Diários de uma ApotecáriaVolume 9 – Capítulo 10 – Capítulo 10: Exercícios Práticos
Capítulo 9.1Eles começaram com galinhas. Ainda estavam quentes, na verdade, o corpo nem havia enrijecido. Só o peito e o abdômen tinham sido depenados; as aves nem sequer tinham sido sangradas. Quando Maomao cravou a faca afiada, cuidadosamente afiada e polida, o sangue espirrou.
— Retirem os órgãos internos com cuidado. Não quero ver um único arranhão neles. São para o jantar, então tratem-nos com delicadeza.
É preciso tirar todo o sangue, ou a carne vai ficar com cheiro ruim, pensou Maomao. Deixaram a sangria por conta deles justamente para obrigá-los a aperfeiçoar a técnica.
Além de Maomao, havia outras cinco ou seis pessoas ali. Pelos rostos que reconheceu, concluiu que todos os demais eram aprendizes de médico.
Disseram que ela iria acompanhar uma coleta de ervas medicinais, mas acabou em uma granja a certa distância da capital. Tudo começou capturando uma das galinhas criadas soltas, tarefa praticamente impossível vestindo roupas de médico. Em vez disso, deram-lhes roupas de trabalho da fazenda, com aventais de couro encardidos, e os colocaram para trabalhar. Depois de capturar uma ave, precisavam torcer seu pescoço e, em seguida, levá-la para um galpão próximo, onde começavam a cortá-la.
Quem imaginaria que aquelas pessoas eram médicos, a elite, a nata da capital?
— Apenas agradeçam por não estarmos pedindo que vocês façam vivissecção nelas — disse o doutor Liu. Ele quase parecia estar se divertindo. Depois de dar suas instruções com toda a pompa que conseguiu reunir, começou a negociar com o criador de galinhas. Os dois discutiam o valor de tudo que poderia ser aproveitado medicinalmente de uma galinha, do fígado até a membrana seca da moela.
Maomao teve a nítida impressão de que estava muito mais acostumada a capturar e abater galinhas do que os outros aprendizes de médico, o que tornou ainda mais irritante ver Tianyu ser o primeiro a agarrar uma ave. A contrariedade a fez perguntar:
— Diga, você cresceu em uma fazenda?
— Não. Esta é a terceira vez que faço esse treinamento, então estou começando a pegar o jeito. Mas nunca deixa de ser desagradável.
Ela estava certa: as roupas manchadas de sangue mostraram que os aprendizes já haviam começado o treinamento prático.
— Agora eu tenho uma pergunta para você, Niangniang — disse Tianyu. Maomao arqueou uma sobrancelha ao ouvir o apelido. Ela não gostava nem um pouco dele, mas desde que Tianyu percebeu que aquilo a incomodava, passou a usá-lo ainda mais. O melhor que podia fazer era ignorá-lo. — Como você conseguiu fazer o doutor Liu mudar de ideia?
Os olhos de Tianyu brilhavam. Ele devia ter pouco mais de vinte anos, mas naquele momento parecia um garoto de dez prestes a aprontar alguma. E pensar que normalmente ele não demonstrava interesse algum por Maomao, reservando toda a sua atenção para En'en.
Mas ele adora uma fofoca...
Ele também havia bombardeado En'en com rumores. No começo, Maomao pensou que ele apenas tinha bons ouvidos, mas parecia possuir uma curiosidade natural. Apesar de falar pelos cotovelos, porém, nunca deixou escapar para Maomao uma palavra sequer sobre como eram os treinamentos práticos dos médicos. Ao que parecia, ele não compartilhava da língua solta do charlatão.
De qualquer forma, Maomao não tinha vontade de conversar com ele e sabia que dificilmente conseguiria arrancar alguma informação útil.
— Em vez de conversar, por que não se concentra no trabalho? Faça o favor de não romper essa vesícula biliar.
Se isso acontecesse, a bile se espalharia por toda a carne e estragaria completamente o sabor. Além disso, a vesícula de um animal podia ser usada como ingrediente medicinal, então destruí-la provavelmente renderia uma boa pancada do doutor Liu.
Tianyu era um tagarela e, no geral, parecia um sujeito bastante imprestável, mas ao menos tinha habilidade com as mãos. Cortava a carne escorregadia da galinha com facilidade.
— Enquanto trabalham, observem como os órgãos correspondem aos do corpo humano — instruiu o doutor Liu.
