Diários de uma ApotecáriaVolume 9 – Capítulo 19 – Capítulo 19: O Charlatão Desaparece
Capítulo 9.19A luz do sol forçava as pálpebras de Maomao, e ela ouvia o chilrear dos pássaros lá fora.
— Hm... Mmm...
Ela abriu os olhos lentamente e se espreguiçou bastante. A cama era macia e tinha um cheiro delicioso e, como estava em terra firme, nem sequer balançava. Sentia como se tivesse tido seu primeiro sono profundo em muito tempo.
Estou em Anan, não é? Pensou ela, tentando recordar onde estavam através da névoa de um cérebro recém-desperto.
Ao sair da cama, ela encontrou o café da manhã, composto por mingau de arroz e uma variedade de pratos relativamente sofisticados, sobre a mesa. Viu também que Chue já estava comendo.
— Você é pontual — ela observou.
— É. A Srta. Chue acorda cedo, caso contrário, a sogra dela fica uma fera. Vamos, vamos tomar café da manhã! — Ela continuou a enfiar comida na boca. A riqueza dos pratos sugeria que eram sobras do banquete da noite anterior, exceto que Maomao não reconheceu nenhum deles. Pelo visto, convidados eram convidados e não deviam ser servidos com sobras.
— Não preciso de muito — disse Maomao, colocando um pouco de vinagre na papa e começando a comer. À primeira vista, parecia um café da manhã comum ao estilo Li, mas o toque inconfundível de molho de peixe no vinagre a lembrava de que estava em outro país.
Apesar de não conseguir acompanhar as tiradas espirituosas de praxe, Maomao não precisava fazer cerimônia perto de Chue; por isso, não se preocupava em comer de maneira delicada. Quando terminou o café da manhã e estava escovando os dentes, a porta se abriu de repente, com um estrondo.
— O que houve? — ela perguntou.
— Senhorita! — disse Lihaku, o guarda-costas de Maomao. Ele parecia levemente aflito.
— Fui informado, há alguns minutos, de que aquele médico velho e simpático não está no navio.
— O quê?
Por que o médico charlatão teria desaparecido?
Será que alguém sequestrou ele?
O único motivo para terem trazido aquele charlatão era para que ele servisse de sósia de Luomen. Lihaku deveria atuar também como guarda-costas do charlatão, mas, naquele momento, estava com Maomao. No entanto, havia outros soldados a bordo, e sequestrar o charlatão não deveria ter sido uma tarefa fácil.
— Não entendo o que você quer dizer. Quer dizer... Por quê?
Maomao segurou a cabeça entre as mãos; Chue parecia muito intrigada.
— Seu palpite vale tanto quanto o meu — disse Lihaku. — Vou voltar para o navio e ver o que está acontecendo. E a senhorita?
— E quanto a mim? — disse Maomao. Ela não podia simplesmente andar por aí sozinha naquele lugar. Alguém precisaria saber para onde ela estava indo...
— Muito bem, já ouvi a história — disse Chue, de todas as pessoas. — Isso tem cara de mistério! Não se preocupem; eu já tomei a iniciativa e consegui permissão. — Ela piscou para eles, com os dentes brilhando.
— Como você pôde simplesmente fazer isso? Acabamos de ficar sabendo — disse Maomao, escolhendo com pesar a resposta mais comum e menos interessante. Ela sabia que aquele poderia ser um bom momento para uma réplica espirituosa, mas tinha a sensação de que, se começasse a dispará-las, elas nunca mais teriam fim; por isso, deixou a oportunidade passar.
— Simples. Disseram-me que, se você fosse sair, o Sr. Lihaku e eu poderíamos acompanhá-la. E, como imaginei que você teria tempo de sobra hoje, tratei logo de conseguir permissão para você sair. Se você ficasse aqui o dia todo, a Srta. Chue teria de ficar com você; aí perderíamos a chance de ver a Anan, e eu teria de ficar aqui preocupada, sem saber se minha sogra poderia aparecer de surpresa para uma visita.
Em outras palavras, ela estava pronta e ansiosa para desaparecer dali desde sempre.
Olha, se me deixarem ir, acho que vou aproveitar a oportunidade.
O entusiasmo de Chue acabou sendo bastante útil.
— Se não houver problema, acho que vou começar voltando para o navio — disse Maomao, olhando para Lihaku em busca de confirmação.
— Claro. Imaginei que fosse pensar assim, senhorita; foi por isso que lhe contei. Da minha parte, não há problema, mas… — Ele desviou o olhar.
— Mas, o quê?
— É... bem, quando eu estava conversando com o mensageiro, fui visto por... alguém por quem eu preferiria não ter sido visto.
— Alguém por quem você preferia…
Com um pavor crescente, Maomao olhou para a entrada do aposento. Chue caminhou apressadamente até a porta e a abriu.
— Credo! — disse um esquisitão de monóculo que espionava a conversa.
[Kessel: O maioral chegou!]
— Bom dia, senhor — disse a srta. Chue, embora sua saudação fosse apenas por formalidade.
— Bom dia! Maomaoooo! Que dia lindo hoje, hein? — Ela não disse uma palavra; apenas lançou-lhe o olhar mais fulminante possível. — Então! Ouvi dizer que você vai sair! Talvez o papai devesse ir com você!
— Por favor, não. — A expressão de Maomao era gélida, mas isso não conseguiu desanimar o estrategista excêntrico.
— Todas aquelas lojas! Ah, o que vou comprar para você? Algumas roupas? Um enfeite para o cabelo? Ah! Ou talvez você queira um bom remédio! — Ele, como sempre, não a estava ouvindo.
— Srta. Maomao — disse Chue, dando-lhe um cutucão. — Não parece que vamos conseguir impedi-lo de vir conosco. Por que não ceder e deixar a carteira ambulante vir junto?
— Carteira? Acho que teríamos sorte se ele tivesse duas moedas no bolso para juntar.
Maomao tinha a nítida impressão de que, normalmente, era Lahan, ou alguém do tipo, quem cuidava de quaisquer questões financeiras do estrategista.
— Bem, então vou buscar o assistente. Ele deve estar com a carteira. — Dito isso, Lihaku saiu para chamar o homem.
— Mestre Lihaku! Espere! — Maomao o chamou.
— Maomaaaooooo! Ah, espero que eles tenham muitos remédios! Temos que encontrar uma lembrança para o meu estimado tio também. — Os olhos da raposa se curvaram, cheios de empolgação.
— A carteira! Precisamos de dinheiro. Vai levar tempo deixá-lo aqui — disse Chue. — Se o médico-chefe estiver em apuros, não temos um momento a perder. Além disso, quero um grampo de cabelo com coral de Anan.
— Você está sempre pronta para pegar carona na boa, não é, Srta. Chue? — Vale dizer que Chue era uma pessoa muito simpática.
