Nossos 28 Dias Com Vontade de MorrerOne Shot – Capítulo 4 – Capítulo 4: 18-24 de Outubro
Capítulo 4O que eu deveria fazer para fazer o Rui-kun querer viver?
Eu o observava na sala de aula e refletia.
Até aquele momento, eu só fazia planos para o dia seguinte.
Eu pensava que, se o dia de amanhã fosse pelo menos um pouco divertido, talvez não doesse tanto enfrentar o dia de hoje.
Mas, mesmo que o dia de amanhã fosse divertido, o dia seguinte ainda chegaria.
O cotidiano de Rui-kun era repleto de sofrimento.
O ideal seria que ele conseguisse sair daquela casa.
Mas, se ele não podia fazer isso agora, talvez eu devesse tentar fazer planos para um futuro um pouco mais distante — para que ele não quisesse morrer hoje ou amanhã.
Por exemplo, ir a algum lugar no mês que vem...
Mas, mesmo que eu fizesse uma promessa para o mês seguinte, já estava decidido que um de nós morreria; então, eu sabia que isso não teria sentido.
Enquanto eu me perguntava se havia algo que eu pudesse fazer, uma boa notícia veio de uma fonte inesperada.
Foi durante o horário de avisos da sexta aula.
O professor responsável pela turma ficou diante da lousa e começou a escrever.
Era sobre a viagem escolar para Hokkaido, no mês que vem.
“Muito bem, vamos formar grupos para a viagem. Façam grupos de seis pessoas: três meninos e três meninas.”
Pensando bem, tinha isso também.
Todos ao meu redor estavam agitados, mas, naquela altura, talvez eu nem estivesse mais viva.
Então, não havia motivo para ficar ansiosa por isso...
“Oh.”
“O que houve?”
Honami, que sentava ao meu lado, virou-se para mim surpresa, pois eu havia deixado escapar um som sem pensar.
“Ah, é verdade. A viagem escolar.”
“O que tem a viagem? Enfim, tudo bem se o grupo for eu, você e a Kiho-chan? Quem deveriam ser os meninos?”
Fiquei grata por ela presumir, naturalmente, que ficaríamos juntas.
Se eu acabasse sozinha numa situação dessas, seria muito constrangedor.
“Quanto aos meninos... tem alguém com quem eu quero que a gente forme o grupo.”
“Eh, quem? Ah, já sei! É o Kiryu, né!” Não consegui esconder a surpresa por ela ter adivinhado.
“Como você sabia?”
“Porque vocês dois têm parecido próximos ultimamente.”
“É mesmo?”
Eu fazia questão de não falar com ele na sala de aula; a gente só voltava para casa juntos depois de sair pelo portão da escola.
Achava que ninguém tinha percebido, mas não conseguia acreditar que Honami tinha notado.
“Hehe, não subestime suas amigas. Eu percebo quando tem alguém em quem você está interessada.”
“Não é como se eu estivesse interessada nele desse jeito.”
Era verdade; não era bem assim. Eu só queria salvar Rui-kun.
“Então, tudo bem se ficarmos no mesmo grupo que o Rui... o Kiryu-kun?”
“Por mim tudo bem, mas será que não seria um problema para ele...?”
“Para ele?”
Olhei para onde Honami apontava e vi Rui-kun cercado por garotas.
Havia as garotas com quem ele andava sempre, junto com outras que normalmente não se aproximariam dele, mas que criaram coragem por causa da viagem escolar.
Parecia que mais da metade das garotas da turma estava reunida em volta de Rui-kun.
“Ei, ei, Rui, com quem você vai fazer o grupo?”
“Com a gente, obviamente, né?”
Entre elas, Takase-san — que geralmente se dava bem com o Rui-kun — falou com ele como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
Rui-kun, que estava conversando com os garotos, olhou de relance para Takase-san e as outras e deu um sorriso sem jeito.
“Hmm, eu preciso perguntar para os outros caras também.”
“Ehh! Quer dizer, existe alguma chance de você formar grupo com outra pessoa que não seja a gente?”
Takase-san olhou em volta como se quisesse afastar a concorrência; seus olhos pareciam dizer: “Vocês não vão tentar roubá-lo de mim, vão?”
No entanto, as outras garotas também não recuavam.
