Jogando Jogos de Morte para Colocar Comida na MesaVolume 5 – Volume 5 (parte 1)
Capítulo 10.1(00/06)
Yuki despertou com uma brisa carregada de poeira.
(01/06)
Ela estava deitada dentro de um barraco de madeira. O teto apodrecido, as paredes cobertas de mofo e as tábuas faltando no chão indicavam que a estrutura estava prestes a desabar. As duas janelas estavam quebradas, permitindo que o ar do lado de fora invadisse o interior sem qualquer resistência. O chão estava coberto de poeira, provavelmente trazida pelo vento.
Foi naquele cômodo que Yuki acordou.
Ela se sentou e olhou para si mesma, percebendo que vestia um traje extremamente constrangedor: uma roupa de cowgirl. Na cabeça, um chapéu de dez galões — símbolo clássico do Velho Oeste. As pontas da camisa estavam amarradas, encurtando a peça o suficiente para deixar sua barriga completamente exposta. O short jeans havia sido cortado o mais curto possível, e suas botas tinham esporas salientes na parte de trás. Um coldre preso ao cinto carregava uma arma.
Yuki puxou a arma — um revólver.
Ela o examinou rapidamente. O tambor girou ao ser aberto, revelando seis balas carregadas — capacidade máxima. Aquilo parecia ser todo o seu estoque, pois nenhuma munição extra foi encontrada, mesmo após uma busca minuciosa no traje. Embora quisesse testar a arma, a quantidade limitada de balas e a relutância em fazer barulho desnecessário a fizeram desistir por enquanto.
Yuki abriu a porta deteriorada e saiu.
Diante dela se estendia uma cidade típica do Velho Oeste, combinando perfeitamente com seu visual. Os prédios ao redor e a terra sob seus pés eram todos em tons de marrom. Até o céu parecia opaco e sem vida. Não havia ninguém por perto; o único movimento vinha dos fardos de feno rolando pelo vento, como nos clássicos filmes de faroeste.
Yuki olhou para as próprias mãos. Estalando os dez dedos, começou a caminhar.
(02/06)
Yuki Sorimachi era uma jogadora de death game.
Isso significava que ela ganhava a vida arriscando a própria vida em jogos mortais em troca de prêmio em dinheiro. Ela só havia descoberto a existência desses jogos alguns dias antes.
No primeiro, precisou atravessar um percurso de obstáculos letal vestindo um uniforme de educação física escolar. No segundo, teve que empurrar outras jogadoras para fora de um palco usando um figurino de idol. Depois de superar os dois primeiros desafios com excelência, Yuki agora estava em seu terceiro jogo.
Aparentemente, as regras variavam a cada rodada. Em algumas competições, como a primeira, as jogadoras enfrentavam ambientes perigosos. Em outras, como a segunda, as participantes eram colocadas umas contra as outras.
Pelo visto, o jogo atual se encaixava na segunda categoria.
Yuki disparou seu revólver.
Um segundo depois, sangue espirrou da garota que estava diante dela. Graças ao Tratamento de Preservação — um procedimento corporal pelo qual todas as jogadoras passavam — o sangue se transformou imediatamente em um material branco e fofo. Por isso, não sujou o corpo de Yuki nem manchou a paisagem da cidade.
Após levar o tiro bem no centro do peito, a garota caiu no chão, para nunca mais se levantar. Seu último suspiro já havia sido dado.
Ela também era uma jogadora.
Assim como Yuki, vestia uma roupa de cowgirl, mas em um estilo diferente — mais organizado e formal, expondo bem menos o corpo. Provavelmente representava uma xerife.
O vento espalhou os papéis que a garota segurava. Um deles voou na direção de Yuki, que conseguiu agarrá-lo no ar.
Era um cartaz de procurada.
No centro, havia uma grande foto do rosto de Yuki. Acima, a palavra “PROCURADA”. E, na parte inferior, a frase “VIVA OU MORTA”, acompanhada de uma recompensa em dinheiro.
Aquilo deixava claro o formato do jogo: um duelo entre foras-da-lei e xerifes.
Yuki e as outras foras-da-lei venceriam se conseguissem escapar da cidade com vida. Já os xerifes precisavam acumular dinheiro capturando criminosos.
Yuki continuou avançando.
Compartilhando informações com outras jogadoras e tirando conclusões com base no que observava, Yuki reuniu mais detalhes sobre o jogo.
Havia cerca de cem participantes no total, divididos aproximadamente em oitenta foras-da-lei e vinte xerifes. Alguns pontos da cidade funcionavam como “delegacias”, onde os xerifes levavam os capturados. Seguindo a regra do “viva ou morta”, muitos eram entregues já como cadáveres — mas mesmo aqueles capturados vivos seriam executados ao fim do jogo.
Ambos os lados possuíam revólveres idênticos. Porém, enquanto os foras-da-lei tinham apenas seis balas cada, os xerifes podiam reabastecer munição nas delegacias.
Além disso, a recompensa por cada fora-da-lei não era fixa. Ela aumentava continuamente conforme o tempo passava, variando de acordo com fatores como número de abates e proximidade da saída da cidade.
Em outras palavras: quanto mais forte o jogador, maior a recompensa por matá-lo.
Para o bem ou para o mal, a recompensa pela cabeça de Yuki só aumentava — e isso a colocava em confrontos cada vez mais frequentes.
Yuki nunca havia sequer saído de Honshu, a principal ilha do Japão, muito menos do próprio país. Nunca tinha segurado uma arma antes.
Mesmo assim, assim como nos dois primeiros jogos, ela simplesmente se destacava.
Derrubando xerifes uma após a outra, aproximava-se cada vez mais da saída.
Então, de repente, Yuki parou — ou melhor, foi obrigada a parar.
Ela analisou cuidadosamente o que estava à sua frente.
Ao longe, havia um arco com o nome do jogo escrito: HORMONE TOWN (“CIDADE DOS HORMÔNIOS”).
Além dele, quilômetros e quilômetros de terra árida se estendiam até onde a vista alcançava — provavelmente marcando o limite da cidade.
Entre Yuki e a saída havia apenas uma fileira de prédios deteriorados.
Nenhuma alma estava visível.
Pelo menos, não aos olhos.
Mas Yuki conseguia perceber inúmeros sinais de presença espalhados pela área. Um grande grupo de xerifes estava escondido nas sombras dos prédios, preparando uma emboscada perto da saída.
“…Que saco.’
Ajustando o chapéu, Yuki entrou em um dos edifícios.
(03/06)
Assim como Yuki havia previsto, havia uma xerife esperando lá dentro.
Sem hesitar por um segundo, Yuki apontou a arma, matou a outra jogadora e pegou suas balas antes de seguir para o próximo prédio.
Derrubou a xerife dali também — e a do prédio seguinte. E depois outra. E outra.
Claro, as xerifes tentaram revidar.
Mas nenhuma das balas acertou.
De algum jeito, Yuki conseguia sentir o exato momento em que elas apertavam o gatilho, o que lhe permitia desviar no instante certo.
Acho que eu realmente levo jeito pra isso, pensou, chegando à mesma conclusão dos jogos anteriores.
Sem sofrer um único arranhão, ela chegou ao último prédio.
Ao abrir a porta dos fundos, ficou frente a frente com a última xerife: uma jogadora esguia, de cabelos brancos ondulados.
Como fizera com todas as outras, Yuki apontou o revólver.
Nos confrontos anteriores, as adversárias sempre reagiam de duas formas: ou tentavam sacar a arma — e levavam um tiro na cabeça — ou faziam manobras desesperadas para desviar. Mesmo quando conseguiam escapar do primeiro disparo, bastava mais um ou dois tiros para Yuki mandá-las para o túmulo.
Mas dessa vez foi diferente.
A xerife de cabelos brancos seguiu um terceiro caminho:
Sacou e atirou mais rápido que Yuki.
“ ——!”
Yuki se lançou para o lado, escondendo-se atrás da porta que havia acabado de abrir. Fechou-a rapidamente e começou a se mover pela parede externa do prédio.
Entrar novamente pelos fundos seria suicídio. Precisaria contornar até a entrada principal ou alguma janela para atacar.
Mas foi um erro fatal.
A bala disparada antes atravessou a parede de madeira e atingiu sua perna.
Yuki caiu de peito no chão de terra.
O impacto roubou seu ar — ironicamente, impedindo que gritasse.
Ela virou o rosto em direção à porta dos fundos no exato momento em que ela se abriu.
A xerife saiu e contemplou a cena patética de Yuki caída no chão.
“Quão idiota você consegue ser?”, zombou. “Acha mesmo que essa parede velha impediria uma bala?”
Ela estava certa.
Yuki ingenuamente pensara que qualquer obstáculo serviria como cobertura — como nos videogames. Uma lição dolorosa de que as mecânicas de death games eram muito diferentes das de “outros jogos”.
Mesmo caída, Yuki apontou sua arma.
Dessa vez, foi mais rápida.
O percussor atingiu o cartucho — a bala voou direto para o rosto da xerife —
— que desviou simplesmente inclinando a cabeça.
“Não mire no crânio”, disse a mulher. “Um movimento mínimo já é suficiente para desviar. Você só acertaria as mais fracas assim.”
Os olhos de Yuki se arregalaram.
Ela também conseguia desviar de balas.
Mas não houve tempo para pensar.
A xerife disparou uma sequência de tiros.
Todos acertaram.
Um na perna intacta.
Dois no tronco.
Um na mão esquerda.
Um no ombro esquerdo.
A arma de Yuki foi lançada longe.
Como a mulher evitara mirar na cabeça, nenhum tiro foi fatal — mas Yuki ficou completamente incapacitada.
A xerife se aproximou.
Já havia disparado seis vezes. Seu revólver estava vazio. Como xerife, certamente possuía munição extra — mas não recarregou.
Em vez disso, puxou uma segunda arma.
Yuki esperou pelo disparo.
Mas a mulher segurou o revólver pelo cano.
Era a postura de alguém prestes a usar a coronha como arma.
Ela pisou em Yuki.
Seu olhar era frio demais para alguém que estava prestes a espancar outra pessoa.
“Quem diabos é você…?” Yuki perguntou, quase gemendo.
A resposta veio curta, no instante em que a arma desceu:
“Hakushi.”
Tudo ficou preto.
(04/06)
Yuki acordou sendo sacudida violentamente.
Percebeu rapidamente que estava na parte de trás de uma carroça puxada por cavalos. Tábuas de madeira sob seu corpo, uma cobertura arqueada acima. Na frente, um condutor segurava as rédeas de dois cavalos.
Seu vocabulário não ajudava muito — mas “carroça” parecia o termo certo.
Ela não estava sozinha.
Cerca de uma dúzia de passageiras — todas vestidas como xerifes.
Entre elas, a mulher de cabelos brancos.
“Ah”
No mesmo instante em que Yuki abriu a boca, Hakushi virou o rosto.
“Finalmente acordou?”
“…Onde estamos?”
“Numa carroça, obviamente.”
Yuki olhou para trás.
Ao longe, o arco com o nome HORMONE TOWN desaparecia no horizonte.
Ela havia escapado.
O jogo tinha acabado.
Ela sobrevivera.
“Mesmo capturada por uma xerife.”
“Como…?”, perguntou Yuki.
“Considere-se sortuda. Você viveu”, respondeu Hakushi. “Você eliminou todas as xerifes que ainda precisavam de recompensa naquela sua chacina. Depois disso, não havia mais necessidade de matar.”
As outras xerifes olhavam para Yuki com frieza.
“Você não ia me matar?”
“Como eu disse, não era mais necessário. Ou você preferia que eu tivesse atirado na sua cabeça?”
Yuki não respondeu.
Mas, por dentro, sentiu frustração — como alguém que perdeu o momento exato de saltar no bungee jump.
Hakushi então perguntou:
“Qual é o seu nome?”
“Hã?”
“Seu nome.”
“…Yuki Sorimachi.”
“Nome de jogadora?”
“Yuki.”
“Você respondeu com seu nome real primeiro. Novata, hein? Quantos jogos já jogou?”
“Esse foi o terceiro. E daí?”
“Alguém está te mentorando?”
Yuki demorou para processar a palavra.
“Mentorando?”
“É comum nesse meio.”
“Em jogos da morte?!”
“Justamente por serem jogos da morte. É difícil sobreviver sozinha.”
Hakushi lançou outro olhar.
“Então? Tem alguém te orientando?”
“Por que eu teria?”
“Imaginei. Nesse caso… eu vou te aceitar como minha protegida.”
A carroça explodiu em murmúrios.
As outras xerifes ficaram chocadas.
Mas ninguém estava mais chocada do que Yuki.
“É o que você precisa”, continuou Hakushi. “Você tem talento, mas talento bruto não basta. Precisa de conhecimento e técnica.”
“Você não decide isso por mim!” Yuki retrucou. “O que você é, minha mãe?”
“Essa atitude vai te levar para a cova cedo.”
“Esquece. Não quero nada do que você está oferecendo.”
“Vai mesmo dizer isso depois de quase morrer? Você só está aqui por sorte.”
“E daí? Eu não estaria aqui se quisesse viver muito.”
Hakushi ficou em silêncio por um momento.
Yuki já sabia o que viria.
Pessoas como ela sempre diziam a mesma coisa.
“Houve um tempo em que eu também não me importava em morrer”, disse Hakushi.
Exatamente como Yuki previra.
Mesmo assim, sentiu algo quente subir à cabeça.
“Onde você quer chegar?”
“Eu não me sinto mais assim. E talvez um dia você também mude. Por isso deveria aprender as técnicas para viver mais.”
“Ah, então você está tentando me salvar porque se enxerga em mim?”, as palavras saíram rápidas. “Deixa eu te ensinar uma coisa: quando for conversar com alguém, trate como indivíduo. Não como o fantasma do seu passado. Isso é nojento.”
Hakushi se calou.
“Justo”, disse por fim. “Então deixo a decisão com você. Se quiser ser minha protegida… se quiser evoluir como jogadora… se algum dia mudar de ideia…”
Ela arrancou um pedaço do próprio chapéu, escreveu algo e entregou para Yuki.
“Pode vir quando quiser. Nesse endereço.”
(05/06)
No fim das contas, Yuki aceitou o convite de Hakushi para se tornar sua protegida.
Nem mesmo ela saberia explicar exatamente por quê.
Talvez as palavras de Hakushi tivessem sido mais persuasivas do que Yuki gostaria de admitir.
Talvez tenha sido apenas um impulso momentâneo.
Talvez quisesse reencontrá-la só para lhe dar um tapa na cara.
Ou talvez — bem no fundo — tivesse realmente sentido medo de morrer.
Seja qual for o motivo, conhecer Hakushi mudou drasticamente o rumo de sua vida.
Yuki seguiria o caminho de uma jogadora de death game.
E mais do que isso —
Ela herdaria o objetivo de sua mentora:
Alcançar noventa e nove vitórias consecutivas.
Muito tempo se passou desde então.
Agora, era Yuki quem ocupava o papel de mentora.
(06/06)
O ciclo continuava.
(00/28)
Era noite.
Yuki acordou dentro de seu apartamento familiar e deteriorado.
(01/28)
Os raios do sol poente filtravam-se pelas janelas e lançavam um brilho avermelhado pelo cômodo.
Era um pequeno estúdio. Os únicos objetos que poderiam ser considerados móveis eram o colchão em que Yuki dormia, uma geladeira e uma escrivaninha. Apesar de ela ter arrumado as coisas, o piso e as paredes mostravam sinais consideráveis de desgaste, não havendo como esconder a aparência envelhecida do lugar. Era o mesmo apartamento velho e deteriorado que a fazia se perguntar, incredulamente, como conseguia viver em tais condições sempre que acordava.
Exceto—uma coisa estava diferente do habitual.
Yuki olhou para o lado.
No mesmo colchão, dormia uma garota um pouco mais nova que ela. Normalmente, a garota exalava o charme hipnotizante de uma femme fatale, mas esse magnetismo desaparecia enquanto ela dormia. Seu estilo característico era usar o cabelo preso em dois coques na parte de trás da cabeça, mas, naturalmente, ela os havia desfeito para dormir.
O nome da garota era Tamamo.
Embora Yuki relutasse em admitir, ela era sua protegida.
(02/28)
Até recentemente, Yuki havia sido sobrecarregada com inúmeros problemas.
O jogo catastrófico, em que a maioria das participantes fora massacrada por um único jogador.
Seu diagnóstico de perda progressiva da visão no olho direito.
O olhar curioso de uma colega que a seguia para todos os lugares na escola.
Yuki não enfrentava tantos desafios graves de uma só vez desde a Muralha dos Trinta, e teve que se desdobrar para lidar com eles.
Ela conseguiu resolver satisfatoriamente o primeiro problema e também encontrou uma forma de lidar com o segundo. Estava prestes a se concentrar no terceiro, sua perseguidora, quando um quarto problema surgiu do nada.
Certa noite, ao voltar da escola, Yuki notou uma garota parada do lado de fora de seu apartamento.
A garota era linda. Alguém que seria melhor descrita com adjetivos como deslumbrante e maravilhosa, em vez de fofa ou bonita. Sua beleza era tão impactante que despertava desconfiança em quem a visse. Ela tinha uma aura como a de uma femme fatale capaz de enredar um rei e arruinar sua nação; ou de uma criatura mutante que atrairia homens para seu território antes de devorá-los; ou ainda de uma jovem celebridade cujos compromissos artísticos a mantinham fora da escola e no centro das atenções.
Sua aura única denunciava imediatamente que ela era uma jogadora.
No entanto, Yuki não a lembrava. Embora não se recordasse de todos os rostos das jogadoras com quem já havia interagido, não acreditava que esqueceria uma garota com uma beleza tão impressionante.
Então, Yuki ficou parada, imóvel, sem saber quem era a garota.
A primeira a quebrar o silêncio foi ela.
A garota se aproximou de Yuki com pernas esguias e cumprimentou-a com uma voz melodiosa que combinava com sua aparência.
“Boa noite.”
A garota fez uma reverência, revelando os coques duplos na parte de trás da cabeça.
“…Olá”, respondeu Yuki, com um aceno de cabeça.
A garota olhou para Yuki e segurou sua mão.
“Finalmente, eu te encontrei! Isso significa que podemos começar a lição dois, certo?”
“Hã?”
A garota olhou diretamente nos olhos de Yuki.
Enquanto a encarava, Yuki começou a formar uma teoria.
“Você está brincando, né…? Hum… só para ter certeza…”
“Sim?”
“Você é aquela jogadora do Halloween Night…? Tamamo?”
O largo sorriso da garota confirmou a resposta.
Tamamo.
Esse era o nome de uma jogadora que Yuki havia encontrado durante seu 45º jogo, Halloween Night. Na época, a garota estava mais gordinha, sem uma beleza que chamasse atenção. Se não fosse pelos coques e pelas palavras “lição dois”, Yuki nunca teria percebido que se tratava da mesma jogadora.
Yuki não passou muito tempo com Tamamo durante o jogo; apenas a resgatou de ser atacada por outras jogadoras. Essa foi toda a extensão de seu relacionamento.
No entanto, talvez Tamamo tenha achado esse ato heroico particularmente impressionante, pois pediu que Yuki a aceitasse como protegida.
Na época, Yuki tinha muitos problemas em mente e não tinha espaço para mentorar alguém. Naturalmente, recusou.
Mas Tamamo continuou insistindo.
Sem escolha, Yuki concordou superficialmente em tomá-la sob sua tutela e iniciou a lição um: uma longa corrida de treinamento.
Tamamo completaria a lição se conseguisse correr o suficiente para emagrecer e alcançar Yuki.
Essa desculpa deu a Yuki uma saída conveniente.
E ainda assim, Tamamo estava ali, diante dela.
Havia passado por uma transformação dramática e finalmente alcançado Yuki.
Portanto, Yuki estava obrigada a cumprir sua promessa e passar para a lição dois.
(03/28)
Yuki convidou Tamamo para entrar no complexo de apartamentos, e ambas chegaram ao apartamento 107.
Como Yuki acabara de voltar da escola, vestia seu uniforme estilo marinheiro. Ajustou a fita enquanto olhava para Tamamo.
“Vou me trocar, então espere aqui.’
Yuki abriu a porta do apartamento. Tirou os sapatos e entrou no hall de entrada. Depois de alguns passos, abriu o armário embutido. Com a mão no colar do uniforme, começou a se trocar—
— quando sentiu alguém atrás dela.
Yuki se virou.
Tamamo estava a poucos centímetros dela.
“…………”
Yuki olhou para o hall e notou um par de sapatos que não eram seus. Em seguida, seu olhar caiu sobre as pernas de Tamamo, totalmente dentro do apartamento, e finalmente sobre o rosto sorridente da garota, que não demonstrava qualquer dúvida sobre ter entrado sem permissão.
“…Quando eu disse ‘espere aqui’, quis dizer fora.”
“Eu sei”, respondeu Tamamo.
“O quê? Você está esperando me ver me trocar…?”
“Posso?”
“Claro que não.”
Yuki olhou diretamente nos olhos de Tamamo, que, por algum motivo, brilhavam levemente.
“Não quero esperar do lado de fora”, reclamou Tamamo. “Quero ficar ao seu lado o máximo possível.”
“…Tudo bem”, cedeu Yuki.
Ela entrou completamente no armário e fechou a porta, para não ser vista. Pegou um agasalho pendurado e começou a se trocar no escuro.
Enquanto isso, pensava.
Embora não tivesse intenção alguma de mentorar uma protegida, não podia quebrar sua promessa. Mas o que ensinar primeiro?
Desde que acreditava ter escapado de Tamamo, não havia pensado em um plano. Além disso, era sua primeira vez como mentora e não sabia por onde começar.
Qual foi a primeira lição que Hakushi lhe dera?
Fazia tanto tempo que suas memórias estavam turvas.
Talvez fosse sensato pedir conselhos a Hakushi sobre como treinar uma protegida. Embora Yuki geralmente relutasse em procurar sua mentora, essa situação era diferente.
Ao decidir que falaria com Hakushi mais tarde naquela noite, terminou de se trocar.
Ao sair do armário, ouviu o som de água correndo.
“O quê…?!”
O barulho vinha da cozinha.
Tamamo estava lavando a louça.
“O-que você está fazendo?”, perguntou Yuki, correndo até ela.
“Ah, Yuki”, respondeu Tamamo, limpando um prato com uma esponja. “Suas louças sujas estavam empilhadas, então estou lavando… Estou atrapalhando?”
“Não, não… Não diria isso.”
Yuki olhou para a cozinha.
Era uma bagunça enorme.
Não apenas os pratos e utensílios estavam sujos, mas ao lado da pia havia embalagens de comida, pacotes de ramen instantâneo, hashis de madeira, colheres de plástico e mais.
Tamamo apenas os enxaguara.
Há quanto tempo Yuki não lavava realmente a louça? Nem se lembrava.
Ainda assim, sua cozinha estava relativamente limpa se comparada ao auge da bagunça antes de Candle Woods, quando era impossível sequer tentar lavar algo.
Claro que Yuki preferia uma cozinha limpa.
Ela estava grata pela ajuda de Tamamo, mas sentia-se envergonhada — muito mais do que se Tamamo tivesse apenas a observado se trocar. A bagunça era um símbolo de sua vida desleixada.
“Só por curiosidade… você olhou em algum outro lugar além da cozinha?”, perguntou Yuki.
“Onde você quer dizer?”
“Tipo, o banheiro ou a banheira…”
“Não, não fui… Estão na mesma condição?”
“Claro que não. Por que acha isso?”, Yuki sorriu. “Mas não entre sem permissão. Há, hum… plutônio. Não é seguro.”
“Onde você pretende dormir hoje?”, perguntou Yuki a Tamamo, que ainda caminhava ao seu lado.
“Hã? Bem, hum… Se não for um problema…”, respondeu Tamamo, mexendo-se nervosamente. Ela parecia hesitar em pedir diretamente para ficar no apartamento de Yuki.
