Guardiões — Capítulo 9: Livro 1 – Capítulo 9 - Tentativa Falha

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Cap. 9
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Livro 1 – Capítulo 9 - Tentativa Falha

Capítulo 9

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No topo de um monte os dois rondavam. Tentavam descobrir uma forma de entrar sem chamar a atenção, mas a proteção do lugar era extremamente pesada — mesmo formada por criaturas idiotas e imundas, ainda era quase imbatível: centenas de milhares de criaturas animalescas e grotescas, não apenas ogros, mas também pequenos goblins, possivelmente escravos; outros que eram semelhantes a morcegos, mas sem patas e sem boca, apenas um enorme olho na frente de uma bola peluda com duas asas três vezes o próprio tamanho, atuando como sentinelas provavelmente. Os heróis suspiraram, suspiros pesados que quase podiam ser ouvidos a quilômetros de distância. Agora, ajoelhados, pensavam tomando cobertura numa pedra.

“Aqueles morcegos de um olho só devem ser os drones deste mundo miserável”, Saiga reclamava decepcionado.

“O que vamos fazer então?”, Garand se acolhia ainda mais debaixo do pedregulho. “Pensei que você tinha um plano.”

“Olhar de perto é ainda mais assustador, mas eu tenho o plano.”

“E qual é?”

“Eu estive pensando um pouco sobre o conceito de magia nesse mundo, estranhamente eles chamam de mágica, mas ainda assim, eu descobri algumas coisas”, ele puxou um graveto e começou a desenhar num punhado de terra no chão, Garand aproximando o rosto para analisar. “Certo, então, basicamente esse mundo utiliza de conceitos simbólicos para formar as magias dele, fazendo com que tenhamos que conjurar a magia com palavras. Os conceitos são de difícil pronúncia e alguns são até parecidos quando escrevemos eles nos seus respectivos símbolos”, Saiga desenhou duas caixas, e dentro da primeira estava com dez setas desenhadas para cima e diagonalmente perfeitamente retas, enquanto na outra caixa as linhas estavam tortas, mas indo para o mesmo caminho.

“Chama e fogo”, Garand comentou. “Mas entendemos todos perfeitamente porque tem um tradutor universal na nossa cabeça?”

“Exatamente, mas mesmo que a gente saiba ler e pronunciar todos os conceitos, ainda não sabemos como encaixar e fazer todos funcionarem da melhor forma possível porque não temos noção do uso de magia”, cruzou os braços e balançou a cabeça fazendo beicinho. “Às vezes vale mais a pena usar o conceito de chama do que o conceito de fogo, já que esse mundo pode considerar a chama um elemento mais refinado, enquanto fogo é o bruto, saca?”

“E você tá montando toda essa explicação por…?”

“Eu tô fazendo um grande diálogo expositivo sobre nosso sistema mágico já que não te ensinei nada desde a nossa última luta, então cala a boca.”

Garand fez um sinal de zíper na boca.

“Usar os conceitos com ligações erradas quando conjurar uma magia pode ser perigoso, já que constantemente tu usava preposições ao conjurar algo a tua cabeça fritava porque os conceitos mágicos aqui funcionam de forma individual, mesmo quando são ligados. Tem que ser consistente e fazer sentido até na ordem que for conjurar pra nada dar errado”, Saiga apagou todos os símbolos que desenhou no chão. “Eu tô pensando em como nos deixar invisíveis, mas ainda não pensei em quais conceitos usar.”

A cabeça de Garand estava fritando. Ele sabia o que tudo aquilo significava, mas as explicações de Saiga eram tão bagunçadas. “Me parece dificil, não consigo pensar em nada também. O que veio na tua cabeça?”

“Bom, sem a gente morrer ou dar problema?”, Saiga sorriu enquanto juntava as palmas das mãos. “Quem não arrisca não petisca, né Garand?”

“O quê? Não, espera!”, Garand tentou o impedir, mas qualquer movimento brusco ou som um pouco mais alto seria completamente suicida.

