Diários de uma Apotecária — Capítulo 9.21: Volume 9 – Epílogo

Diários de uma Apotecária
Cap. 9.21
0%
Diários de uma Apotecária

Volume 9 – Epílogo

Capítulo 9.21

2.188 palavras~10 min de leitura

Maomao olhou pela pequena janela. Ela via cada vez mais navios surgindo à vista. A frota parecia aumentar a cada porto em que faziam escala. A maioria das novas embarcações era de navios mercantes que também se dirigiam à capital do oeste e, presumivelmente, juntavam-se a eles para ajudar na proteção contra piratas.

— Engraçado. Esta viagem pareceu tão longa, mas finalmente conseguimos ver o destino!

— Do que você está falando, srta. Chue? — perguntou o charlatão. Chue estava relaxada no consultório, como se aquele lugar fosse seu, algo que ela fazia com frequência.

— Ah, nada. Só pareceu o sentimento certo, então eu disse.

— Você diz coisas muito estranhas. Simplesmente não acompanho o raciocínio — disse o charlatão. Maomao concordava que as declarações de Chue podiam ser esquisitas, mas havia algumas poucas criaturas como ela no mundo.

Maomao afastou-se da janela, decidida a fazer um levantamento do estoque de medicamentos restantes. Como a explicação útil de Chue indicava, eles logo chegariam à capital do oeste. Precisariam pensar em repor os suprimentos, mas o charlatão, aparentemente a peça-chave para o funcionamento do consultório, passava todo o seu tempo conversando, como sempre fazia.

Chue agora passava tanto tempo no consultório médico quanto Lihaku. Ela insistia que era “a trabalho”. Talvez tivesse pronunciado errado e quisesse dizer “matar serviço”.

— Médico-chefe, se o senhor pudesse ao menos anotar as quantidades de nossos medicamentos... — disse Maomao, colocando um caderno e um pincel nas mãos do charlatão. Não era uma tarefa difícil, e ela mesma poderia tê-la feito facilmente, mas achava importante não mimar o médico.

— Quer que eu ajude? — Chue ofereceu.

— Não, obrigado. Nunca mais vamos ouvir o fim dessa história se deixarmos funcionários que não são da área médica mexerem nos medicamentos.

— Que pena. A srta. Chue sabe muito sobre venenos, sabe?

Ela também nunca perdia a chance de se promover. Tentando justificar sua presença constante no consultório médico (e sua ausência do trabalho de verdade), supôs Maomao.

— Pelo menos o suficiente para fazer a prova da comida, pelo visto — disse Maomao. Ela relembrou o banquete em Anan. O banquete, depois o caso do charlatão desaparecido, e então o tapa em Jinshi...

Esse último ponto foi um verdadeiro problema para ela. Maomao levou a mão aos lábios. Por que fiz aquilo? Ela sabia muito bem que amuletos infantis não tinham qualquer efeito medicinal. Havia tratado Jinshi como uma criança que poderia ser enganada por um simples amuleto.

O único ponto positivo era que as pessoas na sala não pareciam ter ouvido nada, talvez a varanda tivesse sido construída especificamente para esse tipo de conversa secreta. Maomao havia ficado preocupada com o que aconteceria se Suiren, Taomei ou Gaoshun tivessem ouvido. No entanto, apenas Chue demonstrou interesse.

Quanto ao pedido de Jinshi para que ela desse um tapa no “outro lado também”, ele só precisava de algo para despertá-lo. Definitivamente não era uma questão de masoquismo, ele havia explicado.

[Kessel: Claro, claro…]

O que mais eu poderia pensar, com aquela expressão no rosto dele?

A explicação dele para a marca vermelha no rosto era que ele havia dado um tapa forte na própria bochecha, logo antes de voltar para a sala. Suiren e os outros ficaram chocados, mas ele apenas riu e explicou: — Eu só precisava garantir que estava bem alerta.

Maomao permaneceu em absoluto silêncio. Era tudo o que ela podia fazer.

Ela estava tão, mas tão cansada.

— Ah, eu me diverti tanto em Anan! Mal posso esperar para ver como vai ser a diversão na capital do oeste — disse Chue, com os olhos miúdos brilhando. Ela fez surgir das mãos pequenas flores, bandeirinhas e até, por algum motivo, pombas, mas Lihaku e o charlatão já haviam dado conta das respostas espirituosas sobre esses assuntos. Não havia necessidade de Maomao se envolver nessa brincadeira agora. Ela tinha, no entanto, uma pergunta.

— Como você está fazendo isso?

— Ah-ha! Interessado nas habilidades misteriosas da srta. Chue? — Ela bufou com orgulho, com seu narizinho que lembrava um pãozinho de feijão.

— Sim. Porque, na minha experiência, tais habilidades geralmente exigem alguma preparação.

Ela já tinha visto a Dama Branca fazer coisas semelhantes no palco, embora seus truques envolvessem menos “preparação” do que um conhecimento da psicologia humana.