Humanos e galinhas tinham anatomias diferentes, é claro, mas ainda assim aquele era um primeiro passo sensato. Se alguém não conseguia capturar uma galinha em fuga, como pretendia tratar um paciente se debatendo? Se não fosse capaz de torcer o pescoço de uma ave viva, de onde tiraria coragem para abrir o corpo de um ser humano? E, se nem mesmo conseguia cortar uma galinha depois que ela já estava morta, não teria a menor chance de trabalhar em um corpo humano.
Aquele era o treinamento mais básico de todos, mas havia aprendizes que não conseguiam sequer superar essa primeira etapa.
— Depois das galinhas, trabalhamos com o quê? — perguntou Maomao, partindo do princípio de que conseguiria chegar à etapa seguinte.
— Porcos — respondeu Tianyu. — Eles são grandes o bastante para trabalharmos em grupos de três. Quando chegamos às vacas, são grupos de cinco. Mas, nessa altura, já sobra bem menos gente. Depois que você pega o jeito, eles fazem você usar o uniforme de médico e mandam não deixar cair uma gota de sangue nele. Existe mais uma etapa depois disso, mas eu não sei qual é.
— Você ainda não chegou lá?
— Não. Mandaram eu começar tudo de novo. Disseram que eu não levava isso a sério.
— Consigo entender o motivo — respondeu Maomao antes que pudesse se conter. Outra coisa que acabou fazendo sem pensar foi se aproximar de Tianyu. Comparado aos outros aprendizes, ele parecia muito mais tranquilo. Na verdade, todos os demais, exceto Tianyu, que já tinha passado por aquilo antes, empalideceram ao ver o sangue das galinhas.
— Ainda pode ser pior. Se decidirem que você simplesmente não serve para esse trabalho, acabou.
Não serve, é...?
Ela se perguntou o que acontecia com médicos incapazes de lidar com uma simples dissecação. Talvez fossem transferidos para outros departamentos. Em outras palavras, seriam afastados de qualquer possibilidade de seguir carreira como médicos.
— Com o salário de um aprendiz de médico, eu nunca vou conseguir dar à minha querida En'en a vida que ela merece!
Esse sujeito ainda não desistiu? Será que ele não sabe a hora de parar?
Aguente firme, En'en!
[Noelle: O pobi ainda iludido tadinho kkkkk]
À medida que todos abriam suas galinhas, o cheiro de sangue começou a impregnar o galpão. Um dos aprendizes, incapaz de suportar o odor, cobriu o nariz e a boca com um lenço, mas, no instante em que o doutor Liu voltou, o médico mais velho arrancou o pano de sua mão.
— Usar máscara é o procedimento correto ao tratar um paciente. Mas não aqui — disse ele.
Debaixo do lenço, o rosto do aprendiz estava tão pálido quanto sua galinha. Pouco depois, passou tão mal que precisou sair correndo do galpão.
— Nossa... Quantas vezes já aconteceu isso? Ele vai acabar ficando sem chances — comentou Tianyu, como se nada daquilo o afetasse.
Maomao dispôs os órgãos internos sobre uma bandeja: o coração, o fígado, os intestinos e o estômago.
Os intestinos rasgam com facilidade, mas são deliciosos. Eu quase conseguiria comê-los agora mesmo. Os intestinos de galinha são pequenos e delicados, o que torna uma verdadeira tortura limpá-los. Ah, como eu queria espetar a moela em um espeto e assá-la na brasa. Só uma pitada de sal já bastaria. Se conseguiram tirar todo o sangue direito, deve ficar uma delícia. E a vesícula está inteira. Perfeito. Se a bile tivesse vazado, teria estragado a ave inteira.
Ela acomodou cuidadosamente os órgãos na bandeja. Assim que terminou, o doutor Liu passou para inspecionar.
— Muito bem. Agora coloque tudo de volta e costure.
— Como é? — Mas ela já os havia organizado por ordem de cozimento!
— Dá para perceber que você está louca para comer. Não posso deixar você trabalhar desse jeito. Vai acabar enxergando os pacientes apenas como pedaços de carne.
— Acho sinceramente que isso não aconteceria, senhor — disse ela, mas na verdade, ele tinha acertado em cheio.
Ela recolocou todos os órgãos em seus devidos lugares, tomando cuidado especial para não danificar a vesícula.
— Sabe usar isto? — perguntou o doutor Liu, colocando um objeto diante do rosto de Maomao. Parecia um anzol acompanhado de um fio, cuidadosamente embrulhado em um pano.
— Sim, senhor. Mais ou menos.
O fio provavelmente era de seda; isso explicava o brilho característico. Ela passou a seda pela agulha curva e, enquanto aproximava as bordas do corte com os dedos, costurou tudo.