— Tenho que ser! A renda do meu marido não é estável o suficiente para outra coisa. Quando nos casamos e até mesmo quando tivemos um filho, ele ainda estava estudando para os concursos públicos. Depois que passou, achei que nossa vida estava ganha, mas ele não se dava bem com os colegas e acabou se aposentando. Pelo menos os contatos dele finalmente lhe conseguiram um novo emprego. Mas tudo isso significou que a srta. Chue teve que começar a trabalhar quase logo depois que o bebê nasceu.
Chue agitava um cordão de bandeirinhas enquanto falava. Ela certamente não parecia alguém que tivesse passado por tantas dificuldades assim, mas, bem, quem poderia dizer?
— Aliás, desde que meu marido conseguiu o novo emprego, estou sofrendo pressão para ter logo o próximo filho. A lógica é mais ou menos esta: pode ser que meu cunhado acabe assumindo a chefia da família, mas quem garante que ele vai ter filhos? Acho que a matriarca só está implicando com a nora.
— Não posso dizer que não entendo o ponto de vista dela.
Se a herança de Basen estava realmente garantida, era compreensível preocupar-se com herdeiros, dada a sua postura nitidamente tímida em relação às mulheres.
Até mesmo a situação com a ex-consorte Lishu poderia chegar ao fim se ele não tivesse cuidado com a forma de agir. Maomao pensou na princesa desafortunada que havia ido para um convento no ano anterior.
O que Basen estava fazendo naquela rota terrestre separada?
[Kessel: Senhorita Natsu… a senhorita não me engana. Eu peguei essa pista, em!]
A conversa entre Maomao e Chue terminou quando Lihaku retornou. — Certo! Consegui pegá-lo! — gritou ele. Ele trazia consigo a carteira, erm, o ajudante do estrategista excêntrico.
Ao retornarem ao navio, encontraram-no estranhamente silencioso. Talvez todos tivessem saído. Os marinheiros certificaram-se de que tudo estivesse em perfeita ordem, enquanto as faxineiras, um grupo de mulheres de meia-idade vestidas com roupas masculinas, recolhiam o lixo das cabines, varriam o convés e poliam com afinco todas as superfícies da embarcação. Elas também preparavam as refeições dos viajantes, e a maioria parecia ser parente dos marinheiros.
— Maomao! Não vamos perder muito tempo fazendo o que quer que tenhamos de fazer aqui, devíamos ir às compras!
Um velho insuportável tagarelava sobre alguma coisa, mas Maomao o ignorou. O punhado de soldados que restava a bordo afastou-se às pressas assim que viu o estrategista, ansiosos para não acabar envolvidos no que quer que ele estivesse fazendo.
— Aqui — disse um dos soldados designados para vigiar o charlatão, o homem que havia informado Lihaku sobre o seu desaparecimento.
— O que diabos você estava fazendo? — perguntou Lihaku, que parecia conhecer o homem, dando-lhe um tapa nas costas.
— E-eu... sinto muito. Nós só tiramos os olhos dele por um momento, durante a troca de turno, e ele desapareceu. Depois, tentamos entrar no consultório médico…
Maomao tentou abrir a porta do escritório, mas ela não abriu. — Está trancada — observou ela.
Com todos os medicamentos lá dentro, a porta precisava ficar trancada para impedir que qualquer pessoa entrasse livremente e se servisse dos suprimentos. A sala ficava sempre trancada quando não havia ninguém por perto.
— Tentei espiar lá dentro, mas não vi ninguém; então, como o médico não dava sinal de que voltaria, achei que devia avisar o senhor. — O soldado baixou a cabeça.
— Certo, entendi. Você disse que estava fazendo a troca de turno. Vá buscar o sujeito que estava de guarda antes de você.
— Sim, senhor! — O soldado saiu às pressas.
— Um quarto trancado! Isso tem cara de mistério — anunciou Chue, radiante.
— Para onde foi o velhote? — ponderou Lihaku.
— Se tivermos sorte, ele só pegou no sono em algum lugar — disse Maomao. Ela tinha uma chave reserva, então abriu a porta; mas o médico charlatão não estava no quarto. — Nada muito incomum aqui — disse ela. Se havia algo fora do comum, era o fato de que as roupas de dormir do charlatão estavam jogadas sobre a cama, formando um monte.
— Não é um sujeito muito organizado, pelo que vejo — disse Lihaku.
— Eu não sei. Não é o que ele normalmente faz com seus pijamas.
Ele podia até deixá-las de lado por um momento, mas certamente as dobraria mais tarde. Podia ser incompetente, mas não era incivilizado.
Pelo canto do olho, Maomao viu o estrategista excêntrico estender a mão para o armário de remédios e deu um tapa para afastá-la. Ela juraria que ele parecia feliz com aquilo, mas a sensação lhe causou mal-estar, então ela ignorou. O assistente inclinou a cabeça repetidamente em direção a ela, pedindo desculpas.
— Se eu fosse o charlatão e estivesse com pressa… — Maomao murmurou. Ela tentou imaginar o que ele faria depois de se levantar de manhã e trocar de roupa. Eles haviam passado os últimos dias vivendo com apenas uma cortina separando-os, então ela tinha uma boa noção de como ele funcionava. — Ele provavelmente foi ao banheiro — disse ela.
O banheiro ficava na proa do navio. A ausência de certos atributos físicos, típica de um eunuco, tornava a necessidade de urinar mais frequente. É possível que o charlatão tivesse acordado com uma urgência enorme de ir ao banheiro e, por isso, livrou-se da roupa de dormir às pressas. Na noite anterior, havia comida de primeira qualidade tanto a bordo quanto em terra firme, e havia grandes chances de que álcool tivesse sido servido. Era impressionante que o charlatão tivesse sequer se lembrado de trancar a porta, em meio à névoa da ressaca.
— Acho que devíamos tentar o banheiro — disse Maomao. Elas fizeram o caminho mais rápido do escritório até lá, passando por uma das faxineiras no trajeto. Ela trabalhava concentrada perto do fogão, tentando remover uma mancha difícil, talvez óleo que tivesse espirrado de alguma panela.
Por fim, chegaram ao banheiro na proa do navio, mas não havia nenhum charlatão ali.
— Temos certeza de que ele não caiu lá dentro, né? — disse Lihaku, falando mais por brincadeira, mas era verdade que a privada era um buraco que simplesmente deixava os dejetos caírem direto no mar.
— Não, ele não conseguiu. Com aquela cintura, ele simplesmente ficaria preso — disse Chue.
Maomao não disse nada, mas cruzou os braços e inclinou a cabeça. Pelo canto do olho, ela via o velho rabugento beliscando frutas secas, mas decidiu ignorá-lo. O ajudante dele lhe oferecia chá em um tubo de bambu.
— O que houve, srta. Maomao?
— Eu estava justamente pensando... O médico-chefe pode acabar travado, mas e quanto a outra coisa? Algo que não travasse?
— Como por exemplo…?
Maomao tirou a chave do consultório médico de entre as dobras de suas vestes. — E se ele estivesse com sono e com pressa, e a tivesse deixado cair? Parece uma possibilidade, não é?
— Ih, caramba! — foi a reação de Chue.
