Nossos 28 Dias Com Vontade de MorrerOne Shot – Capítulo 3 – Capítulo 3: 11-17 de Outubro
Capítulo 3A segunda semana do meu processo de morrer havia começado.
O que aquela primeira semana me fez perceber foi o quão pouco eu realmente sabia sobre Rui-kun — meu suposto rival nesta disputa.
Se eu perguntasse aos meus amigos, provavelmente conseguiria descobrir mais sobre o ‘Kiryu-kun’.
Mas isso parecia superficial, algo diferente do “Rui-kun” que eu precisava compreender.
Nesse estado, por mais que eu pensasse a respeito, não conseguia descobrir como fazer Rui-kun admitir que eu era quem mais desejava morrer.
Mesmo quando eu enchia meu caderno com palavras desconexas, o motivo pelo qual eu queria morrer não passava de um simples “não sei por que estou viva”.
Em contrapartida, Rui-kun tinha um motivo real.
Tanto em relação ao irmão mais velho quanto à discrepância entre quem ele era na escola e quem ele realmente era.
Rui-kun havia me dito que não saber o motivo de estar vivo era “um motivo perfeitamente válido para eu, Mikami, querer morrer”.
Mas, assim como Haku disse, eu não conseguia deixar de sentir que o desejo de Rui-kun era mais forte que o meu.
Como eu poderia provar que meus sentimentos eram mais intensos?
“E aí, fiquei tão irritada que liguei o aquecedor!”
De repente, a voz de Honami cortou meus pensamentos, trazendo-me de volta à realidade.
Ao olhar ao redor, percebi que estava na sala da turma 2-3 e que Honami, sentada ao meu lado, estava no meio de um desabafo indignado.
“O aquecedor? Sério?”
“Porque, mesmo estando obviamente quente, ele se enrolou num cobertor, ficou dizendo ‘tô com taaanto frio’ e isso me deixou uma fera!”
Percebendo que eu havia me perdido em pensamentos sobre o dia anterior enquanto ela falava, tentei desesperadamente me lembrar da parte da história de Honami que eu tinha perdido.
Eu tinha quase certeza de que ela estava falando de uma briga com o irmão mais novo.
O irmão de Honami, que cursava o primeiro ano do ensino fundamental II, parecia estar passando por uma fase rebelde e frequentemente brigava com ela por qualquer bobagem. Entrei na conversa, aproveitando o gancho do que Kiho-chan havia dito, já que ela vinha falando comigo desde aquele incidente recente.
“Se ele estava com frio, ele não ficaria feliz se você ligasse o aquecedor?”
Quando fiz essa pergunta óbvia, Honami riu e balançou o dedo indicador de um lado para o outro.
“Como se eu fosse fazer algo para deixá-lo feliz. Isso é a Operação ‘O Vento Norte e o Sol’.”
“‘O Vento Norte e o Sol’? Tipo a fábula de Esopo?”
[Sol: O Vento Norte e o Sol é uma fábula de Esopo em que os dois disputam quem é mais forte: o Vento sopra com violência para arrancar o casaco de um viajante, mas só faz o homem se agarrar mais a ele; o Sol, então, brilha com suavidade, e o viajante tira o casaco por conta própria. A moral é que brandura e persuasão vencem a força. Na história, a “Operação Vento Norte e Sol” sugere justamente uma estratégia psicológica: em vez de simplesmente agradar ou pressionar, alternar frieza e calor para que o outro abaixe a guarda e se abra por vontade própria.]
Honami assentiu vigorosamente enquanto eu me lembrava de uma cena de um livro ilustrado que li há muito tempo, onde uma nuvem de lábios franzidos soprava um vento frio em um viajante.
“Exatamente. Pensei que, se ele dissesse que estava com frio, eu deixaria o ambiente tão quente que ele não conseguiria mais dizer isso.”
“Faz sentido.”
Há um limite para o quanto alguém consegue continuar insistindo que está com frio.
Parecia que a lógica da Honami era que, se ela aumentasse a temperatura de uma sala que já estava quente, ele seria forçado a parar de reclamar.
Eu não entendia muito bem a lógica, mas compreendia mais ou menos o que ela queria dizer.
“Então, o que aconteceu?”
Honami fez o sinal de paz e amor para a Kiho-chan, que achava graça da situação.
“Perfeito! Consegui fazer com que ele dissesse que não estava mais com frio e pedisse para eu parar, então eu ganhei!”
“Deve ter ficado muito quente mesmo.”
Fazer parecer que ela havia cedido à reclamação do irmão, enquanto na verdade o forçava a voltar atrás, foi uma estratégia e tanto.
“……O Vento Norte e o Sol.”
Senti que a história da Honami tinha me dado uma ideia.
A aula começou logo depois, e fiquei matutando essa ideia enquanto ouvia a lição de japonês.
O motivo pelo qual eu queria morrer jamais poderia superar o do Rui-kun.
Nesse caso, talvez eu só precisasse fazer com que o motivo dele parecesse menor.
Ou melhor ainda: se eu conseguisse fazer com que ele parasse de querer morrer de vez...
Não, talvez eu devesse apenas dar a ele um motivo para querer viver. Se eu fosse a única que restasse querendo morrer no final, Haku não teria escolha a não ser levar a minha alma.
Ainda faltavam quase três semanas para o fim deste jogo.
Com tanto tempo assim, talvez eu realmente conseguisse dar a Rui-kun um motivo para continuar vivo.
Mesmo que não fosse um motivo decisivo, bastava que eu lhe despertasse o menor apego possível para ficar em vantagem.
“É, eu também vou seguir a estratégia do Vento do Norte e do Sol.”
As palavras que escaparam dos meus lábios se misturaram ao sinal que marcava o fim da aula.
Honami deve ter me ouvido, pois olhou na minha direção enquanto guardava os livros, com uma expressão de leve surpresa.
“Ué, o que está acontecendo?”
“Ah, bem...”
Enquanto eu entrava em pânico, tentando inventar uma desculpa por ter sido ouvida, Honami abriu um sorriso para mim.
“Hmm, não entendi muito bem, mas vou torcer para que dê tudo certo para você!”
Achei a Honami uma pessoa incrível por torcer por mim, mesmo sem entender a situação.
E não era só a Honami.
A Kiho-chan também era uma pessoa maravilhosa; ela sempre me ouvia sem reclamar de nada.
Pouco depois, Honami e Kiho-chan — que tinham vindo até nossas carteiras assim que o intervalo começou — começaram a conversar animadamente sobre uma série que haviam assistido no dia anterior.
Fiquei observando as duas, sem participar da conversa.
Eu sabia que tinha boas amigas.
Mas por que será?
Por que eu ainda me sentia tão distante, mesmo conversando assim?
Embora estivessem bem na minha frente, parecia que estavam em algum lugar muito distante.
Por que eu sentia como se houvesse uma única lâmina de vidro nos separando?
Eu queria ser capaz de amá-las sinceramente, em vez de nutrir esses sentimentos distorcidos.
Se eu conseguisse, tenho certeza de que não sentiria essa vontade de não viver.
Havia um limite para o quanto eu podia pedir informações aos outros colegas.
Se eu perguntasse demais, a notícia poderia chegar aos ouvidos de Rui-kun, e seria ainda mais problemático se as garotas que andavam com ele ficassem sabendo.
Depois de pensar no que fazer, decidi que, por enquanto, tentaria seguir Rui-kun para saber mais sobre ele.
Felizmente, tanto eu quanto Rui-kun fazíamos parte do “Clube de Ir para Casa”.
Ele poderia sair com os amigos depois da aula, mas, se isso acontecesse, eu poderia tentar novamente no dia seguinte.
Afinal, a semana estava apenas começando.
Quando a orientação de fim de tarde terminou, Rui-kun conversou brevemente com alguns amigos antes de encerrar a conversa rapidamente e sair da sala.
Parecia que ele não ia sair hoje, o que era conveniente.
Saí da sala também e comecei a segui-lo imediatamente.
O caminho da escola até o parque era o mesmo que eu fazia.
Bem quando o parque surgiu à vista, logo à frente, Rui-kun virou à esquerda.
Como minha casa ficava à direita, isso significava que ele realmente tinha feito um desvio para me acompanhar até em casa na outra noite.
Embora fosse apenas o distrito escolar vizinho, eu não costumava vir muito a essa área.
Isso porque aquele lado era uma região residencial considerada nobre, e, desde criança, me diziam para não ficar por ali sem motivo.
Foi por isso que, mesmo agora, enquanto caminhava a uma curta distância atrás de Rui-kun, eu me sentia inquieta e ficava olhando em volta.
