Diários de uma Apotecária — Capítulo 9.17: Volume 9 – Capítulo 17 – Capítulo 17: Chue

Diários de uma Apotecária
Cap. 9.17
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Diários de uma Apotecária

Volume 9 – Capítulo 17 – Capítulo 17: Chue

Capítulo 9.17

4.337 palavras~19 min de leitura

Maomao escreveu diligentemente no relatório diário: três casos de enjoo, dois ferimentos, uma pessoa passando mal.

— Meu Deus, quanta correria — disse o charlatão, cuja ideia de trabalho se resumia a um exame rápido e à distribuição de alguns remédios. Ele enxugou um suor praticamente inexistente na testa. Por algum motivo, parecia mais cheio de energia do que quando estava nos aposentos do palácio interno.

Ele realmente tinha tempo demais sobrando, pensou Maomao.

Eles já viviam no navio há vários dias. Algumas pessoas ainda não haviam se acostumado totalmente ao balanço constante, mas, no geral, os casos de enjoo haviam diminuído. Se o primeiro dia em alto-mar pareceu tranquilo, no segundo, os viajantes enjoados bateram à porta deles em massa.

— Com certeza — disse Maomao. Ela estava acostumada ao posto médico do acampamento militar, que, francamente, via mais movimento do que aquele lugar, mas o charlatão estava habituado ao consultório do palácio interno, onde se viam mais tufos de ervas secas rolando ao vento do que pacientes; por isso, aquele ambiente devia parecer um hospício para ele.

Tinham preparado bastante remédio para enjoo com antecedência, mas o medicamento servia apenas para amenizar um pouco o desconforto; para aqueles que apareciam pálidos e nauseados, Maomao achava que o melhor tratamento era dar-lhes um balde e levá-los a uma área bem ventilada.

Não é de se admirar que Lahan não esteja aqui. Ela achava que ele poderia vir, já que aquele estrategista excêntrico estava a caminho, mas aquele sujeito avarento sofria terrivelmente de enjoo. Por mais que ela detestasse admitir, tê-lo por perto nesta viagem poderia até ser útil, mas ele certamente arranjou alguma desculpa para escapar. Além disso, ele era, independentemente do que ela pensasse a seu respeito, o próximo na linha de sucessão para a chefia da família; portanto, provavelmente não convinha que ele e o estrategista estivessem fora de casa ao mesmo tempo.

Ela estava preocupada que o estrategista de alguma forma a notasse e viesse até ao seu navio, mas, até o momento, nada havia acontecido. Provavelmente, ele estava sofrendo de enjoo.

— Pois bem, que tal um lanche rápido? Se puder fazer a gentileza, senhorita, vá chamar o nosso amigo.

Assim que não restaram mais pacientes no consultório, o charlatão começou a preparar chá. No entanto, o uso de fogo era rigorosamente restrito, de modo que ele não podia ferver a água. O chá teve de ser servido frio.

Havia três xícaras e três petiscos. Petiscos eram artigos raros e valiosos nos navios; aquele foi o que o charlatão recebeu quando foi examinar Jinshi. Na verdade, desde então, sempre havia petiscos disponíveis durante suas visitas, e ele sempre voltava para casa levando alguns como lembrança.

Acho que ele quer renovar as energias. Maomao suspirou e abriu a porta do consultório médico.

— Qual é o problema, senhorita? — Parado no corredor estava um homem pelo menos duas cabeças mais alto que Maomao: Lihaku. Ele havia sido designado como guarda-costas delas e, naquele momento, segurava um peso grande em cada mão. Como passava a maior parte do tempo apenas parado, parecia ter decidido aproveitar a oportunidade para se exercitar.

— Hora do lanche, senhor.

— Obrigado! Essa é uma ótima notícia. — Ele largou os pesos e entrou na sala, embora sua presença ali a deixasse visivelmente mais apertada.

— Você não se importa com doces, não é, meu caro Lihaku? — perguntou o charlatão.

— Eu como qualquer coisa! — disse Lihaku.

— Bom, bom. Você coloca açúcar no seu chá?