— Sabe, com aquele sujeito, eu consigo imaginar perfeitamente — disse Lihaku. Nenhum dos dois contradisse Maomao.
Sem a chave, o charlatão não conseguiria voltar ao consultório.
— Com licença — disse Maomao a um dos marinheiros.
— Sim? O quê foi?
— Por acaso você não viu o médico-chefe perto do banheiro hoje de manhã, viu? Talvez meio agitado?
O marinheiro olhou para ela, confuso, e então chamou alguns de seus companheiros. Um deles bateu palmas. — Não sei se era o seu médico ou não, mas vi um homenzinho gordo com muita pressa. Ele estava atrapalhando a limpeza do convés, então mandei que fosse para outro lugar.
— Você sabe para onde ele foi?
— Hum... Bem, ele ia atrapalhar a limpeza no convés inferior, então eu disse que ele podia ficar no convés, mas só depois que eu terminasse de passar o esfregão. — O marinheiro apontou para o cais. Lá havia um baú de madeira e, sobre ele, Maomao conseguia imaginar facilmente um médico charlatão, sentado e com um ar bastante abatido.
— Mesmo que ele tivesse pensado em tentar falar com a senhorita para pedir a chave emprestada, a maioria dos soldados estava fora — disse Lihaku. Aquele charlatão tímido teria tido dificuldade em abordar um dos marinheiros, visivelmente ocupados, para pedir um favor, e sua hesitação só teria sido agravada pela culpa de ter perdido a chave, para começar.
Maomao sentou-se no baú onde imaginava que o médico charlatão havia se sentado. Marinheiros e pessoal da limpeza circulavam agitados pelo cais. Enquanto Maomao permanecia ali, apenas observando em volta, vários deles lhe lançaram olhares de reprovação: ela estava, sem dúvida, atrapalhando a passagem.
Consigo entender por que todos os soldados foram embora.
Seria extremamente constrangedor estar no navio naquele momento. Sem dúvida, os homens que faziam a guarda nos corredores haviam sido alvo de muitos olhares de reprovação por parte da equipe de limpeza, que os via como meros obstáculos. Não é de admirar que o guarda não tenha esperado a chegada de seu substituto antes de abandonar o posto.
— Para onde ele poderia ter ido? — murmurou Maomao.
Enquanto ela estava sentada ali, olhando para o vazio, uma das funcionárias da limpeza, uma mulher rechonchuda de meia-idade, aproximou-se apressadamente dela e de seus acompanhantes e perguntou: — Vocês não seriam, por acaso, o reforço na equipe, seriam?
— Não. Temos cara de quem seria?
Se fossem apenas Maomao e Chue, até que faria sentido, mas Lihaku estava bem ali. Sem falar no velho rabugento e seu ajudante, o primeiro começou a subir no mastro, o segundo foi atrás tentando impedi-lo, e ambos acabaram sendo puxados para baixo pelos marinheiros assim que foram avistados.
— Não posso afirmar. Eu só estava esperando contar com mais algumas mãos para ajudar. A senhora que enviamos para fazer as compras não voltou até agora, e estou no meu limite. Se você não estiver ocupada, talvez pudesse anotar um recado para mim? — A senhora que enviaram para fazer as compras?
Maomao imaginou como o curandeiro devia estar pouco antes: já havia tirado a roupa de dormir, mas ainda não vestiu o uniforme de médico. Um eunuco de rosto barbeado. Eunucos frequentemente tinham uma aparência algo andrógina, de modo que alguém poderia facilmente confundi-lo com uma mulher de meia-idade. O fato de os funcionários da limpeza usarem roupas masculinas para facilitar a movimentação não ajudava a desfazer a confusão.
— Com licença, mas poderia descrever a pessoa que você enviou para fazer as compras? — disse Maomao.
— Pois é, ela era uma ajudante enviada de um dos outros navios. Disseram que não podiam dispensar ninguém muito jovem, mas, mesmo assim... que figura eles mandaram! Ficava ali parada, sem a menor ideia do que devia fazer. Então dei uma tarefa a ela, e agora estamos aqui. Já se passaram mais de duas horas e ela ainda não voltou! — A mulher abriu as mãos, demonstrando frustração.
— Oláááá! — gritou uma mulher do píer. — A ajuda chegou! O que vocês precisam que a gente faça?
Maomao, seus companheiros e o faxineiro olharam para a mulher que descia pelo píer em direção a eles.
— Parece que a sua ajudante chegou — disse Maomao.
— É, pois é... Mas então... quem foi que eu mandei fazer compras?
O charlatão passava a maior parte do tempo trancado no consultório, por isso a mulher não o havia reconhecido.
Maomao e os outros balançaram a cabeça uns para os outros. — O que você pediu para ‘ela’ comprar?
— Bem, sabão. É fácil conseguir sabão em barra barato no porto de Anan. Sabão líquido barato tem sempre cheiro forte. Ninguém gosta disso num navio. — O sabão em barra não era muito usado em Li.
— Você sabe onde vendem isso?
— Provavelmente em uma das barracas pela cidade. Você poderia ter a gentileza de ir buscar um pouco?
— Tudo bem — disse Maomao. Ela e os outros agora sabiam para onde tinham de ir em seguida.
— Ah, que roupas bonitas! Talvez eu devesse comprá-las.
— Ah, nada mal, nada mal. Esse grampo de cabelo ficaria lindo em você, Maomao!
— Como é o suco daquela loja? A cor é meio estranha, mas acho que parece bebível.
O estrategista excêntrico vinha agindo assim desde que haviam chegado ao mercado. Aliás, suas escolhas de grampos de cabelo e vestimentas estavam pelo menos mil anos à frente de seu tempo, e aquele suco parecia capaz de causar um estrago no estômago. Maomao impediu repetidamente seu assistente de tirar a carteira.
— Nossa. Ele não desacelera, não é, srta. Maomao? — Chue, que parecia totalmente imperturbável com as excentricidades do estrategista, segurava vários espetos de carne de ave grelhada. Não era frango, a carne era mais magra e cheia de ossos. Provavelmente um pardal ou alguma outra ave considerada praga nas plantações.
Pensei que tivessem dado ordens para não capturar pardais por enquanto, pensou Maomao. Era uma das tentativas de Jinshi de prevenir a nuvem de gafanhotos. Talvez Anan não estivesse sujeita àquela ordem, mesmo sendo um Estado vassalo.
— Você tem certeza de que isso não é canibalismo? — perguntou Maomao.
[Kessel: hehehe. Lembrando, Chue significa pardal em chinês!]
— É gostoso, e é isso que importa! Toma, experimenta um pedacinho.
— Obrigada.
Chue ofereceu um dos espetinhos a Maomao, e ela o aceitou de bom grado. A carne estava dura, mas algumas pessoas gostavam dela assim.
— Excelente. Agora, meu bom ajudante, vou precisar de outro espeto. — Chue estendeu a mão e o ajudante, com ar de derrota, depositou algumas moedas nela. Parecia a coisa mais natural do mundo.
Ela nem sequer está pagando por isso!