“K-Kiryu-kun!” Hanano-san, que observava tudo da beirada do grupo, pareceu achar que tinha uma chance agora que Takase-san e as outras haviam ficado em compasso de espera. Ela chamou Rui-kun com uma voz clara, algo que eu jamais esperaria vindo dela, dado o seu jeito habitual.
“Hanano-san? O que houve?”
“Hum... bem, s-se você ainda não tiver formado grupo com ninguém... V-você não quer se juntar a nós?”
Tanto eu quanto Takase-san ficamos sem palavras diante dessa concorrente inesperada.
Eu jamais teria imaginado que Hanano-san — que era, na verdade, uma pessoa quieta e com quem eu nunca tinha visto conversar com garotos além do estritamente necessário — convidaria o Rui-kun.
“Hã? Ah... obrigado pelo convite. Mas sinto muito. Como acabei de dizer à Takase e às outras, não posso decidir sozinho sem consultar os outros caras.”
“E-entendo. Faz sentido...”
“Mas obrigado por perguntar.”
Hanano-san balançou a cabeça com tanta força que parecia que ela ia se soltar, em resposta ao sorriso gentil de Rui-kun. Mas nenhuma das outras garotas a olhava com gentileza.
“Não acredito que ela teve a audácia de perguntar ao Rui bem na nossa frente.”
“Sério, inacreditável.”
Takase-san e as outras começaram a reclamar, uma após a outra.
“Eu n-nunca imaginei que a Hanano-san fosse tomar a iniciativa...”
“Eu ia tentar, mas agora não dá mais.”
As outras garotas cochichavam coisas maldosas sobre a ousadia de Hanano-san, embora elas mesmas tivessem ficado apenas observando de longe, sem fazer nada.
Mas eu era igual a elas.
“Acha que tem alguma chance?”
“Hm...”
Murmurei em resposta a Honami.
Normalmente, eu não teria coragem de me meter numa situação daquelas.
Eu costumava pensar que não precisava forçar minha entrada no grupo de Rui-kun, e que bastava entrar em um grupo com garotos de quem Honami fosse amiga.
Mas agora...
Lembrei-me do Rui-kun que só eu conhecia.
O Rui-kun que parecia angustiado, que estava sofrendo e que tentava desesperadamente — sinceramente — viver.
Eu queria que Rui-kun quisesse viver. Queria que ele continuasse vivo.
Por isso...
“...Eu vou.”
Depois de dizer isso a Honami, levantei-me da cadeira para ir em direção a Rui-kun.
Abri caminho por entre as garotas ao redor.
“Com licença um instante”, eu disse, e olhares frios e ressentidos se voltaram imediatamente para mim.
Por outro lado, os garotos pareciam observar com diversão, sem entender o que estava acontecendo.
Meu coração não estava apenas palpitando; batia com tanta força que ecoava nos meus ouvidos.
Eu tinha certeza de que nunca estivera tão nervosa na vida.
Rui-kun virou-se para mim, provavelmente percebendo o alvoroço.
Percebi que ele pareceu surpreso por um momento.
Mas eu já tinha ido longe demais para recuar agora.
“A-Ah! Rui-kun!” Droga, estávamos na sala de aula; eu deveria tê-lo chamado de Kiryu-kun.
Arrependi-me, mas já era tarde demais.
Não dava para voltar atrás no que eu tinha dito.
Sendo assim, não me restava alternativa a não ser seguir em frente com aquilo.
Percebi que o ambiente, antes tão barulhento, havia mergulhado em um silêncio sepulcral.
Cerrei as mãos com força e olhei diretamente nos olhos de Rui-kun.
“Você quer entrar para o meu grupo?”
Falei rápido, mas com clareza.
Fiquei imaginando o que ele diria.
Se ele dissesse que já estava tudo decidido, eu teria de desistir.
Mas se houvesse nem que fosse a menor possibilidade...
“Eu...”
Rui-kun abriu a boca, e eu, por reflexo, apertei os olhos.
O tempo que ele levou para pronunciar a palavra seguinte pareceu uma eternidade.
“Hã...”
“Hã?! Mikami-san, você acabou de convidar o Kiryu-kun?”
“Espera, ela o chamou de Rui-kun? Isso não é intimidade demais?”