Pelo menos eu já costurei antes. Ela sempre havia usado agulhas retas, mas a curva era muito mais fácil de manusear do que imaginava. Bastava se acostumar para perceber o quanto seria mais eficiente. Quando você se torna um médico oficial, eles realmente fornecem equipamentos de qualidade.
E assim ela continuou costurando, ao mesmo tempo em que se impressionava com o instrumento. Se pudesse pedir alguma coisa, gostaria que a ponta onde se segurava a agulha fosse um pouco mais comprida; era curta demais e difícil de firmar entre os dedos. Seria bem mais fácil se houvesse algo que pudesse segurar com mais firmeza.
Uma pinça não serviria para isso. Preciso de alguma coisa que eu consiga agarrar melhor.
[Noelle: Será que já existe o porta agulhas ou a Maomao vai inventar um?]
[Kessel: Não existia e é uma invenção super moderna. Acho que não, mas ela pensou nisso, como podemos ver ali na próxima linha!]
Ela ainda refletia sobre a possibilidade de desenvolver uma nova ferramenta só para aquilo quando terminou o serviço. Ao olhar para o lado, viu que Tianyu já havia acabado. A frustração voltou.
— Deixe-me ver — disse o doutor Liu, examinando os pontos. — Hmph. Muito bem, depois disso pode fazer o que quiser com ela. Mas vou recolher os órgãos que podem ser usados como remédio. O restante é de vocês. Ele se afastou sem parecer particularmente impressionado. Ao que tudo indicava, aquela era a maneira dele demonstrar aprovação.
— Não se esqueçam de lavar essas agulhas. Fervam-nas e desinfetem-nas. Elas não são baratas.
Pelo formato e pela delicadeza do acabamento, era evidente que aquelas agulhas curvas haviam sido feitas por artesãos habilidosos. Maomao até havia alimentado discretamente a esperança de levar uma para casa, mas podia esquecer essa ideia.
Ela cortou os pontos e retirou novamente os órgãos para limpá-los.
Maomao passou das galinhas para os porcos e, depois, para as vacas. Foi mais ou menos nessa época que recebeu uma encomenda.
— Muito obrigada.
Ela a recebeu das mãos da mulher que administrava o dormitório. Já era depois do jantar; o trabalho havia se estendido até tarde. A mulher esperou por ela durante todo esse tempo. Ela também estava... sorrindo um pouco? Maomao olhou o remetente e descobriu que era, de todas as pessoas, Gaoshun.
Posso garantir que ela entendeu tudo errado.
A encomenda podia estar no nome de Gaoshun, mas apenas uma pessoa poderia tê-la enviado: Jinshi. Ele até poderia ter usado o nome de Basen, mas isso provavelmente causaria uma enorme confusão se Basen descobrisse, então acabou usando o de Gaoshun.
Maomao continuava indo à vila de Jinshi uma vez a cada poucos dias. Ela havia se preocupado com a forma de esconder isso de Yao e En'en quando as férias de fim de ano terminassem, mas o problema acabou se resolvendo sozinho.
— Você acha que está saindo na minha frente, Maomao, mas não está! — declarou Yao. Ao que tudo indicava, ela acreditava que as visitas de Maomao a Jinshi eram apenas mais um tipo de "treinamento prático".
Acho que ela também não está completamente errada, pensou Maomao. De qualquer forma, ela era grata pelo conveniente mal-entendido de Yao. Pelo jeito como ela agia, parecia que também havia escolhido seguir aquele caminho brutal.
Ver o nome de Gaoshun na encomenda fez Maomao lembrar do filho dele. Nunca vejo Basen na vila. Ele era forte como um javali em disparada e tão sutil quanto um. Provavelmente o mantinham deliberadamente afastado da vida pessoal de Jinshi para que não percebesse nenhuma mudança em seu mestre.
Pelo menos parece que ele ainda acompanha Jinshi durante o trabalho. Ao consultório médico, por exemplo. Era natural não deixá-lo a par do que estava acontecendo, mas até mesmo Basen acabaria frustrado se não soubessem lidar com ele com cuidado. Felizmente, Gaoshun saberia como fazer isso. Ou, pelo menos, era o que Maomao esperava.
Assim que entrou em segurança em seu quarto, Maomao abriu o pacote. Havia uma carta e algo embrulhado em um pano, exalando um leve aroma.
— Elegante como sempre, vejo.
Ela desfez o embrulho e revelou um recipiente de cerâmica contendo incenso. Levou-o ao nariz e aspirou seu aroma.