Chue era, sem dúvida, esperta demais para o seu próprio bem, ou, pelo menos, para o bem de todos os outros. Aquele estrategista excêntrico estava mastigando frutas que havia espetado em um hashi.
Maomao, dando uma mordida no próprio espeto, olhou em volta à procura de algum lugar que vendesse sabão.
— Sabão em barra não é barato. Será que deveriam mesmo usá-lo para limpar os fornos? — perguntou Lihaku. Ele tinha razão, até mesmo Maomao e as outras não dispunham de nada melhor do que cinzas, ou talvez sabão líquido, na hora de se lavar. O sabão em barra não era muito comum em Li e não era amplamente comercializado.
— Acho que em Anan não é assim. — Maomao deu tapinhas em uma árvore próxima. Ela se parecia com uma palmeira-leque, mas não tinha aquele tronco de aspecto felpudo. Bagas grandes cresciam bem no alto. — Esta é uma palmeira — disse ela. Ela só as tinha visto em ilustrações de livros, mas aquela espécie também era conhecida como palmeira-de-bétel. As nozes podiam ser mastigadas como tabaco ou moídas até virarem pó para limpar os dentes e também para eliminar vermes do organismo.
A planta que eles estavam observando naquele momento, no entanto, era um pouco diferente.
— Alguns tipos de palmeira são aproveitados por seus frutos ou bagas, enquanto outros são utilizados para a extração de óleo. Algumas palmeiras produzem uma baga muito semelhante a uma tâmara vermelha. A palmeira de óleo é usada para produzir óleo, como o próprio nome sugere, e, ao misturar esse óleo com cinzas de algas marinhas, é possível fabricar sabão.
Ela não sabia, no entanto, como aquilo era endurecido até ganhar forma, se reduzindo-o, secando-o ou, talvez, misturando outro ingrediente.
Maomao observou as barracas. Bem perto das palmeiras, havia uma que vendia aquelas bagas, frutas grandes nas quais o vendedor fazia um furo e inseria um canudo.
[Kessel: Ih, olha só. Eles estão tomando água de coco!]
— Um, por favor... hã, para cada um de nós — disse o assistente atencioso, comprando a fruta em quantidade suficiente para todos. Maomao decidiu aceitar a gentileza, já que estavam ali. O que vinha pelo canudo era, ao mesmo tempo, um tanto doce e um tanto salgado.
— Quem dera fosse um pouco mais doce. Açúcar! Você não tem açúcar? — O velho ranzinza, com sua vontade insaciável de doces, ficou decepcionado.
— Eu mesmo gosto de coisas salgadas — disse Lihaku. Diante disso, o ajudante lhe ofereceu uma folha com um monte de algo branco.
— O dono da loja diz que é por conta da casa. Carne de palmeira, ele afirma.
Era algo pálido e translúcido, banhado em molho de peixe. Tanto Maomao quanto Lihaku pegaram um pedaço e o provaram.
— Lembra um pouco lula crua — comentou Maomao. Ela não conseguia fingir que não gostava daquela textura “ao dente”, seria um bom acompanhamento para um vinho.
— Hmm. Não faz muito o meu estilo. É meio... borrachudo. — Lihaku não ficou tão encantado. Bom, fazer o quê? Isso significava que sobrava mais para Maomao e Chue.
— Com licença. O senhor sabe onde podemos encontrar um vendedor de sabão? — Maomao perguntou ao vendedor de folhas de palmeira.
— Vendedor de sabão? Fica um pouco mais adiante. Ele costuma montar a banca bem ao lado das barracas de frituras. Tem uma praça logo à frente; é comum encontrá-lo por lá — veio a resposta, carregada de um sotaque ananês inconfundível. Pelo visto, o comerciante estava disposto a ser prestativo com clientes que haviam gastado algum dinheiro. Ele acrescentou: — Vocês são Lineses, não é? Aquele amigo robusto de vocês deve garantir a segurança de vocês, imagino... mas tomem cuidado.
— Cuidado com o quê? — perguntou Lihaku, estreitando os olhos.
— Tem um monte de gente de Li por aí hoje em dia. Parece que você não é como a maioria deles, mas tem muita gente que gosta de zombar da gente. Ontem à noite, até rolou uma briga no bar. Os impostos subiram, sabe, e dizem que a nossa princesa foi expulsa do palácio interno porque não gostavam muito dela. Só tente não dar motivo para ninguém, é só isso que estou dizendo.
Impostos haviam sido aumentados como medida de proteção contra os gafanhotos. Enquanto isso, a princesa que fora "expulsa" do palácio interno devia ser Fuyou, que partiu após causar um susto relacionado a um fantasma.
Eles não estavam exatamente errados. Maomao queria contestar, mas era verdade: alguns dos visitantes de Li tinham uma postura ruim. Havia muita frustração acumulada devido à viagem de navio, à qual não estavam acostumados, sem falar que alguns estavam convencidos de que sofreram uma punição na forma de rebaixamento de cargo.
— Hum — disse Lihaku, e Maomao viu uma expressão diferente surgir em seu olhar. — É melhor encontrarmos aquele velho médico depressa, então. — Aquele charlatão avoado seria um alvo fácil estando sozinho.
Maomao e os outros terminaram suas bebidas e descartaram as cascas, depois seguiram mais para dentro do mercado, conforme o comerciante havia sugerido.
— Nossa, tem um cheiro muito doce — disse Lihaku.
— E bem oleoso — disse Maomao.
O ar parecia pesado. A praça em si era pavimentada com lajes de pedra, e algo que lembrava um mausoléu erguia-se no centro. Árvores margeavam a área. Algumas delas eram até mesmo frutíferas, exibindo pequenas mangas. Podia haver até algumas lichias entre a vegetação, mas provavelmente não era a época certa para elas.
As lojas pareciam planejadas para atrair o interesse de quem passava. Maomao sentiu como se fosse ser dominada pelo aroma adocicado, mas havia também locais que vendiam incenso, velas e cartões. Entre os petiscos disponíveis, havia bolinhos de gergelim e pão frito, entre outras coisas. O estrategista excêntrico comprou alguns imediatamente e, com a mesma rapidez, Chue começou a aproveitar a generosidade dele. O assistente estava muito ocupado.
— Onde está o sabão? — murmurou Maomao. Ela olhou em volta até avistar, numa banca, algo que parecia uma pilha de tijolos brancos. Aproximou-se a passos rápidos, mas foi recebida com uma cara feia do vendedor.
— Você é Linese? — perguntou ele com rispidez, enquanto eles se aproximavam. Seu sotaque era menos perceptível que o do vendedor de palmas.
— Quem se importa com o que eu sou? Sou um cliente. Quero comprar sabão. Quanto custa? — disse Lihaku.
— Não importa, porque não tenho nenhum para lhe vender. Tente em outro lugar. — O lojista virou as costas de forma ostensiva.
— Bem, isso é um problema. Quer me dizer por que não vai vender para mim? — Era fácil presumir que Lihaku tinha, literalmente, músculos no lugar do cérebro, mas ele estava fazendo uma escolha sensata ali. Maomao, percebendo que não poderia ajudar, deu um passo atrás e observou.