“Você pode ficar”, ofereceu Yuki. “Não há hotéis por aqui…”
As duas voltaram para o apartamento de Yuki. Yuki puxou o colchão do armário e o colocou no chão.
“Só tenho este, então use-o para você”, disse Yuki. “É o que eu sempre durmo, então desculpe se estiver sujo.”
“Oh, não, não poderia” — Tamamo esticou as mãos à frente do rosto. “Não posso te expulsar da sua própria cama… Vou dormir no chão.”
“Oh?”, pensou Yuki. Agora você está sendo toda considerada?
A aparente mudança de comportamento de Tamamo fez o lado travesso de Yuki se manifestar.
“Que tal dormirmos juntas?”, propôs Yuki.
“Hã?! …M-mas…”
O rosto de Tamamo ficou pálido — apresentando a Yuki uma abertura para agir.
“Algum problema?”, perguntou Yuki, fingindo ignorância. “Eu só tenho um colchão, então não há outra maneira de nos mantermos aquecidas.”
“N-não, mas hum…”, gaguejou Tamamo.
Yuki empurrou levemente a garota pelos ombros, fazendo-a cair no colchão. Depois, cobriu Tamamo com o cobertor antes de se juntar a ela por baixo.
Agora as duas estavam dividindo a mesma cama, como alguns chamavam de co-sleeping.
“E-ei, Yuki…!”
Tamamo tentou se libertar do cobertor, mas Yuki pressionou firmemente para impedir seus movimentos.
“Você não disse que queria ficar ao meu lado? Por que está se opondo a isso?”, perguntou Yuki, usando as próprias palavras de Tamamo contra ela.
Tamamo baixou o olhar, aparentemente tentando pensar em uma resposta. O rubor em sua pele clara deixava claro que estava corada. Que fofa — pensou Yuki.
Depois de conseguir o consentimento de Tamamo — ou melhor, depois que Tamamo parou de resistir — as duas foram dormir. Tamamo fechou os olhos firmemente e permaneceu em silêncio, como se tentasse adormecer o mais rápido possível. Yuki manteve os olhos abertos, observando atentamente a garota.
O colchão era feito para uma pessoa. Se duas quisessem compartilhar, teriam que se aconchegar muito próximas. Isso significava que Yuki e Tamamo estavam extremamente próximas, uma distância considerada excessiva mesmo entre pai e filho ou irmãos. Yuki estava perto o suficiente do rosto de Tamamo para distinguir cada fio de seus cílios.
Surpreendentemente, mesmo com uma visão tão próxima, Yuki não conseguiu encontrar uma única imperfeição nas feições da garota. Não havia rugas ou espinhas, todas as partes do rosto estavam exatamente onde deveriam, e a região ao redor dos olhos e a ponte do nariz formavam uma curva impecável. Mesmo com o Tratamento de Preservação, a beleza da garota era fora do comum. Sua aparência também transmitia certo medo, como se estivesse prestes a entrar no vale da estranheza, apesar de Tamamo ser humana, parecendo uma selfie excessivamente retocada.
Enquanto Yuki continuava a observar, por algum motivo, começou a se excitar. O fato de Tamamo não ser apenas bonita era o que a excitava ainda mais. Yuki tinha uma teoria pessoal: coisas — fossem mangás ou música — só eram realmente encantadoras quando não eram apenas agradáveis, mas também possuíam certo grau de desconforto. O ciclo constante de alívio e ansiedade era um caminho para o êxtase. Tamamo possuía essa qualidade, o que amplificava muito as emoções de Yuki.
Logo, Yuki começou a agir de acordo com seus sentimentos — envolvendo fortemente Tamamo pelo tronco.
“……?!?” —
Tamamo abriu os olhos e começou a se debater, aparentemente incapaz de suportar a situação. Contudo, Yuki não a soltou; na verdade, ela apreciava a sensação extremamente agradável de Tamamo se debater em seus braços. Yuki sentia uma coceira e formigamento intermináveis, como se suas duas almas estivessem se esfregando. Esse momento ensinou a Yuki que abraçar outro ser humano era bom — especialmente quando se tratava de sua adorável protegida.
Logo, Tamamo parou de resistir, ficando imóvel nos braços de Yuki. Sem a agitação de Tamamo, Yuki também se acalmou um pouco.
Talvez ter uma protegida não seja tão ruim assim.
Yuki fechou os olhos e deixou sua consciência se perder.
“O tempo retorna ao presente.”
(04/28)
Yuki saiu de casa vestindo seu agasalho.
Ela havia decidido fazer sua caminhada noturna — algo que já fazia parte de sua rotina diária há mais de um ano. Caminhar pelas ruas frias e vazias no meio da noite trazia uma grande calma ao seu coração. Para alguém que vivia em um mundo de jogos mortais, esses passeios eram uma pausa necessária para manter sua sanidade.
Mas, naquela noite, essa atividade não tinha nada de relaxante.
Com os olhos semicerrados, Yuki lançou um olhar ao seu lado. Lá estava Tamamo, exatamente como antes, sorrindo. Ela caminhava ao lado de Yuki, ocupando a posição perfeita para ficar sempre no limite do campo de visão dela.
Os breves vislumbres do rosto da garota e o peso constante do seu olhar trabalhavam juntos para impedir qualquer sensação de tranquilidade.
“Então, é…”, disse Yuki. “Tamamo, né?”
“Sim”, respondeu a garota, animada.
“Você parece menor de idade. Tá tudo bem você ficar fora tão tarde? Sua família não vai se preocupar?”
“Está tudo bem. Não há ninguém que se preocupe comigo.”
Embora falasse de forma gentil, havia algo inconfundível escondido em sua voz. Mesmo assim, Yuki decidiu não se aprofundar nisso. Afinal, ela própria tinha circunstâncias parecidas.
“…Olha, eu não tenho problema em te aceitar como aprendiz…”, Yuki coçou a cabeça. “É só que… eu realmente não sei o que te ensinar primeiro. Não esperava que você aparecesse hoje, então não estou preparada. Se me der um tempo, posso montar um plano para a lição dois e as próximas, então… podemos começar amanhã?”
“Entendo.”
“Ótimo. Então vamos encerrar por hoje. Você pode ir pra casa—”
“Não. Por favor, me deixe ficar ao seu lado hoje”, disse Tamamo com um sorriso radiante.
Apesar da expressão amigável, sua atitude não deixava espaço para recusa.
“…………”
Yuki ficou em silêncio.
Ela continuou caminhando pela rua escura. Tamamo a seguia exatamente no mesmo ritmo. Yuki tentou acelerar — Tamamo fez o mesmo. Depois, diminuiu levemente — e Tamamo também.
A garota não se aproximava nem se afastava. Mantinha sempre a mesma distância.
Ela é bem insistente nisso…, pensou Yuki.
Talvez fosse consequência da primeira lição, quando Yuki fugiu e a abandonou.
Se fosse isso, Yuki até sentia um pouco de culpa. Mas, ainda assim, ser seguida o tempo todo não era agradável. Ela não gostava de ter alguém constantemente em seu espaço pessoal.
Por isso, decidiu agir.
“…Eu corro toda noite. Uma volta completa em um percurso fixo. É importante para as jogadoras desenvolverem resistência, então faz parte da minha rotina.”
Era uma mentira descarada.
Embora Yuki realmente treinasse, ela não tinha um percurso definido.
Ainda assim, Tamamo acreditou.
“Entendo. Não estou surpresa”, disse com admiração.
“Desculpa te arrastar nisso, mas tenta acompanhar.”
“Entendido.”
“Então… vamos!”
Yuki já tinha começado a correr antes mesmo de terminar a frase.
Ela deu o sinal de propósito para pegar Tamamo desprevenida. A garota demorou a reagir.
Sem olhar para trás, Yuki aumentou o ritmo até sua velocidade máxima. No curto tempo em que um humano consegue sustentar esforço anaeróbico, virou uma esquina e saiu do campo de visão de Tamamo.
Depois, diminuiu para um ritmo ideal de longa distância.
O ar frio da noite encheu seus pulmões.
Como um fantasma, Yuki correu silenciosamente pelas ruas, se esgueirou entre paredes, atravessou propriedades privadas, subiu uma colina íngreme, deslizou por um corrimão, escalou uma cerca trancada e atravessou um rio pulando em pedras.
Aquilo já não era treino.
Ela não tinha nenhuma intenção de deixar Tamamo alcançá-la.
E continuou assim…
…até chegar a uma loja de conveniência.
Seu coração batia forte enquanto respirava ofegante. Limpando o suor com a manga, entrou na loja.
Ela olhou ao redor.
Tamamo não estava em lugar nenhum.
“…Acho que despistei…”, murmurou.
Mas, assim que entrou—
Passos ecoaram atrás dela.
“……?!”
Yuki se virou, surpresa.
Em algum momento, Tamamo já estava ali.
“Ah… quanto tempo, Yuki”, disse ela. “Então esse é o treino pesado que você faz toda noite? Eu não fazia ideia.”
Ela também estava ofegante.
Mesmo assim… tinha alcançado.
Yuki falhou em fugir dela — não uma, mas duas vezes.
Depois de um momento recuperando o fôlego, Yuki falou:
“…Tá vendo? Se virar minha aprendiz, vai ser assim todo dia. Ainda quer mesmo?”
“Claro.”
(05/28)
Depois de comprar um sorvete novo para si e outro para Tamamo, Yuki saiu da loja.
Mesmo assim, Tamamo continuou insistindo em acompanhá-la.
Como não queria que ela limpasse seu apartamento de novo, Yuki evitou voltar para casa. Passou tempo em um mangá café, ficou em um restaurante 24 horas pedindo o item mais barato e simplesmente vagou pelas ruas.
Mas todas as tentativas de despistar Tamamo falharam.
Quando o amanhecer começou, o sono bateu.
Yuki desistiu e decidiu voltar.
Após se lavar em um banho público, seguiu para casa. No caminho, viu pessoas começando o dia — um idoso com seu cachorro, um estudante indo treinar, um trabalhador cansado.
Para eles, o dia começava.
Para Yuki, estava terminando.
“Onde você vai dormir hoje?” perguntou.
“Ah… se não for incômodo…,” respondeu Tamamo, hesitante.
“Pode ficar lá em casa.”
Chegando ao apartamento, Yuki estendeu seu colchão.
“Só tenho esse, então pode usar.”
“Não! Eu durmo no chão!”
Ah, então agora você se preocupa…, pensou Yuki.
Seu lado provocador despertou.
“Então vamos dormir juntas.”
“Hã?!”
Yuki empurrou Tamamo para o colchão e entrou junto.
As duas ficaram extremamente próximas.
Tamamo corou intensamente.
Depois de resistir um pouco, acabou cedendo.
Yuki observava seu rosto de perto — perfeito demais, quase assustador.
Aquilo despertava algo dentro dela.
Uma mistura de conforto e desconforto.
Sem pensar muito, Yuki abraçou Tamamo com força.
“……?!”
Tamamo se debateu, mas Yuki não soltou.
A sensação era… estranhamente boa.
Logo, Tamamo parou de resistir.
Yuki também se acalmou.
Talvez… ter uma aprendiz não seja tão ruim assim.
Yuki fechou os olhos.
E adormeceu.
—Tempo retorna ao presente.
(06/28)
Yuki acordou.
Os raios do pôr do sol filtravam-se pelas janelas, tingindo o apartamento com um brilho avermelhado. Era fim de tarde. Sentando-se e esfregando os olhos cansados, Yuki olhou para o lado.
Tamamo dormia profundamente no mesmo colchão que ela.
As duas estavam fisicamente muito próximas uma da outra, na mesma posição em que haviam adormecido naquela manhã. Aparentemente, tinham caído no sono enquanto se abraçavam.
Yuki pressionou a mão contra a cabeça e murmurou:
“…O que somos, um casal de passarinhos apaixonados?”
(07/28)
Foi assim que se levantou a cortina sobre a relação de mentora e protegida entre Yuki e Tamamo.
No dia seguinte e nos dias seguintes, Tamamo não demonstrou qualquer intenção de ir embora. Embora tivesse mencionado querer ficar ao lado de Yuki “por hoje”, aparentemente isso não significava que partiria no dia seguinte. Em vez de pagar por acomodação, Tamamo passou a cuidar de todas as tarefas domésticas, como lavar roupas, cozinhar e limpar o apartamento — incluindo o banheiro e o vaso que Yuki não queria que a garota visse. Yuki sentiu grande constrangimento ao ver Tamamo realizar essas tarefas com uma expressão tímida.
Yuki não apenas colocou Tamamo para trabalhar; ela também se esforçou para cumprir seu próprio papel como mentora. Decidindo deixar os detalhes mais complexos para depois de se encontrar com Hakushi, Yuki começou ensinando Tamamo sobre os jogos, cobrindo os diferentes tipos — jogos de fuga, jogos competitivos, jogos de sobrevivência —, o fluxo de eventos antes e depois dos jogos, a existência de pessoas na indústria relacionada e assim por diante. Para uma iniciante como Tamamo, mesmo essa lição básica tinha muito valor.
Além do conhecimento, Yuki também deu a Tamamo outro presente: um colchão. Como não tinha coragem de dormir abraçada todas as noites, decidiu comprar um conjunto de cama exclusivo para uso de convidados.
Vários dias se passaram desde que as duas começaram a dormir em colchões adjacentes.
Yuki saiu de seu apartamento, deixando Tamamo para trás; de alguma forma, conseguiu persuadir a garota a esperar sozinha. Seu destino era a cidade menor que visitara algum tempo atrás. Ela tinha marcado um encontro com sua mentora no bar de magia. Quando Yuki chegou, Hakushi já estava no balcão. Sem virar a cabeça, Hakushi olhou na direção de Yuki e a cumprimentou com um “Oi”.
“Boa noite”, respondeu Yuki, sentando-se ao lado da mentora.
Após conversarem um pouco, assistirem ao show de mágica do barman e terminarem suas bebidas, Yuki trouxe à tona o principal motivo da visita.
“Então você finalmente assumiu uma protegida”, disse Hakushi. “ Como está indo? Vê potencial nessa garota Tamamo?”
“Bem, é cedo para dizer… Até agora, só estive ensinando sobre os jogos.
“…Ah?”
“Também comprei um colchão para ela.”
Aliás, nos últimos dias, Yuki estava ocupada resolvendo um problema com sua colega de classe. Esse era outro motivo pelo qual não havia avançado muito no papel de mentora de Tamamo.
“Você está mesmo levando o seu tempo”, comentou Hakushi.
“Esse é mais ou menos o motivo pelo qual queria te encontrar… Preciso do seu conselho. Como devo orientar uma protegida? Como foi quando você me ensinava?”
“Certo, vamos ver…”
Hakushi demonstrou ter memória muito melhor que a de Yuki. A mulher explicou com detalhes todas as lições que havia dado a Yuki.
“É mais ou menos isso”, disse Hakushi, concluindo seu relato. “Claro que você não precisa seguir minha fórmula. Se tiver ideias próprias, sinta-se livre para incorporá-las. Ela é sua protegida, então faça como achar melhor.”
“…Acho que sim…”, murmurou Yuki.
“Tem mais alguma coisa na mente?”
“Ah, não…”
Hakushi parecia perceber algo na hesitação de Yuki.
“…Será que você não queria ter uma protegida?”, perguntou.
“Bem, hum… É verdade que não era exatamente uma situação que eu estivesse ansiosa para estar…”
Entre muitos “hum” e “ah”, Yuki explicou o que tinha acontecido.
“É que ensinar alguém vem com muita responsabilidade, sabe? Tudo o que faço e digo impactará diretamente quanto tempo Tamamo vai sobreviver. Nunca tive essa responsabilidade fora de um jogo, então está sendo difícil lidar com isso…”
No seu vigésimo oitavo jogo, Ghost House (“Casa Fantasma”), Yuki havia ensinado as outras jogadoras o básico dos jogos. Dentro de um jogo, podia transmitir conhecimento sem sentir responsabilidade, já que havia imposto a si mesma a regra de nunca aceitar culpa pelo que acontecia ali. Contudo, sentiu-se muito mais impotente fora dos jogos, onde não atuava como jogadora. A responsabilidade de ser um humano comum havia se mostrado de forma pesada.
“Canalize o seu desejo de fazer o certo por ela e treine-a o melhor que puder”, disse Hakushi, oferecendo um conselho sensato.
“…Tenho curiosidade, como foi para você me assumir como protegida?”
“Bem, na época, eu não sabia se você estava viva ou morta. Achei que você nem se importaria se morresse.”
“Frio, hein?”
“De qualquer forma, sugiro que aproveite esta oportunidade. Esforce-se sinceramente para criar uma conexão com outra pessoa. Isso vai fazer bem para uma jogadora individualista como você.”
“Não sei sobre isso…” — Yuki apoiou a cabeça no balcão.
“Isso me lembra”, disse Hakushi. “Mudando de assunto —, você mencionou que ia ter aulas com outra pessoa, certo?”
De fato, ao marcar o encontro, Yuki havia informado brevemente Hakushi sobre detalhes de sua vida.
“Sim. Há alguém que aparentemente jogou os jogos sendo cega. Vou visitá-la em breve.”
Yuki apoiou a mão na maçã do rosto direita. Logo acima estava seu olho direito, que, segundo exames recentes, estava perdendo gradualmente a função. Sentiu uma necessidade urgente de agir, e felizmente uma garota que conhecera recentemente, chamada Kokone, conseguiu apresentá-la a uma ex-jogadora cega. Já haviam marcado o encontro, e agora só restava esperar pelo dia combinado.
“Acho que o nome dela era Rinrin, mas é só isso que sei até agora…”
“Hmm…” — Hakushi tocou o queixo. “Já ouvi esse nome antes.”
“Oh, você a conhecia?”
“Não, não exatamente. Só o nome, o fato de ser cega, e… —”
Hakushi interrompeu-se abruptamente. Alguns segundos depois, retomou a fala.
“Ei.”
“Sim?”
“Se você vai encontrá-la… aconselho que se prepare para o pior.”
“……?”
Yuki ia pedir esclarecimentos, mas antes que pudesse, Hakushi levantou-se para pagar a conta.
Não demoraria muito para Yuki descobrir o significado das palavras de Hakushi — da maneira mais difícil.
(08/28)
Vários dias após seu encontro com Hakushi, Yuki foi visitar a jogadora cega, levando Tamamo junto.
Como parte da viagem, Yuki pegou um avião pela primeira vez na vida. Embora a possibilidade de problemas durante o voo a deixasse um pouco excitada, felizmente — ou talvez infelizmente — aterrissaram em segurança no aeroporto de destino. De lá, embarcaram em um navio que os levou a uma determinada ilha, antes de trocar para outro barco. Como não havia um serviço de ferry regular até o local onde Yuki e Tamamo estavam indo, tiveram que organizar o transporte por conta própria. Felizmente, a agente de Yuki parecia saber pilotar um barco, então pediram que ela as levasse até lá.
Assim, Yuki e Tamamo desembarcaram, pisando em uma ilha remota.
A ilha tinha uma atmosfera diferente daquela que servira de palco para a Cloudy Beach (“Praia Nublada”). Enquanto a ilha anterior podia ser considerada “uma área de resort cheia de natureza”, esta seria mais apropriadamente descrita como “uma área remota moldada pelas mãos humanas”. Havia um píer na extremidade da ilha, estradas pavimentadas com muros de pedra de ambos os lados, postes de luz instalados em intervalos regulares cujas linhas de energia dividiam o belo céu azul, e casas e edifícios espalhados pelo local.
Yuki e Tamamo começaram a caminhar pela ilha, com mochilas nos ombros. Embora não soubessem o que esperar ao encontrar Rinrin, imaginavam que ficariam na ilha por um bom tempo, então haviam se preparado como se fossem passar férias curtas. O peso dos pertences acrescentava esforço a cada passo.
“…Argh, não tem sinal”, disse Yuki, conferindo seu celular.
As palavras NO SERVICE (“SEM SERVIÇO”) apareciam na tela, indicando que o aparelho estava fora do alcance da rede móvel. Embora Yuki já tivesse visto essa mensagem antes, nas ocasiões anteriores geralmente era em situações específicas, como logo após ligar o telefone ou antes de inserir o chip. Dessa vez, podia ser a primeira experiência real de estar em um local sem sinal.
“O mesmo aqui”, disse Tamamo, olhando para seu celular enquanto caminhava ao lado de Yuki. — Será que alguém realmente mora aqui?
“Tenho quase certeza de que estamos no lugar certo…”
Kokone havia apenas informado a Yuki sobre a localização da ilha e que, por ser pequena, seria fácil encontrar Rinrin.
Independentemente do que pudesse acontecer depois, Yuki não se preocupava com a localização da mulher.
Agora, porém, começou a se sentir inquieta. Embora a ilha tivesse muitas construções humanas, parecia desabitada. Na verdade, ao olhar mais de perto, tudo parecia em ruínas, com estradas rachadas e várias casas desabadas. Teriam ido para a ilha errada?
Para alívio de Yuki, entretanto, cerca de meia hora depois de caminhar com essas preocupações, avistou algo que tranquilizou: um casaco pendurado em um muro de pedra. Seu conhecimento de moda era limitado, então não pôde tirar muitas conclusões, mas Tamamo apontou que se tratava de uma peça feminina.
“Suspeito que isso deve pertencer à Rinrin”, disse Tamamo, espiando além do muro de pedra.
Atrás do muro havia uma casa, separada por um quintal. Era uma residência de madeira de um andar, no estilo japonês, com telhado de telhas que remetia ao campo. O imóvel estava em um terreno tão amplo que seria impossível imaginar algo assim no meio de uma cidade, parecendo se banhar à luz do sol.
Yuki olhou entre a casa e o casaco.
“Rinrin deve ter colocado isso aqui como ponto de referência…”
O casaco estava em perfeito estado, sugerindo que havia sido deixado no muro recentemente, provavelmente no dia anterior. Considerando sua posição em frente à casa, havia grandes chances de indicar a localização de Rinrin.
Yuki e Tamamo caminharam até a casa. Não havia campainha, então Yuki bateu na porta para anunciar sua chegada.
“Já vou!”, respondeu uma vozinha do outro lado.
Momentos depois, Yuki ouviu um tilintar misturado com passos se aproximando. Ela ficou imaginando o que poderia ser o barulho por cerca de trinta segundos, até que a porta se abriu com o rangido típico de casas antigas.
“Oh, seja bem-vinda.”
Diante delas, estava uma mulher com aparência jovem. Yuki imaginava que Rinrin tivesse mais ou menos a idade de Kirihara, já que eram amigas, mas a mulher parecia mais nova, seja por realmente ser, seja pelo estilo que adotava. Transmitia uma aura gentil, de irmã mais velha, e em cada orelha pendia um pequeno sino — provavelmente a fonte do tilintar.
E o mais importante: os dois olhos dela estavam fechados.
Embora a aparência da mulher a convencesse de que era de fato Rinrin, Yuki ainda pediu confirmação.
“Você é Rinrin?”
“Sim”, respondeu a mulher. “Você deve ser Yuki.”
“Sim.”
“— E quem é essa garota com você?”, Rinrin perguntou, gesticulando na direção de Tamamo.
O gesto espalhou um olhar de surpresa no rosto de Tamamo, mas a garota rapidamente se recompôs e se curvou.
“Sou a protegida de Yuki, Tamamo.”
“Oh? Então você tem uma protegida, Yuki.”
“Hum… Como soube que ela estava aqui?”, perguntou Yuki. “Você… não consegue ver, certo? E Tamamo não disse uma palavra.”
“Sim, é verdade”, respondeu Rinrin. “Mas consigo perceber coisas assim mesmo sem enxergar… Agora, entrem. Vamos continuar nossa conversa lá dentro.”
