Diários de uma ApotecáriaVolume 9 – Capítulo 16 – Capítulo 16: Uma Viagem Pelo Mar
Capítulo 9.16No dia em que deveriam partir, Maomao viu-se viajando em uma carruagem, com apenas um fardo de pertences nas costas.
É tão comum que deixou de ser… emocionante, a esta altura.
Yao e En’en estavam lá para se despedir dela; En’en com seu jeito de sempre, e Yao, um tanto amuada. Maomao sentiu tristeza ao se despedir, mas não era como se ela nunca mais fosse voltar.
[Kessel: Omodeuso, tadinha da Lady Yao! Leva ela também, Maomao!!!]
Seus suprimentos médicos já haviam sido preparados com antecedência e encaixotados. Outros itens necessários também seguiam com a carga; assim, tudo o que ela levava consigo, propriamente dito, eram algumas mudas de roupa limpa e o livro que Yao e En’en lhe haviam dado. Como Maomao não sofria de enjoo em carruagens, ela esperava passar o tempo lendo.
Ela ouviu dizer que quatro médicos iriam, pensou ela, mas, no fim das contas, ninguém lhe disse exatamente quem. Aquilo a incomodava; havia todos os indícios de que estavam escondendo algo.
Mal havia embarcado na carruagem, ela descobriu quem era um dos médicos.
— Ooh! É aquele o navio em que vamos?
Tianyu pôs a cabeça para fora. Maomao já o esperava; afinal, depois de toda a insistência do Dr. Liu, ele continuava sendo o único voluntário.
Extremamente inexperiente para uma tarefa como esta. Mas quem sou eu para falar algo.
Maomao também havia sido escolhida, embora não fosse contabilizada entre os médicos. Assim, havia quatro médicos e uma auxiliar. O Dr. Liu havia mencionado a escassez de pessoal, por isso certamente refletiu bastante sobre essa escolha.
Maomao precisava se lembrar constantemente de que, no fundo, estava ali apenas para ajudar; sem, no entanto, esquecer o verdadeiro motivo de sua presença.
O irmão mais novo do Imperador, também conhecido como Jinshi, participaria desta viagem, assim como o estrategista excêntrico; portanto, o empreendimento seria ainda maior do que a viagem anterior. Três grandes navios à vela os aguardavam, os maiores que Maomao já viu na vida. Haviam lhe dito que viajariam por mar, e as embarcações condiziam com essa descrição. Cada uma possuía quatro ou cinco mastros, e ela também avistou canhões. A construção dos navios sugeria uma forte influência da tecnologia ocidental, mas as cores vibrantes, vermelho, verde e dourado, denunciavam sua origem em Li. Maomao não sabia qual era a capacidade interna das embarcações, mas elas pareciam comportar facilmente várias centenas de pessoas cada; talvez até mil, se todos se apertassem.
— Será mesmo mais rápido do que ir por terra? — Maomao perguntou antes de conseguir se conter. Ela havia voltado de barco para casa após sua última visita à capital do oeste, mas, desta vez, viajariam pelo mar, e não pelo rio. A rota marítima era, sem dúvida, mais longa, mas permitia viajar sem interrupções, dia e noite.
— Provavelmente é por causa de toda a carga. É necessário quando se tem uma personalidade tão importante hospedada em algum lugar por tanto tempo. Sem contar todos os presentes que eles precisam levar. — A explicação, dada com um toque de ressentimento, veio de um dos médicos de escalão superior, um homem barbudo de rosto marcado. Sua pele estava visivelmente bronzeada, apesar de ele provavelmente passar a maior parte do tempo atrás de uma mesa. Ele tinha cabelos claros, o que sugeria pelo menos alguma ascendência estrangeira. Maomao o reconhecia vagamente, mas, como trabalhavam em consultórios diferentes, não sabia seu nome. Evidentemente, ele era um dos quatro médicos escolhidos para essa viagem.
— Sim, isso faz sentido — disse Maomao. Em qualquer outra situação, ela poderia simplesmente ter tentado disfarçar o fato de que não se lembrava do nome dele, mas, desta vez, precisaria descobri-lo. Teria de saber qual era mais tarde.
— Eu serei o responsável durante a viagem — disse o médico. — Estou ansioso para trabalhar com você.
Ele parecia ter os pés no chão, pensou Maomao. Conhecendo o Dr. Liu, ele certamente teria escolhido sua equipe não apenas pela competência, mas também pela postura. Aquele homem passava a impressão de ter vindo da própria capital do oeste.
— Os outros dois médicos já estão a bordo — disse o homem. — Eu estarei no navio da frente, Tianyu estará no navio da retaguarda e você, Niangniang, ficará no navio do meio. Você será acompanhada por um dos médicos de alto escalão.
Maomao não disse uma palavra. Deveria ela dizer que ele havia falado seu nome errado? Por outro lado, ela teria esse direito, considerando que também não se lembrava do nome dele? Ela se contentou com um — Senhor, uma pergunta.
— Sim?
— Quem mais vai estar no navio comigo? — Ela fez uma careta enorme, vasta e poderosa enquanto falava.
— O recipiente central é para o nosso viajante mais importante. Alguém bastante jovem. Não dava para perceber pela sua suntuosidade?
O navio no meio era, de fato, o maior e o mais vistoso de todos.
— Um jovem — repetiu Maomao, perguntando-se se já podia sentir alívio. Aquilo parecia indicar que se tratava de Jinshi, e não daquela aberração. Eu poderia ter imaginado, mas, ainda assim...
Ao mesmo tempo, isso a deixava com a dúvida sobre qual médico a acompanharia. Se Jinshi convocasse Maomao para ir até ele a sós, isso poderia levantar suspeitas.
— Pelo que Luomen nos contou, o Grande Comandante Kan geralmente não fica muito abatido quando o barco balança; ele só precisa de medicamentos contra náusea e um pouco de suco para complementar a nutrição.
— É mesmo, senhor?
Se ele enjoar no mar, isso o deixaria bem parecido com Lahan. Pelo visto, não era só o álcool que fazia sua cabeça girar.
— Já lhe disseram o que você precisa saber sobre os navios?
— Sim, senhor. Disseram que há um consultório médico a bordo, onde ficará guardado todo o equipamento necessário, e onde eu dormirei a maior parte do tempo.
— Exatamente. Embora a senhora possa dormir com as damas de companhia, se desejar, Niangniang.
— No consultório, por favor.
A presença de damas de companhia era algo natural; dificilmente Jinshi poderia viajar sem elas. Mas será que Suiren estará lá?
Suiren, a serva de Jinshi que já entrava na terceira idade. Uma viagem tão longa seria penosa para ela, mas, se ela não fosse, a única outra candidata em quem Maomao conseguia pensar seria Maamei, a irmã mais velha de Basen. Mas não me lembro de ter ouvido dizer que ela tinha filhos?
Pedir a uma mãe que deixasse seus filhos por tanto tempo também não seria fácil. Maomao ponderou sobre a situação, mas, de qualquer forma, haveria outras damas de companhia a bordo. Damas escolhidas a dedo, sem dúvida, mas ainda assim seria do interesse de Maomao manter distância.
— O outro médico a bordo pode lhe informar sobre qualquer outra coisa que você queira saber — disse o médico de barba.
Sim, claro, mas quem é ele?