— O quê? Alguém faz isso?

— Ouvi falar que é assim no sul.

— Bem interessante! Bastante açúcar, por favor!

Lihaku estava tão intrigado com a ideia de como seria o sabor daquela bebida que estava prestes a colocar uma porção generosa da preciosa reserva de açúcar do navio em seu chá. Maomao o impediu rapidamente. — Receio não poder permitir isso. O açúcar é extremamente valioso.

— Ah, poxa. — O charlatão franziu os lábios. Ele era reincidente; Maomao teria de esconder o açúcar e o mel. Uma coisa era ele apenas matar o tempo no palácio interno, mas, em uma viagem na qual os suprimentos só tendiam a diminuir, ela precisava que ele tivesse um pouco de moderação.

Aquela não era a única coisa...

Chá doce? Isso não pode ser verdade.

Maomao gostava de comida apimentada e de bebidas secas; em outras palavras, não ia tolerar chá adoçado.

— Certamente um pouquinho não faria mal, não é? O sabor fica tão fraco quando se prepara com água fria — disse Lihaku, fazendo bico também.

— E se você moesse as folhas de chá em um moedor? Isso as deixa mais saborosas — disse Maomao.

— Ei, essa não é uma má ideia. A gente tem um moedor?

— Nós temos! E talvez você possa encarar o trabalho braçal para nós? — arriscou o charlatão. O eunuco tagarela e o soldado afável não poderiam parecer mais diferentes, mas logo haviam se tornado amigos. Lihaku foi a escolha certa para essa tarefa.

Ainda assim, havia a questão do charlatão, que, sem saber, foi transformado em sósia de Luomen. O que ele pensaria se algum dia descobrisse a verdade?

Acho que o silêncio vale ouro, pensou Maomao. Ela conhecia o charlatão e sabia que, de qualquer forma, não lhe faria bem ouvir algo tão desagradável. Quem dera Jinshi me tratasse da mesma maneira.

Ela descartou a ideia quase no instante em que ela lhe surgiu à mente. Tinha certeza de que Jinshi lhe contou o que estava acontecendo por acreditar que aquela era a melhor opção, e Maomao não podia negar que, com mais informações, ficava mais fácil compreender as alternativas ao seu alcance. O belo irmão mais novo do Imperador era um homem bastante competente. No mínimo, ele raciocinava de forma racional, agindo com base em análises em vez de instinto. Era muito mais fácil aceitar as conclusões a que ele chegava, mesmo que não fossem perfeitas, sabendo que ele havia ponderado bem a situação; nem mesmo Maomao conseguia realmente reclamar.

Exceto quanto àquela marca estúpida.

Aquilo, ela ainda não conseguia acreditar.

Ela deixou que esse pensamento a levasse de volta à questão do charlatão. Estava ela irritada por Jinshi tê-lo usado como isca? Ou...

— Não vai comer, senhorita?

— Estou comendo — disse Maomao, pegando um salgado. Era um pãozinho recheado com algo em conserva, uma boa maneira de garantir que durasse mais. O recheio conferia ao salgado um sabor bem intenso, mas, equilibrado pelo chá, ficava perfeito. Ela não conseguiu evitar um pequeno — Hmm?! — enquanto comia; estava realmente muito bom.

— Não é nada doce — disse o charlatão, com o semblante abatido. Ele deu a primeira mordida esperando algo açucarado.

— Uau, isso é bom! Não parece muita coisa, mas esse negócio é pra valer! — disse Lihaku.

— Deveria ser. É um presente do próprio Príncipe da Lua — respondeu o charlatão, soltando uma risadinha de escárnio e demonstrando grande orgulho do fato, embora, tecnicamente, os petiscos tivessem sido dados a Maomao.

Maomao pegou mais chá e olhou pela janelinha. — Consigo ver terra — disse ela.

— Ooh! Você consegue? — O charlatão veio até lá e se espremeu na janela.

