GuardiõesLivro 1 – Capítulo 6 - Minha Luz no Fim do Túnel
Capítulo 6Cochichos. Fofoca. A multidão, agora reunida em grupos menores de até cinco pessoas, se espalhava em volta de um único ponto, e esse ponto era Garand. Não importava para onde ele fosse, ele era o principal assunto na boca do povo. No fim, estressado de ouvir murmúrios e ver o quão miserável era aquele lugar, se frustrou.
“Mas que merda!”, num grito de desespero chutou um balde de madeira afundado na lama. Pela sua força dada pelos deuses, o balde voou, mas nada saiu dele além de moscas que por pouco quase não voaram. A frustração enchia sua cabeça de pensamentos atormentadores. “Como assim mais ou menos um ano? Eu não quero ficar fora por nem mais que uma semana, quem dirá um ano!”
Ele se jogou de costas, sentando em um amontoado de pedregulhos que antes pertenciam à parede de uma casa. Sua perna tremia, batendo repetidamente no chão espalhando a terra molhada ao seu redor sem nem se importar com toda a sua roupa acumulando mais e mais sujeira.
Ninguém ali o conhecia nem mesmo tinha noção da conversa dentro da igreja, então na visão de todos da vila Garand era o homem louco que trouxe uma escrava de volta, logo: trouxe a morte e tortura para mais pessoas. Todos evitaram ficar ao lado dele. Claro, todos exceto uma pessoa.
“Você vai acabar explodindo uma veia, sabe?”, e essa pessoa era Mauser, se aproximando lentamente com passos graciosos mesmo na situação que se encontravam. As mãos atrás das costas, corpo inclinado como uma garota sorrateira.
Garand a olhou de relance, mas voltou a encarar o chão com a mesma ansiedade de antes. Mauser mordeu o lábio superior e se aproximou com mais agressividade, sentando ao lado do aventureiro. Isso o incomodou. Ele tentou não transpassar, mas era notável.
“O que vocês conversaram lá na igreja que te deixou tão agitado?”, ela perguntou com uma expressão preocupada.
“Eu não… Eu não quero falar sobre isso. Aliás, você não deveria estar lá? O Saiga ainda deve estar conversando com aquele velho.”
Mauser tremeu abraçando a si mesmo. “O Saiga me assusta, ele parece tão cínico às vezes. Preferi vir ver você.”
“Ele só é meio esquisito, você aprende a lidar depois de um tempo.”
“Vocês parecem bons amigos”, ela forçou um sorriso.
Garand tentou sorrir, mas logo segurou. Em uma fração de segundos seu mal humor dominava seu corpo. Ele estava incomodado e queria se manter incomodado. Era como se sua mente o forçasse a se manter com raiva da situação para não se mostrar vulnerável, embora seu maior desejo fosse estar ao lado e ouvir seu amigo.
“Quando… Quando os ogros te levaram daqui…?”, Garand começou a conversa.
Mauser soltou um “Oh” baixinho dado o tópico, mas até onde Saiga contou para ela, conseguiu fazer uma ligação de pontos.
“Foi hoje mesmo. Estávamos na carroça da remessa do dia, mas uma das garotas estava chorando muito”, ela tremia e coçava os dedos, Garand apenas ouvia com um olhar atento. “Os ogros ficaram com raiva dela, então abriram as grades pra dar uma lição, o que resultou em algumas de nós escapando, mas acho que fui a única que deu a sorte de ser salva.”
“Isso…”, Garand olhou para baixo novamente. “Isso é recorrente?”
A garota parou um tempo para pensar. Não por não saber, mas por tentar colocar em palavras o peso do que vivia.
“A cada mês eles aparecem para pegar recursos. No meio do mês eles buscam algumas mulheres e garotas jovens. Se estiverem com falta de mão de obra, também usam alguns homens como escravos, mas esses pelo menos voltam quando se tornam inúteis, e nem tem motivo, acho que é mais por sadismo daqueles monstros."
