Fragmentos do MultiversoVolume 1 – Capítulo 8 – Capítulo 8: Anuk Rose
Capítulo 8imagens embaçadas de um tempo muito distante. Nada mais que uma lembrança cortada de algo que não existe mais.
— Por favor, sobreviva, meu pequeno menino.
Uma mulher, uma forte tempestade, a lua e uma joia vermelha.
E, de repente, um enorme suspiro, seguido pela respiração ofegante de alguém que acabara de acordar de um sonho... ou talvez de um pesadelo.
— E-eu estou vivo? Mas... como? — Anuk se questionou, olhando ao redor.
Ainda era estranho. Ele sentia a mão formigar, e a ferida que antes deveria estar em seu peito simplesmente não existia mais. Observava o ambiente ao redor, mas ainda não conseguia processar nenhuma informação. Era como se nada fizesse sentido. Sua mente parecia incapaz de organizar os pensamentos enquanto ele mexia os braços, tentando entender o que estava sentindo.
— E-eu tenho certeza de que aquele cara me deu um tiro e então... eu apaguei. Mas, se foi isso, então por quê? — disse, encarando as próprias mãos trêmulas.
O garoto sentia uma enorme onda de medo e incerteza tomar conta dele. Sua pele estava arrepiada, a respiração irregular e os sentidos ainda estavam zonzos. Até que, de repente, seu celular começou a tocar.
— M-meu celular?
Ele pegou o aparelho em mãos, ainda desorientado, e olhou para a tela sem acreditar no que estava vendo. O nome de Max aparecia ali.
— Não é possível... — Anuk murmurou, ainda incrédulo. — A-alô?
— GRAÇAS A DEUS, VOCÊ NÃO RESPONDE ÀS MINHAS LIGAÇÕES, SEU IMBECIL!
O enorme grito do outro lado fez Anuk se assustar, afastando o celular da orelha. A bronca provavelmente seria capaz de ser ouvida até mesmo por alguém que não estivesse na ligação.
"Ok, eu definitivamente tô vivo."
— Não precisa gritar no meu ouvido, aí! — Anuk respondeu, tentando não demonstrar que havia algo errado.
— Anuk Rose, onde você tá? — A voz furiosa perguntou em um tom quase assassino.
— Onde eu tô?
Anuk olhou ao redor, encarando o lugar escuro em que se encontrava.
"É uma ótima pergunta, na verdade..."
— E-eu tô bem. Só tive uns probleminhas, mas pra que todo esse estresse?
— Seu idiota, você perdeu o primeiro dia de aula! — Max exclamou.
— E-espera, o quê?
Anuk arregalou os olhos.
"Quanto tempo eu fiquei apagado? Espera... e a garota? Ela tá bem?"
— Max, você foi à cafeteria ontem à noite ou hoje? — Anuk perguntou rapidamente, cortando qualquer outro sermão que ela pudesse dar.
— Hã... não? Por quê?
— Tá bom! Eu te encontro lá. Beijos, te amo!
Anuk desligou o celular imediatamente.
— P-pera, q-quê?
Essas foram as últimas palavras que Anuk ouviu de Max antes de desligar.
— Ótimo. Como eu saio desse lugar agora? — perguntou a si mesmo, observando a escuridão.
O garoto começou a tatear as paredes do ambiente em busca de uma saída. Depois de alguns minutos, encontrou o que parecia ser uma pequena porta.
— Ótimo.
Anuk começou a empurrá-la, mas ela não se moveu. Ele tentou novamente, dessa vez colocando mais força, até finalmente arrebentar a porta e derrubar algumas caixas que estavam do outro lado.
Ele finalmente saiu do porão e percebeu que ainda estava no armazém da noite passada.
"Eles devem ter me deixado lá embaixo pra ninguém me encontrar e não levantarem suspeitas. Mas que desgraçados... enfim, não importa. Eu preciso sair daqui."
Enquanto Anuk caminhava em direção à saída, percebeu que havia algo estranho no ambiente. Todas as caixas e armamentos tinham desaparecido, como se nunca tivessem sequer existido.
"A polícia fez a limpa? Ou eles conseguiram tirar aquilo tudo a tempo? Não seria possível... seria?"
Quando Anuk pisou na entrada principal, algo o incomodou. Sua cabeça começou a doer de uma forma que ele nunca havia sentido antes. Não era uma dor de cabeça comum. Era quase como se sua própria cabeça estivesse gritando com ele.
