Noiva do Mestre de Barreiras — Capítulo 3: Volume 1 – Capítulo 2

Noiva do Mestre de Barreiras
Cap. 3
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Noiva do Mestre de Barreiras

Volume 1 – Capítulo 2

Capítulo 3

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Capítulo 2

Alguns anos se passaram desde o despertar dos poderes latentes de Hana.

Num piscar de olhos, ela já estava com dezoito anos e era uma estudante do terceiro ano do ensino médio.

Ela tem escondido seus poderes completamente desde seu aniversário de quinze anos. Nem mesmo Hazuki, sua irmã gêmea, percebeu alguma mudança.

Bem, considerando o quão raramente as duas se encontravam, talvez isso fosse natural.

As verdadeiras testemunhas da diligência de Hana, foram Sae e os outros criados, que nunca suspeitaram de nada, mesmo que, frequentemente, a visitassem quando tinham um tempo livre.

Todos os empregados pela família Ichise possuíam alguma competência como praticantes, mesmo que fosse apenas o mínimo necessário.

Pessoas com poderes tão limitados, que não eram capazes de utilizá-los em combate, geralmente trabalhavam nas propriedades dos praticantes como suporte. Considerando que a existência dos pilares era uma informação altamente confidencial, os clãs não poderiam empregar pessoas comuns. Como resultado, até mesmo os empregados tinham a habilidade de sentir a energia que os praticantes manipulavam para criar barreiras.

Mesmo assim, Hana conseguiu manter seu segredo de Sae e dos outros empregados até o momento.

Em particular, ela sentiu-se culpada por esconder seus poderes de Sae. Toda vez que via seus pais, por mais raros que fossem os encontros, eles a criticavam.

A cuidadora observava essas trocas com uma expressão de raiva misturada com tristeza. Doía em Hana, vê-la sofrer por sua causa, contudo, ela não podia contar a verdade. Não era possível dizer de onde aquele segredo pudesse escapar.

Além do mais, mesmo que ela não tivesse ganho seus poderes, ela já havia parado de se importar com o que seus pais lhe diziam.

Graças a Sae, ela havia cortado esses laços há muito tempo.

As palavras espinhosas que lhe eram dirigidas a cada ocasião que se encontravam, eram recebidas por uma parede de pura indiferença.

No entanto, ela fez questão de fingir que estava prestando atenção nos sermões de seus pais. Eles apenas diriam o que tinham para dizer e íam embora satisfeitos.

Nesses últimos anos, ela se tornou uma atriz e tanto, se é que pudesse dizer isso por si mesma.

Talvez no futuro, ela seguiria carreira de atuação. Pelo menos, essa era a piada interna que havia feito com Azuha. Por enquanto, esse era o segredinho delas.

Hana frequentava uma escola técnica chamada Colégio Obsidiana, cujo era dedicada a preparar a próxima geração de praticantes.

Ela estaria feliz em ir para uma escola de ensino médio normal, mas como todos na família Ichise haviam estudado no Colégio Obsidiana, ela foi praticamente forçada a ingressar.

Todos à sua volta pensavam que ela não não chegava nem aos pés de Hazuki, mas ainda tinha talento o suficiente para invocar um shikigami. Portanto, seria impensável para ela escolher qualquer outro caminho.

A escola, ranqueava seus alunos por seus níveis de força e talento como praticantes, e suas turmas também eram divididas com base nesses ranques. A de Classe A era a nata da nata. A Classe B reunia os alunos medianos. Já a Classe C eram os mais fracos do corpo estudantil.

Como Hana estava interpretando o papel de fracassada esse tempo todo, ela havia sido mandada para a Classe C desde o primeiro ano. A divisão das turmas ocorreu durante a cerimônia de abertura.

Dentre os inúmeros alunos desanimados que foram enviados para a Classe C, Hana foi a única que comemorava sua colocação, fazendo internamente uma pose de vitória. Se não fosse pelas pessoas presentes, Hana teria soltado um grito de triunfo.

Assim que seus pais viram sua atribuição de turma, eles deixaram a cerimônia imediatamente. Eles haviam perdido todas as esperanças nela. Suas expectativas eram minúsculas.

Para ser justo, eles vieram verificar os resultados pessoalmente, então talvez eles ainda tinham um pingo de esperança nela. Claro, Hana era fraca se comparada com Hazuki, mas talvez existisse uma chance que ela fosse forte quando comparada ao resto dos colegas da mesma idade.

Mas quando descobriram que Hana não se destacava nem em relação ao resto da turma, não só de Hazuki, essa pequena fagulha de esperança que mantinham fracassou e se extinguiu.

Ela ficou satisfeita por seus pais terem desistido dela.

Hana meticulosamente suprimiu sua força durante o teste, justamente para evitar o interesse dos seus pais, então sua atribuição de classe foi de acordo com que planejou.

Teria lhe causado repulsa ver seus pais mudarem de atitude, depois de todo esse tempo e começarem a bajulá-la.

Hana não precisava nem que ela e Hazuki fossem tratadas como iguais. Se ao menos tivessem dado a ela um pingo de afeição e atenção, teria alegremente contado a eles sobre seus poderes despertados e trabalhado duro pelo bem da família.

Mas agora, Hana sentia-se mais acolhida por estranhos do que aqueles que compartilhavam o mesmo sangue.

Seus pais ainda não tinham percebido o peixe grande que deixaram escapar por entre os dedos devido à própria arrogância.

Ela esperava que eles nunca percebessem. Sua vida como a pior estudante, era extremamente despreocupada, contudo tinha uma exceção.

Mesmo como calouros, os alunos da Classe A precisavam fazer aulas práticas: atividades de campo que envolviam selamento ou destruição das sombras que visavam os pilares. No início, claro, eles atuavam apenas como suporte para os profissionais, mas no segundo e terceiro ano, as práticas se tornaram cada vez mais como batalhas de verdade. Até mesmo os alunos do terceiro ano da Classe B precisavam participar dessas práticas.

Por outro lado, ninguém da Classe C, a turma de Hana, tinha poder suficiente para ser útil em combate, então eles poderiam focar nos estudos teóricos do ambiente seguro da sala de aula.

Eles conseguiam ficar bem longe do perigo, e mesmo quando eram enviados a campo, apenas prestavam ajuda da retaguarda.

O suporte da retaguarda, era um papel valioso da sua própria forma.

Aqueles que poderiam lutar iriam lutar. Os que não conseguiam participar, ajudavam a vanguarda por trás das linhas de combate e lidavam com a limpeza posterior.

A função em si não era de se jogar fora, mas no ambiente escolar, onde todos eram estritamente divididos por ranques, o desprezo das Classes A e B pela Classe C era inevitável.

Os outros estudantes ridicularizavam em específico Hana, já que ela era irmã de uma estudante sem igual. No caminho para casa, sempre escutava sussurros e risadinhas pelas suas costas. Ela havia se acostumado com isso, mas ainda era irritante.

Se não fosse por esse incômodo, ela poderia ter aproveitado sua vida escolar ao máximo.

Em todo caso, o preço a se pagar por esconder seus poderes, era aguentar o desprezo de todos, e ela fazia isso por vontade própria, então não tinha motivos para reclamar.

Em um dia letivo específico, ela estava na sua sala com sua amiga, Suzu Mitsui, quando Suzu disse — “Olha, Hana, é a sua irmã!”

A garota tinha cabelos castanho-claros cortados em um estilo bob. Ela era uma menina gentil que irradiava calor humano e bondade. Ela não tratava Hana como a irmã mais nova de Hazuki, mas a via por quem realmente era. Ela era a amiga mais querida de Hana.

Pousado no ombro de Suzu estava seu shikigami, que tomava a forma de um esquilo. Era um dos tipos mais fracos de shikigami, mas era a combinação perfeita para a garota, que era adorável como um pequeno roedor.

Quando as pessoas conheciam Hana, geralmente ficavam fascinadas por ela à primeira vista, já que possuía o mesmo rosto de Hazuki. Olhariam para ela como se fosse uma criatura rara. Contudo, inevitavelmente, a comparavam com Hazuki e considerariam-na inferior. Então, o interesse delas se tornaria pena ou julgamento.

Mas não Suzu. Ela sempre fora direta.

Hana era a irmã mais nova de Hazuki? E daí? Esse era o posicionamento de Suzu.

Hana olhava pela janela, avistando Hazuki, que estava cercada por um círculo de seus colegas de classe.

“Sua irmã continua popular como sempre, né?” — Murmurou Suzu com admiração.

Hazuki estava sorrindo para seu público. Seu sorriso radiante cativava as pessoas. Contudo, Hana sabia muito bem que aquilo tudo era só fingimento, e ela tinha sentimentos mistos ao observar a irmã.

“Isso ela é…” — respondeu Hana.

No passado, ela havia tentado, com cuidado, dar a Hazuki suas opiniões e conselhos sinceros.

Estava realmente tudo bem para a irmã continuar seguindo os desejos dos pais delas? Hana havia perguntado.

Mas Hazuki havia rejeitado ela, e preferiu continuar em seu papel de filha predileta. Mesmo agora, desempenhava o papel da estudante nota dez que todos queriam que ela fosse.

Não importa o que o destino tivesse reservado para Hana, não havia a menor chance dela se tornar uma aluna exemplar como Hazuki.

Por isso, ao observar a demonstração de carisma da irmã, Hana só pensava em uma coisa. — “São os ossos do ofício” — murmurou ela.

Hana havia genuinamente tentado ajudar Hazuki, mas precisava admitir que devia a sua liberdade atual longe dos olhares atentos dos pais aos esforços de Hazuki. Era uma benção para ela que seus pais focassem toda atenção em sua irmã, pois isso a facilitou em sua missão de manter seus poderes em segredo.

“A propósito, Hana, o que você colocou na sua opção de carreira na pesquisa de orientação?” — perguntou Suzu de repente, abandonando completamente o assunto de Hazuki.

“O que você escreveu, Suzu?” — Hana perguntou de volta.

“Ah-ha-ha, bem, sabe como é, eu quero me juntar ao esquadrão de praticantes da retaguarda” — respondeu a garota.

Quase metade dos formandos do Colégio Obsidiana que vinham de famílias de praticantes, se juntavam à Associação dos Praticantes para trabalhar na área. A Associação havia sido criada pelos cinco clãs que supervisionavam a proteção dos pilares.

No entanto, os membros não eram todos iguais. Assim como no Colégio Obsidiana, a Associação dividia seus membros em ranques baseados em seus níveis de habilidade. As responsabilidades de um praticante eram diferentes, dependendo de seu ranque.

Os de alto escalão, formavam o núcleo da ofensiva contra as sombras. Era um trabalho perigoso, mas pagava bem.

A retaguarda que Suzu estava almejando era a principal responsável pelo suporte e pela limpeza. Era um serviço relativamente seguro.

Suzu estava na Classe C assim como Hana. Ela sabia muito bem que lutar nas linhas de frente estava muito além de suas capacidades.

Havia pouca dúvida de que ela poderia entrar para o esquadrão, pois ela também, pertencia a um dos cinco grandes clãs. Seu sobrenome continha o kanji para “três”, e sua família era uma ramificação do clã Sankourou.

Na realidade, a retaguarda provavelmente a receberia de braços abertos. A vanguarda onde estavam os heróis de batalha estava sempre no centro das atenções. A retaguarda era relativamente discreta, e sempre estava em falta de pessoal.

“E você, Hana?” — Perguntou Suzu.

“Eu quero trabalhar numa empresa subsidiária do grupo Ichinomiya e viver uma vida que não tenha nada a ver com praticantes.” — Declarou Hana.

Os Ichinomiyas e os outros quatro clãs protegiam o Japão a partir das sombras, mas eles também possuíam muita influência na esfera pública, a ponto de no passado serem conhecidos como os cinco titãs financeiros. Embora o auge deles já havia passado, não seria exagero dizer que eles ainda detinham firmemente as rédeas da economia.

Era dito que a vontade dos antigos titãs era refletida até na política, não que uma existência humilde como Hana soubesse muito sobre isso.

Como filha de uma ramificação de um dos cinco clãs, o desejo número um dela era se juntar a uma companhia sob o guarda-chuva do clã Ichinomiya. Ela não tinha quaisquer intenções de se tornar uma praticante.

Nem todo mundo que nascia em um lar de praticantes escolhia essa vida. Existiam pessoas como Sae, que optavam por trabalhar de perto com praticantes, mesmo que ela própria não fosse uma, e existiam pessoas, mais do que apenas algumas, que escolhiam viver como pessoas comuns também.

Pessoas escolhiam diferentes caminhos profissionais por várias razões. Alguns simplesmente não eram fortes o suficiente. Outros haviam se aposentado da vida de praticante. Todos os clãs, incluindo o clã Ichinomiya, empregavam esse tipo de pessoa em suas subsidiárias.

Hana era parte do clã Ichinomiya, então naturalmente, ela iria buscar trabalhar numa companhia mantida pelo clã. Exceto circunstâncias inusitadas, ela seria capaz de conseguir encontrar um trabalho.

Ela conseguiria um emprego e finalmente deixaria aquela casa para trás.

Seus pais poderiam se opor aos seus planos. Poderiam ficar furiosos e tentar impedi-la. Era considerado vergonhoso para alguém nascido numa família de praticantes escolher outra carreira.

