GuardiõesLivro 1 – Capítulo 8 - Primeira Invasão
Capítulo 8“Como você sobreviveu àquela queda?”, Mauser perguntava cutucando insistentemente a tempora de Garand.
Ele já estava estressado, sua sobrancelha tremendo incessantemente. “Dá pra parar…?!”, uma voz tão irritada, tão forte quanto a dos ogros antes mortos.
O grupo agora se encontrava na igreja, novamente. Tanegashima, na cadeira da outra ponta, parecia animado, mas por estar numa posição de autoridade escondia a empolgação com uma expressão séria. Saiga apenas sorria pensando quando Garand explodiria por ser tocado por tanto tempo com tanta irritação.
“Vocês são realmente incríveis…! Não havia a mínima dúvida de que vocês seriam os guardiões!”, Tanegashima falava com uma alegria contida na voz, finalmente encontrando aqueles que estavam destinados a salvar o seu mundo abandonado pelo destino. Parecia que, no fim, os deuses não deixaram eles à mercê das desgraças de verdade.
“Te contar, aquilo realmente foi incrível, Garand”, Saiga tinha orgulho na voz. “Eu não acho que conseguiria executar aquela magia sem sangrar pelo nariz. Só de segurar as duas barreiras em nós dois eu estava cansado.”
“Vocês me superestimam demais”, no pico do seu estresse estava agora segurando o rosto de Mauser, puxando toda a sua face e a apertando na palma da sua mão. A menina lutava para se soltar, mas apenas seus braços e pernas loucamente lutavam enquanto seus gritos abafados tentavam fugir. “Acho que foi uma…”
“Epifania”, Saiga comentou baixinho.
“Uma epifania, eu senti algo vindo do fundo da minha alma e fiz o que tinha que ser feito, parecia instintivo”, ele largou o rosto da garota — a qual voou com toda a força para trás por estar tentando se livrar, respirando fundo para recuperar o ar perdido.
“Mágicos experientes tem a mágica integrada nas suas almas e mentes, como o senhor é um Guardião isso acaba sendo o mais básico”, Tanegashima explicou com calma buscando as melhores palavras.
Garand coçou a nuca. “Estranho todo mundo falar portugues aqui, é como se o mundo fosse feito para a gente, né, Saiga?”
“Português?”, Tanegashima questionou.
Garand se viu confuso, cruzando os braços. “Sim, nosso idioma.”
“Ah, claro! O senhor Saiga também comentou isso, não foi?”, o velho gesticulou com a mão.
“Somos basicamente diplomatas”, Saiga falou com alto e bom tom. “Já que o motivo de virmos pra cá foi para acabar com as guerras, obviamente temos que entender todos os idiomas do mundo que estamos vivendo. Muitos na vila não falam o idioma dos ogros, mas nós entendemos o que eles falavam, lembra?”
Ele parecia ter entendido. Concordou com a cabeça fechando os olhos. “Mas agora o que vamos fazer?”, perguntou.
“Não é óbvio?”, Saiga se levantou e ergueu uma pequena lista na sua mão. “Vamos invadir a base dos ogros!”
“...”
“...”
“...”
“...”
Ninguém fala nada nessa parte?
“Você é idiota?!”, Garand girou a mesa lançando ela para cima, a fincando no teto como se fosse uma tampa de bueiro sendo atirada por um tanque.
“Mas a gente consegue, irmão!”, Saiga saltou para a frente com uma expressão triste, em sua mente seu plano era perfeito.
“Saiga, a gente nem sabe quantos tem lá!”
“Tá na lista do Tanegashima!”
“A gente nem sabe o que esse tal ogro líder pode fazer!”
“Tá na lista do Tanegashima!”
“Tanegashima?!”, e com ódio olhou para o velho homem que tentava apaziguar à metros de distância.
“Os jovens de hoje em dia”, ele falou suando frio.
“A gente não pode invadir assim, Saiga! Se a gente for lá e só lutar, a gente morre!”, Garand avançava com pisadas fortes no chão enquanto apontava para o amigo, era como uma mãe dando uma bronca. “O que tá se passando na tua cabeça?!”
“Você devia confiar mais em mim, cara! Sério, se a gente fizer o que eu planejei, a gente liberta todos os prisioneiros, mata o líder dos ogros, vence essa guerra e vamos estar cada vez mais próximos de voltar pra casa, que nem você quer!”
“Não use minha vontade de voltar como justificativa!”, ele estava agora apertando o pescoço de Saiga, o balançando no ar enquanto o jovem rapaz/garota sorria apontando para as escrituras na lista gemendo em como seu plano era infalível.
“Larga!”, mas por trás veio mais uma guerreira: Mauser, agarrando as costas de Garand e mordendo seu pescoço. A luta entre dois amigos Guardiões se transformou num grande conflito agora com um membro daquele mundo diferente. A guerra que deveriam finalizar, Garand mesmo começou.
