Guardiões — Capítulo 12: Livro 1 – Capítulo 12 - Mágica Arriscada

Guardiões
Cap. 12
0%
Guardiões

Livro 1 – Capítulo 12 - Mágica Arriscada

Capítulo 12

1.143 palavras~5 min de leitura

Garand estava de joelhos. Sem reação, apenas lágrimas secando em seu rosto. Ao seu redor as pessoas que antes foram salvas agora estão em desespero vendo seus familiares e amigos mortos.

Saiga era coberto por sangue, mas Garand segurava o rosto do amigo com leveza, sem nojo ou repulsa. Ele apenas limpava o sangue das bochechas, da testa, das pálpebras agora fechadas. Saiga morreu com uma expressão de ódio. Garand não reconhecia aquilo, seu amigo nunca teve uma expressão daquela. Se negou. Se negou a aceitar. Ficou travado ali, apenas esperando que todos se levantassem. “Piada de mal gosto”, foi o que ele pensou. Mas aquilo não era uma piada. Ninguém estava rindo. Ninguém estava se levantando. Todos realmente estavam mortos. E foi daí que veio um grito. Um grito que começou baixo, mas que logo dominou o corpo de todos aqueles que ainda resistiam vivos ao redor.

“Saiga, levanta!”, ele se agarrou ao corpo do outro. “Por favor, fica comigo! Não me deixa sozinho aqui!”, baba, catarro, lágrimas, tudo se misturava num choro desesperado e nojento, algo feio e nada teatral. Apenas desespero. “Eu não sei o que fazer! Volta e me diz o que fazer, por favor!”, ele puxou a mão do amigo morto e colocou na própria testa. “Faz que nem antes e me passa suas memórias! Seus pensamentos, se me disser algum feitiço eu posso usar ele facilmente! Eu sou o mago da dupla, lembra?!”.

…

Mas não houve reação.

Uma respiração pesada. Uma respiração rápida que se repetia incessantemente. O que Saiga poderia fazer? Ele não sabia de nada! Nada que pudesse fazer ali. Mas ele se forçou a pensar no desespero do momento.

“Desativa!”, e a barreira antes montada agora se desfez. Ele se levantou, andando em círculos e gesticulando como se estivesse falando com alguém. “Mas isso não funcionaria! Se eu tentar dessa forma, talvez eu não gaste tanta energia! Eu tenho que juntar todos? Sim, se a área for menor!”

E indo de um a um ele começou a juntar os corpos no mesmo canto. Ele foi de pessoa em pessoa naquela vila, todos os mortos sendo arrastados, carregados para um único ponto ao redor da casa de Mauser. As pessoas ao redor ficaram assustadas com aquilo, algumas inclusive tentando impedir que ele fizesse isso com aqueles que eram importantes para ele, mas nada podia impedir um Guardião em desespero para salvar alguém. No fim haviam, pelo menos, cinquenta e sete pessoas. Garand bateu as palmas das mãos.

“Ok, eu posso montar algo bom também, eu já fiz isso em uma…”, ele tremeu. “Epifania! Eu também estou em uma epifania agora! Eu posso fazer algo agora!”, seu corpo nem mesmo se aguentava de pé. “Eu posso… Será que eu gastaria muita energia para reviver todos? Saiga morreu… Saiga morreu matando os ogros, mas foi por causa da mana que ele gastou ou porque ele separou muito os conceitos? Ele usou outras coisas além dos conceitos. ‘Matar todos os ogros’, isso nem é um feitiço! Ele me chamou de burro por fazer algo parecido!”

Para todos que estavam ali, ele era apenas um homem louco conversando sozinho.

“Então eu teria que montar um feitiço muito longo e bem preparado, não posso ter nada fora do lugar aqui!”, esfregou as mãos. “Mas são muitas pessoas, mais de cinquenta! Como, então?”, uma imagem se passou por sua mente. Se muitas pessoas para reviver talvez gastasse sua energia… “E se eu sacrificasse os outros aqui…? Eu posso reviver… Saiga, Mauser… Tanegashima…”, quando se virou com um olhar aterrorizante, todos aqueles que foram salvos por ele e Saiga deram um passo para trás. Um passo de medo. Garand sentiu nojo dele mesmo naquele momento, dando um soco no próprio rosto. “Eu sou um Guardião!”, ele gritou em alto e bom tom. E usando os próprios dedos já descascados em carne viva começou a desenhar diversos símbolos no chão. “Vou montar um feitiço bom. Preciso pensar nas possibilidades! Ordem, conceitos, os símbolos, qualquer errinho e eu me ferro também e a gente não vai acabar com todas as guerras!”