Rinrin virou-se e entrou mais profundamente na casa. Yuki e Tamamo fizeram o mesmo. Tiraram os sapatos na entrada e, como se tivesse observado e esperado o momento exato, Rinrin começou a andar. As duas a seguiram, e as três percorreram o corredor.
“Obrigada por terem vindo até aqui”, disse Rinrin. “Seus celulares não têm sinal, certo?”
“É, não tem”, respondeu Yuki.
“Peço desculpas por chamá-las para cá. Era absolutamente necessário que este fosse nosso ponto de encontro…”
“……? Rinrin, você não mora nesta ilha?”, Yuki perguntou, já que era a impressão passada pelo tom da mulher.
“De jeito nenhum”, respondeu Rinrin. “Você acha que alguém poderia viver sozinha em um lugar tão remoto? Muito menos alguém totalmente cega.”
Ela tinha razão.
“…Acho que não”, disse Yuki.
“Um conhecido organizou este lugar para mim, para que fosse uma experiência agradável para vocês…”
Yuki refletiu sobre a situação. Embora a ilha mostrasse sinais de ter sido moldada pelo homem, provavelmente estava abandonada há algum tempo, razão pela qual parecia um deserto.
Mesmo assim, a palavra “agradável” usada por Rinrin sugeria algo além de simples diversão. Yuki se perguntou exatamente o que a mulher havia planejado para elas.
“…………”
Yuki observou Rinrin com cuidado enquanto a mulher seguia à frente.
Ela ouvira dizer que Rinrin havia jogado os jogos completamente cega. Esse era o motivo da visita. No entanto, até então, as ações da mulher pareciam as de alguém com visão plena. Rinrin percebeu a presença de Tamamo, que não havia falado uma palavra até então, e ainda esperou educadamente que elas tirassem os sapatos. Além disso, contornava obstáculos no corredor sem usar bengala.
Yuki voltou sua atenção para as orelhas de Rinrin. Embora escondidas pelo cabelo, podia ver os brincos com os sinos pendurados. A cada passo de Rinrin, os sinos tilintavam, alegrando o corredor.
Esses sinos são para o que eu acho que são…?
“Hum… Rinrin?” Yuki chamou.
“O que foi?”
“Você usa esses sinos para se orientar pelos ecos?”
Ecolocalização. A percepção do ambiente e orientação através da reflexão das ondas sonoras. Morcegos e golfinhos são conhecidos por essa habilidade, e humanos também podem fazê-lo batendo a língua ou o chão com uma bengala. Yuki nunca tinha ouvido falar de alguém fazendo isso com sinos, mas ao considerar como isso poderia ajudar alguém totalmente cego, a teoria fazia sentido.
“Exatamente”, Rinrin balançou o sino pendurado na orelha esquerda. “Eles me acompanham há dez anos. Depois que perdi a visão, precisei encontrar uma forma de compensar a deficiência… e essa ideia surgiu. Acho apropriado, já que meu nome lembra o som de um sino.”
Rinrin riu. Um riso juvenil e estridente, típico de garotas jovens.
“Aprender a se orientar com sinos é algo que se pode ensinar?”
“Onde há vontade, há caminho. Mas leva bastante tempo para se tornar proficiente.”
Pelo menos, Yuki havia descoberto como Rinrin conseguia perceber o ambiente tão bem. No entanto, mesmo que essa técnica permitisse a ela viver normalmente, não seria suficiente para prosperar como jogadora. Havia algo mais.
“Yuki, você está tendo problemas com o olho direito?”, Rinrin perguntou de repente.
“Hã?”, Yuki ficou surpresa.
“O comprimento do seu passo é menor quando pisa com o pé direito do que com o esquerdo. Isso indica que você se protege mais do lado direito. Já que me procurou, deduzo que você não consegue enxergar pelo olho direito ou que sua visão está se deteriorando… Estou errada?”
O passo. Yuki ficou momentaneamente assustada por a mulher perceber diferenças tão sutis pelo som, mas então…
“…Ok, entendi”, disse Yuki. “Isso é blefe. Kokone deve ter te contado sobre mim antes, certo?”
Kokone era a ligação entre Yuki e Rinrin. Ela sabia da perda de visão de Yuki no olho direito e, naturalmente, deve ter informado Rinrin ao marcar o encontro. Não seria estranho que Rinrin soubesse sobre a condição de Yuki.
Rinrin riu.
“Exatamente. Parabéns por perceber.”
“Por favor, não conte mentiras desnecessárias.”
“Blefar é tão importante quanto qualquer outra técnica nos jogos da morte. Especialmente para alguém como eu…”
Nesse ponto, Rinrin conduziu Yuki e Tamamo à sala de estar. Havia tatames no chão e móveis compatíveis com a imagem de uma casa japonesa tradicional. O cômodo parecia na extremidade da casa, com a luz do sol entrando pelas portas de papel deslizantes.
Rinrin sentou-se em uma almofada ao lado de uma mesa grande. Yuki e Tamamo fizeram o mesmo do outro lado.
“Agora, vamos direto ao ponto”, disse Rinrin. “Kokone me informou da sua situação… mas deixe-me confirmar os fatos. Você é uma jogadora como eu, e a visão do seu olho direito começou a se deteriorar.”
“Sim.”
“Você veio me visitar para aprender como continuar jogando sem depender da visão.”
“Exatamente.”
“Não vou perguntar o motivo” — Rinrin levou a mão ao peito. “Não preciso perguntar para saber que compreendo sua situação. Quero sinceramente ajudar, então farei o possível para apoiá-la.”
“…Agradeço”, respondeu Yuki.
Aparentemente, a mulher sentia forte empatia por Yuki. Embora parecesse estranho Rinrin demonstrar tal emoção por uma quase desconhecida, considerando a gravidade do problema de visão e a experiência compartilhada como jogadoras, a mulher devia se identificar profundamente com a situação de Yuki.
“Refleti muito sobre como transmitir minhas técnicas a você”, continuou Rinrin. “Embora seja possível apenas com palavras, temo que não seja suficiente. Você e eu somos pessoas diferentes. Embora falemos a mesma língua, não há garantia de que as mesmas palavras tenham o mesmo efeito para nós…”
A mulher falava poeticamente, mas Yuki percebeu que fazia sentido.
“Por isso decidi usar um método mais dinâmico. Felizmente, somos ambas jogadoras. Conhecemos um jeito de transmitir técnicas mais eficaz que palavras, e ainda assim preciso. Não é mesmo?”
“Não entendi muito bem…”, disse Yuki.
“Se você é jogadora, certamente pratica isso. Refiro-me, claro, a roubar as técnicas das pessoas com quem luta… Embora eu ache que minhas habilidades como professora sejam limitadas, ainda confio nas minhas habilidades de combate. É assim que procederemos.”
“Quer dizer que vamos treinar lutando, algo assim?”, Yuki teoriza.
De repente, Rinrin levou a mão aos lábios para conter o riso. Após alguns momentos de risada contida…
“Você é engraçada”, respondeu ela. “Não a teria chamado para esta ilha apenas para uma simples luta. Quando disse ‘combate’, quis dizer literal.”
“Deixe-me explicar as regras”, continuou Rinrin. “Em termos de jogo… podemos considerar isso um jogo de escape. Escondidos em algum lugar desta ilha estão um barco a motor e sua chave inteligente. Vocês vencerão o jogo ao usar esses itens para escapar da ilha. Enquanto isso, tentarei impedir que saiam. Não há limite de tempo e nenhuma tática é proibida. Podem usar qualquer coisa nesta ilha para vencer. Há também provisões de comida e instrumentos letais escondidos por toda parte, então sugiro que tentem encontrá-los.
“…Instrumentos letais? O que quer dizer com isso?”, Yuki perguntou, curiosa com a escolha de palavras sombrias de Rinrin.”
“Sim… bem, encontrei alguns quando fiz uma busca rápida após chegar aqui ontem…”
Rinrin levantou-se e caminhou até uma cômoda antiga. Após abrir uma das gavetas, retirou dois objetos e os colocou sobre a mesa.
“Como estes, por exemplo.”
Não importava o ângulo: eram inegavelmente armas.
(09/28)
Sobre a mesa repousavam uma pistola e uma faca borboleta. Nenhum dos objetos era falso. Como alguém acostumada a um mundo implacável, em que precisava estar sempre alerta, Yuki conseguia distinguir armas de verdade de imitações apenas com um olhar. Aqueles eram ilegais no Japão sem justificativa — capazes de tirar a vida de uma pessoa com facilidade.
Rinrin pegou a pistola e disparou. Claro, ela não apontou a arma para Yuki ou Tamamo; mirou na porta de correr, provavelmente como demonstração. Quatro tiros ecoaram em rápida sucessão, e a cada estrondo, surgia um novo buraco diagonal logo abaixo da maçaneta da porta.
“…………”
Yuki ficou sem palavras.
“Não sei quantas armas estão escondidas nesta ilha”, continuou Rinrin, com naturalidade. “Mas consegui encontrar essas duas só dentro desta casa. É de se imaginar que há muitas outras espalhadas por aí. Aposto que vocês não vão ficar sem armas.
“P-para um instante…”, Yuki interrompeu, instintivamente estendendo as mãos como se pedisse para Rinrin parar. “O-o que você quer dizer com isso? Estamos realmente falando de lutar até a morte?”
“Você está reagindo como alguém que joga pela primeira vez”, Rinrin respondeu com um risinho. Yuki não entendia o que era tão engraçado.
“Por que está tão surpresa?”, perguntou Rinrin. “O que pensou quando ouviu a palavra ‘combate’?”
“Bem… eu esperava algo mais próximo de uma luta simulada. Por que precisa parecer um jogo de verdade? E mesmo se tivermos que usar armas, por que não usar umas menos letais?”
“Fraco demais. Se quer aprimorar suas habilidades de combate, precisa treinar em condições o mais próximo possível de um jogo real. Sua mentora não te ensinou assim?”
“Claro que não! Ela me ensinou de um jeito normal!”
Embora Yuki não pudesse dizer que Hakushi a tivesse tratado com gentileza, nenhuma das lições da mentora havia sido tão violenta — pelo menos, não que ela se lembrasse.
“É mesmo? As jogadoras de hoje estão muito relaxadas.”
Rinrin pegou a faca borboleta e abriu-a com um movimento suave. Tal gesto pareceria mais engraçado do que assustador vindo de um delinquente qualquer na rua, mas ver uma mulher jovem e gentil, e cega, fazê-lo era arrepiante.
“Porém, este é meu jeito de ensinar”, continuou Rinrin. “E insisto que vocês sigam o ritmo.
“…………”
Mais uma vez, Yuki ficou sem palavras. Levou alguns segundos para aceitar que aquilo estava realmente acontecendo. Então, olhou para sua protegida, Tamamo, sentada ao seu lado.
“Nesse caso, quero deixar Tamamo ir para casa antes de começarmos”, disse Yuki. “Viemos de barco, então ela pode usar aquele…”
A agente de Yuki estava no píer com o barco que as trouxe, já que não sabiam quanto tempo ficariam na ilha ou o que aconteceria após o encontro com Rinrin. Era possível que Yuki e Tamamo usassem o barco para escapar sem participar do “jogo” de Rinrin. Mas…
“Não dá”, disse Rinrin. “Ou melhor, está tarde demais. Esse barco já foi embora há muito tempo.”
“Hã?”
Rinrin abriu a porta, caminhou pela varanda, calçou suas sandálias geta e saiu para o quintal. Sem dar instruções, Yuki e Tamamo a seguiram.
Chegaram a um ponto com visão panorâmica de toda a área ao redor. Só então Yuki percebeu que a casa ficava no alto de uma colina. Ela viu o caminho que elas tinham subido, junto com o píer onde haviam chegado.
Mas, por algum motivo, o barco havia desaparecido.
“Foi sua agente, talvez?”, comentou Rinrin. “A presença de outros barcos atrapalharia, então mandei ela partir. Assim, vocês não têm outra forma de sair desta ilha além de completar meu jogo.”
“…………”
Yuki ficou sem palavras pela terceira vez. A caminhada até a casa não havia sido rápida nem direta; passaram por caminhos errados e becos sem saída para procurar Rinrin. Enquanto elas se moviam lentamente, Rinrin devia ter ido do píer à casa, mandado a agente sair da ilha e retornado, exigindo grande habilidade.
“Você está falando sério?”, perguntou Yuki, encarando a pistola na mão de Rinrin.
Se Rinrin percebia o olhar de Yuki ou não, ergueu a arma.
“Não traria isso se estivesse brincando.”
“Você disse que nenhuma tática seria proibida. Então… devemos entender que virá com intenção de matar?”
“Sim, isso seria preciso.”
“Não quero ser rude… mas é totalmente possível que precisemos tirar sua vida. Você tem consciência disso, certo?”
Segundo Rinrin, aquele “jogo” era um escape game. Ou seja, poderiam completá-lo sem matar a jogadora. Yuki não tinha intenção de matar fora de um jogo. Porém, considerando as armas que usariam, não podia descartar a necessidade de tirar uma vida.
Rinrin sorriu.
“Estranha pergunta. Não é óbvio? Desisti da minha vida no dia em que me tornei jogadora.”
Algo na fala dela soou estranho para Yuki, mas não conseguia identificar o quê. Antes que pudesse continuar pensando, Rinrin interrompeu:
“Então, vamos começar?”
Apontou a pistola para o céu. A próxima palavra deixaria claro o que isso significava.
“Um…”
Yuki olhou para Tamamo, que assentiu. Um instante depois, ambas saíram correndo o mais rápido que podiam. Chutaram as sandálias, atravessaram o quintal em disparada, saíram da sala de estar e correram pelo corredor dez vezes mais rápido do que quando haviam chegado, como trens-bala. Tentaram calçar os sapatos às pressas, sem se preocupar com etiqueta, e no momento em que saíram da casa, um tiro soou, marcando o início do jogo.
Felizmente, Rinrin havia dado vantagem inicial. O disparo soou exatamente dez segundos depois de começar a contagem, tempo suficiente para que Yuki e Tamamo saíssem da casa. Yuki agradeceu por não ter sido apenas três ou cinco segundos, mas nem por um momento acreditou que Rinrin teria piedade.
(10/28)
Depois de deixar a casa, Yuki e Tamamo continuaram correndo.
Corriam o mais rápido que podiam, com uma seriedade ausente durante seu longo “treino” anterior. Yuki ficou genuinamente aliviada por descobrir que Tamamo tinha resistência para acompanhá-la — e que havia até emagrecido. Agora não precisava se preocupar em deixar sua protegida para trás, mesmo correndo em velocidade máxima.
Após atravessarem uma estrada rachada, saltarem sobre um muro de pedra e cortarem um bosque, continuaram a se afastar. Yuki estava quase sem fôlego, a visão turva e as pernas não cooperando mais. Quando um gosto metálico começou a encher sua boca…
“Ah…” — ouviu o som de Tamamo ficando para trás.
Ao se virar preocupada, Yuki também tropeçou e caiu de joelhos no meio da estrada. Ambas estavam exaustas.
Com suas últimas reservas de energia, Yuki quase não conseguia se levantar. Rastejou até Tamamo como um cachorro e perguntou:
“Está bem?”
“M-minhas… pernas estão como gelatina…”, respondeu Tamamo, tremendo. Um sinal claro de que atingira seu limite.
“Deixe que cedam”, disse Yuki.
Ela então avaliou os arredores. A estrada se estendia à frente e atrás, enquanto bosques se espalhavam à esquerda e à direita, além dos muros de pedra. Não havia sinal de Rinrin.
Por enquanto, haviam escapado. Yuki limpou o suor da testa, afastando os fios grudados.
“Argh… isso é ridículo…”, murmurou ofegante.
Nada a preparara para aquilo. Embora soubesse que aprender com uma ex-jogadora não seria fácil, não esperava algo assim. Era praticamente um jogo real — ou até mais cruel. Como os organizadores não estavam envolvidos, não haveria apoio médico ao final da “competição”. Mesmo sob o efeito do Tratamento de Preservação, Yuki teria de lidar sozinha com quaisquer ferimentos. O que fazer? Pedir ajuda ao agente? Os organizadores aceitariam tratar ferimentos ocorridos fora do jogo? E Rinrin? Ela também não estava sob o Tratamento de Preservação, como Hitomi e Kirihara? Kokone sabia desse “jogo”? Se sim, Yuki se prepararia para irritá-la fisicamente na próxima vez que a encontrasse. Posso considerar isso como parte da minha meta de noventa e nove… Quando pensamentos de escapismo surgiram, Yuki balançou a cabeça para se recompor.
“Desculpe por te arrastar para isso”, disse a Tamamo.
“Oh, não, eu estou bem…”, respondeu a garota, ofegante, mas seu tom denunciava o contrário.
Embora Yuki tenha se sentido aliviada por ouvir isso, internamente Tamamo provavelmente estava exasperada. Pelo menos, Yuki se sentia da mesma forma. Aceitar morrer em um jogo era uma coisa, mas na “atividade de treino” era outra completamente diferente.
Nesse momento, Yuki percebeu que haviam deixado suas mochilas na casa. Estavam apenas com as roupas do corpo. Na verdade, tinham os celulares no bolso, mas ainda sem sinal, impossibilitando qualquer chamada de socorro.
“Tamamo, seu celular consegue fazer chamadas via satélite?”, perguntou Yuki.
Tamamo balançou a cabeça.
“Desculpe, devia ter me preparado melhor…”
Não é sua culpa, pensou Yuki. Era um pedido absurdo. Além disso, nem sabia se smartphones modernos tinham função de chamada via satélite.
Quando a fadiga das pernas diminuiu, Yuki se levantou. Caminhou pelo entorno, procurando algum sinal, mas não encontrou nada.
No bosque, avistou algo preto: uma vara longa e fina, cerca de um metro de comprimento. Ao examinar, percebeu que era levemente curva e tinha certo peso. De repente, Yuki teve um estalo. Puxou a vara com cuidado…
— Revelando uma lâmina com padrão ondulado na aresta.
Era uma katana.
“…………”
Yuki embainhou a espada e reuniu coragem.
Dada a situação, não havia outra escolha.
Ela teria de roubar as técnicas de Rinrin, a jogadora cega.
(11/28)
Yuki e Tamamo revisaram as regras que Rinrin havia explicado.
O “jogo de treino” se enquadrava na categoria de escape games. Elas venceriam se encontrassem tanto o barco quanto a chave escondida em algum ponto da ilha e usassem ambos para fugir. No entanto, Rinrin faria de tudo para impedir a fuga. Todas as opções estavam disponíveis — inclusive matar, é claro.
Teoricamente, Rinrin poderia destruir o barco ou jogar a chave no mar, mas Yuki não acreditava que ela faria algo assim. Normalmente, em jogos com “obstrutores” que se confrontavam com as jogadoras, o caminho para a vitória jamais ficaria completamente bloqueado. E como Rinrin havia indicado que isso seria parecido com um jogo real, ela provavelmente seguiria o protocolo aceito — pelo menos, Yuki esperava que sim.
Além do barco e da chave, havia diversos itens espalhados pela ilha. Yuki já havia encontrado uma katana logo de cara. Como a encontrou sem sequer procurar, era provável que a ilha estivesse repleta de itens, exatamente como Rinrin havia dito.
Ao ouvir as regras pela primeira vez, Yuki teve um pensamento imediato:
“Este lugar é grande demais…”, disse, enquanto caminhava pela ilha com Tamamo.
A ilha em si não era enorme. Seria possível contornar todo o perímetro em um dia inteiro. Mas, embora não fosse vasta em área, o número de lugares onde algo podia estar escondido era enorme. A chave, por exemplo, podia estar em um arbusto, sob o piso de uma casa, no topo de um poste ou mesmo na terra. Procurar um item de menos de dez centímetros naquela ilha era como procurar um pepita de ouro no deserto.
“Também não temos nenhuma pista”, disse Tamamo, concordando com Yuki. “Isso é impossível.”
Qual era o objetivo, então? Se o cenário imitava um jogo real, a vitória deveria ser possível. Ou a chave estava em um lugar fácil de encontrar, ou pistas sobre sua localização estavam espalhadas pela ilha. Ou talvez fosse um erro acreditar que uma estratégia razoável existia. Afinal, o propósito desse jogo de treino era ensinar a Yuki o estilo de luta de uma jogadora cega como Rinrin. Não seria estranho se as regras fossem apenas enfeites.
“Espera…”, murmurou Tamamo, tirando o celular do bolso. Após olhar para a tela por alguns segundos, seu rosto se iluminou. “Eu sabia!”
“O que está fazendo?”, perguntou Yuki.
“Usando o Bluetooth.” — Tamamo mostrou a tela do celular. “Pensei que os itens poderiam emitir ondas de rádio. Estamos procurando uma chave inteligente, afinal.”
Yuki olhou para o aparelho. Tamamo havia aberto as configurações de Bluetooth, normalmente usadas para conectar dispositivos como fones ou laptops. A função funcionaria mesmo em uma ilha desabitada, sem serviço de celular. Como o Bluetooth permite que dispositivos interajam diretamente, a presença ou ausência de rede celular era irrelevante.
As informações na tela eram curiosas. Como a ilha não tinha moradores, não deveria haver dispositivos emitindo ondas, mas o celular detectou várias conexões.
Na lista de dispositivos disponíveis estavam: “Item 0037”, “Item 0024”, “Item 0118” e “Item 0101”.
“Isso… refere-se a itens individuais?”, Yuki perguntou.
“Acredito que sim. Devem ter etiquetas de segurança ou algo parecido.”
Yuki olhou para a katana que havia encontrado antes. Notou um adesivo na bainha, provavelmente a fonte do sinal.
Ela já ouvira falar de etiquetas que poderiam ser pareadas com smartphones. Você as colocava em objetos importantes, como chaves, e se o item se perdesse, poderia ativar um alarme ou localizar o objeto via aplicativo. Yuki e Tamamo não haviam pareado nada nem instalado apps, mas aparentemente ainda era possível detectar as ondas de rádio de dispositivos utilizáveis.
Os itens listados no celular de Tamamo pareciam não essenciais, mas era provável que o barco e a chave que procuravam também tivessem etiquetas. Elas poderiam usar o Bluetooth como se estivessem “dowsing” — rastreando os objetos como por intuição. Essa tinha que ser a estratégia para vencer o jogo.
“Ah, e a propósito”, disse Tamamo. “Além dos itens, tem um dispositivo chamado Yuki’s Smartphone… Esse é o seu celular, certo?”
“Hã?”
Yuki olhou a tela. De fato, seu smartphone estava no fim da lista. Ela não havia alterado o nome padrão e nunca desligava o Bluetooth. Naturalmente, qualquer pessoa que abrisse as configurações de Bluetooth veria seu nome listado.
“Não quero ser intrometida, mas você deveria mudar o nome do celular. Pode ser perigoso assim…”
“………”, Yuki sentiu uma ponta de vergonha. Brincou: “Se sairmos vivas, farei isso.”
No instante seguinte…
O celular de Tamamo detectou outro dispositivo: My Smartphone.
(12/28)
“…!”
Tamamo tocou a tela com reflexos rápidos e desligou o Bluetooth.
“Yuki, você também”, disse.
“Ah, sim…”
Yuki pegou seu celular. Enquanto desbloqueava, tentava entender a situação. Meu Smartphone tinha que ser o aparelho de Rinrin. Ou seja, assim como Yuki e Tamamo, Rinrin também usava o celular para jogar. E, ao nomeá-lo Meu Smartphone, ela devia esperar que Yuki e Tamamo detectassem o dispositivo. Mas como era possível? Rinrin era cega! Como ela operava um telefone? Como conseguia localizar itens?
Yuki finalmente abriu as configurações de Bluetooth. No momento em que seu dedo pairou sobre o botão…
O ar se encheu de malícia.
Momentos depois, vários tiros ecoaram.
Yuki e Tamamo se protegeram imediatamente. Curvadas como coelhas no inverno, Yuki contou oito disparos. Somando os quatro tiros da demonstração de Rinrin e o que anunciou o início do jogo, eram treze disparos — aparentemente a capacidade máxima da arma. Nenhum tiro adicional soou, e Yuki ouviu o que parecia ser Rinrin descartando a pistola vazia.