Eles podiam ver as engrenagens girando na cabeça do comerciante. Lihaku apenas permanecia ali, com um sorriso tranquilo no rosto.
— Se você quer comprar sabão, vá direto onde ele é fabricado. Precisamos de sabão para o nosso dia a dia por aqui. O que devemos fazer quando você compra todo o nosso estoque só pela novidade? O preço da matéria-prima subiu recentemente. Quando eu esgotar este lote, terei que aumentar os preços.
No fim das contas, até mesmo um comerciante rabugento tinha uma história. Ele deveria ter dito isso logo de cara. Por que pessoas amargas sempre demoravam tanto para chegar ao ponto? Ele ganharia o mesmo dinheiro independentemente de para quem vendesse, mas tentava manter o preço baixo para os moradores locais. Havia algumas áreas residenciais nas redondezas: era o lugar perfeito para eles virem comprar sabão.
— Os materiais estão mais caros? — perguntou Lihaku. — Você quer dizer porque os lineses estão comprando tudo?
— Não, porque os materiais que tínhamos se consumiram no fogo. Houve um incêndio. — Um ingrediente importante do sabão era o óleo, praticamente feito para queimar.
— Entendo... Bem, obrigado. O lugar onde fabricam o sabão fica mais adiante? — perguntou Lihaku com seu sorriso mais amigável. O comerciante fez questão de demonstrar contrariedade, mas, ainda assim, indicou o caminho.
— Siga em frente naquela direção e procure pelos sinais da fogueira. Há uma pequena cabana ali onde eles estão produzindo mais sabão. Vai haver vários artesãos por perto; tenho certeza de que você pode perguntar a um deles. Mas já aviso: eles não são tão simpáticos quanto eu.
— Tudo bem, então, agradecemos. E, já que você é tão gentil, talvez pudesse me dizer mais uma coisa. Por acaso, um sujeito mais velho, um linese, como nós, passou por aqui mais cedo hoje tentando comprar sabão?
— Um cara mais velho? Espera... Você está falando daquela senhora? Gordinha, com as sobrancelhas meio caídas?
— É, é ele mesmo! Mas ele não é nenhuma velhinha. Para onde ele foi?
— Ele fez as mesmas perguntas que vocês, e eu dei a mesma resposta. Ele seguiu em direção à oficina dos fabricantes de sabão. Deve fazer mais ou menos meia hora.
— Ótimo! Você foi de grande ajuda. Agradecemos muito. — Lihaku apertou a mão do homem, e Maomao fez uma reverência. Naquele momento, o estrategista já havia comprado todos os petiscos da barraca, e Chue estava ocupada aproveitando a generosidade dele. Pelo menos ele ficava relativamente calmo enquanto comia.
Maomao não pôde deixar de ficar impressionada com a capacidade de adaptação de Chue. No entanto, ela sentia pena da assistente, que precisava estar em cerca de três lugares ao mesmo tempo.
— Maomaaaoooo! Olha! Pão frito! — O estrategista excêntrico estendeu o pão na direção dela, tentando enfiá-lo direto na boca dela, mas ela se esquivou. Chue se moveu para interceptar e acabou recebendo a bocada em cheio.
— Delicioso! — disse ela, limpando os lábios como se aquilo não tivesse nada de mais. Que tipo de estômago ela tinha?
Depois de caminhar um pouco na direção indicada pelo vendedor de sabão, o grupo viu-se entre um agrupamento de casas. Palmeiras-leque cresciam aqui e ali, em vez de outras plantas de jardim.
— Será que estas árvores produzem algum tipo de fruta? — perguntou Chue, observando-as atentamente.
— Sim, e pode ser usado na medicina, mas ninguém parece achar que o gosto é muito bom — disse Maomao.
— Por que elas estão aqui, então?
— Acho que talvez seja porque também podem ser usadas para fazer vassouras, cordas, esse tipo de coisa. As folhas também têm propriedades medicinais.
As palmeiras eram bastante versáteis, na verdade, mas Chue parecia não se interessar por nada que não fosse comestível.
— Por favor, pare, Mestre Lakan! — disse o assistente, que parecia estar no limite de suas forças. Se era com isso que ele tinha de lidar todos os dias, Maomao torcia para que ele tivesse algum remédio para o estômago à mão.
— Será que é ali? — perguntou Chue ao avistar um prédio parcialmente queimado. Havia uma espécie de aglomeração perto dele. Maomao apressou-se em ir até lá, com o pressentimento ruim cada vez mais forte. Ao chegar, avistou umas costas muito familiares.
— Eu juro, não fui eu! — implorou o dono daquelas costas. Era o charlatão, praticamente às lágrimas. Ele estava cercado por vários homens; um deles o segurava pela gola.
— Médico-chefe! — exclamou Maomao, correndo em sua direção. O charlatão, com o nariz escorrendo e tudo mais, agarrou-se a ela. Ela tentou se desvencilhar dele, afinal, ele não facilitaria em nada a conversa com quem quer que fosse, mas foi então que o estrategista excêntrico interveio.
— O que você está fazendo com a minha garotinha?! — exigiu o velho ranzinza, que ainda estava com açúcar em volta da boca.
— Ora! Este homem é seu pai, mocinha? — perguntou o charlatão. O fato de que, apesar do medo evidente, ele ainda soava de certa forma despreocupado era, bem, a cara dele.
— Ele é um completo estranho — respondeu Maomao prontamente.
— Quem é essa pessoa? Diga-me o nome dele! — exigiu Lakan.
— Eu poderia, mas o senhor jamais se lembraria disso, Mestre Lakan — disse seu assistente. O assistente, no entanto, imitou Lakan ao encarar o charlatão. — Você é o médico-chefe, não é?
— Eh, hã, sim, é... é isso mesmo — disse o charlatão. Ele limpou o grosso da meleca com um lenço, mas ainda parecia bastante patético.
— Ei, vocês aí! Conhecem esse cara? — disse um dos homens. Ele tinha um sotaque carregado, roupas imundas e a pele comparativamente escura. Era jovem e, visivelmente, o sangue lhe subiu à cabeça. Aos seus pés, havia um jarro cheio de óleo turvo.
O charlatão tentou se esconder atrás de Maomao, então ela acabou ficando na linha de frente por força das circunstâncias, até que o estrategista excêntrico se colocou à frente dela, em um gesto de proteção.
Pare com isso. Você não vai ajudar ninguém aqui.
Mal lhe ocorreu o pensamento quando Lihaku se colocou à frente do estrategista, com aquele sorriso bajulador novamente no rosto. — Isso mesmo, este velho está conosco. Algum problema? — Ele era o guarda-costas deles e estava cumprindo seu papel. Podia até ser um vira-lata grandalhão, mas servia muito bem como cão de guarda. Os homens de Anan começaram a cochichar entre si.