Contudo, assim como seus pais haviam desistido dela, Hana também tinha desistido deles.

Seu futuro pertencia apenas a ela.

Se tivesse que cortar laços com seus pais para seguir a vida que desejava, ela não hesitaria nem mesmo um segundo.

Mas Hazuki era diferente. Ela com toda certeza trilharia o caminho de uma praticante. Mesmo dentre os estudantes de elite da Classe A, suas notas eram muito melhores que as de seus colegas de sala.

Se ela mesma não escolhesse a profissão, a Associação iria sem dúvida recrutá-la de qualquer maneira.

Hana sabia que sua irmã prontamente abraçaria o destino que lhe aguardava. Ela continuaria pelo caminho que seus pais e que todos os outros queriam que ela trilhasse, sem qualquer dúvida na mente ou inquietação no coração.

Como sua outra metade, Hana gostaria de perguntar se Hazuki estava realmente bem com um futuro como esse, mas ela claramente não daria ouvidos ao que Hana tinha a dizer. Elas não poderiam mais voltar aos tempos em que eram cúmplices em tudo.

Uma pequena parte de Hana lamentou a perda daquela amizade próxima. Ela sentia saudades do tempo em que as duas confidenciavam suas preocupações uma à outra.

◆

Depois da aula, Hana estava folheando livros na biblioteca da escola, quando ouviu sussurros por perto.

“Olha, aquela não é a irmã inútil da Hazuki?” — Disse uma pessoa com uma risadinha.

“O que ela está fazendo na biblioteca?” — Desdenhou uma segunda pessoa.

“Estudar não vai adiantar de nada para ela. Ela nunca vai passar de um desperdício de espaço, não importa o que faça.”

Suas risadas de deboche eram perfeitamente audíveis de onde Hana estava.

Os insultos entraram por um ouvido e saíram pelo outro. Não tinham nada a ver com ela. Ela continuou a correr os olhos pelos livros na prateleira, mas de repente sentiu uma onda fria de sede de sangue.

Isso não é bom, pensou ela e rapidamente foi para um lugar com menos gente.

No momento em que ficou sozinha, uma jovem elegante e um rapaz musculoso se materializaram diante dela.

Mas Hana não mostrava nenhuma surpresa quanto às suas aparições repentinas. Se alguma coisa, ela parecia aborrecida.

Ambos os recém-chegados pareciam ter por volta dos vinte anos, e estavam de péssimo humor.

“Aoi, Miyabi, eu já não disse para vocês não se manifestarem enquanto eu estiver na escola?” — Hana os repreendeu. — “Essa é dificilmente a primeira vez que sou insultada. Você não precisam reagir a cada coisinha.”

“Peço desculpas.” — Disse a mulher imediatamente, arrependida e humilde. Seu nome era Miyabi. Seus longos cabelos estavam presos em um coque elegante, e ela usava roupas delicadas e fluídas que a faziam parecer uma donzela celestial. Suas vestes realçavam sua beleza quase divina e efêmera.

O homem de pé ao lado de Miyabi era Aoi. Ele era alto com um físico sólido. Preso às suas costas carregava uma espada grande que tinha quase a sua altura. Sua beleza rivalizava com a de Miyabi, mas por dentro, era um moleque com uma força de vontade inabalável.

Esses dois eram os shikigamis que Hana conjurou após ter despertado seus poderes.

Eles sempre estavam ao seu lado, mas normalmente suprimiam seus poderes e ocultavam suas presenças o máximo que podiam. Contudo, anteriormente na biblioteca, eles haviam perdido o controle após ouvir aqueles estudantes falarem mal dela. Hana percebeu o desagrado deles e fugiu da biblioteca.

Aoi estava insatisfeito com a passividade de Hana e parecia emburrado.

“Aoi?” — Hana o pressionou.

“... Eu entendo seu ponto de vista, Mestra, mas eu não consigo me manter em silêncio assistindo você ser insultada.”

De onde ele herdou essa teimosia toda? Ela se perguntou.

Aoi e Miyabi sempre queriam o melhor para Hana. Eles eram como Azuha, que atualmente está ausente, nesse sentido. Como eram seus shikigami, talvez fosse óbvio, que eles eram aliados inabaláveis, e ela conseguia muita coragem com a presença deles.

“Não é nada novo, certo?” — Disse Hana.

Ela conseguia ignorar todos os insultos precisamente porque seus shikigamis estavam ao seu lado. No entanto, ela não sabia como expressar sua gratidão.

“Eu ainda não gosto disso” — Disse Aoi

Próximo a ele, Miyabi, que se mantinha até então dócil, assentiu com a cabeça.

Hana suspirou, exasperada. Ela estava alegre que a prioridade deles era sua felicidade, mas ela achava a teimosia deles algo difícil de se lidar.

“Eu não tenho intenção de revelar a existência de vocês. Se vocês não conseguirem suprimir seus poderes direito, terei que deixá-los em casa com a Azuha.”

Os dois ficaram divididos com o ultimato dela. Hana conseguia ver isso claramente. Todavia, como os três estavam juntos o tempo todo, ela conhecia seus shikigamis bem, e sabia que os dois acabariam cedendo no final.

“Ah, tá bom…” — Admitiu Aoi, com a insatisfação estampada em seu rosto.

A garota estendeu a mão em direção à cabeça dele, e Aoi se abaixou. Ele sabia que era alto demais para ela. Ele podia ser fofo às vezes também.

Ela afagou sua cabeça o consolando.

Hana pensou que esse era o fim da conversa, mas então Miyabi se pronunciou.

“E se eu liberasse meus poderes só um pouquinho? Vou garantir que ninguém perceba.” — Implorou ela, olhando para Hana com os olhos de um cachorrinho.

Hana podia ser do mesmo gênero que Miyabi, mas mesmo assim sentiu seu coração vacilar com a beleza de Miyabi.

Ainda assim, ela não iria ceder. O par de shikigami liberava uma quantia significativa de energia apenas por se manifestar.

No momento, ela ergueu uma barreira para mascarar a presença dos dois, mas se eles fossem usar seus poderes, a barreira não iria aguentar.

Entre os inúmeros praticantes na escola, existiam mais do que alguns com instintos afiados. Se o seu segredo fosse descoberto agora, causaria uma grande comoção.

O único shikigami humano conhecido — a mais rara e valiosa de todas as formas — no Colégio Obsidiana era o de Hazuki. No instante em que se espalhasse que Hana era servida não por um, mas dois shikigamis humanos, sem dúvidas ela seria alavancada para um futuro como praticante.

Esse era o destino que Hana queria evitar a todo custo, sendo o porque dela ter que ser rígida com Aoi e Miyabi.

“Não, vocês não podem!” — Disse Hana em resposta ao apelo de Miyabi.

Miyabi levou a mão à bochecha, com uma expressão profundamente decepcionada. — “Tem certeza? Eu acho que tem como dar um jeito…”

“Eu também acho” — Interveio Aoi.

“Eu disse que não!” — Hana insistiu.

“Que pena. Como ousam aqueles covardes menosprezar minha senhorita. Eu queria fazê-los sofrer…” — Disse Miyabi.

“Eu poderia esmagá-los num piscar de olhos se você desse a ordem…” — Acrescentou Aoi.

Os dois resmungavam suas reclamações enquanto desapareciam de vista novamente.

“O que eu vou fazer com esses dois…?” — Disse a menina com um sorriso torto, mas secretamente, estava levemente feliz com suas reações.

◆

Certo dia, Hana havia retornado da escola e estava assistindo TV em seu quarto, jogando biscoitos de arroz na boca com uma das mãos.

O noticiário exibia uma reportagem perturbadora que a fez torcer o nariz.

“Aparentemente, um monte de cães foram encontrados mortos. Eu ouvi algo parecido alguns dias atrás sobre um cachorro que morreu da mesma forma.” — Comentou Hana com seus shikigamis. — “Quem teria coragem de machucar animais tão fofos? — Tem gente que não tem coração. Uma escória dessa devia ir direto para o inferno.”

[Pipoc4h: Matar cachorro, é sacanagem, tem limite também po | Jeff: Que agressividade.]

“Isso é verdade. E a cena do crime não é tão longe daqui.” — disse Miyabi, com seu rosto contorcido. Ela escutava as notícias enquanto preparava chá para Hana. Em seguida, ela colocou uma xícara da bebida fumegante na frente da garota. — “Você também deveria tomar cuidado, Mestra.”

Existiam inúmeros casos de espíritos com rancores profundos se transformando em sombras.

Esse incidente aconteceu nas redondezas. É possível que uma sombra com profundo ressentimento em relação aos humanos se formasse na cena do crime.

Aoi estava preocupado que Hana poderia encontrar essa sombra, mas ela achou que aquela preocupação era desnecessária.

“Ah, por favor. Por que eu deveria ter cuidado quando você está comigo a cada segundo do dia, Aoi? Se eu visse uma, você daria um jeito antes mesmo que tivesse a chance de atacar, não é?”

“Mas é claro!” — Aoi respondeu na mesma hora projetando o queixo para frente, como se desafiasse Hana a encontrar algum problema em sua afirmação.

“Isso é ótimo, mas tenha certeza que você não faça nada onde as pessoas possam vê-lo.” Alertou Hana.

“Eu sei” — disse ele.

“Tem certeza disso…?” — Ela duvidou.

Hana havia cruzado com uma sombra recentemente no caminho para casa. Aoi a eliminou num piscar de olhos antes que ela pudesse pará-lo.

O pilar que o clã Ichinomiya jurara proteger era perto de onde ela morava. Todos os tipos de sombras convergiram para aquela região em direção do pilar, então a chance de um encontro indesejado era bem alta.

As sombras eram fundamentalmente invisíveis, e não atacavam humanos comuns que desconheciam sua existência. Elas se fortaleciam ao absorver a energia dos praticantes.

Os jovens com talento suficiente para invocar shikigamis, normalmente se matriculavam em escolas voltadas para a formação de praticantes, como o Colégio Obsidiana, onde também aprendiam como destruir as sombras. Entretanto, francamente, poucos praticantes eram fortes o suficiente para atrair a atenção de uma sombra, já que as criaturas sabiam que a melhor fonte de energia eram os próprios pilares.

Mas Hana era uma exceção. Mesmo que ativamente suprimisse seus poderes, as sombras ainda conseguiam senti-lo, e costumavam ir atrás dela quando estivesse sozinha.

Graças a isso, mesmo que ela não fizesse parte da Classe A, ela acumulou uma vasta gama de experiência prática de combate.

Ela havia criado originalmente Aoi e Miyabi, por conta de estar farta de ter que lidar com as sombras por conta própria.

Os dois agiam de acordo com a vontade de Hana. Na realidade, eles eram tão exemplares que ultimamente, ela começara a temer com a possibilidade que suas próprias habilidades fossem enferrujar se ela não tivesse a chance de usá-las de vez em quando.

Mas e daí? O conjunto de habilidades de um praticante era inútil para Hana, que havia decidido deixar para trás essa vida, e viver como um ser humano normal.

Ela continuou a assistir TV, já que o aparelho estava ligado, mas, do nada, sentiu uma presença humana vindo em sua direção. Aoi e Miyabi desapareceram de vista no mesmo instante.

As únicas pessoas que visitavam o anexo de Hana eram Sae e os outros empregados. Ela era muito próxima deles, mas ainda assim não pretendia revelar a existência de Aoi e Miyabi a ninguém. Portanto, os dois shikigami estavam sob a ordem de desaparecer no momento em que notassem alguém chegando.

Assim como Hana esperava, sua visitante não era ninguém menos que Sae.

Ela olhou para o relógio e percebeu que estava quase na hora do jantar, então estranhou ao ver que Sae tinha chegado de mãos vazias, com uma expressão preocupada.

“Senhorita Hana, você foi convocada à residência principal para o jantar.” — Anunciou Sae.

“Hã? Tem certeza?” — Perguntou a garota.

“Sim. Você jantará com o mestre.”

Por uma fração de segundo, Hana achou que tivesse entedido errado. Essa era a primeira vez que algo assim acontecia desde que ela se mudara para o anexo.

“Meu pai me chamou?”

“Sim. Ele deve ter algo importante para lhe dizer.”

Mas que reviravolta bizarra era aquela? O que poderia ter acontecido para que seu pai a chamasse?

Hana se dirigiu à casa principal, torcendo internamente para que aquilo não se tornasse uma dor de cabeça. Ao chegar, deparou-se com uma cena inédita, até mesmo seu irmão, Yanagi voltou para casa. Depois de se formar no Colégio Obsidiana e se tornar um praticante oficial, ele vivia atolado em trabalho. Hana não conhecia os detalhes — dado que os dois não se falavam.

Quando foi a última vez que eles conversaram? Fazia tanto tempo, que Hana nem se lembrava.

Seu irmão, como sempre, era pouco comunicativo. Seus olhos se voltaram brevemente para ela quando entrou, mas fora isso, ele não olhou para ela uma única vez. Hana ignorou sua atitude fria e sentou-se.

Em seguida, Hazuki entrou na sala. Quando viu Yanagi, ela parou para olhar novamente, parecendo tão surpresa quanto Hana estivera.

Fazia muito tempo que Hana não ficava no mesmo espaço que Hazuki, sentadas tão próximas.