“Parece que errei”, veio a voz à distância. “Estou enferrujada. Não será fácil acertar vocês.”
O tilintar dos sinos aumentava. Yuki olhou em direção à voz. Descendo a estrada vinha a mulher de aparência gentil, com sinos em ambos os ouvidos: Rinrin.
Na mão esquerda, um smartphone. Ela tocou a tela.
“Oh?”, disse. “Tamamo, você desligou o Bluetooth. Então percebeu o truque do jogo? Impressionante.’
Aparentemente, Rinrin conseguia perceber as informações na tela do celular.
“Então, devemos usar nossos celulares nesse jogo?”, Yuki perguntou.
“Exatamente”, respondeu Rinrin. “Todos os itens da ilha têm etiquetas detectáveis por Bluetooth. Alguns podem estar em áreas com sinal fraco, mas, em geral, aparecerão no seu celular se estiverem próximos. O mesmo vale para o barco e a chave inteligente, com nomes especiais. Se os vir no dispositivo, procure nessa área… Ah, e não se preocupem com a bateria: há carregadores portáteis entre os itens.”
“Contudo”, continuou Rinrin. “Assim como vocês, também usarei meu celular. Para procurar itens, mas também para deduzir sua localização, como acabei de fazer. Se quiserem descansar ou me emboscar, desliguem o Bluetooth.
“Rinrin, você sabe usar um celular?”, Yuki perguntou, aproveitando a deixa.
“Sim”, respondeu Rinrin. “Smartphones modernos são bastante convenientes. Não preciso enxergar para saber o que aparece na tela.”
Ela tocou a tela. O volume estava alto, e Yuki ouviu cada som: “Bluetooth. Dispositivos próximos. Procurando. Configurações. Botão.” Uma voz sintetizada lia rapidamente os textos selecionados.
“Meu celular tem leitura de texto integrada. Exige esforço, mas usar o telefone não é problema. Talvez precisem dessa função algum dia, então anotem.”
“…Anotado.”
Rinrin riu. “Aliás, você não é muito tecnológica, Yuki, não?”
Ela continuava tocando a tela. Assim que a voz sintetizada ecoou, Yuki lembrou que seu próprio celular ainda emitia sinais Bluetooth: “Yuki 's Smartphone…” repetidamente.
“P-por favor, pare.”
Yuki desligou o Bluetooth. O sorriso de Rinrin se alargou.
Sem mudar a expressão, Rinrin puxou uma faca borboleta do bolso.
“……!”
Yuki rapidamente guardou o celular e pegou a katana. Desembainhou-a, jogando a bainha no chão, que tilintou. Rinrin, entretanto, já havia aberto a faca.
“Vejo que encontrou uma arma”, disse Rinrin. “Uma espada longa… ou uma katana, talvez? Posso dizer pela bainha que você descartou. De qualquer forma, sua arma tem alcance maior que a minha.”
Assim como antes, Rinrin analisava a situação como se pudesse enxergar. Yuki apertou firme a katana.
Ela tinha espada, Rinrin uma faca. Uma regra de combate: armas longas dão vantagem. Mas Yuki não se sentia superior. Em um jogo anterior, similar a um drama de época, falhara ao usar a katana, quase perdendo todos os membros. Desde então, evitava a arma. Somando a perda de visão no olho direito, queria evitar combate corpo a corpo com adversários competentes.
Mas Rinrin não respeitaria desejos ingênuos.
A mulher se aproximava, passo a passo. Os sinos nos ouvidos tilintavam. Yuki focou totalmente: seu mundo se resumia ao espaço entre ela e Rinrin.
No momento em que Rinrin entrou no alcance da katana, Yuki atacou, aproveitando o impulso, tentando descer a lâmina do alto.
Rinrin, entretanto, também avançou, esperando o momento perfeito. Com um único movimento, encurtou a distância, se agachou, segurou a faca horizontalmente e colocou a outra mão perpendicular à lâmina, formando uma cruz. A intenção era clara: se Yuki continuasse, Rinrin bloqueava a katana e poderia cortar os dedos dela.
“Droga”, pensou Yuki. Seu corpo reagiu instintivamente. Recuou o pescoço, tensou os ombros, empurrou com o pé da frente, mas não parou o ataque. A katana descreveu um arco perfeito, colidindo com a faca com um clangue patético. O golpe sem peso não superava Rinrin, mas, prevendo o movimento da oponente, Yuki recuou mais e deu um leve golpe, mantendo Rinrin fora do seu espaço.
Permaneceram à mesma distância.
“……”
Yuki exalou profundamente. Estava exausta. Embora durasse segundos, usara cada músculo do corpo. Olhou para Rinrin, que ainda estava de olhos fechados. Ela havia quase esquecido que cruzara lâminas com alguém totalmente cega.
Rinrin fechou a mão vazia e a abriu novamente. Parecia que Yuki causara algum dano.
“Muito bem, Yuki”, disse Rinrin.
Yuki não tinha forças mentais para responder.
“As probabilidades parecem estar contra mim. Acho melhor recuar por enquanto.”
Rinrin se virou, mostrando as costas. À primeira vista, Yuki pensou que era descuido, mas logo percebeu que não se aplicava a Rinrin. Para quem percebe o mundo pelo som, “de costas” não significava nada.
E assim, Rinrin se afastou do local, como se quisesse mostrar que ia embora.
Yuki observou e ponderou: deveria persegui-la? Se as probabilidades estavam contra Rinrin, talvez estivessem a favor de Yuki. Seria o momento perfeito para forçar Rinrin a demonstrar mais técnicas?
No entanto, Yuki não conseguiu decidir. Abaixou a katana e apenas observou Rinrin se afastar.
“Também devemos ir”, disse Tamamo. Só então Yuki relaxou os músculos.
(13/28)
Yuki e Tamamo exploraram a ilha até o pôr do sol. Ignorando o medo de serem atacadas por Rinrin, as duas usaram os celulares para procurar itens, conseguindo armas mais fáceis de manejar do que a katana e rações de comida, incluindo biscoito duro e água, além de vários carregadores portáteis.
Elas também avançaram em relação às condições essenciais para a vitória: localizaram o barco. Ele flutuava na água, amarrado a uma rocha na costa da ilha. Exatamente como Rinrin havia explicado, era um modelo que funcionaria com uma chave inteligente. O nome do barco aparecia em seus celulares como Ship 001. Com base nisso, presumiram que a chave se chamaria Key 001. Mas, antes que pudessem encontrar o segundo item crucial, o sol desapareceu no horizonte.
A noite caiu.
Como coruja noturna, Yuki estava acostumada a essa hora do dia. Mas agora, o anoitecer só lhe causava medo.
Isso porque ela enfrentava uma oponente que se sentia ainda mais à vontade na escuridão da noite do que ela própria.
(14/28)
Além do breve encontro, Yuki e Tamamo não cruzaram com Rinrin pelo resto do dia. Houve alguns sustos, quando o dispositivo Meu Smartphone apareceu nos celulares, seguido do tilintar dos sinos, mas não houve um segundo confronto direto com a mulher.
Por quê? Parte da razão era que Yuki e Tamamo haviam optado por fugir, mas Rinrin também não as perseguiu. Mas então, por que ela não o fez? Talvez Rinrin ainda acreditasse que as probabilidades não estavam a seu favor, como já havia afirmado. Então, o que estaria esperando? Quais seriam as condições ideais para ela?
A resposta era óbvia: a noite.
Rinrin era cega. A noite era o seu território. Como não enxergava, a presença ou ausência de luz não influenciava suas ações. Já Yuki, apesar de se orgulhar de ser amiga da noite, tinha suas habilidades bastante reduzidas no escuro, e Tamamo também. Rinrin esperava, portanto, um momento em que suas presas estivessem enfraquecidas — conclusão que Yuki e Tamamo já haviam alcançado ainda com luz do dia.
Portanto, a preocupação mais urgente era decidir como passar a noite. Dormir estava fora de questão. E como a escuridão reduziria a percepção situacional, continuar explorando seria perigoso, assim como permanecer ao ar livre. Por isso, decidiram esperar dentro de uma das casas abandonadas. Naturalmente, Rinrin provavelmente começaria a vasculhar os prédios, mas devido ao grande número de construções na ilha, ela não conseguiria checar todas antes do amanhecer. E como Yuki e Tamamo já sabiam de sua aproximação, poderiam preparar armadilhas e emboscadas. Além disso, nenhuma delas tinha roupa adequada para o frio, então não queriam permanecer em locais sem abrigo.
Assim, ficaram na casa, aguardando o amanhecer. Claro, desligaram completamente os celulares. As duas se enrolaram em um cobertor levemente manchado que encontraram dentro da casa, garantindo o mínimo de calor. Revezando-se em pequenas sonecas, permaneceram na escuridão.
“Está com frio?”, perguntou Yuki.
“Um pouco, mas consigo aguentar…”, respondeu Tamamo, em voz baixa.
“Amanhã vamos explorar o lado oeste da ilha. Se mantivermos o mesmo ritmo de hoje, devemos terminar antes do meio-dia.”
“Certo…”
Durante o dia, conseguiram explorar aproximadamente metade da ilha. Embora a área fosse pequena o suficiente para ser percorrida em um único dia, como chegaram à tarde, não puderam cobrir tudo antes do pôr do sol. Segundo os cálculos de Yuki, se partissem ao amanhecer, a busca terminaria antes do meio-dia.
No entanto, mesmo que explorassem a ilha inteira, não havia garantia de que encontrariam a chave…
“E o outro objetivo, como está?”, perguntou Tamamo. “Conseguiu aprender algo sobre as habilidades de combate da Rinrin? Embora, parece que não teremos outro confronto real com ela tão cedo…”
Ah, certo, Yuki percebeu. Ela havia se esquecido de que aquele era o objetivo principal da visita.
“Sobre isso…”, disse Yuki, depois de organizar suas impressões sobre Rinrin. “Há uma coisa que percebi ao lutar com ela.”
“Qual?”
“Mesmo sendo cega, não parece estar em desvantagem.”
“…Sério?”
“Sim. Ela compensa com a audição, até certo ponto. Não podemos simplesmente correr e atacá-la sem pensar. Precisamos manter a vigilância e nos preparar para um contra-ataque — exatamente como se enfrentássemos alguém que enxerga.”
Yuki continuou: — A questão é: quão vigilantes precisamos estar? Honestamente, ainda não sei. É impossível compreender a mente de alguém que percebe o mundo pelo som. Não temos ideia de quão detalhada é a percepção dela ou do que não consegue perceber. Obviamente, imagino que sua visão do mundo seja menos precisa que a de alguém que enxerga, mas não sabemos o quanto. Por isso, não será fácil obter vantagem.
Ao menos, não havia dúvidas de que Rinrin conseguia perceber bastante. Durante a luta, ela previu o momento exato do movimento da katana e posicionou a faca com precisão para defender o golpe. Após isso, Yuki só podia tratá-la como alguém com visão perfeita.
“Além disso, outros sentidos podem superar a visão. Por exemplo, nossos cérebros só recebem informações visuais de frente, mas informações auditivas vêm de todas as direções.”
Ao final do combate, Rinrin se virou de costas para Yuki. Isso provava que atacá-la por trás não funcionaria como emboscada.
“De modo geral, seus outros sentidos são suficientes para compensar a suposta desvantagem. Derrubá-la será um desafio.”
“Você tem alguma estratégia para vencê-la?, “perguntou Tamamo.
“Por enquanto, só uma.” — Yuki fez um gesto de pistola com a mão direita. “Se conseguirmos forçá-la a um tiroteio, teremos vantagem. Ela nos disparou oito vezes antes, mas nenhum tiro acertou. Ela disse que estava enferrujada, mas aposto que esse é o ponto fraco dela. Teremos boas chances em um duelo de armas de fogo.”
Quanto maior a distância, mais fraco o som. Se Rinrin estiver longe, não conseguirá medir a posição do adversário com precisão. Isso significa que provavelmente ela se sai melhor em combate corpo a corpo do que a média a distância.
“Faz sentido”, comentou Tamamo.
“Há outras coisas que me deixam intrigada…”
“…? O que quer dizer?”
“Não sei explicar direito. Algo nela parece estranho…”
Yuki sentia isso desde que conheceu Rinrin. Havia algo peculiar na situação e na própria mulher. Ela suspeitava que desvendar esse mistério poderia levar à vitória, por isso passou o dia pensando nisso, mas não chegou a conclusões.
Durante a conversa com Tamamo, Yuki também não conseguiu descobrir a resposta.
Então, o som de sinos ecoou do lado de fora da casa.
(15/28)
O som não era o canto de um grilo de sino — Rinrin havia chegado. À noite, isso se tornava muito mais fácil de perceber. Embora não chegasse ao nível de Rinrin, o senso auditivo de Yuki também estava aguçado.
Yuki e Tamamo se concentraram ao máximo. O tilintar continuava em um ritmo constante, sugerindo que Rinrin circulava a casa. Ela devia estar procurando uma forma de entrar.
Após completar uma volta ao redor do prédio, os sinos de Rinrin se calaram.
O próximo som que Yuki ouviu foi o ranger de uma porta de correr.
Rinrin havia entrado pela varanda. Yuki e Tamamo saíram do calor do cobertor e pegaram suas armas de fogo: uma pistola automática para Yuki e um revólver para Tamamo. Como Rinrin estaria em desvantagem em um tiroteio, as duas optaram por usar armas de fogo como principal recurso, embora também carregassem todo o equipamento possível sem comprometer a mobilidade.
Duas opções estavam disponíveis: emboscar Rinrin ou fugir. Yuki havia evitado o combate durante o dia, mas dessa vez decidiu atacar. Apesar da escuridão ser uma desvantagem, ela teria vantagem do terreno por estar dentro da casa. Se suas suspeitas estivessem corretas, o jogo de simulação não terminaria até que Rinrin fosse derrotada. Era agora ou nunca. Yuki se preparou mentalmente.
“Saia daqui enquanto ainda pode”, instruiu Yuki a Tamamo. “Corra para longe da casa, o mais silenciosamente possível. Vamos nos encontrar no barco amanhã de manhã.”
“Entendido. Boa sorte na batalha.”
Tamamo fez uma rápida reverência antes de deixar o cômodo, seguindo na direção oposta ao som dos sinos. Ela andou na ponta dos pés para ocultar seus passos e presença.
Com Tamamo fora, Yuki voltou a aguçar a audição. Ainda podia ouvir o tilintar dos sinos. O som se tornava mais intenso, indicando que Rinrin se aproximava cada vez mais do cômodo.
Entre os itens que Yuki e Tamamo haviam encontrado estava um kit de armadilhas. Elas haviam instalado o máximo de armadilhas possível dentro da casa: uma besta, uma armadilha de urso e fios de disparo. Rinrin teria que passar por várias delas para chegar ao cômodo vindo da varanda, mas Yuki moderou suas expectativas. Se simples armadilhas fossem suficientes para derrubar Rinrin, o jogo não teria desafio algum.
Portanto, Yuki operava sob a suposição de que teria de lutar contra Rinrin, e tinha uma boa ideia do que Rinrin faria para iniciar o combate. Havia uma jogada óbvia para uma jogadora cega em um combate interno. Embora não tivesse provas concretas, Yuki confiava em sua teoria. Ela confiava plenamente em seus instintos nesses casos. Assim como Rinrin aprendera a enxergar o mundo pelo som, Yuki desenvolvera sua percepção por meio de vasta experiência como jogadora.
Foi por isso que Yuki se escondeu atrás de uma cômoda quando o som dos sinos alcançou a porta do cômodo. Cobriu os olhos com um par de óculos que encontrara na ilha e pressionou várias camadas de um cobertor dobrado contra os ouvidos. Apesar de estar quase completamente privada da audição, ela sentiu pelas vibrações do tatame que Rinrin havia aberto a porta de correr e jogado algo para dentro.
No momento seguinte, um clarão de luz e som invadiu o cômodo.
(16/28)
Rinrin retirou os protetores auriculares e avançou pelo cômodo. Enquanto corria, abriu sua faca borboleta. Ela já sabia que Yuki estava dentro, escondida atrás da cômoda. A granada de luz que lançara deveria ter desorientado a garota, o que significava que tudo o que precisava fazer para finalizar o ataque era cravar a faca no pescoço vulnerável de Yuki —
Pelo menos, era assim que deveria ter acontecido. Infelizmente, a malícia que sentiu no interior a obrigou a alterar os planos.
Rinrin recuou para o corredor. No segundo em que se protegeu de fora da linha de tiro do cômodo, ouviu o som de tiros e balas zunindo pela porta de correr. Se tivesse feito uma esquiva um instante depois, seu corpo estaria perfurado agora.
Rinrin riu.
“Yuki, você está acordada, certo?”, perguntou.
Após uma breve pausa — tempo suficiente para uma respiração — veio a resposta:
“Eu imaginei que você faria algo assim, então tomei as medidas adequadas para me defender.”
Uma sensação de vibração percorreu Rinrin. Um dos objetos em seu corpo estava tremendo. Colocou a mão no bolso para conferir qual era.
Era uma chave inteligente.
Acoplada a ela havia um chaveiro de tamanho aproximado — a etiqueta ligada aos itens do jogo de simulação. Mais precisamente, era a etiqueta que vibrava, o que só aconteceria se estivesse emparelhada com outro dispositivo. Rinrin sabia muito bem que não havia ativado a etiqueta, o que significava que só outra pessoa poderia ser responsável.
“Eu sabia. Você encontrou a chave”, disse Yuki.
“Exatamente.”
Rinrin havia encontrado a chave inteligente pendurada em um poste de utilidade pouco antes do pôr do sol. Destruir a chave ou jogá-la no oceano comprometeria toda a base do jogo, mas não havia problema em manter o item consigo.
“Você não pode vencer este jogo sem me derrotar.”
“…Acho que não.”
Rinrin não precisava ouvir para saber que Yuki havia preparado sua arma.
Seu coração acelerou de excitação. Ela esperava por essa situação desde o momento em que recebera a ligação de Kokone. Colocaria todas as cartas na mesa contra uma jogadora novata com futuro promissor, teria todas as suas técnicas prontamente absorvidas pela jovem, e então, no final —
“Tamamo não está com você, certo?”, disse Rinrin, tentando uma estratégia verbal. “Será que ela está escondida dentro da cômoda? Ou em outro cômodo? O que você está planejando? Hee-hee, mal posso esperar para descobrir…”
“…? Do que está falando?”, respondeu Yuki. “Eu a mandei embora há algum tempo.”
“…O quê?”
“Esta batalha é minha e só minha. Não envolve ela… e não posso deixá-la morrer por ter me envolvido com isso.”
“…………”
Oh? — pensou Rinrin. Isso complica as coisas. Parece que ela ainda não está totalmente séria sobre o jogo. Se vai jogar desse jeito, não me resta escolha a não ser tomar medidas equivalentes.
“Você mandou a Tamamo fugir? Porque não quer que ela morra?”, perguntou Rinrin.
— …O que há de estranho nisso?
— Que tolice, Yuki. — Rinrin riu. — Se tem medo de ela morrer, então deveria mantê-la ao seu lado.
Rinrin puxou uma segunda granada de luz e retirou o pino.
(17/28)
Yuki ouviu a segunda granada de luz cair sobre o tatame.
Imediatamente, tomou medidas defensivas. Como se o tempo tivesse sido revertido, deixou a arma de lado, colocou os óculos e enrolou o cobertor ao redor dos ouvidos.
No instante seguinte, uma explosão de som e luz atacou seus sentidos.
Durou apenas um segundo. Yuki substituiu o cobertor em suas mãos pela arma e tentou avaliar a situação fora do cômodo.
No entanto, a presença de Rinrin havia desaparecido.
“O quê…?!”
Yuki aguçou os ouvidos. Os passos da adversária se tornavam cada vez mais distantes, junto com o tilintar de seus sinos. Mas por que Rinrin se afastava? O que estaria planejando? Yuki ainda estava naquele cômodo —
Ela se lembrou da conversa que tiveram segundos antes. Rinrin havia saído para perseguir Tamamo.
A percepção fez Yuki disparar pelo cômodo. Seguindo os passos de Rinrin, correu pelo corredor e saiu da casa. Era o auge da noite, e ela estava em uma ilha sem nenhuma iluminação. Embora soubesse que seria arriscado andar assim frente a uma jogadora cega, adentrou a zona de perigo mesmo assim.
Ela não tinha escolha.
Seguindo os passos que vinham do quintal, Yuki avaliou a situação. Será que Rinrin realmente iria atrás de Tamamo? Como estratégia, fazia todo o sentido. Com Yuki e Tamamo separadas, o elo mais fraco seria mais fácil de abater primeiro. Além disso, atacar Tamamo, que estava ao ar livre, seria muito mais simples do que enfrentar Yuki, que havia armado defesas dentro do cômodo. Além disso, ao mirar na protegida de Yuki, Rinrin também a forçava a sair para proteger sua pupila. Uma estratégia sólida, com múltiplos benefícios.
Mesmo assim, Yuki não esperava que Rinrin realmente agisse dessa forma. No fundo, ainda tratava o exercício como diferente de um jogo real. Convencera-se de que Rinrin não miraria Tamamo, já que a garota se envolvera por acaso. Agora, porém, Yuki sabia que Rinrin estava 100% séria. Este jogo simulado era guerra pura e sem concessões.
Enquanto esses pensamentos passavam por sua mente, Yuki desceu um conjunto de escadas próximas à estrada. Era uma estrutura estreita, comum ao lado de estradas no interior. Desceu com agilidade e saltou os últimos degraus, aterrissando na estrada abaixo.
Infelizmente, Yuki percebeu seu erro tarde demais.
Tiros ecoaram na escuridão.
Yuki se abaixou imediatamente. Era a mesma situação em que se encontrara mais cedo naquele dia. Rinrin, que percebia o mundo pelo som, não deveria ser capaz de mirar com precisão em um oponente distante —
No entanto, desta vez, o resultado foi diferente.
Cerca de metade dos tiros consecutivos atingiu o alvo. Um perfurou a perna de Yuki, que caiu no chão.
“Gah”, Yuki reprimiu desesperadamente o grito.
“Você é bondosa demais, Yuki.” A voz veio na direção das balas.
O tilintar dos sinos e o som de passos continuavam. Logo, a silhueta de Rinrin surgiu à distância, quase imperceptível aos olhos de Yuki.
“Infelizmente, esse foi o seu erro. Entendo sua preocupação com sua protegida, mas deveria ter tomado mais cuidado para não fazer barulho. Você foi tão ruidosa que qualquer um, não apenas eu, poderia localizar sua posição.”
Claro. Foi nesse momento que Yuki percebeu.
No instante em que o som de sua descida pelas escadas cessou, Rinrin saberia que ela estava ao final. A posição de Yuki ficaria fixa em um ponto específico. Embora a direção do som sozinha não fosse suficiente, a natureza do ruído revelava sua localização.
Rinrin havia esperado ouvir um som que confirmasse a posição exata de Yuki.
Rinrin perseguir Tamamo teria sido um truque para colocar Yuki em risco? Ou teria realmente ido atrás da garota se Yuki não tivesse seguido? De qualquer forma, o cenário era vantajoso para Rinrin. Yuki havia caído na armadilha.
“Qual o problema?”, perguntou Rinrin. “Embora este seja um jogo de combate, acredito que perderia o sentido ir além disso. Matá-la significaria que tudo que preparei seria em vão.”
As palavras da mulher ofereceram um fio de esperança, mas…
“No entanto,” continuou Rinrin, “estou inclinada a tirar sua vida aqui e agora após está lamentável demonstração. Mesmo se eu deixar você viva, enfrentará o mesmo destino cedo ou tarde…
Yuki sentiu uma onda de hostilidade no ar.
