Guardiões — Capítulo 5: Livro 1 – Capítulo 5 - Reunião Desagradável

Guardiões
Cap. 5
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Guardiões

Livro 1 – Capítulo 5 - Reunião Desagradável

Capítulo 5

2.044 palavras~9 min de leitura

Era um lugar tão triste e miserável. Se aproximando mais do vilarejo, os dois rapazes notaram a infelicidade que estava ali. Uma vaca magra lutava para sobreviver, caída e fraca logo na entrada. A madeira estava reduzida a cinzas, as pedras usadas para construir as casas eram coloridas pelo vermelho do sangue e preto das chamas que uma hora alcançaram o lugar.

Mauser, na descida do morro, começou a correr ao ver a primeira alma viva ali. Um homem nos seus 60 anos de idade, magro e com a barba mal feita. Quando os olhos se encontraram, a menina gritou:

“Pai!”, e o alcançou antes que ele pudesse reagir.

Saiga e Garand tentaram alcançar o ritmo, parando ao lado da garota e do seu dito pai que se abraçavam de joelhos no chão de lama. O desespero no olhar do homem velho era notável. Ele não tinha reação além de acariciar a cabeça da jovem. Ele tremia e mantinha os olhos abertos como numa famosa obra de Ilya Repin. Mauser, por outro lado, chorava desesperada apertando o corpo do pai.

Pouco a pouco grupos de pessoas surgiam. Eles gritavam coisas como “É a Mauser?”, “Como ela voltou?”, mas sempre em um tom de preocupação, mais do que em alívio por ter alguém de volta dos ogros. E isso assustava Saiga e Garand.

O clima ali era tão diferente, como se houvessem passado por um portal que levasse a um mundo cinza e sem vida. Todos tão magros e velhos. Até as crianças pareciam velhas, sendo suas alturas e atitudes infantis as únicas coisas que entregavam suas idades. O próprio pai de Mauser não deveria ser tão velho quanto imaginavam.

Quando Saiga finalmente estava para falar, levantando sua mão, um grito veio ao fundo:

“Nós vamos morrer!”, uma voz feminina repleta de terror.

E junto a ela, diversos outros entraram em pânico. O caos se instaurou. Aproximadamente três dezenas de pessoas gritando e circulando com as mãos na cabeça. O pai de Mauser, assustado, apertava ainda mais sua filha enquanto a multidão passava ao seu redor. “O quê tá acontecendo?”, Garand se perguntava.

Alguns ali tinham, inclusive, medo dos dois aventureiros de outro mundo, os olhando com pavor e, até certo ponto, desgosto, como se eles tivessem levado a própria morte até a porta do seu vilarejo desgraçado.

Até que, entre os loucos e agitados, uma voz poderosa surgiu sem nem mesmo gritar: “Parem, parem imediatamente!”

Era a voz de um homem. Um ancião, aparentemente. O tom sábio e cheio de vontade dominou a todos que pararam em um instante segurando as lágrimas e tremedeira de seus corpos fracos.

“Por que se agitam desta forma?”, o homem questionou se aproximando, vestindo um manto marrom e se apoiando em uma bengala.

“Meu senhor, aqueles dois forasteiros vieram ao lado da jovem Mauser!”, outro homem quase se ajoelha próximo ao velho.

“E não é isso uma coisa boa? Temos uma de nossas jovens de volta, ela foi salva”, disse o ancião.

“Mas os ogros voltarão, senhor! O que faremos contra eles?!”

O sábio, então coçando sua barba, olhou para os rapazes. Ambos repletos de machucados, farrapos e sujos. Ele soltou um sorriso brilhante, como uma criança que ganha doces dos pais mesmo em meio a um castigo. Foi um sorriso tão brilhante que nem mesmo as cinzas e sombra da montanha próxima eram o suficiente para apagar.

“Esse velho quer te pegar”, Garand se abaixou para sussurrar no ouvido de Saiga.

“Não entrosa, Garand.”

E se aproximando rapidamente, o velho homem alcançou os ombros dos jovens, sorrindo para eles com alegria. “Vocês, meus jovens, por algum acaso não são deste mundo, estou certo?”

Aquilo foi um soco no estômago para eles. Os longos cabelos negros de Saiga arrepiaram. Garand, sem reação, pôs a mão na cabeça do amigo e se armou, como se estivesse preparado para uma luta. Mesmo que o tom daquele homem não fosse agressivo, eles ainda tomaram aquilo como ameaça. E o velho notou. Ele rapidamente se afastou, levantando as mãos e falando com entusiasmo.

