Fragmentos do MultiversoVolume 1 – Capítulo 12 – Capítulo 12: O Demônio Chamado Escola
Capítulo 12— Hm?... Já tá de dia? — Lile murmura, com os olhos entreabertos, sentindo o rosto esquentar um pouco enquanto uma forte luz invade a escuridão do quarto.
Ela solta um bocejo e se espreguiça ainda na cama. Logo em seguida, olha ao redor e percebe que Anuk está na cama de cima, ainda dormindo tranquilamente.
— Idiota...
Lile lança um olhar de julgamento para o garoto. Então se levanta na cama, alcança Anuk e começa a balançá-lo devagar.
— Bom dia, Anuk. Tá na hora de levantar... — diz, ainda meio sonolenta.
Nada.
— Bom dia, Anuk...
Ela continua balançando o garoto, mas ainda sem sucesso.
— Anuk...
Mais uma tentativa. Anuk apenas se ajeita na cama, encontrando uma posição ainda mais confortável.
Lile fecha os olhos por alguns segundos.
— LEVANTA LOGO!
Ela finalmente perde a paciência e empurra Anuk para fora da cama.
— Hã? Quê? Dragão? Macarrão? Max?!
Anuk levanta do chão no susto, olhando para os lados completamente desnorteado.
— Ah... bom dia, Lile! Por que eu tô no chão?
— Porque eu te derrubei. — A garota responde com a maior frieza enquanto esfrega os olhos.
— Por que você fez isso? — Anuk pergunta, confuso.
— Max pediu.
— Max?
— Ela disse algo como: “Olha, eu confio no Anuk e sei que ele nunca vai quebrar uma promessa pra mim, mas ele é bem relaxado. Então, caso ele não acorde amanhã, poderia derrubar ele da cama?” antes de ir embora com a Charlie. Ela parecia bem contente me pedindo pra fazer isso... Acho que entendi o porquê.
Lile deixa escapar um pequeno sorriso sarcástico.
— Disso você ri, né, tampinha? — Anuk diz, indignado. — Maldita Max! Me derrubando da cama até mesmo quando não tá aqui!
“Bem, antes de ir dormir pelo menos recuperei a moto. É um milagre ninguém ter confiscado ela. Porém, eu preferia que um grupo de vilões tivesse me atacando agora pra não ter que ir pra escola... Ai, ai, que coisa, não?”
Anuk anda pelo segundo andar da cafeteria ainda meio sonolento, bocejando e cambaleando. Ele vai até o banheiro, toma um banho, escova os dentes e, para ter certeza de que vai acordar, joga água no rosto.
— É, Rose... Lá vamos nós pra mais um dia... — murmura enquanto encara seu próprio reflexo no espelho.
O garoto termina de se arrumar e volta para o segundo andar. Assim que chega, tem uma visão surpreendente: Lile está parada usando a roupa de garçonete da cafeteria.
— Uau! Você ficou uma fofura com isso! — Anuk diz, pegando um pão.
Lile encara o garoto com o rosto levemente avermelhado.
— Para de bobeira! Só tô usando isso porque o velho falou que eu vou ter que trabalhar! — responde, assumindo uma postura que lembra bastante a de Max.
— Esse era o plano, mas você pega rápido. Pode confiar. Se precisar de alguma coisa, pode pedir pra mim, fechou, maninha? — Anuk diz com o pão na boca enquanto procura o café.
— Maninha?
— Hm? O que foi? Não gostou?
— N-não... Quer dizer... Por que isso do nada? — Lile pergunta, virando o rosto para tentar esconder sua expressão.
— Porque você é mais nova que eu e eu tenho que te proteger tal qual um irmão mais velho! — Anuk explica, ainda com o pão na boca, enquanto termina de preparar o café.
Lile baixa os olhos.
— Mas... nem somos irmãos...
Anuk para o que está fazendo e se aproxima dela.
— E isso lá importa?
Ele coloca a mão sobre a cabeça da garota e faz um carinho em seus cabelos.
— Eu quis te chamar assim e é isso. Agora eu tenho que ir, maninha. Qualquer coisa me liga que eu dou um jeito nesse velho mercenário.
— T-tchau...
Lile se despede meio sem graça.
Assim que Anuk sai da cafeteria, ela fica alguns segundos olhando para a porta. Um pequeno sorriso aparece em seu rosto antes de começar seu trabalho, arrumando as mesas da cafeteria.