“Muito bem. Acho que vou pôr fim ao seu sofrimento.”
Droga, pensou Yuki. Ela não está brincando.
Graças ao Tratamento de Preservação, o sangramento de Yuki havia cessado. Ainda podia se mover e não seria impossível manejar a arma, mas não conseguiria controlar o recuo na posição atual, dificultando a mira. Yuki não tinha mais vantagem, mesmo que desafiasse Rinrin em um tiroteio.
“Não tenho escolha”, pensou Yuki. Ela manteve a arma firme —
— quando, de repente, um tiro soou vindo de outra direção.
(18/28)
Por um instante, Yuki entrou em pânico, pensando que havia sido atingida. No entanto, nenhuma dor percorreu seu corpo. Não era que a bala tivesse errado — era que não havia sido dirigida a Yuki desde o início. Tanto o tiro quanto o clarão da arma vieram do bosque ao lado da estrada. Rinrin não havia disparado.
Claro, Yuki também não havia disparado. Isso significava que só poderia haver um atirador.
“Não se mexa!”, a voz de Tamamo ecoou na escuridão. “Jogue a arma! Saia daqui imediatamente!”
Devo me mover ou não? — pensou Yuki.
Tamamo provavelmente não estava acostumada a este tipo de situação. Ainda assim, Yuki entendeu a intenção da garota e se sentiu grata; Tamamo veio correndo em seu auxílio, provavelmente após ouvir os tiros anteriores.
A sombra de Rinrin se moveu na escuridão, sugerindo que a mulher preparava a arma. No entanto, não atirou. Parecia que não conseguia localizar Tamamo com precisão.
Quando enfrentara a mesma situação durante o dia, Rinrin não hesitara em abrir fogo.
Agora, no escuro, seria perigoso, pois o clarão do disparo denunciaria sua posição.
Finalmente, a sombra diante de Yuki desapareceu. Rinrin havia partido.
“…Yuki!”
Tamamo chamou o nome de Yuki, aparentemente também percebendo a saída de Rinrin. Yuki ouviu os passos da garota apressarem-se em sua direção, mas —
“— Fique para trás!”, Yuki gritou, esforçando-se para ser ouvida. “Eu irei até você…”
Yuki começou a rastejar em direção ao local onde supunha que Tamamo estivesse, onde havia visto o clarão da arma. Não impediu Tamamo por orgulho de mentora, mas por cautela com Rinrin. Era bem possível que a mulher estivesse apenas prendendo a respiração e escondida por perto.
Yuki rastejou sobre o muro de pedra e entrou no bosque. A perna ferida reclamava, mas ela seguiu adiante, apoiando-se nas árvores, e logo se reuniu com Tamamo. Ao ver Yuki de perto, a garota notou o ferimento de sua mentora.
“…Como está sua ferida?”, perguntou Tamamo.
“Não me impede de me mover, pelo menos…”, respondeu Yuki.
Apoiando-se no ombro de Tamamo, Yuki continuou o avanço. As duas saíram do bosque, caminharam pela estrada e recuaram o máximo possível. Com os sentidos aguçados pela dor, Yuki observava o entorno, mas não detectou sinais de Rinrin ou o tilintar dos sinos. Parecia que a mulher havia recuado por enquanto. Como Yuki e Tamamo haviam se esforçado para não fazer barulho, Rinrin teria dificuldades para lançar outro ataque.
Yuki olhou para Tamamo. Como estava apoiada no ombro da garota, só via o perfil lateral dela, que ainda era adorável. Ter sido resgatada valeu totalmente a pena. Embora, na realidade, quem fora resgatada era ela mesma. Ao menos, Yuki havia corrido para proteger a menina. Ficou surpresa com o quanto já valorizava sua protegida —
— o quanto a valorizava sem perceber.
Não se perca agora, lembrou-se Yuki. Este não era um jogo real, apesar de tudo parecer.
Se fosse, poderia também abandonar Tamamo, mas não podia agora.
“Você é bondosa demais, Yuki.”
As palavras de Rinrin ecoaram na mente de Yuki.
A mulher estava absolutamente certa.
Deixando Tamamo de lado, Yuki reconheceu que estava segurando seus golpes neste jogo. Não era assim que uma aprendiz ansiosa se comportaria. Se realmente quisesse adquirir as técnicas da jogadora cega, teria que levar as coisas mais a sério.
Rinrin mencionara estar preparada para a possibilidade de perder a vida. Isso significava que Yuki também deveria encarar o restante do jogo com a mesma determinação —
“…Hã?”
De repente, uma lâmpada acendeu em sua mente.
Todas as peças se encaixaram. Partes do cérebro de Yuki — ela não sabia se eram sinapses ou neurônios — dispararam em sequência. Finalmente, ela percebeu exatamente o que a havia intrigado desde que chegara à ilha, o mistério que a incomodava constantemente.
Yuki imediatamente verbalizou seu pensamento.
“Estou curiosa… por que Rinrin se aposentou?”
“Hã?”, Tamamo olhou diretamente para Yuki.
“Ela costumava ser jogadora, certo? Mas não está ativa agora. Só estava me perguntando por que parou…”
“Provavelmente por… sua visão…”
Tamamo interrompeu a frase. Ela também parecia perceber a estranheza da situação.
Exatamente — a cegueira de Rinrin não podia ser a razão para sua retirada dos jogos. Yuki havia automaticamente associado a perda de visão à aposentadoria sem refletir muito, mas, na verdade, Rinrin continuara jogando mesmo após perder a visão. O motivo de sua saída estava em outro lugar.
“Ela não parece alguém que largaria os jogos sem um motivo realmente convincente”, disse Yuki.
Assim como Hitomi, Kirihara e a mentora de Yuki, Hakushi, jogadoras aposentadas não eram raridade. Algumas eram forçadas a se aposentar por lesão, outras recuavam diante do “Muro dos Trinta”. De fato, jogadoras como Yuki, que decidiam continuar até a morte, eram minoria. Mesmo em um mundo tão insano, essas jogadoras eram excepcionalmente obstinadas.
Pelo que Yuki observou, Rinrin pertencia claramente a esse grupo de perseverantes.
Uma jogadora até os ossos. O arquétipo de alguém que continuaria até a morte.
Continuar jogando mesmo após perder a visão indicava que só se aposentaria por circunstâncias extraordinárias.
No entanto, Rinrin realmente havia deixado os jogos. Ela estava exibindo seu corpo que escapou da morte para Yuki e Tamamo.
O que isso significava? O que poderia ter acontecido com ela?
“…Não me diga…”, murmurou Yuki.
Uma teoria se encaixou em sua mente.
(19/28)
Uma casa abandonada ficava nos arredores da ilha.
Dentro dela, um fornecedor permanecia pronto, à espera.
(20/28)
O homem trabalhava como fornecedor. Pertencia a uma indústria adjacente ao mundo dos jogos da morte, que fazia espetáculo do sofrimento das garotas. Como os artesãos de próteses ou o tatuador Kirihara, ele vivia à custa do dinheiro dos jogadores.
Como o nome de sua ocupação sugeria, seu trabalho era fornecer os itens que lhe fossem solicitados. Seu diferencial era conseguir praticamente qualquer coisa, desde frutas fora de época até registros de família, mas, considerando sua linha de trabalho, era mais frequentemente requisitado para itens ilegais. Neste caso, sua cliente era uma ex-jogadora chamada Rinrin, que também era sua conhecida de longa data. Ela havia pedido que ele encontrasse uma ilha remota e espalhasse diversos itens ao redor dela, tudo para realizar um jogo simulado. Além disso, Rinrin pedira que ele a auxiliasse como colaborador.
Por isso, o fornecedor estava atualmente na ilha, local do jogo simulado.
Ele estava sentado sobre um tatame, em uma casa abandonada nos arredores da ilha. O cômodo estava escuro. As luzes apagadas e pouca luz entrava pela porta de correr entreaberta, já que o sol ainda não havia surgido. Ainda assim, o próprio fornecedor estava iluminado — pelo monitor à sua frente.
O monitor exibia imagens da ilha em tempo real, transmitidas por uma câmera ao vivo. Como o amanhecer ainda não chegara, uma transmissão comum pareceria escura, mas a câmera estava em modo visão noturna, fazendo as imagens parecerem como se fosse pleno dia. Duas antenas saíam do topo do monitor. O sistema permitia a conexão sem fio com a câmera, sem necessidade de internet.
Naquele exato momento, havia movimento na transmissão — porque a câmera estava em movimento. Camuflada e presa a um botão da roupa de Rinrin, transmitia constantemente o que Rinrin via — ou melhor, o que Rinrin veria se sua visão funcionasse. O tamanho pequeno do dispositivo a tornava imperceptível, e seria difícil para alguém suspeitar da existência de uma câmera. Afinal, quem suspeitaria que uma pessoa cega estaria usando um equipamento tão ligado à visão?
Uma câmera de vigilância e uma “audiência” assistindo às imagens faziam parte dos jogos da morte, mas nesse jogo simulado tinham outro propósito. Tudo que era necessário para sustentar o blefe de Rinrin — a grande mentira que ela criara — estava naquela sala, incluindo o próprio fornecedor.
A jogadora cega, Rinrin…
Quem poderia imaginar?
Que ela não possuía apenas visão, mas também audição.
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Tecnicamente, Rinrin não era completamente surda. Se fosse, essa grande mentira nem teria sido possível. Embora não ouvisse nada do ouvido esquerdo, o direito ainda funcionava parcialmente com o auxílio de um aparelho auditivo. Contudo, ela já não possuía a habilidade de perceber o ambiente por ecolocalização — a técnica indispensável que usava para prosperar como jogadora.
Rinrin perdera a audição cerca de um ano após a visão, pouco depois de começar a se destacar como jogadora cega. Naquele momento, seu status como jogadora foi revogado. Qual seria o sentido de convidar alguém cego e surdo para participar dos jogos da morte? Mesmo os organizadores, que lideravam uma organização desumana, pareciam ter senso suficiente para reconhecer isso. Embora Rinrin quisesse continuar jogando, os organizadores não permitiram. Assim, ela foi privada não só da visão e da audição, mas também de seu papel como jogadora.
Devido a essas circunstâncias, Rinrin passava a perceber o mundo de forma completamente diferente de quando estava ativa. Especificamente, a pequena câmera escondida em seu botão transmitia informações visuais do ambiente para o fornecedor, que então transmitia instruções detalhadas a Rinrin via um transmissor em seu bolso interno. O transmissor estava conectado a um fone de ouvido com funcionalidade de aparelho auditivo no ouvido direito de Rinrin, permitindo que ela ouvisse as instruções do fornecedor. Embora ainda processasse sons, ela não percebia ecos, mas palavras. Rinrin estava, na prática, percebendo o mundo por meio de informações verbais, como se lesse um romance.
Na verdade, “perceber” talvez fosse um termo generoso. Comparado a ver e ouvir diretamente, receber informações por meio de terceiros era extremamente inconveniente. Na prática, já houveram diversas situações de risco em que tudo poderia ter acabado de imediato. Embora o aparelho auditivo estivesse bem escondido sob o cabelo de Rinrin, quando ela se enfrentou com Yuki no dia anterior, o fornecedor só conseguiu informá-la sobre a arma da garota e a distância aproximada entre elas. O fato de Rinrin ter se afastado após o confronto de costas foi um blefe completo. Yuki poderia facilmente tê-la derrotado atacando pelas costas. Quanto ao segundo confronto, no meio da noite, Rinrin evitou quase todas as armadilhas da casa por instinto, e a perseguição a Tamamo também foi uma mentira. Foi um verdadeiro milagre que ela tivesse conseguido correr tanto sem tropeçar ou colidir com algo. Rinrin compensava a escassez de informações com a intuição e a coragem temerária que desenvolvera como jogadora. Essa era a verdade por trás da autoproclamada “jogadora cega”.
Em outras palavras, tudo era uma ilusão.
Claro, essa grande mentira não nasceu de más intenções. Se havia alguma verdade nas ações de Rinrin, era que ela realmente desejava transmitir suas técnicas a Yuki. Ao simular suas habilidades de jogadora, Rinrin demonstrava a arte do blefe, uma habilidade essencial para jogadoras com deficiência. Sem dúvida, levava tudo a sério.
Ela literalmente estava apostando sua vida nisso.
O fornecedor ficou chocado quando Rinrin se aproximou com um contrato após um longo período de silêncio. A aposentadoria a havia transformado em uma sombra de si mesma, mas parecia que ela retornara a seus modos alegres de outrora. Segundo o que lhe contou, Rinrin fora solicitada a ensinar suas técnicas a Yuki, uma jogadora com deficiência visual similar. Embora ainda não tivessem se encontrado, Rinrin já demonstrava grande empatia por Yuki. Explicou com entusiasmo que precisava da ajuda do fornecedor para cumprir o pedido sem compromissos.
O fornecedor percebeu que Rinrin pretendia morrer.
Transmitir tudo de si para a próxima geração e ser morta no processo — essa era a única esperança a que podia se apegar.
Isso era comum no mundo dos jogos da morte. Nada de estranho havia nisso. Seria uma perda para o mundo se as técnicas de uma sobrevivente de longa data deixassem de ser passadas adiante, especialmente alguém com habilidades raras como Rinrin. Uma ex-jogadora como ela dificilmente hesitaria em se entregar.
Ainda assim, o fornecedor sentiu algo estranho. Mesmo que fosse uma esperança para ela, não era uma esperança curiosa? Não seria semelhante à de um escravo que não suporta mais trabalhos forçados tortuosos, jogando a cautela ao vento e avançando contra guardas armados? Não seria uma esperança projetada para satisfazer a si mesmo, à beira da autodestruição?
Embora tivesse reservas, o fornecedor não impediu Rinrin. Conforme seu desejo, preparou o local e concordou em auxiliá-la.
“…Como isso vai acabar…?”, murmurou o fornecedor.
De repente, a porta da frente se abriu com estrondo.
Alguém entrou na casa. O intruso caminhava pelo corredor, fazendo barulho, afastando as portas de correr pelo caminho. Fez o mesmo com a entrada da sala onde o fornecedor estava. A porta de correr se abriu com tanta força que rebateu cerca de 20% do percurso após bater na parede.
Do outro lado — não era Rinrin.
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Rinrin colidiu com uma parede de pedra.
(23/28)
“Ops…”
Rinrin caiu para frente e segurou a parede para se apoiar.
Ela devia ter batido em um canto. Isso acontecia às vezes enquanto caminhava, já que não podia ouvir ecos nem ver à sua frente.
O que está acontecendo? pensou Rinrin. Eu esperaria que o fornecedor me desse instruções antes de algo assim acontecer. A câmera estará quebrada? Ou ele desmaiou de cansaço? O fornecedor vinha me guiando a noite inteira, então seria compreensível. Jogadores como Rinrin não estranhavam noites em claro, mas o fornecedor era um civil comum. Não seria estranho se ele tivesse adormecido.
Acho que vou acordá-lo, pensou Rinrin. Ela tirou o transmissor. Claro, o dispositivo não servia apenas para receber instruções; podia se comunicar em duas vias.
“Alô?” Rinrin disse, chamando o fornecedor.
No entanto, não houve resposta.
“Ei… você está mesmo dormindo…?”
Sua segunda tentativa também não teve retorno.
Se for necessário…, pensou Rinrin. Decidiu ir direto para a casa onde o fornecedor estava.
Rinrin guardou o transmissor e pegou um bastão. Quando estendido ao máximo, ele se transformava em uma barra de metal de dois pés de comprimento. Ela o carregava não como arma, mas como bengala-guia, caso fosse necessário. Era ligeiramente, mas perceptivelmente, menor que uma bengala comum, e embora estivesse insatisfeita com o tamanho, começou a caminhar, batendo o bastão no chão.
Felizmente, sabia que estava perto da casa em questão. Rinrin chegara à ilha dois dias antes para memorizar sua geografia e mantinha constantemente o controle de sua localização enquanto se movia. Mesmo sem instruções do fornecedor, podia navegar perfeitamente por conta própria — desde que não se importasse com tempo ou aparências.
Cerca de dez minutos depois, Rinrin chegou à frente da casa. Escalou o muro de pedra, atravessou o quintal e chegou à porta principal. Estendeu a mão para o puxador —
Mas só agarrou o ar.
A porta já estava aberta.
“…………”
Sua intuição entrou em ação. Respirou fundo e falou.
“…Você está aí, não é, Yuki?”
Passos vinham por trás dela.
(24/28)
Depois de solucionar o mistério da aposentadoria de Rinrin, Yuki e Tamamo retomaram a exploração da ilha. Se aquela pessoa existia, devia estar em algum lugar ali.
Apesar de totalmente cega, Rinrin continuara a jogar nos jogos confiando na audição, então Yuki deduziu que sua aposentadoria provavelmente ocorrera por perda auditiva. Além disso, Rinrin se movia como se pudesse ouvir, levando Yuki a concluir que a mulher contava com um colaborador que secretamente lhe passava instruções. E como a ilha não tinha sinal de celular, Yuki entendeu que o colaborador devia estar ali em algum lugar, levando-a e a Tamamo a vasculhar todas as casas uma a uma.
As duas conseguiram localizar o fornecedor e roubar o transmissor antes do amanhecer. Naquele ponto, poderiam ter informado Rinrin sobre o que fizeram, mas decidiram esperar. Embora o fornecedor tivesse explicado em detalhes a situação da mulher, Yuki queria confirmar a verdade com seus próprios olhos.
No momento em que Rinrin apareceu, usando o bastão como bengala-guia, Yuki ficou sem palavras. Rinrin caminhou diretamente até a casa, sem perceber que Yuki estava sentada no muro de pedra em frente. Não havia como negar a verdade. Rinrin realmente era…
“…Bom dia, Rinrin”, disse Yuki.
“Bom dia.”
“Então você também tem perda auditiva, hein?”
“Sim,” Rinrin admitiu.
A mulher levantou os cabelos sobre o ouvido direito e virou a cabeça para a esquerda, revelando um fone no canal auditivo — seu aparelho auditivo.
“Você já conheceu o homem lá dentro?”. Rinrin perguntou, devolvendo cabelo e cabeça à posição original.
“Sim. Ele nos contou tudo.”
Tudo — incluindo a progressão da perda auditiva de Rinrin, os truques que usava para compensar suas deficiências e seu estado mental.
“Foi por isso que você criou a mecânica do jogo de procurar itens por sinais wireless? Se pudéssemos localizar itens de fora, não precisaríamos vasculhar casas. Não teríamos como encontrar seu colaborador se jogássemos normalmente.”
“Sim, é verdade. Embora essa ideia tenha sido dele, não minha.”
“…Então você estava fingindo esse tempo todo.”
A única resposta de Rinrin foi um sorriso. O sorriso de uma verdadeira jogadora.
“Vai me chamar de suja?” Rinrin perguntou.
“De jeito nenhum.” Yuki teria dificuldades ainda maiores contra alguém que realmente pudesse ouvir. “Você mencionou ontem como ‘blefar não é menos importante que qualquer técnica’. Agora entendo perfeitamente. O ponto é cegar seus oponentes sobre sua própria perda de sentidos…”
“Uma boa maneira de colocar isso,” respondeu Rinrin. “No caso, eu fingia ouvir, mas a essência é a mesma, seja com visão ou audição. O truque é complicar as coisas misturando verdades e mentiras.”
“Bom saber.”
“Aliás, você parece falar como se fosse o fim. Não pode agir como se o jogo já tivesse acabado?”
A observação da mulher surpreendeu Yuki.
“…Você vai continuar?” perguntou Yuki.
“Claro. Esse jogo não termina até você roubar a chave de mim.”
Rinrin jogou o bastão de lado — e sacou uma arma.
“Tamamo está controlando o fornecedor,” disse Yuki. “Você não vai receber instruções dele. Não tem chance de ganhar.”
“E daí? Isso não é motivo para desistir.”
“Eu já aprendi o suficiente. Não vale a pena continuar.”
“Ele te contou tudo, não é? Então você sabe o que deve fazer.”
“Não tenho intenção de te matar.”
“Que egoísmo.” Rinrin deu um passo à frente. “Você vem aqui apenas para pegar de mim, e se recusa a atender meu desejo.”
“…Não, mas… eu não assinei para isso!”
“Por que hesitar? Isso não seria nada para uma jogadora do seu calibre.”
“Não faz sentido.”
“Não faz sentido? E daí? Como se você se importasse quando morrer…”
“Quando eu sair, quero que seja resultado de ter dado o meu melhor. Não aceitarei qualquer morte! Não vou ajudá-la a cometer suicídio!”
Só depois de dizer isso, Yuki percebeu que havia ido longe demais. No entanto, Rinrin não criticou sua fala descuidada. Simplesmente sorriu levemente. Mantendo a expressão, deu sua resposta.
“Já nem tenho mais o direito de dar o meu melhor.” Rinrin tirou a smart key do bolso. “Se insiste em não colaborar… talvez isso force sua mão.”
Rinrin ergueu a chave — peça central do jogo e única saída da ilha — acima do rosto —
— e abriu a boca.
“……!”
O instinto de Yuki entrou em ação.
(25/28)
Yuki se moveu de forma tão fluída que até se impressionou consigo mesma.
Quase inteiramente de forma subconsciente, Yuki sacou a arma, desengatou o seguro e mirou o cano em Rinrin. Dois tiros voaram pelo ar em um piscar de olhos. Um atingiu o pulso direito de Rinrin, enquanto o outro acertou sua mão direita. Com Rinrin sem força para segurar, a smart key caiu no chão.
Gotas de sangue fresco espiralaram pelo ar.
“……”
A cena trouxe Yuki de volta à realidade.
Fazia muito tempo desde que Rinrin havia deixado o mundo dos death games, então ela não estava mais sob os efeitos do Tratamento de Preservação. Seu sangue não se transformava em uma penugem branca, e a hemorragia não parava sozinha. O líquido vermelho continuava a escorrer de suas feridas.
Rinrin pressionou a mão direita. Mesmo assim, seu sorriso não vacilou.
“Sua aura ficou bem fria por um instante, Yuki. É assim mesmo…”
Yuki não respondeu. Manteve sua arma apontada para Rinrin.
Yuki tinha se ferido na perna durante o encontro da noite anterior, o que dificultava andar. Isso significava que não poderia aproveitar a cegueira de Rinrin correndo para pegar a chave e fugir. Idealmente, Yuki deveria primeiro incapacitar Rinrin antes de se aproximar da chave em seu próprio ritmo.
No entanto, a visão do sangue fresco abalou sua determinação. O corpo de Rinrin não tinha a proteção do Tratamento de Preservação, então atingi-la muitas vezes poderia matá-la. Apesar de sua experiência em lidar com vida e morte, Yuki não sabia exatamente o que constituía uma ferida fatal para uma pessoa comum. Até onde poderia ir?
Enquanto hesitava, Rinrin entrou em ação. Com a mão esquerda não ferida, levantou a arma em direção a Yuki.
De alguma forma, ela parou a arma quando o cano estava apontado diretamente para a cabeça de Yuki.
No momento em que um tiro ecoou, Yuki se escondeu atrás do muro de pedra. Olhou para o próprio corpo — o disparo não a atingira. O único ferimento era o que ela tinha sofrido no dia anterior. No entanto, o tiro teria explodido seu cérebro se não estivesse agachada.
Enquanto se protegia atrás do muro, Yuki ouviu passos. Rinrin se aproximava, parecendo avançar cuidadosamente, provavelmente porque não podia mais usar sua bengala com a mão ferida.
Yuki se moveu silenciosamente. Escalou o muro e aterrissou no quintal. Não havia feito barulho, pelo menos até onde podia perceber. Rinrin não disparou. Yuki se sincronizou com os passos da mulher e tentou se aproximar pelas costas.
Por um instante, os olhos de Yuki caíram sobre sua própria arma, trazendo à memória uma lembrança antiga.
Yuki girou a arma, segurando-a pelo cano e não pelo punho.
