materiais — disse Maomao. Ela voltou ao consultório e começou a revirar o estoque de suprimentos médicos.

— O que está procurando? — perguntou o doutor Liu, que estava na sala.

— Estava pensando em usar nabo-daikon para ajudar a tirar algumas manchas.

Ela sabia que aquele enorme rabanete branco também era usado para tratar tosse. Não era apenas um vegetal saboroso, mas também um remédio bastante eficaz.

— Manchas? Ah, quer dizer sangue. — Como era de se esperar, o doutor Liu entendeu imediatamente ao ouvir a palavra daikon. — Já que vai fazer isso, lave estes também. — Ele lhe entregou outro jaleco branco manchado de sangue. Depois outro. E mais outro. Em pouco tempo, Maomao estava segurando cinco ou seis deles.

Ela não disse nada.

— Algum problema?

— De forma alguma, senhor.

Aquele médico era um verdadeiro ogro. Ela conseguia perceber a provocação em sua voz. Os traços marcantes de seu rosto provavelmente fizeram muito sucesso quando era jovem, mas, com a idade, apenas o deixavam com uma aparência severa.

Ainda assim, ela havia ouvido como ele ajudou Luomen e, por isso, suportaria aquilo.

— Houve alguma cirurgia de grande porte? — perguntou ela.

— Eh.

Com essa resposta vaga, o doutor Liu voltou a escrever o relatório do dia.

Para tantos jalecos terem ficado manchados, devia ter havido várias pessoas precisando de cirurgia... ou uma única pessoa que precisou de uma intervenção realmente muito séria.

Será que eles estavam mesmo usando os aventais? pensou Maomao. A quantidade de sangue em si não era tão grande, mas algumas manchas a incomodavam. E havia também aquele cheiro. Ela sabia que o serviço de lavanderia ficava fechado durante o inverno, mas gostaria que os médicos não tivessem deixado aqueles jalecos parados por tanto tempo.

Ela colocou todos em um cesto de roupa e ralou um nabo-daikon.

— Leve o daikon inteiro. Não precisamos de metade de um nabo sobrando por aí — disse o doutor Liu.

— Sim, senhor... Devo entender que precisamos remover todas as manchas?

Era uma ordem direta de um superior, então não havia escolha a não ser obedecer. Ainda assim, Maomao lamentou não ter simplesmente entrado, pegado o daikon e saído imediatamente.

Yao fez uma careta ao ver toda a nova leva de trabalho que Maomao estava carregando.

Desculpa...

Maomao mergulhou os jalecos brancos na água e, em seguida, colocou um pano por baixo das manchas. Então começou a bater nelas com uma trouxinha de tecido, um pedaço de algodão recheado com nabo ralado.

— Isso vai mesmo tirar as manchas? — perguntou Yao, inclinando-se para observar.

— Sim. O nabo tem nutrientes que decompõem o sangue. Também funciona se alguém fizer xixi na cama ou derramar ovo.

— Uau! Eu não fazia ideia.

Maomao puxou o pano que havia colocado sob os jalecos, fazendo questão de que Yao, claramente impressionada, pudesse ver. As manchas de sangue haviam desbotado nos jalecos brancos e passado para o pano por baixo. A verdadeira questão era saber se conseguiriam removê-las por completo, considerando quanto tempo já havia passado.

— Viu como funciona? Se entendeu, então me ajude, por favor. Precisamos fazer isso enquanto o nabo ainda está fresco.

— C-Certo, claro.

En'en também entrou em ação, e as três começaram a esfregar o nabo ralado nas roupas manchadas.

— Terminei! — disse Yao.

— Então vamos lavá-las. Não adianta nada trocar manchas de sangue por manchas de nabo.

— Certo!

Yao aprendia rápido. Desde que entendesse o que alguém estava fazendo e por quê, ela colaborava de bom grado. Por outro lado, se tivesse qualquer dúvida, era capaz de fincar o pé e atrasar tudo.

[Kessel: A Lady Yao até contribui com o serviço de lavanderia! E certas pessoas insistem em criticá-la…]

Elas terminaram de lavar as peças e penduraram as ataduras para secar quando um jovem médico passou por ali. Era Tianyu, o médico aprendiz.

