GuardiõesLivro 1 – Capítulo 10 - A Primeira Guerra!
Capítulo 10Por que o terror tinha que os dominar? Garand, ainda abrindo uma gaiola, não teve nem tempo de reação quando a arma atingiu o chão com força o suficiente para tremer tudo. Lama se espalhou. Restos mortais cobriam tudo como um tsunami de vísceras. O cajado balançou para a esquerda, arrastando por cima de todos que estivessem na frente e não dando a chance de haver gritos — era tão rápido que nem mesmo avisos minutos antes serviriam para preparar todos para a loucura que se iniciou.
“Saiga!”, o rapaz gritou buscando ajuda do amigo. Estava em pânico que até mesmo esqueceu que o som de todos estavam cobertos pelos feitiços dele e do outro. Mas ele viu, sua visão funcionava perfeitamente desde que qualquer coisa estivesse fora da área das gaiolas: Saiga, no meio dos corpos, de pé sem expressar nada, apenas seus olhos fixos no horror.
Os gritos das pessoas. “Meu Deus, os gritos”, era isso que se passava na cabeça de Saiga e, com certeza, na de Garand também. Ninguém ali podia emitir som algum, mas seus rostos. Lágrimas daqueles que sobreviveram e apenas podiam assistir. Alguns tentavam reagir, mas as tentativas de fazer algo eram rapidamente rebatidas por uma arma que originalmente deveria lançar magias, mas no momento servia apenas para açoitar pequenas almas.
Os ogros seguiam os comandos do grande Xamã que ria; gargalhadas altas guiando seus servos para onde se encontravam as presas. As sentinelas, de maneira impressionante, aumentaram os olhos a ponto de cobrir quase que inteiramente seus corpos redondos, podendo notar onde estavam aqueles que não foram alcançados — através de pegadas, manchas no chão, qualquer resquício.
Garand, ainda de pé, avançou para cima de todo inimigo que encontrava. Os feitiços saiam de sua boca com uma velocidade extrema mesmo que ninguém pudesse ouvir. Fogo, raios, socos e chutes. Ele se esforçava ao máximo para salvar o máximo de pessoas possível. Mas e Saiga?
“Me ajuda!”, mesmo que as súplicas de Garand pudessem ser ouvidas era certo de que Saiga nunca reagiria. Pois ali estava o jovem rapaz: no auge dos seus vinte e dois anos, antes vivendo uma vida tranquila em um trabalho braçal, sem nada pelo qual lutar ou se importar com sua vida antes, agora com as mãos na cabeça e com a boca aberta. “O que ele tá fazendo?!”, mas ele não reagia a nada. O que sairia dali?
Mas algo saiu do grande Xamã:
“[Área + Dois + Quilômetros + Magia + Exterior + Anular + Autoridade + Único + Permitir + Fluxo + Mana + Cortar + Persistir + Domínio]!”, um feitiço preciso que correu como uma onda por toda a área dominada pelo ogro gigante no centro. E como se, em um embate, os feitiços dos Guardiões se chocaram com o conjurado pelo lider dos inimigos, criando raios de impacto na tentativa do universo de decidir qual poderia sobressair, mas o dos rapazes falhou. E todos, um a um, se tornaram visíveis.
Os choros se mostraram, se tornaram audiveis. Os gritos de dor, de medo, de pânico. As vítimas do maligno monstro agora estavam na mira das criaturas que antes não podiam as ver. Mas algo dominou tudo por um momento, e isso foi o grito de dor de Saiga. Dor, exatamente essa sensação. Não foi tristeza, impotência, raiva. Foi dor. “Como ele se atreve a ferrar com todo o plano perfeito que eu montei? Não era pra ser dessa forma!”, ele pensava. Aquela dor que ele sempre reprimia na sua vida passada. A dor de tentar e falhar. Mas por que dessa vez machucava mais? Era porque vidas estavam em jogo, sendo descartadas como nada? Não…
Ele olhou para o monstro que alcançava os céus. Seu desejo era que aquela besta estivesse com seu rosto imundo afundado na terra que ele mesmo manchou com as almas de pessoas que não tinham nada haver com quaisquer que fossem os desejos megalomaníacos que ele tivesse. O Grande Xamã iria morrer como lixo.
E se agachando o máximo que seu novo corpo aguentasse forçando suas pernas num ponto de quase romper os tendões, um salto poderoso foi feito. A velocidade extrema garantiu que Saiga alcançasse o rosto daquele ogro demoníaco em um único momento. E seu punho já estava de pé, mirando no enorme olho!
