GuardiõesLivro 1 – Capítulo 13 - Primeira Despedida em Outro Mundo
Capítulo 13Alguma vez já desmaiou de exaustão? Pôr tanto esforço no seu corpo e mente ao ponto de não aguentar nem mesmo pensar. Não simplesmente sentir sono, mas se sentir exausto que nada no seu ser suporta se manter. Bom, isso aconteceu com Garand pelo menos duas vezes no mesmo dia, no seu primeiro dia de entrada no novo mundo. Aquilo o aborreceria se ele não estivesse dormindo. “Melhor que estar paralisado”, é o que ele pensava.
A cama que ele acordou era confortável — confortável até demais. Desde sua chegada no novo mundo as coisas eram estranhas demais para ele. O ar, a água, as roupas. Nada parecia certo. Ele não entendia se era a atmosfera diferente do seu mundo ou se o corpo novo ainda estava se acostumando. Mas algo que com certeza ele não teve chance de aproveitar: Comida!
Ergueu o corpo devagar, um pouco dolorido. Nos braços, pescoço, pernas e torso haviam faixas e mais faixas. Muitos curativos, memórias das batalhas que viveu nas últimas horas. Suspirou. Suas mãos tremiam, mas não havia muito o que fazer. Se sentia aliviado por estar vivo.
“Vivo… É, vivo…”, até recobrar inteiramente a consciência. “Saiga!”, e, no susto, puxou o lençol que o cobria quase saltando da cama. A tensão em seu rosto, a dor na sua voz. Onde estava seu amigo?!
“Uhm…”, um gemido. Um gemido baixinho e feminino.
“Mas hein?!”
“Humph…”, outro gemido, feminino e baixinho também, mas irritado.
“O que vocês…”, quando se deu por si, no quarto em que Garand estava ali no canto da cama repousavam duas pessoas, e eram aquelas duas criaturas que o atormentavam da única forma que os deuses sabiam que podia atormentar ele.
Mauser e Saiga, ambos abraçados na mesma cadeira, abraçados como dois idiotas, Saiga babando na boca de Mauser que acumulava mais saliva e babava todo o resto da roupa do amigo. Roncavam alto. Vários ferimentos em seus corpos, tão enfaixados quanto Garand, mas tão sonolentos como ele. Dormiam como crianças. O único apoio que existia impedindo que eles caíssem daquela velha cadeira de madeira eram seus braços que se enrolavam entre seus peitos e pescoços. Garand sentiu uma vontade intensa de gritar e bater na cabeça dos dois, mas…
Ele se segurou.
Ele sorriu e se levantou da cama lentamente na tentativa de não atrapalhar o sono de seus amigos e com extrema leveza nos pés foi em direção à porta, abrindo ela com o máximo de cuidado para não ranger.
Saindo da casa, Garand percebeu que o cômodo que estava era, na verdade, uma sala. “Casa de um cômodo só?”, pensou. A luz tomava conta do exterior. Algumas pessoas andavam por ali como se estivessem vivendo mais um dia comum, mas mais felizes. Brisa suave, sol forte e acolhedor. A população olhava para o homem com alegria. Eles sabiam o que ele tinha feito por eles e se sentiam agradecidos por tudo. Algumas crianças, inclusive, corriam e abraçavam suas pernas perguntando se aquele homem era um heroi vindo de algum reino distante. Garand só pode sorrir sem graça, dizendo coisas como “Eu sou só um Guardião incompetente”.
“Tente não se subestimar tanto, meu rapaz”, e vindo de trás uma voz conhecida. Uma voz velha, pesada, uma voz irritante. Tanegashima.
“Ah, seu velho…!”, Garand já se virava preparado para reclamar, mas quando finalmente pôde notar.
“Então você acordou, senhor Garand”, Tanegashima continuava sendo um homem velho, o sábio daquela vila. Mas, ali, sentado em um banco improvisado ao lado do poço do vilarejo, ele parecia tão mais velho, pelo menos dez anos mais velho que a última vez que Garand o viu.
“Tanegashima…”, Garand se aproximou, respirando fundo.
O homem não respondeu de imediato. Ficou em silêncio, observando as crianças que corriam ao longe. Depois, falou com um tom grave, mas sereno:
“Você trouxe todos de volta. Eu não sei como… mas trouxe. Isso não é algo que eu, nem qualquer um daqui, vai esquecer”, ele sorriu sem mostrar os dentes. “Somos muito gratos pelo o que você fez, senhor Garand.”