— Com licença? — disse Maomao. En'en não simpatizava nem um pouco com Tianyu, e ninguém queria que ele começasse a conversar com Yao, então, por eliminação, Maomao acabou se tornando a porta-voz do grupo. — Desculpe, mas acho que seu jaleco acabou misturado com a nossa lavagem.

— Ah, é... Foi mal por isso. Será que vocês podem lavar para mim? — A resposta foi descontraída, mas Tianyu parecia abatido em comparação com seu comportamento habitual.

— Você teve que ajudar em alguma cirurgia? — perguntou Maomao.

— É... Quer dizer, acho que sim.

A resposta vaga incomodou Maomao. Primeiro o jaleco ensanguentado, agora Tianyu claramente exausto.

— Você parece muito cansado. Entenda que não vamos lavar seu jaleco de novo no futuro. Quanto ao de hoje, ele está pendurado ali. Pode pegá-lo quando secar.

— Sim. Certo. — Tianyu respondeu sem entusiasmo e foi embora para algum lugar.

— Nunca vi um médico tão desanimado! — disse Yao, limpando o balde que haviam usado com certa irritação. Os jalecos já estavam pendurados para secar, mas as ataduras ainda precisavam ser fervidas para serem desinfetadas. Do ponto de vista da higiene, talvez também fosse uma boa ideia ferver os jalecos, mas isso estragaria o tecido, e eles não eram itens descartáveis. Passar a ferro seria uma opção melhor, mas Maomao não estava com vontade de ter todo esse trabalho.

Argh... Tudo bem. Quando secassem, pelo menos ela os colocaria debaixo das macas do consultório médico.

Ela estava exausta depois de toda aquela lavagem e queria fazer uma pausa.

— Já que vamos ferver as coisas mesmo, que tal cozinharmos algumas batatas também?

— Batatas! — exclamou Yao, animada. Ela e En'en haviam voltado para o dormitório carregando braçadas de batatas que receberam de Lahan. Eram tantas que até levaram algumas para abastecer o consultório médico.

Parece que a colheita foi excelente este ano, pensou Maomao. A batata-doce rendia uma colheita maior que a do arroz, mas não podia ser armazenada por tanto tempo. O xarope de amido que ela havia usado para preparar o basi hongxiu também tinha sido feito de batata-doce. A ajudante da cozinha, que vinha descobrindo todo tipo de uso para elas, incluindo transformá-las em farinha, havia lhe contado isso.

Mas prepará-las é fácil, e ficam deliciosas. Só de pensar nisso, Maomao recuperou um pouco do ânimo. Os olhos de Yao brilhavam.

— Vamos logo, Maomao!

— Já estou indo!

Com os braços cheios de ataduras encharcadas, Maomao seguiu atrás de Yao e En'en.

Quando terminaram de desinfetar as ataduras e as penduraram para secar, o sol já começava a se pôr.

— Não tive tempo de fazer nada...

O tempo tinha voado, em parte por causa da grande quantidade de roupa para lavar, mas também por conta do preparo das batatas. Enquanto as três saboreavam o lanche, uma fila de outros médicos apareceu para pedir um pouco também.

Queria poder preparar alguns remédios, pensou Maomao. Já que estava no consultório médico, ela queria aproveitar para fazer alguns experimentos. Infelizmente, assim que escurecesse, as mulheres teriam que ir embora. Além disso, assim que as ataduras estivessem quase secas, precisariam ser recolhidas, para que não congelassem com a geada durante a noite.

Maomao olhou para os jalecos brancos secando ao longo de um dos lados da área de lavanderia. Havia um a menos do que antes, alguém devia ter vindo buscar suas roupas.

Será que custava tanto recolher os outros junto?

Ela conferiu o forro dos jalecos, curiosa para saber de quem eram os que ainda estavam ali. Encontrou o jaleco do doutor Liu. Isso não era tão surpreendente, mas os nomes nos outros jalecos a fizeram parar para pensar.