“Morre, desgraçado!”, ele gritou a plenos pulmões.
Mas o Xamã apenas sorriu. Um sorriso debochado.
O golpe de Saiga não alcançou nada. Literalmente. Não podia nem mesmo ser descrito como uma barreira invisível. Era suave, fofo, pelo menos é essa a descrição que poderia ser dada, mas no fim era como se o próprio corpo de Saiga diminuísse a velocidade como se não tivesse mais nada o que se fazer. E, no ar, ainda irritado e com os olhos marejados em sangue, recebeu um golpe potente do seu inimigo: um peteleco com um dedo grande o suficiente que nem sete Saigas seriam o suficiente para se comparar. “Que humilhante”, sua mente, de forma inconsciente, trouxe essa afirmação ao receber o contra-ataque.
“Saiga!”, Garand gritou vendo o amigo sendo lançado. Era como ver uma estrela cadente muito de perto com uma faixa seguindo o objeto atirado. “Mas que droga!”
As pessoas corriam como formigas ao sentir uma vibração estranha no chão. Desordenadas, confusas, gritando desesperadas com seus braços para o alto. Aquelas mais sortudas morriam instantaneamente ao serem atingidas ou devoradas por golpes dos monstros. Outras, mais azaradas, eram usadas como brinquedos até finalmente sucumbirem.
Garand se sentiu pressionado .A cada segundo mudava entre atacar os ogros e lançar feitiços para proteger as pessoas. Por outro lado o Grande Xamã utilizava dos seus feitiços de anulação para impedir que os de Garand funcionassem. De súbito, Garand começou a usar elementos externos com mais frequência, manipulando tudo o que fosse possível no ambiente para lidar com a situação. Lama, sangue, ossos, tudo o que fosse possível. Nada de barreiras ou feitiços de invisibilidade. Sentia que a cada momento poderia desmaiar. “Eu sou o Guardião!”, ele pensava enquanto limpava o sangue que escorria do seu nariz. “Agora eu sei usar essa porcaria! “[Coluna + Ossos + Arrancar + Corrente + Ogros + Ligar + Afastar + Pessoas + Proteger + Perímetro + Resistir + Força + Imposição + Exterior + Manifestar + Persistir]!”, e imediatamente dezenas de ogros tiveram suas colunas puxadas das suas costas com uma tremenda brutalidade e todas elas se ligaram formando uma corrente gigante que se agarrava a outros ogros ainda vivos e os afastava para longe dando a chance do povo fugir com folga. Mas aquilo também não durava por muito tempo.
“Que criaturinha insolente, cheia de mana, mas tão inconsistente”, dizia o Xamã lançando mais uma vez um simples feitiço de anulação. “Mas podemos ficar aqui o quanto você quiser, eu não tenho nada a perder”, a voz daquele monstro era ensurdecedora, vinda de cima e grave como mil trombetas.
E ele estava certo. Garand sabia disso. Ele precisava pensar numa forma de lidar com aquilo. Mas onde estava Saiga?
“Ah…”, um gemido baixo, sem esperança.
Não mais no ar. Agora preso a uma cratera formada por seu próprio corpo ao atingir o topo de um lado do monte que antes subiu. O corpo mole afundado em um buraco na horizontal. Não tinha forças ali, o golpe foi certeiro o suficiente para abalar a confiança do jovem. Mas Saiga não era movido a base de confiança. Ele empurrou o peito para a frente, se soltando da prisão de pedra e caindo de joelho, vomitando sangue o suficiente para matar uma pessoa comum. Ele respirou fundo. No meio da tontura que sentia teve uma inesperada vontade de beber seu sangue de volta. “Se eu botar pra dentro, recupero”, mais uma de suas ideias idiotas.
Mal pôde se levantar. Estava de quatro, seus braços tremendo tentando suportar o peso do próprio corpo. Do seu ponto de vista podia ver Garand lutando contra uma legião de monstros pondo sua própria vida em risco. Queria gritar, dizer para o amigo que ainda estava ali, mas sua voz não estava mais funcional como antes — sentia que a menor força que colocasse podia explodir suas cordas vocais com facilidade. Ele tinha que pensar em algo, mas nada vinha. Olhando para o ogro gigante no centro tentava observar pontos fracos, mas nada vinha. Havia, com toda certeza, uma barreira naquela criatura, mas o tipo era indecifrável. Garand, no chão, tentava usar feitiços contra ele, mas nada o alcançava.