Pareciam felizes em contar a quem quisesse ouvir que o estrategista excêntrico apareceria; então, por que faziam tanto mistério sobre o médico? Não fazia sentido.
— Ah, é o senhor? — disse Tianyu ao embarcar em seu barco.
— Tem algum problema com isso? — disparou, de todas as pessoas, o médico de meia-idade daquela comitiva. Ele tinha pinta de quem sempre se esforçava demais para se destacar, e, pelo visto, dessa vez isso tinha saído pela culatra. É claro que Maomao não sabia o nome dele.
Não é com ele que estou preocupada. Ela embarcou em seu barco, ainda se perguntando quem poderia ser o outro médico.
A bordo, os marinheiros trabalhavam com afinco.
Será que aquele é o aposento do nosso convidado de honra? Aposentos suntuosos erguiam-se sobre o convés. Eles certamente desfrutavam de uma brisa agradável e eram muito bem equipados. Aquele mesmo ambiente não destoaria em uma das residências da família imperial. Parece o mais confortável... mas também o alvo mais óbvio.
Maomao desceu as escadas para o convés inferior. O ar úmido grudava em sua pele. Não havia paredes, talvez para permitir uma melhor circulação do ar; o que havia no espaço eram apenas divisórias extremamente precárias. Os burocratas provavelmente teriam de dormir amontoados ali embaixo, pensou Maomao. A situação seria praticamente a mesma na hora das refeições. Como o navio contava com marinheiros contratados, os administradores teriam tempo livre. Jogos de tabuleiro provavelmente se tornariam ainda mais populares, já que não havia outras formas de entretenimento a bordo.
Havia canhões suficientes a bordo para que a embarcação pudesse servir também como navio de guerra. Havia algumas áreas devidamente isoladas por divisórias, provavelmente aposentos para as damas de companhia e os viajantes de maior importância. A proporção entre os sexos no navio pendia fortemente para o lado masculino, e os aposentos separados serviam, presumivelmente, para evitar que alguém tivesse ideias impróprias, algo que poderia ocorrer se todos dormissem juntos.
Nossa, isso é meio... empolgante.
É verdade que ela provavelmente acabaria enjoada daquele navio depois de vê-lo o dia todo, todos os dias, durante a viagem, mas qualquer pessoa gostaria de explorar um ambiente novo. Havia cordas grossas e dispositivos de flutuação de madeira espalhados pelas paredes.
O navio tinha três níveis; quatro, se se contasse a cabine VIP no convés superior. O andar logo abaixo tinha uma estrutura semelhante à do nível superior, mas abrigava o consultório médico e a cozinha. Maomao decidiu deixar o consultório médico por último; em vez disso, foi dar uma olhada na cozinha. Ela continha vários barris de água e um fogão, engenhosamente construído para permitir a saída da fumaça.
É algo assustador, usar fogo a bordo de um navio.
A área ao redor do fogão foi construída com materiais resistentes ao fogo, mas você ainda precisaria ter muito cuidado.
Parecia uma cozinha muito pequena, considerando o número de pessoas a bordo, provavelmente destinava-se apenas a preparar as refeições das figuras importantes, e pouco mais. Pessoas comuns como Maomao teriam de se contentar com sopa morna.
Tudo o que se comia acabava tendo de sair pela outra extremidade, Maomao estava justamente se perguntando onde ficava o banheiro quando viu uma estrutura construída na proa do navio. Provavelmente fora feita para permitir que os dejetos caíssem diretamente no mar, o que, possivelmente, incluía algum ocupante descuidado. Maomao pretendia ter cuidado.
A carga ficava na parte mais baixa do navio. Munições e água estavam armazenadas ali, juntamente com provisões e o que Maomao supôs serem presentes para a capital do oeste. Ela não ficou nada satisfeita ao avistar algumas batatas-doces, estava na cara quem havia insistido para que fossem incluídas.
Será que elas realmente vão durar? Ela espiou dentro de uma das caixas de madeira. As batatas haviam sido armazenadas em cascas de arroz, aparentemente como medida contra a umidade.
Depois de se dar por satisfeita por ter visto o restante do navio, Maomao dirigiu-se à enfermaria. O local possuía paredes de verdade, permitindo isolar qualquer pessoa que pudesse estar doente. Ao abrir a porta, ela encontrou o responsável pelo recinto sentado em uma cadeira, um homem de semblante suave e gentil.
Ela não disse nada; por um segundo, pensou que fosse o seu velho, Luomen; mas não, não exatamente.
— Ah! Olá, mocinha!
A voz era despreocupada, e familiar. Pertencia a alguém que normalmente era encontrado nos aposentos do palácio interno: o médico charlatão.
— É o senhor? — perguntou Maomao. A frase saiu em tom de pergunta, e com razão: faltava o característico bigode de “loach” do charlatão. Seu rosto estava liso como bumbum de bebê.
— Ih! Não olhe para mim. Estou morrendo de vergonha… — O charlatão corou e franziu os lábios, como uma moça que acabou de chegar à idade de começar a aparar a franja.
— O que aconteceu, senhor? Aquele bigode era o seu orgulho e a sua alegria.
Ele fungou. — Disseram-me que eu tinha de raspá-lo. Disseram que não era normal um eunuco deixar o cabelo crescer daquele jeito.
— Confesso que é um tanto incomum.
Aos eunucos faltava aquilo que os tornava homens; por isso, eles também tendiam a perder as características físicas masculinas distintivas. Os pelos faciais e corporais tornavam-se mais ralos, embora, é claro, pudesse haver exceções. Em alguns casos, parecia até que a parte "masculina" permanecia, de fato, no interior do corpo. De qualquer modo, o charlatão havia conseguido cultivar um bigode, apesar de ser eunuco, e parecia ter grande orgulho dele, acariciando frequentemente os fios ralos.
— Isso ainda não explica por que você está aqui — disse Maomao.
— Bem, veja só, não há concubinas no palácio interno que exijam atenção especial no momento. A concubina Lihua é, na verdade, a única concubina de alto escalão, e Luomen é mais do que capaz de cuidar dela. Ouvi dizer que poderia chegar uma nova concubina, mas acho que isso não se concretizou.
Ele estava falando da sobrinha da Imperatriz Gyokuyou? Então, ela não iria entrar no palácio interno, afinal.
Um rebaixamento, de fato...
O Dr. Liu era um homem extremamente minucioso. Ele havia selecionado os médicos para acompanhar Jinshi, visto que não havia profissionais suficientes para a viagem à capital do oeste, e, se contavam com um médico de alto escalão competente, não pegaria bem não levar pelo menos mais um. Por isso, optou pelo charlatão, que, no mínimo, possuía a patente e o título adequados. É até possível que ele tenha se dado ao trabalho de transmitir conhecimentos médicos a Maomao justamente por saber que ela se dava bem com o charlatão. Ou, quem sabe, tenha escolhido o charlatão justamente por saber que Maomao iria junto.
— Hoo hoo hoo! Nunca viajei de navio antes. Isso não faz o coração disparar? Não sei bem o que vai acontecer, mas tenho certeza de que será uma viagem divertida, contanto que você esteja aqui, mocinha.
Se havia algo que recomendava aquele médico charlatão, era o seu lado otimista. Maomao também tinha a sensação de que ele tinha a sorte de, de alguma forma, sobreviver a qualquer coisa que lhe acontecesse. Alguém, ou algo, que ela não conseguia identificar parecia gostar dele.