Ninguém dizia uma palavra. Uma estranha tensão e um silêncio pesado pairavam entre os três, até o momento da chegada de seus pais. A mãe e o pai sentaram-se à mesa.

Os empregados começaram a servir os pratos.

Quantos anos se passaram desde que se juntaram como família ao redor da mesa de jantar?

Nenhum deles parecia estar desfrutando daquela reunião.

Enquanto comia, Hana disparava olhares sutis ao Pai, se perguntando quando ele finalmente iria explicar por que eles haviam sido chamados ali, mas ele não abriu a boca até que todos tivessem terminado a refeição.

Ele anunciou, — “Yanagi provavelmente já sabe, mas para as demais, um novo líder vai em breve suceder o clã Ichinomiya.”

Hana era geralmente indiferente a notícias sobre a família e o clã, mas, até mesmo ela estava surpresa. Hazuki, que sentava ao seu lado, tinha a mesma expressão de choque, então deveria ser a primeira vez que ela ouviu sobre isso também.

O pai continuou, — “O próximo lorde será o filho mais velho da família principal, o Mestre Saku Ichinomiya. A família realizará uma cerimônia para anunciar formalmente sua sucessão. Todos vocês irão estar presentes.”

Hazuki e Yanagi assentiram prontamente, aceitando a ordem do pai sem hesitar.

Apenas Hana ofereceu resistência. — “Isso me inclui também, Pai?” — Questionou.

“Sim” — respondeu ele secamente.

“A Hazuki é uma coisa, mas eu acho que minha presença não seria necessária.” Ela disse, implicando que não havia motivos para uma pessoa considerada inútil como ela se envolver naquilo.

“Não, você vai. Todas as filhas em idade de se casar das famílias secundárias foram convocadas.”

“Por que?”

“O Mestre Ichinomiya ainda não se casou, e não está prometido à ninguém. A cerimônia também servirá como uma procura por candidatas a noiva.” — Seu pai declarou.

Que saco! Hana internamente se enfureceu. Ela se arrependeu de ter ido àquele jantar.

“Dito isso, diferente de Hazuki, não há nem uma chance em um bilhão de que o Mestre Ichinomiya lhe dê alguma atenção. Apesar de tudo, você irá comparecer à cerimônia. Você é uma filha da família Ichise, por mais insignificante que possa ser.”

Hana só era tratada como uma filha quando era conveniente.

Ela conseguia sentir a relutância do pai, mas ele não podia odiar a situação mais do que ela. Uma chama de rebeldia acendeu em seu coração.

E se você der um bolo neles? O diabinho em seu ombro sussurrou em sua orelha. Contudo, faltar a cerimônia só lhe daria mais dor de cabeça mais tarde, então ela desistiu da ideia.

Então, chegou o dia da cerimônia de sucessão.

Sae a ajudou a vestir em um furisode rosa-claro — um kimono formal de mangas longas. Depois, arrumou seu cabelo em um coque elegante e o enfeitou com lindos acessórios.

Pela primeira vez em muito tempo, Hana achou que estava bem fofa. Estava sentindo-se bem consigo mesma quando foi se juntar aos outros na casa principal.

Hazuki já aguardava por ela, vestida em um kimono de tom carmesim luxuoso, enquanto seus acessórios extravagantes em seu cabelo chamavam ainda mais atenção.

As gêmeas idênticas se encararam por alguns segundos, sem saber o que dizer.

Os kimonos e presilhas de cabelo haviam todos sido fornecidos pelos pais delas.

Como visitariam a residência da família principal, o traje de Hana também era refinado e apropriado para a ocasião, mas, perto do de Hazuki, parecia simplório.

Não era como se o kimono dela fosse barato ou malfeito — longe disso, — mas o que sua irmã vestia era claramente uma peça magnífica e de qualidade evidentemente superior.

Aquilo não era nem perto de ser a primeira vez que seus pais demonstravam favoritismo por Hazuki, mas nunca antes essa preferência tinha sido tão descarada e impossível de ignorar.

“Estão prontas?” — Seu pai perguntou, olhando para Hazuki com aprovação. Em contrapartida, agiu como se Hana sequer estivesse ali.

Logo depois, sua mãe surgiu atrás dele e começou a encher Hazuki de elogios. — “Você está maravilhosa, Hazuki. Eu sabia que esse kimono ficaria perfeito em você!”

“Obrigada. Mas ele é bem… diferente do kimono da Hana” — Comentou ela, lançando olhares furtivos para a irmã, enquanto buscava alguma explicação dos pais.

Ao que tudo indicava, Hana não foi a única que percebeu a diferença gritante entre as duas.

Hazuki parecia genuinamente perplexa, o que na opinião dela, era um bom sinal. Ela estava aliviada ao ver que a irmã não encarava aquela desigualdade como algo natural — que sua personalidade ainda não havia sido distorcida a esse ponto.

Por outro lado, seus pais ignoraram o estado confuso dela.

“Eu te disse alguns dias atrás, não disse? O próximo chefe vai escolher sua noiva hoje. Você é uma praticante excepcionalmente talentosa, Hazuki, e uma jovem linda, se me permite dizer. O Mestre Ichinomiya sem dúvida, se sentirá atraído pelo seu charme. Por isso preparamos esse traje para você.” — Explicou o pai.

“Você com certeza será a escolhida. Estou certa disso. Lute. Não perca para as filhas das outras famílias.” — Adicionou a mãe.

“...Entendido.” — Respondeu Hazuki obedientemente.

Observando àquela conversa do lado de fora da bolha familiar, Hana foi tomada por uma profunda inquietação.

Não era preciso dizer que o próximo chefe da família não iria gastar seu tempo com um desperdício de espaço como Hana, e por ela, estava tudo bem isso.

O que a preocupava, era a imensa pressão que seus pais colocaram sobre Hazuki. Eles estavam pedindo demais, e nem se davam conta disso.

Hana teria ignorado suas demandas sem pestanejar, mas sua irmã ainda tentava viver de acordo com as expectativas de seus pais, e assentiu em concordância.

Ela observava os três com uma visão gélida, não que algum deles tenha percebido. Mas que palhaçada — pensou consigo mesma.

Yanagi, vestindo um kimono azul-marinho, veio buscá-los. — “Pai, Mãe, está na hora de irmos.”

“Ah, você está certo,” — disse o pai. — “Vamos então.”

“Hazuki, faça tudo que puder para chamar a atenção do Mestre Saku. Se você conseguir o favor dele, deterá o poder e privilégio do clã Ichinomiya, e como a matriarca da casa, ficará abaixo apenas do próprio líder.

“Sim, Mãe.” — Hazuki disse com um tom determinado.

Os pais pareciam satisfeitos com a demonstração de firmeza de Hazuki, e os conduziram para fora de casa.

Como guardaram suas expectativas apenas para Hazuki, Hana sabia muito bem que era desnecessária. Ela estava cogitando seriamente dar uma escapada, quando algo tocou seu cabelo.

Ela começou a reagir instintivamente mas congelou quando Hazuki disse bruscamente — “Fique parada!”

Ela achou que Hazuki iria ajeitar seu penteado, mas sua irmã logo se afastou.

“Posso me mexer agora?” — Perguntou Hana.

“Sim.” — Respondeu a irmã.

Hana virou-se lentamente e cruzou olhares com Hazuki, que estava com uma expressão vagamente insatisfeita.

“O que você estava fazendo?” — Hana quis saber.

“Nada…” — Rebateu Hazuki passando à frente dela.

Hana iria questionar Hazuki mais a fundo, mas Azuha voou até ela e disse — “Mestra, agora seu cabelo tem mais flores e presilhas bonitas.”

“O que?”

Hana tocou seu cabelo delicadamente para não desmanchar o penteado. E como Azuha havia dito, seus acessórios de cabelo tinham se multiplicado.

Além disso, Hazuki estava claramente com alguns enfeites faltando.

Hana não sabia o que provocara aquele capricho.

Talvez Hazuki tivesse achado o visual de Hana simples demais e, por isso, decidira ceder alguns de seus próprios ornamentos.

Hana não sabia definir o sentimento que brotou em seu peito.

Ela achava que Hazuki a odiava.

E por que não odiaria? Hana não passava de restos de comida — uma praga. Ela tinha certeza absoluta de que era apenas um motivo de desgosto para Hazuki.

Não foi por isso que as duas haviam parado de se falar...?

Será que ela estivera errada esse tempo todo?

Ela não entendia os sentimentos de Hazuki.

Sem proferir uma única palavra de agradecimento à irmã, Hana seguiu a família até a residência Ichinomiya, com o coração pesado.

Era a primeira vez que Hana pisava nos domínios da residência Ichinomiya, uma propriedade tradicional japonesa vasta e resplendorosa.

Como a família de Hana era um ramo secundário do clã Ichinomiya, a casa deles também costumava evocar adjetivos como grandiosa e luxuosa, com seu jardim espaçoso e toda aquela imponência. No entanto, ela era incomparável à residência Ichinomiya.

O carro deles cruzou os portões principais da propriedade, mas os terrenos eram tão vastos que eles continuaram rodando por um bom tempo antes de finalmente avistarem a entrada. A residência certamente fazia jus a um dos cinco antigos titãs financeiros. A família principal vivia em um patamar totalmente diferente do resto deles.

Por fim, os Ichises encostaram em frente à entrada principal, onde carros de outras famílias secundárias e demais pessoas ligadas ao clã já estavam estacionados. Hana e sua família desembarcaram, e o motorista manobrou o veículo em direção a uma vaga livre.

Hana ficou boquiaberta diante de tamanha opulência da residência.

"Vocês devem ser da família Ichise. Sejam bem-vindos", — cumprimentou uma pessoa que muito provavelmente era um funcionário da casa. — "Por favor, sigam-me."

Enquanto eram guiados pelos corredores, Hana corria os olhos pelo interior, fascinada.

Hazuki cutucou Hana com o cotovelo. "Para de ficar olhando assim com cara de tonta. É vergonhoso", — repreendeu ela, franzindo a testa. Hana provavelmente parecia uma caipira daquele jeito.

Mas Hana não ficou nem um pouco contrita. Na verdade, ela fez questão de insistir. — "Ah, qual é. Você não acha isso aqui incrível? É a primeira vez que entro em um casarão tão luxuoso."

"Sim, bem...", — Hazuki disse, hesitante.

"Pode ser a última vez que pisamos aqui. Tenho que aproveitar ao máximo enquanto tenho a chance", — disse Hana.

"Isso é verdade", — admitiu Hazuki, apesar de si mesma, mas logo recobrou os sentidos. — "Espera, não. Não, você não pode fazer isso. Como um membro da família Ichise, você precisa demonstrar compostura."

"Você está livre para posar de moça fina, Hazuki. Eu vou é curtir o momento", — rebateu Hana. — "De qualquer forma, deixando meu pai e minha mãe de lado, o Yanagi está bem calmo, não acha?"

"Claro que está. Ele vem aqui com frequência para resolver assuntos de praticante", — explicou Hazuki.

"Sério?"

"Sim. Você não sabia disso? Nunca parou para se perguntar onde ele está e o que fica fazendo o tempo todo?"

"Nem um pouco", — respondeu Hana. Sae teria lhe contado, mas Hana não tinha o menor interesse, então nunca havia perguntado.

A expressão de Hazuki azedou. — "Por que não? Você devia saber! Não é a irmã mais nova dele?!"

"Mas a gente nunca se fala. Nunca. E não é só eu e ele. Você..."

Aquilo era verdade. A última vez que ela e Hazuki haviam conversado daquele jeito tinha sido anos atrás.

Apesar do longo hiato no histórico delas, as duas tinham conseguido retomar a conversa sem o menor sinal de constrangimento. Aquilo era a prova da conexão especial que havia entre gêmeos.

Hana não terminara a frase, mas Hazuki deve ter entendido de qualquer forma. Hazuki pareceu desconfortável de repente, mas, para esconder o incômodo, disparou: — "O Yanagi é o praticante mais jovem da história a conquistar o ranque Lápis-Lazúli. Ouvi dizer que ele vai ser promovido a Obsidiana em breve. Isso vai fazer dele um praticante da Quinta Cor."

Os praticantes alistados na Associação eram divididos em cinco ranques, sendo a Primeira Cor a mais júnior e a Quinta Cor a mais sênior. Cada ranque era associado a uma cor diferente: Branco, Ouro, Vermelho, Lápis-Lazúli ou Obsidiana. A Associação distribuía pingentes que serviam como licenças. A cor do pingente correspondia ao ranque do praticante.

Hana sabia que Yanagi começara a trabalhar como praticante, mas, como se viam raramente, ela nunca tinha visto o seu pingente e não fazia ideia de qual era o ranque atual dele.

"Legal", — respondeu Hana, com total indiferença.

Mesmo com a explicação de Hazuki, ela só conseguiu demonstrar um interesse superficial. Era um feito impressionante, sem dúvida, mas parava por aí.

Para Hana, aquilo não tinha nada a ver com ela.

Dava para contar nos dedos de uma única mão as vezes em que vira o irmão mais velho no último ano. Será que era surpresa ela ser tão indiferente?

No entanto, Hazuki não conseguiu deixar passar a reação fria de Hana. Ela ergueu os olhos bruscamente e disse: — "Que resposta fria é essa?! É uma conquista e tanto!"