Quase como se tivesse esperado Yuki se preparar, Rinrin se virou. A mulher provavelmente notara Yuki se aproximando pelas costas há muito tempo e esperava a garota entrar no alcance de tiro.
Rinrin mirou sua arma em Yuki. Apontou o cano em ângulo descendente, considerando a postura baixa de Yuki devido à perna ferida.
Agradecida pela mira precisa, Yuki saltou como uma gata.
Ela podia praticamente ver seu próprio rosto refletido na bala que saiu da arma.
Por ter saltado para frente, a bala passou bem atrás dela, raspando por pouco. Não houve segundo tiro. Yuki chegou perto o suficiente para agarrar o braço esquerdo de Rinrin. Enquanto forçava o cano da arma para apontar completamente em outra direção, Yuki desceu a outra mão — segurando a arma — na cabeça da mulher.
Rinrin sorriu. “—Isso foi sujo.”
“Fale o que quiser.”
Embora apenas um segundo tenha se passado em tempo real, de fato houve essa troca.
Um som surdo, que mal ecoou, preencheu o ar.
(26/28)
Ainda fresco na memória de Rinrin estava o dia em que foi destituída de seu status de jogadora.
Ela havia danificado a audição em um incidente de determinado jogo. Já havia perdido a visão e dependia principalmente de ecos para perceber o mundo, então ficar surda foi um golpe fatal. Apesar disso, queria continuar jogando, mas sua agente se recusou. Não apenas isso, mas revogou seu status de jogadora, efetivamente exilando-a do mundo dos jogos.
“—Como ousa fazer isso?”
Obviamente, Rinrin exigia explicações de sua agente.
Ela agarrou a agente pelo peito e o jogou contra a parede. Uma resolução pacífica parecia inconcebível.
“Como ousa fazer isso sem ao menos me consultar…?”
“O que você tem para reclamar? Essa foi a decisão lógica.” Respondeu a agente com firmeza, mesmo diante das táticas de intimidação de Rinrin. “Concordei em deixá-la continuar quando só a cegueira era um obstáculo, mas não serei persuadida desta vez. Você vai se aposentar. Continuar jogando assim não é mais que um ato suicida.”
“E daí? Eu abandonei meu apego à vida no momento em que me tornei jogadora.”
Mesmo após expressar sua determinação, a agente balançou a cabeça.
Por isso, Rinrin recorreu a um método de negociação digno de uma jogadora — ameaçando ferir a agente caso fosse barrada. Ela conhecia sua personalidade, então sabia que suas palavras não eram vazias.
Ainda assim, uma vez mais, a agente balançou a cabeça.
“Insisto que você encontre outra forma de viver”, disse.
Não há outra forma, pensou Rinrin. Não há lugar para mim fora desse mundo.
Desde aquele dia, Rinrin sentiu-se como uma marionete com os fios cortados. O mundo desmoronando sob seus pés. A sensação de não possuir nada que a definisse. A sensação de apenas existir, nada mais. Mesmo agora, com a oportunidade de viver, nada tinha importância.
Ainda assim, não queria tirar a própria vida. Não temia a morte, mas não suportava ver tudo que conquistara se perder. Queria que alguém reconhecesse sua existência. Queria conexão com algo, algum lugar.
E essa oportunidade havia surgido à porta de Rinrin.
“Tem que ser isso”, pensou. Yuki também era uma jogadora com deficiência visual. Rinrin passaria suas técnicas para Yuki e seria morta no processo —
Era isso que Rinrin planejara.
Evidentemente, entretanto, seu plano ainda não poderia se concretizar.
(27/28)
Yuki carregou Rinrin inconsciente para dentro da casa e pegou a smart key. Em seguida, levou Tamamo e o fornecedor até a costa rochosa onde o barco estava. Yuki se preocupou que a chave tivesse sido danificada ao atirar na mão de Rinrin, mas ficou aliviada quando o barco ligou sem problemas.
O fornecedor acabou pilotando o barco. Yuki e Tamamo o fizeram testar o motor levando-o até o píer e, enquanto isso, voltaram à casa onde haviam encontrado Rinrin pela primeira vez. Lá, reuniram as bolsas que haviam trazido antes de se dirigir ao píer.
Ao chegarem — encontraram Rinrin, acordada e esperando por eles.
“O quê…?!”
Yuki e Tamamo assumiram posições de combate. Rinrin, entretanto, sorriu, sem qualquer hostilidade.
“Calma. Não vou mais atormentá-los.”
“…Se você diz.”
Aparentemente, a mulher estava satisfeita com a conclusão dos eventos. Talvez o impacto do tiro na mão tivesse sido suficiente, pensou Yuki.
“Vim me despedir de vocês”, disse Rinrin.
“Se despedir? Você não vai conosco?”
Yuki olhou para o barco. Ele era grande o suficiente para levar Yuki, Tamamo, o fornecedor e Rinrin.
“Quero manter a aparência do jogo,” respondeu Rinrin. “Estragaria a diversão se eu saísse no mesmo barco que vocês, não é? Farei o fornecedor voltar para me buscar depois de enviar vocês duas.”
Faz sentido, pensou Yuki.
Após carregarem suas bolsas no barco, Yuki e Tamamo embarcaram.
“Obrigada por tudo, Rinrin”, disse Yuki em despedida.
“De nada… E então? Aprenderam a lutar sem depender da visão?”
“Sim, acho que entendi a ideia. Se eu tiver problemas, posso visitá-la novamente?”
“Sinta-se à vontade. Aceito uma luta a qualquer momento.”
“…Se possível, prefiro apenas conversar.”
O barco começou a se mover. A ilha e Rinrin acenando no píer desapareceram rapidamente da vista.
“…Ela foi implacável…”, disse Tamamo após Rinrin sumir de vista.
“Você disse…”, concordou Yuki. “A propósito, Tamamo…”
“Sim?”
“Sobre a lição dois em diante…”
Tamamo parecia assustada, provavelmente lembrando-se da experiência aterrorizante dos últimos dois dias.
“…Não se preocupe, não serei tão violenta nas próximas lições,” assegurou Yuki.
(28/28)
(00/48)
— Pouco tempo depois de Yuki aceitar Tamamo como sua protegida, as duas tiveram a seguinte conversa.
“O que você acha que é a única coisa absolutamente essencial para se tornar uma jogadora de elite?”, perguntou Yuki. Ela havia feito aquela pergunta como ponto de partida para a segunda lição: aprender as habilidades necessárias para sobreviver como jogadora. “Em outras palavras, a característica compartilhada por todas as jogadoras que conseguem durar por muito tempo. O elemento essencial que separa amadoras de especialistas. Alguma ideia?”
Tamamo ficou em silêncio por um momento, pensando.
“Seria força física? Imagino que jogadores grandes e musculosos tenham vantagem nos jogos.”
Yuki balançou a cabeça.
“Não necessariamente. Ter um corpo grande pode até ser uma desvantagem em certas situações, como quando é preciso atravessar uma ponte estreita ou rastejar por túneis apertados. Claro, existem muitos casos em que habilidade de combate faz uma enorme diferença, mas força não é tudo. Não dá para dizer que isso seja essencial para se tornar uma jogadora de elite.”
“…Entendo.”
Após pensar mais um pouco, Tamamo disse:
“Então talvez seja a capacidade de perceber perigos? Por exemplo, conseguir deduzir a presença de armadilhas ou reconhecer instantaneamente a malícia de outras jogadoras. Como nossas vidas estão em jogo, jogadoras que priorizam evitar riscos devem ter vantagem.”
Aquilo era verdade.
Na verdade, a própria Yuki já havia dito em um jogo anterior que a covardia era a chave para sobreviver. Era um lema prático para iniciantes seguirem, mas—
“Esse tipo de jogadora costuma morrer no longo prazo. Você não acumula experiência se apenas passa pelos jogos evitando perigo. No momento em que acabar preso em uma situação sem saída, estará acabado. Jogadoras assim participam de menos jogos e certamente não evoluem até se tornarem jogadoras de elite.”
Embora existissem exceções como Koyomi, aquela mulher era realmente uma em um milhão.
“…Hmm…”
Tamamo fez um pequeno bico — outra expressão adorável para Yuki admirar.
“Nesse caso… e encontrar um mentor? Jogadoras que criam boas relações com jogadoras habilidosas certamente têm vantagem, certo? Eu lembro de você mencionar como é importante absorver a sabedoria de jogadoras mais experientes.”
Num mundo onde um único erro podia levar alguém à morte, as jogadoras tinham muitos motivos para aprender com veteranas. Era exatamente por isso que inúmeras relações entre mentoras e protegidas haviam surgido entre as jogadoras, e também o motivo de Yuki e Tamamo estarem tendo aquela conversa naquele momento.
No entanto, aquela resposta fez Yuki sorrir.
“Na verdade, essa é a pior coisa que você pode fazer. Estar ansioso para aprender sob a tutela de outra pessoa significa que você não está tentando pensar por conta própria. Não consigo acreditar que algumas jogadoras escolham abandonar toda responsabilidade, mesmo com suas vidas em jogo. Pessoas obcecadas em aprender com os outros caem rapidamente.”
Tamamo — que naquele exato momento estava aprendendo com Yuki — inflou as bochechas.
Foi a primeira vez que Yuki viu alguém fazer aquilo na vida real.
“Isso não tem graça, Yuki.”
“Desculpa…”, respondeu Yuki, oferecendo um pedido de desculpas vazio. “Certo, admito que ter vontade de adquirir conhecimento e habilidades é importante. Mas o que eu queria transmitir é que a jogadora perfeita não existe. Se destacar em uma área significa ter dificuldades em outra. E também existem vários tipos diferentes de jogos.”
Ela continuou:
“Uma característica que te dá vantagem em um jogo pode facilmente trabalhar contra você no próximo. Embora existam padrões gerais sobre os tipos de jogadoras que sobrevivem com mais facilidade, nada é tão simples assim. Não existem absolutos.”
Yuki prosseguiu:
“Esse é o tipo de mundo no qual estamos tentando prosperar. Sem certezas nas quais confiar, arriscamos nossas vidas tomando decisões baseadas em premissas instáveis. Embora isso aconteça em qualquer área, é especialmente verdadeiro na nossa. Não se esqueça disso.”
(01/48)
Crisis Shuttle (“Transporte de Crise”) estava chegando ao fim.
(02/48)
Um robô estava atacando uma jogadora.
A máquina era feita principalmente de lata e tinha um visual tão estereotipado que você nem encontraria algo assim em mangás modernos. Embora seu formato imitasse o de um ser humano, sua cabeça e corpo eram quadrados, diversos medidores em seu peito oscilavam descontroladamente, e antenas giravam no topo de sua cabeça.
Seus dois braços — cada um com apenas dois dedos, é claro — saíam dos lados do corpo, segurando respectivamente um martelo e uma serra.
O robô enfrentava uma jogadora com aparência fantasmagórica — Yuki.
Ela estava lutando corpo a corpo com a máquina, segurando os cabos das duas armas. Sua roupa rivalizava com o design exagerado do robô: um enorme headset, um top colado ao corpo, uma saia justa de aparência aerodinâmica e botas cyberpunk. Partes de todas as peças brilhavam em vários pontos, dando ao traje uma aparência cibernética.
Era uma fantasia de garota androide — e bastante provocante.
Yuki esticou a perna e chutou o robô para longe.
Então recuou, correndo por um corredor futurista.
Ela estava a bordo de uma nave espacial.
O objetivo daquele jogo, Crisis Shuttle, era localizar cápsulas de escape de emergência e abandonar a nave enquanto fugia de robôs assassinos descontrolados. Claro, Yuki não estava realmente no espaço; o local apenas havia sido decorado para parecer assim.
Os robôs assassinos, por outro lado, eram reais, vagando pelo espaço fechado.
Yuki já havia enfrentado vários deles, e sua fantasia de androide estava danificada em diversos lugares.
Ela já havia avançado bastante no jogo. Sabia onde estavam as cápsulas de escape e também o código para destrancar a porta da sala onde elas ficavam. Tudo o que restava era chegar até lá.
“Gah!”
Yuki bateu a cabeça na quina do corredor.
Erros idiotas eram fáceis de cometer quando se estava com pressa.
Ela rapidamente ignorou a dor e voltou a correr pelo corredor, repetindo o mesmo erro várias vezes no caminho.
Eventualmente, após virar três esquinas e atravessar um lance de escadas, encontrou uma porta com teclado numérico.
Cobrindo o olho direito com uma das mãos, Yuki apertou os botões com a outra para inserir a senha.
Enquanto fazia isso, um robô apareceu no canto de sua visão.
Ele havia alcançado Yuki e agora estava no fim do corredor.
Como ela praticamente tropeçava em si mesma durante a fuga, não conseguiu abrir muita distância entre ela e a máquina.
Embora o robô ainda não estivesse ao alcance, o tempo era crucial.
Yuki digitou freneticamente os números de memória.
Felizmente, conseguiu terminar a senha antes que o inimigo metálico atacasse.
A porta começou automaticamente a se abrir, e Yuki deslizou pela abertura sem esperar que ela abrisse completamente.
Porém, ao olhar para trás, percebeu que seu trabalho ainda não havia acabado.
O robô surgiu do outro lado da porta, agora totalmente aberta.
Embora ela estivesse começando a se fechar, a máquina avançava muito mais rápido e conseguiria entrar na sala.
Como havia feito antes, Yuki tentou chutar o robô para longe—
—mas ele atingiu sua perna estendida com o martelo.
“……!!”
Yuki cerrou os dentes.
Apesar do ferimento, conseguiu chutar o robô e empurrá-lo para trás com a perna quebrada.
O martelo a atingiu uma segunda vez.
Depois uma terceira.
Mesmo assim, ela continuou lutando contra a máquina até a porta finalmente se fechar por completo.
Com um forte barulho metálico, a sala onde Yuki estava foi completamente isolada do corredor.
Ela olhou para a perna que puxou de volta para dentro.
Estava terrivelmente inchada, parecendo que havia uma bola de rugby sob sua pele.
Com isso, o quinquagésimo sexto jogo de Yuki chegou ao fim.
(03/48)
Yuki acordou em seu apartamento.
(04/48)
Após concluir sua rotina pós-jogo — fazer uma oração e refletir sobre os acontecimentos de sua competição mais recente — Yuki olhou para o travesseiro.
Sua fantasia de androide estava dobrada ao lado dele, então ela abriu a porta do armário para guardá-la.
Seu armário estava completamente lotado.
Fantasiam preenchiam o interior de uma ponta à outra.
Ele já havia atingido seu limite máximo — na verdade, ultrapassado esse limite.
Aquilo vinha sendo um problema recorrente ultimamente.
Dentro havia mais de cinquenta roupas de jogos; somadas às suas roupas normais, o total ultrapassava sessenta peças.
Não havia espaço suficiente para pendurar tudo no cabideiro, então algumas roupas estavam dobradas no chão.
Ver seus trajes de jogo armazenados de duas formas diferentes parecia um tanto estranho para ela.
“…Preciso de mais espaço…”, murmurou Yuki, adicionando a fantasia de androide à pilha no chão.
Então ela saiu para caminhar.
Era tarde da noite.
Enquanto mexia distraidamente no celular, começou a pensar no que fazer em relação ao armazenamento.
Comprar outro armário?
Não, isso não seria inteligente; ela queria evitar encher ainda mais seu pequeno apartamento com móveis.
E alugar um depósito?
Também não parecia uma boa ideia.
Isso impediria que pegasse suas roupas quando quisesse, além de deixar itens relacionados aos jogos fora de sua residência — algo extremamente proibido.
Então… talvez se mudar para um lugar um pouco maior?
Enquanto Yuki pensava nisso, de repente sentiu algo como um inseto rastejando em seu pescoço.
“?????!!”
Yuki saltou no ar.
Depois de alguns pulos para frente, virou-se rapidamente para identificar o culpado.
Era Tamamo.
“Hee-hee!”
Após uma breve risada, Tamamo disse:
“Bom te ver de novo, Yuki.”
Ela juntou os dedos — provavelmente a verdadeira identidade do “inseto” — e fez uma pequena reverência.
“…Quanto tempo”, respondeu Yuki, esfregando o pescoço.
“Parabéns por completar seu quinquagésimo sexto jogo.”
“Hã? Você sabe disso?”
“Sim, sua agente me contou. Depois de ouvir que você voltou para casa em segurança, resolvi passar aqui para te visitar.”
“…Entendi.”
Ela vem criando todo tipo de conexão pelas minhas costas, hein?, pensou Yuki.
(05/48)
De fato, Yuki acabara de concluir seu quinquagésimo sexto jogo, o que significava que bastante tempo havia passado.
Quase quatro meses se passaram desde que Yuki aceitou Tamamo como sua protegida. Felizmente, ambas conseguiram continuar jogando sem perder a vida ou sofrer ferimentos graves.
Quanto ao crescimento de Tamamo, a cena de mais cedo já era prova suficiente.
Ela havia conseguido se aproximar por trás de Yuki sem ser notada e tocar seu pescoço, o que significava que poderia tê-la estrangulado se realmente quisesse.
Claro, no momento em que demonstrasse intenção assassina, Yuki reagiria, mas ainda assim era inegável o quão habilidosa Tamamo havia se tornado em esconder sua presença.
Nos primeiros dias como protegida de Yuki, Tamamo ficava envergonhada apenas por ser abraçada. Agora, porém, parecia ter desenvolvido uma pele muito mais grossa, já que esse nível de contato físico aparentemente não a incomodava mais.
Isso também podia ser considerado crescimento.
Se aquilo era resultado da tutoria de Yuki, no entanto, era difícil dizer.
Desde que sobreviveram ao jogo de teste naquela ilha remota, Yuki vinha ensinando Tamamo de maneira relativamente sensata — muito diferente dos métodos terríveis de Rinrin — abordando assuntos como lidar com armadilhas, técnicas de combate, formas de concentração e assim por diante.
Embora suas lições estivessem longe de serem de nível mundial, ao menos Yuki havia cumprido seu papel de transformar Tamamo em uma jogadora completa sem deixá-la morrer ou se ferir.
Era por isso que as duas podiam caminhar lado a lado naquele momento.
Yuki observou Tamamo cuidadosamente.
Quando se conheceram, Tamamo era uma garota redonda e rechonchuda.
Na vez seguinte em que se encontraram, porém, ela havia se transformado em uma jovem de beleza incomparável.
E agora, a impressão que Yuki tinha dela havia mudado mais uma vez.
O que era natural, afinal, quase meio ano havia passado desde o primeiro encontro entre elas.
“Você já concluiu seu oitavo jogo?”, perguntou Yuki.
“Sim, sem nenhum problema digno de nota”, respondeu Tamamo.
Menos de quatro meses haviam passado desde o início da relação entre mentora e protegida, e as duas já não moravam mais juntas.
Havia vários motivos para isso:
O apartamento de Yuki era pequeno demais para acomodar duas pessoas, Yuki não gostava de dividir espaço com ninguém, e Tamamo também havia parado de se agarrar à mentora após finalmente superar o trauma da primeira lição.
O relacionamento delas evoluíra.
Agora, encontravam-se apenas de vez em quando para conversar e treinar.
Era costume atualizarem uma à outra sobre sua contagem de jogos sempre que se viam.
Da última vez, Yuki havia concluído o quinquagésimo quinto jogo, enquanto Tamamo concluíra o sétimo.
Isso significava que ambas haviam terminado mais um jogo desde então.
Com oito jogos concluídos, Tamamo já podia ser considerada uma jogadora excepcional.
No nível atual de habilidade dela, provavelmente sobreviveria por muito mais tempo, exceto em circunstâncias imprevisíveis.
Ela estava no caminho certo para continuar sua sequência de vitórias e eventualmente enfrentar a Parede dos Trinta—
“…………”
Yuki fez o máximo possível para impedir a si mesma de imaginar qualquer coisa além disso.
(06/48)
As duas continuaram caminhando quando, de repente, o celular de Yuki tocou.
Após verificar quem estava ligando, Yuki disse:
“Preciso atender isso. Já volto.”
“Tudo bem”, respondeu Tamamo.
Yuki deixou Tamamo para trás e seguiu até um parque próximo.
Enquanto caminhava, tocou na tela para aceitar a ligação.
Mas, no momento em que levava o celular até o ouvido, interrompeu o próprio movimento.
Era uma chamada de vídeo.
“…Hum, por que estamos fazendo isso em vídeo?”, perguntou Yuki para a pessoa que apareceu na tela. “Rinrin, você não consegue enxergar, consegue?”
Era Rinrin — a mulher de aparência gentil que usava sinos nas orelhas.
“Tem algum problema?”, respondeu ela. “Foi o que tive vontade de fazer.”
“…Você não mudou nem um pouco…”
Ao que tudo indicava, a mulher continuava tão determinada quanto sempre em manter seus blefes.
“Mais importante, o que você me enviou é verdade?”, perguntou Rinrin.
“É.”
Yuki havia mandado uma mensagem para Rinrin logo após sair do apartamento, pois sentia que aquele problema era algo em que precisava da ajuda dela.
Então foi direto ao ponto.
“Eu perdi grande parte da visão do meu olho direito.”
Yuki concentrou sua atenção no olho ferido — e em sua visão turva.
A perda de visão havia piorado desde Halloween Night (“Noite de Halloween”).
Embora Yuki tivesse esperado que aquilo não acontecesse, poucos problemas na vida desapareciam apenas com uma oração — especialmente aqueles relacionados ao corpo humano.
A condição de seu olho direito havia piorado a ponto de ela sentir claramente os efeitos.
A metade direita de sua visão estava embaçada e desfocada, como usar uma lente de contato com grau errado rabiscada com caneta preta.
Como a perda de visão não era novidade, Yuki tinha poucos problemas no cotidiano.
Porém, ela não conseguia ler direito a menos que cobrisse o olho direito, e frequentemente cometia erros desajeitados ao correr ou saltar, até mesmo durante os jogos.
Embora tivesse conseguido disfarçar até agora, a situação finalmente se tornara crítica.
“Eu gostaria que você me ensinasse o básico de ecolocalização.”
Ecolocalização — a habilidade de perceber os arredores através dos ecos.
Rinrin já não possuía mais aquela habilidade, mas no passado havia usado aquilo para prosperar como jogadora.
Talvez ela fosse a única pessoa no mundo capaz de ajudar Yuki em sua situação atual.
“Muito bem”, respondeu Rinrin. “No entanto… não há muito que eu possa ensinar. Ecolocalização consiste apenas em produzir sons e captar as ondas refletidas. É simplesmente uma questão de se acostumar.”
“Bem… foi o que pensei também, e na verdade já venho praticando há algum tempo, mas não está funcionando… Acho que posso estar fazendo do jeito errado. Se não for incômodo, gostaria de nos encontrarmos pessoalmente para que você avalie minha técnica.”
“Entendo. Muito bem, ajudarei da forma que puder.”
“…Só para deixar claro, eu não quero nada como da última vez”, esclareceu Yuki. “Sem extravagâncias, por favor. Tipo, não me jogue numa sala escura e me force a lutar até a morte contra você ou algo assim.”
“Oh, como você descobriu exatamente o que eu estava pensando?”
“…Claro que era isso que você tinha em mente…”
Yuki estreitou os olhos.
“Jogar as pessoas no fundo do poço era um método comum de ensino quando você ainda era jogadora?”
“Quem sabe? Você é a primeira pessoa que já ensinei. E eu também nunca aprendi sob ninguém.”
“Espera, sério?”
Aquilo foi inesperado.
Yuki sempre presumiu que Rinrin possuía vasta experiência ensinando outras pessoas.
Afinal, ela parecia ter sido uma jogadora extremamente habilidosa e — deixando de lado seus métodos questionáveis — havia conduzido o jogo de teste naquela ilha remota com bastante eficiência.