Sândalo como base, com alguns ingredientes adicionais.
Os complementos provavelmente eram todos muito refinados, mas os aromas não combinavam muito bem entre si, e ela não conseguia deixar de sentir que o resultado parecia barato. Um desempenho um tanto decepcionante para Jinshi, que sempre usava apenas o que havia de melhor.
Não... Espera.
Será que ele tinha enviado algo de qualidade um pouco inferior de propósito, justamente porque era para Maomao? Ela parecia se lembrar dele ter comentado certa vez que era possível identificar a posição social de uma pessoa pelo incenso que usava. Sob essa perspectiva, aquele era um pouco melhor do que se esperaria para uma dama da corte, mas não muito.
Ainda assim, isso não explicava por que Jinshi estava lhe enviando incenso. Ela cheirou a própria manga e percebeu um leve odor de sangue.
Eu achei que tinha conseguido tirar o cheiro antes de encontrá-lo...
Ultimamente, ela vinha justificando suas idas à fazenda para as dissecações dizendo que estava fazendo visitas médicas. Quanto aos animais, era fácil explicar: os órgãos eram usados como remédios, e a carne servia de alimento.
Naquele dia, por acaso, um caçador teve a sorte de capturar um urso, e os médicos puderam participar da dissecação. O doutor Liu ficou radiante; disse que aquela era uma oportunidade extremamente rara. O sangue precisava ser drenado rapidamente para não estragar a carne, por isso os médicos raramente tinham a chance de observar.
Eles trocaram de roupa, vestiram os trajes de dissecação e colocaram aventais de couro. Quando tudo terminou, Maomao tomou banho antes de voltar para a corte.
É bom aproveitar um banho público de vez em quando. O dormitório não tinha banheiro, então aquilo era um prazer ainda maior. Um dos poucos luxos do distrito dos prazeres, onde Maomao cresceu, era que as pessoas tomavam banho todos os dias. Até mesmo no palácio interno, ela conseguia se lavar a cada poucos dias.
Ela gostava de banhos? Se alguém insistisse em saber, teria de responder que sim. Além do mais, naquela ocasião, até pagaram sua entrada na casa de banhos pública, e tomar banho no meio do dia tinha um encanto especial.
Ah... Talvez seja o meu cabelo. É claro que não houve tempo para o cabelo secar completamente, então ela acabou não o lavando.
Ela se perguntou se Jinshi compreendia o que era necessário para se tornar um médico de verdade.
Talvez uma parte. Mas não acho que ele saiba sobre a dissecação de cadáveres humanos.
Ao que tudo indicava, ele percebeu o cheiro que ela carregava consigo quando foi examiná-lo. Jinshi conseguia ser extremamente exigente com as coisas mais inesperadas.
Ainda pensando nisso, Maomao pegou uma colher de chá de incenso e o acendeu. Depois colocou um cesto sobre ele e, por cima do cesto, dispôs as roupas que usaria no dia seguinte.
Vamos começar com isso. Ela usou apenas uma pitada do incenso; nem sabia se alguém perceberia o aroma.
Depois de se preparar para o dia seguinte, decidiu que era hora de dormir. Estava prestes a trocar de roupa quando alguém bateu à porta.
— Pode entrar.
En'en entrou segurando alguns rolinhos primavera.
— Sobrou isso do jantar. Você quer?
— Com certeza.
Maomao jamais recusaria a comida feita por En'en. Não estava com muita fome naquele momento, mas poderia guardar para o café da manhã do dia seguinte. Entre as visitas a Jinshi e os treinamentos médicos, ela quase não teve oportunidade de aproveitar a comida caseira de En'en.
En'en colocou o prato sobre a mesa e então percebeu o incenso.
— Isso não combina com você. Perfumando as roupas?
— Estou nos meus dias. Acontece que ultimamente tenho lidado com mais sangue do que o normal. — Não era mentira; justamente naquela época do mês ela costumava ficar um pouco mais melancólica durante alguns dias. — Sei que a Yao faz isso, então achei que talvez fosse uma boa ideia.
Ela sabia, é claro, que provavelmente era En'en quem fazia todo o trabalho.
— Ah, entendo.
Maomao esperava algum comentário ácido de En'en, mas ela não disse mais nada. Mesmo certamente tendo percebido que Maomao andava saindo com frequência.
Então ela não vai tentar arrancar nada de mim?
Desde que Maomao não envolvesse Yao em nada, En'en parecia satisfeita em não se meter nos assuntos dela.
Maomao cobriu os rolinhos primavera com um pano e voltou a trocar de roupa.
