Guardiões — Capítulo 11: Livro 1 – Capítulo 11 - Matar Todos os Ogros

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Cap. 11
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Livro 1 – Capítulo 11 - Matar Todos os Ogros

Capítulo 11

1.870 palavras~8 min de leitura

“Cara, isso dói…”, Garand reclamou.

“Você acha que eu não sinto também…?”, Saiga reclamou.

“Ah…”, bufaram em coro.

Estavam praticamente se arrastando. Um no braço do outro. Naquele momento quase não havia energia em seus corpos.

Juntos a pelo menos uma centena de pessoas estavam indo em direção ao vilarejo de Tanegashima. Alguns desviaram do caminho utilizando alguns cavalos saudáveis e carroças minimamente decentes que ainda estavam sob o antigo domínio do Xamã, já que suas vilas estavam em outra parte da região. Mas uma coisa era certa: o sorriso no rosto de todos. Mesmo cansados, ver as pessoas sorrindo dava energia para Garand e Saiga sorrirem também.

“Quando a gente for ver o Tanegashima eu vou dar um soco na cara daquele velho…”, disse Garand.

“Que isso, irmão…”, Saiga gargalhou, fraco. “Eu quero dar um abraço na Mauser, saudades daquela garota.”

“Saudades daquilo? Ela mordeu meu pescoço!”

“Aham, ela é divertida, o problema é que você passou um tempo desacordado na primeira vez que nos conhecemos”, Saiga levantou o indicador, fechando os olhos com um sorriso presunçoso. “Sua primeira impressão interagindo com ela foi levar uma mordidona no pescoço, mas isso só incomoda você.”

Garand olhou com desgosto. “Tá falando isso só porque ela é mulher? Eu sou casado.”

“Hein? Eu não! Não gosto de criança!”, Saiga beliscou as costas de Garand, que revidava com mais beliscões. “Eu só tô falando que gosto da menina e que ela é uma grande amiga nesse mundo!”

“Eu sou teu amigo, babaca!”, nesse ponto já estavam se enforcando.

“Mas tu é um loiro de quase dois metros agora, então sai de perto, esquisitão!”

As pessoas ao redor apenas riram daquela situação. Era divertido, pareciam duas crianças discutindo por algo que nem mesmo sabiam o real motivo. Que situação de paz. Aquilo era… revigorante.

Mas por que a paz naquele mundo era quase que impossível de se ter?

“Uhm…?”, Saiga notou algo ao fundo. “Calma aí, cabeção.”

“Hein?! Agora tá amarelando?!”, Garand puxou as bochechas do amigo, gritando no seu ouvido.

A reação de Saiga: girar o homem com um único braço, o lançando de cara no chão. “Aquilo ali é o que?”, a alguns quilômetros de distância havia fumaça. Uma pequena faixa de fumaça se formando no horizonte. Fumaça preta. Subia junto de outras faixas. E mais se formavam. O céu antes azul agora se tornava negro, assim como no dominio do Grande Xamã. “Aquilo é fogo…?”

“E eu sei lá!”, Garand ainda estava com a cara enterrada. “Deve ser, sei lá!”

A lentidão de Garand foi o suficiente para, quando se levantasse, assim que tirou a terra dos seus olhos não visse mais Saiga ali. “Pra onde ele foi?”, perguntou olhando aos arredores. As pessoas ali, pelo menos aquelas que também não estavam hipnotizadas pela fumaça, apontaram naquela direção em resposta. Garand, entrando em pânico, seus olhos vibrados em um único segundo quando percebeu a situação em que estava. E, assim como Saiga, ele já não estava mais ali.

“Mas que droga, o que aconteceu?!”, estava em meio às árvores atravessando tudo: galhos, arbustos, troncos. Nada restava na frente de Garand que, em surto, esqueceu completamente da energia que seu corpo já não tinha mais. Corria como louco. “Os ogros? Eles fugiram para vila? Eu pensei que eles fugiram de medo para outro lugar! Por que eu não pensei nisso?! Por que a gente se sentiu tão confortável só por matar o chefão?!”

Quinhentos metros. Estava perto. Não havia gritos, então ninguém estava morrendo?

Duzentos metros. Mas e se os gritos já tivessem parado por todos estarem mortos?

Cem metros. Não tem nenhum som além das lascas do fogo na madeira. “Por favor, por favor…”, súplicas vazias.

O destino pode ser cruel.

“Meu Deus…”

Não havia uma única alma viva. Uma única pessoa de pé, nem mesmo os monstros que supostamente deveriam estar ali matando tudo. Apenas fogo, corpos mutilados e construções derrubadas. Aqueles que antes olhavam para Garand com dúvidas, estranheza, agora estavam mortos. Aqueles que o carregaram para a igreja quando o mesmo caiu dos céus após os salvar. Todos mortos. Sua garganta doeu. “Onde todos…”

Próximo a uma pequena casinha estava uma mulher de pé. “Saiga!”, Garand gritou correndo em sua direção.