“Há quanto tempo isso acontece?”
“Oito anos, pelo que eu me lembre. Eu me safava por pouco quando era mais nova porque era fácil de esconder, nunca cresci tanto, mas dessa vez não tinha o que fazer.”
Uma gota atingiu a terra. Logo atrás dela, uma chuva se iniciou. Por sorte ou conveniência do destino a dupla já estava debaixo de um teto, mas os respingos na lama atingiram seus pés. De certa forma, aquilo não os incomodava.
“Vocês não tem, sei lá, proteção de algum grupo ou reino? Nem mesmo uma pessoa forte por aqui?”
“Na nossa vila todos passamos fome há anos. Os fortes morreram para o líder dos ogros logo no começo”, Mauser falava com costume, parecia não se incomodar tanto com o peso das palavras. “O único reino que poderia ajudar é um reino miserável, negamos ajuda deles porque eles queriam nossas terras para extrair recursos e nos usar como escravos também.”
“Qual é a das pessoas desse mundo que só sabem escravizar?!”, Garand bateu as mãos abertas nos joelhos com bastante força, logo reclamando da dor e acariciando a parte onde bateu. Mauser olhava aquilo com graça.
“Eu sei, né? Mas fazer o que, quem tem poder manda em quem não aguenta a luta. Uma hora ou outra cansamos de resistir, mas estamos tentando, né?”, sua voz enfraqueceu.
Garand manteve os olhos baixos. As palavras de Mauser ecoavam em sua mente com peso, misturadas com o fino som da chuva contra o telhado e a imaginação detalhada do povo daquela região lutando por anos para sobreviver, o que o fez rir, visto que o sensível e paranoico entre eles era sempre o Saiga.
“Tentando. Eles estavam tentando”, era o que Garand pensava. Mas no pouco tempo em que ele esteve nesse mundo, tentar e continuar lutando pareciam sinônimos de morrer aos poucos. “É inútil”, era isso que ele pensava. Agora, no fim, sua mente estava confusa.
Ele queria gritar, gritar de frustração, de raiva e , talvez, desgosto das suas próprias ações, mas não sentia que tinha forças para isso. Só sentia. Sentia um aperto no peito, uma pressão na cabeça. Os dedos se fechavam nos próprios joelhos com tanta força que os nós estavam esbranquiçados. O peso de não ser suficiente, de estar num lugar onde até o ar parecia julgar sua impotência, era demais.
“Eu não devia estar aqui”, o sussurro escapou sem querer. Mauser quase não ouviu.
“Como é?”, ela perguntou.
“Isso tudo... Não é meu mundo. Não é minha luta. Eu—", a voz do homem falhou.
Garand virou o rosto, os olhos molhados não apenas da chuva que agora pingava mais forte. Ele não queria que uma garotinha o visse naquela situação.
“Mas você tá aqui, não tá?”, respondeu Mauser, com a calma de quem já desistiu antes.
Garand abriu a boca, mas foi interrompido por uma voz suave surgindo por trás dos dois.
“Como cê tá indo, irmão?”, era Saiga que se aproximava cobrindo a cabeça sem nem ser atingido pela chuva. Era como se algo cobrisse sua cabeça, um guarda-chuva invisível que ele nem mesmo precisava segurar, ou ao menos era isso que parecia.
Ele se aproximou da dupla, se espremendo debaixo do telhado para que todos pudessem se abrigar, mas ainda ficando um pouco fora, inclusive de pé, sem ter onde sentar. Sorria sem preocupação, mas de uma forma calorosa que Garand conhecia tão bem quanto diversos aspectos da própria vida, e isso fez o rapaz loiro abaixar a cabeça, evitando contato visual.
“O que foi?”, ele perguntou.