— O-O quê? Você não está vendo? Olhe só! — O homem de pele escura apontou para a parede. Os tijolos chamuscados estavam encharcados de água e, no chão, havia um baú de madeira que parecia ser a origem do incêndio. — O fogo veio dali, e o velhote estava bem ao lado. Ou seja, foi ele quem começou o incêndio! Deve ter sido ele quem começou aquele outro, outro dia também!
— N-Não! Eu não fiz isso! Eu só queria comprar sabão! — gemeu o charlatão.
— Eu o vi rondando por aqui! Sei que a culpa de tudo isso é sua!
— Certo, apenas se acalme. Entendo o que você está dizendo, mas quero que conheça também o nosso lado da história — disse Lihaku. Ele jamais elevou a voz, mas lançou ao homem um olhar semelhante ao de um cachorro grande colocando um filhote em seu devido lugar. Cinco homens cercavam o charlatão, todos vigorosos e musculosos, mas não tão robustos quanto Lihaku. O homem irritado pensou em retrucar, mas calou-se diante do olhar de Lihaku.
Maomao observava o homem de trás de seu guarda-costas. Dadas as roupas sujas, o pote de óleo e o fato de estarem parados diante de uma loja de sabão, ela suspeitou que fossem fabricantes de sabão. Ela conseguia ver a mancha de umidade na parede enegrecida e sentir o cheiro de queimado no ar. Parecia provável que, após o primeiro incêndio ter sido apagado, outro, menor, tivesse começado.
— Antes de mais nada. Não sei nada sobre esse incêndio aí, mas esse sujeito só chegou a Anan ontem à noite. Até então, ele vinha navegando pelo mar. Isso eu posso afirmar com certeza. Entendeu? — Aquilo deu o que falar.
— É, tudo bem. Mas aquela caixa foi incendiada, e ele era o único cara por perto. Qual é a sua desculpa para isso, hein?
— Incendiada? — Lihaku olhou para o charlatão em busca de confirmação.
— N-Não! Nãooo! Pegou fogo sozinho, eu juro! Eu não fiz nada!
— Mentiroso! Como é que acendeu sozinho, então?
— É! — disse um dos outros homens.
— Não poderia ter simplesmente pegado fogo sozinho! — acrescentou um terceiro.
— Tudo bem, tudo bem, estou ouvindo. Mantenham a calma — disse Lihaku.
Maomao afastou o charlatão e examinou a caixa enegrecida. Parecia haver fibras de algum tipo em seu interior, juntamente com grãos de alguma coisa, embora ambos estivessem completamente carbonizados.
— Maomao! Isso é nojento. Por que não compramos algo gostoso na barraca de lanches e voltamos? — O estrategista excêntrico era o único que não fazia ideia do que estava fazendo ali.
— Imagine o que vai acontecer com a nossa dieta se a gente só comer doces. Acho que um espetinho salgado na volta cairia muito bem. Frango seria uma boa pedida, mas camarão também ficaria ótimo.
O estrategista não era a única figura excêntrica presente, havia outra que só pensava em comer.
— V-Você também, srta. Chue?! — lamentou o charlatão.
— Bem, não podemos sair de mãos vazias. Vamos comprar um pouco de sabão e voltar depressa — disse Maomao.
— Ei! São vocês que não estão ouvindo! — disse o fabricante de sabão, indignado.
— Estamos ouvindo. Em suma, se conseguirmos provar que este homem não foi quem começou o incêndio, você o deixará ir, certo? — disse Maomao, olhando para o homem que ainda segurava o charlatão pela gola.
— É, claro. Mas é bom você ser bem convincente.
— Muito bem. Se eu não conseguir responder a contento, você receberá uma compensação generosa. Basta cobrá-la daquele velho ranzinza ali.
— S-Senhorita Maomao! — O assistente do estrategista (ou seja, daquele velho ranzinza) parecia que ia chorar.
Os artesãos começaram a murmurar entre si novamente. A breve reunião logo terminou.
— Tudo bem. Prepare-se para pagar.
— Claro. Mas, se ele for inocente, você nos venderá sabão pelo preço de mercado.
— Combinado.
— Muito bem. — Maomao olhou para a caixa queimada. — Você estava usando isso para o lixo? — Ela virou a caixa. As fibras encharcadas eram de casca de palmeira-leque. Algumas coisas pequenas e redondas também rolaram para fora.
— Sim.
— A casca da palmeira-leque faz parte do processo de produção de sabão?
— Não. Nós fazemos escovas de limpeza com as palmeiras. Sabão não é a única coisa que produzimos aqui.
Sabão e escovas de limpeza. Dois produtos que muito bem podem ser usados em conjunto, o que torna bastante razoável fabricá-los no mesmo local.
— Então, essas coisas pretas... são sobras fritas?
— Isso.
Sobras fritas; isto é, literalmente, as sobras de algo que foi frito. A fabricação de sabão exigia uma grande quantidade de óleo e, por mais abundantes que fossem os recursos, seria preciso encontrar uma maneira de manter os custos baixos para vendê-lo a um preço que as pessoas aceitassem pagar por um item de consumo diário. O que fazer?
— Você estava usando óleo usado no sabão?
Havia muitos estabelecimentos na cidade que vendiam frituras. Muitos lugares para comprar suprimentos.
— Não exclusivamente. O que isso teria a ver com alguma coisa, afinal?
— Entendo. E você estava jogando fora as sobras de massa aqui?
— Isso.
Maomao observou atentamente os homens e, em seguida, olhou para o sol para verificar sua posição. Ainda não era meio-dia.
Não é muito legal da minha parte, mas talvez eu possa dar uma esticada na verdade aqui.
— Esses pedacinhos fritos, você os separa do óleo?
— Veja você mesmo. Bem ali. — O artesão apontou para uma panela transbordando de óleo. Ao lado, havia uma peneira de arame coberta por um pano.
— E você faz isso enquanto o óleo ainda está quente?
Era mais difícil coar o óleo frio. O coador provavelmente era feito de fios de metal para permitir que o óleo quente passasse por ele. Imagino que o tecido seja de algodão.
— Exatamente. Nós passamos recolhendo o óleo enquanto ele ainda está quente. Hoje em dia, é quase uma corrida: outros fabricantes de sabão também estão vindo para cá para buscá-lo.
Maomao assentiu e olhou para dentro da peneira. Não havia muitos resíduos nela.
— Então você joga fora as sobras? — ela perguntou.
— Às vezes nós os comemos, mas é coisa demais para comermos tudo.
— O suficiente para encher esta peneira?
— Às vezes. Mas nós os esvaziamos antes que fiquem cheios.
Maomao ergueu uma sobrancelha e olhou para a lixeira queimada. — Parece-me que a sua lixeira fica bem longe. Você não a mudou de lugar, mudou?
O homem fez uma pausa. — É, temos outro recipiente aqui. O que tem ele? — Ele foi até um recipiente grande perto do coador e olhou para dentro. — Ei, quem esvaziou isto?
Maomao olhou de volta para os trabalhadores, que haviam começado a resmungar novamente.