— Que tal começarmos com um chá? Vou ferver um pouco de água.
— Acho que eles podem ficar irritados se você usar o fogão — disse Maomao.
— Sério? Bom, então podemos usar um braseiro.
— Acho que poderíamos sufocar se queimássemos carvão aqui dentro.
O ambiente não recebia muito ar, e o carvão queimaria de forma incompleta.
Havia uma janela, mas era muito pequena; o cômodo em si era bastante escuro.
O rosto do charlatão caiu. — Estou começando a achar que viajar de navio talvez não seja tão aconchegante quanto eu pensava...
— Nem é preciso dizer, senhor.
O charlatão enterrou o semblante decepcionado no catre ali perto, e suspirou. — E as camas são duras, pelo que vejo.
— Receio que não haja muito o que fazer a esse respeito, senhor. Apenas alegre-se por não ter de dormir espremido junto com todos os outros. Ah, aqui: podemos usar esta prateleira para a nossa bagagem.
Maomao colocou a muda de roupa na prateleira e abriu o livro que Yao lhe deu. Ela se acomodou de modo a aproveitar a luz que entrava pela janela; o ângulo era perfeito para que pudesse ficar sentada na cama.
— Ah, que gracinha. A senhorita está lendo um livro?
— Parece que vai demorar um pouco até sairmos. Tenho certeza de que alguém virá nos chamar.
— Hum. — O charlatão estufou as bochechas, decepcionado, e pegou um tabuleiro de Go portátil. — Tudo bem. Vou resolver alguns problemas de Go. — Ele pegou um livro seu, aquele do estrategista excêntrico, é claro.
Realizaram uma cerimônia de despedida para o navio e, em seguida, partiram. As autoridades, principalmente Jinshi, conduziram o que parecia ser algum tipo de ritual, mas Maomao prestou pouca atenção. Ao avistar o estrategista excêntrico bisbilhotando por perto, ela desceu para o convés inferior e refugiou-se em um dos aposentos.
Era difícil chamar uma viagem de navio de agradável, mas era um meio de transporte menos duvidoso do que ela havia imaginado. Certamente melhor do que seu cruzeiro fluvial, de qualquer forma.
Ouvi dizer que, antigamente, nos navios, eles eram obrigados a comer pão infestado de insetos. Por isso, os marinheiros costumavam colocar um peixe vivo sobre o pão para atrair os bichos antes de comê-lo. Maomao já era conhecida por comer gafanhotos e cobras, mas nem mesmo ela gostava da ideia de comer pão cheio de insetos.
Acho que a viagem não vai ser tão longa.
Para ela, a duração pareceu longa, mas não se comparava nem de longe aos meses que marinheiros às vezes passavam no mar. Eles ficaram no navio, no máximo, pouco mais de duas semanas, fazendo várias escalas em portos ao longo do caminho. Na primeira refeição, serviram carne embrulhada em folhas de bambu, sopa de peixe e até tangerinas. Um toque de luxo para o primeiro dia a bordo, ela imaginou.
— Eles até têm frutas! Isso é maravilhoso! — disse o charlatão, sorrindo com um ar de beatitude enquanto descascava e comia sua tangerina. Maomao já havia terminado de comer há muito tempo e estava escovando os dentes.
Ela tinha uma vaga noção de por que lhes haviam servido tangerinas. — As pessoas não consomem frutas e verduras suficientes em viagens marítimas — disse ela.
— É a mais pura verdade. Não dura o suficiente.
— Isso causa um desequilíbrio nutricional e adoece as pessoas.
— Sim, de fato. Uma dieta equilibrada; é isso que importa.
Não estava muito claro se o charlatão sabia ou não do ela que estava falando.
Ele comentou: — Puxa, temos bastante tempo livre aqui. Não parece haver pacientes.
Tenho certeza de que não é mais tempo livre do que você tinha no palácio interno, retrucou Maomao em pensamento. Ela bochechou um pouco de água e a cuspiu pela janela. Alguns poderiam considerar tal comportamento deselegante, mas lá fora só havia o oceano. Era algo rápido e prático.
— Se isso significa que ninguém está se ferindo ou adoecendo, então são boas notícias — disse ela, olhando para as prateleiras do consultório. Para um navio, eles tinham uma variedade generosa de medicamentos, incluindo ervas para tratar as enfermidades mais comuns, bem como algumas misturas para combater doenças específicas da vida a bordo. Tinham até mesmo alguns cremes e pomadas.
— Posso lhe perguntar uma coisa? — disse Maomao, decidindo abordar um assunto sobre o qual ela vinha se questionando há algum tempo. — Lembro-me de uma ocasião em que você não queria nem olhar para um cadáver; então, como conseguiu passar no exame para se tornar médico?
— O teste? Ah, o teste. Sim, eu passei! — O charlatão soltou uma bufada triunfante e bateu no próprio peito.
Maomao lançou-lhe um olhar de desconfiança. — Imagino que você não esteja falando de uma prova escrita?
— Sim, claro. Não havia médico no palácio interior, então abriram o exame de medicina para os eunucos. Eu fui o único que passou! — Outra risadinha de desdém; o charlatão estava visivelmente muito orgulhoso de si mesmo. Dizia-se, às vezes, que os eunucos eram pessoas que haviam fracassado em suas tentativas de se tornar burocratas ou soldados. Havia também muitos entre eles que eram ex-escravos, castrados por nações estrangeiras. Para ser bem sincera, Maomao conseguia entender por que a maioria dos eunucos não passava no teste: muitos deles simplesmente não tinham muita instrução.
Parecia improvável que algum médico estivesse tão ansioso para trabalhar no palácio interno a ponto de se tornar um eunuco pelo privilégio; por isso, optaram pelo caminho inverso e tentaram transformar um eunuco em médico. Ela se perguntava se eles esperavam o resultado que obtiveram.
— E depois disso? O exame prático? — Maomao insistiu.
— Exame prático? Hmm... Não tenho certeza se me lembro de algum... Ah, agora que você mencionou, acho que me fizeram dissecar uma galinha.
— E?
— Ah, eu já estava no meu limite, viu! Quando tentei torcer o pescoço dele, o bicho me deu uma bicada daquelas na testa e me apagou na hora!
[Kessel: kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk!]
Maomao estava em silêncio absoluto, e assustada ao perceber com a facilidade que conseguia imaginar a cena.
— Também me chamaram para dissecar um porco, mas, quando ele olhou para mim com aqueles olhos grandes e escuros... bem, eu simplesmente não consegui!
Naturalmente. E, da mesma forma, assustadoramente fácil de imaginar.
— Entendo — disse Maomao. Depois de tudo aquilo, os superiores provavelmente haviam desistido de transformar aquele charlatão em um médico de verdade, mas ainda precisavam de alguém para fazer as rondas entre as concubinas do palácio interno; então, deram-lhe o título e deixaram por isso mesmo. — Algum outro eunuco se tornou médico depois de você? — Certamente, se tivessem aplicado o exame mais algumas vezes, poderiam ter encontrado alguém mais qualificado.
— Bem, quanto a isso... Você se lembra de que a Imperatriz Viúva mandou construir um edifício para as damas que ela reuniu no palácio interno, não é?
— Sim, lembro.