Ele disse que era uma cirurgia, não foi?

Uma cirurgia de grande porte exigiria uma equipe numerosa de médicos, mas por que o doutor Liu era o único médico experiente entre todos eles? Todos os outros nomes, até onde Maomao conseguia se lembrar, pertenciam aos médicos aprendizes.

— Não me diga...

Será que os médicos estavam fazendo uma dissecação? Os aprendizes já haviam se acostumado ao trabalho, então seria natural que passassem para a etapa seguinte.

Se era isso mesmo, Maomao precisava participar de qualquer jeito. Será que meu velho entrou em contato com o doutor Liu? Com um certo receio, Maomao levou os jalecos de volta ao consultório médico.

Tianyu era o único ali. Ele passava o próprio jaleco, que havia acabado de buscar. Não podia passar os outros também? Maomao tomou cuidado para que seu desprezo não escapasse pela boca.

— Vou deixar estes aqui.

— Sim. Claro. — respondeu Tianyu que parecia tão cansado enquanto passava o ferro quanto estava quando havia passado por elas mais cedo. Talvez não gostasse de passar roupas, mas o doutor Liu certamente lhe daria uma bronca se o uniforme estivesse amarrotado, e provavelmente era mais prático usar o ferro dali do que preparar um em casa.

Ele nem sequer olhou para Maomao. Estava tão concentrado assim ou simplesmente não se importava o bastante para levantar a cabeça? De qualquer forma, isso não incomodou Maomao que colocou o jaleco do doutor Liu sobre sua mesa. Ainda estava um pouco úmido, mas não havia nada que ela pudesse fazer.

Hã?

Sobre a mesa estava o relatório diário que ele vinha escrevendo. Maomao o pegou e folheou as páginas. Nada comprometedor. Então ela voltou algumas páginas e releu os registros dos últimos dias.

Não tem nada...

Se as palavras do doutor Liu fossem verdade, havia acontecido uma cirurgia que exigiu a presença de um grande grupo de médicos. Ela esperava encontrar ao menos uma menção no relatório. Em vez disso, os registros dos últimos dias diziam apenas: Nada fora do comum.

Ele está escondendo alguma coisa, pensou, olhando para Tianyu.

— Aquela cirurgia deve ter sido um verdadeiro pesadelo, não foi, Tianyu? — disse ela.

Depois de alguns instantes, ele respondeu:

— Foi mesmo. Nunca trabalhei tanto na vida.

A pequena demora aconteceu porque ele estava passando o ferro ou porque ficou confuso, hesitou por um instante?

— Que tipo de cirurgia foi? — perguntou Maomao enquanto dobrava os jalecos.

— Que diferença faz? Ninguém gosta de fazer cirurgia. — disse Tianyu, a reação continuava impossível de interpretar.

Será que mandaram ele ficar de boca fechada? Maomao se perguntou. A maneira como Tianyu tratava En'en fazia parecer que ele era um idiota incapaz de perceber indiretas, mas ele era inteligente o bastante para passar no exame de medicina. Além disso, falava mais do que os outros aprendizes. Provavelmente conseguiria inventar uma ou duas mentiras, se precisasse.

Talvez eu devesse ter falado com outra pessoa... Ou pelo menos usado a En'en para chegar até Tianyu. Sentindo um arrependimento tomar conta dela, Maomao deu leves batidinhas nos jalecos dobrados. Vou tentar conversar com um dos outros aprendizes.

Ela olhou para a escuridão que começava a cair e saiu para recolher as ataduras que estavam secando.

Maomao tinha certeza: os médicos estavam fazendo algo em segredo que todos ao redor consideravam um tabu. Mesmo assim, ela ainda não havia descoberto exatamente o que estava acontecendo. Também não podia simplesmente chegar para um dos aprendizes e perguntar: — Vocês estão fazendo dissecações? — Também não ajudava o fato de que poucos deles eram tão sociáveis quanto Tianyu; a maioria era quieta e reservada. Além disso, havia o rumor de que conversar com Maomao podia atrair a ira do estrategista excêntrico, o que fazia quase todos evitarem falar com ela a sós.