Fazendo jus à sua reputação de bairro de alto padrão, as casas ali enfileiradas eram, sem dúvida, muito maiores do que a minha...
“O que você está fazendo?”
“Ah!”
Eu devia estar tão distraída olhando em volta que baixei a guarda em relação a Rui-kun. Antes que eu percebesse, Rui-kun estava bem na minha frente, olhando para mim com ar de exasperação.
“E-Ei. Que coincidência.”
“Coincidência, é?”
Rui-kun me lançou um olhar frio e suspirou, como se pudesse ler meus pensamentos.
“Eu estava me perguntando por quanto tempo você pretendia me seguir. Como é o lance? Você é uma stalker ou algo assim?”
“S-stalker?! Que grosseria! Foi pura coincidência! Um acaso! Eu estava apenas caminhando e, por acaso, um colega de classe estava bem na minha frente!”
Tentei vender a história da coincidência, estufando o peito para dar ênfase. Mas...
“O que exatamente há de ‘coincidência’ em alguém que vem me seguindo desde que saímos da sala de aula?”
“Você percebeu...?”
“Era óbvio.”
Desabei, derrotada, ao perceber que ele havia notado minha presença desde o momento em que saímos da sala.
“Então, por que você estava me seguindo?”
Rui-kun encostou-se em um poste próximo e olhou para mim com expectativa. Já que a situação havia chegado àquele ponto, não tive escolha a não ser ser honesta.
“Porque eu queria conhecer melhor o Rui-kun.”
“Eu?”
Os olhos de Rui-kun se arregalaram de surpresa e, logo em seguida, ele exibiu rapidamente aquele sorriso que “Kiryu-kun” sempre usava na escola.
“Ah, entendo. Já saquei. Você estava procurando algum tipo de fraqueza para usar contra mim, não é?”
Rui-kun soltou uma risada de escárnio e me olhou com algo que parecia desprezo.
“Se você acha que pode me ameaçar para eu desistir do meu suicídio, bem, isso não vai...”
“Eu jamais faria uma coisa dessas!”
“Hã...”
Rejeitei a acusação de imediato.
Eu nem sequer tinha pensado em ameaçá-lo.
Por outro lado, já que eu o havia seguido porque queria encontrar um motivo para ele continuar vivendo, talvez não houvesse muita diferença.
Mas Rui-kun havia aceitado o meu motivo para querer morrer — o fato de que eu “simplesmente não queria viver”.
Eu não conseguia negar o desejo dele de morrer daquela maneira.
“...Entendo.”
Murmurando, Rui-kun coçou a cabeça e chutou levemente uma pedrinha que estava a seus pés.
“Então, o que você quer saber?”
“Huh?”
“Estou perguntando o que, especificamente, você quer saber sobre mim.”
“Você vai me responder?”
“Depende da pergunta, mas se for algo sobre o qual eu possa falar, não me importo.”
Como ele estava de cabeça baixa, eu não conseguia ver sua expressão de onde eu estava, mas sua voz soava um pouco tímida. Isso me fez soltar uma risadinha.
“Do que você está rindo?”
“Bem, você foi meio adorável agora há pouco.”
“Eh? Do que você está falando? Nem sei o que você quer dizer. Se for para ficar dizendo coisas sem sentido assim, eu vou embora.”
“Espera! Uma pergunta! Vou fazer uma pergunta!”
Agarrei apressadamente o blazer dele para impedi-lo de ir embora.
Mas, então, fui eu quem hesitou.
Na verdade, eu não tinha pensado em nenhuma pergunta.
Eu o havia seguido por impulso, imaginando que poderia descobrir algo se o fizesse.
Mas, se eu não perguntasse algo agora, Rui-kun certamente iria embora.
É claro que o que eu realmente queria perguntar era “como fazer com que ele quisesse viver”, mas não havia chance de ele responder a algo assim.
Depois de pensar e repensar, finalmente consegui formular uma pergunta.
“Qual é... a sua comida favorita?”
“Espera, você está falando sério?”
Ele olhou para mim com pura exasperação.
Sinceramente, eu estava me perguntando a mesma coisa.
Mas foi o que saiu no calor do momento, então não havia nada que eu pudesse fazer a respeito.
“E-Eu estou falando sério! Então, do que você gosta? Sushi? Curry? Yakiniku?”
Comecei a listar coisas de que os garotos geralmente pareciam gostar, uma atrás da outra.
Mas nada daquilo parecia combinar com Rui-kun, e comecei a me sentir ridícula só de falar.
E Rui-kun parecia sentir o mesmo, pois percebi que ele estava tentando não rir.
“Do que você está rindo?”
“Você também está rindo, Ema.”
“Porque a situação ficou ridícula.”
“Eu sei. ‘Comida favorita’? Nem parece que estamos respondendo a um questionário para o jornalzinho da escola.”
A comparação com o jornalzinho da escola me fez cair na gargalhada; eu e Rui-kun rimos até quase faltar o ar.
“Caramba, isso foi engraçado. Eu não sabia que você era assim, Ema”, disse Rui-kun, enxugando as lágrimas no canto dos olhos com as pontas dos dedos.
Mas eu poderia ter dito a mesma coisa.
Senti que era a primeira vez que o via rir de forma tão inocente.
“Você é totalmente diferente de como é na escola. Esse é o verdadeiro Rui-kun, não é?”
“...Acho que sim.”
O pessoal da escola não conhecia aquele Rui-kun que ria daquela maneira.
Senti uma pontinha de superioridade, seguida por uma onda de melancolia.
Se ele conseguisse rir assim na frente de todo mundo, talvez acabasse querendo viver.
O que eu poderia fazer para que isso acontecesse?
“Mas erm... Comida favorita, hein?”
Depois de rir bastante, a expressão de Rui-kun tornou-se pensativa por um momento antes de ele falar em voz baixa.
“Talvez... bife Salisbury.”
“Heh, isso é meio fofo.”
“Cale-se.”
Ele me lançou um olhar atravessado e depois fechou os olhos, como se estivesse se lembrando de algo.
“Tinha um lugar onde a gente ia em família que servia uns bifes Salisbury enormes. Eram incríveis. Eu sempre pensei que gostaria de comê-los de novo, mas... bem, provavelmente isso não vai mais acontecer.”
Senti que o motivo daquela expressão triste não era apenas o fato de ele estar prestes a morrer.
Como não podia insistir no assunto, tentei fazer outras perguntas.
Eram coisas inofensivas e triviais — como de quais esportes ele gostava ou que tipo de música ouvia —, mas Rui-kun respondia a todas, mesmo que de forma um tanto direta.
Como não fazia sentido ficar parada ali para sempre, fomos conversando enquanto caminhávamos e, logo, uma escola de ensino fundamental II surgiu à nossa esquerda.
Era a Primeira Escola de Ensino Fundamental II, onde Rui-kun estudava.
“...Você praticava algum esporte na escola?”
Eu sabia que Rui-kun não participava de nenhum clube agora, mas isso não significava que sempre fora assim.
Parecia um pouco estranho que alguém tão atlético quanto ele não tivesse participado de clube nenhum.
“...!”
Percebi que Rui-kun começara a responder, mas as palavras ficaram presas em sua garganta.
Seria algo que ele não queria responder?
Bem quando eu pensava se deveria dizer para ele esquecer o assunto, ele murmurou a resposta.
“Basquete.”
Rui-kun disse, voltando o olhar para a quadra da escola.
Achei que o basquete combinava perfeitamente com alguém da altura dele.
“Você era bom?”
Assim que as palavras saíram da minha boca, percebi que tinha perguntado de um jeito estranho, mas já era tarde demais.
“‘Bom’?”
Rui-kun soltou uma risadinha, e eu soube que ele estava zombando de mim.
“Bom, eu estou curiosa! Quero saber o quão bom você era.”
“Sério, a sua escolha de palavras... A maioria das pessoas não perguntaria qual posição eu jogava ou algo assim?”
“É verdade.”
Eu só assistia a esportes pela TV, então não me interessava muito pelos detalhes técnicos.
Senti-me um pouco envergonhada, como se ele tivesse lido meus pensamentos a cada palavra que dizia.
“Bem, não sei se eu era bom, mas eu gostava.”
Senti um certo desconforto com o fato de Rui-kun falar no tempo passado.
“Isso significa que você não gosta mais?”
“Você está realmente indo fundo na questão, não é?”
Ele deu um sorriso irônico e soltou uma risada baixa.
“Agora... eu não sei.”
Ele disse que não sabia em vez de dizer que odiava aquilo e, embora estivesse sorrindo, parecia prestes a chorar.