O local foi concebido para servir de refúgio às mulheres que haviam compartilhado o leito do antigo imperador, um lugar para mantê-las em segurança, ainda que não pudessem deixar o palácio interno. Infelizmente, acabou sendo utilizado durante a rebelião do clã Shi.
— Enquanto estávamos com poucos médicos, aquele lugar acabou funcionando como uma espécie de clínica. Elas não gostavam nada quando eu entrava no consultório e lutavam com unhas e dentes contra qualquer outro médico eunuco.
— Ahh…
Fazia certo sentido. As mulheres do palácio que trabalhavam na clínica sabiam muito mais sobre tratamento médico do que aquele charlatão incompetente.
— Afirmaram que o palácio interno não precisava de mais médicos; portanto, infelizmente, qualquer conversa sobre a promoção de mais eunucos acabou sendo deixada de lado. — Assim, o charlatão acabou se tornando o único médico oficial do palácio interior.”
Este é um homem que vive apenas da própria sorte...
Ela teria que fazer com que ele tirasse a sorte para ela algum dia.
Shenlü, esse era o nome da mulher, não era? Ela acabou no centro de tudo.
O charlatão contemplava o horizonte.
Shenlü era uma mulher de meia-idade que trabalhava na clínica. Ela havia ajudado Shisui e o clã Shi a escapar, ou pelo menos era isso que Maomao tinha ouvido dizer. Além disso, quando passou a ser alvo de suspeitas, teria planejado o próprio suicídio; contudo, Maomao não ouviu mais nada a respeito desde então.
Imagino que ela provavelmente morreria de uma forma ou de outra, fosse pelas próprias mãos ou esperando que eles o fizessem. Ao que parece, ninguém achou necessário informar Maomao sobre isso.
O charlatão terminou de escovar os dentes e começou a preparar seus instrumentos médicos.
— Pois bem, faremos um exame uma vez por dia. Pelo que me disseram, depois das refeições.
Um exame em quem? Das pessoas mais importantes, presumivelmente. Ou da pessoa mais importante.
— Ah! Faz uma eternidade que não vejo o Mestre Jinshi, caham! Quer dizer, o Príncipe da Lua. Estou tão nervoso!
Maomao não ouvia mais ninguém chamá-lo de Jinshi há muito tempo. Ele agora era o Príncipe da Lua, ou, mais precisamente, voltou a ser o Príncipe da Lua, e assim o era há mais de um ano.
— Sim, claro.
É verdade que o charlatão havia corado com a mesma intensidade na época em que acreditava que Jinshi também era um eunuco.
Hmm...
Tinham feito de Maomao a ajudante dele; não que tivessem perguntado o que ela achava disso.
O aposento de Jinshi era muito mais suntuoso do que qualquer outra parte do navio.
Entra uma brisa gostosa aqui. É espaçoso também. E iluminado.
É claro que tudo isso vinha com o fato de estar no convés, mas, de qualquer forma, devia ser bem agradável, pensou Maomao.
— Por aqui, por favor — disse uma mulher com suavidade.
Viajar pelo mar não deve ser fácil para alguém tão idosa.
Era a dama de companhia de certa idade, Suiren. Talvez não houvesse mais ninguém que pudessem trazer. Ela deixou o médico charlatão entrar no aposento sem hesitar, mas, ao cruzar o olhar com o de Maomao, uma expressão de desagrado passou rapidamente pelo seu rosto.
Boa sorte para vocês duas, pensou Maomao, dirigindo o pensamento às outras duas damas de companhia presentes no recinto. Elas também lançaram um olhar ao charlatão, mas logo voltaram sua atenção para Maomao. Realmente, haviam escolhido pessoas competentes.
Era óbvio que aquelas duas percebiam o que estava acontecendo, a realidade da situação. Na verdade, Maomao até que gostava delas, na medida em que não se mostravam imediatamente hostis a ela.
Uma das mulheres parecia estar na casa dos quarenta anos. Tinha idade suficiente para ter sido uma das amas de leite de Jinshi. A outra mulher, Maomao já a tinha visto antes: era Chue, que esteve na vila de Jinshi ultimamente.
[Kessel: Lembrando que “vila”, aqui neste contexto, retrata a casa do Jinshi, não um vilarejo de fato!]
Acho que ela deve ser bem competente, apesar do jeito dela de agir.
Seu comportamento, ocasionalmente estranho, parecia permanecer inalterado.
A maioria das mulheres ao redor do irmão mais novo do Imperador tinha uma aparência bastante comum, mas isso combinava perfeitamente com o estilo dele. Enquanto caminhava pelo recinto, Maomao se perguntava se En’en estaria ali caso tivesse permanecido a serviço de Jinshi.
— P-Por favor, p-perdoe a intromissão — disse o charlatão, já tropeçando nas palavras.
Jinshi, sentado em uma cadeira, aguardava do outro lado de um biombo. Ele havia trocado suas vestes cerimoniais por roupas que permitiam maior liberdade de movimento.
— Faz bastante tempo, médico-chefe. Se me faz a gentileza… — Jinshi estendeu o braço. O aroma de incenso pairava pelo ambiente, mas Maomao não conseguia se livrar da sensação de que era o próprio Jinshi quem exalava o perfume mais intenso de todos. Jinshi exibia todo o seu brilho característico, tal como fazia no palácio interno, sem dúvida, em parte, por estar na companhia daquele médico charlatão.
Você não precisaria ser o charlatão para se sentir um pouco intimidado.
— Aah! — exclamou o charlatão, com um guincho. Maomao ficou de lado, observando-o. Se ele ainda tivesse aquele bigode de “loach”, estaria tremendo.
O “exame” parecia consistir em pouco mais do que verificar o pulso de Jinshi e fazer-lhe algumas perguntas.
Acho que não dá para esperar muita coisa desse sujeito, pensou Maomao. Ao perceber que talvez fosse exatamente por isso que aquele médico de araque havia sido escolhido, ela sentiu uma onda de pena genuína por ele. Ele jamais notaria a mudança em Jinshi, muito menos teria coragem de pedir que ele tirasse a camisa para um exame.
Suiren era uma mulher experiente; ela seria perfeitamente capaz de cuidar da saúde de Jinshi, mesmo sem os cuidados daquele charlatão.
Enquanto isso, Maomao mantinha-se alerta para garantir que nada desse errado. Não que ela esperasse que o charlatão, por mais descuidado e aleatório que fosse seu modo de agir, fosse subitamente levantar as vestes de Jinshi.
— B-Bem, não vejo p-problema algum — declarou o charlatão, gaguejando até o fim.
— Agradeço. A partir de agora, nos veremos diariamente.
— Ahh!
O charlatão guardou seus instrumentos, nos quais mal havia tocado durante o exame. Jinshi continuava a observá-lo. Quando o charlatão levantou o olhar, ele intensificou ainda mais o brilho do seu próprio olhar.
Que diabos?
Rosas flutuavam às costas de Jinshi.
— Médico-chefe, vejo que você raspou o bigode. Combina com você.
O charlatão não chegou a soltar um guincho, mas foi quase isso. Ele parecia estar nas nuvens.
Jinshi continuou: — Devo pedir desculpas por tirá-lo de seu ambiente habitual no palácio interno para fazê-lo empreender uma viagem por mar. No entanto, você tem um papel da maior importância a desempenhar. Eu ficaria muito grato se você me acompanhasse até o fim.
— S-S-Sim! Sim, claro! — disse o charlatão, com os olhos marejados. Ele acreditou piamente nas palavras de Jinshi.
