Diários de uma ApotecáriaVolume 9 – Capítulo 20 – Capítulo 20: De Cara Na Parede
Capítulo 9.2Tinha sido um dia muito... peculiar. E longo, aliás. Ainda passava pouco do meio-dia.
Exatamente como Maomao havia sugerido, o médico charlatão deixou a chave cair na latrina.
— É isso mesmo! Aí eu estava tão deprimido por não conseguir entrar no consultório médico... e então alguém me pediu para fazer uma tarefa.
Ela tinha acertado em cheio. A faxineira nem sequer deu ao charlatão a chance de se explicar e, no fim, ele se afastou do navio, arrastando os pés com ar de tristeza. Segundo o próprio relato dele, o mercado ficava ali perto e ele imaginou que voltaria logo.
Maomao entregou a chave extra ao charlatão e voltou para o palácio. Ela não tinha o menor interesse em cuidar daquele estrategista excêntrico e esperava passá-lo a outra pessoa o mais rápido possível. No fim das contas, não precisou se preocupar. Depois de uma boa caminhada e de comer bastante, só lhe restava tirar uma soneca. Ele estava sonolento como uma criança de três anos, e levava uma vida muito parecida; assim, quando lhe disseram para ir ao quarto dormir, ele obedeceu prontamente.
Era difícil não sentir pena do ajudante daquele sujeito excêntrico, no entanto. Maomao torcia para que ele também conseguisse fazer uma pausa. Quanto a ela, também voltou para o seu quarto.
— Ficarei no cômodo ao lado — disse Lihaku, posicionando-se na sala adjacente. Era bom saber que, se algo incomum acontecesse, ele viria correndo.
Bom, parece que não está acontecendo nada. Acho que vou dormir um pouco também.
Maomao estava deitada na cama, decidida a não se levantar tão cedo, mas, de repente, foi tomada por uma onda de raiva. A culpa de ter se metido em apuros era do próprio médico charlatão, devido à maneira como ele vivia saltando de uma coisa para outra. No fundo, ele não tinha a menor noção de perigo. Ele não deveria ter vindo nesta viagem.
Por que diabos eles o trouxeram?!
Sim, essa era a questão. O charlatão era despreocupado demais para sentir sequer um pingo de dúvida a respeito, mas ele estava ali como dublê de Luomen e, se tivesse azar, poderia acabar sequestrado, ou coisa pior. Ela sabia que eles haviam feito aquilo por Luomen... ou será que não? Por quem eles tinham feito aquilo?
Se acontecesse alguma coisa com o meu velho, quem sofreria mais?
O estrategista excêntrico? Ou talvez até mesmo...
Maomao enterrou o rosto nos lençóis e chutou a cama.
[Kessel: Raro a gente ver uma reação dessas da Maomao.]
— Fico feliz em ver que você está ocupada — disse alguém. Era Chue. Ela havia testemunhado aquela demonstração de irritação, para grande desgosto de Maomao. Há quanto tempo ela estava ali?
— Sinto muito. Parece que levantei um pouco de poeira — disse Maomao, sentando-se e ajeitando os lençóis como se nada tivesse acontecido.
— Não se preocupe. Vamos ver o Príncipe da Lua agora, tá bom?
— O Príncipe da Lua? Mas mal passou do meio-dia.
Como de costume, Maomao trocava os curativos de Jinshi depois que ele já havia feito sua higiene diária. Aplicar uma pomada nova apenas para que ele tomasse banho logo em seguida seria inútil.
— Não se preocupe, você vai ver quando chegarmos lá. Trouxe água fervida, limpe-se. — Chue entrou apressada, com seus passos que faziam um barulhinho agudo, e separou roupas limpas para Maomao. Parecia uma mensagem nada sutil de que ela precisava trocar de roupa depois de andar por aí lá fora e ficar toda suada. O comportamento de Chue era o de uma verdadeira dama de companhia, mas, ao observar a maneira como ela praticamente dançava de um lado para o outro, com a cauda balançando enquanto se preparava, era óbvio que ela estava se divertindo, mas aquilo também parecia muito cansativo.
Não é à toa que ela come tanto.
Toda aquela dança, os truques de prestidigitação e os outros pequenos detalhes devem consumir muita energia. Com essa constatação, Maomao pegou as roupas novas, embora não fossem totalmente novas; eram iguais às que ela havia recebido no dia anterior. Pelo que parecia, Chue provavelmente tinha um estoque com vários outros conjuntos.