— O que você faria se eu lhe contasse? — perguntou Chue.

— Pensei que seriam perfeitos para quando os figurões pedissem que eu os entretivesse — respondeu Maomao. Suas piadas de bordel sempre pareciam não surtir efeito, então uma pequena apresentação que ela pudesse fazer em vez disso parecia ideal. Melhor ainda se pudesse ajudar a aliviar a tensão de uma situação.

— Sinto muito acabar com as suas ilusões, mas já mostrei ao Príncipe da Lua do que sou capaz nesta viagem; e, se você está pensando em entreter Sua Majestade, saiba que já fiz isso por ele antes de partirmos, para que ele pudesse me ajudar a decidir aonde ir com eles no futuro.

Aonde ir! A resposta espirituosa quase escapou dos lábios de Maomao, mas ela a conteve. De fato, Chue era uma mulher que não conhecia o decoro.

Maomao esvaziou as bolsas de remédios, fez o charlatão anotar tudo e depois os guardou de volta no baú. Repetiram esse processo várias vezes.

— Ah! Ainda não lhe contei sobre a nossa programação para os próximos dias, contei? — disse Chue.

— Então você realmente tem um trabalho aqui — disse Maomao, que tinha certeza de que Chue estava apenas fazendo corpo mole.

— É isso aí! A srta. Chue sempre se esforça bastante para que a sogra não fique brava com ela. — Ela endireitou a postura e tirou um rolo de tiras de madeira de entre as dobras de suas vestes.

— Nossa, a senhora está desatualizada, Srta. Chue. Deveria arranjar um papel de boa qualidade; é muito mais fácil de usar — disse o charlatão, alongando os dedos. Ele vinha de uma família de fabricantes de papel e parecia satisfeito por estar por dentro do assunto.

— Nada disso! Sou uma mulher de gosto elegante que adora o estilo de antigamente. Adoro a textura da madeira, aprecio o seu aroma!

O papel era prático, mas havia muitas pessoas com sensibilidade estética, como ela, que preferiam as qualidades da madeira. Maomao não compreendia muito bem essa preferência, mas também não tinha motivos para impedir Chue de escrever no material que quisesse. No entanto, ela estava curiosa para saber como Chue havia conseguido esconder um rolo tão longo dentro de suas vestes.

— Quando chegarmos ao porto, pegaremos uma carruagem com a nossa bagagem. O trajeto até a capital do oeste deve levar cerca de trinta minutos. É aconselhável ficar atento aos escorpiões.

Maomao assentiu, torcendo para que, de fato, houvesse escorpiões.

— Assim que chegarmos à capital do oeste, aquele charlatão, hã, quero dizer, o médico-chefe, vai se juntar aos outros médicos. Você irá com ele, Maomao. Haverá alguém para lhe mostrar o aposento onde a equipe médica ficará instalada. Fica em algum lugar na mansão do Mestre Gyokuen e, como não cabem todos vocês de uma só vez, serão divididos em três grupos. Além disso, os superiores ficarão todos juntos; vocês terão apenas que aceitar isso.”

Ela disse “charlatão”?

Ela não tinha sido muito convincente ao tentar disfarçar, mas o charlatão estava tão ocupado escrevendo que não parecia ter percebido.

— Srta. Maomao, você trabalhará principalmente com os outros médicos, exceto quando for chamada para tarefas como a degustação de alimentos. Acho que você vai conviver bastante comigo e com o Lihaku.

Lihaku era o guarda-costas do charlatão, mas e Chue? Talvez uma mensageira? Para Maomao, parecia mais que ela estava tentando inventar uma desculpa para escapar do trabalho e evitar ver demais a sogra, ou "a patroa", mas ela fingiu educadamente não perceber. A última coisa que ela queria era que Suiren se envolvesse; seria um desastre.

— Mais uma coisa. À noite, não estou de serviço, então, por favor, não me chamem nesse horário.

— O quê? Nem mesmo numa emergência? — perguntou o charlatão, embora continuasse a trabalhar, com o pincel ágil em suas mãos rechonchudas.

— Nem assim. Minha sogra está me pressionando para ter o segundo, então tenho de usar minhas técnicas mais transcendentais. — De alguma forma, ela conseguiu dizer isso com a maior cara séria.

[Kessel: kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk!]

O médico charlatão ficou perplexo a princípio, mas, quando Maomao disse: — A srta. Chue é uma mulher casada — pareceu que ele juntou as peças, pois seu rosto ficou vermelho como um pimentão e ele deixou cair o pincel. Diante daquela reação, Maomao se surpreendeu por ele ter conseguido sobreviver como médico do palácio interno.

Ainda assim, sabendo que o marido de Chue era literalmente o homem por trás da cortina, Maomao questionava se ele conseguiria desempenhar o seu papel.

— Fwoooo! Agora, respirações grandes e profundas! — Chue havia se agachado e deslizava as mãos ao redor da barriga.