Talvez algo tivesse acontecido para fazê-lo dizer que não sabia.
Mas até eu sabia que ainda não tínhamos intimidade suficiente para eu perguntar o que era.
Normalmente — ou melhor, na maioria das vezes — eu teria recuado sem insistir mais.
Mas...
“Tem algo a ver com o seu Nii-san?”
Eu — nós — não tínhamos tempo.
Mesmo enquanto eu hesitava, o dia que decidiria nosso destino se aproximava a cada segundo.
Rui-kun deu de ombros levemente e riu da minha pergunta.
“É esse o tipo de coisa que as pessoas costumam perguntar?”
“Bom, talvez não, mas...”
“Deixa pra lá. É, você tem razão, Ema; tem a ver com o Aniki. Ou melhor... eu é que estava vazio.”
“Vazio?”
Rui-kun assentiu quando repeti a palavra.
“É... Eu já te disse o quanto o Aniki era talentoso, não é?”
Assenti, e Rui-kun continuou.
“Pois é. Até o ensino fundamental, o Aniki era realmente incrível. Ele tirava as melhores notas da escola, era bom em todos os esportes e, no basquete, era especialmente fantástico. Eu o admirava e vivia correndo atrás dele, querendo ser exatamente como ele.”
Enquanto Rui-kun olhava para o horizonte, tive certeza de que ele via o irmão daquela época — quando ele ainda brilhava.
“Por que um irmão assim... sabe...”
Hesitei, evitando palavras mais duras como “recluso” ou “violência doméstica”.
Como se tivesse lido meus pensamentos, os cantos da boca de Rui-kun se ergueram levemente.
“Como você acha que o coração de uma pessoa se parte?”
“Huh? Bem...”
Eu nunca tinha parado para pensar em como um coração poderia se partir.
Mas tentei imaginar.
Por exemplo, se alguém me dissesse algo maldoso, isso partiria meu coração?
E se um professor me desse uma bronca? E se meus amigos me ignorassem?
“............”
Eu poderia achar qualquer uma dessas coisas dolorosas. Mas talvez o motivo de eu não conseguir imaginar meu coração se partindo fosse o fato de nunca ter passado por isso.
“Brincadeira. Você não saberia. Eu também não sei.”
Rui-kun soltou uma risadinha, mas seu semblante demonstrava dor.
“Foi algo trivial — não conseguir responder a uma pergunta na aula ou tropeçar no cadarço durante um jogo. Coisas que fariam qualquer outra pessoa pensar: ‘Por causa de uma bobagem dessas?’. Mas, para um cara perfeito como o Aniki... acho que ele não conseguia se perdoar por ter cometido um erro.”
“Como assim, ele não conseguia se perdoar...?”
Rui-kun respondeu baixinho quando perguntei, hesitante. “Depois de um certo dia, o Aniki parou de ir à escola. Ele só continuava caindo e caindo, numa espiral descendente... e fugiu de tudo. Do basquete, dos amigos, da escola.”
Enquanto caminhávamos lado a lado, as mãos de Rui-kun estavam tão cerradas que tremiam, à medida que as palavras jorravam dele.
Eu estava fazendo com que ele falasse sobre coisas que nem ele mesmo tinha conseguido processar ainda.
Senti repulsa de mim mesma por ter sido tão arrogante.
“Desculpe. Hum, se você não quiser falar sobre isso...”
Enquanto eu tentava interrompê-lo às pressas, Kiryu-kun olhou para mim com um olhar triste. “Já é um pouco tarde para isso.”
“Eu sei, mas...”
“Já cheguei até aqui. Além disso, você se abriu comigo, Ema. Não seria justo se eu fosse o único a ficar calado.”
Eu queria dizer a ele que isso não era verdade.
Eu não queria fazê-lo sofrer. Não queria submetê-lo a isso.
Mas talvez...
Assim como aconteceu comigo, talvez Rui-kun tivesse chegado ao seu limite de tanto guardar tudo dentro de si.
Se ouvir o que ele tinha a dizer pudesse aliviar o coração de Rui-kun, nem que fosse um pouco...
“Tudo bem. Mas...”
Toquei gentilmente a mão de Rui-kun, que estava tão cerrada que tremia.
“Não se force demais.”
Parecendo surpreso, Rui-kun me deu um sorriso angustiado e disse: “Tudo bem.”
“Para mim, o Aniki era alguém capaz de fazer qualquer coisa. Ele era incrível, meu ídolo, meu exemplo a seguir. Mas, depois de ver o Aniki que eu amava desmoronar, eu não sabia o que fazer.”
Rui-kun falava como se a culpa fosse toda dele.
Mas, numa situação daquelas, tenho certeza de que eu também não saberia qual era a coisa certa a fazer.
Ignorando meu silêncio, Rui-kun continuou. “Não fui só eu. Para os meus pais, o Aniki era o orgulho e a alegria deles. Eles o mimavam muito, então o choque deve ter sido um baque enorme para eles também. Talvez eles quisessem desviar o olhar enquanto o Aniki desmoronava, porque, aos poucos, pararam de voltar para casa.”
“Isso é horrível. Quer dizer, você também estava lá, Rui-kun.”
“Acho que a presença do Aniki era simplesmente grande demais para os nossos pais.”
Rui-kun falou como se já tivesse desistido, e isso só tornou tudo ainda mais doloroso de ouvir.
“Eles começaram a chegar em casa cada vez mais tarde, só voltando quando já estávamos dormindo profundamente. Como eu disse antes, com o tempo, eles mal apareciam em casa.”
“……! Por que eles……?”
Rui-kun baixou o olhar, triste, ao ouvir as palavras que escaparam de mim.
“Contrataram uma governanta para cuidar da casa e deixavam dinheiro mais do que suficiente. Mas jogaram toda a parte difícil nas minhas costas…… e eu comecei a me perguntar o que, afinal, era uma ‘família’.”
Eu não conseguia mais dizer nada.
Não havia palavras que alguém como eu pudesse oferecer.
Mesmo assim, eu não queria deixar Rui-kun sozinho; por isso, apertei gentilmente a mão que eu havia colocado sobre a dele.
Percebendo isso, Rui-kun forçou um sorriso fraco.
“Mas não foram só meus pais que fugiram. Eu também fugi. Meu irmão mais velho fugiu da escola, dos amigos e do basquete; meus pais fugiram da família; e agora eu estava tentando fugir da própria vida. Viu? Somos uma família de gente que foge, não é?”
“Não, isso não é verdade!”
Eu sabia que não adiantava nada alguém como eu dizer qualquer coisa.
Mas, ainda assim, eu queria dizer a ele.
“As pessoas fogem de todo tipo de coisa, grandes ou pequenas. Todo mundo vive fugindo e desviando o olhar daquilo que odeia. Para proteger o próprio coração e o orgulho. ‘Enfrentar todas as adversidades’ é algo que só heróis de mangá conseguem fazer!”
──É verdade, ela era igual. Ela deveria ter simplesmente fugido.
Se a alternativa fosse escolher a morte, teria sido melhor simplesmente fugir de tudo.
Não tem problema não conseguir conversar com ninguém. Não tem problema fugir de qualquer coisa.
Mas, mesmo que eu pensasse essas coisas agora, elas jamais chegariam até ela.
Eu deveria estar conversando com Rui-kun, mas ela estava presente no meu coração.
Talvez eu estivesse dizendo a Rui-kun as coisas que eu queria ter dito a ela naquela época. Tenho certeza de que era apenas o meu próprio ego. Mas, mesmo assim, não consegui evitar dizer aquilo.
“……Ema.”
Os olhos de Rui-kun se arregalaram; ele não conseguia esconder a surpresa ao ouvir seu nome.
Ao longe, eu via o sol poente descendo abaixo da linha do horizonte.
Duas longas sombras se estendiam lado a lado, como se estivessem de mãos dadas.
Perguntei-me se eu estava me aproximando do coração de Rui-kun tanto quanto nossas sombras se aproximavam uma da outra.
“Eu não sabia que você era do tipo que diz coisas tão adocicadas, Ema.”
“O que isso quer dizer? Está zombando de mim?”
“Estou elogiando você.”
O rosto dele se contraiu num sorriso e, em seguida, ele enxugou os olhos com a manga.
“Eu... eu sempre achei que tinha que continuar tentando. Que, como a situação era tão desesperadora, eu era o único que precisava manter tudo de pé.”
“Isso é horrível! Por que tudo isso teve que cair sobre você, Rui-kun...?”
“Pois é...? Eu já não sabia mais por que era o único que tinha que continuar protegendo coisas que todos os outros viviam despedaçando. Eu queria destruir tudo aquilo eu mesmo. Achava que, se fizesse isso, seria livre. Que finalmente poderia acabar com esses dias de ‘viver como se já estivesse morto’.”