— Ouvi dizer que devíamos chegar ao porto ao meio-dia, mas parece que estamos um pouco atrasados. Nada de inesperado, no entanto — disse Lihaku, consultando um caderno para confirmar. — Ficaremos duas noites e partiremos na manhã seguinte. Vai ser uma estadia agitada.

— Em que navio aquele velho ranzinza está mesmo? — perguntou Maomao.

— O velho ranzinza está na embarcação da frente — disse Lihaku, que sabia exatamente de quem Maomao estava falando.

Ele talvez tentasse vir até aqui quando o enjoo passasse. Maomao franziu a testa. Se acabassem viajando no mesmo navio, mesmo que por acaso, não seria nada divertido.

— Não acho que você precise se preocupar com ele — acrescentou Lihaku. — Assim que aquele velho rabugento desembarcar, terá um banquete para comparecer. Precisa exercer um pouco de diplomacia, já que tivemos todo o trabalho de trazer um membro da família imperial.

— Ah, fiquei sabendo do banquete. Vão precisar de um médico para acompanhar, mas, como eu não vou, a senhorita também não precisa ir — disse o charlatão. Depois, lançou-lhes um olhar inquisidor e perguntou: — A propósito, quem é esse velho ranzinza?

Maomao estava distraída com outro pensamento e não lhe respondeu.

— Diplomacia? Claro.

— Claro. Quer dar uma olhada? — Lihaku tirou um mapa simples de dentro do caderno. Ele mostrava a costa e a rota do navio. — Estamos em terra estrangeira aqui, mesmo que eles sirvam a Li — disse ele. De fato, o mapa também indicava as fronteiras. — A princesa deste país viveu no palácio interno alguns anos atrás. Mas ouvi dizer que ela foi dada em casamento. — Sim, aquilo soava familiar. Muito familiar.

— Ah, a concubina Fuyou — disse o charlatão. — Ehem... bem, ela não é mais concubina.

[Kessel: Eita, que surpresa legal! Então foi aqui que a Fuyou foi parar.]

— Eu me lembro dela! — Maomao bateu palmas, com a memória despertada pela observação do charlatão. Era a mulher que havia sido vista dançando nas muralhas do palácio interno.

— Você acha que a senhorita Fuyou também estará lá? — perguntou o charlatão.

— Hmm. Acho que não — disse Lihaku. — Ela é aquela que foi entregue a um militar que se destacou por seus serviços, certo?

— Acho que sim. Mas não tenho tanta certeza de que foi a coisa certa a se fazer, não se pode sair entregando princesas a qualquer um, nem mesmo princesas de um estado vassalo — disse o charlatão.

Se eu tivesse que arriscar um palpite, diria que as autoridades sabiam muito bem que havia algo mais por trás disso.

Se o militar era um velho amigo da Princesa Fuyou, havia grandes chances de que a família dela também o fosse. Eles podiam até achar que, se Fuyou não fosse capaz de cumprir seu papel no palácio interno, quanto antes ela saísse de lá, melhor.

— A questão é que também não podemos simplesmente enviar nossos melhores soldados de volta aos seus países de origem — disse Lihaku.

— Ah, sim, faz sentido.

— Uma noiva do palácio interno... Se eu fosse receber uma recompensa por serviços prestados, acho que preferiria dinheiro — continuou Lihaku.

— Devo dizer que estou surpreso, meu caro Lihaku. Você não parece ser do tipo que ama dinheiro.

— Ah, todo mundo tem coisas em que gostaria de gastar.

Como comprar o contrato de uma cortesã de alto nível, certo?

Maomao se perguntava qual seria o salário atual de Lihaku. Ele parecia estar subindo de posto de forma constante, mas, se não enriquecesse logo, Pairin acabaria se tornando uma dona de bordel também.

Maomao olhou pela janela novamente. Se não chegarmos a terra firme antes do anoitecer, imagino que todas as lojas já estarão fechadas.

Eles estavam em um país situado logo ao sul de Li, mas não podiam esperar desembarcar assim que o navio atracasse. A julgar pela posição do sol no céu, não teriam muito tempo para fazer compras. Com sorte, talvez houvesse um mercado noturno ou algo do gênero, mas lugares assim não costumavam vender os itens que Maomao procurava.