“Saiba o seu lugar, Mikami-san. Alguém como você jamais estaria no mesmo nível do Rui.”
“Ver a Hanano-san te deu esperanças? Achando que vocês, solitárias e sombrias, podem apoiarem umas às outras? É, sinceramente, hilário.”
Takase-san e as outras caíram na gargalhada, num volume que abafou completamente as palavras de Rui-kun.
Não parecia apenas crueldade; dava a impressão de que elas realmente tentavam impedir minha atitude imprudente, e minhas orelhas queimavam de vergonha.
Quando abri os olhos, vi as garotas me encarando com irritação e ouvi as provocações dos garotos.
Eu queria fugir. Mas não queria recuar.
Levantei o olhar, que estava baixo, e encarei Rui-kun.
Fiquei imaginando que expressão ele estava fazendo.
Será que ele estava surpreso?
Será que ele estava se perguntando sobre o que eu estava falando?
Ao contrário da minha ansiedade, o rosto de Rui-kun estava corado e seus olhos, arregalados.
“Huh...”
Foi apenas por uma fração de segundo; Rui-kun imediatamente voltou à sua expressão habitual e indiferente de “Kiryu-kun”.
O que foi aquilo agora há pouco...?
“Eu...”
Rui-kun hesitou, desviando o olhar de mim de forma sem jeito.
Eu o havia colocado em uma situação difícil. Mas, mesmo assim.
“Eu realmente quero ficar no mesmo grupo que você, Rui-kun!”
Fixei meu olhar nele, mas não consegui fazer com que ele olhasse nos meus olhos.
Ainda assim, eu não queria desistir.
Afinal, era o Rui-kun.
Se ele entrasse em um grupo com os outros garotos, provavelmente agiria de forma tão comum que ninguém se importaria quando ele desaparecesse mais tarde.
Mas eu não deixaria isso acontecer.
Eu faria com que ele ficasse tão ansioso pela viagem escolar que não conseguiria evitar.
Eu faria com que ele sentisse que não queria morrer — que estava tão feliz por estar vivo que mal conseguia conter a emoção.
Eu sabia que era ridículo — alguém como eu, que não tinha vontade de viver e não via sentido na existência, querer fazer outra pessoa querer viver.
Mas, mesmo assim, eu queria que Rui-kun sonhasse com um futuro.
Eu queria que ele acreditasse que a vida não era apenas sofrimento e que havia um mundo brilhante lá fora.
...No meu lugar.
“Escuta aqui!”
Talvez tendo perdido a paciência com o meu silêncio, Takase-san, que estava ao lado de Rui-kun, colocou-se entre nós e me encarou com irritação.
“Não tem como o Rui acabar num grupo com alguém como você! Se você entendeu isso, então anda logo e volta para o seu próprio grupo...”
“Entendo.”
“Heh?”
Afastando Takase-san gentilmente, Rui-kun ficou parado na minha frente. “Quem mais está no seu grupo, Ema? Eu estou com o Keita — Yoshizaki Keita — e o Shinya.”
“Ah, é... eu estou com a Honami e a Kiho-chan...”
“Ichii e Sugimoto, entendi. Keita, Shinya, tudo bem para vocês, certo?”
“A-Ah. Para nós, tanto faz. Né?”
“Sim, tudo bem. Prazer em conhecê-la, Mikami-san.”
Yoshizaki-kun e Shinya-kun, que estavam por perto, aceitaram prontamente.
As únicas que não ficaram convencidas foram Takase-san e as outras garotas.
“Rui!? Por que com gente como a Mikami-san?”
“Não chame nossas colegas de classe de ‘gente desse tipo’.”
“Não estou falando disso! Se você vai formar grupo com a Mikami-san, forme comigo!”
Takase-san segurou o braço de Rui-kun e falou olhando para cima, para ele.
Tenho certeza de que Takase-san gosta de Rui-kun.
Mas sinto muito.
Se ela não conseguia ser a razão de viver de Rui-kun, eu não podia entregá-lo a ela.
“Não importa com quem eu forme grupo, importa?”
“Mas isso não significa que tenha que ser a Mikami-san!”
“O que isso quer dizer? Eu decidi que vou ficar com a Ema e as outras.”
Depois de dizer isso com firmeza, Rui-kun me disse “Vamos” e começou a caminhar em direção a Honami e demais.