O garoto continua sua jornada usando a moto do pai de Emma para chegar ao colégio.
“Devolvo depois da aula.”
Anuk ainda não aprendeu perfeitamente a pilotar uma moto, mas o pouco que conseguiu aprender já era suficiente para se divertir andando nela.
— UHULLL! CARA, ANDAR DE MOTO É MUITO MANEIRO!
Ele acelera, rindo enquanto o vento bate em seu rosto.
Depois de alguns minutos, chega à entrada principal do colégio, onde, na lateral, existe um estacionamento.
— Beleza! Agora é guardar a moto e tô tranquilo!
Anuk retira o capacete.
Quando olha na direção do portão, porém, percebe uma multidão de pessoas reunidas.
— Será que tão esperando alguma coisa? — pergunta, confuso.
E realmente estavam esperando algo.
Ou melhor...
Alguém.
Assim que o garoto desce da moto, as pessoas começam a andar em sua direção em alta velocidade.
“É O QUÊ?!”
Anuk dá um passo para trás, assustado.
As pessoas cercam o garoto em uma velocidade surpreendente. Ele nunca tinha visto tantas pessoas rodeando-o, nem mesmo no meio de uma grande confusão.
— MEU DEUS! VOCÊ É O ANUK, NÉ? ME DÁ UM AUTÓGRAFO!
— NOSSA, VOCÊ É MAIS LINDO DO QUE PARECE!
— TIRA UMA FOTO COMIGO!
— VOCÊ TEM MOTO? CARA, VOCÊ É MUITO MANEIRO!
“Mas que desgraça tá acontecendo?”
Anuk mal consegue se mexer. A multidão o aperta de todos os lados, deixando-o cada vez mais sem espaço e até com dificuldade para respirar.
— Licença, eu tô passando! Licença! O idiota que tá aí é o meu idiota, então saiam da frente!
Uma voz familiar surge no meio da multidão.
— Max? MAX, SOCORRO!
Anuk ergue a mão como se estivesse se afogando.
Max consegue alcançar a mão do garoto e começa a puxá-lo entre a multidão.
— Você me salvou! Sabia que eu te amo?
— Sim, sim, eu sei! Me agradece depois que a gente sair daqui!
Os dois finalmente conseguem escapar da multidão.
Porém, assim que todos percebem que Anuk saiu daquele meio, começam a correr atrás dele.
— Sujou! — Anuk exclama, completamente espantado.
— Corre! — Max grita, começando a correr o mais rápido que consegue.
— Anuk! Max! Aqui! — Charlie grita da entrada da Academia.
Os dois correm até Charlie e os três começam a subir rampas e escadas com uma multidão atrás deles, parecendo um verdadeiro apocalipse.
Só que sem os zumbis.
— Sério, o que tá rolando? E, aliás... EU ESQUECI DA MOTO DE NOVO!
— Eu guardo ela depois! — Charlie responde, dando um sorriso em meio às risadas.
— Esse é o preço de ser famoso, bonitão. Tu tá com uma fama no primeiro ano inteiro! — Max explica.
— Sério? Eu tô começando a odiar essa parada de fama!
Depois de correrem por algum tempo, os três entram em uma das salas de aula e trancam a porta. Os três ficam alguns segundos encostados nela, recuperando o fôlego.
— Bem, chegamos! — Max diz, olhando para a sala.
Todos os outros alunos já estão presentes e observam os três que acabaram de chegar em meio ao desespero. Do outro lado da porta, a multidão quase parece pronta para arrombá-la.
Anuk olha para os colegas e percebe que todos estão encarando o grupo.
— Uau... Que entrada, hein? Tá tipo todo mundo olhando pra gente! — sussurra.
— É meio vergonhoso até... — Charlie responde, incomodada com os olhares.
— Ora, ora... Veja quem decidiu aparecer. Se não é o nosso aluno especial! Anuk Rose!
Uma senhora de certa idade se aproxima dos adolescentes.
— Senhorita Monique, eu posso explicar! — Max diz, ainda segurando a porta.
— Não, senhorita Maxmine. Não precisa explicar. É completamente compreensível quando temos aqui uma celebridade! — a professora responde. — Você se lembra do primeiro dia da senhorita Sayuri aqui?