Geralmente são quitutes grelhados, espetinhos ou frutas.

Claro, aquelas coisas eram divertidas, mas não eram o que ela queria. Ela esperava que eles tivessem algum tempo livre no dia seguinte.

— Tem alguém vindo? — perguntou o charlatão ao ouvir passos inconfundíveis do lado de fora da porta do consultório. Pouco depois, ouviu-se uma batida. — Por favor, entre — disse o charlatão, e Chue entrou.

— Olá! Perdoe-me pela interrupção.

— O que houve? O Príncipe da Lua está se sentindo mal?

— Não. Tenho um favor a pedir, se não houver problema. — Ela voltou seus olhos pequenos para Maomao. — Disseram-nos que querem pedir emprestada uma provadora de alimentos para o banquete desta noite. — Os olhos de Lihaku e do charlatão juntaram-se aos dela.

Quer dizer, não é exatamente que ela não gostasse daquele trabalho. O que ela realmente não gostava era de estar no mesmo lugar que aquele estrategista excêntrico. Ela estava tentando encontrar uma maneira de escapar daquela solicitação quando Chue tirou algo e lhe mostrou.

Maomao não disse nada. No entanto, não conseguiu evitar que seu olhar se voltasse para o cogumelo que Chue segurava. Parecia ser shiitake seco.

Ughhhh…

Será que aquele toque de mestre foi ideia de Jinshi ou de Suiren? Os cogumelos shiitake eram um artigo de luxo, mesmo para a categoria dos cogumelos, raramente encontrados na natureza. En’en os utilizava em seus pratos de vez em quando, mas, de modo geral, eram praticamente inalcançáveis para Maomao.

Se eu pudesse cultivá-los, imagine só os negócios que eu poderia fazer!

Conhecido pelo nome de xianggu, esse cogumelo também servia como remédio, sendo utilizado no tratamento de anemia e pressão alta. Maomao podia empregá-lo para fins medicinais ou, então, reidratá-lo para conferir um sabor extra aos seus pratos; podia até mesmo transformá-lo em sopa ou caldo.

Será que aquela dama de companhia, Chue, estava provocando Maomao? Num piscar de olhos, o cogumelo sumiu de sua mão, apenas para reaparecer na outra. Depois, sumiu novamente, só para reaparecer acompanhado de um segundo e, em seguida, de um terceiro. Parecia que ela estava fazendo algum tipo de número de mágica.

— O que me diz? — perguntou Chue, com a maior delicadeza, mas estava claro que ela não aceitaria um não como resposta. Ela teve a gentileza de demonstrar certo constrangimento com a situação, mas faria o que fosse preciso, ou melhor, faria Maomao fazer o que ela precisava que Maomao fizesse. Uma abordagem bem ao estilo de Jinshi.

— Tudo bem — disse Maomao após um momento. — Eu entendo.

— Então, isto é para você! — Chue prontamente tirou um conjunto de roupas, novamente, ao que parecia, do nada, e o entregou a Maomao. — É para você usar no banquete. Também vamos cuidar da sua maquiagem! — Itens de maquiagem, incluindo um pincel para blush, surgiram entre seus dedos com um estalo, como se veria um vilão de teatro fazer.

Ela tem tanta personalidade que mal consigo lidar com isso. Uma descrição simples, como "a esposa do irmão mais velho de Basen", jamais seria suficiente para definir essa pessoa. Ela se destaca, mesmo em meio a todos os outros personagens ao seu redor.

A aparência de Chue podia ser comum, mas talvez ela tivesse fortalecido seu interior para compensar. Talvez fosse preciso ser mentalmente forte assim para sobreviver ao lado das poderosas mulheres da família Ma.

Acho que vou acabar sendo ofuscada aqui, pensou Maomao, cogitando se deveria fazer algo para realçar sua personalidade e conseguir acompanhar o ritmo. Por outro lado, ponderou ela, não havia motivo para se esforçar deliberadamente para se destacar. Terminar todas as suas frases com algum padrão de fala característico acabaria se tornando irritante em pouco tempo.