Quando chegou ao consultório médico na manhã seguinte, encontrou Yao conversando com o doutor Liu, claramente insatisfeita. As duas quase não se encontravam no trabalho ultimamente, então fazia tempo que não conversavam, e tudo indicava que aquele reencontro não seria nada tranquilo.
Espero que ela não diga nada suspeito, pensou Maomao, enquanto começava a organizar o armário de medicamentos.
— E o senhor não acha que deveria me mandar fazer algum serviço fora também? — perguntou Yao.
Lá vem...
Yao estava decidida, parecendo empenhada em parecer tão intimidadora quanto o próprio doutor Liu.
— Não — respondeu o médico veterano e então voltou os olhos para o relatório diário, como quem deixava claro que a conversa havia terminado. O relatório dizia apenas que não havia nada digno de nota no dia anterior.
— Engraçado. Parece que você anda fazendo muitos serviços ultimamente, Maomao — disse Yao. Ótimo. Agora Maomao também estava envolvida.
— Sim, parece que sim — respondeu ela. Não havia motivo para discutir.
— E onde esses serviços levaram você ontem? O que estava fazendo?
— Fui buscar bile de urso — disse Maomao. Naquele exato momento, ela guardava a bile obtida no dia anterior. O caçador lhes entregou uma parte já preparada. Era um excelente remédio; lembrava um caqui seco deformado. Ela teve a impressão de que o doutor Liu lançou um olhar de advertência em sua direção, mas ele não disse nada para interrompê-la. Sabia que ela não estava revelando nada comprometedor.
— Como a bile é um componente medicinal tão importante, pedi para observar como ela era preparada. Também ajudei na dissecação de uma vaca para verificar se havia cálculos na vesícula biliar. Infelizmente, não havia.
— Cálculos na vesícula de uma vaca... Você está falando dos bezoares? Ouvi dizer que aparecem em menos de um animal a cada mil. Por que procurar algo que você sabe que quase certamente não está lá? — perguntou Yao.
— É uma pergunta justa. As chances de encontrar um bezoar aumentam muito quando o animal apresenta sintomas de cálculos biliares. Além disso, essas pedras passam a valer muito mais quando chegam ao mercado. Então, se um animal apresenta esses sinais, faz todo sentido verificar imediatamente.
Maomao andava sobre uma linha muito tênue, tentando evitar irritar o doutor Liu sem dizer nada que fosse realmente falso. Sentia um pouco de culpa em relação a Yao, mas precisava encerrar aquela conversa. Sei que isso não é exatamente justo...
Ela estava se escondendo atrás de Jinshi. Yao talvez a acusasse de jogar sujo, mas Maomao simplesmente não queria conversar. Tinha coisas mais importantes para fazer.
Yao fez uma careta para ela. O doutor Liu voltou sua atenção para o relatório diário. Parecia satisfeito com a resposta de Maomao.
Eu entendo você, Yao. Acredite. Maomao sabia muito bem qual era a verdadeira pergunta que ela queria fazer. Por que eu também não posso ir? É isso que você quer saber.
Foi o doutor Liu quem finalmente respondeu.
— Se você quer tanto um serviço para fazer, comece indo até a cozinha.
— A... À cozinha, senhor? Por quê?
— Deixa eu adivinhar: você nunca matou nem depenou nem mesmo uma galinha na vida. Acha que a Maomao ficou só olhando enquanto cortavam aquele urso? É isso que está acontecendo aqui… e ela já está acostumada com isso. — Era um elogio raro vindo do doutor Liu, mas, por algum motivo, não deixou Maomao feliz.
— Então e a En'en? Ela deve ser ainda melhor do que a Maomao para limpar e cortar galinhas.
— Talvez. Mas por que eu levaria alguém que nem sequer tem interesse nesse tipo de serviço? Ou você acha que En'en iria na frente e deixaria você para trás? Não vou recrutar à força quem não tem ambição. Você acha injusto que só a Maomao participe dessas tarefas? Quer que as coisas sejam diferentes? Então comece garantindo que você não seja um peso morto para as pessoas ao seu redor!
Ah... Aí está o velho doutor Liu de sempre. Impiedoso e implacável.
[Noelle: Aqui o Dr Liu foi grandão kkkkk amei! A garota batendo de frente com os superiores mds kkkkkk nem vem falar Kessel que ela está defendendo seus direitos pois naquela época e naquela cultura não tinha isso não kkkkk Garota chata, bem feito kkkkkkkkkkkk]
[Kessel: Se não fosse por ela e por tantas outras mulheres importantes ao longo da história, elas não teriam metade dos direitos que possuem! Isso aí, Lady Yao! Continue advogando por seus direitos!!!]