Talvez eu consiga fazer Yao e En'en me ajudarem de algum jeito?

Não. Ela não podia envolvê-las nisso enquanto não soubesse qual resposta elas haviam dado a Luomen. Seu pai havia dito para esquecerem completamente o assunto caso escolhessem não seguir por esse caminho.

E assim o tempo passou, desperdiçado e sem significado.

Quando será que vamos para a capital do oeste? Jinshi havia dito dois meses. Maomao começava a sentir a pressão. Mesmo assim, não podia deixar que isso atrapalhasse suas tarefas diárias. Naquele dia, Yao e En'en estavam cuidando da lavanderia, enquanto Maomao ficou tomando conta do consultório médico.

Hã?

Ela percebeu que um dos cantos do consultório parecia estranhamente vazio. Antes abarrotado de equipamentos, livros e outros materiais que um dos aprendizes usava, agora estava organizado, limpo e muito menos cheio.

— Alguém resolveu fazer uma faxina? — perguntou ela.

— Ele foi transferido — respondeu o doutor Liu.

— Ele terminou o aprendizado?

— Mais ou menos — respondeu o doutor Liu, enquanto fazia algumas anotações em um livro.

Na verdade, o consultório médico próximo ao acampamento militar era um dos melhores lugares para um médico trabalhar. Sempre havia muitos feridos, o que lhes dava a oportunidade de aprimorar suas habilidades. Por isso, os aprendizes eram enviados primeiro para lá, onde ganhavam bastante experiência prática e, depois de alguns meses de aprendizado, eram transferidos para outro consultório. Quanto mais talentoso fosse um médico, mais movimentado seria o local para onde poderia ser designado. Aliás, se alguém estivesse curioso, o motivo do velho da Maomao, isto é, Luomen, não ter sido designado para perto do acampamento militar era a interferência do estrategista excêntrico.

Eu também queria sair daqui...

O velho de monóculo aparecia quase todos os dias desde que Maomao foi designada para aquele lugar. Ultimamente, porém, ela tinha notado, satisfeita, que ele aparecia menos, talvez por causa das partidas de go com Jinshi. Por outro lado, desde o torneio ele parecia ocupado com alguma outra coisa. Ela não se importava com o que fosse; só estava feliz por não precisar vê-lo.

Ainda bem!

Ela sabia ser grata quando era preciso.

Depois de terminar a limpeza, repor algumas pomadas que estavam acabando e trocar os lençóis das camas, ela perguntou:

— Não tenho mais nada para fazer. Posso usar o fogão?

— Vai ferver alguma coisa?

— Quero aquecer um pouco de vinho para extrair o álcool. — Ela precisava de uma quantidade suficiente para usar no Jinshi.

— Luomen teve a mesma ideia uma vez, há muito tempo — disse o doutor Liu. A mistura de frustração e amargura estampada em seu rosto deixava claro que havia uma história infeliz por trás daquilo. — Mas então ele saiu por um instante para ir ao banheiro, e um idiota entrou na sala fumando um cachimbo aceso.

— Nossa! Aposto que esse idiota ficou bem chamuscado depois disso.

Qualquer um sabia qual seria o único resultado possível: boom! As palavras escaparam antes que Maomao pudesse se conter, mas o doutor Liu franziu a testa.

— A culpa foi do Luomen por não colocar um aviso! — Pela indignação dele, ficou óbvio quem era o tal idiota. Desta vez, Maomao teve a sensatez de ficar calada.

Por sinal, o consultório médico exibia uma placa bem visível proibindo fumar.

Maomao gostava desses raros vislumbres do passado de seu pai, proporcionados por outro médico que o conhecia e havia trabalhado com ele por tantos anos. Ela começou a se perguntar se talvez ele pudesse lhe contar alguma coisa sobre a época em que estiveram no oeste.

Queria poder simplesmente perguntar...

Mas sabia que, se abordasse o assunto da maneira errada, poderia conseguir exatamente o efeito contrário ao desejado. Era melhor esperar mais um pouco e deixar as coisas seguirem seu curso.