Para Maomao, por sua vez, aquilo parecia uma farsa. Suiren e as outras damas de companhia também não estavam convencidas. Mas isso não importava. Apenas o charlatão precisava acreditar.
— Os outros aqui sabem que o senhor é um eunuco, médico-chefe. Caso se sinta incomodado com qualquer coisa por esse motivo, espero sinceramente que me informe.
— S-Sim, senhor! — disse o charlatão, tão entusiasmado que as lágrimas agora praticamente jorravam de seus olhos. Suas bochechas estavam extremamente coradas, e Maomao quase jurou ver uma flor desabrochando atrás dele também.
— Mais uma coisa. — Jinshi olhou para o charlatão com pesar nos olhos. Maomao lançou-lhe um olhar fulminante, mas queria que aquela farsa ridícula terminasse o mais rápido possível. — Seu nome, médico-chefe. É Guen, não é?
— S-sim, senhor!
Ah. Esse é seu nome?
— Você é o único médico nesta navio e, por isso, solicitei que todos se refiram a você não pelo seu nome, mas como médico-chefe. Se não houver objeções?
— Eu… eu me sinto honrado, senhor!
O charlatão, de fato, não tinha objeções. Ele praticamente implorava para ser tratado por aquele título grandioso.
Está acontecendo alguma coisa aqui; só não sei o que é, pensou Maomao.
Enquanto o charlatão terminava de guardar seus instrumentos, Suiren disse: — Com licença, mas tenho um pequeno pedido. Acha que nós, mulheres, também poderíamos passar por exames diários? É claro que eu jamais ousaria incomodá-lo com questões tão triviais, médico-chefe. Se pudesse liberar a jovem que o auxilia, já seria o suficiente.
Ah-há. Começou.
Maomao olhou para o charlatão. — Tenho certeza de que o senhor está muito ocupado. Pode ir na frente.
— Sim, claro — disse o charlatão, que não gaguejava ao falar com Suiren. — Muito bem, então, mocinha. Posso confiar isso a você?
Maomao pegou a bolsa de suprimentos médicos das mãos do charlatão. — Claro, senhor — disse ela, com todo o entusiasmo de quem lê um roteiro.
Ela acompanhou educadamente o charlatão até a porta e, ao se certificar de que não conseguia ouvir nem sequer os passos dele no corredor, voltou-se para Jinshi, que de repente parecia realmente muito sombrio. Maomao estava prestes a bufar para ele, mas Suiren a deteve com um tapa leve.
— Que tal algo para beber? — perguntou Chue, sempre atenta às convenções sociais.
— Não preciso de chá — respondeu Maomao.
— É claro.
Dificilmente se poderia chamar Chue de bonita, mas seria indelicadeza dizer que era justamente isso que tornava fácil relaxar na companhia dela?
De qualquer forma, há gente bonita demais no mundo, pensou Maomao. A própria Suiren provavelmente fora uma mulher muito bela em seus tempos; mesmo com a idade que tinha, ainda conservava grande parte de sua beleza. Quanto à outra mulher, na casa dos quarenta anos, ela tinha um semblante severo, mas, ainda assim, era muito bonita.
Foi ela também quem falou primeiro com Maomao, estendendo a mão. — Lady Suiren disse que está disposta a esperar pela vez dela, então talvez você pudesse começar por mim?
Hm? Maomao tinha certeza de que já tinha visto aquela mulher em algum lugar. Se ela fosse só um pouco mais jovem...
— O quê? Tem alguma coisa no meu rosto? — Aquela expressão fez Maomao pensar em um predador. Ela certamente já a tinha visto antes.
— Maomao, Taomei é a mãe de Basen — disse Suiren.
— A mãe dele?
Se ela fosse mãe de Basen, isso faria dela...
— Talvez você tenha conhecido minha filha, Maamei — disse Taomei. Sim, era com ela que ela se parecia. Maamei, a mulher que havia levado quitutes para o torneio de Go. Daqui a uns vinte anos, mais ou menos, Maamei provavelmente seria a cara desta mulher.
— Hum… — Maomao não tinha muita certeza do que dizer. Deveria ela agradecer educadamente a Basen pela ajuda prestada? Bem, mas ele não havia feito nada por ela, na verdade. E Maamei, certamente, não havia feito nada.
Mas espere; uma pessoa ligada a Taomei tinha.
— Sou sempre grata pela gentileza de Gaoshun — disse Maomao. Um homem atento a cada detalhe. Se aquela mulher fosse mãe de Basen, isso faria dela a esposa de Gaoshun.
Droga! Isso significa que devo tomar cuidado.
Maomao certa vez havia oferecido uma cortesã do distrito dos prazeres a Gaoshun; que recusou a oferta alegando que sua esposa era uma mulher assustadora. Maomao não esperava, de fato, que Taomei descobrisse o que ela havia feito, mas a ideia ainda lhe causava um mal-estar na boca do estômago.
— Ah? É bom saber disso. Ele também está nesta viagem, sabe?
— O Mestre Gaoshun está?
Maomao lançou um olhar furtivo para Jinshi, mas não viu sinal algum de Gaoshun. Será que ele estava patrulhando o navio? Havia guardas na entrada do aposento de Jinshi, mas lá dentro só havia mulheres, o que a deixou um tanto desconfortável.
— E quanto ao Mestre Basen, então?
— Ele está seguindo por um caminho diferente até a capital do oeste. Por terra.
Ele teve de ir sozinho? Isso não o incomoda?
Basen havia sido afastado de Jinshi de forma cuidadosa e deliberada ultimamente, ele não era um animal político, mas até mesmo ele certamente já havia percebido isso.
— Ele tem o próprio trabalho a fazer — disse Taomei, soltando uma risadinha e cobrindo a boca com discrição ao fazê-lo. Ela parecia vagamente divertida com toda a situação.
Que tipo de trabalho? Maomao se perguntou. Ela chegou a pensar em perguntar, mas, naquele momento, precisava priorizar o seu trabalho.
— Me dê o seu braço, por favor — disse ela.
— É claro.
Taomei estendeu o braço, e Maomao verificou-lhe o pulso. Estava bom e forte. Ela parecia gozar de excelente saúde, mas Maomao notou algo estranho. Os olhos esquerdo e direito de Taomei pareciam ter cores ligeiramente diferentes. Ela os examinou por um momento.
— Há algum problema? — perguntou Taomei.
— Não — disse Maomao. Os dois olhos também pareciam se mover ligeiramente fora de sincronia. Por impulso, Maomao moveu a mão esquerda. Depois, fez o mesmo com a direita, e só então viu os olhos de Taomei se moverem.
Ela é cega do olho direito?
Às vezes, as pessoas nasciam com diferenças entre os dois olhos, mas a cor também podia mudar mais tarde na vida, muitas vezes devido à cegueira.
— Aquilo foi algum tipo de teste? — perguntou Taomei. Ela certamente havia percebido o que se passava na mente de Maomao. Apontou para o olho direito, ela era tão perspicaz quanto Maomao poderia esperar da esposa de Gaoshun.
— Peço desculpas, senhora. Não tive a intenção de ser indelicada. A senhora não acha que isso atrapalha no dia a dia?
— Não, não é nada com que se preocupar. Aconteceu há muito tempo, e já estou totalmente acostumada com isso.