"Eu nunca disse que não era...", — defendeu-se Hana.

"Você é sempre assim, Hana. Sempre tão apática! Age como se nada nunca fosse da sua conta!"

Considerando o quão pouco Hana tinha a ver com sua família, apática era uma descrição que condizia com sua atitude.

Mas a relação gélida de Hana com a família não tinha sido uma escolha dela. A família perdera o interesse nela primeiro.

Hana apenas tinha seguido o fluxo. Por que ela era obrigada a ouvir as acusações de Hazuki?

Ela mal abriu a boca para disparar uma resposta quando o pai interveio. — "Que algazarra é essa? Somos convidados na residência Ichinomiya. Comportem-se."

Hazuki lançou um olhar venenoso para Hana antes de se apressar atrás do pai.

Hana os seguiu. Depois daquilo, as gêmeas não tiveram outra oportunidade de conversar.

Elas foram conduzidas ao salão principal, onde uma multidão de convidados já estava acomodada.

Aqui e ali pelo salão, havia jovens por volta da idade de Hana. O espírito de luta e a determinação implacável delas eram evidentes num único olhar. Muito provavelmente, todas tinham os olhos fixos em se tornar a matriarca daquela casa.

Todas as mulheres estavam paramentadas com trajes e acessórios luxuosos. Ironicamente, Hana se destacava mais justamente por causa de seu quimono comparativamente modesto.

Entre os assentos reservados para as famílias secundárias, a família Ichise fora alocada nos lugares de segunda categoria, bem nas margens do salão. Os assentos refletiam a baixa posição social e a falta de influência deles dentro do clã Ichinomiya. Várias gerações atrás, eles costumavam se sentar perto do chefe do clã, mas, como não haviam nascido muitos praticantes fortes na família na história recente, a posição deles foi escorregando aos poucos.

Esse era um motivo a mais para os Ichises depositarem todas as suas esperanças e expectativas em Hazuki, cujo poder e talento rivalizavam com os dos praticantes da família principal. Os pais pretendiam usar Hazuki para cavar o caminho de volta ao topo.

Hana não poderia se importar menos com a posição da família no clã. Ela achava que o pai deveria jogar aquele orgulho inútil no lixo.

No entanto, o pai se agarrava obstinadamente à ideia de ter uma autoridade muito além de sua realidade, apesar de ser ele próprio um praticante medíocre. Sua ambição não passava de um estorvo para os filhos envolvidos em seus caprichos egoístas.

Hana havia escondido sua habilidade de forma tão minuciosa justamente para evitar ser usada como peão em sua busca fútil por poder.

Os assentos vagos pelo salão continuaram a ser preenchidos.

Pouco tempo depois, uma mulher por volta da mesma idade da mãe de Hana entrou no recinto, seguida por um rapaz jovem, próximo da idade das gêmeas. O burburinho das conversas morreu instantaneamente, dando lugar a um silêncio absoluto no momento em que entraram.

Então, o novo líder do clã finalmente fez sua aparição.

Um funcionário anunciou sua entrada. — "O líder do clã Ichinomiya, Mestre Saku Ichinomiya." As portas de correr se abriram e um único homem entrou.

Os convidados sentados ao redor do salão curvaram a cabeça simultaneamente. Hana fez o mesmo.

"Todos vocês, ergam as cabeças", — disse ele, com uma voz grave. Ele falou de forma suave, mas firme.

Hana ficou de olho nas pessoas ao seu redor enquanto se endireitava. Como ela e sua família estavam sentadas muito longe do centro dos acontecimentos, ela não conseguia distinguir as feições do chefe da família, mas a voz dele parecia consideravelmente mais jovem do que ela tinha imaginado.

Ela presumiu que qualquer candidato na linha de sucessão do clã seria alguém bem mais sênior. No entanto, agora que parava para pensar, as potenciais noivas reunidas ali eram todas mulheres jovens, então ele devia estar perto da sua idade.

"Eu sou Saku Ichinomiya. Assumo a partir de hoje a liderança do clã Ichinomiya. De agora em diante, tomarei para mim o manto do Mestre da Barreira, e juro continuar protegendo o pilar."

"Juramos nosso apoio!", — alguém na multidão gritou.

Os convidados ao redor do salão mais uma vez abaixaram a cabeça em uníssono.

Mestre da Barreira era um título que só podia ser reivindicado pelos líderes dos cinco clãs responsáveis por manter as barreiras ao redor dos pilares. Era um título pesado de carregar, pois vinha acompanhado de uma enorme responsabilidade.

Mas aquele era um mundo do qual Hana não fazia parte. Pelo menos, era no que ela acreditava naquela época.

◆

A cerimônia de sucessão, por mais grandiosa que parecesse pelo nome, contou com poucas formalidades ou festividades. Consistiu apenas na proclamação do novo líder perante as famílias do clã como testemunhas e no banquete que se seguiu.

Os funcionários trouxeram a refeição, e um deles colocou uma bandeja zen na frente de Hana. A bandeja tinha pés próprios e funcionava como uma mesa de servir individual, transbordando de pratos.

Hana comeu em silêncio, lançando olhares furtivos em direção à cabeceira do salão. Todos os assentos das jovens haviam sido movidos para a frente antes do banquete começar, independentemente da posição social de suas respectivas famílias.

Pelo visto, a função dupla da cerimônia como uma busca por uma noiva não era apenas uma piada de mau gosto.

Graças à sua nova acomodação, Hana finalmente conseguiu ver o homem chamado Saku Ichinomiya. O novo líder da casa tinha cabelos pretos, um nariz afilado e traços bem marcados. Seus olhos negros como azeviche estavam blindados de determinação.

Sua boa aparência tinha deixado as filhas das famílias secundárias afobadas.

Ele deveria ser capaz de encontrar uma parceira facilmente sem precisar recorrer a uma sessão de encontros arranjados em massa. Hana secretamente suspeitava que ele continuava solteiro porque suas exigências eram absurdamente altas ou porque tinha algo de errado com ele.

Uma das jovens reuniu coragem e se aproximou para lhe servir uma bebida. O resto das mulheres rapidamente formou um enxame ao redor dele para não ficar para trás.

"Mestre Ichinomiya, o senhor gosta de música? Eu mesma sou muito fã do koto", — disse uma das mulheres.

"Eu tenho inclinação para a dança. Seria uma honra se o senhor comparecesse a uma apresentação minha", — apelou outra.

As mulheres não poderiam ser mais descaradas em suas investidas.

Eram como um bando de carnívoros diante de um bife sangrando.

Hana procurou por Hazuki com os olhos para ver como ela estava se saindo, apenas para encontrá-la na beirada do círculo. Ela havia se movido devagar demais e agora estava sem saber o que fazer, com a irritação estampada no rosto.

O líder suportara até as mais ousadas investidas das mulheres em silêncio, mas finalmente abriu a boca para falar: — "Ouvi dizer que uma de vocês possui um shikigami humano. Dê um passo à frente."

As jovens olharam umas para as outras em confusão, mas Hazuki abriu caminho até a frente para se ajoelhar diante do líder.

"S-seria eu essa pessoa", — disse Hazuki, visivelmente nervosa.

"Qual é o seu nome?", — ele exigiu.

"Sou Hazuki, da família Ichise."

Será que a Hazuki está vendo isso como a chance dela de tomar a iniciativa?, Hana perguntou-se.

Hazuki direcionou seu sorriso mais cativante — porém calculado e cuidadosamente cultivado — ao chefe do clã. A simpatia aberta daquele sorriso costumava desarmar a maioria dos homens, mas o rosto do líder nem sequer se moveu.

Por dentro, Hana sentiu um estalo de admiração pelo homem. Por outro lado, Hazuki deve ter sido pega de surpresa por aquela indiferença inesperada.

Parecia que ele não dava a mínima para Hazuki em si, mas sim para a invocação dela. Ele ordenou: — "Invoque seu shikigami."

"S-sim, meu senhor! Hiragi, venha."

Um shikigami na forma de um garotinho surgiu do nada. Sua aparência não mudou desde que Hazuki o invocou pela primeira vez.

Naquela época, Hiragi parecia ter a mesma idade das gêmeas. Vendo-o pela primeira vez em muito tempo, Hana ficou chocada com o quão jovem ele parecia. Ele sempre foi uma criança tão pequena assim?

"Este é meu shikigami, Hiragi", apresentou Hazuki.

O líder examinou Hiragi de cima a baixo com o olhar semicerrado. Quando terminou, disse secamente: — "Já vi o suficiente. Dispense-o."

"O quê? S-sim, claro", respondeu Hazuki, atordoada. Sem entender o que ele queria dela, ela mesmo assim ordenou que Hiragi se retirasse.

Hana assistiu à conversa pelo canto do olho. Sua única opinião sobre o líder era que ele era imperioso, mas, no fim das contas, ele não tinha nada a ver com ela. Ela preferiu ignorar o bando de mulheres ao redor dele e focou em sua refeição.

Ela estava totalmente alheia ao fato de que o Mestre Saku Ichinomiya a observava.

◆

Apenas alguns dias após a cerimônia de sucessão, as sombras agiram.

O líder do clã era o responsável por supervisionar a barreira ao redor do pilar do clã, de modo que a barreira precisava ser transferida entre as gerações.

A transferência entre os líderes inevitavelmente enfraquecia a proteção.

O que significava que todas as sombras aproveitaram a oportunidade para atacar enquanto a barreira estava em seu momento mais vulnerável.

Não havia praticantes formados o suficiente para defender o local contra as ondas de sombras, então as aulas para os alunos da Classe A e da Classe B foram temporariamente suspensas para que eles pudessem ajudar na defesa.

Os fracassos da Classe C presumiram que aquilo não era da conta deles, mas foram otimistas demais. No fim, até a Classe C foi convocada para o dever.

Naquele dia, as sombras haviam se aglomerado ao redor de uma casa abandonada. Hana e seus colegas de classe foram posicionados nos arredores como parte da retaguarda e aguardavam sua vez. Perto dali, um grupo de praticantes pertencentes à Associação fazia preparativos para tratar possíveis feridos.

Os praticantes designados para a retaguarda eram todos dos ranques Branco ou Ouro. Em outras palavras, eram o escalão mais baixo de todos os praticantes.

"Que saco...", — resmungou Hana. Ela não tinha motivação alguma para participar da limpeza.

Suzu fez beicinho para ela. — "Ah, qual é, Hana. Esta é uma oportunidade rara de conseguir alguma experiência de batalha em primeira mão. Foco."

"Você diz isso, mas somos só o suporte. Não é como se fôssemos lutar de verdade. Já estamos aqui paradas há três horas. Não posso ir para casa?"

"Não!", — disse Suzu, agarrando o braço de Hana com medo de que ela realmente fosse embora.

"Mas eu estou com fome...", — ela resmungou, o que era verdade.

Os sinais de aumento na atividade das sombras haviam sido detectados depois do meio-dia. A Classe C se reunira no local após o término das aulas e estava esperando sem comer nada desde então.

A essa hora, Hana normalmente já teria jantado há muito tempo. Claro que ela estava com fome.

Bem na hora, o estômago de Hana roncou alto.

"Ah, eu tenho alguns lanchinhos na bolsa. Espera um segundo", — disse Suzu.

Suzu soltou o braço de Hana e correu em direção ao depósito improvisado que os praticantes da Associação haviam montado. Ao lado dele ficava uma tenda simples onde os alunos haviam guardado seus pertences. Hana observou as costas de Suzu enquanto ela se afastava.

Foi então que um arrepio inesperado subiu por sua espinha. Quase ao mesmo tempo, Azuha, que estava empoleirada em seu cabelo como uma presilha, gritou: — "Mestra!"

Hana agiu por reflexo. Ela disparou em direção a Suzu e deu uma investida por trás. As duas caíram pesadamente no chão.

"Aaah!" — Suzu soltou um grito agudo.

Ela se levantou e se virou, apenas para ver que Hana fora quem a atacou. Confusa, perguntou: — "Hã? Hana? O que houve? O que foi isso?"

Mas Hana não tinha tempo para responder às perguntas de Suzu.

Um grande buraco havia sido cavado na terra bem onde Suzu estava de pé um momento antes.

Ela olhou para cima e viu uma horda de sombras se reunindo ao redor delas.

As sombras assumiam uma variedade infinita de formas e tamanhos, desde animais e massas amorfas até quimeras formadas por partes de diferentes seres, entre outros tipos.

A malícia e a malevolência que emanavam das sombras eram suficientes para arrepiar a pele de quem as visse. Elas só eram visíveis para praticantes. Fora esses dois pontos, havia poucas características em comum entre elas.

Eram esses tipos de seres sinistros que surgiam diante deles em bandos, causando um alvoroço entre os alunos da Classe C e os praticantes.

No entanto, por mais baixo que fosse o ranque deles, os praticantes da Associação eram profissionais com experiência real de combate e rapidamente se recuperaram do choque.

"Todos os postos, preparem-se para a batalha! Estejam prontos para erguer suas barreiras! Quero contato estabelecido com as forças que estão lá dentro agora!", — gritou um deles.

Contudo, os alunos da Classe C estavam em um estado de pura confusão. Entraram em pânico. Ao contrário de seus colegas da Classe A e da Classe B, eles tinham pouca experiência de campo. A desorientação deles era inevitável, mas não podiam se dar ao luxo de se distrair. Qualquer falha de concentração poderia ser fatal.