“Rui!”
Takase-san levantou a voz, mas ele não parou.
Quando voltamos para onde estavam Honami e Kiho, elas olhavam alternadamente para mim e para Rui-kun, com expressões de surpresa e admiração.
“Você realmente conseguiu trazê-lo.”
“O que isso quer dizer? Não é como se ele fosse um cachorro de rua.”
“Não, eu já fiquei chocada só de você ter ido até lá, mas isso aqui é outro nível.” Kiho-chan parecia pensar o mesmo, apenas assentindo em silêncio.
Bem, era natural pensar que não havia como eu — que normalmente não tinha contato com ele na sala de aula — convidar Rui-kun de repente e ouvir um “sim” dele.
“Ora, ora, somos colegas de classe, então não é estranho acabar no mesmo grupo que qualquer outra pessoa.”
“Exatamente. Já que estamos no mesmo grupo, vamos nos dar bem.”
Yoshizaki-kun e Shinya-kun falaram de forma animada e pegaram a folha de grupos para a excursão que estava sobre a mesa da Honami.
“Só precisamos escrever nossos nomes aqui, certo? Beleza, vamos colocar o Rui como líder do grupo.”
“Por que eu? O Keita é quem devia fazer isso.”
“Eu? Por mim tudo bem, mas não tenho confiança nenhuma de que vou chegar na hora certa para as reuniões, sabe?”
“Não, falando sério, começa a acordar na hora certa.”
[Sol: Se ver animes me ensinou algo, seria que “para não se atrasar sempre durma no local de encontro”, kkkkkkk.]
Rui-kun olhou exasperado para Yoshizaki-kun, que falava sem o menor sinal de remorso.
Eu achava que ele estava apenas interpretando o papel de “Kiryu-kun”, mas, ao vê-lo conversar com os garotos daquele jeito, senti que as verdadeiras expressões de Rui-kun estavam aparecendo.
Talvez fosse porque ele estava na frente de Yoshizaki-kun e Shinya-kun.
“Então o Kiryu-kun sorri desse jeito, hein.”
Honami sussurrou no meu ouvido, parecendo surpresa também.
Eu estava feliz por todos estarem começando a ver os lados bons de Rui-kun.
Eu deveria estar feliz, mas senti um pouquinho de solidão — a sensação de que o Rui-kun que só eu conhecia estava se tornando um pouco alguém que todos conheciam.
“Acho que a Honami-chan deveria ser a líder das meninas!”
Ao ouvir Kiho-chan mencionar seu nome de repente, Honami deu um sobressalto.
Parecia que ela jamais imaginara que a escolha recairia sobre ela.
“E-Eu?”
“Exatamente. A Honami-chan é de confiança, então vai dar tudo certo.”
Não foi só Honami quem reagiu às palavras de Kiho-chan.
“Sugimoto-san, você está dizendo que eu não sou de confiança?”
“Ah, não, não foi isso que eu quis dizer.”
Diante das palavras de Yoshizaki-kun, Kiho-chan agitou as mãos, em pânico.
Honami e eu sentimos a leve tensão no ar e trocamos olhares.
Pensei se deveria intervir — mas então Yoshizaki-kun deu um sorriso de canto.
“Você realmente me conhece bem.”
Naquele momento, Rui-kun e Shinya-kun caíram na gargalhada. Finalmente percebi que ele estava apenas brincando com ela e soltei o ar, aliviada.
“Poxa vida! Achei que tinha deixado você bravo!”
Kiho-chan reclamou com Yoshizaki-kun, mas os garotos apenas riram da situação.
“Foi mal, foi mal. Eu não ficaria bravo com uma coisa dessas.”
“Exatamente. É um fato conhecido que o Keita não é de confiança.”
“Fato conhecido? Desde quando...?”
“Viu só?”
Rui-kun riu, apontando para Yoshizaki-kun, que inclinava a cabeça.
Ao vê-los, não conseguimos evitar o riso também.
Antes que percebêssemos, aquela tensão estranha de pouco antes havia desaparecido.
“Bom, vocês podem me chamar de Keita. Não estou acostumado a ser chamado de ‘Yoshizaki-kun’; isso me dá uma sensação estranha, como se estivesse me pinicando!”
“Isso existe?”