Todos os alunos olham na direção de uma garota de longos cabelos azul-escuros, sentada na última fileira da sala.
— Hehe... Foi mal, Sayuri! — Max se desculpa, sem graça.
— Não tem problema. Já tô acostumada com olhares! — Sayuri responde, mantendo uma expressão séria e tranquila.
A senhorita Monique então afasta os garotos para conseguir abrir a porta. Assim que ela abre, todos do lado de fora tentam entrar imediatamente, mas a professora os impede.
— Todos vocês pra sala! E eu não vou repetir!
Seu olhar severo é suficiente.
Os adolescentes imediatamente desistem. Aparentemente, ninguém queria descobrir quais seriam as punições daquela professora.
— Essa professora é meio assustadora, não? — Anuk sussurra. — Aliás, quem é essa Sayuri? É famosa?
— Sayuri é uma cantora do Japão fazendo intercâmbio — Charlie explica.
— E, para o seu bem, não irrite a senhorita Monique! — Max acrescenta.
Monique fecha a porta assim que expulsa todos os adolescentes e então se volta para o grupo.
— Pois bem. Parece que finalmente decidiu vir às aulas, Anuk Rose!
— É... Desculpa pelas faltas! — Anuk se explica, meio nervoso.
— Bem, todos gostam de um herói! — a professora responde com um sorriso empolgado.
Anuk pisca algumas vezes, sem entender a mudança repentina. Poucos minutos atrás, ela estava dando uma bronca neles. Agora parecia genuinamente animada com sua presença.
— Subam os três. A aula vai continuar. Senhorita Maxmine, espero que cuide bem do nosso aluno especial.
— C-claro, professora! Cuidar dele é minha especialidade! — Max responde com um sorriso nervoso.
Monique encara a garota e levanta uma das sobrancelhas.
— O-o que foi, professora? — Max pergunta, ainda mais nervosa.
— Nada. Até que vocês formam um casal realmente bonito! — a professora diz antes de se virar e voltar para sua mesa.
Anuk e Max ficam em silêncio.
Por alguns segundos, nenhum dos dois reage.
Então a ficha cai.
— Espera aí... — Anuk murmura.
— Ela disse... — Max completa.
— CASAL?!
Os dois falam ao mesmo tempo.
O rosto de Max fica vermelho na mesma hora. A garota permanece completamente paralisada, enquanto uma pequena nuvem de vapor parece sair de sua cabeça.
— Ih, olha! É o namorado da Max! — alguém grita ao fundo.
A turma inteira começa a entrar na brincadeira.
— Rei e rainha do baile desse ano? Se participarem, têm o meu voto!
— Até que eles são bonitinhos.
— Casalzão, hein!
— Tirou a sorte grande, Max!
Enquanto a sala inteira zoa os dois, a professora simplesmente se senta em sua mesa e pega um café para beber, como se aquilo não tivesse absolutamente nada a ver com ela.
— G-gente, não é assim que funciona... — Charlie tenta acalmar o pessoal, também aparentemente vermelha e nervosa com a situação.
— É-é, rapaziada! Eu e a Max só somos amigos! — Anuk, também envergonhado, tenta explicar o mal-entendido.
Max permanece em silêncio.
Ela começa a caminhar até sua mesa como um robô, cada passo mais pesado que o outro. Quando finalmente chega, senta-se na cadeira e bate a cabeça contra a mesa, escondendo completamente o rosto entre os braços.
— E-eu acho que a Max deu pane total... — Anuk diz, olhando para Charlie.
— Tadinha... — Charlie responde, encarando a amiga.
As risadas continuam até que, finalmente, a professora chama a atenção dos alunos e pede que voltem ao foco.
A sala de aula lembra uma sala de faculdade americana. As mesas são ligadas e comportam até seis pessoas, organizadas em diferentes níveis. Pequenos degraus levam de uma fileira à outra, e quanto mais para trás, mais alta fica a mesa.
A aula segue como qualquer outra. Por mais que seja uma escola de elite, ainda existem matérias básicas, como matemática, história e outras. Os alunos possuem uma sala fixa, enquanto os professores é que trocam de sala. Além disso, existe um pequeno intervalo entre as aulas para que os estudantes possam conversar.
— Lembrem-se: estudem a página cinquenta para a próxima aula! — a professora Monique diz enquanto deixa a sala.