O jovem queria se sentar ao lado do velho, mas evitou. Em sua expressão corporal: vergonha. Dentes e punhos cerrados, corpo trêmulo. A cabeça sempre baixa. Tanegashima percebeu aquilo.
“O que te incomoda tanto, meu jovem rapaz?”, perguntou dando tapinhas no banco.
“Eu… eu não sou um herói aqui, Tanegashima.”
“Claro que não, você é o Guardião, senhor Garand. Tem diferença nas palavras”, ele riu.
“Eu queria sacrificar tudo pelo Saiga.”
…
Silêncio. Um silêncio constrangedor que foi quebrado por uma tosse seca.
“Isso parece bem agressivo, não é mesmo? Mas isso não incomoda ninguém”, disse Tanegashima.
“Mas o quê?!”, Garand gritou. “Eu queria sacrificar todos, os vivos e os mortos dessa vila, só pra reviver meu amigo! Eu não sou Guardião, Tanegashima!”
“Antes de Guardião você é humano, senhor Garand. Não pense que ninguém aqui espera que você não tenha uma atitude egoísta de vez em quando.”
“Quer parar de ser tão bonzinho? Tá me irritando!”
“Você quer que eu grite com você então?”
A compaixão nas palavras de Tanegashima irritaram o homem que, em fúria, enfiou sua cabeça na terra como um avestruz, gritando o mais alto que pôde lá embaixo e fazendo toda a vila tremer com aquilo. Mais uma vez o ancião riu, agora se levantando.
“Pare de tentar carregar esse peso sozinho, senhor Garand”, ele começou a andar. “Você não fez nada que outros não fariam, mas você quer se vitimizar tanto assim? Pare com isso, meu rapaz.”
Garand se desenterrou ainda com uma expressão irritada, pronto para finalizar os últimos anos de vida do velho. “Você só gosta de falar palavras dificeis pra me fazer parecer burro e esquecer da minha dor, que nem o Saiga”, disse com raiva.
“Hohoho, pare com isso, mas me diga: se Saiga estivesse se lamentando tanto por uma situação como essa, o que você faria?”
Ele colocou a mão na boca rapidamente antes de responder:
“Chamaria ele de idiota.”
Tanegashima, notando que estava certo, apenas gargalhou mais alto. “Vamos, você pensa muito em detalhes pequenos agora que a tempestade já passou.”
“As guerras finalmente acabaram? Então já vamos voltar pra casa?”
“Como eu disse: há muitas guerras pelo mundo que precisam acabar. Essa foi apenas a primeira vitória dos Guardiões. Eu já preparei uma carroça com um cavalo para vocês. Todos da vila e de vilas vizinhas prepararam o máximo de comida para você e para o senhor Saiga. Se desejarem já podem sair agora para a cidade mais próxima.”
Garand pensou: “Que nem nos jogos e animes, vamos de área à área desbloqueando na medida que avançamos.”
“Mas nem uma festinha? Normalmente tem uma quando a primeira aventura acaba”, Garand reclamou coçando a cabeça.
“Não temos recursos o suficiente para isso, senhor Garand. Nos perdoe, mas ainda estamos lidando com a fome que o Grande Xamã nos deixou”, Tanegashima suspirou.
O pesar na consciência veio na hora. Se sentindo totalmente para baixo, Garand começou a rastejar. Aquilo apenas divertia Tanegashima, que continuou:
“Senhor Garand, não se preocupe. No fim, todos somos eternamente gratos aos Guardiões. Você e o senhor Saiga nos salvaram da tortura que perdurou por quase uma decada inteira. Nosso maior desejo é que vocês subam na carroça e viagem para salvar outros, assim como nos salvaram.”
E mais ao fundo, vindo da casa que Garand estava antes, gritos e barulhos de coisas caindo começaram. “Onde ele tá?”, “Será que ele foi desintegrado com magia?!”.
“Hoho, parece que seus amigos acordaram.”
Garand já sabia o que estava vindo assim que ouviu passos fortes e pesados. Gritos de desespero. Lágrimas e fungados. Tanegashima deu um passo para o lado. O Guardião apenas aceitou, fechando os olhos e endurecendo o corpo.
“Garand!”, e arrombando a porta como se não fosse nada, duas garotas — na verdade uma garota e um homem que parece uma garota — voaram em direção ao pescoço do homem, o agarrando e caindo no chão junto dele. “A gente pensou que você tinha morrido e deixado a gente!”