As palavras fluíam do coração dele, pouco a pouco.
Mas ele parecia muito mais aliviado do que momentos antes.
“Quer dizer, não acho que consiga mudar meu jeito de pensar ou agir da noite para o dia, e nem tenho confiança para tentar, mas...”
Deixando a frase no ar, Rui-kun olhou para o céu.
“Conversar com você me deixou um pouco mais leve, Ema. Talvez morrer não seja a única maneira de ser livre.”
Rui-kun sorriu enquanto falava.
Era a expressão mais radiante e límpida que eu já tinha visto nele.
Tive a certeza de que aquele era o verdadeiro Rui-kun.
“Obrigado por me ouvir.”
Meu coração apertou de culpa diante da gratidão dele. Não é como se eu estivesse pensando apenas no bem-estar de Rui-kun.
Afinal, meu objetivo ao segui-lo hoje era encontrar nem que fosse um único motivo para ele querer viver.
Parecia uma tremenda hipocrisia alguém como eu, que desejava a morte, tentar impedir outra pessoa de morrer...
Mas, se Rui-kun deixasse de querer morrer, então eu finalmente poderia morrer.
Receber agradecimentos por palavras que eu dissera pensando em mim mesma me deixava incrivelmente desconfortável.
E, no entanto, eu me perguntava o motivo.
Por que eu me senti tão feliz no instante em que o Rui-kun sorriu?
Por que essa sensação calorosa surgiu dentro de mim...?
Eu não estava muito a fim de conversar, então caminhei ao lado de Rui-kun em silêncio. Rui-kun também permaneceu calado, mas o silêncio não era pesado; na verdade, era bastante confortável.
“Hum...”
Rui-kun parou de andar de repente.
“Aquela é a minha casa.”
Ele apontou para uma casa grande de dois andares com um quintal.
“Bom, então, a gente se vê.”
“Espera, hum...”
Antes que eu percebesse, já estava chamando por Rui-kun enquanto ele começava a se afastar.
“Hm? O que foi?”
Rui-kun se virou e inclinou a cabeça, curioso.
Eu o havia parado por reflexo, sem pensar no que iria dizer.
Mas, se ele fosse para casa daquele jeito, Rui-kun ficaria totalmente sozinho de novo.
Com um irmão mais velho recluso e pais ausentes, ele não teria outra escolha a não ser esperar, sozinho, pelo amanhecer.
Uma casa assim não devia ter graça nenhuma.
Como o próprio Rui-kun disse, seria apenas “viver como se estivesse morto”.
Sendo assim, pensei se ele não encontraria nem que fosse um pouquinho de esperança caso sentisse que um amanhã feliz o aguardava.
Se o amanhã fosse divertido, talvez ele conseguisse superar o dia de hoje.
Se o dia seguinte também fosse divertido, isso poderia lhe dar forças para enfrentar o amanhã, ou até mesmo a semana inteira.
Não nego que havia um certo cálculo nos meus pensamentos.
Se os dias de amanhã de Rui-kun se tornassem divertidos — se ele passasse a gostar de viver —, talvez ele deixasse de querer morrer.
Além disso... eu sentia que alguém como Rui-kun, que se esforçou tanto por tanto tempo, tinha muito mais valor ao viver do que alguém como eu, que deixei um amigo morrer.
“Amanhã! Vamos voltar para casa juntos de novo amanhã!”
“Eh? Amanhã?”
Rui-kun pareceu surpreso com o convite repentino.
Eu não imaginava que voltar para casa comigo fosse algo que Rui-kun consideraria “divertido”.
Mas, como não conseguia pensar em outra maneira de tornar o amanhã de Rui-kun agradável naquele momento, decidi pelo menos fazer a promessa de voltarmos juntos.
Mesmo uma promessa assim tinha que ser melhor do que nada.
“...Por mim tudo bem, mas a sua casa fica na direção oposta.”
“Tudo bem, é só um pequeno desvio se eu for por esse caminho.”
Rui-kun riu disso, sabendo muito bem que era muito mais do que apenas um pequeno desvio.
“Certo. Então vamos voltar para casa juntos amanhã.”
“Sério?”
“É. Mas amanhã, vou pelo seu caminho.”
“Eu me sentiria mal com isso.”
“Então eu não vou.”
Rui-kun virou o rosto fazendo um muxoxo exagerado, como se não tivesse a menor intenção de ceder. Era tão ridículo que não consegui evitar o riso.
“Tá bom! Mas depois de amanhã, eu vou por esse caminho!”
“Então, no dia seguinte a esse...”
Antes que eu percebesse, já estávamos fazendo planos para o dia seguinte a esse, e para o outro também.
Por algum motivo, aquilo me deixou tão feliz que eu não conseguia parar de sorrir.
Ao me ver assim, Rui-kun também começou a rir.
Eu me perguntava por que aquele momento parecia tão precioso para mim.
“Até amanhã, então.”
“É, até amanhã.”
Acenei e observei Rui-kun entrar em casa antes de começar meu próprio caminho de volta.
Eu queria encontrar um motivo para Rui-kun continuar vivendo, para que eu pudesse morrer.
Esse sentimento não havia mudado.
Mas, ao mesmo tempo, eu torcia para que o tempo que Rui-kun passasse vivendo dali em diante não fosse tão doloroso.
Enquanto eu caminhava, meus passos pareciam mais leves do que o habitual.
◇◆◇
No dia seguinte, depois da aula, vi-me preocupada com a forma de falar com Rui-kun.
Cercado por seus amigos como sempre, ele exibia sua expressão de “Kiryu-kun” e não parecia fácil de abordar.
Ainda assim, tínhamos prometido voltar para casa juntos.
Com esse pensamento em mente, levantei-me para ir até ele, e nossos olhares se cruzaram.
Rui-kun olhou para mim e depois desviou o olhar para a porta da sala de aula.
“Vejo vocês mais tarde.”
Depois de falar com os amigos ao seu redor, Rui-kun saiu da sala.
“E-eu vou indo na frente!” Avisei a Honami, que estava ocupada arrumando sua mesa, e saí apressada da sala em direção à entrada da escola.
Rui-kun estava...
“Uwo! R-Rui-kun?”
Ao sair pelo portão da escola, vi Rui-kun parado ali, meio escondido na sombra de um poste próximo.
“Não me assuste desse jeito!”
“É que... eu não esperava que você saísse tão rápido assim.”
“Não foi intensidade...”
Eu queria que ele parasse de falar assim; parecia que eu estava com pressa para ver Rui-kun.
Eu só tinha corrido porque havíamos feito uma promessa, e achei que seria horrível deixá-lo esperando.
“Tudo bem, não vou embora sem você.”
“……!”
A voz de Rui-kun estava estranhamente gentil e, por algum motivo, não consegui encontrar palavras para responder.
“Ema?”
“Não é nada.”
“Sério? Bom, vamos nessa?”
Acompanhei o passo de Rui-kun enquanto ele começava a andar.
Ele era pelo menos dez centímetros mais alto que eu, com ombros largos e traços marcantes.
Olhando para ele assim, dava para entender por que Rui-kun era popular.
“Que foi?”
“Huh?”
“Porque você está olhando fixamente para mim?”
Talvez por eu estar olhando demais, Rui-kun me lançou um olhar desconfiado.
Enquanto desviava o olhar às pressas para disfarçar, notei o que parecia ser uma cicatriz acima da sobrancelha dele, através de uma brecha na franja.
“Isso aí é...?”
“Hm? Ah, então era para isso que você estava olhando.”
Quando ele levantou a franja para me mostrar, vi uma cicatriz bem nítida.
Os dedos dele eram longos enquanto ele afastava o cabelo, e meu coração começou a disparar por algum motivo...
Sem conseguir entender meus próprios sentimentos, perguntei enquanto desviava o olhar de Rui-kun.
“Essa cicatriz é de algum ferimento...?”
“De quando eu era criança. Cicatrizou faz tempo, mas a marca nunca sumiu, então costumo deixar a franja caída para escondê-la.”
“Tudo bem perguntar o que aconteceu?”
Perguntei com cautela, sem saber se deveria ser intrometida, e Rui-kun soltou uma risada curta.
“Você vai direto ao ponto sobre por que eu quero morrer, mas fica toda hesitante por causa de uma simples cicatriz.”
“B-Bem...”
“Não é nada demais. Eu admirava um ‘herói’, queria ser igualzinho a ele e pulei do topo de um trepa-trepa. Só que errei a aterrissagem e me machuquei.”