— Muito bem, senhora. Nesse caso, há mais alguma coisa que a esteja incomodando?
— Não, nada.
[Kessel: Eu estava me segurando para comentar desde o início dessa interação. Mas poxa, não dá. A Taomei tem muita presença. Que mulher!]
— Posso examinar seus olhos e sua língua?
Maomao puxou a pele sob os olhos de Taomei e examinou-a. O olho direito estava definitivamente cego, com um aspecto turvo. Havia condições associadas à velhice que podiam deixar os olhos turvos, mas, como Taomei disse ter perdido a visão daquele olho há muito tempo, Maomao suspeitava que a causa tivesse sido uma lesão.
— Por favor, tenha cuidado redobrado nesta viagem. Tudo balança em um navio.
— Estou ciente — respondeu Taomei. Maomao sentiu-se um pouco tola por ter dito algo tão flagrantemente óbvio. — Devo dizer, no entanto: você não acha que falta ao jardim itinerante do Príncipe da Lua alguma flor que realmente se destaque?
Era tão difícil concordar com ela quanto discordar dela.
— Se ao menos minha filha Maamei tivesse podido vir nesta viagem, uma avó idosa como eu poderia ter ficado em casa. Mas dificilmente poderíamos tê-la enviado com toda a família.
— Nossa. Se você é avó, então eu devo ser uma carcaça velha e ressecada — retrucou Suiren.
— Tenho três netos. Não posso ficar por aí fingindo ser uma mulher jovem, posso? — disse Taomei. A maneira como ela enfrentou a provocação de Suiren de cabeça erguida talvez revelasse seu lado obstinado. Maomao achou que quase conseguia ver faíscas voando entre as duas. Parecia que Jinshi tinha o dom de filtrar as mulheres ao seu redor, restando apenas as mais fortes e capazes. Maomao concluiu seu exame rapidamente e, em seguida, passou para a dama de companhia mais jovem.
— Meu nome é Chue.
— Sim, eu sei.
— Mas você pode me chamar de Srta. Chue. Como os amigos fazem! — Ela parecia falar muito sério.
— Hum... Certo — disse Maomao. Ela era uma figura e tanto, sem dúvida. Era nora de Gaoshun, o que a tornava nora de Taomei também. Uma jovem bastante frívola para uma sogra tão austera. Maomao se perguntou se elas se davam bem.
Com seu nariz arredondado, olhos pequenos e pele bronzeada, Chue lembrava muito a sua homônima: o pardal.
[Kessel: Pra quem não entendeu, Chue significa pardal em chinês.]
Ela não é exatamente bonita. Mas, ao mesmo tempo... Agora que Maomao a via pela segunda vez, percebia que era difícil não achar Chue encantadora. Ela parecia mais talhada para vender mercadorias em uma banca de rua do que para servir o irmão mais novo do Imperador.
— Chue é a esposa do meu filho — explicou Taomei.
— Sim, o Mestre Gaoshun me contou. Seu filho mais velho, certo?
— Isso mesmo. Não o Basen, mas o Baryou. Embora eu queira muito que o Basen se apresse e sossegue. — Taomei exibia a mesma expressão divertida de antes.
Parecia haver muita coisa acontecendo na família de Gaoshun.
— Já que estamos no assunto, deixe-me apresentar meu filho mais velho — disse Taomei. Ela caminhou até uma cortina no canto da sala e a afastou, revelando um homem de rosto pálido que trabalhava em problemas de Go.
Havia mais alguém aqui esse tempo todo? Maomao nem sequer havia percebido a presença dele.
— S-Sim, mãe? Posso ajudar?
— Você poderia pelo menos dizer olá, Baryou.
— O-olá? — Baryou lembrava muito Basen, se ele fosse menor, mais franzino e não visse a luz do sol há pelo menos seis meses. — S-Sim, olá...
Baryou mal olhou para Maomao, mas desabou no chão, segurando o estômago. Ele parecia doente, e Maomao estava prestes a ir até lá para atendê-lo, mas Chue chegou primeiro, empurrando Baryou sumariamente de volta para trás de sua cortina.
— Querida sogra, sinceramente acho que, quando se trata de pessoas que ele vai conhecer pela primeira vez, precisamos começar com comunicações por escrito; depois, quando ele já estiver acostumado, elas podem falar com ele pela tela. Simplesmente colocar alguém cara a cara com ele desse jeito... bem, não existe remédio para o estômago no mundo capaz de fazê-lo se sentir melhor!
O que Chue dizia era perfeitamente razoável, bem, não, na verdade não era bem assim, mas soava razoável.
— É, você sempre soube lidar melhor com ele... Mas me parece que ele está muito pior do que costumava ser.
Que tipo de relação aquela sogra e nora tinham... Maomao não saberia que tirada fazer, mesmo que tivesse a chance.
— Você não acha que devíamos ter deixado Baryou e trazido Maamei em vez dele? — disse Taomei.
— Sim, mas então quem teria cuidado do meu filho?
— Justo. Você nunca se interessou por criar filhos. Mas seria uma ajuda e tanto se você tivesse pelo menos mais um.
As oportunidades para tiradas espirituosas surgiam aos montes, mas Maomao suspeitava que, se as brincadeiras começassem, nunca mais teriam fim.
Vamos resumir:
A esposa de Gaoshun, Taomei.
O filho de Gaoshun, Baryou.
A esposa de Baryou, Chue.
Todos eles com personalidades muito... marcantes.
[Kessel: Aproveitando, só para terminar de concluir a família do Clã Ma: temos a irmã do meio, Maamei, e seu esposo Bakin,que ainda não estreou na novel. E por fim, o caçula Basen, que como sabemos, ainda não tem esposa (Lishu!!!)]
Teria sido demais para Basen, aliás, a presença dele teria apenas deixado a situação ainda mais peculiar. Maomao conseguia visualizar Gaoshun franzindo a testa com tanta clareza que parecia que ele estava ali com eles. Seja lá como Basen tivesse conseguido aquela viagem à parte, tinha sido a escolha certa.
Justo quando Maomao achou que já tinha visto o suficiente sobre os exames e se perguntava se deveria ir embora, Suiren lhe deu um cutucão.
— Sim, senhora? — perguntou ela. Ao se virar, deparou-se com um olhar tão amigável quanto um enxame de abelhas. Jinshi as encarava com hostilidade de trás de seu biombo sofisticado.
Maomao havia esquecido completamente o verdadeiro motivo de estar ali.
— De-Devo chamá-lo de Mestre Jinshi?
Após uma breve pausa, ele respondeu: — Sim.
Ao que tudo indica, ele estava esperando atrás daquela divisória o tempo todo. Acabou espiando quando os exames das mulheres pareciam não ter fim, mas, ainda assim, ela questionou o bom senso dele ao olhar enquanto as mulheres eram examinadas.
— Mas só aqui — acrescentou Jinshi. — Não use esse nome em nenhum outro lugar.
— Entendo, senhor. Mas os exames ainda estão...
Suiren preparava chá com um sorriso. Maomao havia dito que não queria, mas, pelo visto, a outra pessoa ali precisava. Bem, de qualquer forma, os exames não passavam de fachada. Jinshi fez um gesto para que ela fosse para trás do biombo, e ela não teve escolha a não ser ir. Atrás do biombo havia uma porta, e, atrás da porta, um quarto.
