GuardiõesLivro 1 – Capítulo 4 - Primeira... Civilização?
Capítulo 4Murmúrios. Sons difíceis de entender. O que estava acontecendo era apenas uma das questões que se passava na cabeça de Garand. Seu corpo estava pesado, mas se movimentando, ele sentia algo o balançando de um lado para o outro. Suas pernas eram apertadas por algo, seu peito estava pressionado. Nariz queimando. Algo quente escorria do seu nariz. Sua cabeça tilintava da mesma forma que sua mão ficava quando dormia por cima dela. Grunhiu incomodado.
“Onde eu tô?”, sua voz fraca lutava para sair.
“Uhm? Ah, finalmente acordou”, uma voz feminina. Era Saiga ou a garota que haviam salvo? No fim, eles realmente salvaram ela? Mais questões se passavam na cabeça do rapaz. “Cara, cê dormiu legal, hein! Pensei que tinha morrido de novo”, definitivamente era Saiga, mesmo que as palavras não chegassem tão certeiras nos seus ouvidos.
“Ele é realmente o mágico mais forte e burro que eu conheço”, essa com certeza era a outra garota, aquela que eles salvaram. “Me diz como é que você tem uma reserva de mana tão grande e mesmo assim não sabe usar os símbolos direito e nem mesmo desativar as próprias mágicas?!”
“Eu já te disse, somos forasteiros, não temos noção nenhuma sobre essas coisas”, Saiga parecia cansado.
“Essa menina é tão irritante”, Garand murmurou. “O que tá acontecendo, Saiga?”
“Eu tô te carregando pra vila da jovem Mauser aqui”, ele falava num tom desinteressado. “Pelo que ela me contou, se você não executa as mágicas do jeito certo ou deixa elas ativas por muito tempo, a tua energia vai ser sugada. Ou seja: cê desmaiou de exaustão.”
“Uhm…”, Garand se aconchegou nas costas do amigo, deitando a cabeça no seu ombro. “Teu corpo de garota é tão fofinho.”
“Sim, tá, deixa de se esfregar em mim ou eu te solto e cê vai ter que andar mesmo com a cabeça explodindo, beleza?!”
Garand ignorou o aviso, apertando Saiga com os braços. “Mas eu gosto disso”, ele disse se aproximando do ouvido do parceiro. O que, no fim, resultou nele sendo jogado de costas no chão. Certamente gemeria de dor ao receber uma pancada de pedras e terras nas costas, mas não se sentia no direito de reclamar. Apenas aceitou.
“Eu pensei que você tinha dito que ele tinha uma mulher”, a garota questionou se aproximando de Garand, agachando-se.
“Ele tem, mas é um babaca”, Saiga bufou. “Pelo menos só é assim comigo, então é um cara fiel — o que não muda muito na raiva que sinto nesses momentos.”
“Você ter esse corpo de mulher só deixa as coisas mais estranhas”, ela se levantou, pondo as mãos na cintura.
“Nem sempre foi assim”, Saiga suspirou decepcionado.
Garand estava estirado no chão. Braços e pernas esticados encarando o céu com um forte azul de belas nuvens brancas. Finalmente o som das folhas balançando pelo vento chegaram aos seus ouvidos. “Aliás, senhorita…?”
“Mauser, pode me chamar de Mauser.”
“Senhorita Mauser, quanto tempo até chegarmos na sua ‘vila’?”
“Estamos quase lá”, ela deu meia volta. “Se você levantar e finalmente criar coragem de andar, chegamos lá em menos de 10 minutos”, e então começou a caminhar pela trilha que estavam.
Garand ergueu o corpo, apoiando os braços nos joelhos. “Um obrigado seria apreciado…!”, ele gritou.
Mauser hesitou por um momento. Não olhou para trás, mas cerrou os punhos. E dando mais um passo para voltar à caminhada, falou:
“Obrigado por me salvar”, sua voz saiu fraca, mas possível de ouvir.
Garand riu finalmente se levantando. “Cara, essa daí é brutinha, hein.”
“Ela acabou de ser salva depois de fugir daqueles monstros”, Saiga ajudou Garand, puxando sua mão. “Ficou muito preocupada e usou algumas magias de cura em você. Acho que, no fim, a gente devia agradecer por termos encontrado ela e não um grupo daqueles monstros primeiro.”
E a seguindo, eles começaram a andar também. Lado a lado, Garand se mostrava extremamente cansado sempre apertando sua têmpora.
“No fim, o que vocês estavam conversando? Não sei nem quanto tempo dormi.”
Saiga andou de braços cruzados, fazendo um beiço.
“Eu contei pra ela que somos de fora”, falou baixinho. “Não queria dar muitas informações sem ter tua opinião antes, então falei que fomos sequestrados e abandonados no meio da mata. Criei uma narrativa minimamente convincente, eu acho, mesmo ela sendo uma garota inteligente.”