— De qualquer forma, é melhor não usar o fogão. Nunca se sabe quando algum preguiçoso vai aparecer aqui fumando durante o expediente. Tome este braseiro. Leve-o para a outra sala.

— Acho que ele não vai esquentar o suficiente, senhor...

— Não precisamos de tanto calor. Além disso, eu conheço você. Está pensando se consegue preparar alguma coisa para passar o tempo.

Acertou em cheio...

Ele era perspicaz, exatamente como ela esperava de alguém que estudou ao lado de Luomen.

— Aposto que também está pensando que ninguém vai perceber se você tomar um copinho do vinho.

Precisava ser tão observador assim?

Maomao pegou o braseiro de tamanho razoável. Também recebeu um bule, um aparelho de destilação com um tubo saindo dele, álcool para desinfecção e um balde de água fria.

— Ah, leve isto também — disse o doutor Liu, acrescentando tesouras, pacotes de remédio e alguns pós. — Prepare cem pacotinhos.

— Sim, senhor...

Algumas tarefas para mantê-la ocupada. Ele obviamente não pretendia dar a ela a chance de ter algum tempo livre.

Maomao colocou mais carvão no braseiro e posicionou o destilador sobre ele. Diferentemente do aparelho improvisado que ela havia montado no Pavilhão Jade com o que tinha à mão, aquele era um equipamento de verdade. Havia duas peças que lembravam panelas, ambas com bicos de chaleira invertidos, uma sobre a outra. O vinho era colocado na panela inferior, aquecido até evaporar e, depois, resfriado na superior, produzindo o álcool destilado.

Queria tanto ter um desses no dormitório… pensou ela. Era um equipamento bastante especializado, então fabricar um custaria muito dinheiro. O que estava diante dela era de cerâmica; se fosse de metal, seria ainda mais caro. Será que me dão este quando ficar velho e não precisarem mais dele?

Bem, desejar não custava nada. Enquanto deixava esses pensamentos vagarem, ela preparava os pacotinhos de remédio. Eles seriam distribuídos aos funcionários que inevitavelmente apareceriam resfriados nessa época do ano. Assim como os alimentos, os remédios também estragavam se não fossem usados logo, mas Maomao tinha certeza de que aqueles pacotes acabariam rapidamente.

Enquanto enchia diligentemente os pequenos envelopes, ouviu alguém chegar à sala ao lado. Talvez seja alguém ferido! Ela tentou voltar, mas o doutor Liu já estava parado na porta.

— Fique aí e faça seu trabalho. — Em seguida acrescentou: — Temos uma visita, mas não vamos precisar de chá. Você não precisa preparar nada para nós.

Alguém que ele prefere não receber?

Ou talvez alguém para quem ele simplesmente não queria desperdiçar chá?

Intrigada, Maomao voltou a encher os envelopes... exatamente até o instante em que o doutor Liu virou as costas.

Só espero que não seja o estrategista excêntrico pensou ela, encostando o ouvido na porta. Ela conseguiu ouvir a voz do doutor Liu, mas ele falava de maneira incomumente respeitosa e educada. Isso indicava que estava conversando com alguém de posição superior à sua.

— O senhor quer outro médico competente? Receio que já esteja me espremendo até a última gota...

Com quem será que ele está falando? Maomao se perguntou. Sua dúvida foi respondida logo em seguida.

— Sei que estou pedindo muito. Na verdade, porém, eu precisaria de mais dois médicos.

Mesmo através da porta, ela reconheceu aquela voz maravilhosa. Ela já não era tão melosa quanto era na época do palácio interno, mas, no lugar daquela doçura, havia algo indescritível que atraía as pessoas.

Menos uma ninfa celestial... e mais um imortal celestial, hein?

Era, nem é preciso dizer, Jinshi.

— Tenho treinado os médicos aprendizes da melhor forma possível, como o senhor pediu, mas, na melhor das hipóteses, eles ainda estão apenas na metade do caminho para se tornarem médicos plenamente competentes. Alguns têm determinação, mas lhes falta técnica; outros têm técnica, mas lhes falta discernimento. Desenvolver tanto a técnica quanto o discernimento leva tempo, se me permite dizer.