Os estudantes que tentavam fugir dos enxames eram um estorvo para os praticantes no meio do combate.

Hana também era uma estudante da Classe C, mas como era frequentemente atacada por sombras, conseguia manter a calma diante da ameaça repentina. No entanto, ao seu lado, Suzu se agarrava firmemente ao seu braço, tremendo de medo.

"O que está acontecendo...?", — Suzu choramingou.

Hana tinha confiança de que conseguiria se virar em uma luta se chegasse a esse ponto, já que enfrentava sombras regularmente. Para ser bem sincera, as sombras reunidas ao redor deles eram peixes pequenos. Aoi poderia eliminá-las em um instante.

No entanto, se ela invocasse Aoi e saltasse para o combate, revelaria sua verdadeira força na frente de todos. Essa era a última coisa que ela queria, mas...

Os gritos de seus colegas de classe vinham de todos os lados.

"Eeyah!"

"Sai de perto!"

Os alunos corriam apavorados. Os praticantes gritavam comandos de volta para tentar restabelecer a ordem.

"Mantenham a calma! Prendam as sombras com uma barreira!"

"Fiquem firmes e lutem!"

"Eu não consigo, não consigo, não consigo!", — gritou uma de suas colegas.

Hana assistia à cena com uma expressão dolorosa. — “Isso está um caos absoluto... Se a Classe A estivesse aqui, eles dariam um jeito.”

Apesar disso, Hazuki e seus colegas da Classe A não estavam em lugar nenhum. Nem mesmo os alunos da Classe B estavam por perto.

Enquanto Hana hesitava, uma sombra atacou ela e Suzu por baixo.

A ambição futura de Suzu era se tornar uma praticante, mas diante de uma sombra real, ela congelou e não conseguiu fazer nada além de gritar. — "Aaaah!"

Hana absorveu o estado de pavor de Suzu pelo canto do olho. Fixou o olhar na sombra diante delas. Então...

"Expanda."

No momento em que o comando deixou seus lábios, uma barreira surgiu com o som de um tilintar cristalino, prendendo a sombra em seu interior.

"Elimine."

A sombra gritou em agonia e desapareceu.

Hana desfez sua barreira, sem deixar vestígios do que havia acontecido.

Suzu piscou com os olhos arregalados de choque. Ela tinha assistido a tudo de camarote. — "Isso foi incrível, Hana. Você a destruiu!"

"Não foi nada. Essa foi uma das primeiras coisas que aprendemos na escola. Lidar com uma sombra tão fraca quanto essa mal serve para se gabar."

"É... acho que sim...", — respondeu Suzu. Era verdade que Hana usara uma técnica rudimentar, mas as palavras de Hana deixaram um gosto amargo em sua boca. Afinal, ela mesma não tinha conseguido mexer um dedo.

De qualquer forma, a avaliação de Hana estava certa. Aquelas sombras eram de nível baixo. Os alunos da Classe C deveriam ser capazes de lidar com elas, desde que mantivessem a cabeça fria.

Mas a violência deixara os estudantes trêmulos.

Era o caos. Nesse ritmo, alguém acabaria morrendo.

Será que ela deveria ajudar? Deveria se conter? Hana estava dividida.

Ela havia moderado seu poder quando lidou com a sombra, então ninguém notou o que tinha feito. No entanto, erradicar uma horda daquele tamanho não seria algo fácil de mascarar com desculpas depois.

Aoi e Miyabi esperavam que ela lhes desse o sinal verde. Quando? Agora? A impaciência deles era transmitida claramente para Hana.

"...Acho que não tenho escolha."

Adeus aos meus dias de paz.

Ela derramou uma lágrima em seu coração.

Hana estava prestes a invocar Aoi e Miyabi quando outra pessoa gritou: — "Prenda-os!"

No instante seguinte, todas as sombras no campo foram aprisionadas em uma barreira.

Os estudantes que corriam para escapar e os praticantes que lutavam por suas vidas pararam de repente. Todos se viraram ao mesmo tempo para olhar para o jovem que cruzava o terreno a passos largos, com uma dama em trajes brancos puros ao seu lado.

Hana o conhecia.

"Aquele é o Ichinomiya..."

Não havia como ela ter esquecido o rosto dele. Ela o vira na cerimônia de sucessão apenas alguns dias antes. O Mestre Saku Ichinomiya.

A jovem que o acompanhava era muito provavelmente sua shikigami. Seu cabelo branco estava preso em marias-chiquinhas altas. Orelhas triangulares como as de um cachorro brotavam de sua cabeça e, por algum motivo desconhecido, ela vestia uma roupa de empregada cheia de babados.

Em contraste com sua aparência peculiar, um poder tremendo emanava dela em ondas.

Saku caminhava pela multidão, com passos deliberados e pesados, exibindo uma dignidade condizente com o líder do clã.

Os alunos não sabiam quem ele era, mas os praticantes todos pareceram aliviados.

"Bana-os", disse ele, e instantaneamente todas as sombras confinadas em sua barreira desapareceram.

Curiosamente, não existiam encantamentos fixos para criar barreiras ou destruir as sombras aprisionadas. As palavras usadas variavam de pessoa para pessoa. Cada praticante escolhia frases que lhes satisfaziam, evocando o efeito pretendido.

Infelizmente, havia idiotas que tinham escolhido encantamentos que fediam àquela fase vergonhosa da pré-adolescência.

Uma vez que um praticante decidia seus comandos, era quase impossível mudá-los. As frases tornavam-se inextricavelmente ligadas à visualização mental do efeito.

Hana tinha, logicamente, superado seus dias de ensino fundamental e escolhido encantamentos bem diretos.

Ela observou Saku, admirando a maneira como ele havia exterminado as sombras num piscar de olhos. — "Ele não é o Mestre Ichinomiya à toa", resmungou para si mesma.

Ele podia ser jovem, mas seu poder absoluto com certeza silenciaria qualquer protesto sobre sua idade.

Após a chegada do líder do clã, as sombras restantes no campo foram rapidamente eliminadas, e Hana finalmente recebeu permissão para ir para casa.

No dia seguinte, o colégio estava repleto de comentários sobre a batalha.

"Ouvi dizer que ele é o chefe do clã Ichinomiya."

"Ele foi muito daora!"

"Ele pulverizou a horda num instante. Eu queria ser forte que nem ele."

"Mas por que o líder veio pessoalmente? Ele não é um praticante da Quinta Cor?"

"Ao que parece. Ouvi dizer que a Associação estava com falta de informações, e uma sombra monstruosa apareceu onde a Classe A estava. O Mestre Ichinomiya por acaso estava por perto e resolveu a situação. Por sorte, ninguém da Classe A se feriu gravemente."

E assim por diante. O clã Ichinomiya se tornou o novo assunto do momento.

"Hana, Hana! Você conhecia ele?", — Suzu pressionou Hana, animada.

Hana fazia parte do clã Ichinomiya, afinal de contas, mas havia pouco que ela pudesse dizer. — "Eu conheço, mas só vi o rosto dele uma vez na cerimônia de sucessão. Não é como se eu já tivesse conversado com ele."

"Ah, entendi. Bom, faz sentido. Eu também nunca me encontrei com o chefe do clã Sankourou."

"O chefe dos Sankourou é uma mulher, não é?", — Hana perguntou.

"Sim. Eu só a vi de longe, mas ela era maneira mesmo à distância!"

"Sério?"

"Falando em pessoas maneiras..." — Suzu sorria de orelha a orelha, incapaz de conter sua empolgação.

"O quê? O que foi?"

"Tá bom, você nunca vai adivinhar! Eu finalmente consegui um namorado!", — anunciou Suzu.

"Sério mesmo?"

"Seríssimo!"

Suzu parecia feliz do fundo do coração, mas Hana não pôde deixar de desabar para a frente em sua carteira, enterrando a cabeça entre os braços.

"Você não está feliz por mim, Hana?", — Suzu perguntou, chateada.

"Eu só estou chocada. Pensar que a minha pura e adorável Suzu caiu nas garras imundas de algum — algum cara..."

"Você está exagerando. O Yuu não é assim."

"Yuu? Esse é o nome dele?"

"Sim. Yuudai Namikawa. É esse aqui", — disse Suzu, estendendo o celular para Hana ver.

O sujeito na foto tinha um cabelo loiro bem chamativo, as orelhas cheias de piercings e um bronzeado de surfista. Ele tinha toda a pinta de ser um cafajeste.

Em outras palavras, ele era o oposto polar de Suzu, que era certinha e irradiava uma doçura radiante.

Hana não pôde deixar de fazer uma careta. — "Er, S-Suzu? Ele é mesmo o seu namorado?"

"Sim! É ele!" —, Suzu disse com um sorriso brilhante.

Hana fechou a boca antes de dizer qualquer outra coisa. Na verdade, ela não sabia nem o que dizer. As palavras simplesmente não saíam.

Suzu não prestou atenção ao conflito interno de Hana e continuou a tagarelar sobre Yuu, com uma expressão sonhadora, o retrato exato de uma garota apaixonada. — "Eu estava sendo importunada na cidade, quando o Yuu surgiu do nada para me salvar. Ele é tão doce e gentil, sem falar que é lindo e másculo. Tudo nele é perfeito. Tudo."

Hana estava dividida. Como amiga de Suzu, ela deveria alertá-la para ter cautela, certo? Mas ela não conseguia evitar a hesitação ao ver a expressão de extrema alegria de Suzu.

Ainda assim, não havia a menor chance de ela confiar Suzu ao cara da foto...

Não, ela não deveria julgar um livro pela capa. Ele podia ser espalhafatoso por fora, mas ainda poderia ser uma boa pessoa, como Suzu estava dizendo.

Hana decidiu esperar para ver por enquanto. Ela escutou o falatório apaixonado de Suzu com um sorriso forçado estampado no rosto.

Depois da aula, bem no momento em que Hana estava prestes a ir para casa, ela foi capturada pelo professor conselheiro e forçada a ajudar com algumas tarefas.

Suzu abandonou Hana à própria sorte, saindo correndo assim que o último sinal tocou. A julgar por sua expressão radiante, ela provavelmente tinha um encontro.

"Traidora!", — Hana gritou, mas a acusação caiu em ouvidos surdos. Suzu estava apaixonada demais para ouvir.

Depois que terminou as tarefas, Hana caminhou para casa sozinha.

"Que droga. Por que o professor tinha que me escolher?", — Hana resmungou.

"Você deveria ter escapado mais rápido, Mestra", — disse Aoi. — "Todos os outros alunos saíram correndo imediatamente."

Ele não havia se materializado, então continuava invisível, mas como não havia mais ninguém por perto, eles conversavam livremente.

"Tivemos que ficar até tão tarde ontem para ajudar na limpeza das sombras. Achei que com certeza conseguiria ir direto para casa hoje", — disse ela.

Para ser justa, as aulas haviam começado mais tarde pela manhã para compensar o tempo em que foram convocados na noite anterior.

"Eu tô morrendo de fome", — queixou-se.

"Vamos comer assim que chegarmos em casa", — disse Miyabi, gentilmente. Sua voz suave funcionou como uma pomada para a irritação de Hana.

Hana decidiu pegar um atalho pelo parque, que estava deserto e completamente às escuras. Bem em frente ao escorregador, ela estancou o passo, e Aoi e Miyabi se manifestaram ao mesmo tempo.

"Vou ter que comer tarde de novo... Hoje é o meu dia de azar ou o quê?" — Hana suspirou profundamente, absolutamente farta.

Por que agora, logo agora?, pensou ressentida, focando sua atenção na ameaça.

"Essa é das fortes, ou é impressão minha?", — comentou. — "Está em um nível totalmente diferente dos peixes pequenos de ontem. Uma sombra poderosa assim aparecer aqui, bem do lado da escola, é um péssimo sinal."

Até onde Hana conseguia julgar, aquela sombra estava muito além do nível até mesmo dos alunos da Classe A.

"Parece que sim", — respondeu Miyabi. — "Isso pode ser devido à troca do líder do clã."

Hana e Miyabi conversavam sobre o quão forte a sombra era, mas, na verdade, nenhuma das duas parecia minimamente preocupada.

Aoi era o único que se preparava para a batalha. Ele puxou a espada nua presa às suas costas e encarou a sombra.

"Você consegue dar conta dela sozinho, Aoi?", — Hana perguntou.

"Sem problemas", — disse ele, ansioso para agir.

Hana deixou por conta dele. — "Toda sua."

Com um sorriso destemido, ele se posicionou contra a sombra. — "Venha para cima, sua aberração! Eu serei o seu oponente hoje."

Mas a sombra continuou a encarar Hana, talvez pressentindo o profundo poço de poder dentro dela.

Aoi se moveu para bloquear Hana da visão da criatura. — "Se quiser lutar com a minha mestra, vai ter que passar por mim primeiro. Não que eu vá perder para alguém como você."

"Aoi, para de conversa fiada e mata logo isso aí. Eu quero comer."

"Ah, qual é, Mestra. Me deixa parecer estiloso pelo menos uma vez. Eu não pude fazer nada ontem", — resmungou ele.

"Sim, sim, mas eu tô morrendo de fome aqui!"