— Você acha que pode me ajudar, mocinha?! — implorou o charlatão, olhando para ela com um ar de cachorro sem dono. Maomao preparou-se, receosa de que o estrategista excêntrico fosse intervir novamente, mas ele não fez nada. Surpresa, ela olhou para o lado e viu que ele observava os fabricantes de sabão. De vez em quando, ele se aproximava sorrateiramente, observando-os com atenção, apenas para ser inevitavelmente repelido com um olhar de desprezo. Seu assistente corria de um lado para o outro pedindo desculpas. Não devia ser nada fácil estar na pele dele.
Por que ele está olhando tão de perto? Ele não consegue distinguir um rosto do outro. O estrategista não prestava atenção aos rostos das pessoas, o que explicava, em parte, por que ele tratava todos com tamanha indiferença, exceto sua própria família. Maomao se perguntava por que ele encarava aquelas pessoas, mas não tinha coragem de perguntar. A questão é: o que eu faço?
Ela tinha a maior parte do que precisava para provar a inocência do charlatão, mas sua explicação seria reforçada se preparasse uma coisa com antecedência.
— Senhorita Chue! Senhorita Chue!
— Senhorita Maomao! Senhorita Maomao! Do que você precisa?
[Kessel: kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk!]
Maomao sussurrou para Chue. Os olhos pequenos de Chue se arregalaram; então ela disse: — Entendido! — e saiu correndo. Levaria algum tempo até que ela voltasse. Maomao teria de observar o humor dos homens e avaliar o momento certo.
— Com licença. Acho que posso explicar como o incêndio começou. Poderiam vir até aqui? — disse ela aos artesãos que conversavam.
— É mesmo? Mal posso esperar para ouvir.
— Espero que você tenha uma boa história.
— Acredito que sim. O incêndio não foi provocado; começou naturalmente. Portanto, este homem é inocente. — Maomao deu um tapinha no ombro do charlatão.
— S-Senhorita! — o charlatão olhou para ela, tremendo violentamente.
— Há algum problema, médico-chefe? — ela perguntou.
— Eles nunca vão simplesmente acreditar na sua palavra! Veja só como estão nos encarando com fúria! — De fato, os homens lançavam olhares ameaçadores aos visitantes.
— Sim, obrigada. Eu entendo. Imagino que vocês não aceitariam minha palavra de que o incêndio começou de forma natural?
— É claro que não. Como esse incêndio começou? E não venha com papo furado só porque não quer pagar!
— Não é nada disso, garanto a você. Todos aqueles pedaços fritos descartados... eles são a origem do seu incêndio. — Maomao retirou alguns dos restos do escorredor. — Você tem muitos pedacinhos fritos acumulados num só lugar. Eles retêm calor e podem acabar pegando fogo. O mesmo acontece, por exemplo, com panos encharcados de óleo que estejam junto com eles.
— Pegar fogo? Sozinhos? Nunca ouvi nada tão estúpido.
— Pode acontecer. Veja.
Chue voltou trotando, trazendo nos braços uma panela grande quase transbordando de sobras fritas. — Senhorita Maomao, consegui!
— Muito obrigada, srta. Chue.
Maomao havia enviado Chue para buscar sobras fritas o mais rápido que pôde.
— Você acha que dá para pedir reembolso disso? Eles não tinham o suficiente de pronta-entrega, então tive que implorar para fazerem mais para mim. Não saiu barato, viu!
— Peça gentilmente àquele bom ajudante ali — disse Maomao. Ela não tinha a menor intenção de pagar por aquilo. Em vez disso, deixou tudo a cargo do homem daquele estrategista excêntrico, que ia oferecendo petiscos ao patrão de tempos em tempos para evitar que ele perdesse o controle. O estrategista mastigava um quitute frito enquanto continuava a observar atentamente os fabricantes de sabão. Era algo deveras incomum para um homem que, normalmente, não demonstrava qualquer interesse pelas outras pessoas.
[Kessel: Ele está no modo dele superprotetor, não parece?]
— Muito bem, você está vendo a pilha de sobras. O que acha que vai acontecer se eu simplesmente a deixar aqui?
O fabricante de sabão balançou a cabeça. — Está querendo dizer que vai pegar fogo? Enganou-se. Vai é esfriar!
— Tem certeza disso? — Maomao lançou-lhe um olhar de soslaio e, em seguida, colocou as sobras no pote que servia de lixeira.
Um instante passou.
— Vê? Não acontece nada.
— Apenas aguarde.
Maomao lançou um olhar para Chue, que havia tirado algumas flores artificiais e estava brincando com elas.
— Ei, ah... senhorita? Você tem certeza disso? — Lihaku também não parecia totalmente convencido. Ele mantinha distância da caçamba de lixo, como convinha a um homem que havia sobrevivido a ter o cabelo chamuscado pela explosão de uma caixa.
— Aguarde um pouco mais — disse Maomao.
— Nada de esperar! Isso é perda de tempo! Vou voltar ao trabalho — disse um dos artesãos. Ele se virou para sair, e foi então que perceberam: ar quente acompanhado de um cheiro forte de queimado. Saía fumaça do jarro.
— Isso é real? — perguntou um dos artesãos, aproximando-se às pressas para olhar.
— Espere, é seguro chegar perto daquilo? — perguntou outro.
— Não vai explodir. Pelo menos, acho que não — disse Maomao, aproximando-se ela mesma do pote. Ainda não via chamas, mas esperava que surgissem em breve. — Aí está: combustão espontânea dos resíduos de fritura. Agora você vê que isso poderia muito bem ser a causa do seu incêndio?
— A—Agora, espere um pouco! Se é tão fácil começar um incêndio, por que não houve nenhum antes? Fazemos esse trabalho aqui há décadas, e este é apenas o segundo incêndio que tivemos!
— Você sempre descartou grandes quantidades de sobras quentes?
— Não... Não, foi há pouco tempo. Não faz muito tempo que começamos a fazer isso.
Maomao recordou-se de o homem dizer que eles competiam com outros fabricantes de sabão para obter os insumos. Isso bem poderia levar alguém a recolher óleo quente, apesar do perigo, e simplesmente descartar os resíduos quentes que vinham junto.
Maomao olhou para o grande jarro e pensou: É uma tarefa arriscada recolher o óleo enquanto ele ainda está quente. Ela disse: — Imagino que você ainda não acredite em mim, mas não pode duvidar dos seus próprios olhos. O fogo começou naturalmente.
O fabricante de sabão permaneceu em silêncio e, como Maomao havia dito, estava visivelmente incrédulo. Para ser justa, ela também não havia acreditado que aquilo pudesse ser verdade quando ouviu falar do assunto pela primeira vez. Por isso, realizou um experimento.
É verdade que, naquele dia, ela havia preparado o terreno a seu favor, de duas maneiras específicas. Normalmente, os retalhos teriam demorado mais para pegar fogo; ela sabia disso porque já havia tentado antes. Naquele dia, eu realmente tive que esperar.