— M-mas o que é isso? Parece que tem um bicho na minha cabeça...
Por alguns segundos, Anuk ouviu algo rasgando sua mente: um grito bestial e poderoso, um rugido capaz de fazer tudo ao redor estremecer.
Seus olhos se moveram inconscientemente para o chão.
Seu corpo reagiu antes mesmo que pudesse pensar.
Anuk saltou para trás e, de repente—
BOOM!
Uma explosão ocorreu exatamente no lugar onde ele estava.
Sua mente voltou ao normal aos poucos, enquanto o garoto permanecia paralisado, encarando o local da explosão. Sua boca estava entreaberta, os olhos arregalados e o rosto ainda carregava a expressão de quem não conseguia compreender o que acabara de acontecer.
— O que acabou de acontecer? Eu ouvi um rugido? Parecia ser de dragão... Mas por quê? E essa não é a única pergunta. Como eu consegui pular a tempo daquela explosão? E por que diabos tinha uma bomba na entrada? Acho que eu tô ficando maluco.
Anuk continuou, dessa vez com mais cautela. Quando chegou do lado de fora, por um breve momento, foi como se pudesse ouvir toda a cidade ao mesmo tempo. Sua visão também parecia ter se ampliado, permitindo que enxergasse pessoas passando ao longe com uma nitidez absurda. Por uma fração de segundo, tudo parecia se mover em câmera lenta.
— Mas... que porra?
O garoto balançou a cabeça, tentando fazer aquilo parar o mais rápido possível. Para sua surpresa, funcionou. Quando abriu os olhos novamente, o mundo parecia normal.
"Tá... o que acabou de acontecer?"
Anuk encarou o armazém e depois voltou os olhos para a cidade. Pensou por alguns segundos, mas decidiu continuar correndo em direção à cafeteria, torcendo para que estivesse tudo bem.
"Eu não tenho tempo pra parar e entender o que tá acontecendo aqui. Tudo isso é muito estranho. O que importa é que eu preciso ver se o velhote tá bem..."
Anuk seguiu seu caminho o mais rápido que conseguia, mas não conseguia simplesmente apagar os pensamentos da cabeça.
"Aquela bomba... eles deixaram pra caso alguém tentasse me encontrar? Mas isso não chamaria muita atenção? E ainda tem o fato de eu estar vivo... Muitas perguntas... Merda, Anuk. Em que confusão você foi se meter agora?"
Depois de vários pensamentos daquele tipo, finalmente Anuk chegou à cafeteria. Ele parou diante da porta por alguns segundos, encarando-a e imaginando o que poderia encontrar do outro lado. Respirou fundo, segurou a maçaneta com firmeza e começou a abrir a porta.
De repente, sua cabeça voltou a alertá-lo.
Dessa vez, porém, não doía como antes. Era apenas um incômodo, acompanhado novamente daquela sensação de ouvir um rugido dentro da própria mente.
Assim que abriu a porta, o corpo de Anuk reagiu ao alerta como se estivesse sendo guiado por puro instinto. Sua cabeça se desviou rapidamente para a esquerda, evitando algo que vinha em sua direção.
Uma torta.
"Tá bom... as coisas ficam cada vez mais estranhas!"
Depois desse pensamento, Anuk olhou para dentro da cafeteria e encontrou Max e Edward discutindo. Ele nem teve tempo de pensar e partiu em direção a Max o mais rápido que pôde.
— Ah, olha quem tá aí! Quem é vivo sempre aparec—
Max foi subitamente interrompida quando Anuk disparou até ela e a abraçou.
— E-eh... A-Anuk? O-oi...
As palavras quase não saíam da boca de Max. Seu coração disparou, e ela ficou completamente vermelha, sem saber direito o que fazer com os braços antes de finalmente retribuir o abraço.
Anuk permaneceu abraçado a ela por alguns segundos antes de se afastar rapidamente.
— A-ah, desculpa. Eu... eh...
— N-não, que isso! N-não tem problema — Max respondeu com uma risada sem graça, o rosto tão vermelho que parecia prestes a explodir.
— Olha, você tá vivo!
Uma voz feminina surgiu, cortando completamente o clima entre os dois.
Anuk rapidamente se virou e percebeu que era a garota que havia salvado. Ela agora vestia o uniforme da cafeteria.
— Você conseguiu! — Anuk exclamou, com um sorriso enorme.
A garota não respondeu. Também não demonstrou nenhuma expressão. Apenas subiu novamente para o segundo andar da cafeteria, deixando o salão principal.