Maomao interrompeu. Ela se sentiu mal, mas Chue não dava sinais de que pararia por conta própria. — Senhorita Chue, chega desses seus exercícios estranhos. Mais alguma coisa que devemos saber?

Chue endireitou a postura como se nada tivesse acontecido. — Quando chegarmos à capital do oeste, acho que você viverá praticamente da mesma maneira a que se acostumou neste navio. A única diferença é que suas instruções virão do Dr. You, um dos médicos de alto escalão.

You: então esse era o nome do médico de pele bronzeada. Era um nome razoavelmente comum, especialmente no Oeste. Maomao teria de tentar se lembrar dele.

— Como eu disse, acho que vamos passar bastante tempo juntos; então, se tiverem alguma dúvida, fiquem à vontade para perguntar à srta. Chue ou ao doutor You. Exceto à noite, como eu disse. Ninguém sabe se o jovem Ma vai conseguir gerar um herdeiro, então há muita pressão sobre mim! A sobrevivência do clã Ma está nas minhas costas! Bom, tudo bem, ainda existe um ramo secundário da família, mas... Bem, vocês conhecem a minha sogra...

Chue parecia absolutamente desesperada. Então, havia algo capaz de assustá-la.

Imagino que não seja fácil ser a esposa do filho mais velho, pensou Maomao, não que isso realmente lhe dissesse respeito. Ela guardou o restante dos medicamentos e, com isso, terminaram o inventário.

Chue levantou-se. — Chegaremos muito em breve, então vou voltar.

— Até a próxima, srta. Chue! — disse o charlatão, como se ela fosse uma amiga que tivesse passado apenas para uma visita.

Chue acenou e estava prestes a sair, mas parou e se virou. — Srta. Maomao...

— Sim? Aconteceu alguma coisa? — O que mais Chue poderia querer?

— As pessoas mentem no palácio tanto quanto no distrito dos prazeres. Haverá muitos mentirosos na capital do oeste, então fique atenta. Ah, e não direi nada sobre o que aconteceu, não se preocupe. — Então ela abriu um sorriso, seu rosto de pele escura parecendo ainda mais escuro na penumbra dos conveses inferiores.

Sobre o que aconteceu? Maomao não tinha certeza do que ela queria dizer com aquilo.

— Então tá bom! Tchau!

Chue fechou a porta com um estalo e, então, restou apenas o balanço suave do navio.

Assim, Maomao chegou, mais uma vez, à capital do oeste. Restava-lhe apenas imaginar o que a aguardava em sua segunda visita.

Kessel: Sensacional. Que volume maravilhoso! Cara, a Chue é uma figura. Impressionante como a Natsu escreveu bem essa personagem. Não só ela, né? Todo o Clã Ma é muito bem escrito e intrigante. Talvez o marido da Chue seja o mais sem graça (ainda que, totalmente proposital, vide o personagem). Eu me pergunto se veremos algo diferente dele no futuro também... não podemos deixar de desconfiar da Natsu nunca, aparentemente. Sempre vem com algo ainda mais interessante do que nos volumes anteriores!

Falando neles, inclusive, quantas referências ao passado, em? Me surpreendi com a Fuyou aparecendo, inclusive. Foi legal vê-la novamente. Fico pensando quando (e se...) iremos ver a Xiaolan e a Shisui mais uma vez. Espero que sim!

Bom, temos que voltar a nossa atenção ao que está na nossa frente. Foi só eu que pescou aquela dica da Natsu, sobre a viagem separada do Basen? Ela citou a Lishu na mesma hora, será que ele recebeu permissão de ir visitar ela?! Espero que sim! Gostaria tanto de ver ela sendo feliz na história. E ele também, querendo ou não, merece encontrar a felicidade. Até porque, se ele não encontrar por bem, vai encontrar por mal... A Taomei não vai deixar passar barato! Ela faz todo mundo comer na mão dela, kkkkk. Até o Jinshi pareceu ter medo dela, muito engraçado.

Obrigado por acompanharem conosco mais um volume! Espero ver vocês no Volume 10, no retorno à capital do oeste! Vamos ver, assim como a Maomao disse, o que essa segunda visita nos aguarda.

Entre em nosso servidor no Discord para conversar sobre essa obra, além de conhecer os nossos outros trabalhos: Servidor da Scan Moonlight Valley

Ainda não leu o Mangá Spinoff da Xiaolan, a nossa queridíssima melhor amiga da Maomao? Clica aqui e confira: Memórias da Xiaolan

Interessado em outras obras da Natsu? Que tal conhecer sua segunda obra mais famosa? Confira o mangá de: Você Não Pode Mentir Para a Santa!

Quer ler algo parecido? Existe uma novel inspirada em Diários de uma Apotecária, com diversos elementos parecidos, confira aqui: O Corvo do Palácio Interno

Atenciosamente,

Scan Moonlight Valley

Fim da leitura

Capítulo 9.21 concluído

Volume 9 – Epílogo