“Me perdoem, me perdoem! Não foi minha intenção assustá-los!”

A multidão do vilarejo se via confusa dado a alegria que o velho da vila mostrava. Ele, num rápido movimento, virou-se e começou a andar em direção à maior construção da vila, algo semelhante a uma igreja.

“Venham comigo, por favor, preciso conversar com vocês sobre algo importante!”, a lama se acumulava na sua vestimenta. Ele passava por Mauser que ainda chorava abraçada ao seu pai, agora mais calma do que antes. “E você, senhorita Mauser, me acompanhe também, por favor! É um assunto de extrema importância!”

Saiga e Garand se entreolharam e, juntos, deram os primeiros passos seguindo o velho. Passando por Mauser eles ergueram um fraco sorriso, como quem tenta comemorar, mas percebe o peso do ambiente em que se encontram. Porém ela não se levantou, pelo menos não de imediato.

E eles, então, deram entrada na suposta igreja.

A porta da construção seguia uma escala semelhante a ela por inteira, sendo feita de madeira maciça e passando dos quatro metros de altura. Por outro lado, era tão destruída quanto todo o resto da vila. Algo com certeza a havia arrombado, destruindo ela de fora para dentro. O ancião nem mesmo precisou a abrir, apenas entrando pela brecha que tinha nela. Garand, antes de entrar, a segurou, mas mesmo botando um pouco mais de esforço, ela nem mesmo se moveu.

Por dentro era como o esperado de uma construção medieval, mas seguindo a estética pobre que aquela comunidade passava desde a primeira vista. Uma mesa redonda no centro, algo próximo de oito metros de madeira maciça, mas repleta de cortes de lâminas e partes queimadas. As cadeiras reviradas eram levantadas pelo velho da vila que chamava os visitantes para se sentarem. As tochas eram fracas, mais pareciam velas antigas e extremamente usadas.

“Ok, esse lugar tá realmente caindo aos pedaços”, Saiga disse se aproximando das cadeiras, olhando ao redor com pena.

“Foram aqueles ogros que fizeram isso?”, Garand se sentou desconfortável, erguendo o corpo e apoiando os cotovelos nas coxas. “Qual é a desse lugar, hein?”

E então, finalmente, ainda agitado, aquele que os convidou finalmente se sentou, respirando e, contra o ar que entrava em seus pulmões, a sua vida se esvaia progressivamente.

“Os ogros, sim, eles quem causaram isso tudo”, ele parecia exausto, quase perdendo o sorriso e animação que mostrara antes. “Mas vocês estão aqui, os Guardiões! Finalmente, eu quase perdi a fé assim como todos os outros antigos, mas eu sabia que um dia vocês chegariam para nos salvar da guerra!”

Saiga e Garand se entreolharam.

“Você pode nos explicar?”, Saiga perguntou.

“Sim, os ogros estão atacando nossa vila há—”

“Não, a parte dos ‘Guardiões’, entende?”

“...”, ele mostrou confusão, mas logo se recompôs. “Sim, mil perdões! Vocês devem estar tão perdidos já que não são deste mundo!”

“É exatamente isso”, Garand tomou à frente. “A gente quase morreu, resgatou uma garota, todos parecem mais tristes do que felizes com isso, e agora você vem com essa história. Explica direito.”

Ele tomou o ar necessário para dar as informações necessárias. A seriedade do assunto, mais que antes, agora tomava conta da sala em que se encontravam.

“Vocês não são do meu mundo, com certeza não sabem da nossa história, mas a verdade é que milhões de anos atrás, assim que a primeira guerra se deu início, um grupo de sábios recebeu uma mensagem dos seus deuses, o que deveria ser impossível, pois os deuses do nosso mundo não trabalham juntos, mas no mesmo momento, sem falhar na mensagem, todos receberam a mesma profecia: dois salvadores chegarão de outra terra, outro mundo desconhecido por vossa civilização, e então, no fim, usando de suas capacidades, eles terminarão as guerras que atormentam o povo para sempre”, o homem se levantou, se inclinando para a frente e se apoiando na mesa. “Vocês, meus caros, são os dois salvadores! Vocês são os Guardiões deste mundo!”

“...”

“...”

“...”

“Então…”, Garand encostou as pontas dos dedos. “Você tá me dizendo que fomos puxados das nossas casas, das nossas famílias; tudo isso para salvarmos um outro mundo de uma guerra que nunca nem mesmo ouvimos falar?”

“Quando o senhor fala dessa forma”, o ancião parecia não ter noção do peso das obrigações de ser um Guardião até que fosse jogado na sua cara.