— Tá bom, Anuk. Pode ir explicando. Que história é essa de mandar crianças pra minha loja? Eu quase expulsei aquela fedelha com uma vassoura! — Edward reclamou, indignado.
— Olha, o senhor gosta muitoooo de ajudar pessoas sozinhas na rua, não é? E ela não tem ninguém. Eu pensei: "Poxa, qual seria o problema?"
— Ora, seu pirralho! Tá achando que aqui é o quê? Uma creche?
— Obrigado por ajudar ela! — Anuk agradeceu, abrindo um sorriso genuíno.
Aquilo foi o suficiente para desestabilizar o velho. Normalmente, os dois continuariam discutindo por muito mais tempo, mas o garoto simplesmente havia encerrado a discussão com um agradecimento.
— N-não há de quê, idiota! — Edward respondeu, acendendo um charuto.
— Ei, não é proibido fumar aqui dentro? — Anuk perguntou.
— Não enche, moleque. Eu sou o dono, eu posso!
Anuk começou a rir ao ver o velho se irritando com a pequena provocação.
"Caramba... eu tava precisando disso. Que saudades..."
Anuk se sentou em uma das cadeiras da cafeteria, mas, no momento em que encostou o corpo nela, pareceu que todas as suas forças simplesmente desapareceram. Seus músculos ficaram pesados, e ele precisou se apoiar para não escorregar da cadeira.
— M-mas o que...?
Max rapidamente correu para ajudá-lo.
— A-Anuk, tá tudo bem?
— T-tá sim... eu acho...
Edward observou a cena de longe com um olhar sério. Permaneceu em silêncio por alguns segundos, dando mais um trago no charuto antes de expelir a fumaça e se aproximar dos dois.
— Max, poderia nos dar licença um minutinho?
— Quê? Mas por quê?
— Eu preciso conversar com o Anuk, a sós. É rápido, eu prometo. Depois eu te devolvo ele! — o homem explicou com uma voz calma e serena.
— T-tá bom, eu acho...
Max se retirou da sala, e Edward se sentou na frente do rapaz.
— Ok, garoto. Me explica o que tá acontecendo.
— C-como assim? — Anuk perguntou, tentando se fazer de desentendido.
— Você claramente está com uma fadiga gigantesca no corpo, e não aparenta ser apenas falta de sono. Você não foi à escola pela manhã e nem mesmo a Max sabia onde você estava desde a noite passada. Não se faça de idiota pra mim. Além disso, você parece diferente.
— Diferente? Como? — Anuk perguntou, confuso.
Edward estreitou os olhos e observou o garoto por alguns segundos.
— Bem, você sempre foi um garoto extremamente forte, mas agora parece mais musculoso. E não sei dizer exatamente como... mas seus olhos parecem mais ferozes do que de costume.
"Sério? Eu não tive nem tempo de me olhar no espelho, então não posso dizer se algo em mim está realmente diferente."
— Vai querer me contar ou não? — Edward insistiu. — Além de, claro, você não traria uma garota desconhecida pra cá só por pura boa vontade.
— E-eu não sei se posso, velhote...
Edward percebeu as mãos do garoto começarem a tremer. Uma das pernas de Anuk começou a balançar para cima e para baixo, enquanto seus dedos se fechavam e abriam nervosamente.
— Olha, garoto. Eu sou um homem bem observador e já vi muita coisa nessa vida. Acho difícil algo me assustar.
— Não é isso, velhote. É que... eu me meti em uma encrenca das grandes e agora eu não sei se posso resolver isso. Eu... eu estou com medo — Anuk respondeu de cabeça baixa, tentando esconder o rosto de Edward.
O homem deu mais um trago em seu charuto.
— Garoto, é normal sentir medo, principalmente quando se mexe com coisas perigosas — afirmou Edward.
— M-mas eu não posso ficar sentindo medo. Não se eu quiser realizar meu sonho. Não se eu quiser proteger a Max... Eu preciso ser mais forte, mas não sei como fazer isso. E agora que a ficha tá caindo, eu só me sinto mais triste...
"É verdade. Agora, parando pra analisar todos os últimos acontecimentos, eu não pude fazer muita coisa e praticamente morri. Eu sou um inútil que não é capaz de proteger nada nem ninguém... Se ao menos eu fosse mais forte, talvez a Max e o Velhote estivessem mais seguros..."