“Foram vocês que morreram e quase me deixaram”, ele se segurou. No seu rosto havia apenas baba, catarro e lágrimas, dessa vez dos outros. Ele não queria chorar como aqueles dois idiotas que gritavam no meio de toda a multidão. Mas Tanegashima já disse: Garand também é humano. “Uh… Urgh… Seus idiotas, não me preocupem mais assim!”
E choraram em coro enquanto o velho apenas ria como um papagaio que só sabe fazer um único som.
…
Um tempo depois, já recompostos, estavam na carroça que Tanegashima antes disse. Era simples, tinha um teto de lona e um cavalo um pouco magro, mas jovem e com energia.
“A gente vai finalmente para a próxima área, hein, cara?”, Saiga comentou carregando uma bolsa de comida oferecida pela população do vilarejo.
“Foi exatamente isso que eu pensei quando falei com o velho Tanegashima”, Garand respondeu rindo fazendo carinho no cavalo.
“Mas, cara, que loucura, né? Eu morri de raiva, haha!”, Saiga gargalhou como se não fosse nada.
Aquilo deixou Garand um pouco para baixo, logo mudando de assunto.
“Mas doido de verdade é o que aconteceu com seu cabelo.”
“Uhm? Você gostou?”, Saiga sorriu virando de costas e deixando o rosto de lado com um sorriso para Garand. “Para de olhar tanto, você é comprometido.”
Garand riu com raiva, uma veia quase estourando no seu rosto. Mas, de fato, o cabelo de Saiga mudou: antes preto como o espaço, agora estava vermelho sangue. Aparentemente era algo haver com o feitiço lançado por Saiga antes da sua morte, mas não tiveram tempo o suficiente para pensar naquilo. Talvez na viagem.
“Ei, idiota! Me ajuda ao invés de fazer carinho no cavalo!”, os gritos de ordem vinham do outro lado. Era Mauser carregando uma mochila enorme.
“Mas que merda essa merdinha quer?”, Garand rangeu os dentes.
“Se falar merda tantas vezes o cavalo vai acabar fazendo besteira”, Saiga reclamou descendo da carroça para ajudar Mauser.
O cavalo ficou triste — pobre animal, comentário infeliz.
“Muito obrigada, Saiga. Diferente daquele animal burro, você é um cavalheiro.”
“Ei, não fala assim do meu cavalo!”, Garand gritou.
Mauser apenas riu com deboche subindo na carroça e se aconchegando num assento e enquanto Saiga carregava a mochila gigante.
“Mas o que essa idiota tá fazendo aqui?”, o loiro questionou.
“Ela quer viajar com a gente”, Saiga comentou terminando de abastecer a carroça com tudo o que precisava. “Muitos na vila estão fazendo isso.”
“Já que durante oito anos não pudemos sair da região, agora estamos nos sentindo muito livres para conseguir, ao menos, tirar umas férias e visitar outros lugares”, a menina falava com leveza e alegria na voz.
Garand queria muito comentar coisas como: “Então viaja com outro”; “Sua bostinha”; “Não quero você aqui com a gente”, mas ele não fez. Apenas respirou fundo e subiu na banqueta, puxando as rédeas do cavalo e se sentindo um vaqueiro.
“Esquece, sobe logo e vamos embora daqui”, pôs uma longa grama na boca e puxou um chapéu de palha que estava no meio dos presentes da vila. “Bom que a garota conhece esse mundo e vai nos guiar direito.”
“Ahn, atualmente o Tanegashima me deu um mapa…”, Saiga tentou falar, mas logo foi impedido pelo dedo indicador de Garand que se esticou por vários metros apenas para o calar. Ali ele entendeu o recado. Subiu na carroça.
“Esqueçam tudo. Já se despediram?”, Garand perguntou.
“Eu já falei com meu pai e alguns amigos. Todos vão viajar também, mas ainda precisam preparar algumas coisas”, Mauser disse se aconchegando no canto para observar a parte de trás.
“Eu já falei com o Tanegashima, ele me deu…”, mais uma vez foi impedido, mas não precisou nem mesmo de um dedo para o silenciar. Apenas subiu e deitou a cabeça no colo de Mauser.
Sorrindo, então, bateu as rédeas do cavalo.
“Beleza, então a nossa aventura começa agora!”, Garand gritou, e a carroça começou a se mover.
Se afastando do vilarejo, a cada cavalgada do cavalo, as pessoas da vila corriam e gritavam se despedindo dos guardiões e da garota que agora acompanhava eles. O clima estava tão leve naquele momento. Leve e aconchegante. Não estava mais tão estranho, talvez desse até para se acostumar. Eles estavam alegres, felizes até. Que bom que nenhum Guardião morreu naquele dia.
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