Estava de costas olhando para a construção em chamas. As rochas por cima do corpo de um homem velho. “O pai da Mauser…?”, Garand pensou, desesperado. “Saiga, olha pra mim, a gente precisa… Saiga?”, pegando no ombro do amigo e o puxando com força para o olhar, agora notou: nos braços magros e trêmulos de Saiga estava aquela que eles salvaram pela primeira vez. A jovem menina que foi seu primeiro contato com o mundo exterior. Estava morta, a garganta aberta e olhos fechados. Sua pele pálida, gelada, sem vida. Quando Garand levantou a cabeça para ver aquele que carregava a garota, viu apenas um olhar vazio. Saiga já não tinha mais esperança. Nada havia mais ali. Lágrimas, raiva, loucura. Nada. Apenas mais um corpo morto.

“Saiga, a gente precisa fazer alguma coisa!”, Garand tentava o balançar, um sorriso forçado e doentio em seu rosto. “Deve ter algum feitiço para reverter isso, né? A gente pode pensar em algo!”

Saiga caiu de joelhos. Abraçava o corpo já sem vida como uma mãe abraça um bebê. “Droga, Saiga, a gente precisa fazer algo! Se levanta!”, a voz tão fraca, tão sem energia, mas gritando o mais alto que podia. “Saiga!”, mas sua voz não alcançava o Guardião sem vontade. Porém…

“O que isso?”, sua voz alcançou os ogros.

Virando lentamente apenas sua cabeça, vindos da igreja Garand viu: Carregando um corpo magro e já sem vida, o corpo de Tanegashima, um corpo que travou com uma expressão de dor e pânico, olhos revirados e boca presa em um grito já silencioso, os ogros saiam com rostos tranquilos. Suas raivas, seu pânico já havia se esvaído por perder o mestre. Agora estavam mais… tranquilos por terem desestressado nas pessoas daquela vila. Mais duas novas pessoas? Um homem e uma aparente mulher, vítimas perfeitas. Os monstros correram rindo em direção aos dois.

“[Ar + Erguer + Barreira + Proteger + Parede + Resistir + Área + Cinco + Metros]!”, Garand gritou ao erguer uma barreira feita com o ar ao seu redor, os ogros se chocando contra ela com violência.

Os monstros gritaram de raiva, começando a dar a volta para alcançar Garand.

“Droga, Saiga, reage e me ajuda! [Ar + Erguer + Barreira + Proteger + Circular + Resistir + Área + Cinco + Metros]”, agora ao invés de uma parede, Garand formou uma cúpula ao seu redor. Os ogros batiam, chutavam, usavam o corpo de Tanegashima e de outras pessoas para tentar atravessar. Garand cerrou os dentes. “Eu não vou conseguir por muito tempo, Saiga!”

Saiga, ainda de joelhos, começou a lacrimejar no corpo da amiga morta. Mais e mais ogros apareciam, agora eles cavavam ao redor, tentando encontrar um ponto cego debaixo da terra. “Saiga, me ajuda, por favor!”, agora Garand quem chorava em desespero, implorando por ajuda.

“Eu vou matar… matar eles…”, a voz do rapaz aumentava.

“Para de coisa, se for matar pelo menos se levanta!”

“Matar… Matar…”

Uma batida com força vinda do soco de um ogro atravessou a barreira, mas seu punho foi cortado imediatamente ao penetrar na barreira. Garand cuspia sangue, bastante sangue.

“Saiga!”

“[Matar]!”

…

A cabeça de um ogro explodiu. O corpo, posteriormente, explodiu em uma mistura de vísceras, sangue e ossos.

Sangue também escorreu da cabeça de Saiga. Mas ele continuou:

“[Matar]!”, e mais um ogro explodiu. “[Matar todos os ogros]!”, e mais e mais ogros explodiam. O sangue agora escorria dos olhos, dos ouvidos e do nariz de Saiga.

“Irmão…?”, Garand, assombrado, se virou lentamente.

“[Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]!”, corpos explodiram na medida de quão próximos estavam.

Garand pulou para perto de Saiga que agora se tornava uma poça de sangue cobrindo Mauser. “Para, você não vai aguentar isso! Para de gastar essa energia!”, mas nada mais importava.

Um fino som percorreu o ar. Um som como uma linha que percorre tão rápido próximo ao ouvido de uma pessoa, algo próximo a um mosquito em alta velocidade.

“[Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]![Matar todos os ogros]! [Matar todos os ogros]!”, a cada grito vindo da boca de Saiga, o céu se tornava vermelho, um vermelho sangue que dominava tudo. Não havia mais sol, não havia mais nuvens. O que vinha daquilo eram gritos de dor. Mas todos os ogros dali já morreram, então de onde vinham os gritos? Eles vinham de longe, de longe da vila, de longe da região, de longe do continente. E, já banhado em sangue que nem mesmo seu corpo tinha, um último grito saiu: [Matar todos os… ogros]...”

Nada mais saiu de Saiga naquele momento. Garand agora estava em um cemitério. Um cemitério formado por pessoas desconhecidas que ele e Saiga salvariam, mas agora o próprio Saiga…

“Saiga…?”, Garand chorava com uma voz rouca e sem força.

O próprio Saiga, dado a energia gasta em um conceito mágico tão cruel, morreu abraçando o corpo de uma amiga que nem teve a chance de conhecer melhor.

Fim da leitura

Capítulo 11 concluído

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