Rui-kun disse isso com o olhar fixo em algo distante.
Eu achava que sabia quem era o tal “herói” de quem ele falava, mas não insisti no assunto. Em vez disso, disse:
“É uma sensação boa subir em lugares altos, não é?”
Levantei o rosto e olhei para o céu.
Não é como se eu tivesse crescido de verdade.
E, no entanto, olhar para baixo de um lugar mais alto que o habitual me fazia sentir melhor, por algum motivo.
“Não aja como se soubesse de tudo.”
Mas, ao ouvir minhas palavras, Rui-kun pareceu um pouco irritado.
Talvez ele achasse que eu estava agindo como se soubesse de tudo.
Ou talvez estivesse dizendo para eu não falar por ele.
Eu não tinha a menor intenção de dizer isso nesse sentido. Afinal:
“Porque eu também já pulei de lugares.”
Falei de uma lembrança nostálgica que havia ressurgido de repente.
“Eh? De um trepa-trepa?”
Balancei a cabeça negativamente para Rui-kun, que perguntara aquilo sobressaltado.
“Claro que não.”
“De um balanço.”
“Um balanço?”
Seus olhos se arregalaram de surpresa por um instante; depois, ele segurou a barriga e caiu na risada.
“Você falou com tanta confiança que eu fiquei imaginando de onde você tinha pulado...”
“A-Ainda é pular de algum lugar, não é?”
“É verdade, mas a gente esperaria que fosse pelo menos um pouco mais dramático.”
Levada pela risada totalmente desinibida de Rui-kun, acabei rindo também.
Quando estava com Rui-kun, sentia que era fácil respirar.
Era a mesma sensação de quando fomos ao parque à noite; eu conseguia respirar fundo novamente.
Talvez fosse porque não havia necessidade de manter as aparências.
Como tínhamos visto o pior lado um do outro desde o início, não precisávamos nos esforçar tanto.
E, por conhecer o lado de Rui-kun que não era o de Kiryu-kun, talvez eu sentisse que estávamos no mesmo barco.
“Sabe, às vezes me dá uma vontade repentina de ir para algum lugar que não seja aqui.”
Seria por isso? O motivo de eu conseguir contar a Rui-kun coisas que nunca havia dito a mais ninguém?
Enquanto caminhávamos em direção ao parque, despejei os pensamentos que mantinha enterrados bem fundo dentro de mim.
“Não é que eu queira ir a um lugar específico, nem que esteja insatisfeita com este lugar. Mesmo assim, sinto vontade de estar em outro lugar.”
Qualquer outra pessoa poderia rir e dizer: “Do que você está falando?” ou “Você está apenas cansada?”
Mas, com Rui-kun, eu sentia que tudo bem.
“Ah, é. Acho que entendo o que você quer dizer.”
Rui-kun, caminhando ao meu lado, assentiu silenciosamente enquanto olhava para a frente.
“Como querer desaparecer ou fugir de onde você está agora... Às vezes, bate uma sensação estranha de não pertencer àquele lugar, de se perguntar se é ali mesmo que você deveria estar.”
“Sim, exatamente. Sinto um desconforto impotente por estar aqui. Como se, embora eu devesse estar aqui, houvesse uma outra ‘eu’ observando de longe, com um olhar frio.”
Rui-kun entendia essa sensação desagradável.
Fiquei feliz com isso, mas, ao mesmo tempo, senti uma tristeza profunda ao pensar que também havia um vazio no coração do Rui-kun.
“Exatamente. Haha, nunca pensei que encontraria alguém que entendesse isso.”
“Nem eu. Para começar, eu não conseguia conversar sobre isso com mais ninguém.”
“É verdade. Eu também só consigo falar disso com você, Ema.”
Compartilhar segredos pode parecer o tipo de coisa que faz o coração disparar, mas o assunto em questão era uma realidade triste, bem distante de qualquer coisa assim.
Mesmo assim, eu achava uma bênção ter alguém com quem compartilhar e discutir isso.
“Ah...”
Enquanto caminhávamos juntos, o trajeto para casa pareceu passar num instante e, quando me dei conta, já estava diante da minha casa.
Rui-kun também pareceu perceber; ele coçou a cabeça com um ar levemente decepcionado.
“Ah, bem... acho que chegamos.”
“...É, acho que sim.”
Senti uma ponta de decepção, pois o tempo que passei com Rui-kun tinha sido mais divertido do que eu esperava. Mesmo que o que nos unisse fosse a “morte”.
Tentando reprimir a solidão que sentia, comecei a correr em direção à minha casa.
Mas então percebi que havia algo que eu tinha esquecido de dizer e parei abruptamente.
Eu não tinha dito “Até amanhã”. Não tinha dito que queria que o dia seguinte dele fosse algo que valesse a pena esperar, nem que fosse um pouquinho.
Bem quando eu ia me virar e chamar por “Rui-kun”, alguém de repente chamou meu nome pelas costas.
“Ema.”
Quando me virei, Rui-kun estava lá, olhando fixamente para mim.
Eu não conseguia ver a expressão dele por causa da contraluz. Mas Rui-kun estava olhando para mim.
“O que...”
“Até amanhã!”
Assim que disse isso, Rui-kun virou as costas e saiu correndo, sem esperar minha resposta.
Pega de surpresa, fiquei paralisada enquanto ele se afastava correndo.
No dia seguinte, e no outro também, voltamos para casa juntos.
O tempo que passávamos caminhando, desabafando sobre nossas dores e dificuldades, aliviava um pouco o peso do meu coração — não, aliviava aos poucos. Se não era apenas coisa da minha imaginação, o mesmo devia valer para Rui-kun; tive a impressão de que ele parecia um pouco mais radiante, ainda que fosse apenas uma mudança sutil.
Sexta-feira — o último dia de aula da semana.
Naquele dia também, fizemos o caminho de volta para casa lado a lado.
Bem quando nos aproximávamos do parque, Rui-kun parou.
“Quem dera tivéssemos nos conhecido antes.”
Ao ouvir as palavras baixas do Rui-kun, um “Eu também” quase escapou antes que eu pudesse contê-lo, mas me calei. Não havia nada que eu pudesse dizer.
Eu não tinha o direito de dizer nada.
Não nego que o tempo que passamos juntos assim era confortável.
Mas, para mim, aquele tempo era gasto buscando uma razão para Rui-kun querer viver.
Eu queria encontrar, para Rui-kun — que desejava morrer naquele exato momento —, um motivo para continuar vivendo.
──Para que eu pudesse morrer.
Diante da minha hesitação silenciosa, Rui-kun deu um sorriso irônico.
“Desculpe, isso soou estranho... Vamos para casa?”
“......Sim.”
Caminhamos lado a lado em um silêncio levemente constrangedor.
Perguntei-me quando havia notado, pela primeira vez, que Rui-kun — mais alto do que eu — ajustava o passo ao meu.
Ele era uma pessoa gentil.
Justamente por ser tão gentil, doía sentir que eu estava usando os sentimentos dele apenas para poder morrer.
Normalmente, eu me sentia um pouco solitária ao ver minha casa, mas, hoje, senti um leve alívio.
“Bom, até amanhã...”
Enquanto as palavras de costume escapavam da minha boca, percebi que hoje era sexta-feira e amanhã, sábado.
Não havia aula aos sábados.
No entanto, tínhamos um compromisso.
Era o dia em que iríamos àquele parque conversar sobre o quanto queríamos morrer — e qual de nós queria isso mais intensamente.
Levantei a cabeça como se quisesse espantar a inquietação que sentia.
“Até amanhã à noite!”
“É, até mais”, respondeu Rui-kun, antes de virar as costas e ir embora.
Será que foi apenas impressão minha, ou as costas dele pareciam um pouco solitárias enquanto se afastava?
No dia seguinte, senti-me inquieta desde cedo.
Mergulhei nas tarefas escolares que me haviam passado, sabendo que, se não me mantivesse ocupada, acabaria pensando na noite que viria.
Mesmo assim, peguei-me pensando no Rui-kun em momentos fugazes.
Embora o tempo que passei com ele tivesse aumentado naquela semana, eu ainda não sabia como fazê-lo querer viver.
Tudo o que eu havia descoberto era que ele vivia em um ambiente doloroso e que era uma pessoa gentil.
Será que eu realmente conseguirei mudar os sentimentos de Rui-kun até o dia final com tão pouco? Continuei resolvendo problemas de matemática, como se tentasse escapar daquela pergunta sem resposta.
Não conseguia ficar parada; acabei saindo de casa e indo para o parque trinta minutos mais cedo do que na semana anterior.