Anuk apertou os olhos, tentando impedir que as lágrimas escapassem. Não conseguiu.
Uma lágrima deslizou pelo rosto.
Por mais forte que fosse mentalmente, toda aquela sequência de acontecimentos havia abalado Anuk de uma maneira que ele nem sabia explicar. Por alguns instantes, aquela sensação de impotência fez com que se lembrasse de como se sentia no orfanato.
Edward encarou o garoto em silêncio.
— É claro que você pode, filho. Todos sentem medo.
Anuk levantou o rosto. Além de abalado emocionalmente, estava sujo e com a roupa rasgada por causa do confronto da noite passada.
— A-até você sente medo?
— É claro. Escuta, você não é forte por não sentir medo. É apenas um tolo! O medo é o que torna as pessoas mais cautelosas e preocupadas. É através dele que o maior poder pode surgir dentro das pessoas: o poder de querer proteger alguém.
Edward colocou a mão sobre o ombro de Anuk antes de continuar.
— O medo só existe porque nós permitimos que ele exista. É impossível alguém simplesmente parar de sentir medo. Todos sentem isso. Porém, o que podemos fazer não é tentar eliminar o medo, e sim aprender a lidar com ele. O que te define, Anuk, não é se você sente medo ou não. É se você age mesmo sentindo medo! Tudo o que você precisa fazer é confiar em si mesmo e jamais deixar o medo te dominar.
"Sebastian dizia que uma das formas de lidar com o medo era simplesmente ignorar e seguir em frente... Mas o que o Velhote tá dizendo aqui faz sentido. Eu deixei o medo me dominar várias vezes e, por isso, hesitei. Não é uma questão de ignorar, mas de conseguir agir mesmo sentindo..."
— Mas e se o medo for maior? E se você não vir nenhuma saída? E se não houver esperança?
— Anuk...
O homem encarou o garoto diretamente nos olhos.
— Sempre existe esperança. A esperança só não vai existir se você deixar ela morrer. Se seu coração parar de acreditar, é aí que a esperança morre. Por isso, não importa o que aconteça, não pare de acreditar em si mesmo. Pois, se a esperança não existir, então você tem que ser essa esperança.
Essas palavras tocaram Anuk no fundo da alma. Ele entendia o significado de cada uma delas, só nunca tinha conseguido colocá-las em prática. Ouvir aquilo de alguém mais velho e de uma forma tão inspiradora, mesmo sem saber exatamente quais eram seus problemas, fez com que Anuk sentisse que Edward realmente confiava nele.
Isso deu forças ao garoto.
— Olha... pra um velho rabugento, você realmente sabe o que dizer! — Anuk disse, com um pequeno sorriso surgindo em seu rosto.
— Esse é o Anuk que eu conheço. O bom, velho e insolente Anuk.
Edward deu um cascudo na cabeça do garoto.
— AI! POR QUE VOCÊ FEZ ISSO? A GENTE TAVA TENDO UM MOMENTO LINDO! — Anuk reclamou, esfregando o lugar do golpe.
— Pra você parar de ser tão idiota e ficar desacreditando da sua força! Nunca duvide de sua força, Anuk. Jamais. Pois você pode alcançar o impossível. Eu sei disso — Edward respondeu, levantando-se da cadeira. — Não vou forçar você a contar o que está acontecendo. Acredito que você possa lidar com isso.
— Eu consigo... Obrigado, velhote! — Anuk respondeu, sorrindo.
— Ah, e mais uma coisa. Você tá tomando muita responsabilidade para si. Se vai seguir por esse caminho, precisa ser sempre forte. Não deve restar dúvidas na sua mente e, se restarem, confie em quem te ama. Lembre-se deles nos momentos mais difíceis, pois isso vai te dar força. Assim, tenho certeza de que você vai conseguir proteger a Max.
— Eu vou dar o meu melhor!
— Eu sei que vai, Anuk. Eu sei que vai — o homem disse, dando uma última tragada em seu charuto. — Só lembre-se de que você não precisa carregar o mundo inteiro nas costas, principalmente sozinho. E quanto mais poder você tiver, mais responsabilidades virão!
— É, eu sei e... espera aí! Você acabou de citar um quadrinho? — Anuk perguntou, rindo em um tom descontraído e zoeiro.
— Não, eu não fiz isso! — Edward negou, virando as costas para o garoto e evitando contato visual.
— Você fez sim! Meu Deus, isso foi tão lindo! — Anuk respondeu, emocionado enquanto zombava do velho.