Max passa a aula inteira com a cabeça abaixada. Quem precisa anotar a matéria para ela é Charlie.
Durante a aula, ninguém fala nada. Todos parecem focados e concentrados. Mas, assim que a professora deixa a sala, o barulho rapidamente toma conta do ambiente.
E não demora muito para a notícia do dia virar o principal assunto.
— É o aluno novato?
— Tá falando do Anuk?
— A gente deveria falar com ele?
As pessoas encaram Anuk, mas o garoto nem presta atenção.
A única coisa que ele está fazendo é investigar o lugar com os olhos, procurando alguém.
Até que finalmente encontra.
— AKI!
Aki, que está sentado em uma das cadeiras mais próximas do fundo e da parede, tenta se esconder. Ele encolhe o corpo e coloca um livro na frente do rosto.
— Não adianta se esconder. Eu te vi, bobão. Vem cá! — Anuk continua.
Ainda envergonhado, Aki decide fazer o que o amigo pede. Ele sabe que, se não fizer, é capaz de Anuk inventar alguma coisa ainda mais vergonhosa.
— Fala, cara! Como tá? — Anuk pergunta com um sorriso ao ver o amigo. — Senta aqui com a gente.
— E-eu não sei se deveria... — Aki responde, desviando o rosto.
Anuk imediatamente o puxa pelo braço, como se ele fosse um boneco, e o coloca sentado ao seu lado.
— Para de palhaçada! — diz, rindo.
Assim como Max, Aki se encolhe ao lado do amigo.
As pessoas observam os dois, mas os olhares parecem diferentes. Não são exatamente para Anuk.
São para Aki.
O garoto sente aqueles olhares como julgamentos silenciosos, como se todos estivessem dizendo que ele não deveria estar ali.
— A-Anuk... Eu acho que deveria voltar pro meu lugar...
— Você prefere ficar sozinho a estar com os amigos? — Anuk pergunta, confuso.
— É-e que tá todo mundo olhando...
Aki tenta esconder o rosto atrás do livro.
— Olha, eu tô começando a achar isso normal, honestamente. É só não ligar pra eles! — Anuk responde despreocupado.
Outra conversa começa a surgir pela sala.
As pessoas começam a se lembrar do que aconteceu no primeiro dia de Academia.
— Espera... ele não foi o cara que bateu no Denis?
— Agora que você tá dizendo, foi ele mesmo!
— Nossa... O Denis tava tão irritado com isso.
De repente, um barulho alto toma conta da sala.
Alguém acabou de dar um soco na própria mesa.
— Então foi ele que bateu no Denis?
A voz atravessa a sala, vindo do primeiro andar.
Anuk, Max e Charlie olham na direção do som.
Um homem alto, negro, forte e careca começa a caminhar na direção deles. Ele veste um típico casaco de atleta e sobe os degraus até chegar ao lado da mesa onde estão Aki e Anuk.
— Então... Me confirma isso, herói da vida real? — o desconhecido pergunta com uma voz forte e irritada.
Aki começa a suar. Seu corpo inteiro treme, e ele olha ao redor procurando algum lugar para fugir, mas não encontra nenhuma saída.
— Anuk, você não precisa responder. — Max diz, olhando para Anuk.
— N-não faz isso, Anuk... Por favor... — Aki implora, com os olhos começando a se encher de lágrimas.
Anuk se levanta.
Ele encara o outro garoto com um olhar sério e firme, sem demonstrar qualquer sinal de intimidação diante da presença dele.
Toda a sala fica em silêncio, esperando o desfecho.
— E se fui eu? — Anuk responde, convicto.
O outro garoto continua sério e começa a esticar lentamente o braço na direção de Anuk.
Anuk imediatamente assume uma posição de combate.
Porém, para surpresa não só de Anuk, mas de todos ali, o que acontece em seguida é completamente inesperado.
— QUE FODA! HAHAHA! EU QUERIA DAR UMA SURRA NAQUELE OTÁRIO, MAS TU FEZ PRIMEIRO! Tu tem meu respeito!
O garoto pega Anuk pelo pescoço e dá um cascudo nele.
— Q-quê... Que?
— Eu sou Bruno. Bruno Noir! — o aparente valentão se apresenta com um sorriso animado.
— Ah... Anuk Rose! — Anuk responde, apertando a mão de Bruno.