— Dispenso a maquiagem, obrigado. Só os cogumelos, por favor.

— Se você tem certeza — disse Chue, um tanto decepcionada com a reação bastante comum de Maomao. Mesmo assim, ela entregou os cogumelos.

[Kessel: Tadinha!!!]

Agora eles me deixaram imaginando exatamente quantas plantas medicinais trouxeram consigo, pensou ela, contemplando o seu prêmio.

Ao desembarcar do navio, Maomao foi recebida pelo forte cheiro de peixe e pela agitação do local. Já estava quase anoitecendo e muitas lojas estavam fechadas, mas ela via algumas pessoas correndo de um lado para o outro, tentando fazer suas compras de fim de tarde.

— Cuidado, hein! — gritou o charlatão, agitando um lenço do navio.

— Ela vai ficar bem, ela está comigo! — Lihaku respondeu em voz alta.

Ele não deveria ser o guarda-costas do charlatão? Maomao pensou. Pelo visto, ela também fazia parte da incumbência dele, até certo ponto.

As roupas que Chue lhe dera eram de tecido fino, mas sem adornos e de cor sóbria. Um meio-termo razoável para uma provadora de alimentos. O linho macio trazia uma sensação agradável à pele, ali, naquela terra úmida.

Vou usar isso o tempo todo a partir de amanhã. Maomao praticamente não tinha levado roupas além de roupas íntimas, então veio bem a calhar. Além disso, o tecido secava rápido depois de lavado, muito prático. Ela tinha seu uniforme de assistente médica, mas o tecido grosso o tornava inadequado para o clima abafado.

Chue havia aproveitado várias outras oportunidades para perguntar a Maomao se ela não gostaria de usar maquiagem, mas Maomao recusou sistematicamente. Ainda assim, teria sido indelicado aparecer de rosto totalmente lavado; por isso, ela aplicou uma leve camada de pó clareador e um toque de blush.

— Disseram que haveria uma carruagem à espera — disse Lihaku, olhando ao redor.

— Você acha que é aquela? — perguntou Maomao, apontando para uma carruagem parada diante de um dos outros navios.

— Aquela ali? Já tem passageiros, acho que não cabe a gente. — As pessoas estavam se amontoando para entrar.

Mulheres? As damas de companhia das pessoas importantes, supôs ela. Mas parecia haver tantas delas.

Ela e Lihaku estavam ali, sem saber o que fazer, quando Chue surgiu de repente. — Olá!

— Eita! De onde você surgiu? — exclamou Lihaku. Ele não tinha notado a aproximação dela de jeito nenhum. Normalmente, seus passos característicos a denunciavam, mas, desta vez, não tinham ouvido nada.

— Há uma carruagem esperando ali, toda pronta para o senhor. Por aqui, por favor.

— A senhora tem passos bem leves.

— A senhorita Chue é tão ágil quanto é sem graça. É isso que a torna incrível! Aliás, pode me chamar de senhorita Chue. — Ela abriu um sorriso, girou e fez uma pose sem pé nem cabeça.

— Ora! Aceito com prazer, senhorita Chue.

— Claro, Mestre Lihaku. Aliás, a srta. Chue é uma mulher casada; portanto, deve recusar quaisquer investidas.

— Que pena. Você faz o meu tipo. Se eu tivesse te conhecido antes de encontrar a mulher com quem estou destinado a ficar, com certeza teria tentado algo com você.

O que era outra maneira de dizer que ela não fazia o tipo dele.

— É uma pena para você. Você não encontra muitas mulheres tão boas assim — disse Chue.

Ela simplesmente tira tudo de letra, não é? Toda aquela alegria... ela era um tipo de pessoa, um certo perfil, com o qual Maomao não havia convivido até então. Chue, por sua vez, de alguma forma havia tirado uma fileira de bandeirinhas das dobras de suas vestes.

[Kessel: Sim, Maomao. Como toda boa protagonista, ela tira tudo de letra!]