Ela não estava usando restos de fritura, mas sim trapos velhos embebidos em óleo de incenso altamente inflamável. Nada aconteceu com apenas alguns deles, então ela foi empilhando mais até que começassem a reter o calor. Mesmo assim, não houve fogo; ela esperou tanto tempo que acabou pegando no sono. Só então eles se incendiaram. Ela acordou quando alguém jogou água nela, felizmente, antes de sofrer queimaduras.
Eu queria muito ver o fogo começar de fato.
Ela esperava tentar novamente para poder confirmar com os próprios olhos, mas foi informada, com irritação, de que não haveria mais experimentos nessa área.
Nesse caso, não parecia provável que os artesãos tolerassem muita espera; por isso, ela pediu a Chue que fizesse um pequeno truque: além da grande quantidade de sobras, solicitou que ela conseguisse um pedaço de carvão. Chue, com sua habilidade de prestidigitação, passou-o discretamente para Maomao, que o incluiu às escondidas ao despejar as sobras no pote.
Fico feliz que tenha funcionado. Ela não se orgulhava daquele golpe modesto, mas não tinha tido muita escolha.
Quanto à segunda vantagem que ela havia garantido para si mesma, bem, ela estava bastante segura de que a causa do primeiro incêndio foi aquela que ela descreveu. Mas o segundo, aquele que começou enquanto o charlatão estava ali parado, esse era mais difícil de explicar.
Não é impossível, mas não seria muito provável.
A lixeira que havia pegado fogo estava cheia de folhas de palmeira e restos de fritura, mas não em quantidade suficiente para uma combustão espontânea. O experimento de Maomao envolvia panos velhos, e não restos de fritura; portanto, não era exatamente a mesma coisa, mas parecia claro para ela que seria necessário um ambiente mais quente para que pegassem fogo.
Pergunta: Por que eles usariam um baú de madeira para jogar aquelas coisas fora?
Luomen, sem dúvida, a teria alertado para não dizer coisas que não pudesse provar.
Enquanto Maomao ainda refletia sobre o assunto, o estrategista excêntrico interrompeu abruptamente sua observação dos artesãos e entrou em ação. Talvez tivessem acabado os petiscos fritos que ele comia.
— Diga-me uma coisa! Por que você está se esforçando tanto para jogar a culpa disso em outra pessoa? — exigiu o estrategista.
— Como é que é? — disse um dos homens, confuso. O estrategista nunca fazia muito sentido, mas aquilo superava todos os limites.
— Hum, o Mestre Lakan está dizendo que alguém aqui está mentindo e que essa pessoa é a verdadeira culpada — disse o ajudante, prestativo ao interpretar.
— Q-Quem? Quem faria uma coisa dessas? — perguntou o charlatão, olhando para Lakan com olhos suplicantes.
— Aquela pedra preta de Go, bem na borda do grupo.
— ‘Pedras de Go’ são, hum, como o Mestre Lakan vê as pessoas cujos rostos ele não consegue distinguir. — Não era fácil ser o assistente do estrategista. Ele provavelmente trabalhou mais do que qualquer um deles naquele dia, e Maomao sequer sabia o nome dele.
— É mesmo? Acha que estou mentindo? Tem alguma prova disso? — exigiu o homem que Lakan havia identificado como uma pedra preta de Go.
— Você está piscando. Seu coração está disparado — dá para ouvir, praticamente. E você está fedendo a suor.
— P-Perdão. Não sei bem o que dizer sobre isso… — Até o assistente ficou sem saber o que dizer.
As pessoas piscam mais quando estão mentindo, e a frequência cardíaca delas aumenta. Às vezes, elas começam a suar.
Corria um boato popular na corte dos Li de que era impossível mentir na presença do estrategista. Justo quando parecia que ele fazia afirmações ousadas baseadas apenas no puro instinto, Maomao descobriu que, na verdade, havia um método em sua loucura.
Lembro-me do meu velho dizer... O estrategista excêntrico talvez não conseguisse distinguir rostos, mas conseguia discernir as partes que os compunham. Ele via olhos ou narizes; é que, para ele, esses elementos não se uniam para formar um rosto humano. Em vez disso, ele tinha outras formas de diferenciar estranhos: as vozes, os movimentos, os odores característicos. Ele talvez fosse o observador mais perspicaz que se poderia encontrar.
Isso simplesmente não nos ajuda muito, porque ele geralmente não está nem aí para as outras pessoas.
Não, isso não era bem verdade, no trabalho dele, isso era extremamente útil. Aquele velho gagá imprestável tinha um faro para talentos melhor do que qualquer um.
— Ei, você não pode falar de mim desse jeito!
— Não, não, eu sinto o cheiro. Fumaça. Tabaco. As fragrâncias dos sabonetes, o mel, as folhas aromáticas, quase o encobrem, mas você estava fumando até alguns minutos atrás, não estava? — disse o velho de monóculo. Os demais fabricantes de sabão voltaram imediatamente o olhar para o novo suspeito.
— Ei! Você falou que tinha parado!
— A gente avisou para não fumar perto do óleo. Não me diga que você fez isso aqui fora!
Os outros cercaram o acusado e, pouco depois, folhas de tabaco foram descobertas em suas vestes.
Um incêndio causado por tabaco! Isso certamente explicaria como o fogo havia começado. Querendo aproveitar a oportunidade para dar umas tragadas, o homem disse que ia levar o lixo para fora, um pretexto para fumar onde os outros não o vissem. Naquele lixo havia folhas e restos diversos. As folhas fibrosas eram altamente inflamáveis, e os restos eram tão combustíveis quanto o óleo. Quando as cinzas do tabaco foram jogadas sobre eles...
O fogo não pegava de imediato. Primeiro começava a soltar fumaça e só depois irrompia em chamas, justamente quando o médico charlatão passava por ali. O estrategista excêntrico provavelmente conseguiu perceber que o fumante estava mentindo, pois o homem suspeitava, em algum nível, de que fora o seu tabaco a iniciar o incêndio.
Os outros trabalhadores pareciam considerar as folhas de tabaco do homem como prova; eles o haviam cercado e estavam lhe dizendo poucas e boas.
— Caham... hã... muito obrigado. Você me salvou — disse o charlatão, ajeitando a frente de sua roupa amarrotada.
— É maravilhoso, não é? Talvez você pudesse agradecer à srta. Chue comprando para ela um grampo de cabelo de coral — disse Chue, que nunca perdia uma oportunidade.
Maomao aproximou-se dos homens que gritavam. — Com licença — disse ela. Estava satisfeita por ter conseguido provar a inocência do charlatão, mas ainda havia mais uma coisa que precisava fazer. — Gostaria de um pouco de sabão, por favor.
Aquela tarefa estava se tornando um verdadeiro suplício, e ela só queria acabar logo com aquilo.
[Kessel: O que eu achei engraçado dessa coisa toda, foi a paciência de todo mundo. Meia hora para explicar o que aconteceu ou deixou de acontecer… isso já teria dado confusão há muito tempo na vida real! kkkkkk!]
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Atenciosamente,
Scan Moonlight Valley
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