— E tu ainda é o herói da vida real, hein? Tu definitivamente é um homem foda! Se alguém mexer contigo, pode falar comigo que vai ter que se resolver comigo, my friend! — Bruno explica.
— C-claro, parceiro... Sério, eu não tô entendendo nada!
— Aí, Bruno! Vai se juntar com esse merdinha? — um grupo de atletas pergunta da fileira da frente.
Bruno vira lentamente o rosto na direção deles.
— Por quê? Vocês têm algo contra?
Ele estala os dedos.
— N-não, que isso! Vai na fé, irmãozinho!
— Então...
Bruno se vira novamente para Anuk.
— Tem algum problema eu andar com vocês?
Anuk fica alguns segundos tentando entender o que está acontecendo, mas não consegue chegar a nenhuma resposta lógica.
Então simplesmente sorri.
— Claro! Senta aqui com nós!
— Impressionante a capacidade desse idiota de atrair pessoas sem fazer o mínimo esforço — Max comenta, soltando um suspiro aliviado.
— E também só ele pra trazer você de volta pra Terra, né, amiga? — Charlie diz, rindo baixinho.
— O-o que você quis dizer com isso? — Max pergunta, ficando vermelha novamente e deixando a voz subir um pouco mais do que o necessário.
Bruno se senta ao lado de Anuk e Aki e começa a conversar com Anuk.
Enquanto isso, Aki observa a situação, tentando entender como Anuk consegue atrair pessoas daquele jeito.
“Max, Charlie... Até o Bruno agora. Ele tá aqui há algumas horas só, mas já atraiu essas pessoas incríveis. Realmente, o Anuk tem algo especial... Queria ser mais como ele.”
Bruno então olha para Aki.
— Aí, maninho, foi mal pelo Denis. Ele é um otário. Quando fiquei sabendo o que ele fez, fiquei doido pra dar uma surra nele, mas, por sorte, alguém já tinha feito! Se precisar de ajuda, pode me chamar, ok? Amigos do Anuk também são meus amigos!
Aki encara o atleta sem entender o que está acontecendo.
Ninguém nunca tinha prestado atenção nele daquela forma. Agora alguém que ele considerava popular estava se desculpando com ele e oferecendo ajuda.
Aquilo parecia surreal.
— O-ok... Eu acho.
— Aí, Aki! Não vai precisar depender de mim sempre que legal, hein! — Anuk diz com um grande sorriso. — Já tá fazendo mais amigos!
Aki apenas encara Anuk com uma expressão séria e pensativa.
— Vocês também, garotas! — Bruno diz, virando-se para Max e Charlie.
— Claro. Agradecemos a ajuda, Bruno! — Max responde, tentando manter sua postura séria e superior, enquanto Charlie apenas dá um sorriso gentil.
— Anuk Rose... Um criminoso ou um herói com segredos?
Uma nova voz invade a conversa.
Todos olham assustados na direção de uma garota de longos cabelos lisos e prateados, vestindo um casaco roxo e com olhos da mesma cor.
— Q-quê...? — Anuk pergunta, receoso.
— Dois acidentes. Duas vezes você no mesmo lugar. Duas vezes sem vítimas. Pode parecer coincidência, e você sempre chega só depois do acidente já estar acontecendo. Mas como você consegue salvar as pessoas sem nenhuma fatalidade? Os acidentes não são acidentes? Você planejou aquilo por fama ou... você esconde algo que nenhum de nós sabe? — a garota pergunta, aproximando-se e encarando Anuk diretamente nos olhos.
“E-ela sabe?”
As mãos de Anuk começam a tremer.
A simples possibilidade de alguém descobrir seu segredo, seus poderes, poderia trazer problemas de tamanho inimaginável. Até aquele momento, Anuk tinha sido cauteloso justamente para evitar isso.
Mas aquela garota acabara de plantar uma dúvida cruel em sua cabeça.
— Kaguya, para de tentar formular teorias insanas! — Max responde, encarando a investigadora.
— Olha, Max, não é porque ele é seu namorado que tá impune! — Kaguya responde, pegando um pirulito e encarando Max com um sorriso debochado.
— Q-quê...
Os olhos de Max parecem virar dois redemoinhos, e a fumaça em sua cabeça volta a aparecer.
— Ela deu defeito na Max de novo. — Charlie comenta, encarando a amiga, já conformada.