“Vamos lá”, e após respirar profundamente: “[Luz + Desviar + Corpo + Garand + Saiga + Ambiente + Adaptar + Andar + Leve + Som + Suprimir + Exterior + Interligar + Visão + Garand + Saiga + Anular + Sequelas]!”

“Por que você teve que adicionar sequelas?!”, Garand gritou quase internamente de tão baixo.

E então…!

“...”

“...”

Nada aconteceu. Pelo menos para Garand, na visão dele. Saiga ainda estava ali, sendo completamente visível. “Que besteira!”, foi o que ele pensou. Saiga notou o olhar furioso do amigo sobre ele, mas apenas riu, ignorando aquela frustração e levantando sem a mínima preocupação. Garand quase o puxou, mas notou uma sentinela passando por ali e voltou rapidamente para a cobertura do pedregulho. “Saiga vai morrer?! E me matar junto!”

Mas, no fim, nada aconteceu. A sentinela olhou, andou, passou por perto e nada. Saiga, inclusive, pulava e abria a boca como se estivesse gritando, mas nada o notava. Nenhum som saia da sua boca ou dos seus pés quando ele pisava no chão a cada pulo. A sentinela, em um certo momento, se aproximou, estando a poucos centímetros do rosto de Saiga, mas nada aconteceu, fazendo com que a criatura apenas voltasse para sua ronda. Com seu habitual sorriso debochado se agachou e escreveu na terra:

“Tentei desativar qualquer forma deles nos perceberem, mas eu e você ainda podemos nos ver”, dado o quão horrível era a escrita de Saiga ele precisou apagar antes de escrever mais. “Vamos descer e libertar as pessoas bem devagar. Temos que fazer isso de um jeito que elas notem que estamos ajudando e que não façam barulho. Depois matamos o líder dos ogros!”

A expressão de Saiga era tão idiota, mas após esfregar o rosto Garand apenas levantou o polegar concordando, porque era o melhor até o momento.

E então eles começaram a descer o monte.

O sistema dos ogros era relativamente simples: Cada carroça carregava uma gaiola com espaço o suficiente para até sete pessoas, mas superlotadas com mais de vinte. “Muitos podem vir de comunidades nas redondezas”, foi o que Saiga pensou.

Quando os rapazes estavam para sair do caminho rochoso, estavam de frente para uma área coberta por mais cinzas, lama e sangue. Qualquer piso em falso deixaria uma pegada. Saiga podia apenas contar com que “andar + leve” fosse uma conjuração funcional o suficiente para não deixar marcas.

Um passo. Ao tocar ali já era notável que não era a melhor das magias, mas nada mais poderia ser feito além de continuar andando. Por sorte, qualquer marca já era coberta por todo elemento ali antes mesmo que fosse feita. “Ótimo”, Garand também havia pensado nisso. Ao finalmente estar ali, deram início ao seu plano. Não se separaram tanto, andando sempre há pelo menos 20 metros de distância de cada um, a menos que a área em que estivessem os impedissem de assim fazer.

O principal problema em toda aquela invasão era o despreparo da dupla. Todo seu conhecimento naquele tipo de situação vinha do serviço militar obrigatório e dos jogos e outras obras que consumiam antes de estar nesse novo mundo. A cada encontro com um ogro de mais de dois metros de altura arrastando um grupo de prisioneiros, o lado emocional deles fazia com que quisessem lutar na mesma hora, mas aquilo atrapalharia todos os planos que, até certo ponto, montaram.

O principal era ir de gaiola em gaiola, ao menos as mais isoladas, e libertar as pessoas lentamente até poder finalmente alcançar um bom número de prisioneiros livres. Se aproximando de uma gaiola Saiga, no meio do silêncio do seu feitiço antes conjurado, conjurava mais um:

“[Luz + Som + Desviar + Ambiente + Adaptar + Área + Cinco + Metros + Interior + Preservar + Exterior + Negar + Ocultar + Gaiola + Sustentar + Ilusão + Repetir + Imagem]!”, com isso em questão de um rápido momento a gaiola desapareceu da visão de Garand.