“Na minha época também existiam jogadoras que aceitavam protegidas”, explicou Rinrin, “mas eu não era uma delas, porque nunca achei que tivesse talento para ensinar. Especialmente depois de perder minha visão, fiquei tão focada em lidar com minha deficiência que não tinha espaço para pensar nos outros…”
Faz sentido, pensou Yuki.
“Isso me lembra, Yuki. Você tinha uma protegida. Como estão as coisas com ela? Está criando ela direito? Ou ela já não está mais entre nós?”
Rinrin falou daquilo como se Yuki estivesse cuidando de um besouro.
A mulher era realmente uma jogadora até o âmago.
“Ela está viva e bem, felizmente”, respondeu Yuki. “Acabou de concluir o oitavo jogo.”
“Sério? Que maravilhoso…”
Yuki sentiu certa implicação na voz de Rinrin quando ela deixou a frase morrer no ar.
Assumindo que não fosse apenas paranoia, Yuki entendeu perfeitamente o que a mulher queria dizer.
Era óbvio, considerando o comentário de Rinrin e a condição atual de Yuki.
“Bem… é assim que as coisas são”, soltou Yuki rapidamente.
Ela não queria correr o risco de Rinrin dizer aquilo explicitamente caso o silêncio continuasse.
“Enfim, pode me dizer quais datas funcionam para você?”
“Certo, a data mais próxima que posso é…”
Após ouvir a agenda de Rinrin — aparentemente sua vida aposentada lhe dava tempo livre de sobra — Yuki escolheu um dia e encerrou a ligação.
O parque voltou a ficar silencioso.
Envolvida pelo silêncio, Yuki pensou em muitas coisas diferentes.
Seu olho direito.
Tamamo.
O que Hakushi lhe dissera algum tempo atrás.
E o que Rinrin acabara de insinuar.
E acima de tudo, sua condição atual.
Naqueles dois ou três minutos — um período nem tão longo assim — Yuki sentiu algo profundo dentro de si começar lentamente a se afastar.
(07/48)
Depois de sair do parque, Yuki reencontrou Tamamo, e as duas retomaram sua caminhada noturna.
O tempo que passaram juntas foi completamente improdutivo, cheio de conversa fiada e sorvete de loja de conveniência.
Como aquilo derrotava o propósito da visita de Tamamo, Yuki tentou pensar em algo que ainda pudesse ensinar, mas não conseguiu encontrar nada.
Em quase quatro meses como mentora, Yuki já havia compartilhado praticamente tudo o que podia com sua protegida.
Embora Tamamo provavelmente ainda não tivesse absorvido completamente tudo o que aprendera, isso viria com o tempo.
Yuki já não precisava mais intervir para que Tamamo continuasse evoluindo sozinha.
A situação apresentava a oportunidade perfeita para tocar naquele assunto.
“Tamamo”, disse Yuki após encontrar um momento apropriado na conversa. “Já faz… quatro meses? Desde que aceitei você como protegida.”
“Isso mesmo.”
“Sinceramente, quando nos conhecemos, eu não esperava que isso durasse tanto.”
“Nem eu”, respondeu Tamamo timidamente. “Eu fiquei devastada quando você me deixou para trás naquela época…”
“…Desculpa por aquilo…”
Yuki realmente se sentia culpada pelo que fizera em Halloween Night.
“Bem, de qualquer forma, já faz quatro meses, e eu praticamente ensinei tudo o que podia. Não tenho mais nada para passar a você como mentora.”
Tamamo provavelmente percebeu algo sombrio naquelas palavras, pois sua expressão escureceu.
Mesmo assim, Yuki continuou.
“Eu te contei sobre como meu objetivo é concluir noventa e nove jogos, certo?”
“Sim, contou.”
“Esse objetivo foi herdado da minha mentora. Ela desistiu após o nonagésimo sexto jogo porque seu corpo já estava destruído demais para continuar jogando. Ela estava a apenas três jogos da linha de chegada, mas concluiu que não conseguiria prosseguir naquele estado.”
Ao longo da jornada de quase cem jogos, o corpo de uma jogadora inevitavelmente começava a se deteriorar.
Embora os organizadores não criassem jogos mais difíceis com o passar do tempo, as próprias jogadoras se tornavam mais fracas, e por isso enfrentavam dificuldades maiores.
Esse fenômeno surgia nos estágios finais da sequência de noventa e nove jogos.
Yuki sentia que já havia dado o primeiro passo naquela espiral descendente.
A perda de visão em seu olho direito era apenas o começo.
Seu estado certamente continuaria piorando.
Era por isso que precisava focar em contramedidas.
Ela não estava em posição de se preocupar com mais nada.
Gradualmente, uma justificativa lógica começou a tomar forma em sua mente.
“Ela estava a apenas três jogos de distância. Eu preciso ir além disso. Não basta apenas repetir o que aprendi com ela; logicamente falando, isso só me levaria até o jogo noventa e seis… Na verdade, provavelmente nem isso. Minha mentora e eu somos pessoas diferentes. Temos forças e fraquezas diferentes. Mesmo que eu fizesse tudo exatamente igual a ela, não chegaria aos noventa e nove. Preciso ultrapassar o que ela me ensinou e encontrar meu próprio estilo único — essa é minha conclusão.”
Que maneira conveniente de se esconder atrás de uma lógica falha.
Yuki ignorou a voz vinda das profundezas de seu coração.
“Tamamo, eu quero que você faça o mesmo.”
Yuki finalmente chegou ao ponto principal.
“Não vai te fazer bem se eu continuar te ensinando para sempre. Esta será a última vez que nos encontraremos assim. Estou encerrando nossa relação de mentora e protegida. A partir de agora, use suas próprias habilidades para encontrar seu caminho e sobreviver pelo máximo de tempo que conseguir.”
Yuki olhou para Tamamo.
A garota estava completamente atônita.
Embora a palavra “atônita” fosse frequentemente usada como exagero, naquela situação ela era perfeita — talvez perfeita demais.
Tamamo permaneceu imóvel como uma estátua ou um manequim.
Naturalmente, nenhum som saiu de seus lábios.
Ela permaneceu em absoluto silêncio.
Yuki também se calou, pois sentia que não havia mais nada a dizer.
Uma atmosfera sufocante envolveu o local, como se a própria cortina da noite tivesse ganhado forma física e se enrolado ao redor delas.
Foi Yuki quem rompeu o silêncio.
“Adeus.”
Deixando apenas aquela despedida silenciosa para trás, Yuki começou a se afastar.
Tamamo não respondeu.
Nem correu atrás dela.
Yuki não conseguia entender o que Tamamo estava pensando, mas escolheu acreditar convenientemente que a garota havia aceitado sua despedida.
Yuki refletiu sobre o que acabara de acontecer.
Talvez não tivesse sido a forma mais habilidosa ou amigável de encerrar aquilo, mas ainda assim ela havia conseguido.
Era uma decisão dolorosa, mas suas mãos estavam atadas.
Aquilo era o melhor para Tamamo e para ela mesma—
Era mesmo nisso que eu acreditava?
(08/48)
Após aquela despedida, Yuki nunca mais se encontrou com Tamamo.
Ao que tudo indicava, ela havia conseguido encerrar a relação entre mentora e protegida.
Embora uma parte de seu coração permanecesse nublado, Yuki concentrou todos os seus esforços em lidar com o problema de seu olho direito.
Ela se encontrou com Rinrin, praticou ecolocalização e passou a dedicar seu tempo apenas a si mesma.
Cerca de dois meses depois, durante seu sexagésimo segundo jogo, Yuki se arrependeria profundamente daquela decisão.
(09/48)
— Duas semanas depois de Yuki aceitar Tamamo como protegida, as duas tiveram a seguinte conversa.
“Certo, esta lição vai te preparar para jogos de escape”, disse Yuki para Tamamo.
As duas estavam em frente a uma casa.
Era uma residência perfeitamente comum — pelo menos na aparência.
Na realidade, porém, tratava-se de uma casa monstruosa que devoraria qualquer um que ousasse entrar.
Seu interior estava repleto de armadilhas.
Todas haviam sido feitas para treinamento e nenhuma era letal, mas armadilhas continuavam sendo armadilhas.
Yuki já havia dado uma olhada na casa anteriormente.
A residência havia sido preparada especialmente para elas pelo fornecedor — o homem que Yuki conheceu naquela ilha remota.
Não existia lugar melhor para treinar para jogos de escape.
“Você já participou de algum jogo de escape?”, perguntou Yuki.
“Não”, respondeu Tamamo. “Halloween Night foi o único jogo que participei até agora…”
“Nesse caso, vou explicar os princípios básicos.”
Yuki abriu a porta e entrou no hall de entrada, que levava a um corredor.
“Tamamo, consegue ver aquilo ali?”
Yuki apontou para um ponto mais adiante no corredor.
Tamamo olhou na direção indicada e estreitou os olhos, mas fez uma expressão que deixava claro que não entendia ao que Yuki estava se referindo.
“Existe uma fenda no chão”, explicou Yuki, revelando a resposta.
A alguns metros dali, havia uma abertura artificial que claramente não combinava com o piso.
Como as luzes do corredor estavam apagadas, apenas alguém com visão extremamente aguçada perceberia aquilo.
“Estou disposta a apostar que é uma armadilha.”
“Agora que você falou… realmente consigo ver”, disse Tamamo.
“Quando você estiver em um jogo de escape, o ideal é perceber armadilhas assim antes de acioná-las. Se souber onde estão escondidas, não será pega por elas. A melhor coisa que você pode fazer é evitar ativar armadilhas desde o começo.”
Yuki moveu o dedo e apontou para outro local, dessa vez perto da esquina no fim do corredor.
“Provavelmente também há uma armadilha ali.”
“……? Eu não vejo nada estranho.”
“Nem eu. Mas, pela experiência, lugares assim costumam esconder armadilhas. É fácil se distrair ao virar uma esquina. Se você se colocar no lugar da pessoa que preparou a armadilha, vai perceber que esse é um ponto perfeito para esconder uma.”
“Você imagina as coisas pela perspectiva de quem montou a armadilha?”
“Isso mesmo. É por isso que não é fácil prender jogadoras experientes em armadilhas, não importa o quão bem escondidas estejam. Intuição e olhar atento — essas são as duas ferramentas que as jogadoras usam para evitar armadilhas.”
Ela continuou:
“Claro, prestar atenção ao ambiente ao seu redor é importante, mas enquanto se move você também deve pensar em onde armadilhas provavelmente estariam e onde alguém escolheria colocá-las.”
“Entendido.”
“Agora… se você acabar acionando uma armadilha…”
Ainda usando os sapatos, Yuki entrou no corredor.
Depois de dar alguns passos, pisou deliberadamente sobre a fenda artificial no chão.
No instante seguinte, uma flecha voou em sua direção pela esquerda.
Antes que a ponta atingisse sua cabeça, Yuki agarrou o projétil no ar para se proteger.
“Impressionante”, comentou Tamamo.
“Obrigada”, respondeu Yuki.
“Se você ativar uma armadilha, o importante é perceber isso imediatamente. Sempre existem sinais indicando que ela foi acionada. Nesse caso, senti algo estranho quando pisei no chão e ouvi o som da flecha cortando o ar. Fique atenta a esses sinais — e não deixe nenhum passar.”
Yuki olhou para a flecha em sua mão.
Era uma flecha de brinquedo com uma ventosa na ponta.
Ser atingida por aquilo seria completamente seguro.
“Assim que perceber os sinais, você precisa agir para se proteger. Desta vez eu reagi pegando a flecha, mas jamais faria isso em um jogo real. Em vez disso, desviaria ou deixaria o golpe atingir uma parte não letal do corpo.”
Ela concluiu:
“O objetivo é conseguir fazer essas coisas por instinto.”
“Entendi.”
Assim que Yuki terminou sua explicação sobre o básico, o treinamento começou.
Ela encarregou Tamamo de encontrar e trazer de volta um celular que havia escondido dentro da casa.
Tamamo avançou pelo corredor e, quando chegou à metade do caminho—
“—?!”
Um som incoerente escapou de sua boca.
Uma substância em pó disparou do chão e explodiu sobre ela sem qualquer aviso.
Provavelmente aquilo simulava uma mina terrestre.
“…Desculpa, eu morri.”
Tamamo, agora completamente coberta de pó, virou-se para olhar para Yuki.
Yuki devolveu o olhar com um sorriso forçado.
Essas armadilhas são elaboradas demais.
(10/48)
Yuki acordou deitada sobre um sofá.
(11/48)
A primeira impressão de Yuki foi que aquele sofá parecia absurdamente caro.
Era largo o bastante para uma pessoa se deitar confortavelmente, acomodando até alguém alto como Yuki sem dificuldades.
O assento vermelho-vivo com moldura dourada transmitia uma sensação de celebração, lembrando a capa de um rei ou um cheongsam.
Ao olhar ao redor, Yuki percebeu que toda a sala seguia a mesma combinação de cores.
Do teto às paredes, do lustre aos quadros pendurados, das cadeiras à mesa e ao carpete — tudo compartilhava tons de vermelho e dourado.
Cada objeto parecia luxuoso ao extremo, a ponto de soar quase cafona.
Para Yuki, aquilo parecia um aposento dentro de um palácio.
“Finalmente acordou?”, chamou uma voz.
Sentada em outro sofá, diretamente do outro lado da mesa, estava uma garota de idade parecida com a dela.
Ela usava roupas nada comuns para o cotidiano.
Um enorme chapéu com aba larga o suficiente para ter o tamanho de três cabeças humanas, adornado por uma única pena lateral; uma capa repousando sobre os ombros; uma camisa exageradamente cheia de babados; e uma espada presa ao grosso cinto que mantinha sua saia no lugar.
Era uma roupa digna de um espadachim — algo que só se veria em filmes ou peças teatrais, certamente não na sociedade moderna.
E a garota não era a única vestida daquela forma.
Yuki também usava um traje semelhante.
“…Olá”, cumprimentou Yuki enquanto tocava a aba larga do chapéu. “Desculpa. Eu durmo pesado, então sempre acordo por último.”
Enquanto dizia sua frase habitual, Yuki observou as outras jogadoras.
Havia mais seis garotas na sala.
Cada uma fazia algo diferente — sentada em sofás, encostada na parede ou andando de um lado para outro.
Todas usavam roupas de espadachins europeus, embora com detalhes decorativos diferentes, e todas observavam Yuki atentamente.
Yuki analisou cada uma delas por vez.
Nenhuma parecia ser uma jogadora conhecida — pelo menos não que ela conseguisse reconhecer.
“Que tipo de jogo é esse?”, perguntou Yuki.
“Não faço ideia”, respondeu a garota que havia falado antes. “Mas acho que logo vamos ouvir uma explicação. Aquela coisa ali provavelmente está ali por um motivo…”
Yuki seguiu o olhar da garota até uma tela embutida na parede.
O objeto destoava completamente da atmosfera cuidadosamente construída daquele salão parecido com um palácio.
O fato de os organizadores terem deixado algo tão quebrador de imersão ali sugeria que aquilo era necessário para o andamento do jogo.
Havia grandes chances de ser usado para explicar as regras.
Assim que Yuki chegou a essa conclusão, a tela se acendeu.
Um fantoche que pareceria perfeitamente normal em um programa infantil surgiu na tela.
Ele possuía uma barba volumosa cobrindo metade inferior do rosto, uma capa nas mesmas cores da sala e uma coroa brilhante na cabeça, aparentemente adornada com todos os tipos de pedras preciosas do mundo.
Todas essas características lhe davam aparência de um rei.
“— Sejam todas bem-vindas”, cumprimentou o rei — o explicador do jogo — em um tom pomposo.
E assim, o sexagésimo segundo jogo de Yuki, Royal Palace (“Palácio Real”), começou silenciosamente.
(12/48)
As regras, conforme explicadas pelo rei, eram bastante simples.
O jogo era temático de duelos de espada.
Em intervalos regulares, jogadoras seriam chamados até uma arena para enfrentar outra jogadora em um duelo um contra um.
Quando o duelo terminasse, os sobreviventes retornariam para suas respectivas salas de espera até serem chamados novamente, repetindo o ciclo.
O número total de jogadoras era setenta.
Aparentemente, existiam outras nove equipes de sete pessoas, assim como a de Yuki, esperando em salas diferentes.
Cada rodada de duelos seria composta não por confrontos individuais, mas entre equipes.
Cada grupo escolheria um representante para lutar em cada rodada.
Quando chegasse a hora, a fechadura da sala de espera seria liberada, abrindo caminho até a arena.
As regras dos duelos em si não eram complexas.
Assim que ambas as lutadoras chegassem à arena, o rei daria o sinal de início.
As jogadoras podiam levar apenas uma espada para a arena, mas não existiam restrições sobre como lutariam.
O duelo terminaria quando uma das jogadoras se rendesse ou perdesse todos os sinais vitais.
Em outras palavras: morresse.
“Haverá dezoito rodadas”, explicou o rei. “O torneio seguirá um formato de turno duplo, resultando em um total de noventa duelos.”
Yuki tentou fazer as contas mentalmente.
Como existiam outras nove equipes, enfrentar cada uma duas vezes significava dezoito rodadas.
O número de combinações possíveis ao escolher duas equipes entre dez era calculado por dez vezes nove dividido por dois, resultando em quarenta e cinco.
Multiplicando isso por dois devido ao turno duplo, chegava-se a noventa duelos no total.
“Ao final das dezoito rodadas, as equipes serão classificadas de acordo com seu número de vitórias. As sete melhores equipes vencerão o jogo. Naturalmente, isso significa que as três equipes com menos vitórias perderão. Nós mesmos cuidaremos da execução das jogadoras restantes dessas equipes.”
Então é por isso que existe a opção de rendição, pensou Yuki.
Embora se render permitisse a uma jogadora salvar temporariamente sua vida, aquela derrota seria registrada para a equipe, afastando ainda mais a verdadeira salvação.
Game over para três de dez equipes significava uma taxa de mortalidade de 30% — a mesma da maioria dos jogos.
Na prática, porém, o número provavelmente seria maior.
Embora as regras permitissem levantar bandeira branca, certamente haveria jogadoras mortas durante os duelos.
Com isso, a explicação básica terminou, e o espaço foi aberto para perguntas.
Yuki e suas companheiras dispararam várias dúvidas ao rei.
“Quanto tempo haverá entre as rodadas?”, perguntou alguém.
“Não existem intervalos definidos. Uma nova partida começará assim que a anterior terminar. No entanto, não avançaremos para a próxima rodada até que todas as partidas da rodada atual terminem. Se seu duelo acabar rapidamente, você terá algum tempo para descansar.”
Outra garota perguntou:
“Como os empates serão decididos caso várias equipes terminem com o mesmo número de vitórias?”
“Os empates serão decididos pelo número total de rendições da equipe. Equipes que se renderem menos vezes durante o torneio ficarão acima no ranking. Caso isso não seja suficiente, as equipes empatadas disputarão um duelo de desempate, e a vencedora ficará com a posição superior.”
“Existe limite de vezes que um grupo pode se render?”, perguntou outra garota.
“Não. Porém, como rendições influenciam diretamente os desempates, seria prudente não tomar essa decisão levianamente.”
“E se uma equipe garantir vaga entre as melhores antes do fim do jogo?”, perguntou outra. “Tipo… não podem existir oito equipes terminando com doze ou mais vitórias. Doze vezes oito dá noventa e seis, o que ultrapassa o número total de duelos. Então qualquer equipe que alcance doze vitórias já está matematicamente salva. Elas saem automaticamente do jogo?”
“Precisamente. Equipes que garantirem sua classificação poderão deixar o jogo, e seus duelos restantes serão considerados rendições. Assim, equipes que forem pareadas com elas nas rodadas finais receberão vitórias automáticas.”
“As equipes precisam escolher alguém para lutar em cada duelo, certo?”, perguntou Yuki desta vez. “Como escolhemos quem vai?”
“Não existe método definido. Vocês podem decidir da forma que quiserem — voluntários, rotação ou sorteio. A mesma jogadora também pode lutar em duelos consecutivos.”
“E se ninguém quiser ir?”
“Nesse caso, escolheremos um jogador aleatoriamente. Se esse jogador se recusar, o duelo será tratado como rendição.”
“…Entendi.”
Quando todos ficaram sem perguntas, a tela se apagou.
As sete jogadoras fizeram rápidas apresentações, compartilhando nomes de jogadoras e quantidade de jogos concluídos.
“Então… como vamos fazer isso?”, perguntou Yuki após todas terminarem. “Existe uma coisa que precisamos decidir agora: quem vai primeiro?”
Aquela era a mecânica central do jogo.
Descobrir como decidir quem representaria a equipe em um duelo — e consequentemente enfrentaria o risco de morrer.
Yuki puxou a espada presa à cintura.
A lâmina não possuía fio, afinando apenas até uma ponta aguda.
Era uma rapieira — uma espada feita não para cortar, mas para perfurar.
“Alguém aqui confia nas próprias habilidades com espada?”, perguntou Yuki ao grupo.
Muitas pessoas no mundo sabiam manejar lâminas devido à popularidade de artes marciais como kendo ou esportes como esgrima.
Yuki imaginou que ao menos uma delas teria experiência parecida.
Mas, mesmo após alguns segundos, ninguém se ofereceu.
Será que realmente não tinham experiência… ou algumas estavam fingindo não ter para escapar da responsabilidade?
“…Pelo número de jogos que compartilhamos”, comentou alguém, “você é a mais experiente entre nós, Yuki.”
Ela assentiu.
Segundo as apresentações, Yuki possuía disparadamente a maior contagem de jogos do grupo.
Nenhuma das companheiras havia alcançado trinta jogos.
O que significava que nenhuma havia ultrapassado a Parede dos Trinta.
Yuki já suspeitava disso antes mesmo das apresentações.
Nenhuma delas transmitia aura de veterana, e não havia rostos conhecidos.
“Nesse caso, eu vou primeiro”, disse Yuki. “O resto de vocês pode conversar e decidir o que fazer nas próximas rodadas — seja deixar tudo comigo ou dividir a responsabilidade.”
Jogadoras que participavam dos duelos arriscavam a própria vida.
Embora existisse a opção de rendição, sempre havia a possibilidade de morrer antes mesmo de conseguir se render.
Continuar assumindo aquele risco colocaria alguém em posição desfavorável.
Por outro lado, pedir para jogadoras inexperientes dividirem esse peso também tinha desvantagens.
Pelas regras do jogo, jogadoras da mesma equipe compartilhavam o número de vitórias.
Isso significava que a estratégia ideal seria deixar as jogadoras fortes — nesse caso, Yuki — lutarem o máximo possível e acumularem vitórias.
Embora deixasse a decisão para as outras, Yuki esperava acabar lutando na maioria dos duelos.
Talvez até nos dezoito.
Yuki balançou a rapieira suavemente.
Imaginou um oponente invisível diante dela e, após cruzar espadas, perfurou o coração do inimigo imaginário.
“Você consegue lutar com uma rapieira?”, perguntou alguém.
“Sim”, respondeu Yuki. “Já usei praticamente todo tipo de arma. Essa é minha primeira vez usando uma dessas em um jogo, mas vou dar conta.”
(13/48)
— Um mês depois de Yuki aceitar Tamamo como protegida, as duas tiveram a seguinte conversa.
“Você deveria ao menos se familiarizar com todos os tipos de arma”, disse Yuki.
Elas estavam em um prédio abandonado.
Assim como a casa das armadilhas de antes, aquele lugar havia sido preparado pelo fornecedor.
O edifício ficava longe da civilização, então não havia risco de alguém ouvir tiros reais ou testemunhar mortes.
Yuki e Tamamo estavam sentadas frente a frente em um dos cômodos.
Entre elas havia diversas armas alinhadas, obtidas pelo fornecedor.
Algumas eram comuns em jogos, como pistolas e facas.
Outras apareciam apenas em tipos específicos de jogos, como katanas e rapieiras.
Também existiam armas mais raras, como nunchakus e kunais.