— Eu juro que te mato!
— É brincadeira, é brincadeira! — Anuk disse, rindo.
— Tá bom. E o que vamos fazer com a guria? Você sabe pelo menos o nome dela?
— Bem, eu tava pensando em deixar ela trabalhando aqui. Já que eu e a Max vamos estar ocupados com a escola, acho que ela pode vir a te ajudar. Ela não tem pra onde ir mesmo. E, quanto ao nome... tá aí uma ótima pergunta. Ela não falou nada?
— Não. Nenhum pio praticamente desde que chegou.
— Vou tentar falar com ela.
— Ok. Só não gostei dessa história de me botar de babá.
— Ah, que isso? Você é quase um paizão! — Anuk respondeu sarcasticamente.
— Agora eu te mato — Edward disse, virando-se e indo em direção ao garoto.
— Não, não, calma aí! É piada!
Do outro lado da porta, em outro cômodo da cafeteria, Max estava encostada com a cabeça na porta, ouvindo tudo o que os dois discutiam. Um sorriso de alívio surgiu em seu rosto. Apesar de Edward ter dito que aquela era uma conversa particular, acima de tudo, ela estava feliz por saber que Anuk estava bem.
— Ok, ok. Eu vou pegar um pouco de ar, velhote. Volto daqui a pouco! — Anuk disse, despedindo-se de Edward.
— Vê se não some por uma noite inteira de novo, moleque! — Edward respondeu, abrindo um jornal.
— Haha, engraçadão você, hein?
Anuk saiu para a rua.
O garoto começou a caminhar pela cidade, pensando em tudo o que havia acontecido e na conversa que tivera com Edward.
"Ele tem razão. Eu posso fazer mais, bem mais! Eu só preciso acreditar em mim mesmo."
Enquanto caminhava pela cidade, Anuk escutou alguns gritos. Parou e olhou ao redor, mas não viu ninguém.
— Eu tô... ouvindo coisas?
— MEUS FILHOS ESTÃO LÁ DENTRO...
Uma voz ecoava no ar, pairando pelos ouvidos de Anuk.
— Isso parece... o meu sonho? Uma voz que grita, mas que eu não vejo? Espera...
Anuk fechou os olhos e respirou fundo, afastando todos os outros pensamentos para tentar se concentrar apenas no som que ouvia. Sua audição pareceu percorrer a cidade, passando por esquinas e ruas, até que finalmente conseguiu identificar a origem.
— Isso é um prédio em chamas! — Anuk exclamou, abrindo os olhos e olhando na direção em que o prédio deveria estar.
Ele ainda não conseguia vê-lo.
— Será que... ele tá longe assim?
Anuk se inclinou, dobrando os joelhos e assumindo a posição de um corredor antes de disparar em direção ao local.
"Honestamente falando, por que qualquer grito me faz parar? Eu tinha que parar de ouvir essas coisas..."
Depois de correr por alguns minutos, Anuk percebeu uma grande onda de fumaça subindo ao longe.
— M-mas isso tá a pelo menos alguns quilômetros de onde eu estava! Como eu ouvi isso? Bem, não importa agora!
O garoto correu até o prédio, onde os bombeiros já estavam no local tentando controlar a situação e acalmar a população. Porém, uma mãe gritava desesperada, dizendo que seus filhos ainda estavam dentro do prédio em chamas.
— Senhora, o fogo está muito alto! Estamos fazendo o possível, mas não podemos deixar ninguém entrar! — o bombeiro respondeu, tentando afastar a mulher e o marido.
— MEUS BEBÊS! POR FAVOR, SENHOR!
Antes que alguém pudesse perceber, um adolescente de jaqueta passou como um furacão e entrou no prédio em chamas, que estava prestes a desabar.
— Ei, garoto! O que você—
O bombeiro tentou impedir Anuk, mas não conseguiu.
Já dentro do prédio, Anuk começou a olhar ao redor.
— CADÊ VOCÊS?
"Eu acabei entrando aqui sem pensar muito. Espero que eles ainda estejam bem."
Então ouviu um grito, um pedido de socorro.
Anuk partiu na direção do som, mas as chamas se espalharam violentamente à sua frente.
" droga..."
O corpo do garoto travou novamente diante das chamas. Seus pés pareciam presos ao chão enquanto encarava aquele fogo ameaçador.