Que diálogo absolutamente descontraído.

A sombra diante deles exigiria a perícia de um dos praticantes de ranque elevado da Associação para ser enfrentada, mas o foco de Hana estava em seu jantar. A sombra sequer registrava como uma ameaça em seu radar. Aquilo era a prova da confiança que ela tinha no shikigami que havia criado e em suas habilidades.

"Tá bom, tá bom, já entendi o recado", — disse Aoi, brandindo sua espada, que tinha praticamente a sua altura.

Ele saltou para o topo do escorregador e desceu a lâmina em direção à cabeça da sombra. A criatura conseguiu esquivar do ataque por um triz, mas Aoi rapidamente emendou com um corte horizontal. Com um giro do pulso, ele trouxe a espada de volta em um arco amplo.

Infelizmente, o golpe que ele desferiu não foi fatal. A sombra saltou do escorregador com Hana fixa em sua mira.

Hana nem piscou. — "Expanda" —, disse calmamente, prendendo a sombra em uma barreira.

A criatura debateu-se para romper seu aprisionamento repentino, mas, como não havia testemunhas, Hana não se conteve dessa vez; a barreira que ela havia conjurado não seria quebrada facilmente.

Aoi atacou a sombra com outro golpe brutal. Como ele era o shikigami de Hana, sua espada passou direto pela barreira dela e dividiu a sombra encurralada em duas com um golpe de cima a baixo.

Assim que Hana teve certeza de que a sombra havia sumido, ela desfez sua barreira.

Apesar da vitória, Aoi estava insatisfeito.

"O que foi?", — Hana perguntou.

"Eu queria ter matado sozinho", — resmungou ele.

"Mas você matou."

"Só porque você a prendeu em uma barreira primeiro. Não vale."

"Tá bom, tá bom. Você terá outra chance no futuro", — disse Hana, sem dar muita importância.

Ela não queria nada além de já estar em casa, e girou o corpo para ir embora.

Foi quando ela finalmente notou a outra pessoa no parque.

Será que viram tudo? A possibilidade deixou Hana em pânico.

"Ai, não", — murmurou.

"Você não conjurou uma barreira para afastar olhos curiosos, Mestra?", — Miyabi perguntou.

"Eu esqueci!", — confessou Hana.

Normalmente, quando Aoi e Miyabi se manifestavam ou quando ela lutava contra sombras, ela lançava uma barreira ao redor para evitar ser vista. No entanto, havia esquecido completamente dessa vez. Ela percebia seu erro agora, mas era tarde demais.

Para completar, quando olhou bem para o desconhecido, percebeu que havia sido pega em flagrante por ninguém menos que o líder do clã, o Mestre Saku Ichinomiya.

"Foi você quem fez isso?", ele exigiu.

"E-errr, bem, sabe...", ela gaguejou.

"Esses dois são os seus shikigamis?"

Aoi e Miyabi tinham parado de suprimir o poder deles no momento em que a sombra apareceu. Mesmo que parecessem humanos, um praticante com as habilidades dele saberia com um único olhar que eles eram, na verdade, shikigamis.

Encurralada, Hana tomou a única opção que lhe restava...

"Você entendeu erraaado!", — gritou ela, sua voz ecoando para trás enquanto ela dava no pé, fugindo da cena do crime o mais rápido que podia.

"Mestra?!", — Aoi chamou por ela.

"Mestra!", — Miyabi gritou.

Os dois correram atrás dela em total desespero.

[Pipoc4h: Ela foi pega no pulo e deixou os dois ali perdidasso kkkkk | Jeff: kkkk]

Depois de colocar alguma distância entre ela e o parque, ela lançou um olhar para trás. Parecia que ele não havia ido atrás. Hana soltou um suspiro de alívio.

"Ele nos viu, sem dúvida nenhuma. O que você vai fazer?", — Miyabi perguntou, preocupada com a reviravolta inesperada.

"Estamos salvas... eu acho. Estava escuro. Ele não deve ter conseguido ver bem o meu rosto. Além disso, ele pode até ter me visto na cerimônia de sucessão, mas havia toneladas de outras garotas lá. Não tem como ele se lembrar de mim... provavelmente."

Apesar de sua bravata, Hana não estava nem um pouco confiante. Ela só podia rezar para que o que dissera fosse verdade.

"Aaagh. Eu estraguei tudo", — lamentou-se.

Ela havia tomado precaução sobre precaução para esconder seu segredo até agora.

Hoje era definitivamente o seu dia de azar.

Abatida, Hana seguiu de volta para casa.

◆

Saku era o filho mais velho do clã Ichinomiya, um dos cinco grandes clãs sob o juramento de proteger os pilares.

Desde criança, ele fora abençoado com talentos imensos como praticante e foi criado para ser o próximo na linha de sucessão.

Além do mais, o pai de Saku não possuía nem de longe o mesmo nível de habilidade. Ele podia até ser o chefe do clã, mas exigia tudo de si apenas para manter a barreira que protegia o pilar.

Por essa razão, o clã desejava que Saku atingisse rapidamente a maioridade e assumisse a guarda da barreira o quanto antes.

Saku não decepcionou. Ele se tornou o praticante mais jovem da história a obter o ranque da Quinta Cor e seu pingente de obsidiana.

Para sua imensa frustração, ele não pôde reivindicar a mesma honra para o ranque Lápis-Lazúli. Ele não havia conseguido superar o recorde estabelecido pelo filho da família Ichise. Para compensar, alcançou o ranque Obsidiana com uma velocidade espantosa.

Depois de acumular vários anos de experiência como praticante, foi decidido que ele sucederia o nome do clã, assumiria o título de Mestre da Barreira e tomaria oficialmente para si a responsabilidade de proteger o pilar.

Entre os líderes dos cinco grandes clãs, ele seria o mais jovem.

A transferência de poder... não correu de forma tão fácil quanto planejou.

Seu pai se recusava a abrir mão do posto.

O líder do clã detinha o poder sobre todo o clã na palma de sua mão.

O pai dele era um praticante medíocre, mas seu desejo por poder era mais forte do que o de qualquer outra pessoa.

No entanto, ele era indefeso diante de sua esposa, a mãe de Saku.

Saku também achava difícil lidar com sua mãe obstinada, de modo que simpatizava com a situação difícil do pai. Apesar de tudo, Saku se beneficiou por ter sua mãe como aliada naquela ocasião.

Intimidado pela esposa, o pai de Saku relutantemente cedeu sua posição como líder do clã. Sem nem sequer esperar para ver Saku estabelecido no posto, ele partiu em uma jornada solitária para curar suas feridas.

Por sua vez, Saku sentiu-se revigorado com a partida de seu pai problemático. O restante da sucessão transcorreu sem problemas. Ele assumiu o controle da barreira de proteção do pilar.

Com sua mãe supervisionando todos os detalhes e preparativos para a cerimônia de sucessão, ele pôde focar toda a sua atenção na transferência da barreira.

Ele era grato a ela por isso, mas apenas por isso.

Quando se viu cercado por mulheres na noite da cerimônia, arrependeu-se de ter confiado toda a organização à mãe. Ele havia cometido um erro grave.

Claro, Saku não era desprovido de compreensão.

Ele havia sucedido à família sem uma esposa. Agora ele precisava encontrar uma mulher, quanto antes melhor.

Ele entendia o que precisava fazer, mas não sentia nada além de exaustão cercado por aquele bando de mulheres, com os olhos brilhando maliciosamente.

Saku nunca tivera muito interesse por mulheres. Não era que ele se sentisse atraído por homens. Era que as mulheres lutavam com unhas e dentes por um lugar ao seu lado desde que ele era jovem. Tendo enfrentado a fome e a avareza delas a vida inteira, era natural que tivesse desenvolvido uma aversão. Ele não tinha a menor intenção de passar o resto da vida com uma mulher que desejasse apenas dinheiro e poder.

Tudo o que ele queria era resolver aquela decisão o mais rápido possível.

Ele se casaria com uma mulher que tivesse as habilidades e o talento condizentes com a matriarca do clã e mãe do futuro herdeiro. Ele poderia ceder pelo menos até esse ponto.

Foi por isso que, durante a cerimônia, ele chamou à frente a jovem de quem segundo os rumores, conseguia invocar um shikigami humano, apesar de ter nascido em uma família secundária.

A jovem se apresentou como Hazuki Ichise. Saku ordenou que ela invocasse seu shikigami, e ela o fez.

O shikigami humano que se manifestou de fato possuía grande força.

No entanto, ficou bem abaixo do que Saku considerava a nota mínima de aprovação. Sua decepção foi ainda maior por conta das altas expectativas que ele tinha.

Durante o banquete, ele correu os olhos pelo salão, e seu olhar pousou na única jovem que não fazia parte do tumulto ao seu redor. Ela comia sua refeição sozinha, em silêncio. Na verdade, ela não demonstrava o menor interesse por ele.

Seu interesse foi despertado. Foi então que percebeu que ela parecia quase idêntica a Hazuki Ichise. Ela devia ser a outra metade das gêmeas Ichise, a que era considerada um resto.

Mas por quê? Pelo que Saku conseguia pressentir, ela não parecia ser fraca o suficiente para merecer tanto desdém.

De qualquer forma, todos os pensamentos sobre a gêmea misteriosa foram logo relegados a um canto de sua mente, pois não muito tempo após a cerimônia, os ataques das sombras escalaram.

O aumento era uma consequência esperada da transferência de barreira. Na verdade, era o primeiro desafio que todo novo chefe de clã precisava superar.

Ao lado de seus deveres remendando a barreira de proteção, Saku também ajudava a controlar a investida das sombras.

Pouco tempo após a cerimônia, ele foi informado de que as sombras haviam invadido uma casa abandonada. Ele foi até o local para dar apoio e, ao chegar, deparou-se com pura confusão e caos.

As sombras eram fracas, mas em grande quantidade. Enquanto ele trabalhava para reduzir os números delas, os estudantes corriam de um lado para o outro em pânico. Ele desesperou-se com o futuro ao vê-los tão intimidados por meros fracotes. Parecia se lembrar de que, na sua época de estudante, ele e seus colegas de classe eram muito mais capazes.

Tudo fez sentido quando ele descobriu que os alunos ali presentes eram da Classe C.

No entanto, o fato de haver sombras suficientes para exigir a mobilização dos alunos da Classe C, para início de conversa, o deixou perturbado.

Não havia tempo a perder. Ele precisava remendar a barreira, e rápido. Para conseguir isso, precisava do apoio de uma esposa forte.

Foi então que Saku conheceu ela.

No dia seguinte à batalha na casa abandonada, Saku sentiu a presença de uma sombra muito mais forte do que os pequenos incômodos do dia anterior. A sensação vinha da direção de um parque, e ele correu para lá o mais rápido que pôde.

Ao chegar, três pessoas já estavam no local e destruíram a sombra sem sequer suar.

Saku soube imediatamente que dois dos três eram shikigamis, mas nunca tinha ouvido falar de nenhum praticante que conseguisse invocar dois shikigamis humanos ao mesmo tempo. Como líder do clã, esse tipo de informação deveria ter chegado a ele na mesma hora.

Ele se aproximou da pessoa e viu que ela usava o uniforme do Colégio Obsidiana. Ficou surpreso por uma praticante tão capaz ser mais jovem que ele. Ele não conseguia se livrar da sensação de já ter visto aquele rosto antes, mas simplesmente não conseguia se lembrar de onde.

Ele pretendia descobrir mais sobre ela, mas a garota bateu em retirada antes que ele pudesse dizer qualquer coisa.

"Mestre, devemos segui-la?", — uma garota de marias-chiquinhas e uniforme de empregada surgiu de repente ao lado dele. Era a shikigami de Saku, Tsubaki.

"Não", — disse ele. — "Vou pedir para alguém investigar assim que voltarmos para casa. Ela estava usando o uniforme do Obsidiana. Vai ser fácil de encontrar."

"Uuuh, que cara assustadora...", — comentou Tsubaki.

O sorriso de Saku era puramente predatório. — "Vamos para casa."

E assim eles retornaram à residência Ichinomiya.

Antes que Saku pudesse se enclausurar em seu quarto, foi encurralado por sua mãe. Ele já previa sobre o que ela queria conversar.

"Já encontrou uma moça adequada para ser sua noiva, Saku?", — perguntou ela.

Ultimamente, ela lhe fazia essa pergunta pelo menos uma vez por dia.

Mas, naquele dia, Saku tinha uma resposta diferente da de costume. — "Sim, mãe. Tem uma garota que despertou o meu interesse."

Sua mãe certamente esperava que ele dissesse não, e seus olhos se arregalaram diante da resposta surpreendente.

"Ah... Onde foi que vocês se...? Esqueça. Bem, então, quem é ela?", — perguntou ela, hesitante.

"Quem sabe?", — respondeu ele, descontraído.

"Como é que é? O que significa isso?", exigiu ela.

"Eu ainda não sei o nome dela, mas pretendo descobrir."

Sua mãe estreitou os olhos em desaprovação diante da resposta. — "Em outras palavras, nada mudou, não é? Escute, é crítico que você se case se quiser restaurar a barreira", — repreendeu ela. — "Se você não consegue escolher uma candidata adequada, então cogite convidar de volta a Senhorita Hazuki, da família Ichise. Ela possui um shikigami humano. Com certeza ela é satisfatória."