Ao contrário da semana passada, quando eu não sabia onde o sonho terminava e a realidade começava, desta vez eu estava indo para o parque por vontade própria.
Sentindo-me um pouco nervosa, acelerei o passo.
Quando finalmente cheguei ao parque, não havia sinal de Rui-kun.
“Ema, você chegou cedo esta semana.”
Em vez dele, Haku estava sentado no banco, exatamente como na semana anterior.
“Você disse que eu estava atrasada. Mas, afinal, onde está o Rui-kun?”
“Ele ainda não chegou. Você chegando cedo e o Rui chegando tarde... vocês dois realmente não estão em sintonia, não é?”
Haku riu baixinho, cobrindo a boca com a mão, claramente divertido.
“Hehe. Vamos conversar um pouco até o Rui chegar?”
“Conversar sobre o quê...?”
“Tem algo que você queira perguntar? Algo que desperte sua curiosidade?”
Não é que não houvesse nada. Na verdade, o próprio Haku era um mistério, e eu tinha curiosidade sobre tudo.
“Claro, só porque você pergunta, não significa que eu vá necessariamente responder.”
Pelo jeito que ele falou, não achei que receberia uma resposta direta, mesmo se perguntasse.
Sendo assim...
“Haku, de quem você quer levar a alma? A minha ou a do Rui-kun?”
Decidi perguntar como ele nos via, em vez de falar sobre o que nós mesmos queríamos.
“De quem, você diz?”
Parecendo um pouco interessado, Haku inclinou-se para a frente, apoiando-se no encosto do banco.
“Você disse antes, não foi? Que é melhor levar almas que querem morrer. Então, olhando para nós agora, quero saber qual de nós você acha que quer morrer mais.” Pensei que isso poderia servir como algum tipo de indicador.
Haku levou a mão ao queixo, como se estivesse pensativo, e então deu um sorriso de canto.
“Vejamos. Olhando para trás, para tudo o que aconteceu até a semana passada, eu achava que o desejo de morrer do Rui fosse um pouco mais forte. No entanto...”
“No entanto?”
Quando o incentivei a continuar, Haku fixou o olhar nos meus olhos.
“Não percebo nenhum desejo de viver vindo de você, Ema. A sensação é parecida com a de querer morrer e, ainda assim, é diferente. É bem estranho como o Rui que, apesar de querer morrer, tem um desejo de viver mais forte.”
Rui-kun, que queria viver, mas também queria morrer; e eu, que não diria querer morrer, mas que certamente não queria viver.
Era como se ele estivesse dizendo que Rui-kun queria fugir da vida, enquanto eu já havia desistido dela.
“Então, mais uma coisa.”
“Sim, pode falar.”
“Por exemplo, se as coisas ainda não estiverem decididas e acabar que você não pode levar nenhuma das almas, o que você faria?”
“Isso é impossível.”
Embora ele sorrisse como qualquer criança comum, não havia nada de comum na aura de sua expressão.
“Com certeza levarei uma das suas almas. Mesmo que ambos decidam que não querem morrer.”
“‘Com certeza’...”
“E, enquanto conversávamos, parece que o Rui chegou. Mas, nossa... Hehe. O desejo dele de morrer está bem forte hoje.”
“Hã?”
Incapaz de esconder minha surpresa com as palavras de Haku, virei-me para a entrada do parque.
Rui-kun estava lá, de fato.
No entanto, ele não se parecia em nada com quem era depois da aula, ontem.
Havia uma marca em sua bochecha, como se tivesse levado um golpe, e seus olhos estavam sem vida.
Sua expressão era sombria e pesada.
“Rui-kun...”
Eu não sabia o que dizer a ele.
Enquanto caminhava em nossa direção, Rui-kun me lançou um único olhar antes de se voltar para Haku.
“Estou atrasado.”
“Com certeza está. Bem, você ainda chegou mais cedo do que a Ema na semana passada, então vou te perdoar.”
Apesar do estado evidente do garoto, Haku não mencionou nada e falou com Rui-kun mantendo a mesma expressão agradável de sempre.
No entanto, Rui-kun não retribuiu o sorriso; apenas o encarou friamente.
“Você... está bem?”
Forcei as palavras para fora.
Mas Rui-kun não disse nada. Não disse absolutamente nada.
E, ainda assim, eu me perguntava o porquê.
Por que eu sentia que o desejo dele de morrer havia se tornado muito mais forte do que era ontem mesmo, exatamente como Haku dissera.
Enquanto eu encarava Rui-kun, atordoada, ele de repente desviou o olhar.
A maneira como ele agiu fez meu peito doer.
O que diabos poderia ter acontecido?
Mesmo enquanto Haku nos questionava sobre nosso desejo de morrer, eu não conseguia parar de me preocupar com isso.
“Então, que tal ouvirmos sobre o assunto? Sobre as mortes de vocês. Estou muito ansioso para ouvir o quanto vocês anseiam pelo fim,” Haku riu baixinho; sua expressão estava completamente livre de malícia, o que tornava tudo ainda mais aterrorizante.
Eu não conhecia ninguém além de Haku que falasse sobre a “morte” com tamanha alegria aparente.
Ao meu lado, os olhos de Rui-kun estavam tão vazios que parecia que ele poderia derreter na escuridão e desaparecer a qualquer momento.
Senti-me inquieta enquanto Rui-kun permanecia em silêncio, com a expressão nublada por pensamentos.
“Não há nada. Eu não mudei nem um pouco.”
Lançando um olhar de soslaio para Rui-kun, falei com a maior naturalidade possível.
“Como sempre, não vejo sentido em continuar assim, dia após dia. Sinto que não quero viver. É por isso que não posso desistir deste, digamos, debate, e quero que você, Haku, me escolha.”
“Hmm, entendo. Então sua determinação não vacilou? Gosto disso. Adoro sentimentos tão fortes em relação à ‘morte’.”
O sorriso encantado de Haku parecia tão inocente e puro quanto o de uma criança diante de seu bolo favorito.
“E você, Rui?”
Haku perguntou a Rui-kun, que permanecia teimosamente em silêncio; o tom de Haku sugeria que ele estava perdendo a paciência.
“Já que você não diz nada, devo presumir que seu desejo de morrer desapareceu?”
“……Não.”
“Hmm? O que foi isso? Não consigo te ouvir. Sabe, se você não disser claramente o que está pensando, isso não chegará a ninguém.”
Suas palavras eram perfeitamente sensatas, mas, vindas de Haku, soavam inegavelmente provocativas.
Parecia que Rui-kun também sentia isso, pois lançou um olhar irritado para Haku.
“Eu disse que isso não é verdade!”
Embora a voz de Rui-kun fosse áspera, por algum motivo ele parecia prestes a chorar, apesar da raiva.
“Consigo te ouvir mesmo sem você gritar desse jeito.” Rui-kun fuzilou Haku com o olhar, e este respondeu com indiferença. Uma brisa soprou pelo parque e despenteou o cabelo de Haku.
Sua expressão não era tão gentil quanto seu tom de voz; seus olhos pareciam sorrir, mas, ao mesmo tempo, não transmitiam emoção alguma.
“E então? Se isso não é verdade, imagino que você vá me contar o motivo de querer morrer, Rui?”
Vi Rui-kun cerrar os punhos diante das palavras aparentemente provocadoras de Haku.
“É... é algo tão ruim assim querer jogar tudo para o alto, fugir e morrer?”
“Bem, ninguém disse que é ruim. Não é você quem pensa assim, Rui?”
“Eu... eu mesmo...?”
Os olhos de Rui-kun se arregalaram enquanto ele repetia o apontamento de Haku.
“Sim. A morte é, por natureza, uma forma de liberdade. Se você a deseja, a morte está bem ali, ao seu lado. E, no entanto, os humanos são criaturas estranhas; mesmo quando acham que querem morrer, eles pisam no freio em algum momento do caminho. Convencem a si mesmos de que não devem morrer. Será que isso é algum tipo de algema?”
“Não é uma algema!”
Acabei interrompendo Haku enquanto ele continuava a falar.
Com isso, não apenas o olhar de Haku, mas também o de Rui-kun, voltou-se para mim.
O peso dos olhares de ambos me deixou tão desconfortável que quase engoli minhas palavras.
Mas senti que precisava dizer aquilo.
O que eu estava pensando naquele momento.
“Se não é uma amarra, o que você acha que é, Ema?”
Sem qualquer traço de sarcasmo, Haku parecia genuinamente curioso.
Embora talvez fosse mais preciso dizer que ele estava achando a situação interessante.
“Eu acho que... é gentileza, ou amor.”
“Hah?”