Maomao se limpou e trocou de roupa.
— Com licença — disse Maomao ao entrar no aposento de Jinshi. Era um ambiente digno de um convidado de Estado, com toda a decoração rebuscada que isso implicava. Era várias vezes maior que o quarto de Maomao e estava dividido em diversos cômodos. Ela conseguia até ver uma varanda do lado de fora.
— Por favor, entrem — disse Suiren, que estava ali para recebê-los. Com um sorriso gentil, ela conduziu Maomao a um aposento interno. Após passar por uma cortina, viu Jinshi recostado em um divã, com Gaoshun de um lado e Taomei do outro. Ela não viu Baryou, o marido de Chue, mas suspeitou que ele pudesse estar no cômodo ao lado.
Ora, ora! Gaoshun e sua esposa!
Maomao talvez tivesse se sentido mais à vontade se Taomei lhe mostrasse o local em vez de Suiren, mas é possível que a senhora estivesse sendo atenciosa, tentando não privar Gaoshun de mais tempo com a família. Tanto ele quanto a esposa eram pessoas ocupadas; não parecia que eles conseguiam passar muito tempo juntos. Como Maomao poderia esperar pela descrição que Gaoshun fizera de sua esposa "temível", Taomei era a mais velha dos dois, e agia de acordo com isso.
Entre o banquete e tudo o mais, Maomao não havia ido aos aposentos de Jinshi na noite anterior. Agora, ela via que um membro da família imperial era, de fato, tratado de maneira diferente. Havia uma bandeja de frutas frescas sobre a mesa (algo que não existia no quarto de Maomao), incluindo algumas que ainda não estavam na estação, como lichias, mangas e até bananas.
Fico imaginando como eles cultivaram aquilo.
Ela estava muito interessada nas frutas, muitas das quais só conhecia na forma seca ou por meio de imagens. Ela sentia o brilho no olhar de Chue, mesmo estando de costas para ela. A vontade de estender a mão e pegar uma das frutas era quase irresistível, mas ela sabia que não podia fazer isso. Já era ruim o suficiente ter a velha senhora lhe lançando um olhar fulminante, mas até mesmo Taomei mantinha seu único olho bom fixo em Maomao. Gaoshun, por sua vez, observava a cena com aquela sua expressão habitual de súplica de “Por favor, não faça nada.”
Maomao recompôs-se e olhou para Jinshi. — Precisava de algo, senhor? — Se o seu tom soou um tanto rígido, foi porque a raiva que sentiu pouco antes ainda não havia passado completamente.
— Precisa de alguma coisa? Nem tanto. No momento, preciso principalmente que você espere.
— Maomao — disse Suiren, pousando a mão no ombro dela. — Receberemos uma visita em breve. Por favor, afaste-se por enquanto.
— Sim, senhora — disse Maomao após uma breve pausa. Por que a haviam chamado ali, se queriam apenas que ela esperasse?
Pouco depois, um homem grande entrou na sala acompanhado por uma mulher. Ele parecia estar sustentando o peso do corpo dela.
Espere. Será que... Maomao achou que reconhecia a mulher, que possuía uma beleza contida e efêmera.
— Princesa Fuyou. Permita-me parabenizá-la pela sua gravidez. Só posso pedir desculpas por não ter podido cumprimentá-la antes — disse Jinshi, identificando conclusivamente a mulher.
Fuyou! A mulher que havia causado o alvoroço em torno do espírito no palácio interno.
A mulher cujo sonambulismo a levou a dançar sobre as muralhas do palácio. O homem que a acompanhava devia ser, então, o militar a quem ela foi entregue.
— Príncipe da Lua. Jamais houve um momento em que eu esquecesse a bondade que você me demonstrou. Foi graças a você que pude retornar à minha terra natal. — Fuyou sentou-se lentamente. Suas vestes eram amplas e fluidas, mas, ainda assim, seu corpo parecia pesado. É provável que sua barriga estivesse bem grande sob aquele traje.
O marido não disse nada, muito provavelmente porque, ali e naquele momento, a esposa ocupava uma posição superior à dele.
— Sem a sua intervenção, Príncipe da Lua, duvido que eu estaria aqui hoje — disse Fuyou.