Yao apertou a saia com força. As palavras do médico claramente a atingiram, mas ela não respondeu. Ela sabia que ele tinha razão. Ela nunca sequer havia segurado um cutelo na cozinha. Os rolinhos primavera que Maomao comeu no café da manhã tinham sido preparados inteiramente por En'en.
Temos outro problema para resolver...
Ouviu-se um nítido ranger de dentes atrás de Yao. Era En'en, que já estendia a mão para pegar um frasco de álcool desinfetante. Assustador. Muito assustador.
Yao, porém, estendeu a mão e a impediu. — En'en. — Ela normalmente fazia tudo o que sua dama de companhia desejava, mas, naquele momento, mostrou que sabia controlar uma acompanhante superprotetora. Ela voltou-se para o doutor Liu.
— Entendo o que o senhor quer dizer. Vou aprender a usar um cutelo imediatamente.
— Oh? Vai mesmo? Então comece decapitando a cabeça de uma galinha viva.
— De... decapitar a cabeça?
Era verdade. Se ela não conseguisse fazer isso, jamais poderia seguir o mesmo caminho que Maomao. Até mesmo alguns dos aprendizes médicos haviam desabado em lágrimas, com o rosto coberto de lágrimas e catarro, ao matar o porco que usariam na dissecação. Se animais de fazenda já causaram esse efeito, jamais conseguiriam trabalhar em seres humanos. Afinal, um médico podia muito bem precisar amputar um braço ou uma perna sem sequer dispor de anestesia para o paciente.
Isso acontece o tempo todo nos campos de batalha.
Em uma guerra, ninguém precisava dos livros secretos de anatomia do pai. Veria órgãos humanos suficientes para a vida inteira. Ter o luxo de proibir livros sobre dissecação era, por si só, um privilégio de tempos de paz.
— Será que você tem coragem de mexer nos órgãos de alguém enquanto essa pessoa ainda está viva? — perguntou o doutor Liu com um sorriso debochado.
— Eu tenho! Eu consigo! Foi exatamente para isso que eu vim! — insistiu Yao. Ela não estava apenas contrariando o médico veterano. De fato ela queria adquirir as habilidades necessárias para exercer a medicina.
Se Yao estivesse no consultório apenas para escapar do controle do tio, aquele seria um excelente momento para desistir e voltar para casa. Apesar da cicatriz que ganhou ao provar comida envenenada, ela ainda era jovem, bonita e inteligente. Certamente havia muitos pretendentes dispostos a se casar com ela.
Pare com isso. Estou pensando exatamente como o tio dela.
Yao e En'en desprezavam o tio de Yao, mas, em algum nível, era verdade que ele também desejava a felicidade dela. Li, em grande parte, não era um lugar onde uma mulher solteira pudesse viver confortavelmente. Havia costumes, tradições e circunstâncias demais jogando contra isso. Ainda assim, não cabia a Maomao dizer isso a Yao. Se ela havia decidido que aquele era o caminho que queria seguir, então Maomao permaneceria em silêncio.
Foi então que viu En'en, parada atrás de Yao, encarando o doutor Liu enquanto ele zombava dela. Maomao sabia que, assim como ela, En'en respeitaria qualquer decisão que Yao tomasse. Ainda assim, naquele momento, havia uma hesitação incomum estampada em seus olhos.
Como será que isso vai acabar?
Seja como fosse, aquilo ainda não dizia respeito a Maomao. Ela anotou os ingredientes que havia obtido recentemente enquanto os guardava no armário.
Yao não perdeu tempo. Naquela mesma noite, ela já estava na cozinha. En'en observava, apreensiva, a maneira desajeitada como ela manejava o cutelo. Maomao, que excepcionalmente havia voltado cedo para casa, assistia às duas enquanto esperava pacientemente o jantar ficar pronto.
— Então eu pego isto e...
PÁ!
— S... Senhorita...
Yao desceu o cutelo como se estivesse rachando lenha. Parecia capaz de partir um osso ao meio, e não apenas cortar carne. Mesmo que Maomao quisesse ajudá-la, aproximar-se naquele momento não parecia nada seguro.
— É... É perigoso trabalhar desse jeito. Você devia começar com algo menor!
— Não! Carne! Eu preciso aprender a cortar carne!