“Muitas armas não são fáceis de entender só de olhar, então vou te treinar até você conseguir ao menos manejá-las.”
Yuki olhou para duas armas diante dela — uma katana e uma butterfly knife.
Provavelmente eram as mesmas que ela e Rinrin haviam usado naquela ilha.
No estado atual, Tamamo sequer conseguiria desembainhá-las.
Embora butterfly knife fosse difícil de abrir, sacar uma katana também era surpreendentemente complicado.
Alguém sem conhecimento adequado sequer conseguiria pensar em atacar com elas, muito menos enfrentar uma oponente experiente.
A luta terminaria antes mesmo de começar.
“Depois que conseguir manuseá-las, o próximo passo será aprender a lutar de verdade com elas. Você pode usar o peso da arma para determinar rapidamente o alcance efetivo…”
Yuki pegou a rapieira.
No instante em que puxou a espada da bainha, disparou para frente.
Um passo.
Dois.
Três.
Ela mirou em uma cadeira caída no chão e perfurou-a com a ponta da lâmina.
Antes mesmo que percebesse, havia executado toda aquela sequência quase por puro instinto.
A rapieira atravessou a cadeira na distância perfeita.
Técnica assim levava anos de experiência para ser refinada.
Yuki se virou para Tamamo.
“Você vai praticar até conseguir extrair totalmente o potencial de qualquer arma em qualquer situação. Isso é tudo o que tenho para dizer sobre armas.”
“…Só isso?”, perguntou Tamamo surpresa.
“Achei que você fosse entrar mais em
detalhes sobre esgrima ou luta com bastão.”
“Algumas pessoas focam nessas áreas, mas esse não é meu estilo. Em vez de buscar maestria em uma única arma, eu treinei para conseguir usar adequadamente vários tipos diferentes em qualquer situação.”
Aquilo também era algo que Yuki havia aprendido com Hakushi muito tempo atrás:
Como existiam muitos tipos diferentes de jogos, e as armas encontradas mudavam toda vez, era melhor ser adaptável do que especializada.
Embora Yuki apenas estivesse repetindo a lição de sua própria mentora, concordava completamente com aquela lógica.
Para começar o treinamento, Yuki decidiu fazer Tamamo experimentar a butterfly knife.
Era a arma perfeita para iniciantes praticarem, já que parecia estilosa e dava enorme sensação de realização quando usada habilmente.
Após uma breve explicação, Yuki entregou a Tamamo uma versão de treino sem lâmina.
Pouco tempo depois—
“……!!”
O cabo da arma girou com força e acertou os dedos de Tamamo, fazendo a garota se contorcer de dor.
A mesma coisa já havia acontecido com Yuki.
Aquilo devia doer bastante.
(14/48)
Shiro acordou deitada sobre um sofá.
(15/48)
“Ngah…”
Emitindo um som que ficava entre um gemido e um bocejo, Shiro se sentou.
Ela se encontrava em uma sala luxuosa.
Tudo naquele lugar transmitia elegância: o sofá onde estava deitada, os móveis espalhados pelo ambiente, o papel de parede, o carpete e até mesmo o próprio ar.
Após respirar algumas vezes, Shiro sentiu vitalidade brotar dentro de si.
Esse era exatamente o tipo de lugar que combinava com ela.
Jogos com aquele tipo de valor estético a animavam muito mais do que locais deprimentes como plantações de abóboras ou hospitais abandonados.
“Oh, você acordou.”
Shiro ouviu uma voz, mas não deu atenção e se levantou do sofá.
Ela caminhou até um espelho de corpo inteiro próximo dali.
A primeira coisa que notou foi sua roupa de espadachim.
Depois, aproximou lentamente o rosto do espelho e observou o próprio reflexo.
“Ei, hum…”
Shiro ouviu uma voz, mas continuou ignorando-a enquanto encarava o espelho.
Um rosto perfeito, mesmo refletido, pensou ela, elogiando a si mesma.
Embora não considerasse seu rosto exatamente belo, ele emanava uma aura de poder.
Era o rosto de uma mulher digna de governar aquele mundo.
Ela acariciou suavemente o cabelo preto e branco — pintado daquela forma para combinar com seu nome de jogadora, que continha o caractere de “lobo” — e arrumou levemente os fios.
Então tocou o rabo de cavalo estilizado como uma cauda de lobo para confirmar que estava bem preso.
Maravilhoso. Estou tão impecável quanto sempre hoje.
“…Ei! Você está me ouvindo?!”
A voz aumentou até virar um grito.
Shiro finalmente se virou.
Havia seis garotas ali, todas usando roupas de espadachim semelhantes à dela.
Uma delas estava ligeiramente à frente das outras; provavelmente era quem vinha tentando chamar sua atenção.
“Olá”, cumprimentou Shiro casualmente.
“É só isso que você tem a dizer?”, reclamou a garota da frente. “Estou tentando falar com você faz séculos…”
Sim, definitivamente era ela quem vinha chamando.
“Séculos? Você não me chamou apenas duas vezes?”, respondeu Shiro.
“Foram cinco vezes. Então você nem ouviu metade…”
Foi tudo isso? pensou Shiro.
Aquilo realmente havia passado completamente despercebido.
Ela tinha o péssimo hábito de filtrar as vozes das outras pessoas quando estava concentrada em alguma coisa.
“Que falta de educação da minha parte.”
Shiro retirou o chapéu e fez uma reverência.
“Perdoe-me. Foi inadequado tratar assim alguém ao lado de quem em breve lutarei.”
“…Por que acha que vamos lutar juntas?”
“Oh, não é o caso?” respondeu Shiro. “Apenas presumi que fosse assim. Então quais são as regras?”
“Na verdade… ainda não sabemos.”
No instante seguinte, a tela da sala se acendeu.
(16/48)
O rei explicou graciosamente as regras do jogo.
A competição era baseada em duelos entre espadachins.
As jogadoras seriam chamados até a arena para cruzar espadas com um oponente.
O duelo terminaria quando um dos lutadores morresse ou se rendesse.
As sete jogadoras daquela sala participariam de dezoito partidas no total e, ao fim do torneio, as sete equipes com melhor desempenho concluiriam o jogo.
Devido à natureza dos duelos, os confrontos seriam um contra um.
Porém, as sete integrantes da equipe precisavam dividir entre si a responsabilidade de lutar.
No fim das contas, seus destinos estavam conectados.
Após a tela escurecer, as jogadoras naturalmente começaram a discutir quem teria a honra de participar do primeiro duelo.
“São dezoito rodadas no total”, comentou uma garota com aparência de caipira, sardas e trança francesa. “Se a gente se revezar, cada uma luta duas ou três vezes, certo?”
“Sim, mas… esse é realmente o melhor jeito?”, respondeu uma garota de postura curvada. “Não importa quem vá desde que consiga vencer. Acho mais inteligente mandar a pessoa mais forte e deixar ela decidir se luta ou se rende. Alguém aqui confia nas próprias habilidades com espada?”
“Se perguntar assim, ninguém vai levantar a mão”, respondeu outra jogadora com um sotaque carregado.
“E se todas nós lutarmos uma vez primeiro?”, sugeriu uma menina que parecia estar no ensino fundamental. “Depois podemos tirar as perdedoras da próxima rotação…”
“Se fizer isso, todo mundo vai tentar perder de propósito”, rebateu uma garota em idade universitária. “É uma péssima ideia adotar um sistema que incentive rendições.”
“…………”
Uma garota de cabelos longos cobrindo quase todo o rosto apenas observava silenciosamente enquanto as outras continuavam discutindo.
Depois de analisar cuidadosamente cada uma de suas seis companheiras, Shiro concluiu que todas eram casos perdidos.
As auras delas eram completamente sem graça.
Nenhuma parecia afiada.
Eram do tipo de jogadora que morreria cedo ou tarde.
“O que você acha?”, alguém perguntou a Shiro.
“Bem…”
Shiro cruzou as pernas sobre o sofá antes de responder.
“Se ninguém deseja ir, que tal me concederem essa honra?”
“…Você está confiante nas suas habilidades?”
“Nem um pouco. Mas, pelo que estou ouvindo, ninguém aqui está, certo?”
Usando o impulso das molas do sofá, Shiro saltou de pé e puxou sua espada.
“Nesse caso, prefiro controlar o destino do jogo com minhas próprias mãos em vez de ficar à mercê dos outros.”
Ela continuou:
“Também existe a possibilidade de vitórias em duelos aumentarem o prêmio individual.”
Ainda não estava claro como o valor do prêmio era determinado após concluir um jogo.
Porém, baseado em suas experiências e nos boatos entre jogadoras, Shiro suspeitava que o valor estivesse diretamente relacionado ao quanto um jogador chamava atenção ao tornar o jogo mais emocionante.
“Não podemos confiar essa responsabilidade a você”, disse alguém.
Shiro virou-se na direção da voz.
Era a garota de cabelos longos.
“Eu já vi você antes.”
“Ah, é mesmo?”, respondeu Shiro. “Infelizmente não me lembro de você. Já nos encontramos em algum lugar?”
“Eu vi você sendo esmagada por outro jogador. Não podemos contar com você.”
“Não faço ideia de quando isso aconteceu, mas desde então eu evoluí como jogadora.”
Shiro apontou a ponta da rapieira para a garota.
“Você sabe que pessoas são capazes de crescer, não sabe? Ou talvez…”
Ela sorriu levemente.
“…se não acredita em mim, que tal termos um pequeno duelo aqui mesmo?”
“…………”
A garota de cabelos longos levou a mão até a espada, como se fosse desembainhá-la, mas então—
“Faça como quiser”, disse ela enquanto balançava a cabeça.
Shiro apenas deu de ombros.
Ela realmente não é afiada, pensou.
(17/48)
Yuki seguiu em direção à arena.
(18/48)
Algum tempo depois, a tela voltou a se acender para exibir os confrontos.
As dez equipes estavam divididas em duas colunas, separadas pelas letras VS.
Os times iam do Time 1 ao Time 10, mas um dos nomes aparecia em uma cor ligeiramente diferente, indicando que o grupo de Yuki era o Time 5.
Naquela rodada, o adversário delas seria o Time 6.
Ao lado do nome de cada equipe havia sete símbolos em formato de pessoa, além de uma sequência de caracteres indicando 0W/0L.
Parecia que a tela seria atualizada constantemente com o número de jogadores vivos e o histórico de vitórias e derrotas de cada equipe.
No mesmo instante em que a tela se acendeu, ouviu-se o clique da fechadura sendo destravada.
A única porta trancada da sala havia se aberto.
Yuki espiou através dela e viu um único corredor reto se estendendo adiante.
Assim que saiu da sala, a porta se fechou automaticamente atrás dela e não se moveu mais.
Não havia retorno até que seu duelo chegasse a algum tipo de conclusão.
Depois de seguir pelo corredor, Yuki chegou a uma encruzilhada.
Apenas uma das várias portas diante dela estava aberta, então foi por aquela que ela entrou.
No instante seguinte, encontrou-se em uma arena circular.
O espaço era relativamente grande — grande o suficiente para que alguém em uma extremidade mal conseguisse mirar uma arma em alguém do lado oposto, ao menos pela impressão de Yuki.
Diversos refletores brilhavam do teto.
A arena era cercada por uma alta grade metálica e, além dela, havia arquibancadas em vários níveis para espectadores.
Embora não houvesse público presente, cada assento possuía uma câmera de vigilância.
As lentes estavam apontadas para Yuki, causando nela a desagradável sensação de estar sendo observada.
Acima da fileira mais alta de assentos havia uma enorme tela dividida em cinco partes iguais, cada uma exibindo uma arena diferente.
Provavelmente as mesmas imagens também estavam sendo transmitidas para as telas das salas de espera.
Parecia que os duelos seriam exibidos ao vivo.
Quando Yuki chegou à arena, sua oponente já estava lá dentro.
Assim como Yuki, ela era uma garota de aparência jovem usando um traje de espadachim.
Era a primeira vez que se encontravam — ao menos até onde Yuki conseguia lembrar.
Pela aura da garota, Yuki estimou que ela tivesse cerca de dez jogos concluídos.
Era alguém acostumada aos jogos, mas que ainda não havia alcançado o nível das jogadoras de elite.
A garota desembainhou sua rapieira.
Yuki fez o mesmo.
Segundo as regras, o duelo começaria apenas após o sinal do rei, então ambas ficaram em posição de combate sem cruzar espadas.
Cada célula do corpo de Yuki — da mão segurando a rapieira, passando pelos braços, ombros, cabeça, tronco e pernas — se preparou para o início da batalha.
Apesar de seu corpo estar pronto para lutar, mentalmente ela estava nervosa.
Ela não confiava em sua habilidade com espadas.
Embora tivesse assumido a liderança da equipe por acreditar ser mais forte que a maioria das jogadoras comuns, diferente de jogos anteriores, ela já não conseguia mais se considerar invencível.
Yuki piscou deliberadamente.
Ela olhou para frente.
Conseguia ver seu braço.
Sua espada.
Sua oponente.
Porém, não conseguia calcular corretamente a distância entre ela e a outra jogadora.
Porque havia perdido completamente a visão de um dos olhos.
(19/48)
A condição de Yuki finalmente havia chegado ao limite.
O exame médico feito após concluir seu sexagésimo primeiro jogo revelou perda total da visão em seu olho lesionado.
Seu olho direito já não conseguia mais detectar luz.
Embora antes ela mal enxergasse com ele, havia uma enorme diferença entre estar “quase cega” e estar “completamente cega”.
Perder metade do campo de visão destruiu sua percepção de profundidade.
Naquele momento, Yuki até sentia saudades dos dias em que ainda conseguia enxergar sombras borradas com o olho direito.
Ultimamente, ela vinha evitando ao máximo confrontos diretos.
Mas isso não seria possível naquele jogo.
As regras não ofereciam outro caminho para sobreviver além de vencer duelos e, mesmo levando em consideração sua deficiência, as chances de vitória da equipe ainda eram maiores com Yuki lutando.
Ela precisava conseguir.
Yuki encostou a língua no céu da boca—
Mas parou.
Sua oponente provavelmente ainda não havia percebido que ela não conseguia enxergar direito.
Se usasse aquela técnica, basicamente estaria revelando sua condição.
Dessa vez, precisava lutar normalmente.
De repente, o rei apareceu na tela.
“Lutadoras, preparem-se.”
Yuki e sua oponente ajustaram suas posturas.
Yuki desviou o olhar da tela e focou totalmente na adversária.
Sua consciência tornou-se mais afiada que a ponta de sua rapieira…
“—Comecem!”
No exato segundo em que ouviu o sinal do rei, Yuki avançou contra a oponente em velocidade máxima.
Ela já havia decidido sua estratégia antecipadamente.
Dar o primeiro passo.
Atacar imediatamente.
Assumir uma postura agressiva.
Aquela era sua melhor opção.
Ela não podia demonstrar que sua visão estava comprometida.
Mesmo que fosse apenas atuação, precisava agir com ousadia para convencer a outra jogadora — como se enxergasse perfeitamente, como se não tivesse nenhuma fraqueza.
Yuki se aproximou até que as espadas pudessem se tocar.
Nesse momento, ela parou de avançar.
Para esconder sua cegueira parcial, era essencial terminar o duelo o mais rápido possível, especialmente porque tudo estava sendo transmitido ao vivo.
Ainda assim, naquele primeiro duelo, decidiu prolongar um pouco a luta.
Apesar da postura ofensiva, não iria exagerar.
Ela queria confirmar o quanto ainda era capaz de fazer enquanto o jogo ainda estava em seus estágios iniciais.
Yuki cruzou espadas com sua oponente.
O som metálico ecoou pela arena vazia.
Como qualquer pessoa faria em um combate de espadas, Yuki observava atentamente todos os detalhes da adversária — a espada, os movimentos do braço, os passos, a respiração e a aura.
Porém, Yuki acrescentava algo próprio a esse processo.
Era difícil colocar em palavras, pois fazia aquilo instintivamente, mas em vez de apenas aceitar as informações visuais transmitidas por seu olho, ela extraía e processava o significado daquelas informações.
Por exemplo:
Se a oponente dava um passo à frente, o cérebro de Yuki interpretava aquilo como “ela está se aproximando”.
Se a própria Yuki avançava, interpretava como “estou me aproximando da oponente”.
E se ela “se aproximasse” várias vezes sem sentir que estava “perto”, aquilo indicaria um problema.
Se não fizesse esse tipo de compensação mental, provavelmente surgiriam discrepâncias entre a distância real e a distância que ela acreditava existir entre ela e a adversária.
Dessa forma, Yuki compensava constantemente as falhas causadas por sua visão.
Após cerca de trinta ou quarenta segundos daquele confronto, a outra duelista começou a agir de forma mais agressiva.
A intuição de Yuki lhe disse que a garota avançaria.
E, de fato, a outra jogadora deu um passo à frente.
Yuki recuou em resposta e, ao mesmo tempo, armou uma pequena armadilha:
Ela manteve a mão esquerda — a que segurava a espada — exatamente na mesma posição, segurando a rapieira como se ela estivesse fixa no ar.
A ponta da lâmina ficou precisamente no ponto por onde o braço da oponente passaria no instante seguinte.
A adversária lançou uma estocada com todo o corpo, mirando o peito de Yuki.
O ataque não acertou.
Yuki aproveitou o impulso da garota para cortar seu braço.
“Guh…”, gemeu a oponente.
A mão do braço ferido tremeu e ela soltou a rapieira.
Antes que a arma tocasse o chão, Yuki a chutou para longe.
Ouvindo a espada deslizar à distância, ela ergueu levemente sua própria rapieira e apontou a ponta — agora coberta por fibras brancas formadas pelo sangue devido ao Tratamento de Preservação — para o pescoço da adversária.
Yuki deu mais um passo à frente para demonstrar superioridade.
“…Eu…”, disse a garota, erguendo ambas as mãos, “eu admito a derrota.”
As imagens na tela mudaram para outra cena.
“Chega”, declarou o rei.
(20/48)
— Um mês e meio depois de Yuki ter aceitado Tamamo como sua protegida, as duas tiveram a seguinte conversa.
“Uau!” exclamou Tamamo ao cair sentada no chão.
Yuki observava a cena por trás de uma espada falsa.
As duas estavam em um duelo de treino, enfrentando-se com lâminas de mentira. No fim, Yuki saiu vitoriosa após realizar uma única investida que aproveitou uma abertura nos ataques consecutivos de Tamamo, fazendo a garota cair para trás.
Yuki estendeu a mão para sua protegida.
“Obrigada…” Tamamo se levantou. “…Não acredito que ainda não consigo te vencer, mesmo com um dos seus olhos coberto…” Decepção e frustração eram visíveis em seu rosto.
Yuki estava usando um tapa-olho no olho direito. Embora ela ainda não estivesse completamente cega, ela estava se treinando em antecipação à perda total da visão. Mesmo dando essa desvantagem a Tamamo, a garota não havia conseguido sequer uma vitória contra Yuki — não apenas nesse duelo, mas em todas as lutas que tiveram.
“Bem, já estamos vivendo sob o mesmo teto há um tempo,” disse Yuki. “Eu consigo mais ou menos prever qual será o seu próximo movimento. Não se culpe por não conseguir me vencer.”
“Isso não deveria valer ao contrário também? E ainda assim, aqui estamos de novo…”
Yuki já havia ensinado a Tamamo toda a gama de técnicas de combate, mas a garota ainda era bastante fraca. Claro, Yuki podia não ser a melhor professora, mas também era provável que houvesse uma falha na forma como Tamamo abordava a luta.
“Eu não acho que você seja feita para atacar”, disse Yuki. “Tente lutar de forma mais defensiva. Como acabei de demonstrar, você perde muitas das nossas lutas por ser contra-atacada.”
Na visão de Yuki, a maior força de Tamamo era sua persistência. Em um jogo passado, Halloween Night, a garota havia corrido pelo local para escapar de jogadoras violentas, ofegantes e sem fôlego. Além disso, ela conseguiu encontrar Yuki sem nenhuma pista e ainda possuía mais resistência que ela. Era alguém feita para defesa, mas, por outro lado, não era habilidosa no ataque. Não só não era intimidadora, como sua aura simplesmente transmitia fofura. Tomar a iniciativa nunca funcionaria para ela.
“Em vez de atacar, você deveria focar em manter uma defesa sólida. Tipo, provocar sua oponente e atacar quando surgir uma abertura. Acho que esse tipo de tática combina mais com você.”
“Mas, Yuki, seu estilo é baseado em atacar ativamente, certo?”
“É, eu acho.”
Só porque esse era o estilo de Yuki não significava que era a melhor estratégia para Tamamo. Yuki simplesmente lutava assim porque combinava com ela; estratégias diferentes eram ideais para pessoas diferentes. Na verdade, jogadoras voltadas para defesa tinham até mais chances de estar no topo. Já que o objetivo era sobreviver, era mais valioso ser bom em fugir e se proteger.
Espera, por que ela me trouxe à tona de repente? pensou Yuki. Após refletir um pouco, lembrou-se de algo que Tamamo havia dito há muito tempo.
“Eu quero ser como você…”
“Você quer lutar do mesmo jeito que eu?” perguntou Yuki diretamente.
“O quê—? Não, eu, hum…” Tamamo gaguejou.
Bingo.
Hmm…, pensou Yuki.
(21/48)
“Chega,” disse o rei.
Shiro parou sua investida com o florete.
Ela olhou para sua oponente. Uma expressão de pânico. Vários cortes no rosto e nas roupas. Suas mãos estavam vazias, sem a espada, que ela havia deixado cair após Shiro perfurar seu ombro.
O primeiro duelo de Shiro — a primeira partida da Equipe 8 — foi, francamente, unilateral. Sua oponente claramente estava aterrorizada e nem sequer empunhava a arma corretamente. Muito provavelmente, a garota havia entrado na arena não por vontade própria, mas por ter perdido em pedra-papel-tesoura ou algo do tipo. Ao perceber o estado da adversária, Shiro atacou de forma brutal desde o início.
Ela a perfurou repetidamente, sem dar sequer um momento para que recuperasse o fôlego, e após cravar o florete profundamente em seu ombro — impedindo-a de segurar a espada — sua oponente se rendeu. O duelo durou menos de um minuto.
“Uma decisão sábia”, disse Shiro, guardando sua arma.
Em seguida, ela se virou para as câmeras ao redor da arena e fez uma reverência respeitosa. Depois, repetiu o gesto para o outro lado da arena. Após saudar o público, Shiro retornou pelo caminho de onde veio e logo chegou à sala de espera.
“Retornei,” anunciou para suas seis companheiras de equipe. “O que acharam? Estavam assistindo minha exibição com a espada?”
Enquanto se jogava em um sofá, uma garota respondeu: “Sim. Você é realmente forte, Shiro.”
“De fato, eu sou.”
Esse era o vigésimo primeiro jogo de Shiro. Embora ainda não tivesse alcançado o Muro dos Trinta, ela já era uma jogadora experiente. Sentia que suas habilidades haviam crescido com o tempo. Nos primeiros dias, outras jogadoras a derrotavam facilmente — como aquela garota de cabelos longos havia dito — mas recentemente isso acontecia cada vez menos. Sem dúvida, ela havia ficado mais forte.
Shiro olhou para a garota de cabelos longos, que encarava a tela sem sequer retribuir o olhar.
“Ei,” chamou Shiro. “Convenci você das minhas habilidades?”
“…………” Após uma breve pausa, a garota respondeu friamente: “Acho que sim.”
Evidentemente, ela não gostava de admitir seus erros. Nada inteligente da sua parte, pensou Shiro, antes de voltar a atenção para a tela.
As imagens de duelos ainda em andamento continuavam sendo transmitidas, e a tabela de partidas havia sido movida para o canto da tela. Abaixo do nome da Equipe 8, aparecia a sequência: 1V/0D.
(22/48)
Todos os duelos da primeira rodada haviam terminado.
Comentários do capítulo 10.1
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