No fim, ele teve uma ideia. E ele esperava que, com toda a vontade do seu coração, aquilo funcionasse.
Suspirando fundo e pondo força na voz, recitou o feitiço lentamente:
“[Barreira + Autoridade + Domínio + Exterior + Xamã + Ogro + Raiz + Base + Braços + Cortar + Romper + Desvincular + Mana + Fluxo + Separar + Isolar + Desestabilizar + Rejeitar + Retornar + Contradição + Fragmentar + Fenda + Expor + Fraqueza + Instável + Persistir + Desfazer + Campo + Anular + Ponto + Brecha + Forçar + Sobrepor + Resistir + Penetrar + Reverter + Vínculo + Interno + Causar + Rachadura + Anular + Vontade + Adversário + Interferir + Impor + Dissolver + Amarras + Aprisionar + Base + Braço + Exterior]!”
Um feitiço longo de anulação. O plano era fazer com que a barreira do Xamã fosse desativada nem que fosse em pequenos pontos do seu corpo. Com isso poderia, de alguma forma, dar uma brecha para que Garand pudesse aprisionar aquilo com quaisquer que fossem os feitiços de aprisionamento que tivesse para usar. Ele tinha certeza de que a mana e resistência do seu corpo naquele momento não seriam o suficiente para ir contra o inimigo, então investiu o máximo possível em um feitiço bem estruturado com mais de dezenas de conceitos. Com a finalização, fortaleceu as amarras de lama e restos de material criadas por Garand, fazendo com que o outro percebesse suas intenções e continuasse nas tentativas de aprisionar o monstro.
“Vocês… VERMINA! Acham que correntes podres vão me deter?! Eu sou o abismo que devora mundos, o sangue que move essa terra maldita! Vocês não são nada além de carne descartável — ossos que quebro quando quero!”, gritou o gigante inimigo, balançando seu cajado de um lado para o outro nos intervalos de conjuração na tentativa de revidar, enlouquecendo a cada fracasso de se libertar. “Quantos heróis já tombaram diante de mim? Quantos exércitos já reduzi a cinzas?! Milhares! E todos gritaram, suplicaram, choraram… como vocês estão fazendo agora!”
Saiga, do topo do monte, preparava seu corpo. Algo estava vindo, mas a loucura do monstro impedia que fosse percebido, mesmo com o grande fluxo de mana se formando.
“Vocês acham que têm poder? Mágica? Eu respiro mágica! Cada alma que arranquei alimenta minha fúria, cada criança devorada grita dentro de mim, e eu vos juro — eu vou esmagar suas esperanças, e cada rosto de vocês será lembrado apenas como pó sob meus pés!”
O jovem abatido, no silêncio da sua mente, conjurou um feitiço: “[Mente + Transferência + Saiga + Mente + Leitura + Copiar + Enviar + Indivíduo + Garand + Alcançar + Área + Um + Quilômetro + Planejamento]...!”
“Uhm…?”, Garand, ainda no campo de batalha, subitamente recebeu imagens de dentro da sua cabeça. As imagens eram conturbadas, mas numa ordem de eventos que fez seu suor descer frio. “Saiga, tem certeza…?”, mas, no fim, mesmo entre dúvidas, se Saiga tem um plano, ele tem que funcionar — era isso que Garand acreditava. “[Terra + Coluna + Ossatura + Corrente + Enredar + Aprisionar + Restrição + Segurar + Firmar + Travar + Fixar + Forçar + Estabilidade + Resistência + Indestrutível + Raiz + Solo + Garra + Presa + Amarrar + União + Direção + Posição + Alvo + Xamã + Base + Braços + Tronco + Pescoço + Puxar + Esticar + Estabilizar + Endurecer + Compactar + Aprisionar + Impedir + Mover + Exposição + Abrir + Vulnerável + Saiga + Preparar + Ataque + Concluir]!”, um feitiço completo, e esse feitiço seria aquele que daria uma abertura para finalizar o inimigo!
“Não adianta que tentem me segurar, escória! Eu não vou perecer por algo tão inútil quanto suas tentativas miseráveis de apenas me segurar!”, ele ergueu sua cabeça para gritar mais alto. “[Calor + Expansão + Dor + Desespero + Alma + Corpo + Exterior + Impacto + Chama + Ardência + Lamento + Pressão + Sofrimento + Terror + Onda + Propagar + Distância + Imediato + Constante + Afetar + Todos + Inimigos + Sentidos + Abalar + Quebrar + Resistência + Subjugar + Reinar]!”, assim que o feitiço foi conjurado, uma onda invisível explodiu do corpo do Xamã como se o transformasse em um sol vivo. O ar em volta se distorceu com o calor sufocante, e a pele dos que estavam próximos ardeu como se chamas rastejasse sob a carne. Mas pior que a dor era o peso nas cabeças dos atingidos: vozes de lamento ecoavam em suas mentes perturbadas, como se cada um sentisse sua própria morte antecipada. Os mais fracos tombaram de joelhos, incapazes de sequer respirar, enquanto até os fortes tinham seus corações esmagados pelo terror.