En'en estava claramente desesperada. Normalmente ela era tão calma que Maomao imaginava que ela seria uma ótima professora para Yao, mas daquele jeito não chegariam a lugar algum. Maomao decidiu fingir que não tinha visto nada e simplesmente sair da cozinha. Infelizmente para ela, seus olhos encontraram os de En'en. En'en lançou um olhar tão eloquente que dispensava qualquer palavra e, em seguida, apontou para a mesa. Havia comida ali. Pronta para ser servida. Camarão apimentado.
Maomao engoliu em seco. Será que En'en tinha preparado aquilo antes? O prato ainda soltava vapor e estava repleto de camarões enormes e uma variedade de legumes. Conhecendo a culinária de En'en, Maomao tinha certeza de que ela usou pasta de soja para dar intensidade ao sabor, mas também algum suco de fruta para equilibrá-lo. Devia ficar divino sobre uma tigela de arroz. Ela quase conseguia sentir o camarão suculento na boca.
A mensagem de En'en era cristalina.
Se quer jantar, então nos ajude, hein?
Maomao fez uma careta, mas foi lavar as mãos. Ela simplesmente não conseguia resistir a camarões carnudos.
Primeiro, ela escolheu um cutelo menor do que o que Yao segurava. Depois colocou uma cenoura sobre a tábua.
— Comece cortando isto, Yao.
— Uma cenoura? Mas eu estou tentando aprender a cortar carne!
— Consigo até ouvir o doutor Liu dizendo: "Você? Quer cortar carne quando nem consegue cortar um simples pedaço de ginseng?"
Maomao substituiu a cenoura por algo mais apropriado ao vocabulário medicinal.
— Está bem — respondeu Yao, depois de um instante.
— Ótimo. Agora pegue este cutelo. Existem vários tipos, e cada um é usado de uma maneira diferente. O que você estava segurando é próprio para quebrar ossos. Não serve para cortar algo delicado como carne macia. Se estivesse praticando amputar o braço de um paciente, aí sim seria perfeito.
Yao não respondeu. Apenas mordeu o lábio e trocou de faca. En'en soltou um discreto suspiro de alívio. Yao era dedicada aos estudos, então conhecia muitas coisas que a medicina tinha em comum com a culinária. Mas isso não incluía os diferentes tipos de cutelo. Quando o assunto era cozinha, ela entendia muito mais de comer do que de cozinhar.
— Muito bem. Agora vamos aprender a segurar a faca. Assim. E, para cortar a cenoura, faça deste jeito. — Maomao ajustou a posição da mão de Yao centímetro por centímetro. — Depois de firmar a cenoura para que ela não escorregue, basta cortar devagar. Não precisa golpear. En'en cuida muito bem dos utensílios, então esta faca está extremamente afiada. Não é preciso usar força. Lembre-se disso quando estiver cortando pele ou carne infeccionadas. Você estará seccionando vasos sanguíneos vivos.
Toc. A faca desceu enquanto Yao fazia um corte hesitante.
— Muito bem. Agora corte em aproximadamente cinco pedaços.
Toc. Toc. Toc. Yao era uma jovem perfeitamente capaz. Só precisava que alguém lhe mostrasse como fazer. Vale a pena lembrar que, por mais madura que parecesse, ela ainda tinha apenas dezesseis anos.
— Pronto! — disse ela, depois de terminar a cenoura.
— Ótimo. Agora este aqui.
Maomao colocou um nabo-daikon sobre a tábua.
— Chega de legumes — reclamou Yao.
— Até agora você só cortou uma cenoura. Vamos aprender primeiro a descascar um daikon direito antes de passar para a carne.
Na verdade, descascar um daikon era até mais difícil. Mas Maomao queria que Yao aprendesse usando vegetais. Não queria vê-la correndo para o consultório do doutor Liu só porque conseguiu cortar um pouco de carne. Bem... Antes disso, ela ainda precisaria estrangular uma galinha.
Yao fez cara feia, mas se resignou a trabalhar no nabo.
— Não se preocupe. Não vou fazer você descascar tudo de uma vez logo na primeira tentativa. Corte-o em pedaços menores para facilitar.
— Claro. Era exatamente isso que eu ia fazer — resmungou Yao.
Enquanto ela começava a descascar o nabo, Maomao pensou no que faria com a cenoura.
— Maomao.
En'en apontou primeiro para a carne de porco que Yao havia tentado cortar e depois para alguns cogumelos shiitake secos. Os cogumelos eram um ingrediente caro. Maomao decidiu não perguntar como En'en os havia conseguido. Além deles, havia apenas alguns temperos.
"Faça porco agridoce." É isso que ela está querendo dizer?
Por coincidência, havia amido de batata-doce bem ao lado. Seria perfeito para empanar a carne antes de fritá-la.