Eu gostaria de fazer um comentário sarcástico, mas nem sei por onde começar, pensou Maomao, e então entrou na carruagem, ignorando Chue, que parecia um tanto solitária.

O país onde eles se encontravam, situado ao sul de Li, chamava-se Anan. Ele fora um Estado vassalo por mais de um século; até mesmo o nome "Anan" não era o original, tendo sido imposto à região por um antigo imperador. O caractere “a” significava algo como "segundo", "secundário" ou "inferior". O mesmo ocorria com Hokuaren, o conjunto de países ao norte de Li. Esse nome significava, literalmente, o conjunto (ren) de países inferiores (a) do norte (hoku).

Quem quer que lhes tenha dado esse nome devia ser extremamente importante, pensou Maomao. E extremamente cheio de si, para impor a outro país um nome tão abertamente degradante.

Imagino que todos os outros países provavelmente também tenham seu próprio nome para o nosso.

O povo do oeste tinha a pele mais clara que a dos Linese e costumam ser altos. Por isso, às vezes zombavam dos Linese chamando-os de "macacos". Eles falavam a língua local e provavelmente achavam que não seriam compreendidos, mal sabiam que a noção básica que Maomao tinha do idioma ocidental era suficiente para ela perceber que estava sendo insultada. Se a madame tivesse notado que alguém a estava menosprezando, teria simplesmente sorrido e aumentado os preços.

Acho que cada um de nós faz isso com o outro.

Se você não queria que as pessoas a insultassem, não as insultasse, mas Maomao estava menos preocupada em ser insultada e mais preocupada em manter-se segura. Países eram, na verdade, apenas grupos muito grandes de pessoas; portanto, as relações entre países resumiam-se, em última análise, a uma forma de relação humana.

Ao sair da carruagem, Maomao deparou-se com um palácio imponente. O verniz vermelho-vivo tinha a mesma tonalidade daquele de Li, mas o formato do telhado era sutilmente diferente. Era um pouco mais arredondado e dele pendiam lanternas que brilhavam.

Um caminho de um branco puro estendia-se pelo centro do palácio, atravessando um jardim com palmeiras-leque plantadas em pares bem alinhados.

— Por aqui, por favor — disse um homem que parecia ser um criado. Felizmente, ele falava a língua Li, embora com um leve sotaque.

Não importa o que me agrada. Sou apenas uma provadora de alimentos, pensou Maomao. Ela até cogitou dizer isso em voz alta, mas Chue já seguia à frente, a passos rápidos. Guiando Maomao, à sua própria maneira. Ela continuava fazendo aqueles passos estranhos, que produziam um som de chilreio. Maomao e Lihaku a seguiram obedientemente.

— Podem usar este quarto — disse o criado, conduzindo-os até uma porta. Chue entrou rapidamente, lançando um olhar veloz ao redor. Ela estava acostumada a isso.

— Está tudo certo? — perguntou Lihaku, juntando-se a ela no recinto e examinando o local.

— Tudo bem. Às vezes aparecem insetos ou cobras aqui no sul — respondeu Chue.

— Cobras? — perguntou Maomao. Seus olhos brilharam e ela prontamente se juntou à vigilância. — Alguma delas é venenosa?

— Sim! Algumas.

— Existem escorpiões por aqui?

— Não, nada de escorpiões.

Depois que uma busca minuciosa não revelou nem insetos nem cobras, as duas pareciam profundamente decepcionadas.

— Compreendo a situação da mocinha, mas por que a senhorita parece tão infeliz, srta. Chue? — interveio Lihaku com calma, cuidando de usar a forma de tratamento preferida da srta. Chue.

— Bem, não seria mais interessante se houvesse algo aqui?

Não era apenas que Chue gostasse de se destacar, ela era do tipo que preferia ambientes animados. Maomao começava a entender como ela havia ido parar na casa de Gaoshun, um lugar repleto de figuras singulares. Ao mesmo tempo, sentia um certo receio ao imaginar como Chue e sua sogra deviam se entender.

Chue começou a preparar o chá. A jarra estava visivelmente cheia de água fria, pois estava suada, um sinal de respeito aos visitantes. A água fria devia ter sido buscada há muito pouco tempo.