Será possível? Maomao pensou. As pessoas que viajavam na outra carruagem quando ela chegou a Anan... será que eram Fuyou e seu marido? Lihaku havia dito que Li relutava em abrir mão de um de seus melhores soldados, mas Fuyou foi enviada de volta para casa por estar grávida. E Jinshi, ao que tudo indicava, a havia ajudado.
Então, o que acontece com o marido dela nessa situação? Ele ficaria em Li ou voltaria para Anan? Maomao não sabia, mas poder ter o filho na própria terra natal era algo muito importante. Acho que entendi. Jinshi queria que Maomao visse os dois.
Havia apenas uma coisa: eu não fiz realmente nada naquele caso.
Jinshi havia pedido a Maomao que curasse o sonambulismo de Fuyou, mas ela suspeitava que tudo não passava de encenação. Ao ver a princesa agora, ela tinha praticamente certeza disso. No entanto, jamais havia comunicado essas dúvidas a Jinshi.
Ele descobriu sozinho?
Ela havia dito a verdade à Imperatriz Gyokuyou, discretamente, mas duvidava que a Imperatriz tivesse deixado escapar algo. O fato de Jinshi ter percebido que Maomao estava encobrindo Fuyou a deixava um tanto desconfortável. Ao mesmo tempo, ela ficava feliz em saber que Fuyou estava feliz.
Fuyou e seu marido conversaram com Jinshi sobre um assunto ou outro, mantendo-se cordiais e educados o tempo todo, e então foram embora.
Eles pareciam formar um bom casal. Mesmo naqueles poucos minutos, Maomao percebeu isso. O militar tratava Fuyou com tamanha devoção que chegava a ser constrangedor. Ele havia conquistado o direito de se casar com ela graças aos seus feitos, mas foi graças a Jinshi que eles conseguiram retornar ali depois de tudo. Também parecia cada vez mais provável que Jinshi soubesse o que Fuyou havia feito no palácio interno.
Talvez ele seja apenas uma pessoa de coração mole.
Ele tinha um lado sentimental do qual não conseguia se livrar totalmente. Uma qualidade em uma pessoa, mas uma fraqueza em um homem de poder.
Isso vai deixá-lo de mãos atadas.
O mesmo valia para a maneira como ele tratava o médico charlatão. Em certo nível, ele estava usando o charlatão, mas só o fazia devido àquela mesma devoção ao sentimento.
Jinshi tendia a subestimar suas próprias habilidades.
Quer dizer, não, ele consegue dar conta das coisas. Ele só assumiu responsabilidades demais.
As coisas iriam muito melhor para ele se conseguisse deixar certas coisas de lado; em vez disso, porém, ele continuava a se envolver. Quanto mais achava que podia ajudar, mais se envolvia, até acabar sobrecarregado.
Conheço outra pessoa assim... Ela pensou na pessoa atrás de quem sempre corria. Ele também se dedicava de corpo e alma a servir aos outros. Era o homem que Maomao respeitava mais do que qualquer outro.
Acho que a culpa é minha de aquele charlatão ter se metido nisso tudo.
Era Maomao. Maomao era quem mais sofreria se Luomen corresse perigo. Jinshi havia demonstrado ser um político de bom coração, mas, ao mesmo tempo, ainda ingênuo.
É por isso que ele conseguiu ser um tremendo babaca.
Por que Jinshi tinha feito algo tão idiota?
— Você é parcialmente responsável por isso — disse a Imperatriz Gyokuyou. Jinshi tinha um forte senso de dever. Maomao poderia ter esperado que ele fosse menos impulsivo. Poderia ter pensado que ele, ao menos, deveria ter aguardado até que os príncipes estivessem um pouco mais velhos.
No fim das contas, ele não conseguiu.
Algumas pessoas simplesmente têm os gostos mais estranhos, pensou ela pela enésima vez. Às vezes, Jinshi parecia apreciar criaturas de temperamento peculiar. Aquele jovem mestre, alheio às coisas do mundo, não conseguia encontrar um novo brinquedo entre todas as pessoas ao seu redor. Como um pintinho, ele criou um vínculo de apego exclusivo com um único brinquedo, e este se tornou o seu mundo inteiro.
Se para ele eu não passo de um objeto, então ele deveria me tratar como tal e me dar ordens. No entanto, a criança ingênua era incapaz de fazer isso e, por isso, havia escolhido um método mais cruel.