Determinação, discernimento e técnica. Esses eram os ingredientes proverbiais para se tornar um médico.

— Não seria possível deixá-los aprender por meio da hã... experiência prática?

— Hah! Experiência prática? Ora, senhor, tenha pena dos pacientes que serviriam de aprendizado para eles! É verdade que quem pratica a medicina busca salvar vidas, mas, infelizmente, não existe garantia de sucesso. Às vezes falhamos, e então os pacientes, ou seus familiares, costumam nos dizer coisas nada gentis. Se a pessoa não tiver um coração realmente forte, esses momentos acabam destruindo ela.

Jinshi queria um médico, mas o doutor Liu continuava irredutível, insistindo que não havia gente suficiente. Havia jovens médicos em treinamento, mas eles não ficariam prontos da noite para o dia.

Será que isso tem a ver com encontrar pessoas para acompanhá-lo até a capital do oeste? Ao que parecia, Jinshi havia decidido resolver a situação pessoalmente. Não devia ser fácil ocupar o topo.

— Pessoas de coração forte? Imagino que o senhor tenha algumas assim — disse Jinshi, quase em tom descontraído.

Maomao começou a suspeitar que o pedido de mais médicos era apenas um pretexto para convencer o doutor Liu a enviá-la junto com Jinshi. Normalmente o doutor Liu atende a Família Imperial, lembrou ela.

Se Jinshi simplesmente deixasse de convocá-lo, ele certamente desconfiaria de alguma coisa. Ela conhecia bem a percepção aguçada dele; era justamente isso que o tornava tão difícil de enfrentar.

— Se eu tivesse que escolher, escolheria alguém sem muitos vínculos com a capital — disse o doutor Liu. — Se essa pessoa tivesse, por exemplo, um pai excessivamente protetor, isso só complicaria as coisas. Além disso, ninguém está ansioso para viajar tão longe.

O comentário pareceu... bastante direcionado. Na verdade, parecia que ele tinha uma pessoa muito específica em mente. Eles estavam falando do grupo que seguiria para a capital do oeste. Talvez conseguir colocar Maomao na comitiva não fosse o único motivo para precisar de mais médicos, afinal, aquela seria uma viagem muito maior do que a anterior.

Da última vez, a missão foi quase secreta. Maomao acabou sendo levada praticamente sem perceber o que estava acontecendo. O grupo não era pequeno, mas, considerando que Jinshi fazia parte da Família Imperial, também não era exatamente grande.

Shaoh ficava no oeste, e Hokuaren, no norte. Li era separado de Hokuaren por uma enorme cordilheira, com montanhas de vários li de altura, consideradas praticamente intransponíveis. A grande maioria dos exércitos vindos do norte aparecia, na verdade, pelo noroeste, onde as montanhas terminavam. Pelo menos era isso que dizia uma das questões da prova das damas da corte.

Em outras palavras, se Hokuaren resolvesse agir, apareceria ao norte da capital do oeste.

Não acredito que ainda me lembro disso. Acho que tenho que agradecer àquela velha. A madame jamais permitiria que Maomao tentasse decorar tudo em uma única noite.

Ela estava tão concentrada em escutar a conversa que nem percebeu que o destilador havia ficado vazio e começado a soltar uma fumaça estranha. Até que, finalmente, ela cheirou o ar e, devagar, com medo, olhou para trás. No momento em que viu a fumaça, correu até lá e jogou água no braseiro para apagar o fogo. Suas reações foram rápidas, mas não havia como as pessoas na sala ao lado não ouvirem o barulho da água espirrando.

— O que está acontecendo aqui? — perguntou o visitante, claramente exasperado. Era Jinshi, exatamente como Maomao imaginava.

— Ah... Eu meio que acabei cochilando enquanto vigiava o fogo — respondeu ela, abatida, usando um lenço para enxugar a água espalhada.

— Que interessante! Vigiar o fogo agora significa ficar encostado na porta? Porque consigo ver perfeitamente a marca dela na sua bochecha — comentou o doutor Liu. Maomao levou a mão à bochecha direita, mas já era tarde demais.