"Não... não mais! Foi o que o Velhote disse. Não dá pra deixar o medo me controlar. Eu não posso ser refém disso. Eu preciso saber lidar com ele, porque eu posso. Porque eu consigo! Pessoas precisam de mim. Não vou deixar mais meu medo me controlar!"
Anuk inspirou o máximo de ar que conseguiu. Encheu o peito, ergueu a cabeça e encarou a parede de chamas.
Então pulou.
Mesmo com a pele ardendo, mesmo sentindo medo e sabendo que poderia se queimar, ele atravessou a barreira.
Dessa vez, não deixou o medo decidir por ele.
Do outro lado do fogo, Anuk se concentrou novamente em busca das crianças. Por mais estranho que pudesse parecer, tinha certeza de que conseguia ouvir a respiração ofegante delas.
— Tô indo! — gritou, tentando tranquilizá-las.
Depois de subir alguns andares de escada e desviar de pedaços de madeira que caíam sobre sua cabeça, finalmente encontrou as duas crianças. Uma menina e um menino, aparentemente com oito anos de idade, estavam presos entre as chamas, em um pequeno vão que havia se aberto entre os andares.
— Tá tudo bem. Eu vou tirar vocês daqui! — Anuk disse, tentando acalmar as crianças.
— Socorro, moço! Eu tô com medo! — o garotinho disse enquanto ele e a irmã choravam em meio àquela confusão sem saída.
— Me escuta, tá tudo bem. Vocês vão sair dessa! Eu tô aqui e vou ajudar vocês!
— M-mas como?
— Vocês vão precisar pular. Eu pego vocês!
— N-não tem como! Tá muito longe, a gente não consegue!
— É claro que conseguem! Confiem em mim. Eu não vou deixar vocês caírem!
O pequeno menino olhou para a irmã.
— Eu vou te proteger, Lara! Você vai primeiro! — disse, tentando engolir o choro e passar um ar de confiança.
— T-tem certeza? — a menina perguntou, apertando forte o braço do irmão.
— T-tenho. Confie em mim.
Anuk observou aquela situação e viu algo muito semelhante a si mesmo. Mesmo diante daquele cenário, sentiu-se inspirado por aquela pequena criança tentando proteger a irmã.
— T-tá bom...
A menina se preparou para pular e olhou para Anuk. Fechou os olhos, respirou fundo e começou a correr.
Então ela pulou.
Por um instante, o tempo pareceu congelar. O vão era alto, e qualquer erro ali poderia custar a vida de qualquer um.
Anuk sabia disso.
Em uma velocidade quase sobrenatural, ele se esticou o máximo que conseguiu e segurou a menina pelos braços.
Ela começou a escorregar de suas mãos.
Anuk reagiu rapidamente, puxando-a para si e jogando o corpo para trás. Com sucesso, conseguiu resgatar a garota.
— Pode abrir os olhos. Tá tudo bem! — Anuk disse, fazendo um pequeno carinho na cabeça dela com uma voz doce.
A menina abriu os olhos e viu o rosto de Anuk sorrindo. Ela não sabia explicar, mas, quando viu aquele sorriso, foi como se o mundo não tivesse mais problemas. Como se, de alguma forma, tudo fosse ficar bem.
— Ok, agora vou resgatar seu irmão. Fica aqui, tá?
— O-ok.
Anuk se levantou e voltou para perto do vão.
— Agora é sua vez. Pula!
— E-eu... eu não consigo.
Anuk se espantou com aquelas palavras, mas, pior ainda, o piso abaixo deles começou a tremer, dando indícios de que poderia desabar.
— A gente não tem muito tempo. Você precisa pular!
— E-eu... eu não consigo. Desculpa. Eu tô com muito medo. Salva a Lara e me deixa aqui!
— Eu não vou embora sem você! — Anuk respondeu com firmeza.
Ele olhou ao redor, tentando encontrar alguma coisa que pudesse ajudá-lo, mas não havia nada. Anuk então forçou a mente, vasculhando cada possibilidade até que uma ideia surgiu.
— Escuta, eu vou te dar algo muito importante, mas preciso que você me devolva, ok?
— Q-que?
Anuk começou a tirar a própria jaqueta.
— Essa jaqueta... foi ela que me deu coragem pra entrar aqui. É por isso que eu tô aqui em pé, conseguindo ajudar vocês. Eu vou precisar dela de volta, mas vou te dar pra que você possa ganhar a força necessária pra pular, ok?
— T-tá...
"Eu queria dar o meu colar, mas acabei de perceber que ele não tá comigo. Enfim, não tenho tempo pra isso. A jaqueta foi a melhor coisa que consegui pensar."