Maomao lançou um olhar saudoso para o camarão, que continuava esfriando sobre a mesa, mas En'en estava completamente concentrada em vigiar Yao para que ela não se machucasse. Sem alternativa, Maomao começou a preparar o porco.
— Maomao — chamou Yao desta vez. — Só para você saber, eu não vou desistir de seguir o caminho da medicina.
— Mulheres não podem ser médicas. — Maomao não estava disposta a mentir para ela.
No máximo, ela e suas companheiras poderiam adquirir conhecimentos equivalentes aos de um médico. Não receberiam título algum, nem reconhecimento. Restaria apenas a satisfação da própria curiosidade intelectual e, talvez, a capacidade de agir caso alguma emergência surgisse.
— Mas já estão ensinando tudo o que você precisa para se tornar médica, não estão?
A pergunta fez Maomao parar por um instante. Ela não respondeu. Se estava decidida a não mentir para Yao, então o silêncio era sua única resposta.
— Tenho pensado muito nisso — continuou Yao. — Desde que encontramos aquele livro na casa do mestre Lakan.
Aquele era um nome que Maomao detestava ouvir. Mas encará-la com mau humor não resolveria nada. Ela apenas continuou escutando.
— É verdade que ainda acho difícil aceitar essa forma de pensar. Mas consigo entender que ela provavelmente seja necessária para quem pratica medicina. O mestre Luomen deixou isso muito claro. Eu sempre imaginei que aprenderíamos essas coisas mais cedo ou mais tarde, mas agora percebo que existe algo mais necessário para colocá-las em prática.
Garotas inteligentes eram admiráveis, mas às vezes a ignorância realmente era uma bênção. Se Yao nunca tivesse sabido dessas coisas, ou conseguisse fingir que não sabia, talvez um caminho muito mais simples e tranquilo estivesse diante dela. Maomao desejava sinceramente que Yao fosse feliz. E, se até ela sentia isso, quanto mais En'en?
No entanto, se Yao realmente aprendesse tudo o que um médico aprendia, aquela felicidade simples e despreocupada só ficaria cada vez mais distante.
— Yao… — Maomao falou devagar. — Ser médica significa, às vezes, usar uma faca em pessoas. Se uma gestante não conseguir dar à luz, talvez você tenha de abrir seu ventre para retirar o bebê... sabendo que, na melhor das hipóteses, apenas a criança sobreviverá. Talvez precise amputar um braço ou uma perna de um paciente que implora para que você não faça isso. E pode nem haver anestesia para aliviar sua dor. Talvez tenha de empurrar intestinos que estão saindo do abdômen de volta para dentro do corpo e costurar a pele logo em seguida.
— Eu sei de tudo isso.
— Esta é uma profissão coberta de sangue. Talvez ninguém queira passar a vida ao seu lado. Talvez as pessoas a desprezem por considerarem o sangue algo impuro. Você precisa realmente desejar essa vida. Caso contrário, é melhor manter distância dela.
— Eu não teria o menor interesse em um homem que fugisse por causa de um pouquinho de sangue. Não é mesmo, En'en?
— J-Jovem senhora… — En'en, que normalmente fazia de tudo para afastar qualquer homem de perto de Yao, agora parecia dividida.
O caminho que alguém como Yao normalmente seguiria seria outro. Até Maomao conseguia enxergar o quanto aquilo era lamentável. Mesmo assim, não tinha o direito de impedi-la. Só podia rezar para que algum raio de luz iluminasse o caminho que Yao havia escolhido.
— Opa... Quebrou. Descobri que descascar um daikon é bem mais difícil do que parece — disse Yao, fazendo uma careta enquanto mostrava uma grossa tira de casca de nabo.
— É verdade. Não é fácil — respondeu Maomao.
— A En'en consegue fazer a casca parecer pétalas de peônia!
— Bem... Ela é especial. — Era a mais pura verdade. Enquanto conversavam, Maomao mergulhou os pedaços de porco empanados no óleo quente e os fritou até ficarem dourados. Yao continuava encarando, descontente, a casca toda rasgada do nabo.
Ao que tudo indicava, ainda levaria um bom tempo até que elas finalmente pudessem comer aquele camarão.
[Noelle: Que capítulos em gente? Cada vez mais a história indo além, e agora deu para perceber por que o estagiário médico tinha aparecido no perfil dos personagens! Mal posso esperar para vivenciar mais aventuras da capacitação médica da Maomao e dos grunhidos do amado Dr. Liu! PS: Gente estou sentindo falta do Lihakuuu 🙁]
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