“Eu não comecei guerra nenhuma!”, as palavras são dele.
…
“Eu ainda estou com raiva”, disse Garand apertando o pescoço coberto com uma faixa.
“Não fui eu que te mordi”, Saiga, de uma forma engraçada, andava com o pescoço completamente deitado para a esquerda de uma maneira nem um pouco natural.
Eles estavam na trilha. Seguindo pelo mapa de Tanegashima conseguiriam chegar na base dos ogros até o fim do dia. Claro, poderiam sim apenas saltar para o combate com facilidade, mas ainda não sabiam dos limites dos seus corpos e ainda estavam cansados das batalhas que tiveram, então evitaram movimentações desnecessárias e chamar atenção dos inimigos.
Suas roupas estavam bastante desgastadas, então trocaram. Garand se sentia um pouco incomodado com as vestimentas tão rudimentares que as pessoas daquela vila usavam, enquanto Saiga por outro lado se incomodava mais com o torcicolo — mas, ainda assim, adorava o estilo medieval. Era romântico.
“Tanto faz, esquece isso daí”, Garand puxava um cantil, bebendo sem desperdiçar uma única gota. “Estamos quase chegando, né? Sinto o cheiro da fumaça.”
A trilha era basicamente feita de pedras. Já estavam subindo na montanha. O calor nas suas mãos quando precisavam se apoiar. Era como subir em um vulcão prestes a explodir. “Deve ser tanto fogo atrás disso”, Saiga comentou. “Não quero nem saber o que estão queimando lá atrás.”
“Tenho uma suposição.”
“Não fala, isso é bizarro até pra mim”, Saiga tremeu.
“Mas as anotações do velho Tanegashima são bem descritivas, até me assustam”, se apoiou no galho de uma árvore que crescia entre as rochas. “Não sei como ele consegue”, estendeu a mão para ajudar o outro a subir.
“Ele só queria dar o máximo de ajuda possível, e se ser mórbido for necessário para isso, então deixa ele”, agarrou o pulso do amigo, dando um pequeno salto para o alcançar. “A gente nem tem noção do que essa galera tá passando.”
“Continuo incomodado.”
“Tranquilo, meio que nunca passariamos por isso, né?”, a cada vez que Saiga precisava apoiar as mãos em alguma rocha sempre batia elas contra as roupas, uma mania vinda do outro mundo. “Mas fazer o que, se o roteiro dessa historinha clichê quer que a gente faça isso, a gente faz.”
Garand coçou a cabeça, incomodado.
“Relaxa”, Saiga balançou os braços com um sorriso sem jeito. “Bora pensar positivo e pensar que quem quer que esteja escrevendo nossa história não vá nos matar no final, né?”
E, no susto, um tufo de cabelo de Garand caiu. Saiga abaixou a cabeça e voltou a olhar para a lista. “Eu vou ficar quieto.”
O calor aumentava a cada passo. Estavam se aproximando. Algo parecia os segurar, quase impedindo seus pés de se moverem. Mas nada iria segurar eles de verdade. Já no topo da montanha onde nem mesmo as árvores existiam, onde nem mesmo havia neve ou ventos, apenas pedra negra pelas cinzas e pelo fogo que as queimou, eles viram o “covil” dos ogros.
“Cara”, Saiga fez uma careta, nojo era o que ele sentia.
Garand apenas cerrou os punhos.
Era o inferno vermelho sangue. Assim como na área em que os rapazes apareceram pela primeira vez, essa era uma pequena região coberta por montanhas, aparentemente ali era montado por pequenas áreas dessa forma, mas diferente da primeira, essa era coberta de fogo e corpos carbonizados, hostilizados. Centenas de milhares de ogros, centenas de escravos. Mulheres e crianças presas em jaulas. Homens arrastando carroças carregadas de corpos e minérios. Os gritos cobriam o som dos chicotes, os chicotes cobriam o som dos choros. Mas algo tirava completamente a atenção, e isso era o monstro de dezenas de metros que se encontrava no centro. Era uma criatura gorda, mal podia se levantar. Era tão repleto de brotoejas quanto os outros ogros. Sua pele nem mesmo podia se dizer que era verde, mas uma nova cor nojenta criada apenas para aquele monstro. Usava adornos, mas nenhuma roupa. Pernas tão pequenas, com toda certeza nunca se levantaria. Em uma mão, um cajado gigante, tão grande quanto aquilo, já na outra um grupo de mulheres. Ele ria antes de mastigar suas cabeças, e então gargalhava ao ver o terror das outras que sabiam que teriam o mesmo destino. Horror. Aquilo era um horror que nenhuma criatura deveria ver, viver ou imaginar. Mas aquilo não duraria tanto tempo. Naquele mesmo dia todos os ogros do mundo iriam morrer.
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