Diários de uma ApotecáriaVolume 9 – Capítulo 18 – Capítulo 18: O Banquete de Anan
Capítulo 9.18Mesmo quando se falava a mesma língua, as diferenças culturais ainda podiam ser enormes. Os banquetes ananeses acabavam sendo muito diferentes dos lineses.
Situada ao sul de Li, Anan era relativamente quente, na verdade, fazia bastante calor. O som de tambores e flautas preenchia o ar; era uma sonoridade mais leve e alegre do que a música de Li. Tapetes estavam estendidos ao ar livre, e as pessoas se sentavam sobre eles, não havia cadeiras; em vez disso, ofereciam-se almofadas brilhantes para se acomodar. A comida, da mesma forma, não era servida à mesa, mas sim sobre um tapete; e, em vez de cada pessoa ser servida individualmente, todos comiam de grandes travessas comunitárias. A bebida alcoólica vinha em jarros de formato singular e destacava-se por sua cor viva.
A comida era preparada por mulheres, todas elas vestidas de forma muito reveladora. Usavam saias que não passavam de panos de cores berrantes enrolados na cintura, enquanto as partes de cima tinham mangas curtas. Os jarros de bebida, de formas sinuosas, pareciam quase desenhados para complementar as curvas dos corpos daquelas mulheres.
Via-se muito cabelo preto por toda parte, mas pouco dele era liso. Os tons de pele variavam do marfim ao cor de mel, e muitas pessoas tinham traços rudes. Maomao recordou-se de que Fuyou, a antiga consorte de nível intermediário, possuía traços faciais muito semelhantes aos de alguém de Li. Talvez ela tivesse sido enviada ao palácio interno exatamente por esse motivo.
Os soldados convocados para o banquete não conseguiam parar de olhar fixamente para as dançarinas e as serventes sedutoras.
— Elas simplesmente andam de um jeito diferente, não é? — disse Chue a Maomao, rebolando de forma demonstrativa. Ninguém a via, as provadoras de comida trabalhavam atrás de uma cortina. — Acho que vou comprar uma daquelas roupas amanhã e provocar uma tentação no meu marido.
— Será que ele gosta desse tipo de coisa? — perguntou Maomao, imaginando Baryou, que parecia uma versão pálida e franzina de Basen. Ela tinha de admitir: não conseguia deixar de imaginar como seria a vida de casados deles.
— De jeito nenhum — disse Chue, direta. Parecia que ela só queria usá-lo.
Eventos como aquele em Anan eram, evidentemente, menos um jantar de grande formalidade e mais um banquete amistoso; ainda assim, as pessoas importantes o suficiente para exigir provadores de comida sentavam-se em um estrado elevado, diante de uma bela mesa baixa e bandejas com pés. A função de Maomao era retirar a comida da bandeja, pedaço por pedaço, e prová-la para garantir que não estivesse envenenada. A cortina parecia destinada a ocultar o fato de que ela estava realizando essa tarefa, mas também escondia, de forma conveniente, que os provadores conversavam entre si.
— Há muitos rostos sem nada de especial na família real daqui — comentou Chue com insolência. — Suponho que seja natural. Todos aqueles casamentos políticos inevitavelmente trariam muito sangue estrangeiro.
Isso respondeu à pergunta de Maomao: Fuyou parecia ter traços característicos do povo de Li, ao que tudo indicava, devido à sua considerável ascendência dessa origem. Uniões desse tipo eram uma forma comum de dois países estreitarem laços, tornando-se, na prática, uma família. Por outro lado, uma nação dominante também poderia recorrer a essa tática para diluir a linhagem de um Estado vassalo.
Tudo parece tranquilo por aqui, mas estou começando a achar que talvez Anan não goste muito de Li.
Ela não conseguia afastar aquele pensamento. Afinal, o povo de Anan sabia que o próprio nome que Li deu ao país tinha a intenção de zombar deles.
Maomao espiou por uma fresta da cortina a pessoa que, de longe, parecia ser o alvo mais provável de tal ressentimento. Jinshi estava sentado, segurando uma taça de bebida e sorrindo. Visto de trás, ela só conseguia enxergar o perfil do rosto dele, mas a cicatriz na bochecha direita parecia mais avermelhada e proeminente do que o habitual, talvez por causa do calor.
Jinshi exibia seu sorriso diplomático. Haviam-lhe servido uma dose generosa de bebida, mas mal se notava sinal de que ele tivesse bebido algo. Maomao conseguia ver, no limite de sua visão, os garçons rondando e atentos a qualquer taça vazia.
Não seria fácil chegar perto dele, né?
Eles lançavam olhares furtivos a Jinshi, mas ele parecia ter um servidor designado, e não era qualquer um que podia se aproximar para lhe levar algo. — Aqui está — disse uma voz calma; era Gaoshun, passando comida pela abertura da cortina. Ela acabaria chegando a Jinshi, mas apenas depois de Maomao a provar.
O prato consistia em costelinhas de porco que brilhavam. Com cuidado, Maomao passou um hashi de prata pela superfície. Ela verificou se o utensílio não ficava turvo e, então, começou a retirar os ossos e a dividir a carne em várias fatias de tamanho aproximadamente igual, dispondo-as em um prato pequeno.
Ela provou a comida. Estava um pouco doce, talvez cozida com frutas. Tinha o sabor fresco e vibrante da tangerina.