Quando Jinshi marcou a própria lateral do corpo com aquele ferro em brasa, quem mais sofreu não foi ele, mas sim o Imperador, ou pelo menos era isso que Maomao pensava. Sua hipótese havia se transformado em suspeita, e a suspeita, em certeza: ela começou a acreditar que sabia qual era a verdadeira relação entre Jinshi e Sua Majestade.
O Imperador é o verdadeiro pai de Jinshi.
Jinshi vivera a vida como o "irmão mais novo do Imperador", mas se ele fosse, na verdade, o filho do Imperador que se supunha morto... Certamente ele não teria feito o que fez? A questão deixou Maomao com uma sombra de dúvida. Se o que ela suspeitava fosse verdade, o que aconteceria então?
O que eu faço? Mesmo enquanto fazia a pergunta, ela sentia que já sabia a resposta.
— Pode dar um passo à frente agora — disse Suiren, dando-lhe um empurrãozinho gentil. Maomao não tinha certeza se gostava do tom carregado de intenção na voz da idosa.
— Vejo que você queria que eu soubesse o que aconteceu com Lady Fuyou — disse ela, fazendo uma reverência a Jinshi. Por ora, ela pegou os outros pensamentos que vinha tendo e os guardou num canto da mente.
— Não exatamente. Simplesmente achei que seria bom você estar a par, já que pedi sua ajuda em relação a ela.
— Sim, senhor. Confesso que me sinto um pouco melhor por ter visto isto.
Maomao olhou ao redor. Ela não conseguia se livrar da sensação de que Jinshi estava tentando ser atencioso com ela.
Muito bem, hora de jogar o jogo.
Ela olhou para a varanda. — Este é um quarto bastante suntuoso, senhor. Tem até varanda.
— Gostou? Fique à vontade para ir lá dar uma olhada.
— Se me permite, então. — Ela foi direto para lá, a passos rápidos.
— Xiaomao! — Gaoshun tentou detê-la, mas, pelo canto do olho, ela conseguiu ver Jinshi segurando-o.
Ela saiu para a varanda. Ora! Ela havia presumido que aquele seria o lugar perfeito para ser assassinada por uma flecha ou por uma arma de longo alcance, mas acabou não sendo o caso. Há tantas árvores ao redor que seria difícil conseguir um bom ângulo de tiro. E também não há nenhum lugar próximo de onde se pudesse atirar.
Parecia-lhe que a varanda havia sido projetada deliberadamente para ser segura. Ela não era especialista, mas supunha que qualquer outra coisa teria sido inadequada em um quarto para VIPs.
Como o local era seguro, ninguém seguiu Jinshi quando ele saiu para a varanda com ela. Taomei dizia algo a Gaoshun; estava claro que ele não era páreo para a esposa.
[Kessel: E toma esporro da mulher…]
Não sei se gosto da sensação de que estamos sendo armados aqui, no entanto...
Ela estava a sós com Jinshi. Isso não era tão estranho; ela teria de examinar a queimadura dele mais tarde, mas queria fazê-lo antes que seu humor mudasse.
— Ouvi dizer que você foi à cidade hoje — disse Jinshi.
— Sim, senhor, e os moradores da cidade têm muito a dizer sobre Li.
Dificilmente se poderia dizer que os moradores estavam bem-dispostos, mas, pelo menos, a situação não parecia prestes a explodir.
Pelo menos, estavam suficientemente bem-dispostos a ponto de cogitarem enviar uma mulher a um convidado de Estado...
— Mestre Jinshi, por favor, tenha cuidado esta noite. Como em todas as noites — disse Maomao. Sempre havia o risco de alguma mulher tentar se convidar para a cama de Jinshi.
— Nunca consigo adivinhar o que você vai dizer a seguir. — Jinshi encostou-se na parede, fora da vista de seus assistentes. Parecia que Gaoshun não era o único a pisar em ovos perto de Taomei.
— O senhor certamente consegue imaginar o que quero dizer, não é? Basta recordar as noites que passou no palácio interno.
— Ughh — gemeu Jinshi, parecendo contrariado. Então, ele tinha, sim, alguma ideia do que ela queria dizer. Ele olhou para ela como se tivesse algo a dizer, mas não conseguia expressar-se bem. Por fim, conseguiu falar: — Caham. Como você pode ver, a Princesa Fuyou retornou. A sobrinha do Rei de Anan entrará no Palácio Interior; hesito em dizer que será em troca, mas...
— Parece muito movimentado.
— Sim. A sobrinha da Imperatriz Gyokuyou também deve vir.