Eu nunca tinha ouvido uma resposta tão desprovida de emoção antes.
Mesmo tendo perguntado, talvez aquela não fosse a resposta interessante que Haku esperava.
Mas eu não me importava com a reação de Haku.
Porque a única pessoa que eu queria que ouvisse essas palavras era Rui-kun.
“Eu também acho que não é algo ruim querer morrer.”
Ninguém pode negar a Rui-kun o direito de se sentir assim. Mas...
“Mas acho que o fato de uma parte de você, Rui-kun, sentir que ‘talvez isso seja errado’ significa que você deve estar pensando em outra pessoa.”
“Outra pessoa...?”
Encontrei o olhar de Rui-kun enquanto ele franzia a testa, confuso, e assentia.
“Como alguém que ficaria triste com isso, ou alguém que se machucaria. Não sei o motivo exato, mas acho que você se preocupa que agir com base no seu próprio egoísmo só causaria problemas para alguém.”
“E isso provavelmente se aplica a mais coisas além da ‘morte’.”
Rui-kun está sempre cercado de pessoas quando o vejo na sala de aula.
Tenho certeza de que isso acontece porque ele tenta ser alguém de quem as pessoas gostem.
Acho que todo mundo é assim até certo ponto, mas não consigo deixar de sentir que Rui-kun guarda seus verdadeiros sentimentos — seu verdadeiro eu — bem lá no fundo.
Mesmo que não houvesse problema nenhum em agir pensando em si mesmo, e não apenas nos outros.
“Você é gentil, Rui-kun.”
“Por ser tão gentil, você tem carregado tudo sozinho — seu Nii-san, sua família.”
“Pensando que, se apenas aguentasse firme e continuasse dando o seu melhor, tudo ficaria bem.”
“Mas você chegou ao seu limite, e o caminho que escolheu foi a ‘morte’.”
“E, no entanto, não consigo deixar de pensar que existem outros caminhos.”
“Que morrer não é a única saída nem a única salvação, e que, se ao menos você pudesse fugir de outra maneira...”
Mas minhas palavras desesperadas não o alcançaram — não chegaram a Rui-kun.
“Eu não sou gentil. Sou apenas um covarde tentando virar as costas para tudo, fechar os olhos e fugir.”
“Isso não é verdade...!”
“Chega. Não tem como você entender, Ema. Não tem como entender o peso que carrego.”
“Ah...”
Ele desviou o rosto de mim e, depois disso, Rui-kun não disse mais nada.
No fim das contas, nenhum de nós cedeu hoje também, e nada foi resolvido.
Mas, mais do que isso, eu não conseguia parar de me preocupar com o ferimento no rosto de Rui-kun.
“Então, marcamos para o mesmo horário na semana que vem?”
Assenti com a cabeça enquanto Haku falava para confirmar.
“E você, Rui? Tudo bem para você também?”
Rui-kun permaneceu em silêncio enquanto Haku insistia por uma resposta.
“Hmm, vou considerar esse silêncio como um ‘sim’. Então, até a semana que vem.” Mal terminou de dizer isso, Haku desapareceu com um sorriso ainda no rosto.
Só restamos eu e Rui-kun.
“Oh...”
Enquanto eu ainda tentava pensar no que dizer, Rui-kun saiu do parque sozinho.
Ao contrário da semana passada, ele nem tentou voltar para casa comigo; simplesmente me deixou para trás e seguiu em direção à casa dele.
Não é como se tivéssemos combinado de voltar para casa juntos.
Para começar, nossas casas ficavam em direções completamente opostas, com o parque bem no meio do caminho.
Então, de certa forma, era algo natural.
“Espera!”
Eu não queria deixar o Rui-kun sozinho daquele jeito, então fui atrás dele.
“Ei, o que aconteceu?”
Rui-kun continuou andando em silêncio, sem olhar para trás nem uma vez sequer.
“Ei, estou falando com você!”
“Cala a boca.”
Quando insisti em chamá-lo, Rui-kun finalmente se virou para mim.
Mas não havia vida em seus olhos; suas pupilas escuras simplesmente me encaravam.
“Não tem nada a ver com você Ema, tem?”
Um olhar frio, um tom frio. Era exatamente como no dia em que conversamos pela primeira vez no parque.
“……!”
Enquanto eu prendia a respiração instintivamente, Rui-kun desviou o olhar abruptamente.
É claro que, como Rui-kun disse, talvez aquilo não tivesse nada a ver comigo.
Não éramos amigos, muito menos namorados.
Estávamos ligados apenas pelo fato de competirmos pela única chance de morrer que Haku nos oferecia.
Se alguém perguntasse que tipo de relacionamento era aquele, eu não saberia responder.
Mas, mesmo assim, eu não conseguia simplesmente deixar Rui-kun sozinho quando ele parecia estar sofrendo tanto.
“Não posso me preocupar?”
“Eu nunca pedi para você fazer isso.”
“Então não faça essa cara! Se você Rui-kun, parece estar sofrendo, eu vou ficar preocupada!”
Disse aquelas palavras sem pensar muito.
Eu estava apenas gritando o que sentia naquele momento.
Talvez eu tivesse sido presunçosa em algum momento.
Voltávamos para casa juntos todos os dias e Rui-kun não parecia se importar; por isso, talvez eu tivesse começado a sentir que, de alguma forma, tínhamos nos tornado amigos.
Foi por isso que ser rejeitada com a frase “não tem nada a ver com você Ema” me fez sentir vergonha, como se minha própria presunção tivesse sido exposta. Fiquei triste. Lá no fundo, talvez eu tivesse pensado que Rui-kun me aceitaria.
Rui-kun abriu a boca como se fosse dizer algo, mas depois mordeu o lábio, como se tivesse desistido das palavras.
Então, ele voltou a caminhar.
Dessa vez, seu passo estava mais rápido do que antes.
“Espera, eu disse...!”
“Me solta!”
Rui-kun se desvencilhou bruscamente, levando-me junto, já que eu o havia segurado por reflexo enquanto tentava alcançá-lo.
“Ai!”
Com o impacto, acabei caindo com força no chão, sentada.
“Au...”
“Ah... v-você está bem!?”
O Rui-kun que correu até mim era o Rui-kun de sempre; a sombra que havia em seu olhar desaparecera, dando lugar à preocupação após a minha queda.
“Você está sangrando.”
Parece que ralei o joelho ao cair; eu sentia a ardência e via o sangue escorrer.
Rui-kun baixou o olhar, visivelmente perturbado.
“Desculpe. A culpa é minha.”
“A culpa não é sua Rui-kun. Eu simplesmente caí sozinha.”
“Mas...”
Após um momento de reflexão, Rui-kun levantou o olhar.
“Por enquanto, vamos cuidar disso na minha casa.”
“Na sua ca... Hã!?”
Esquecendo por um instante que já era noite, exclamei sem pensar.
Tapei a boca rapidamente com as duas mãos e balancei a cabeça em sinal de negação.
“E-eu estou bem! Não precisa de tudo isso!”
“Você não está bem! Além disso, não posso deixar você ir para casa sozinha depois de causar um ferimento desses.”
Eu poderia simplesmente colocar um curativo quando chegasse em casa.
Como se não tivesse ouvido uma palavra do que eu disse, Rui-kun segurou meu braço.
“Quer que eu te ofereça meu ombro? Ou prefere que eu te carregue nas costas?”
“Não preciso de nenhuma das duas coisas! Consigo andar normalmente!”
Levantei-me e tentei dar uns pulinhos no lugar para mostrar que estava perfeitamente bem.
“Ow...”
“Você é idiota? É claro que vai doer se você fizer isso.”
“B-Bem...”
Enquanto eu tentava caminhar poupando a perna — que doía mais do que eu esperava —, Rui-kun segurou minha mão.
“Segure-se em mim aqui.”
Segurando o braço de Rui-kun, consegui caminhar com firmeza, mesmo poupando a perna.
“Obrigada.”
“Não foi nada. Bom, vamos lá.”
Apesar de suas palavras secas, pude ver que as bochechas de Rui-kun estavam levemente coradas sob a luz dos postes.
Ele era realmente uma pessoa gentil.
Caminhamos lentamente em direção à casa dele, por um trajeto que normalmente levaria cinco minutos.
Sempre que eu lançava um olhar furtivo para ele, meus olhos voltavam para o ferimento em sua bochecha.
É claro que eu queria perguntar.
Mas ele ainda não queria me contar, mesmo depois de tudo aquilo.
Rui-kun certamente não gostaria se eu insistisse no assunto.
“……Desculpe pelo que aconteceu agora pouco.”