Ela não disse nada.

Eles também não disseram nada.

Ela havia sido pega escutando escondida em flagrante... ou melhor, com a bochecha em flagrante.

Ela desviou o olhar do doutor Liu, mas ele não desviou o dele. Em vez disso, ele agarrou Maomao e a prendeu em um mata-leão.

Ai, ai, ai!

Ela rapidamente voltou a se agachar.

Eles não podiam estar tão preocupados assim por terem sido ouvidos, ou não a teriam deixado justamente na sala ao lado. Aparentemente, era uma questão de princípio.

[Noelle: Gente eu sei que ele é rabugento, mas amo ele kkkkkkkkkkk Dr Liu divando kkkk]

Jinshi parecia prestes a cair na gargalhada e fazia um enorme esforço para se conter. Basen estava ao lado dele, acompanhado de outros dois homens que Maomao imaginou serem guardas.

Pelo visto, não era fácil ser bonito.

Jinshi finalmente conteve o riso e tossiu da maneira mais solene possível.

— Doutor Liu... Posso lhe fazer uma pergunta?

— Sim, senhor?

— Você me disse que os médicos aprendizes ainda estão apenas na metade do caminho, mas qual é a sua opinião sobre as ocupantes do cargo recém-criado? As damas da corte designadas para o seu consultório?

— Não tenho certeza do que o senhor quer dizer. Elas são... bem, damas da corte, senhor.

— Sim, mas, pelo que ouvi, o trabalho que elas fazem é praticamente o mesmo dos médicos aprendizes. Isso significa que, se possuíssem a determinação, a técnica e o discernimento de que o senhor falou, teoricamente poderiam ser promovidas a médicas, não poderiam?

As pessoas ao redor de Jinshi o encararam, atônitas.

Damas da corte promovidas a médicas? Em teoria, isso não era possível. Não havia a menor chance do doutor Liu ficar parado enquanto alguém lhe dizia como as coisas deveriam funcionar, nem mesmo o irmão mais novo do Imperador. No entanto, insistir naquele assunto só tornaria a situação mais difícil para Maomao, então ela permaneceu calada.

Ao longo do tempo em que conviveu com Jinshi, ela passou a entender razoavelmente bem a forma como ele pensava. Nem tudo o que ele fazia fazia sentido para ela, mas naquele momento compreendia perfeitamente o que ele queria dizer.

O que ela faria? Como poderia ajudá-lo?

— Uma dessas damas está bem aqui, senhor. Se o senhor a aceitar — disse ela.

— Oh? Muito bem. E quão forte é o coração dela? — Jinshi lançou um sorriso para Maomao. Não era um sorriso amigável, mas um cheio de malícia.

Esse filho da...! De quem era a culpa de ela ter que limpar o traseiro dele? Na verdade, talvez a pele do traseiro dele fosse a solução perfeita...

Ela se conteve para não responder em voz alta.

— A Maomao aqui é ousada, e só isso — disse o doutor Liu. — Acima de tudo, ela é uma mulher. Ela nunca poderá ser médica.

Nisso ele tem razão, pensou ela. Nem era como se ela quisesse especificamente se tornar médica; apenas havia sido colocada em uma situação em que precisava dominar as habilidades de um médico. Eu sou uma apotecária! Foi assim que Luomen a criou. Ela queria aprender cirurgia para salvar mais pessoas, mas isso jamais a faria abandonar sua verdadeira vocação.

Ainda assim, ela também tinha orgulho de ser apotecária.

— Não ouvi o senhor dizer que sou até melhor preparando remédios do que alguns dos médicos aprendizes, doutor Liu? — perguntou ela.

Ele lhe lançou um olhar fulminante. Maomao estremeceu de frustração. Sabia que aquela não era uma situação em que pudesse retrucar. Precisava simplesmente suportar.