"Sim, é verdade, a família Ichise. Hmm... Ichise?" Saku pausou, e as lembranças das filhas da família Ichise passaram voando por sua mente. Em particular, o rosto da gêmea "resto" surgiu em sua cabeça.

Ele soltou uma risada baixa.

Sua mãe o observou rir de forma suspeita. — "O que exatamente é tão engraçado?"

"Não estou rindo da senhora, mãe. Eu apenas deixei passar o que estava bem debaixo do meu nariz. Este mundo é mesmo pequeno." — Ele se endireitou e olhou diretamente para a mãe. — "Por favor, fique tranquila. Prometo que trarei uma noiva para casa em breve."

"Você não vai me decepcionar?" — Ela ainda parecia desconfiada, mas, temporariamente acalmada pela resposta séria de Saku, retirou-se.

Saku entrou em ação imediatamente. — "Hora de eu dar uma olhada na filha mais nova dos Ichises."

◆

Uma semana se passou voando após o encontro de Hana com Saku.

No começo, ela viveu com medo, assustando-se com a própria sombra. Ela mantinha uma vigilância cautelosa ao seu redor no caminho de ida e volta da escola, sem saber quando Saku apareceria bem na sua frente. Ela devia parecer extremamente suspeita para quem quer que a observasse.

No entanto, ao contrário de seus temores, Saku nunca apareceu, e ela gradualmente esqueceu a ansiedade.

Foi então que soprou o vento do destino que mudaria sua vida para sempre.

Certo dia, no caminho de volta da escola, um carro de luxo preto emparelhou ao lado dela. Muitos dos alunos do Colégio Obsidiana vinham de famílias ricas, então carros de luxo eram uma cena comum. Até a família de Hana era rica o suficiente para contratar empregados. Na verdade, Hazuki ia de motorista particular. Hana achava esse tipo de arranjo sufocante e preferia ir a pé.

O carro preto parou bem ao lado de Hana.

Ela não prestou atenção e continuou andando, mas um homem de terno saiu do banco do motorista e se plantou na frente dela, bloqueando seu caminho. Ela olhou para cima, incomodada.

O homem sorriu gentilmente em uma tentativa de suavizar a desconfiança dela e perguntou: — "Senhorita Hana Ichise, presumo?"

Apesar disso, era difícil relaxar quando um estranho se aproximava de você e a chamava pelo nome. Ela se preparou para dar no pé a qualquer momento.

O homem ficou desconcertado com a atitude arisca dela e correu para tranquilizá-la. — "P-por favor, espere! Eu não sou um indivíduo suspeito."

"Ahhh, claro que não. Como se isso não fosse exatamente o que alguém com segundas intenções diria", — Hana disparou.

"Não, eu juro!", — disse ele.

Ela continuou irredutível diante dos apelos desesperados dele.

"O mestre apenas deseja conversar com a senhorita, Senhorita Hana. Por favor, poderia entrar no carro?", — o motorista tentou convencê-la.

"Não vou", — respondeu ela, ríspida.

Ela fez menção de passar, mas ele segurou seu braço.

"Eeyah! Me solta, seu tarado! Esquisito!"

"A-a senhorita está enganada. Isso é tudo um mal-entendido! Eu imploro. Por favor, escute..."

"Polícia! Ele está tentando me sequestrar! Socorrooo!"

[Pipoc4h: Alô 190? Tem um homem tentando levar uma menina pra dentro do carro à força.]

No entanto, os gritos de Hana só deixaram o homem mais nervoso, e ele a segurou com ainda mais força, o que por sua vez fez Hana gritar ainda mais alto.

Eles estavam presos nesse ciclo interminável de puxões e berros quando o passageiro saltou do banco de trás do carro. — "Meu Deus. O que está acontecendo aqui fora...?"

Aquela voz exasperada parecia terrivelmente familiar. Hana tinha a impressão de tê-la ouvido não fazia muito tempo.

Ela parou de se debater e se voltou para o passageiro. Parado ao lado do carro estava a pessoa que ela menos queria ver em todo o universo: Saku Ichinomiya.

"Merda!", — a expressão de Hana se contorceu de aborrecimento.

Irritado, Saku rebateu: — "'Merda'? Essa é a maneira correta de se dirigir ao chefe do seu clã?"

"Ah, nossa, o senhor deve ter ouvido errado. Eu não disse nada disso. Oh-hohohoho", — Hana riu para disfarçar o deslize.

Saku a encarou, mas deixou o assunto para lá, para o alívio de Hana.

Mas aquilo não significava que ela já estava livre.

"Tenho negócios a tratar com você. Entre", — ordenou ele.

"Posso recusar?"

"Você quer que todo mundo saiba o que aconteceu no parque no outro dia? Se quiser, por mim tudo bem", — respondeu ele com um sorriso diabólico que o fazia parecer mais um criminoso do que o líder de um dos cinco grandes clãs.

No entanto, no que dizia a respeito de Hana, mesmo que Saku espalhasse o que ela fizera no parque, ninguém acreditaria nele. Então...

"Hum, não faço a menor ideia do que o senhor está falando." — Ela se fez de sonsa.

Saku estreitou os olhos. — "Acho que vou ter que contar aos seus pais que você me chamou de tarado", — ameaçou ele.

"Agh! Tá bom, tudo menos isso!!", — exclamou ela. Uma acusação dessas geraria um drama familiar insuportável.

"Então pare de reclamar e entre. Estou ocupado."

"Que cara mais arrogante. Não é como se eu tivesse pedido para o senhor vir me importunar", — resmungou ela entre dentes.

"Você disse alguma coisa?"

"Não, nadinha!"

O homem tinha ouvidos de morcego. Conseguia captar até o mais baixo dos sussurros. Estremecendo, Hana subiu contrariada no banco de trás do carro.

O motorista ficou do lado de fora, então eram apenas os dois.

Como Hana não fazia ideia do que Saku queria conversar, ela estava incrivelmente ansiosa.

Por sorte, ele não a fez esperar.

"Eu detesto rodeios, então serei direto", — disse ele. — "Seja minha noiva."

"Nem pensar."

"............"

Hana o rejeitou sem um segundo de hesitação. A recusa instantânea dela o deixou completamente sem palavras.

Hana aproveitou-se da confusão dele para alcançar a maçaneta da porta e declarar: — "Prontinho. Se era só isso, já vou indo!"

"Ah, espera aí! Eu ainda não acabei..."

Mas ninguém em sã consciência esperaria obedientemente após receber uma ordem daquelas, então, o que quer que Saku tenha dito, Hana não ficou para ouvir. Ela saltou do carro mais rápido do que jamais havia corrido na vida e disparou em direção a casa.

"Mestra..." — Aoi podia estar invisível, mas Hana conseguia sentir o desejo ardente dele de falar.

"Eu não ouvi nada! Está me ouvindo? Absolutamente nada!" — Ela tapou as orelhas com as mãos, como se tentasse convencer a si mesma.

Ela sentia como se tivesse escutado algo além da imaginação, mas certamente sua mente estava apenas pregando uma peça nela. Com certeza. Essa era a única explicação.

Por favor, que seja só isso.

Hana rezou fervorosamente.

◆

A manhã nasceu logo após aquela conversa digna de um pesadelo.

Hana ordenou que Aoi e Miyabi ficassem em casa e, como era de se esperar, ambos expressaram imediatamente seu descontentamento.

"Por qual razão, Mestra?", — Miyabi perguntou, inclinando a cabeça com curiosidade.

"Eu vou com você não importa o que aconteça", — insistiu Aoi.

"Não é não", — cortou Hana.

"Mas por quê?!", — Aoi recusou-se a aceitar a ordem ou a deixar o assunto de lado.

"Vocês dois viram o líder do clã ontem, certo?"

"Sim, mas o que isso tem a ver?", — Miyabi questionou.

"Vocês não perceberam? Nenhum de vocês estava visível, mas aquele homem foi capaz de detectar exatamente onde vocês estavam. Ele olhou direto na direção de vocês."

"...!"

Nenhum dos dois tinha reparado e ambos ficaram chocados e sem palavras diante da revelação de Hana.

"Eu não sei o que ele queria comigo...", — murmurou Hana.

"Sua mão em casamento?", — sugeriu Miyabi.

Aoi assentiu. — "Uhum. Foi o que ele disse."

"Sem chance! A Hazuki, quem sabe, mas eu? Por favor. Que piada", — desdenhou Hana.

Ela não era boba a ponto de levar aquela baboseira sobre casamento ao pé da letra. Ele com certeza tinha segundas intenções.

"De qualquer forma, até que eu consiga determinar quais são os motivos dele ou garantir que ele nunca mais chegue perto de mim, eu me recuso a levar vocês dois comigo. Se as pessoas descobrirem sobre vocês, vai estragar completamente os meus planos para o futuro."

"E quais seriam exatamente esses planos, Mestra?", — perguntou Aoi.

"Viver uma vida o mais distante possível dos praticantes", — declarou Hana. — "Vou conseguir um emprego em uma empresa normal, economizar para a aposentadoria e aproveitar a minha velhice ao máximo!"

"Ora, ora, você não planeja se casar, então?", — Miyabi perguntou com desconfiança. Hana havia deixado o casamento de fora da linha do tempo que acabara de apresentar.

"Eu não saberia como explicar vocês dois para um marido, se por acaso encontrasse um. Deus me livre se a fofoca chegasse aos meus pais e eles me arrastassem de volta para aquela casa. Não, obrigada. Vou continuar solteira. Não ficarei sozinha desde que tenha vocês dois."

"Será que tudo vai acontecer de acordo com o seu plano perfeito?", — refletiu Miyabi.

"Vou garantir que sim. Todo mundo merece viver a velhice com conforto e sem preocupações."

Hana estava resoluta. Ela não tinha a menor intenção de se atirar em um mundo de lutas e violência. Queria viver de forma segura e livre.

"Então, para concluir, sinto muito, mas vou deixar vocês dois cuidando da casa por enquanto", — disse Hana.

Aoi e Miyabi balançaram a cabeça em sinal de exasperação, mas também com afeto. Por fim, eles cederam e assentiram.

Dito isso, era um risco muito grande para Hana sair completamente sozinha, então Azuha, que normalmente ficava em casa, a acompanhou até a escola. Como a borboleta era pequena, quando ficava empoleirada imóvel no cabelo de Hana, à primeira vista parecia uma presilha comum.

Hana foi para a escola com Azuha e assistiu às aulas como de costume, mas no caminho de volta para casa deparou-se com uma cena desagradável.

Saku a esperava ao lado do mesmo carro de luxo preto do dia anterior. Ele estava com as pernas firmemente plantadas e os braços cruzados.

Ele não se moveu quando ela se aproximou, mas seus olhos correram ao redor dela, como se estivesse procurando por algo. Após um instante, ele disse: — "Você não trouxe aqueles dois com você hoje."

O coração dela parou por um segundo. — "O-o que o senhor quer dizer com isso?"

Foi como pensou. Ele conseguia sentir a presença de Aoi e Miyabi — e a falta dela.

Podia ser inútil se fazer de sonsa, mas ela certamente não iria confirmar as suspeitas dele.

"...Bem, esqueça isso. Mais importante, sobre a nossa conversa de ontem", — disse Saku.

"Ahhh, o comentário bobo que eu ouvi errado, o senhor quer dizer? Minha audição anda tão terrível ultimamente. Peço desculpas", — Hana disse com leveza.

"Você não ouviu errado. Seja minha noiva."

"............"

Hana correu sem dizer mais nenhuma palavra.

"Ei! Volta aqui!", — Saku gritou. Ao contrário do dia anterior, dessa vez ele correu atrás. Como a passada dele era mais longa, com certeza a alcançaria em pouco tempo.

Sem outra escolha, Hana clamou: — "Azuha, Enfeitice!"

"Sim, Mestra."

Azuha desandou a voar para longe do cabelo de Hana e começou a girar em círculos no ar, como se estivesse dançando. Ao fazer isso, ela convocou uma névoa que ocultou Hana de vista.

"Que diabos é isso?!"

O grito de choque de Saku desapareceu na distância atrás de Hana enquanto ela fugia.

No dia seguinte à sua fuga bem-sucedida, ele apareceu novamente.

No segundo em que Hana avistou Saku esperando por ela à distância, ela deu meia volta e pegou um caminho alternativo para casa.

E de novo no dia seguinte.

Saku a emboscou em sua rota secundária. As primeiras palavras que saíram da boca dele foram: — "Quero fazer de você minha esposa. Me escuta."

Hana limitou-se a dizer — "Não, obrigada" — e usou os poderes de Azuha para dar no pé dali.

No dia posterior a esse, Saku surgiu mais uma vez, dizendo — "Seja minha noiva", — e Hana fugiu mais uma vez.

O maldito jogo de pega-pega repetiu-se mais algumas vezes, até que Hana finalmente se cansou daquilo.

Ela armou-se de coragem para confrontá-lo. O que raios Saku poderia querer dela para persegui-la com tanta persistência? Ela iria fazê-lo revelar suas verdadeiras intenções de uma vez por todas.

[Pipoc4h: Eu acho, tipo só acho, que ele quer que você seja a noiva dele.]

Naquele dia, quando Saku previsivelmente apareceu na frente dela, ela manteve-se firme em vez de correr.