Quando Honami retrucou por reflexo, Yoshizaki-kun apontou para um colega de outro grupo e disse: “É que...”
“Aquele cara também é um Yoshizaki, né? Eu odeio ser tratado como ‘o Yoshizaki das notas boas’ e ‘o Yoshizaki das notas ruins’. Então, se puderem, me chamem de Keita.” Realmente havia outro Yoshizaki-kun na turma.
E, exatamente como o Yoshizaki-kun — o Keita-kun — disse, eu já os tinha ouvido sendo comparados dessa forma.
Ele falou de maneira casual, mas aquilo certamente o incomodava.
“Certo, vou te chamar de Keita-kun a partir de agora.”
Quando disse isso, Keita-kun sorriu, feliz.
“Eu ficaria muito feliz se você fizesse isso! Ah, mas é melhor não chamar o Shinya pelo primeiro nome.”
“Ah, é?”
Ao olhar para o Shinya-kun após as palavras de Keita-kun, vi que ele franzia a testa, como se dissesse: “Não diga coisas desnecessárias.”
Percebendo que todos os olhares estavam voltados para ele, Shinya-kun soltou um suspiro de resignação e começou a falar.
“...Meu nome é ‘Yuki’, mas, quando eu era criança, as pessoas me chamavam de ‘Yuki-chan’ para zombar de mim; por isso, não tenho boas lembranças desse nome. Eu também era pequeno, então diziam coisas como: ‘Você é menina, não é?’”
“Que horror...”
“Pois é, depois disso parei de gostar do nome. Seria melhor se você me chamasse pelo sobrenome.”
Cada um tem seus próprios motivos.
Há tantas coisas que a gente só descobre conversando assim; isso me fez perceber o quanto eu estava errada ao presumir que alguém era “uma pessoa alegre” ou “alguém que não parece se importar com nada”.
Até com Rui-kun foi assim: no começo, eu achava que ele era alegre e não tinha preocupações.
Senti vergonha de quem eu era antes, achando que entendia Rui-kun baseada apenas em suposições egoístas.
Contive com esforço a sensação de desânimo que ameaçava me dominar e forcei um sorriso.
“Entendo. Nesse caso, vou te chamar de Shinya-kun. Como devem nos chamar então?”
Eu pretendia perguntar à Honami e à Kiho-chan, mas Keita-kun falou primeiro.
“Como vocês costumam se chamar?”
“Ema, Honami e Kiho-chan, acho?”
“Eu as chamo de Ema-chan e Honami-chan.”
“Então acho que vamos chamar vocês de Ema, Honami e Kiho-chan também.”
Achei o Keita-kun impressionante por tomar a iniciativa e manter a conversa fluindo daquela maneira.
Graças a ele, a conversa se desenrolou tranquilamente.
Ou pelo menos foi o que pensei, mas, por algum motivo, Rui-kun parecia emburrado.
“Rui-kun? Aconteceu alguma coisa?”
“...Nada.”
Ele disse “nada”, mas sua expressão não condizia com isso.
Eu queria que ele me contasse se algo o estava incomodando, mas ele não parecia ter a menor intenção de falar.
Enquanto eu me perguntava o que fazer, totalmente sem saber como agir, o Keita-kun de repente fez um som como se tivesse tido uma ideia.
“Já sei! Você está com essa cara porque ainda não decidimos como te chamar, né? Relaxa, eu não esqueci! Rui, o que você prefere: seu primeiro nome ou seu sobrenome?”
Diante da pergunta do Keita-kun, o Rui-kun olhou para mim, por algum motivo.
“Rui-kun...? A-ahn...”
Enquanto eu entrava em pânico, sem entender o que ele queria dizer, Rui-kun desviou o olhar abruptamente.
“Tanto faz. Qualquer um dos dois serve.”
“Certo. Então o Rui vai ser ‘Rui’.”
Não foi Rui-kun quem reagiu às palavras do Keita-kun, mas Honami.
“Tudo bem assim?”
“Huh? Como assim?”
“Como assim ‘como assim’... ‘se a Ema estiver de acordo, então tudo bem’.”
As palavras de Honami foram evasivas. Rui-kun parecia totalmente confuso.