“Terminei de falar com o velho, ele até me deu algumas dicas de um monte de coisa, sabe?”, Saiga inclinava o corpo tentando fazer Garand olhar nos seus olhos, falhando sempre que o companheiro olhava para o lado contrário. “Até sobre magia ele me ensinou um pouco; aprendi como criar um guarda-chuva invisível com o básico fazendo uma barreira com o ar ao meu redor. Era algo assim que cê queria fazer contra aquele ogro?”
“Que bom pra você, agora sabe mais do que eu que devia ser o mago do grupo”, a voz de Garand era ríspida, como a garra de um animal raspando na madeira.
Saiga tocou na cabeça de Garand, acariciando seu cabelo loiro. Garand, por sua vez, tremeu. Apertou ainda mais os braços, se abraçando e puxando suas pernas para perto. Os suspiros eram pesados.
“Eu sei o quanto isso tá te deixando perturbado, irmão”, Saiga falava com uma voz doce, se agachando e puxando o rosto do amigo para que pudessem se ver. Os olhos do rapaz à sua frente marejados e fracos. “E eu já falei com você sobre isso, mas se for necessário repetir: a gente vai voltar pra casa. Eu não vou te deixar longe da família por tanto tempo, então conte comigo pra terminarmos essa aventura o mais rápido possível. Mas eu não vou conseguir sem você, então, por favor, fica comigo?”
Garand, já não conseguindo mais se segurar, deixou o catarro escorrer do nariz. As lágrimas desciam mais rápido. Não tinham soluços ou gritos de um misto de sentimentos, apenas muco e choro cobrindo seu rosto. O amigo de aparência feminina levantou um sorriso que cobriu todo seu rosto enquanto usava a própria roupa para o limpar — Mauser, ainda ao lado, mas não desejando atrapalhar o momento de fraternidade, engoliu o vômito com toda a força que tinha.
E, no fim, sem nem mesmo usar palavras para se expressar, após sentir Saiga ali, Garand concordou. Uma concordância silenciosa, apenas um balançar de cabeça. Fungou forte, tentando recompor o que restava da própria dignidade.
Eles, então, sorriram. Sorriam ao enfrentar o primeiro desafio daquele mundo. Um desafio maior que os dois ogros, porque é como dizem: não se pode enfrentar um exército de ogros sem vontade de lutar. E, no fim, Saiga era a vontade que mantinha Garand no lugar. Para o loiro, mesmo que tivesse cabelos pretos, o amigo iluminava seu caminho. Saiga era, a certo ponto, sua luz no fim do túnel.
“Eu pensei que esse cara namorava, sabe?”, Mauser comentou no meio dos dois.
Garand e Saiga viraram, perdendo o sorriso.
“Meio que ele é casado”, o afeminado comentou. O outro, do lado, concordou com a cabeça.
“Vocês parecem um casal”, ela quebrou o clima por completo. “Se o senhor Saiga não tivesse essa aparência de menininha, vocês seriam alvo de piadas.”
E como monstros prestes a devorar uma criança, os dois saltaram e começaram a puxar o cabelo de Mauser e a enforcar, mas ela não se deu por vencida, reagindo com gritos, socos e puxões em resposta.
Para os outros, aqueles que viam de fora, os jovens se debatendo como animais eram exatamente isso: animais brigando. Porém, por outro lado, mesmo com o modo agressivo de agir e com as feições animalescas, ainda é estranho dizer que naquele momento eles estavam mais próximos e contentes do que em qualquer outro momento?
Mas aquele momento de intimidade não duraria muito tempo.
“Mauser!”, era Tanegashima, gritando como louco desesperado na chuva. “Onde você está? Onde estão os Guardiões?”
O trio parou sua briga para chamar a atenção do homem. “Senhor Tanegashima, se acalme! O que aconteceu?”, Mauser perguntou quase se agitando tanto quanto o ancião.
“São eles! Estão chegando!”
“Eles…?”, mesmo sabendo, Garand questionou.
“Os ogros!"
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