— Então, não tenha pressa — disse Suiren, entregando o chá a Maomao. Nenhuma das outras damas de companhia as acompanhou. A propósito, podia-se ouvir o som de peças sendo movidas vindo de trás da cortina, evidentemente, Baryou havia retomado a resolução de seus problemas.
O quarto estava escuro; não havia janelas. Em vez disso, havia uma luz tremeluzente de velas. Devia haver algum tipo de ventilação, pois, apesar da ausência de janelas, parecia haver bastante ar no ambiente.
— Tranque a porta, por favor — disse Jinshi. Maomao pousou o chá e, prontamente, trancou a porta. Era uma porta de abrir, não de correr — talvez um reflexo da influência ocidental no projeto do navio. Ela colocou sobre a mesa a bolsa que havia pegado com o charlatão e tirou de dentro algumas ataduras limpas. Na verdade, foi a própria Maomao quem havia arrumado a bolsa; por isso, ela se certificou de incluí-las, juntamente com a pomada.
Vou dizer ao charlatão que eu estava trocando o curativo. Se ela lhe mostrasse aquele enrolado no braço esquerdo, ele aceitaria a explicação sem pensar muito a respeito.
— Se puder, então... — disse Jinshi. Ele se sentou na cama e tirou a sobreveste, como sempre fazia.
— Sim, senhor. Peço perdão. — Maomao limpou as mãos e, em seguida, estendeu-as para a lateral do corpo de Jinshi. Ela tocou a pele avermelhada e inchada, e Jinshi estremeceu. — Parece que está evoluindo bem.
— Estou começando a enjoar daquela pomada.
— Precisamos observar isso por mais um pouco. Vou limpar, está bem?
Maomao removeu o bálsamo antigo e aplicou um novo. Jinshi teve um leve sobressalto, talvez ela estivesse fazendo cócegas nele, mas, como ele reagia assim todas as vezes, ela não deu importância e continuou o trabalho.
Maomao também tinha várias queimaduras no braço, mas nunca havia tratado uma tão grave quanto a de Jinshi. Ela só conseguia avaliar a cicatriz, tentando se lembrar do que Luomen havia feito.
Quem dera Yao tivesse copiado algumas páginas sobre o tratamento de queimaduras para o livro dela, pensou ela. Ela havia folheado o volume, mas não vira nada de imediato. Poderia, teoricamente, perguntar aos outros médicos, mas teria de ter cuidado para fazê-lo sem levantar suspeitas de que Jinshi estava envolvido.
Assim que o medicamento foi aplicado, ela recolocou a bandagem, novamente, como sempre.
— Já terminou?
— Terminei — ela confirmou.
— Você não tem mais nada sobre o que falar?
Bem, não havia mais nada para tratar. Exceto, talvez, a cabeça dele. A vida teria sido muito mais fácil se ela pudesse apertar os parafusos que, claramente, ele tinha frouxos.
Claro, havia muitas coisas que ela queria dizer, mas será que seria indelicado dizer a ele que não havia nada sobre o que ela quisesse conversar?
Jinshi permaneceu em silêncio; ao que parecia, ele estava tão sem assunto quanto ela.
Maomao inclinou a cabeça e disse: — Posso me dar a liberdade de falar primeiro, senhor?
— Vá em frente.
— Essa viagem à capital do oeste. Quanto tempo você espera que ela dure?
Ela não esperava que ele tivesse uma resposta exata para ela, mas estava tentando se agarrar a qualquer fio de conversa.
— Para ser sincero, não sei. Acho que falamos em pelo menos três meses, não foi?
— Sim, senhor. Outra pergunta, então. Sobre a utilidade de me trazer nesta viagem. Tenho alguma serventia aqui além de tratar o seu ferimento? — Jinshi não disse nada, mas desviou o olhar.
Ugh. Eu sabia.
— O senhor me usou para atrair o estrategista excêntrico, senhor?
Houve outra pausa e, então, Jinshi respondeu: — Ajudaria se eu dissesse que me sinto mal com isso?
Maomao queria lançar-lhe um olhar fulminante, mas conteve-se. Não me pagam o suficiente para isso, de jeito nenhum!
Ela não conseguia acreditar. Era bom que lhe dessem uma bebida alcoólica bem cara, ou ela jamais toleraria aquilo. No entanto, tudo o que tinha à mão era o chá que Suiren havia servido. Ela tomou o primeiro gole antes de Jinshi, sua pequena maneira de dar o troco nele.
— Você está pensando que não está recebendo o suficiente por isso — disse Jinshi. Ele conseguia ser bastante perspicaz quando queria. Ele tirou um objeto embrulhado em pano das dobras de suas vestes e o desembrulhou, revelando uma pedra de tom cinza-esbranquiçado.
— É isso o que eu estou pensando?!
— Deveria ser. Poderia confirmar, por gentileza? — Jinshi tirou uma agulha de uma gaveta ao lado da cama.
— Confirmar? Quer dizer… — Maomao pegou a pedra. Ela parecia mais leve do que aparentava. Muito leve, na verdade. Jinshi parecia estar lhe dizendo para investigar exatamente o que aquilo era. — Com prazer, senhor.
Maomao aqueceu a agulha na chama da vela e, em seguida, espetou-a na pedra luminosa. Ela exalou um cheiro característico.
— É verdadeiro! Não que eu esperasse que o senhor me trouxesse algo falso, Mestre Jinshi. É âmbar-gris de verdade! — Mal haviam saído e Maomao já tinha conseguido sua lembrança para a velha senhora.
— Laka — hã... Quer dizer, o estrategista tinha mesmo que nos acompanhar nesta viagem.
— Aquilo foi um pedido da capital do oeste? — perguntou Maomao.
— Foi. Mas eu também queria saber a opinião dele sobre o lugar. — Então é isso. O estrategista era um sujeito bizarro, um lixo, e praticamente estabelecia o nível mais baixo da humanidade, mas, quando o assunto era estratégia, não tinha para ninguém.
[Kessel: Coitado! kkkkkkkkk]
— Ouvi dizer que pode haver uma guerra — arriscou Maomao, olhando ao redor. Ela torcia para que, sendo aquele o quarto de Jinshi, ele tivesse sido devidamente à prova de som.
— A melhor coisa a fazer não é vencer uma guerra — disse Jinshi. — É nem sequer começar uma. Mas fazer o que é melhor, às vezes, é muito difícil.
Em outras palavras, a possibilidade de guerra ocupava muito os seus pensamentos. Ela começava a entender por que os médicos haviam sido levados junto, gostassem ou não.
— Não acho que a minha presença aqui vá facilitar em nada lidar com aquele estrategista maluco. Se fosse o meu pai, a história poderia ser outra.
Sim, Luomen parecia saber como lidar com o estrategista. Se fosse mais jovem, se não tivesse problemas no joelho, talvez tivesse ido com eles nesta viagem.
Infelizmente, a vida não era tão simples, e foi o médico charlatão quem veio em seu lugar.
Ele jamais substituiria o meu... hã? Maomao recordou-se de como Jinshi havia se comportado com o charlatão. Ele havia tecido elogios ao homem, fazendo-o sentir-se bem. Para quem observava, na verdade, ele pareceu até excessivamente bajulador.