Anuk jogou a jaqueta para o pequeno garoto. Ele imediatamente a vestiu.
Não sentiu nenhuma diferença ao colocá-la, mas, quando olhou para Anuk, aqueles olhos pareciam inspirá-lo a ter coragem.
— Agora vamos pular! — Anuk exclamou.
O menino encarou o abismo para o qual poderia cair. Deu um passo à frente, mas imediatamente recuou. Olhou novamente para Anuk e apertou a jaqueta, fechando os olhos.
Ele estava morrendo de medo.
Mas não queria decepcionar o herói que estava ali, arriscando a própria vida para ajudá-lo.
Respirou fundo.
E pulou.
"Isso!"
Anuk comemorou mentalmente.
No mesmo movimento, segurou o garoto. Porém, dessa vez, a beirada rachou e parte do piso caiu.
Anuk derrapou, perdendo o equilíbrio.
— CUIDADO! — a pequena Lara gritou.
Ele se forçou para trás, usando a força do outro pé para se impulsionar. Saltou o mais rápido que conseguiu, puxando o garoto para os braços antes de se jogar no chão próximo à menina.
— Maninho! Maninho!
A menina correu até o irmão, chorando de preocupação.
Anuk soltou a criança, e os dois irmãos se abraçaram, finalmente seguros.
— Obrigada, moço! — a menina disse enquanto abraçava o irmão, cheia de alegria.
— Não tem de quê. Agora vamos sair daqui — Anuk respondeu, levantando-se e conduzindo as duas crianças para longe do vão.
Entretanto, mais uma vez, Anuk ouviu aquele alerta gritando em sua cabeça.
O mundo pareceu desacelerar.
Sua visão ficou cada vez mais rápida, procurando a origem do perigo.
— O que foi dessa vez...? Ah, não!
Anuk olhou para cima e percebeu que todo o chão do andar superior estava prestes a cair. Metal, madeira, pedras e uma enorme quantidade de destroços começaram a se desprender.
Rapidamente, Anuk empurrou as crianças para um lugar seguro, deixando que os destroços caíssem apenas sobre ele.
— MOÇO! — as crianças gritaram em conjunto, correndo em direção à pilha de destroços.
"Que merda... eu vou morrer soterrado dessa vez?"
O fogo do lado de fora continuava se espalhando, e as crianças começaram a ficar cada vez mais desesperadas.
— MOÇO! SAI DAÍ, POR FAVOR!
— MOÇO!
"Droga... as crianças precisam da minha ajuda... mas eu não consigo me mexer."
Por alguns segundos, o mundo pareceu desacelerar novamente para Anuk. Ele se lembrou de tudo o que havia passado até aquele momento e de tudo o que havia aprendido.
"De novo em uma situação de perigo extremo, Anuk Rose. Você só se mete em confusão... porém..."
Do lado de fora, as crianças começaram a ver a pilha de destroços se mover.
"Tem algo que só você pode fazer, Rose. Então para com isso e se levanta!"
Aos poucos, a pilha de destroços começou a subir.
— M-moço? — as crianças perguntaram, confusas e assustadas.
"Você não pode desistir jamais. Então ainda não. Ainda não é hora de morrer."
As crianças começaram a enxergar a imagem de Anuk surgindo por baixo dos destroços. A cena as deixou completamente impressionadas e sem reação.
"Você já morreu uma vez. Você não quer isso de novo, né? Deixar a Max sozinha? Lide com o medo e não deixe a esperança morrer, Anuk Rose. Tem pessoas que precisam de você. Então anda logo e levanta!"
Por alguns segundos, Anuk forçou os destroços sobre a própria cabeça, usando toda a força dos braços e das pernas. Parecia que estava erguendo o mundo inteiro. O chão sob seus pés não era seguro, mas ele não tinha outra opção além de forçar cada músculo que ainda conseguia mover.
Então, por alguns instantes, Anuk sentiu alguém tocar seu ombro.
Ao tentar olhar, podia jurar que Sebastian estava ali mais uma vez.
Dessa vez, porém, ele sorria com orgulho.
— Você consegue, seu pirralho persistente. Eu sei que você consegue!
Anuk deu um sorriso genuíno.
A imagem de Sebastian desapareceu.
Ele reuniu todas as forças restantes e respirou fundo. Ajustou os dedos, pressionando-os contra os destroços, e então soltou o grito mais alto que conseguia, usando-o como combustível para continuar.