“Eu vou morrer…”, a magia de Garand fraquejava, mas ele persistia. “Saiga, mais rápido…”
Não tinha mais o porquê esperar. Estava na hora:
“[Luz + Foco + Concentração + Linha + Direção + Precisão + Rápido + Penetrar + Perfurar + Cortar + Rasgar + Atravessar + Distância + Alvo + Xamã + Coração + Energia + Acumular + Intensificar + Expandir + Comprimir + Estabilidade + Controlar + Reforçar + Sequência + Camada + Runa + Potencializar + Sobrepor + Circular + Repetir + Manter + Persistir + Continuar + Fluxo + Fluidez + Corrente + Elétrico + Óptico + Brilho + Claridade…], Saiga se manteve agachado, apoiando as mãos no chão como uma fera pronta para saltar. Seus dentes cerrados rangiam, e cada palavra da conjuração era cuspida como sangue em meio ao caos. O ar ao redor dele tremia, não pelo calor do Xamã, mas pela energia comprimida que começava a girar. Esferas brancas brotavam da sua boca como se fossem pedaços de um sol em miniatura. Círculos rúnicos se abriram diante dele, um após o outro, cinco camadas translúcidas suspensas no ar, cada qual girando em direção oposta à outra. Cada círculo multiplicava e refinava a energia, tornando-a mais fina, mais letal, mais impossível de se deter. Era como se o mundo estivesse prendendo a respiração.
“Eu sou eterno! Eu sou o Grande Xamã de Todos os Ogros, logo mais o de todas as raças! E todos os mundos vão tremer diante do meu nome, começando com a morte de vocês dois, pequenos ratos insolentes!”, gritos de raiva, gritos de desespero — pela primeira vez havia medo na voz do diabo.
“...Impacto + Silenciar + Mortífero + Finalizar + Consumir + Dissolver + Vida + Morte + Cumprir + Alvo + Único + Trajetória + Invisível…”, estava pronto: “... Raio]!”, Então, no exato segundo em que o cajado do Xamã oscilou para um novo golpe, o quinto círculo brilhou como vidro em chamas e a esfera branca desapareceu. O silêncio tomou conta do campo de batalha. Nada, nem vento, nem som. Apenas um traço azul, tão fino que poderia ser confundido com um corte no ar, atravessou a distância em menos de um milésimo. E então aquele fino traço azul cresceu e se expandiu em alguns metros, se assemelhando a um grande laser. O peito do Xamã foi perfurado, a carne, ossos e magia reduzidos a nada no caminho. Não houve explosão, não houve grito — apenas a queda lenta de um colosso que, por um instante, não acreditava que estava morto. De dentro da sua boca uma mancha negra saia e se dispersava no ar.
Não foi de imediato que as reações se deram início pela morte do Grande Xamã. “O que aconteceu…?” era o que se passava na mente de toda criatura que ali estava; as pessoas, os ogros, os goblins, até mesmo das imbecis sentinelas que nem mesmo tinham a capacidade de pensar. Mas ao absorver a situação, era clara a sensação daqueles que eram considerados inimigos dos Guardiões: medo. As sentinelas bateram em debandada. Os ogros fugiram com seus passos longos e pesados, desesperados sem ter mais seu grande líder. Os goblins se agarravam nas costas dos monstros menores. Nada ali tinha coragem de enfrentar aqueles que tinham matado um demônio aparentemente imortal.
As pessoas, fracas e desesperançosas, no mesmo tempo que os monstros levaram para ter medo, puderam sentir esperança novamente. Agora choro era o que se ouvia — gritos em meio a lágrimas de dor, de alegria, de… Esperança!
Já os herois, em frangalhos, se viam um em cada canto: um em meio a lama e outro no topo de uma montanha. Mentes fracas, corpos destruídos e sem energia. Mas nada os impediu de que, com aquilo que lhe restava, levantassem o maior sorriso junto ao polegar.
Garand e Saiga tinham vencido sua primeira guerra naquele dia!
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