Ele correu para onde a gaiola estava e, como se passasse por uma porta invisível, voltou a ver a gaiola e Saiga.

O rapaz afeminado escreveu, com seu graveto, todos os símbolos para conjurar o feitiço. Por debaixo escreveu: “Faça o feitiço que eu conjurei em nós dois funcionar nas pessoas assim que elas saírem das gaiolas.” Garand concordou com um joinha, saindo da área do feitiço da gaiola e repetindo o processo.

“[Luz + Desviar + Corpo + Grupo + Interior + Gaiola + Ambiente + Adaptar + Andar + Leve + Som + Suprimir + Exterior + Interligar + Visão + Grupo + Interior + Gaiola + Anular + Sequelas]!”

Era confuso para o povo dali, aqueles que estavam dentro das gaiolas. De repente todas as gaiolas abriam e uma seta era desenhada no chão apontando para um caminho, para fora dali. Demorou um pouco para entenderem a situação. Estavam com medo, talvez fosse um teste dos demônios que os aprisionavam — não era incomum que, por diversão, brincassem dando uma falsa liberdade ou os provassem para ver se realmente fugiriam. Até que em certo momento uma mulher, na casa dos seus 30 anos de idade, deu o primeiro passo: ela carregava uma criança em seu colo, tremia como quem não come há dias; lábios ressecados, cabelos imundos. Ela pisou de fora daquela jaula pela primeira vez em tempos e, de uma maneira impressionante para todos ali, ninguém nem mesmo notava que eles estavam saindo. “Com toda certeza alguém lançou um feitiço em nós”, um idoso esquelético pensou. E de pouco em pouco as pessoas saíram da sua prisão. Algumas, ainda céticas, preferiram ficar, mas vendo que cada vez mais ficavam sozinhas, o medo de continuarem ali se mantendo prisioneiras ao invés de aproveitar as oportunidades, mesmo que assustadoras, fez com que elas se movessem.

“Falta pouco”, foi o que Saiga pensou quando viu Garand a alguns metros de distância conjurando mais um feitiço em mais uma jaula. “Vamos conseguir.”

Era certo de que nem todas as pessoas poderiam ser libertas naquele momento, mas o plano não era libertar todos de uma vez, mas sim ter o máximo de fugitivos possível antes de um combate contra os ogros. Com isso as baixas seriam quase nulas — o plano era que não houvesse mortes por parte dos civis, prezando ainda por libertar mais enquanto lutassem, talvez com um feitiço de “levitar + barreira”.

Uma fila enorme de pessoas se formava indo em direção ao topo da montanha. Alguns, inclusive, já haviam chegado lá, finalmente alcançando a liberdade e indo em direção ao vilarejo ou seja lá onde morassem antes de serem raptados. Para evitar que as pegadas permanecessem no solo pelo andar de várias pessoas no mesmo lugar um dos prisioneiros fez com que andassem separados e sempre em zigue-zague, assim não chamariam mais atenção do que esperavam chamar. Extremamente inteligentes. A empolgação de liberdade, tanto dos salvadores que ninguém via quanto dos que eram salvos. Faltava pouco. Eles viam as pessoas no topo já balançando seus braços como um sinal de “Ei, eu já estou aqui”.

Mas nada é como todos querem. O destino não é gentil, ele apenas é. E basta apenas uma senhora um pouco mais fraca e incapaz de suportar o caminhar entre corpos e cinzas que tudo desmorona. Basta apenas uma pessoa cair, causando uma disrupção um pouco maior na lama. Basta que uma pequena desordem comece para que, sem aviso prévio, um cajado de metros de largura atinja o chão e o pinte com sangue de inocentes.

“Fugitivos!”

Fim da leitura

Capítulo 9 concluído

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