— Ouvi dizer isso, senhor. Mas é interessante que o senhor saiba. Lembre-me: quem foi mesmo que fugiu do palácio interno? — insistiu Maomao. — O senhor não é mais Jinshi, Mestre Jinshi, e acho que seria melhor se parasse de se preocupar com o palácio interno de uma vez por todas e se concentrasse no seu próprio trabalho.
— Eu concordaria, mas acontece que não consigo me desligar completamente.
Maomao olhou para ele, sem se impressionar. Ele conseguiu sustentar o olhar dela, mas não parecia muito à vontade.
Maomao sentiu-se irritada novamente. — Mestre Jinshi, o senhor é um homem poderoso, e acho que já é hora de agir como tal.
— Eu sei…
— Você deve usar as coisas que estão disponíveis para você usar.
— Eu uso…
— Nesse caso… — Maomao aproximou-se dele com um sorriso de canto, ficando na ponta dos pés para encará-lo diretamente. Ela bateu a mão direita contra a parede, encurralando-o. Os olhos dele se arregalaram. — Não posso dizer que gosto de ser usada. No entanto… — Ela baixou a voz, de modo que apenas Jinshi pudesse ouvir. — Tentativas medíocres de ser gentil são um incômodo muito maior. Prefiro mil vezes ser uma ferramenta útil a um fardo inútil. Sua hesitação é a hesitação do país, e um momento de indecisão da sua parte pode significar a morte de dezenas de milhares de seus súditos. Sei que você só se arrependeria disso. Então, é melhor escolher um caminho e lançar-se nele de cabeça. — Por fim, ela se afastou dele. — Se você vai usar algo, então use. O remédio não funciona a menos que você o tome.
Ela fechou os olhos e soltou um longo suspiro. Tudo o que guardava dentro de si havia transbordado. Maomao não era uma princesa; era uma simples apotecária. Se ele pretendia manipulá-la, então era melhor que simplesmente o fizesse. Que a usasse até ela se despedaçar.
Se pudesse escapar de tudo aquilo, é claro que ela gostaria, mas não iria prejudicar a si mesma só por teimosia. Havia mais coisas que ela queria dizer, mas achou que já tinha ido até onde podia.
Ela descobriu, no entanto, que havia algo mais por trás de sua raiva fervilhante. Suas mãos tocaram o rosto de Jinshi. — Você é apenas humano, Mestre Jinshi. Não é um imortal lendário capaz de salvar a todos. — Ela segurou o rosto dele entre as mãos, com os dedos da mão esquerda roçando a cicatriz dele. — Você pode ser ferido, marcado, derrubado. Apenas humano.
Com quem ela estava falando? Ela sabia que Jinshi estava parado à sua frente, mas, por algum motivo, continuava vendo o rosto de Luomen.
Não é à toa que estou tão chateada.
O princípio que norteava o comportamento de Jinshi parecia muito semelhante ao de Luomen. Ela temia que, se ele continuasse assim, acabasse com a mesma falta de sorte na vida que o seu velho. Assim como o papai... Ele havia se desgastado tentando salvar a todos e a tudo. Como um tolo. Deveria ter desejado mais, ter sido mais ganancioso; em vez disso, aceitou seu destino com paciência.
Sofreu e sofreu, e para quê? Para se tornar um velho resignado com as mãos vazias.
Essa era, pode-se dizer, a única crítica que Maomao fazia ao pai. Ela sentiu isso profundamente durante o episódio envolvendo a sacerdotisa de Shaoh. Ela respeitava Luomen imensamente. Um homem que jamais perdia a bondade, independentemente das adversidades que enfrentava, era como um milagre. O preço, no entanto, era que tanto seu corpo quanto seu coração acabavam destroçados. Com o tempo, ele passou a agir sempre na expectativa da derrota. Será que Jinshi acabaria como ele um dia? Ou...
— Por favor, por favor, não vá fazer mais nada, como marcar a sua pele com ferro em brasa — disse Maomao.
— Eu ouvi você... nas primeiras vezes — respondeu Jinshi.
— Tem certeza? — Um sorriso passou rapidamente pelo rosto de Maomao, e ela afastou as mãos lentamente. Só que elas não saíram das bochechas dele. Jinshi as segurou ali.
— Por favor, deixe-me ir, senhor — disse ela.
— Não quero.