Em uma imagem que parecia ter saído de um filme, Anuk levantou todos os destroços do segundo andar acima da cabeça.
— Uau... — as crianças disseram, impressionadas.
— Legal, né...? — Anuk respondeu, fazendo extrema força para manter aquilo sobre a cabeça. Sua respiração falhava, cada vez mais ofegante.
Anuk então jogou os destroços o mais longe que conseguiu e começou a correr junto das crianças, pegando ambas nos braços.
— Vamos dar o fora daqui!
— Tá bom! — as duas crianças responderam, animadas.
Do lado de fora, os bombeiros continuavam tentando entrar, mas o fogo não permitia. As chamas se espalhavam cada vez mais.
— Como vamos tirar as pessoas que estão aí dentro?
— Eu... não sei.
Em meio à conversa, uma explosão ocorreu no prédio, fazendo todos se afastarem ainda mais. A mãe das crianças começou a chorar desesperadamente.
— Não há nada mais que possamos fazer... — um dos bombeiros afirmou.
Entretanto, em meio à falta de esperança de todos ali presentes, uma silhueta surgiu entre as chamas.
— Senhor, o que é aquilo? — um dos homens perguntou, apontando na direção da silhueta.
— Não pode ser...
O homem e toda a sua equipe ficaram incrédulos.
Eles viram um adolescente atravessando as chamas, protegendo duas crianças em seus braços.
— Ele conseguiu... ELE CONSEGUIU! AJUDEM ELES, RAPAZES! — o homem gritou.
Todos avançaram para apagar o máximo de fogo possível na entrada, abrindo caminho para Anuk e as crianças.
Finalmente, os três estavam fora do prédio, a salvo e em segurança.
— MEUS FILHOS!
A mulher correu em direção às crianças junto de seu marido.
Anuk colocou os dois no chão, e eles rapidamente correram de volta para a mãe. A mulher se abaixou e abraçou os filhos com toda a força que conseguia. Depois, virou-se para Anuk, chorando.
— Muito obrigada... de verdade. Muito obrigada mesmo!
O jovem apenas acenou com a cabeça, sorrindo enquanto observava a família reunida e abraçada, mais feliz do que nunca.
— Aí, rapaz. Como você fez isso? — um dos bombeiros se aproximou, perguntando a Anuk.
— Sabe que eu não sei, senhor? — Anuk respondeu, ainda concentrado na família. — Só sei que eu não podia deixar eles perderem os filhos.
— Você é um cara e tanto, hein? Bem, vem. Precisamos fazer uns exames em você pra ver se tá tudo bem.
— Não, não, que isso! Não precisa, não! — Anuk respondeu, afastando-se rapidamente dos bombeiros e médicos. — Eu tô legal, sério!
— Você tá parecendo um pedaço de carvão! — o homem retrucou.
Anuk parou em silêncio e olhou para as próprias roupas. Além de estarem surradas e marcadas pelos tiros, agora também estavam queimadas.
— É... eu vou pra casa tomar um banho. Agradeço a ajuda! — disse, saindo dali correndo.
Enquanto corria, Anuk reparou em seu braço, que estava coberto por sinais de queimadura. Diante de seus olhos, as marcas começaram a desaparecer, e sua pele se regenerou em uma velocidade surreal.
— É como eu suspeitei... não sei explicar isso, mas, de algum modo, eu tenho poderes — disse o garoto, ainda encarando o braço completamente regenerado.
Seus olhos brilharam.
— Que... DEMAIS!
Anuk não conseguiu conter o sorriso.
— Eu nem sabia que isso era possível. Ou como isso aconteceu. Tipo... poderes. Reais...
Ele então soltou um pequeno suspiro.
— Ok, Anuk. Uma coisa de cada vez. Vamos com calma, viu?
Continuou andando em direção à cafeteria.
"Acho que é bom eu tirar uma folguinha dessa série de eventos, né, universo? Já tá bom por hoje. Preciso realmente descansar! Cara, quando falaram que minha vida ia mudar por completo, eu genuinamente não esperava por isso... Mas tá, tá. Acho que vou fazer uma pizza quando chegar em casa... Na verdade, eu tô muito cansado. Eu vou é pedir uma e me concentrar apenas na pizza! É isso aí!"
O garoto deu uns pulinhos, mas logo começou a se contorcer de dor, sentindo o corpo inteiro reclamar depois de tudo o que havia enfrentado.
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