Quando pedi desculpas a Rui-kun enquanto ele caminhava ao meu lado, ele balançou a cabeça negativamente, mantendo o olhar fixo à frente.
“Eu é que deveria pedir desculpas.”
Depois disso, não dissemos mais nada.
Quando finalmente chegamos à casa do Rui-kun, tudo estava na mais completa escuridão e em um silêncio sepulcral.
Ele havia dito que seus pais quase nunca estavam em casa, mas eu sabia que ele tinha um irmão mais velho.
Então, por que estava tudo assim?
Enquanto eu olhava ao redor, confusa, Rui-kun puxou minha mão e disse: “Por aqui”, guiando-me para um cômodo próximo.
Parecia ser a sala de estar, com uma mesa de jantar, um sofá e uma televisão.
No entanto, tudo estava destruído a ponto de ficar irreconhecível, e o chão estava coberto de inúmeros arranhões.
“O-O que é isso...”
“Sente-se ali. Ah, cuidado onde pisa.”
Ao ser convidada a sentar no sofá, acomodei-me com cuidado, desviando de um vaso que havia tombado ali perto.
Olhando ao redor do cômodo mais uma vez, vi coisas espalhadas por toda parte; louças quebradas e móveis revirados cobriam o chão.
O que no mundo tinha acontecido ali?
“É horrível, não é?”
Percebendo meu olhar de choque, o Rui-kun voltou com um kit de primeiros-socorros e um sorriso meio amargo no rosto.
“Foi o meu irmão quem fez tudo isso.”
“Huh?”
“Mostre sua perna.”
Ele se ajoelhou aos meus pés e começou a desinfetar meu joelho com uma destreza que demonstrava prática. “Pode arder um pouco.”
Ele falou com gentileza, mas minha mente estava em outro lugar.
O irmão do Rui-kun fez tudo isso? Mas o que foi isso...?
Rui-kun deu de ombros quando não houve resposta nada.
“Quando algo aciona um gatilho nele, ele entra em um estado de fúria como este. Ele está dormindo agora graças à medicação, mas esta noite foi especialmente ruim.”
“Ah...”
Olhei instintivamente para a bochecha de Rui-kun.
Percebendo meu olhar, Rui-kun franziu a testa e soltou uma risada fraca.
“É, isso também. Pelo visto, ele não gostou de me ver de bom humor. Terrível, não é?”
“Por que ele faria uma coisa dessas...?”
“Não existe motivo. Ele entra em fúria porque quer. Ele grita porque quer. Não sobrou razão alguma. Ele age puramente por instinto, e ninguém consegue detê-lo.”
As palavras de Rui-kun estavam carregadas de resignação e angústia.
Mesmo naquela situação, nenhum adulto ajudava; todos empurravam tudo para cima de Rui-kun e fugiam. Era cruel demais.
“Por que é você quem está chorando, Ema?”
“P-Porque...”
Antes que eu percebesse, as lágrimas já transbordavam.
Eu me sentia frustrada e triste; a sensação de impotência, de não poder fazer nada, me deixava com raiva.
Eu não entendia por que Rui-kun tinha que passar por aquilo.
“Tudo bem fugir.”
Eu sabia que eram palavras irresponsáveis.
Mas não conseguia pensar em mais nada para dizer a ele.
Eu queria salvar Rui-kun.
Mas eu era impotente, e não havia nada que eu pudesse fazer por ele.
Eu não conseguia evitar a frustração.
“Eu tentei fugir. Naquele dia, eu estava no meu limite. Queria escapar de tudo, então me joguei da passarela.”
Isso foi há duas semanas, na noite da chuva de meteoros.
“Enquanto caía de cabeça, pensei: ‘Ah, finalmente acabou. Posso escapar’. Mas, no instante em que a estrela cadente passou, o mundo ficou branco...”
Eu sabia o que tinha acontecido depois daquilo.
Fui eu quem interferiu. Eu impedi o Rui-kun de escapar. De encontrar a paz.
“Você me odeia por isso...?”
“No começo, sim, eu me perguntava quem diabos você era. Mas não sinto mais isso agora. Percebi que não sou só eu que estou sofrendo; todo mundo carrega algo, grande ou pequeno, que faz a pessoa querer morrer.”
Depois de terminar de enfaixar, Rui-kun segurou minha mão.
“Vou acompanhar você até em casa.”
“...Obrigada.”
De mãos dadas, saímos.
Ao respirar fundo, senti o ar frio nos pulmões.
O outono estava chegando ao fim, e logo o inverno viria. Quando essa época chegasse, entre mim e Rui-kun...
Quem de nós estaria olhando para o céu desse jeito?
“Rui-kun, você não sente raiva dos seus pais ou do seu irmão mais velho?”
“Raiva, é?”
Inúmeras estrelas cintilavam no céu noturno.
Olhando para elas, Rui-kun riu, como se nunca tivesse sequer cogitado isso.
“Alguma coisa mudaria se eu sentisse raiva?”
Essas palavras soaram como se ele tivesse desistido de tudo, e isso me deixou triste.
Sem pensar, apertei a mão que eu segurava.
“Mas isso é triste demais!”
Porque Rui-kun não estava nem um pouco errado.
“Obrigado por sentir raiva por mim. Em algum momento, talvez eu tenha parado até de perceber que tudo bem sentir raiva.”
Pensar em como ele foi forçado a carregar tanto peso a ponto de seu coração ficar dormente me deixou frustrada a ponto de querer chorar.
“...Rui-kun, você já pensou em sair de casa?” Ele podia achar que era apenas uma ideia ingênua de criança, mas eu sentia que era a única saída.
Rui-kun não deveria precisar morrer para se libertar da família; se deixá-la pudesse proteger o coração e a vida dele, então seria o melhor a fazer. Mas...
“Você está tentando fazer com que eu queira viver dizendo isso?”
Rui-kun riu como uma criança que tinha acabado de pensar em uma travessura, então eu...
“Poxa!”
Se era eu quem dizia aquilo, talvez fosse inevitável que ele pensasse assim.
Mas não era isso que eu queria dizer.
Eu só queria dizer a Rui-kun que havia outras formas de escapar além de morrer.
Era só isso.
Mas, no fim das contas, eu estava apenas impondo meus sentimentos a ele.
“...Desculpe por falar o que me deu na telha.”
“É, pois é”, disse Rui-kun, parecendo desconcertado com o meu pedido de desculpas.
“Seria bom se eu pudesse ir embora, mas cortar laços com a família não é tão simples quanto você pensa, Ema.”
“Eu sei, mas mesmo assim...”
“Não, você não sabe. Como um estudante do ensino médio poderia sair de casa e sobreviver? Onde eu moraria? Como pagaria as coisas? Teria que largar a escola? Onde eu trabalharia?”
“Isso seria...”
Quando ele colocou a questão dessa forma, não consegui dar uma resposta imediata.
Era verdade que ainda éramos crianças sob a proteção dos nossos pais, e não havia muito que pudéssemos fazer sozinhos.
Mas, então, seria certo um estudante do ensino médio sofrer tanto, sozinho, a ponto de querer morrer?
Isso tinha que estar errado.
Minhas emoções falaram mais alto e nenhuma palavra saía.
Em vez disso, as lágrimas transbordaram e rolaram pelas minhas bochechas.
Eu estava frustrada.
O fato de não conseguir dizer nada, de não conseguir fazer nada, era tão frustrante e doloroso que eu mal conseguia suportar.
“...Mas obrigado. Por se importar tanto comigo. Isso me deixou muito feliz. De verdade, obrigado.” Balancei a cabeça repetidamente em resposta às palavras de Rui-kun.
Não havia motivo para ele me agradecer.
Eu não tinha conseguido fazer absolutamente nada.
“Eu serei quem vai salvar você.”
“Hã? Você disse alguma coisa?”
Talvez ele tenha ouvido o som fraco das palavras que murmurei, pois Rui-kun inclinou a cabeça.
“Não, não é nada.”
Neguei com um sorriso forçado e olhei para o céu estrelado.
Se ninguém mais fosse ajudar Rui-kun, então eu seria quem o protegeria.
Eu darei o Rui-kun querer viver.
“É, decidi.”
Não porque eu quisesse morrer.
Mas porque eu queria que Rui-kun vivesse.
Porque eu queria que ele fosse feliz.
É por isso que eu seria quem manteria o Rui-kun vivo.
Traduzido por Moonlight Valley
Link para o servidor no Discord
Entre no nosso servidor para receber as novidades da obra o quanto antes e para poder interagir com nossa comunidade.
Comentários do capítulo 3
Converse sobre este capítulo. Marque spoilers para proteger outros leitores.