"Cansou de brincar de pega-pega?", — provocou Saku. Um canto de sua boca curvou-se em um sorriso de lado.

Hana ergueu as mãos em sinal de rendição. — "Cansei de ser perseguida por um stalker. Vou escutar o que você tem a dizer."

"É o que deveria ter feito desde o começo", — disse ele com arrogância, soltando um bufo de desdém. Ele apontou o queixo na direção do carro. — "Entra."

Hana ficou irritada com aquela atitude imperiosa, mas engoliu a raiva e subiu no carro como lhe fora ordenado.

O motorista deu a partida e os levou até um hotel de alta classe. Eles entraram e foram guiados pela equipe até uma sala de jantar privativa.

"Tem algo que queira comer?", — Saku perguntou.

"Não, obrigada", — respondeu Hana.

"Como quiser. O warabi mochi daqui é muito bem avaliado, mas se você insiste, eu como sozinho..."

"Eu vou comer", — disse ela, mudando de ideia na mesma hora. Doces eram o seu ponto fraco.

Em pouco tempo, os funcionários trouxeram o warabi mochi acompanhado de chá sencha, deixando os dois sozinhos para conversarem.

Hana ficou hipnotizada pela sobremesa de mochi gelada, macia e delicada. Ela pegou o celular e começou a tirar foto atrás de foto, com a câmera disparando a cada clique. Saku a observava, com a paciência esgotando-se a cada segundo.

Finalmente, ela pousou o aparelho.

"Satisfeita?", — ele perguntou.

"Sim. Hora da bóia!" — Ela espetou um pedaço do mochi com o palito de bambu e deu uma mordida. Fechou os olhos e saboreou a deliciosa iguaria, derretendo-se na doçura celestial do doce.

"...e... por isso... Ei!"

Hana foi despertada de seu estado de transe por um golpe de karate no topo da cabeça. — "Isso doeu! Qual é a sua?!", — queixou-se.

"Você não está ouvindo uma única palavra do que eu estou dizendo!", ele gritou.

"Isso não te dá o direito de me bater!", — rebateu ela. — "Vou te denunciar."

"Tenta. Duvido. Eu sou o chefe de todo o clã Ichinomiya. É uma batalha perdida para você."

"Tsc."

Era frustrante, mas ele estava certo. Como líder do clã, ele tinha a autoridade para transformar o preto em branco. Não importava se ele era culpado.

"Então, com a devida permissão de Vossa Senhoria, por que o seu ser tão exaltado estaria interessado em uma garota humilde como eu?!"

"Para com esses honoríficos e tudo mais. Você está misturando linguagem informal e formal o tempo todo. Só fala normal", — disse ele.

"Tá bom. Com todo prazer. Então, por quê?" — Ela jogou a etiqueta direto pela janela, sem hesitar.

"Você mudou bem rápido... Bem, tanto faz. Vou dizer de novo. Seja minha noiva. Quero firmar um casamento de fachada com você."

"Um casamento do quê?" — Ela não entendeu. — "...Tem tanta coisa que eu quero perguntar que nem sei por onde começar."

"Vou explicar do começo. Dessa vez, escute com atenção."

"Tá, tá bom." — Hana deixou o palito de lado. Aquela não era hora para ficar comendo warabi mochi.

"Você sabe, é claro, que assumi recentemente o comando do clã", — começou Saku. — "Infelizmente, a transferência de poder sempre resulta em um enfraquecimento temporário da barreira, o que por sua vez leva a um surto de ataques de sombras."

"Uhum."

"Tenho canalizado minha energia na barreira para reestruturá-la, mas, na verdade, isso não pode ser feito por uma única pessoa. Agora, isso é um segredo guardado apenas por membros selecionados da família principal, mas a barreira só pode ser reparada com a energia de um cônjuge como suplemento" —, explicou ele. — "Eu ainda não sou casado, mas é imperativo que encontre uma noiva poderosa o mais rápido possível. E foi aí que você apareceu."

Hana ergueu a mão imediatamente. — "Pergunta!"

"O que foi?"

"Se tudo o que você precisa é de alguém com poder suficiente para consertar a barreira, não precisa ser uma esposa, precisa?"

"A barreira precisa tanto de energia yin quanto yang para ficar completa. Energia feminina e masculina, em outras palavras. A energia das duas pessoas precisa ser equivalente em força, e ter duas pessoas com laços próximos é o ideal. Se eu tivesse uma irmã mais nova, ela potencialmente poderia cumprir o papel. No entanto, só tenho um irmão mais mais novo, e há uma lacuna enorme entre as nossas habilidades. Fora parentes de sangue, a única outra pessoa apta a complementar o líder da casa é um cônjuge."

"E a sua mãe?"

"Minha mãe é fraca. A diferença entre nós é grande demais. Ela mais atrapalharia o processo de reparo do que ajudaria."

Hana entendeu mais ou menos o que ele estava tentando dizer. Pelo bem da barreira, ele precisava de uma esposa poderosa — quanto antes melhor —, e era por isso que a cerimônia de sucessão funcionara também como uma sessão de encontros arranjados. Até aí, ela conseguia aceitar a explicação dele.

"Então por que está me propondo isso?", — ela perguntou.

"Eu vi você exorcizar a sombra e vi o seu shikigami. Você tem outro com você. Ali." — Saku olhou perto da cabeça de Hana.

Hana ergueu um dedo até o rosto e Azuha pousou nele. — "Como pode ver, esta pequenininha é do ranque mais baixo que um shikigami pode ter."

"Não me venha me misturar com a plebe. Consigo perceber que ela está abrigando — e suprimindo — uma quantidade considerável de poder."

Como esperado do líder do clã Ichinomiya, a verdadeira força de Azuha não escapara à sua atenção.

"E você também. Está escondendo isso, mas é uma baita de uma força da natureza", — continuou ele.

"É impressão sua", — disse ela.

"Mas por que se esconder? Com o seu talento e força, você nunca mais precisaria ser chamada de o 'resto' da sua irmã."

Hana percebeu que ele era um oponente difícil de enganar.

Não importava o quanto ela tentasse desviar das perguntas dele, não conseguia abalar a convicção dele de que ela era forte.

Hana respirou fundo e soltou um suspiro. — "A Hazuki não serve?"

"Não serve. Pedi para ela me mostrar o shikigami dela. Os poderes dela estão muito abaixo dos meus requisitos mínimos."

"Eu não sou a mesma coisa?"

"Não. Eu não sou tão inexperiente a ponto de avaliar mal o nível de alguém. Você está anos-luz acima da sua irmã, forte o suficiente para me fazer oferecer a posição ao meu lado", — disse ele. — "Além disso, você não fica se desdobrando para me agradar. Isso, mais do que tudo, me intriga."

Era quase revigorante o tamanho da confiança que ele tinha em si mesmo.

Ele era um praticante da Quinta Cor. Talvez devesse seu pingente de obsidiana justamente a essa fé inabalável.

Hana só tinha uma coisa a dizer ao homem autoconfiante sentado diante dela. — "Eu recuso."

"Seu motivo?", — ele perguntou.

"Não tenho intenção de ostentar meus poderes para ninguém. Tudo o que quero é me formar em segurança e passar a minha vida longe de qualquer coisa relacionada a praticantes. Vou arrumar um emprego normal, trabalhar até a aposentadoria, construir uma casa em algum lugar no interior e viver o resto dos meus anos em paz. Meus planos não incluem me casar com você", — Hana disse, rejeitando Saku categoricamente. O olhar que ela direcionou a ele era firme e refletia sua clara determinação.

"Como eu disse antes, nosso casamento não passará de um acordo contratual. Assim que as condições forem cumpridas, você será compensada adequadamente."

"Não preciso. Vou ganhar a vida sem nada disso."

"Como?" — Os lábios de Saku inclinaram-se em um sorriso astuto.

Hana teve um mau pressentimento.

Ele continuou: — "Você estava planejando buscar uma vaga em uma das subsidiárias dos Ichinomiya, não estava?"

Como ele sabia daquilo? Não, que pergunta estúpida. Claro que ele tinha investigado a fundo a pessoa que estava considerando para ser sua esposa. Era preciso investigar antes de trazê-la para a família.

"S-sim, eu estava...", — respondeu ela, contrariada.

"Você acha mesmo que eu pensaria duas vezes antes de mexer os meus palzinhos para garantir que cada uma dessas portas se fechasse para você?"

"O quê?! Isso é golpe baixo!" — Hana levantou-se, batendo as mãos na mesa, movida mais pela raiva do que pela razão.

"Diga o que quiser. Eu consigo o que quero, não importa os meios."

"Você é um pé no saco!"

"...Assim que o contrato for cumprido, você receberá a quantia de um bilhão de ienes, junto com terras em seu nome onde bem desejar. Uma casa também será construída para você. Se ainda desejar trabalhar em uma de nossas empresas, poderá escolher o cargo que quiser, com um salário alto e um bônus de aposentadoria generoso, o que vai te permitir curtir a vida adoidado na sua velhice."

"..."

Tentador. O pensamento passou pela mente de Hana sem querer, antes que ela recobrasse o juízo.

Ela balançou a cabeça para clarear os pensamentos. — "Não, não, não, não, não, não vou ser enganada. Se eu te ajudar, vou acabar sendo arrastada para o trabalho de praticante."

"E isso é diferente de como você vive agora? As sombras não estão te atacando regularmente de qualquer forma? Foi o que aconteceu no parque, não foi?"

"Ugh..." — Palavras de contra-argumento recusaram-se a sair. Tudo o que ele dizia era verdade.

"Vai haver um alvoroço, com certeza, mas se você for a minha noiva, eu te protejo de qualquer retaliação da sua família", — prometeu Saku. — "E então? Não quer ver a cara dos seus pais quando descobrirem que a filha que eles descartaram como inútil vai se tornar a matriarca da casa principal?"

[Pipoc4h: Jogou baixo, deu uma motivação muito boa pra menina aceitar]

Quando ele colocou as coisas daquele jeito, ela só conseguia responder que sim. Sim, ela queria ver. Ela queria muito, muito mesmo.

Hana, aquela que seus pais haviam abandonado, era a escolha de Saku. Não Hazuki, que era amada por todos e mimada, mas Hana.

Para os pais dela, não haveria ofensa maior.

"Além disso, não ache que vai conseguir se esconder a vida inteira. Eu não sou o único com instintos afiados. Mais cedo ou mais tarde, outra pessoa vai notar e, quando esse momento chegar, não seria reconfortante ter o poder do clã Ichinomiya cobrindo as suas costas?"

"Isso..."

Hana apoiou a cabeça nas mãos. A possibilidade que Saku descrevia não estava fora de questão. Ela andava preocupada exatamente com esse cenário desde que Saku descobrira seu segredo.

"...Até agora, eu fui feita de boba repetidas vezes", — disse Hana. — "Eu me recuso a me tornar a ferramenta das mesmas pessoas que me ridicularizaram, só para eles mudarem da água para o vinho assim que descobrirem sobre os meus poderes despertados."

"Com certeza. Eu vou te proteger desse tipo de escória."

"Eu quero viver em paz com os meus shikigamis no interior depois que me aposentar."

"Assim que o contrato for cumprido, você estará livre para viver como quiser. Terá uma casa para seu uso pessoal e todo o dinheiro que puder desejar."

Saku estava marcando cada uma das exigências de Hana, uma por uma.

Ela não poderia pedir condições melhores do que aquelas. Estava ficando sem objeções.

"Gah! Isso é enfurecedor!" — Ela sabia que sua melhor escolha era aceitar a proposta de Saku, mas estava irritada por cair direitinho nas mãos dele.

"Não há motivo para ficar aflita. Você tem muito a ganhar com esta transação."

"E o mesmo tanto a perder...", — resmungou ela.

"Podemos considerar o negócio fechado?" — Saku estendeu a mão direita.

Ela hesitou, mas apenas por um breve instante, antes de apertar a mão oferecida. — "Você vai cumprir as suas promessas?"

"Vou", — disse ele. — "Prazer em fazer negócios com você, Hana." O sorriso que acompanhou suas palavras foi amigável, sem qualquer sinal de segundas intenções.

Hana ficou chocada ao ouvir seu nome sair da boca dele acompanhado daquele sorriso aberto, mas recusou-se a deixar que ele percebesse que a havia abalado. Ela desviou o olhar e disse: — "O mesmo digo eu... Senhor Ichinomiya."

"Resposta errada. Tenta de novo!"

O descontentamento estampou-se nas feições de Saku, mas ela não conseguia entender o porquê. — "Como é?"

"Acabamos de concordar em nos casar e você vem me chamar de Senhor Ichinomiya. É Saku."

"Acho que mal faz diferença... Tá bom. Saku, então. Saku."

Ela fizera o que ele pediu, mas ele franziu a testa mesmo assim. — "Normalmente, você adicionaria um honorífico ou algo do tipo, não? Eu sou mais velho que você, afinal de contas."

"Você vai ficar calvo se ficar encucando com cada detalhezinho. Está bom assim, não está? Parecemos iguais desse jeito."

"Justo."

Foi assim que, por alguma reviravolta do destino, Hana tornou-se a noiva contratual do líder do clã Ichinomiya.

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Fim da leitura

Capítulo 3 concluído

Volume 1 – Capítulo 2