Estava feito. Garand, de joelhos, encarava os diversos símbolos. Juntou suas mãos, cruzando os dedos e fechando seus olhos de cabeça baixa. Veja bem: Garand não era exatamente o exemplo de homem religioso, mas se ele tivesse que pedir algo para Deus, seria exatamente naquele momento em que seu primeiro desejo seria feito. “Por favor… Por favor…”, e após um longo suspiro, aqueles que servem para acalmar em meio à turbulência, Garand, sem pausa, sem dar chance para qualquer interferência, recitou:

“[Âmbito + Vilarejo + Mauser + Centro + Círculo + Rede + Conexão + Ordem + Sequência + Precisão + Estabilidade + Pureza + Foco + Controle + Direção + Autoridade + Guardião + Garand + Decretar + Cumprir + Alvo + Saiga + Mauser + Habitantes + Crianças + Jovens + Adultos + Anciãos + Companheiros + Todos + Contagem + Cinquenta + Sete + Presença + Aqui + Hoje + Evento + Ataque + Ogros + Xamã + Identificar + Pertencer + Comunidade + Limitar + Escopo + Excluir + Ogros + Inimigos + Servos + Estranhos + Interferência + Dissipar + Purificar + Maldição + Resíduo + Romper + Desatar + Morte + Saiga + Quebrar + Expulsar + Proteção + Invólucro + Seguro + Isolar + Ruído + Contradição + Rejeitar + Erro + Falha + Cancelar + Persistência + Estável + Permanente + Irreversível + Efeito + Ressurreição + Retorno + Vida + Alma + Chamar + Reatar + Vínculo + Corpo + Reconstruir + Ossos + Nervos + Sangue + Órgãos + Pele + Respiração + Pulmões + Coração + Ritmo + Calor + Consciência + Memória + Identidade + Nome + Personalidade + Integridade + Inteiro + Cura + Fechar + Feridas + Sanar + Infecção + Veneno + Remover + Dor + Acalmar + Serenar + Vigor + Força + Movimento + Levantar + Olhos + Abrir + Voz + Brotar + Choro + Abraço + Família + Comunidade + Laço + Casa + Permanecer + Duração + Continua + Depois + Concluir + Manter + Custo + Vidas + Outras + Zero + Troca + Proibida + Sacrifício + Proibido + Oferta + Proibida + Preço + Somente + Mana + Garand + Conversão + Proporcional + Limite + Sobreviver + Garantia + Integridade + Usuário + Preservar + Consciência + Manter + Queda + Evitar + Morte + Impedir + Sequelas + Minimizar + Exaustão + Aceitar + Parar + Antes + Ruptura + Sustentar + Estabilizar + Fechamento + Selo + Completar + Agora + Imediato + Luz + Elevar + Selar + Cumprido]!”

E o chão vibrou; os símbolos escritos se ergueram do barro como lâminas de vidro e giraram em órbita. Uma corrente de ar subiu da terra, puxando o frio das peles e devolvendo calor como um prisioneiro se banha em sol pela primeira vez em tempos. O brilho correu fio a fio pelos traços, tocando cada corpo.

Primeiro vieram os soluços, depois a tosse; então, nomes sussurrados. Um soluço feminino alcançou os ouvidos de Garand, um soluço pesado, um som como o qual vem do pulmão de uma pessoa que respira pela primeira vez na vida. Quando tentou levantar a cabeça pôde ver: Saiga abriu os olhos num susto seco, repentino, respirando fundo, o rosto ainda sujo — vivo, mas estático. Crianças choraram; velhos procuraram mãos conhecidas; o vilarejo inteiro voltou a encher os pulmões.

O salvador de todos ali tombou para as mãos, ofegante, pele cinza de cansaço, mas consciente. As linhas de luz foram se apagando até restar só o silêncio e um murmúrio coletivo de retorno. Um zumbido em seus ouvidos. A visão escurecendo. Ele apenas ergueu um polegar trêmulo, sem conseguir falar. Tinha dado tudo — e ainda estava ali.

Bom, por pouco tempo. Pelo menos até sua mente se esvair completamente.

Fim da leitura

Capítulo 12 concluído

Livro 1 – Capítulo 12 - Mágica Arriscada