“Isso é loucura, a gente quase morreu lutando com dois ogros”, Garand se jogou na cadeira, fraquejando completamente.

Saiga, por outro lado, apenas ouvia cobrindo a boca com a palma da mão, interessado no assunto e pensando em tudo.

“Então a gente só precisa parar com a guerra contra os ogros?”

“Saiga?!”, o outro se levantou, batendo a mão na mesa.

“Eu só estou vendo as possibilidades, eu apanhei porque me exaltei naquele momento, mas acho que temos chance”, ele sorriu com uma expressão idiota.

“Me perdoe, senhor Guardião”, disse o ancião.

“Me chama de Saiga, o cara aqui do meu lado é o Garand.”

“Senhor Saiga, me chamo Tanegashima”, o velho reverenciou os visitantes. “Mas não, não apenas os ogros. Segundo as escrituras e as passagens orais, os Guardiões viriam ao nosso mundo para acabar com todas as guerras, não só a dos ogros.”

Saiga, impressionado, soltou um “Wow” sem nem pensar. Garand ainda parecia irritado com aquilo, mas ficou quieto encarando os dois.

“Vamos ficar muito tempo nesse mundo, então”, Saiga deu de ombros, decepcionado. “Cara, ser Guardião é realmente pancada, né, Garand?”

“Você tá realmente brincando com tudo isso?!”

“Relaxa, eu te falei que a gente vai voltar pra casa, mas realmente essa parte de acabar com todas as guerras me deixou assustado. E o que garante que você está falando a verdade?”

“Eu preciso apenas que vocês confiem em mim”, Tanegashima se mostrou vulnerável à situação. “Minha palavra é a única prova que posso dar para vocês.”

“Beleza, eu tô dentro desde que ensinem magia pro grandão aqui.”

“Saiga, o que você tem?!”

“Cara, veja, somos praticamente os escolhidos, temos que acabar com as guerras de um mundo de fantasia. Aqui tá o plano: matamos todos os ogros, vamos pra próxima área, matamos os inimigos e fim da guerra.”

“Para de brincar com a situação!”, e tomado pela raiva, Garand se lançou contra Saiga, segurando a gola da sua camisa e o erguendo o mais alto possível. “Eu não posso ficar aqui por mais tempo! Eu tenho uma família pra cuidar e você sabe disso!”

“Então precisamos ser rápidos, né?”, Saiga continuou sorrindo. “Vamos acabar com as guerras juntos. Aliás, quanto tempo acha que levaria isso, senhor Tanegashima?”

“Meu mundo não é um lugar grande, Senhor Saiga, imagino que com os poderes dados pelos deuses, os Guardiões não tomariam mais do que um ano—”

“Nós não temos um ano!”

“...”, Tanegashima, assustado, tentou falar perante a pressão do homem à sua frente. “Isso se vocês não estiverem preparados. Se me permitirem, ensinarei os conceitos da mágica do meu mundo para que possam lutar e vencer qualquer batalha no tempo que desejarem.”

Garand tremia enquanto ainda segurava Saiga, e lentamente o pôs de volta no chão. “Eu preciso de um pouco de ar…”, ele falou dando passos lentos e pesados em direção à saída. Ao seu lado surgia Mauser, finalmente dando as caras com seus olhos vermelhos de tanto chorar.

No fim, agora estavam na sala Saiga, Mauser e o velho Tanegashima.

“...”, Saiga bateu as palmas das mãos. “Então, clima estranho, mas vamos dar tempo para ele, ok? Deixou pessoas importantes até demais no nosso mundo, então tente nos entender quando fala que ficaremos meses presos aqui.”

“Eu entendo, Senhor Saiga”, Tanegashima mostrava fraqueza na voz. “Apenas me vi desesperado, não queria lançar tanta responsabilidade nas suas costas.”

“Vamos ignorar isso. Eu acho que vamos conseguir lidar com isso. Eu só preciso aprender um pouco mais sobre suas culturas, suas capacidades mágicas. No fim, quem sabe, possamos acabar com as guerras e voltar pro nosso mundo em menos de um mês?”

Tanegashima sorriu com dificuldade. Balançou a cabeça hesitante.

“Ótimo, então comece a falar”, mostrou um enorme sorriso voltando a se sentar na cadeira. “E você, Mauser, não vai se juntar a nossa conversa?”

A calma de Saiga assustava a garota em certo ponto, mas sua história estava apenas começando.

Fim da leitura

Capítulo 5 concluído

Livro 1 – Capítulo 5 - Reunião Desagradável