GuardiõesLivro 1 – Capítulo 7 - Pirmeira Epifania em Outro Mundo
Capítulo 7Eles conheciam aquele som. Aquela sensação. O peso de grandes pés tremendo o chão. Mas agora era diferente. O ritmo era diferente. Os grunhidos eram diferentes. Relinchar. “Cavalos”, os Guardiões pensavam.
Sem nem ter a chance de pensar direito, sentiram serem puxados. Tanegashima segurou o braço dos dois e os levaram imediatamente de volta para a igreja. Mauser foi atrás, assustada, não sabendo para qual lado olhar. O pai dela corria até ela. Todos na vila estavam assustados, o pânico se instaurando novamente. Algumas mulheres gritavam “É porque ela voltou!” enquanto alguns homens buscavam armas, qualquer objeto cortante que pudessem alcançar.
“Eles vieram atrás da Mauser!”, Garand gritou.
“Ah, não diga, gênio!”, Saiga respondeu com deboche.
“Vocês precisam ficar aqui!”, Tanegashima bufou escondendo os dois Guardiões na igreja, apontando para uma escada que os levasse para o forro do teto. “Vocês podem se esconder ali!”
“Mas a gente não é Guardião?!”, Garand questionou.
“Temos que ter cuidado!”, o velho reclamava evitando gritar. Os sons se aproximavam cada vez mais. “Precisamos nos planejar! Se vocês apenas criarem uma confusão lutando no meio da vila, não sabemos as respostas que o universo nos dará!”
Saiga, pondo a mão no ombro de Garand, o puxou para mais perto, negando com a cabeça, decepcionado. No fim, ele teve que entender, recuando. Tanegashima sorriu fraco, dando passagem para Mauser se esconder junto dos dois. “Eu farei com que as criaturas não fiquem por muito tempo. Se eu os convencer de que a Mauser ainda está fora, talvez eles nos deixem em paz por hoje”, foi o que ele disse antes de sair de lá.
O trio se olhou antes de subir as escadas. Lá do forro da igreja havia uma janela, e através dela era possível ver a entrada da vila. Se espremeram para conseguir olhar pela pequena abertura. E então ali estavam eles, os inimigos se aproximando cada vez mais.
A metros de distância foram vistos um total de três ogros, um deles maior que todos os outros que Saiga e Garand já viram no pouco tempo de estadia no outro mundo. Estavam em uma carroça puxada por 4 cavalos esverdeados, machucados cobrindo completamente toda sua pele e olhos negros. As criaturas estavam com raiva, tanto os enormes monstros quanto os equinos que relinchavam como se suas gargantas arranhassem a cada passo dado.
Tanegashima, lentamente com seus passos fracos em meio à chuva e lama, foi em direção a carroça que parava no meio da vila. As criaturas ao descer com toda sua brutalidade espalharam a terra molhada sem se importar com nada. Suas risadas eram grotescas, como se ranho acumulasse em suas gargantas. A pele repleta de brotoejas e feridas.
A voz de Tanegashima não alcançou a igreja, mas os ogros gritavam em alto e péssimo som:
“Tagoshima homem idiota!”, o ogro gritou com raiva batendo com a estaca que carregava em uma parede, derrubando os tijolos da construção. Diferente dos outros ogros, este, que parecia um superior, levava consigo um porrete mais sofisticado, não apenas um tronco de árvore arrancado direto. “Mulheres de vila fugirem e matar nossos!”
“Senhor, eu lhe garanto que não matamos nenhum de seus soldados”, Tanegashima quase ajoelhava em reverência, sua voz cheia de medo. “Ninguém aqui tem a mínima capacidade de ir contra vocês, não temos forças nem para lutar contra nós mesmos!”
“Tagoshima contrária ogros!”, ele, mais furioso, mas sem tirar o sorriso presunçoso do seu rosto, erguia a mão para que seus dois capangas fossem até outras casas.
“O que eles vão fazer?”, Saiga murmurou.
Mauser, aterrorizada, parecia já saber de tudo.
Sem pensar de forma alguma os ogros de baixa patente avançaram contra as casas, se jogando de costas para derrubar quaisquer que fossem as partes atingidas. As pessoas dentro gritavam de pavor. As que tentavam correr eram pegas pelos monstros, as mãos gigantes do tamanho do torso de um homem grande. “Mas que droga…!”, Garand se ergueu, pronto para reagir, mas foi parado. Saiga segurou seu pulso, negando com a cabeça, mas com uma expressão frustrada. Tanegashima tinha razão, se eles saíssem dali sem planejar nada, tudo poderia ir por água abaixo. Garand, ainda insatisfeito, olhou para Mauser buscando razão para suas decisões, mas a garota estava numa situação tão drástica quanto qualquer um ali, mordendo seu lábio superior ao ponto de sangrar. Os olhos da menina, vidrados e impotentes. O que eles poderiam fazer? Mas eles tinham que fazer algo. Os gritos cada vez mais altos, não apenas de pânico, mas de dor. Aqueles ogros não se importavam com a qualidade daqueles que usariam como escravos, eles apenas desejavam mão de obra, e se não trabalhassem apenas por algumas costelas quebradas, podiam ser descartados.