— Desta vez, não preciso necessariamente de um médico. Desde que possua habilidades equivalentes, não me importa se é um curandeiro da cidade ou até mesmo uma apotecária. Posso conceder uma autorização especial. Tem certeza de que não consegue encontrar pelo menos mais duas pessoas nessas condições? — disse Jinshi. Era evidente que ele queria dizer muito mais do que estava dizendo. Maomao conhecia muito bem aquele tom. No palácio interno, ele sempre antecedia os pedidos mais inconvenientes que Jinshi fazia.

Aquilo prometia ser tão problemático quanto qualquer tarefa que ele já lhe pediu. Mas ao mesmo tempo, também prometia satisfazer sua curiosidade intelectual. Ela dificilmente teria outra oportunidade como aquela. Se conseguissem convencer o doutor Liu, ela teria a chance de aprender algo completamente novo. Seu coração começou a bater mais rápido, acompanhado por uma agradável sensação de entusiasmo e, ao mesmo tempo, por um suor frio nada agradável.

Ela cerrou os punhos. O doutor Liu lançou-lhe um longo olhar severo, um olhar que dizia claramente para ela recusar.

Não posso fazer isso. Em vez disso, Maomao ajoelhou-se sobre um dos joelhos diante de Jinshi.

— Sou uma apotecária, senhor... se realmente me aceitar.

Os cantos da boca de Jinshi se ergueram discretamente.

— Você ouviu ela. Qual é a sua opinião profissional, doutor Liu?

Por um instante, o doutor Liu apenas encarou Maomao em silêncio. E ela que esperava que ele avaliasse seu trabalho de forma justa em comparação com os aprendizes e os outros assistentes. Será que o fato dela ser mulher era realmente um problema tão grande assim?

Por fim, ele disse:

— Ela é, como afirmou, uma apotecária. Mas existem problemas que não podem ser tratados apenas com ervas.

— E não é função do superior dela resolver isso? Se ela precisa saber mais do que apenas sobre ervas, não pode simplesmente ser ensinada?

Maomao não conseguia ver o doutor Liu enquanto permanecia curvada em sinal de respeito, mas tinha certeza de que, naquele momento, ele cerrava os dentes para conter a própria raiva.

— Tenho certeza de que posso confiar que o senhor fará o que for necessário, doutor — disse Jinshi. Então ele deixou a sala. Basen o seguiu obedientemente, mas não sem antes lançar um olhar cheio de simpatia ao doutor Liu.

Assim que Jinshi foi embora, o olhar silencioso do doutor Liu ficou ainda mais intenso. Tudo o que Maomao conseguiu oferecer foi um sorriso sem graça.

— Me dê a sua cabeça. Uma única vez, e ficaremos quites.

— Sim, senhor...

O nó dos dedos dele acertou o topo da cabeça dela. Na verdade… Doeu bastante. Ele até podia competir com a velha madame nesse quesito.

— Vou deixar isso passar dessa vez. Argh! Maldito seja Luomen! Foi me deixar justamente com uma encrenqueira dessas!

O doutor Liu afundou na cadeira e tragou o cachimbo com irritação. Então ele realmente tinha ouvido a história por Luomen!

Talvez estivesse planejando fingir que não sabia de nada.

Pensando bem, foi muita sorte Jinshi ter aparecido.

O doutor Liu continuou fumando, ainda claramente irritado.

— O senhor deveria estar fumando? — perguntou Maomao, apontando para a placa.

[Noelle: Ela ainda cutuca a onça kkkkkkkk]

— Neste momento? Sim! Faça o favor de fingir que não viu desta vez. Você não tem alguma limpeza para terminar na outra sala?

Nossa... Ele está mesmo de mau humor.

Mesmo assim, Maomao tinha juízo suficiente para não provocá-lo mais.

Ela foi para a outra sala, olhou para o braseiro encharcado e para o destilador quebrado, então levou as mãos à cabeça.

Só o destilador valia o equivalente a seis meses do salário dela.

[Kessel: Seguindo as tradições do Clã La! Se enfiando em dívidas!]

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Atenciosamente,

Scan Moonlight Valley

Fim da leitura

Capítulo 9.08 concluído

Volume 9 – Capítulo 08 – Capítulo 08: Lições Secretas