Muito bom, pensou ela. Engoliu a amostra e resistiu à vontade de dar outra mordida. Estava trabalhando; não pegaria bem comer mais.
— Muito bom! — declarou Chue, que mastigava com gosto. Ela já havia passado há muito do ponto de provar a comida em busca de veneno.
— Senhorita Chue, e quanto ao seu trabalho? — perguntou Maomao.
— Eu verifiquei, e não há nada de errado com ele! É uma delícia. — Ela levou a mão à bochecha, mas estava claro que, naquele momento, ela estava apenas comendo.
Se ao menos Hongniang, Sazen ou o irmão de Lahan estivessem aqui agora, pensou Maomao, lembrando-se das três pessoas mais afiadas nas respostas que ela conhecia. Era trabalhoso demais inventar respostas sarcásticas para tudo o que Chue fazia, tendo de lidar com isso sozinha. Ela teria apreciado uma ajuda.
Maomao passou o prato que havia provado adiante, indicando que ele recebeu sua aprovação. Foi Gaoshun quem, de fato, pegou o prato e o entregou a Jinshi.
Em contrapartida, foi o assistente do estrategista excêntrico quem teve de pegar o prato de Chue, no qual mal restava comida, e entregá-lo ao seu superior. Tratava-se do mesmo homem que esteve com o estrategista quando este se envenenou com o seu próprio suco.
Por um longo e silencioso momento, o ajudante olhou para o prato. Depois, olhou para Chue de forma suplicante.
— Pode ir em frente — disse ela. — Não tem veneno! — Um pouco de gordura ainda brilhava ao redor de sua boca.
[Kessel: kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk!]
Não restou ao homem outra alternativa senão levar o prato problemático ao estrategista. Quando o prato seguinte chegou, eram mais costelinhas.
— Uma garota gostaria de um pouco de variedade! — disse Chue com um suspiro, enquanto polia um novo par de hashis de prata.
Algo diferente chegou até Maomao; três coisas de uma só vez, na verdade. — Parece muita coisa — disse ela a Gaoshun, que trouxe o prato. Ela não tinha a intenção de deixar o pensamento escapar, mas acabou dizendo mesmo assim.
Gaoshun franziu a testa. — É do convidado de honra ali — disse ele, com um tom que sugeria não estar falando exatamente por vontade própria. Do outro lado da cortina, o estrategista excêntrico acenou.
— Sirva-se, srta. Chue — disse Maomao.
— Ora! Não vou recusar. — Chue atacou a comida, ou melhor, começou a prová-la para ver se havia veneno, sem precisar de um segundo convite.
O estrategista excêntrico talvez ficasse decepcionado, mas o trabalho de Maomao era provar a comida para verificar se havia veneno, e não comer outras coisas até se saciar.
Podia até ser um jantar sofisticado, mas Jinshi estava ali, na verdade, para tratar de diplomacia. Ele exibia seu sorriso mais cativante enquanto conversava e ria. Como ele comeu apenas uma refeição modesta, Maomao não teve muito o que fazer.
Se Jinshi fosse mulher, sua aparência poderia ter levado um país de joelhos, e, quando se tratava de diplomacia, ela era uma arma que ele podia usar a seu favor.
Se não mais nada, ele sabe lidar com as pessoas. Mesmo que o encanto se dissipasse bem rápido assim que você entrava no círculo íntimo dele.
O outro convidado de honra trabalhava bem menos. O estrategista excêntrico beliscava as sobras de Chue, bebendo suco em vez de álcool. Alguém parecia tentar conversar com ele, mas ele não demonstrava interesse; continuava lançando olhares furtivos para trás, na tentativa de avistar Maomao.
— Talvez não me caiba dizer isso, mas você não acha que poderia tentar ser um pouco mais gentil com ele? — perguntou Chue, de boca cheia de frango.
— Você sabe o que vai acontecer se eu der um dedo de liberdade a ele? — Maomao praticamente cuspiu as palavras.
Chue inclinou a cabeça para trás e fechou os olhos, como se tentasse imaginar. — Algo muito interessante, eu suspeito. — Ela parecia gostar da perspectiva… bem, não seria ela a estar no meio daquilo.
Quem dera esse jantar logo chegasse ao fim. Maomao suspirou e pegou a próxima porção de comida.
Apesar de todas as suas dificuldades e percalços, o jantar acabou chegando ao fim.
Tenho quase certeza de que não havia nada de engraçado em nada daquilo, pensou Maomao. Como provadora de alimentos, também fazia parte de seu trabalho monitorar seu estado de saúde após a refeição. Uma toxina de ação lenta poderia levar de várias horas a vários dias para manifestar seus efeitos. Ela ainda tinha espaço no estômago, mas queria esperar um pouco e observar como se sentia antes de comer mais alguma coisa.
— Ufa! Não aguento comer mais nem uma garfada! — disse Chue, esfregando a barriga estufada. Até o último instante, ela havia mais desfrutado do que apenas provado a comida do estrategista.
Agora, tudo o que tinham a fazer era voltar para seus quartos e passar a noite. Tinham permissão para ir às compras no dia seguinte, e Maomao, na verdade, até que estava ansiosa por isso.
Assim, a noite do banquete terminou sem incidentes. Sim, aquela noite foi tranquila...
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