Ele soava como uma criança. Era algo que ele fazia às vezes: recorrer a uma linguagem infantil.
— Eu gostaria de voltar em breve — disse ela.
— Só mais alguns minutos.
— O Mestre Gaoshun deve estar fora de si.
— Então, apenas me rejuvenesça um pouco.
— Rejuvenesça?
Ele soltou as mãos dela e abriu bem os braços.
Ah, não. Será que ele vem para um abraço? Ela estava prestes a dizer que não faria nada do tipo, mas os braços estendidos não foram em direção a ela. Em vez disso, mudaram de posição, parecendo prontos para receber algo.
— O que exatamente você quer? — perguntou Maomao.
— Eu queria um abraço, mas pensei que, neste momento, talvez eu precise de outra coisa. — Jinshi coçou a bochecha esquerda, aquela sem cicatriz. — Vigor. Ajude-me com isso.
— Você quer que eu te dê um tapa.
— Com toda a força que você tiver. Do jeito que você esbofeteou aquela dama de companhia no Pavilhão Cristal.
[Kessel: É. Aí fica difícil defender… ele realmente é masoquista.]
Os olhos dele brilhavam. O que diabos ela deveria fazer agora? E o que ele estava fazendo, lembrando-se dos piores momentos dela?
— Já se esqueceu do que eu disse? — Ela acabou de avisá-lo para não fazer nada parecido com aquela história da marca novamente e, nem um minuto depois, lá estava ele, envolvendo-se em mais um comportamento autodestrutivo.
— Eu entendo — disse ele. — Isso não vai deixar cicatriz.
— Vai deixar uma marca!
Maomao seria a que se meteria em encrenca. Tinham confiado nela o suficiente para deixá-la a sós com Jinshi; ela não podia trair essa confiança.
— Por favor.
— Eu não posso!
— Estou lhe pedindo! — Jinshi caiu de joelhos. — Não há mais ninguém que possa me dizer o que fazer — disse ele, quase cuspindo as palavras. Gaoshun e Suiren podiam repreendê-lo o quanto quisessem, mas, no fim das contas, não deixavam de ser seus subordinados. A única pessoa capaz de, hipoteticamente, contrariar Jinshi diretamente seria o Imperador.
Ninguém para te dizer o que fazer, hein?
O pedido de Jinshi para ser rebaixado à condição de plebeu significaria romper seu vínculo com o governante.
Não sei como é a relação deles, nem como conversam entre si, pensou Maomao. Pelo que havia percebido, no entanto, pareciam ter um bom entrosamento, considerando-se que eram parentes de sangue real. Mas colhemos o que plantamos.
Isso explicaria por que ele não queria que ela pegasse leve com ele. Maomao só pôde suspirar.
— Tudo bem. Feche os olhos.
— Obrigado.
Maomao puxou a mão de volta e desferiu um tapa no rosto de Jinshi. O som foi alto.
Jinshi inspirou profundamente e estava prestes a abrir os olhos, então Maomao pousou a mão delicadamente sobre as pálpebras dele. — Deixe-me ver — disse ela. Até a mão dela doía, então a bochecha de Jinshi devia estar ardendo. Ela conseguia ver a vermelhidão se espalhando por ela.
Suiren jamais deixaria de notar isso. Se a senhora ficaria chateada ou não, dependeria de como Jinshi reagisse.
— Dor, dor, vai embora — disse Maomao, lembrando-se de uma rima que sua irmã mais velha, Pairin, costumava usar com ela. Ela beijou a bochecha avermelhada com extrema delicadeza. Seus lábios estavam mais frios que as pontas dos dedos, fazendo a bochecha parecer ainda mais quente.
Eu sei que uma rima infantil não pode realmente funcionar. Mas foi engraçado: de alguma forma, a bochecha parecia menos vermelha do que antes. Não, isso é impossível. E não era mesmo: na verdade, o corpo inteiro de Jinshi estava mais vermelho do que antes.
Maomao afastou a mão dos olhos dele. Ele não conseguia olhar diretamente para ela, mas suas mãos apertavam as dela com firmeza.
— M-Maomao — disse ele.
— Sim, senhor? — ela respondeu, afastando-se ligeiramente.
— A outra bochecha também, por favor.
Ele apontou para a bochecha direita, aquela com a cicatriz.
Maomao lançou-lhe um olhar fulminante. — De jeito nenhum, senhor.
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Atenciosamente,
Scan Moonlight Valley
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