Nenhum dos Guardiões, nem mesmo Mauser conseguia resistir àquilo. Eles queriam reagir. Eles tinham que reagir. E o destino, os deuses, deram motivos para eles reagirem.
Tanegashima, tentando atrasar os ogros e impedir que mais da sua vila fossem levados, pulou à frente, os atrapalhando. Isso foi uma péssima decisão, pois quem garantiu que os ogros parariam por apenas um velho na sua frente? Tanegashima não era importante para ninguém além daqueles da sua vila.
“Espe—”, Tanegashima não teve a mínima chance de reagir, pois um grande porrete balançava em sua direção, um porrete grande o suficiente para destruir seu corpo inteiro e deixar apenas os pés no chão. A única reação que pôde ter foi involuntária: uma lágrima desceu, como se seu corpo já tivesse aceitado. Mas aquele não era seu dia de morrer!
“[Corte + Diagonal + 20 + Metros + Distância + Eu + Cabeça + Ogro]!”, e ao repetir uma sequência de informações que soltas fariam qualquer um ver Saiga como louco, o mesmo executou uma mágica de forma perfeita em uma fração de segundos, criando uma onda de choque que partiu do mesmo rapidamente em direção à cabeça do ogro.
A criatura parou, mas não por notar Saiga pelo seu grito de desespero, mas por não ter nem mesmo sua cabeça para continuar pensando. Agora apenas um corpo coberto por sangue e miolos que caía lentamente e sem resquício de vida.
Antes mesmo que os outros ogros pudessem reagir, o segundo capanga, num movimento rápido, virou para olhar a igreja, imaginando que o ataque realmente viesse de lá, e ele não estava errado, pois o ataque veio e viria novamente do mesmo lugar.
“[Bola de Fogo, Lançar]!”, e com uma pontaria beirando a perfeição, apontando seu dedo como uma arma de mentira, Garand acertou em cheio a cabeça do monstro, o fazendo cair de joelhos. “Isso!”
E sem perder tempo, os dois pularam pela janela, saltando para as ruas de terra em meio à chuva. 20 metros à sua frente estava ele: o maior ogro daquele trio, certamente um capitão. Ele se armou, levantou seu porrete que parecia alcançar os céus, e rapidamente avançou com um único passo para a frente, estando agora próximo aos Guardiões. Eles notaram, mas não reagiram até que o porrete atingisse com força o chão, espalhando toda a lama ao redor, e então os heróis saltaram para os lados, pousando em guarda sem tirar os olhos do seu inimigo. A criatura ficou confusa, mas voltou à si logo; ele não era um ogro comum, afinal, tomando uma ação sem perder tempo, girando seu porrete no chão para lançar toda a lama possível a transformando numa parede, distraindo a todos que estivessem por fora, e então:
“[Lama + Lança + Atirar + Todos]!”, aquela voz grotesca vinha do próprio ogro, que grunhia alto.
E então dezenas de lanças feitas da própria parede de lama criada pelo ogro se formaram e foram atiradas como mísseis, atingindo tudo o que estivesse na frente.
“[Ar + Barreira + Saiga + Garand + Cobrir + Corpo]!”, e mais rápido ainda, Saiga gritou a plenos pulmões, conjurando um feitiço de barreira que protegeu ele e seu companheiro, mas a força das lanças foi o suficiente para os arrastar para trás, quase tirando seu equilíbrio.
“Por que até o ogro sabe usar magia?!”, Garand reclamou, batendo os pés como uma criança.
“Você desmaiou quando a Mauser explicou”, Saiga falava o mais alto possível desviando ao notar que o ogro avançou contra ele, o atacando. “E quando o Tanegashima explicou, você fez birra!”
“Meu sentimentos não são birras!”, birrava como criança.
Saiga, num salto gracioso, girou por cima do ogro, pousando ao lado de Garand. A barreira que cobria seus corpos fraquejava, mas se mantinha ativa.
“A magia nesse mundo funciona na base de conceitos, você só precisa falar eles enquanto mentaliza, assim”, o jovem andrógeno ergueu a mão direita assim como Garand fazia com frequência: “[Fogo + Esfera + Cinco + Centímetros + Tamanho + Lançar + Mão + Setenta + Quilômetros + Velocidade ]!”