— Porém, ela tá certa — Kaguya continua, colocando o pirulito na boca. — Não tenho nenhuma prova contra nosso herói da vida real, então não passam de teorias insanas. Mas não é por isso que vou deixar você sem supervisão, herói!
Anuk solta um suspiro aliviado e sente o coração desacelerar aos poucos.
“Essa garota quase me deu um infarto...”
— Dito isso, eu gostei bastante de você, popular herói. Quero ver suas ações de perto! — Kaguya diz, sentando-se ao lado de Anuk.
— Ei, Kaguya! Esse lugar era meu! — Bruno reclama.
— Era, Bruno. Ou você quer que eu fale da-
— NÃO!
Bruno imediatamente interrompe Kaguya.
— Cara, sério. Você tem que parar de investigar as pessoas, Kaguya.
— Esse é meu trabalho, querido atleta! — Kaguya responde com um sorriso debochado enquanto dá outra mordida no pirulito.
— Espera... POR QUE VOCÊ TÁ AQUI, KAGUYA?! — Max pergunta, irritada ao perceber a presença da garota ao lado de Anuk.
— Você não ouviu nada do que eu disse, amiga? — Kaguya responde, fechando os olhos e colocando os braços atrás da cabeça.
— Calma, amiga... Calma... — Charlie diz, tentando segurar o demônio que começava a se formar ao lado delas.
“Até a Kaguya? Quem é você, Anuk Rose?”
Aki observa a bagunça se formando ao seu lado, com Max, Charlie, Anuk, Kaguya e Bruno discutindo.
— Que grupinho bem alegre vocês têm aí...
Outra voz invade a discussão.
“QUANTAS PESSOAS VÃO VIR AQUI?!”
Anuk olha novamente para ver quem é a próxima pessoa.
Dessa vez, porém, todos, exceto Anuk, têm uma reação de surpresa — e até preocupação.
— Anuk Rose, gostaria de conversar com você — diz um estudante de cabelos pretos e olhos azul-marinho. Entre todas as suas características, suas roupas chamam bastante atenção por parecerem caras, além de sua beleza ser completamente deslumbrante.
— H-Hana... — Charlie diz, com a voz falhando.
Ela encolhe o corpo discretamente.
Max percebe que a amiga começa a tremer ao seu lado. Sem dizer uma palavra, coloca a mão sobre a dela e a encara com um olhar sério.
— O que você tá fazendo aqui, senhorita Becky?! — Kaguya pergunta, encarando-a com um olhar frio.
— Meu mano não precisa te aturar, Hana. Se encher o nosso saco, eu mesmo te tiro daqui — Bruno diz, completamente irritado.
Aki apenas encara Hana como se tivesse perdido a própria alma. Não consegue se mover, nem sequer emitir um som, como se estivesse diante da situação mais tensa de sua vida.
— Não tenho assuntos a tratar com nenhum de vocês. Meu foco é o Rose, então não se metam! — Hana responde com um olhar frio e ameaçador.
Seus olhos parecem observar todos de cima, carregados de superioridade e soberba.
— Quem é você? — Anuk pergunta com cautela.
Ele nunca tinha visto Max tão irritada na vida. E todos os outros ali pareciam muito mais alertas do que o normal.
— Hana Becky. Muito prazer. Sou a estudante especial governante! — Hana responde com um tom sofisticado e formal, como se até mesmo sua voz quisesse demonstrar superioridade.
— Especial? — Anuk pergunta, confuso. — Tipo eu?
— Sim e não. Nós temos o mesmo título, entretanto, nossas funções são diferentes. Você é o estudante herói, conhecido por seus atos de bravura e força. Eu, por outro lado, sou conhecida pela minha forte liderança e poder para governar.
— Em poucas palavras, a filha do prefeito — Kaguya completa.
— Corretamente.
“A filha do prefeito? Até ela tá aqui? Espera... O prefeito tem filha?”
Anuk se sente cada vez mais perdido naquela conversa.
— Tá, e o que você quer? — pergunta a Hana.
— Além de conhecer o outro aluno especial? Informá-lo devidamente para não abaixar sua guarda. Pois, no primeiro deslize, você vai ser morto! — Hana diz com muita seriedade e frieza.
— M-morto? Como assim?