— Não se preocupe. Eu dou conta disso — disse Maomao. Ela imaginou que Chue devia estar ocupada.

Ela estendeu a mão para pegar os utensílios de chá, mas Chue disse: — Está tudo bem, vou preparar um pouco para mim também. Vou ficar com você esta noite, srta. Maomao — Seus movimentos eram tão ágeis que não sobrava espaço para Maomao ajudar. — A srta. Suiren expressou preocupação com o fato de uma jovem solteira ficar sozinha com um homem, mesmo que ele seja seu guarda-costas, então aqui estou eu. Estarei de olho em você!

Maomao e Lihaku se entreolharam, e então, em uníssono, disseram: — Há! Acho que não.

— Eu também não. Mas, quando a chefona dá uma ordem, a gente obedece. Além disso, você conhece a minha sogra. Acho que até que lido bem com ela, mas é exaustivo ficar com ela o tempo todo. Você também conhece o meu marido, acha que ele alguma vez me defende? Posso te garantir que não me importo nem um pouco em deixá-lo com ela e tirar uma folga de vez em quando.

Dito isso, Chue se jogou no sofá e tomou um gole de chá. Ela parecia totalmente relaxada. Pegou até um dos petiscos, uma espécie de biscoito de arroz, e começou a mastigá-lo.

Maomao e Lihaku decidiram que não havia motivo para não se sentirem em casa também. Lihaku, sem saber muito bem o que fazer, encontrou uma coluna no canto da sala e começou a fazer barras.

Cérebro de músculo, pensou Maomao. Ela se sentou em uma cadeira e também começou a beber. Enquanto isso, retomou a leitura do livro que Yao lhe deu.

[Kessel: kkkkkkkkkkkkkkkkk! A Chue largadona no sofá. Que ilustração fofa!]

— Já que temos um minuto, gostaria de explicar como vai ser o banquete — disse Chue. Ela ainda estava com migalhas nos lábios, mas, pelo visto, estava disposta a trabalhar.

— Por favor — disse Maomao.

Chue recostou-se, tão à vontade como se estivesse em sua própria casa, e disse: — Você e eu vamos cuidar da prova da comida, srta. Maomao. Para o Príncipe da Lua e o Grande Comandante Kan. Há algumas outras figuras importantes por perto, mas elas providenciaram tudo por conta própria.

Supunha-se que Chue pertencesse ao clã Ma, mas, para a surpresa de Maomao, ela também realizava provas de comida.

— Fico com o Príncipe da Lua, se me permite — disse Maomao. Nenhum dos dois era, sabe, lá essas coisas, mas ele era o menor dos dois males.

— Certamente. Acho que o Grande Comandante Kan soa muito mais interessante.

Qualquer que fosse o motivo, Chue ia lidar com aquele estrategista excêntrico, e Maomao ficou satisfeita com isso.

— Na maior parte, faremos a degustação da comida praticamente da mesma forma que é feita nas festas no jardim e eventos do gênero; portanto, creio que não preciso explicar como funciona. No entanto, trata-se de uma ocasião diplomática, então ficaremos ocultos atrás dos assentos enquanto trabalhamos.

— Faz sentido.

— Apenas tente sentir como as coisas estão a partir daí.

É uma atitude meio desleixada. Ou, bom, acho que é mais uma falta de direção.

É verdade que seria mais fácil do que ter que fazer tudo à risca.

A princípio, ela parecia mais com En’en, mas começava a dar a impressão de ter mais em comum com Maomao. Na verdade, Maomao provavelmente era mais atenta ao que acontecia ao seu redor.

— Com isso, encerramos a explicação! Tenho certeza de que virão nos chamar quando chegar a hora; então, até lá, todos podem fazer o que quiserem. Estão dispensados!

— Certo.

— Claro!

Com isso, eles voltaram a fazer o que bem entendiam.

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Atenciosamente,

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Fim da leitura

Capítulo 9.17 concluído

Volume 9 – Capítulo 17 – Capítulo 17: Chue