“Que consideração a tua, mas e a nossa situação atual?”
“Bom, pelo que ela me contou nós estamos indo em uma vila de escravos. Aqueles ogros que encontramos sequestram pessoas dos arredores e os usam nos limites das montanhas.”
“Aquela fumaça que vimos…?”
“Um batalhão daqueles monstros. Sorte a nossa encontrar ela depois de ter escapado de uma carroça deles. No pior do caso seríamos mortos por um exército.”
“Que sorte a nossa, então.”
Eles caminhavam por uma trilha de terra amarela. As roupas ainda estavam um pouco pesadas por causa da água do rio. Por sorte seus corpos não mostravam nenhum outro dano além do pouco que receberam durante a luta que entraram pouco tempo atrás. Ao menos o corpo de Garand.
Quando ele deu a mínima atenção para Saiga se espantou: as roupas estavam extremamente surradas e esburacadas; ainda estavam usando as vestimentas que trouxeram do seu mundo, calça, sapato, uma camisa de manga curta, nada fora do comum, mas Saiga parecia ter voltado de uma guerra com sangue e rasgos enormes. O rosto do jovem rapaz de aparência feminina era surrado por completo com alguns hematomas, ambos os olhos roxos e cortes na testa. Nem mesmo a franja do novo cabelo um pouco mais longo que antes era capaz de cobrir os vários machucados que recebeu.
Pôde notar a atenção preocupada que Garand apresentava. No fim, Saiga cobriu as bochechas levantando a gola da camisa.
“Relaxa, só não me acostumei a ser acertado com uma árvore na cara, eu vou melhorar rápido”, disse com firmeza na voz, como se não fosse nada.
Garand apenas aceitou. Ainda conseguia ver um pouco do corte feito pela bola de fogo mal atirada de antes. Se sentiu mal. Cada passo subindo a ladeira da terra era como se seus pés fossem puxados por mãos invisíveis moldadas através do quão inútil ele se sentia. Apertava a sua calça com força, pensando no fato de ser mais fraco que Saiga, no fato de ter uma grande reserva de mana, mas nem mesmo saber como usar as magias daquele mundo ou de como desativar as mesmas. Ele gerou preocupação tanto por não conseguir salvar o amigo quando foi pedido, tanto por o machucar e quase matar assim como nem mesmo conseguia controlar o único poder em que tinha vantagem, desmaiando e gerando preocupação.
Ele suspirou. Quase um soluço.
Saiga notou.
“Uhm…?”, olhou para cima tentando alcançar os olhos do amigo que apenas caminhava de cabeça baixa. Ele sorriu de forma fofa. “Ei, cara, cê devia relaxar um pouco, sabe?"
Garand não respondeu. Saiga apenas voltou a andar corretamente, soltando mais o corpo, balançando mais os braços e sorrindo mais. “Cê sabe de uma coisa? Aquilo foi a melhor coisa que me aconteceu, então não devia ficar pesando muito o clima, beleza?”
Ele olhou confuso para o amigo surrado e nem um pouco preocupado com o que estavam vivendo. Soltou um “Uhm…?” baixinho.
“Tipo, chato, né? A gente tomou muita porrada, estamos longe das nossas famílias, a Sapphire deve estar preocupada. Mas ei, se a gente se instaurar bem aqui e conseguir conversar com alguém que tenha um pouco de noção sobre dimensões e essas coisas, quem sabe podemos voltar pro nosso mundo?”, Saiga jogou os braços para trás, pondo as mãos na cabeça. “Mas, cara! Eu lutei contra ogros! Cê tá soltando fogo pelas mãos e fez uma muralha de água, que nem naqueles desenhos que a gente assistia quando criança! Então aqui tá o nosso jogo: vamos aproveitar que aparentemente somos mais fortes que a média, quem sabe viver uma mini aventura e, no fim, voltar pra casa?”, ele ergueu a mão para Garand.
Ele se deu uma chance. Soltou um sorriso fraco enquanto fechava o punho e dava um soquinho junto à Saiga. E baixas risadas tomaram conta do ambiente. O clima se tornou mais leve. “Eu te digo, meu amigo! Vamos nos tornar lenda neste lugar até o momento em que sairmos desse outro mundo!”, Saiga gritou erguendo os braços em vitória.
“Do que vocês tão falando aí, hein?!”, Mauser gritava do topo do morro. “A gente chegou, então parem de brincar!”
E eles foram. E lá no topo puderam, finalmente, ver a primeira comunidade desde sua chegada em outro mundo.
“Mas hein…?!”, embora, mesmo que já esperassem algo assim, a decepção era visível.
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