— Nós somos os alunos especiais dessa escola. Não somos os únicos, mas somos os representantes desta Academia, o que significa que, além de aliados, somos rivais. Nós vamos representar a AGF no futuro e, se você não seguir na linha, significa que será descartado, passado para trás e morto pelos outros estudantes — Hana explica, sem mudar seu tom.
— É sério isso? — Anuk pergunta, cada vez mais tenso.
— Sim. E eu farei questão de esmagar você igual a um verme. Então, se quiser proteger sua reputação e a dos seus amiguinhos, sugiro que não me ignore!
Anuk fica em silêncio.
Seu olhar muda.
Ele encara Hana de maneira extremamente séria, claramente irritado com a ameaça.
— Você fala muito pra alguém que ainda está no primeiro ano, senhorita Becky!
Uma nova voz se intromete, respondendo à ameaça de Hana.
— Veja só... Demônio do controle.
Hana encara outra garota que sobe as escadas em sua direção.
Ela possui a mesma aura de superioridade que Hana, como se tudo ao redor fosse inferior a ela. Seus cabelos ruivos estão presos em um coque, e seus olhos amarelados carregam uma expressão ameaçadora.
— Demônio? O que foi? Tem tanto medo assim de mim? — a garota responde com um sorriso sarcástico.
— Não. Só estou me referindo a você apropriadamente, Nirak! — Hana responde, com um olhar ainda mais frio.
— Bem, então, se eu fosse você, tomava cuidado com esse demônio. Porque, se você ficar falando de esmagar, talvez nem veja quem te esmagou.
Nirak encara Hana na mesma altura e com o mesmo olhar desafiador.
As duas permanecem frente a frente.
O clima na sala fica cada vez mais pesado. Ninguém solta uma palavra enquanto todos observam aquela disputa silenciosa na escada.
— Enfim... Já passei o recado que eu gostaria, Anuk Rose. Espero que possamos colaborar um com o outro e que você não fique no meu caminho! — Hana diz, fechando os olhos e jogando os cabelos para os lados enquanto começa a descer as escadas.
Anuk acompanha a garota com os olhos.
— Eu não entendi nada, honestamente...
— Não se preocupe. Hana é assim mesmo, se acha a dona do mundo! Prazer, Nirak! — Nirak diz, virando-se para Anuk e estendendo a mão.
Anuk olha para a mão dela, ainda cauteloso.
— Prazer... Anuk. Você veio me ameaçar também?
Nirak fica em silêncio por alguns segundos.
Então começa a gargalhar.
Anuk não entende nada daquela reação. Mas, aos poucos, percebe toda aquela aura ameaçadora desaparecer.
— Desculpa, desculpa! — Nirak diz, limpando uma lágrima do canto do olho. — Seus sentidos são bons. Eu achei que só a Hana iria sentir minha intenção ameaçadora, mas você conseguiu sentir também. Estou impressionada.
“Ela parece alguém completamente diferente de antes. Pra onde foi todo aquele ar de superioridade? Por um segundo, eu jurava que ela era pior que a Hana...”
Anuk continua cauteloso.
— É... Eu achei que vocês fossem meio parecidas. Perdão — diz, meio evasivo.
— Não se preocupe. Eu preciso manter a postura se quiser me igualar com aquela ali, mas normalmente não sou assim. Pode ficar tranquilo! — Nirak responde, sorrindo.
Max relaxa os ombros.
— Ainda bem que você apareceu, Nirak. Mais um segundo e eu pulava no pescoço da Hana!
Todos parecem ficar mais tranquilos, e alguns até começam a rir da situação.
— Essa Hana é um saco — Bruno afirma.
— Sinceramente, não sei como tem gente que aguenta aquela criatura — Kaguya acrescenta.
— Não se preocupem. Comigo e Anuk, tenho certeza de que ela não vai encher tanto o saco, né, Anuk? — Nirak diz sem tirar o sorriso do rosto.
— É... Eu acho que sim... — Anuk responde, ainda um pouco tenso.
— Bem, vou sentar perto de vocês. Quero ouvir todos os papos do herói da vida real!
Nirak se senta na frente de Anuk.
— Até você, Nirak? — Max diz, deprimida.
— Relaxa, amiga. Não vim roubar ele de você.
— AAAAAAAAAAAAA!
Max grita enquanto bagunça desesperadamente os próprios cabelos.
A reação faz todos começarem a rir automaticamente.
E, finalmente, o clima de tensão que havia tomado conta da sala desaparece.
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