Ele havia elogiado, em particular, o rosto recém-barbeado do charlatão. Conhecendo o sujeito, ele não deixaria aquela barba crescer novamente tão cedo. Além disso, Jinshi não havia mencionado o nome do charlatão em momento algum, insistindo em chamá-lo de "médico-chefe". Quase ninguém a bordo conhecia o charlatão. E, supondo que Maomao não revelasse o nome dele, ele não passaria de um médico comum; não um charlatão. Isso, é claro, a menos que suas características físicas acabassem por denunciá-lo como um eunuco.
Assim, médicos de alto escalão haviam sido convocados para essa longa viagem, e um deles era um eunuco. Alguém com quem Maomao era vista frequentemente.
De repente, ela quis bater na mesa.
Não, não dá para fazer isso! Calma!
Ela ia tomar mais um gole de chá para se acalmar, mas percebeu que a xícara já estava vazia. Jinshi lhe ofereceu a sua própria xícara. Ela a aceitou sem hesitar e bebeu tudo. A bebida levava, em parte, ervas de efeito sedativo, talvez para ajudá-lo a manter as emoções sob controle. Suiren era realmente impressionante por ter previsto que eles precisariam de algo assim.
Maomao soltou um longo suspiro e então encarou Jinshi fixamente. — Você está tentando usar o médico-chefe como sósia do meu pai.
— Você sempre capta as coisas tão rápido. Isso me poupa de ter que explicar. — Ele olhou para ela da mesma maneira que havia feito lá no palácio interno.
Luomen e o charlatão eram ambos eunucos, mas tinham aparências muito distintas e idades completamente diferentes. No entanto, para quem só ouviu boatos, tudo o que veriam seria um médico eunuco, e não havia muitos deles. Jamais imaginariam que Jinshi traria deliberadamente o médico do palácio interno. Se esperassem por alguém, seria por Luomen, que superou a humilhação para servir na corte real.
Foi por isso que mantiveram Maomao no escuro a respeito dos médicos escolhidos até o último momento.
— A capital do oeste, ou melhor, o senhor Gyoku-ou, insistiu que o senhor Luomen viesse. Você entende o que isso significa?
— Será que não é algo tão simples quanto eles terem um paciente que gostariam que ele atendesse?
Luomen era um médico extraordinário; sem dúvida, havia muitas pessoas doentes na capital do oeste que poderiam se beneficiar de seus serviços. Mas parecia provável que houvesse algo mais acontecendo.
— Na minha perspectiva, acho que eles podem estar sob a impressão de que isso manterá o estimado estrategista sob controle. É claro que não lhes dei uma resposta específica. Se por acaso confundirem o médico-chefe com o senhor Luomen, o problema é deles.
O tom de autoridade na voz de Jinshi indicava que ele não era a sua habitual figura algo patética, mas sim o irmão mais novo do Imperador. Um homem que podia, e iria, usar as pessoas como peças de xadrez.
— Sob controle, senhor? Acho que seria mais seguro oferecer a mão a uma raposa de verdade. Especialmente porque esse tal de Gyoku-ou... ele é o irmão mais velho da Imperatriz Gyokuyou, não é? — perguntou Maomao.
— Muitas pessoas presumem que conseguem fazer o que outros não conseguem. Às vezes, chegam ao desespero de tentar qualquer coisa. No entanto, nem todo seguidor de um sábio é, ele próprio, um sábio. Acima de tudo, não faltam países que foram postos de joelhos pelos parentes de suas rainhas.
Uma pausa. Maomao sentiu a pele arrepiar. — Você realmente deveria estar me contando isso?
— Não estou lhe dizendo nada. Estou apenas falando de possibilidades.
É, mas não de possibilidades das quais você duvida.
Ao mesmo tempo, não lhe dizerem nada também teria irritado Maomao.
Jinshi ergueu o dedo indicador e apontou-o para Maomao. — Quando estiverem desesperados o suficiente para tentar qualquer coisa, quem eles terão como alvo?
— Você está dizendo que eu sou um ponto fraco que poderia ser explorado?
— Você obviamente é. E o antigo auxiliar do estrategista agora serve ao senhor Gyoku-ou.
Ele está falando do Rikuson.
— O senhor Gyoku-ou sabe sobre você; disso podemos ter certeza.
Rikuson teria de lhes contar, caso perguntassem. Ela estava começando a compreender a escolha aparentemente insensata de Jinshi para a comitiva desta viagem.
— Você achou que eles viriam atrás de mim se eu ficasse na capital?
— Mais uma vez, é uma possibilidade. Você sabe quantos inimigos o honrado estrategista tem.
Isso deixou Maomao calada.
— Suspeito que você seja muito mais conhecida do que imagina, e nem todos os que a conhecem são tolos a ponto de ignorá-la.
Quanto a isso, ela teve de concordar com ele. Deveria ter pensado melhor antes de se tornar assistente médica. Foi Jinshi quem providenciou a oportunidade para ela, mas sua vida poderia ter sido muito mais tranquila se aquele estrategista excêntrico não tivesse chamado tanta atenção para si mesmo. Bem, lamentar o passado não lhe serviria de nada.
— Lahan dará um jeito de administrar as coisas; foi por isso que pedi que ele ficasse. Também solicitei ao senhor Luomen que apareça ocasionalmente no palácio interno. E, com todas as minhas desculpas, eu precisava que você viesse comigo. Achei que seria melhor para você estar em um lugar onde o estrategista pudesse vê-la. Talvez não mais fácil, mas mais seguro.
“Você” isso, “você” aquilo. Justo quando ela achava que ele finalmente tinha começado a usar o nome dela de vez em quando.
— Também acabou sendo bastante conveniente para mim.
Seu filho da…! Maomao quase exclamou, mas, em vez disso, tomou um gole de chá, soltou o ar e disse simplesmente: — É mesmo, senhor?
Por mais que a tivessem perturbado, as palavras de Jinshi demonstravam que ele havia agido daquela forma por consideração a Maomao. Ele levou em conta a rede de relacionamentos pessoais dela, as pessoas de quem precisava e onde precisava delas e, acima de tudo, o que julgava ser o melhor para a segurança dela.
— Designei um velho amigo seu como guarda-costas do médico-chefe. Um tal de Lihaku.
— Sim, senhor — respondeu Maomao com frieza. Ela lançou um olhar distante ao âmbar-gris.
Não tenho certeza se essa explicação me convence. Ela recolheu as coisas do chá e fez menção de sair do quarto. Nem sequer havia tocado nos petiscos.
— Você não vai levar alguns lanches, Maomao? — Suiren, sempre prevenida, já havia deixado algumas guloseimas assadas embrulhadas e prontas para levar.
Isso vai deixar o charlatão feliz, pensou Maomao; então, ela disse: — Sim, obrigada. — Ela pegou os petiscos, fez uma reverência respeitosa e saiu da sala.
— Tem certeza absoluta disso, jovem mestre?
Suiren estava dizendo algo a Jinshi, mas Maomao ignorou.
— Ah, é… — Jinshi estendeu a mão, começando a dizer algo a Maomao, mas, para ser sincera, ela já tinha conversado o suficiente por aquele dia. Fingindo não ter percebido, ela foi embora.
Gaoshun havia retornado e aguardava do lado de fora. Como o apoiador dedicado que era, pareceu perceber algo ao olhar para Maomao, pois franziu a testa, mas não havia nada que pudesse dizer. Maomao lançou-lhe um olhar intrigado, mas decidiu voltar para o consultório médico.
[Kessel: Que capítulo! Nossa.]
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