O ogro se irritou, o feitiço de Saiga durou tempo o suficiente durante sua preparação, dando uma brecha para um golpe na vertical vindo de cima, mas antes mesmo que o golpe acertasse, da mão de Saiga uma pequena bola de fogo foi formada, que no mesmo momento em que se criou foi lançada girando rapidamente em direção ao rosto do ogro, que lutou para desviar ainda no ar, tendo sua orelha destruída. O monstro caiu no chão, tentando estancar o sangramento e encarava a dupla com ódio.
“O teu problema é que você usa preposições e vírgulas”, Saiga fez uma pose como se estivesse segurando uma pequena bola nas mãos. “Precisa do máximo de detalhes possível para que seja uma magia perfeita, mas desde que você consiga mentalizar o que quer formar e usar os conceitos enquanto liga eles sem preposição, eles vão funcionar.”
Garand coçou a barba. Ele parecia entender, mesmo que ainda estivesse confuso. Bateu o punho na palma da mão, sorrindo com alegria.
“Oi”, o ogro se estressava. Era como se pensasse “Estou sendo usado como treino? Eu sou general!”, ou algo assim, não como se ogros pensassem de verdade — possivelmente.
Não importava mais para ele, no fim. Ele lançou o porrete contra os dois que desviaram por pouco, mas aquilo no fim era mais como uma distração, pois já estava em cima deles pronto para os agarrar. Saiga, no susto, segurou com força a gola da camisa de Garand e, com um sorriso idiota, algo como um “confia em mim?”, Saiga o lançou para cima com toda a força que seu corpo permitia. A agarrada do ogro foi apenas nele, aquele jovem rapaz de corpo afeminado foi segurado por apenas uma mão e sacudido com a brutalidade de um monstro, como uma criança brincando que usa as bonecas sem preocupação, batendo contra o chão, as paredes, os tetos das casas. Saiga se esforçava para se soltar, mas o fôlego não voltava com facilidade.
Garand, ainda no ar, sentia como se estivesse planando. A barreira formada ao redor do seu corpo falhava até finalmente se esvair. Numa enorme distância vindo dos céus, via Saiga sendo balançado para lá e pra cá, mas de alguma forma não sentia que o amigo tinha desistido. “Mas por que ele não tá reagindo?”, ele pensou. Era como se Saiga não estivesse dando tudo de si por algum motivo.
O clima era agradável. Realmente, era agradável. Do céu, mesmo que abaixo das nuvens com chuvas torrenciais, recebendo todas as gotas que caiam com força, Garand não se sentia incomodado. A sensação era esquisita, mas aquilo não o incomodava. Aquele mundo, por inteiro era esquisito, e até mesmo o incomodava antes. Mas agora…
Garand suspirou e fechou suas mãos, cruzando todos os seus dedos como em uma oração. Seus olhos fechados. Nenhum outro som chegava aos seus ouvidos. Ele então começou a falar: “[Água + Chuva + Acima + Nuvens + Formar + Lança…]”, ele finalmente tinha entendido! “Quarenta + Metros + Tamanho + Vibrar + Moléculas + Aquecer]!”, e ao lado de Garand se formou uma gigante lança de água gerada através das gotas que vinham das nuvens, sendo sugadas com força para uma formação quase que perfeita. A lança borbulhava como água dentro de uma panela. “[Comprimir + Dois + Metros + Tamanho]!”, e ela se comprimiu para uma lança de tamanho comum, mas prestes a explodir, sendo mantida pela pura mana no corpo de Garand! Ele gritou:
“[LANÇAR]!”, e girando seu corpo como um lanceiro dos mais bem treinados, daqueles que se vê apenas na elite, atirou a arma criada com toda a força possível em direção ao ogro que os atacou.
A lança voou numa velocidade quase impossível de se prever, mas Saiga previu algo: se não se libertasse, ele morreria junto do ogro general. E com toda a força reservada em seu corpo e com um sorriso maníaco em seu rosto, se esticou por completo para se soltar, abrindo a mão daquele monstro que o torturava e saltando para o mais longe possível assim que tocou ao chão — por pouco não alcançou.
E a última visão da criatura grotesca foi, no fim da sua vida e ao ser atingido pela lança mágica formada por Garand, o olhar de deboche de uma garotinha que foi subestimada. Mas, de relance, ele percebeu que subestimou aquele que estava acima dele.
O corpo do monstro, no mesmo momento em que foi tocado pela ponta da lança, foi desintegrado por completo.
Garand, o Guardião, venceu sua primeira batalha em outro mundo.
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