Independentemente de eu ser lenta para entender as coisas ou não, não conseguia deixar de me sentir irritada com uma conversa que eu não conseguia acompanhar de jeito nenhum.
“Como eu disse, o que...”
“Então vou te chamar de Rui-kun!”
Kiho-chan disse com um sorriso despreocupado.
Naquele momento, senti um aperto no peito, como se alguém o tivesse agarrado.
Aquilo de agora há pouco...
“Foi por isso que perguntei: ‘Tudo bem?’”
“O quê? Você precisa falar claramente, senão não vou entender.”
Respondi de forma brusca, como se quisesse esconder a dor.
Honami me lançou um olhar exasperado.
“Suspiro... Ei, vem cá um instante.”
Quando nos afastamos daquele grupo animado, Honami perguntou em voz baixa:
“Ema, você se importa se a Kiho-chan e eu o chamarmos de ‘Rui-kun’?”
“Não é bem assim...”
“Sério? Você não se incomoda?”
Quando ela insistiu na pergunta, não consegui dizer nada.
Eu ainda não entendia a razão daquela dor de antes. Mas se, como Honami disse, ela vinha do fato de eu não querer que ninguém além de mim o chamasse de ‘Rui-kun’...
“...Que vergonha.”
As palavras escaparam dos meus lábios sem que eu pensasse.
“Ema?”
“Será que eu pensei que, só por ter ficado um pouco próxima do Rui-kun, era a única com permissão para chamá-lo pelo nome? Até a Takase-san o chamou pelo nome mais cedo, e mesmo assim eu me achei tanto que entendi tudo errado. Não tem problema nenhum qualquer pessoa chamar o Rui-kun de ‘Rui-kun’. É, sinceramente, uma vergonha.”
Eu sentia desprezo por mim mesma.
Rui-kun não me pertence.
E, no entanto, eu tinha me achado tanto.
“N-Não, não foi isso que eu quis dizer.”
“Desculpe, eu estava sendo difícil. Não tenho o direito de dizer nada, então você também deve chamá-lo de ‘Rui-kun’, Honami. Ai, que vergonha, dá vontade de morrer.”
Honami tentou dizer mais alguma coisa, mas deixar que ela continuasse tentando me consolar só me faria sentir ainda mais envergonhada. Encerrei a conversa às pressas e voltei para perto de todos, fingindo que nada havia acontecido.
“Então, que tal depois da aula hoje? Já que estamos no mesmo grupo, seria legal nos conhecermos melhor.”
Com a sugestão de Keita-kun, o assunto passou a ser ir a uma cafeteria depois da escola.
“Boa ideia! Ah, mas e os clubes de todo mundo? Eu não participo de nenhum, vou direto para casa.”
Parecia que todos, menos eu e o Rui-kun, participavam de algum clube; eles checaram os celulares para ver quando terminariam suas atividades.
“Nós somos do clube de futebol, mas acho que terminamos antes das seis hoje.”
“Meu ensaio da banda também deve acabar nessa hora. E você, Kiho-chan?”
“Não tenho clube hoje! Tenho trabalho no comitê da biblioteca, mas devo terminar depois das cinco.”
Pelo visto, a Kiho-chan participava do clube de fotografia, que só se reunia às sextas-feiras.
“Então, tudo bem nos encontrarmos na cafeteria perto da escola às seis?”
Assim que todos concordaram, o sinal tocou anunciando o fim da aula.
Enquanto eu observava todos voltarem para seus lugares, Rui-kun se aproximou do meu ouvido.
“O que a gente vai fazer?”
“Huh?”
“Pensa um pouco.”
Depois de dizer apenas isso, Rui-kun se afastou de mim como se nada tivesse acontecido.
Só entendi o que Rui-kun queria dizer depois que a última aula do dia acabou e saímos da escola.
Quando caminhei ao lado de Rui-kun, que me esperava no portão da escola como de costume, ele se virou de repente para mim.
“Então? O que a gente vai fazer?”
“Como assim ‘o que’...? Você disse isso mais cedo também, mas do que exatamente está falando?”
“Digo, agora mesmo. Faltam quase duas horas para as seis. Você vai para casa primeiro? Ou devemos matar o tempo em algum lugar?”
“Ah...”
Só me dei conta quando ele falou.
Era verdade: se fôssemos seguir o horário dos outros, teríamos tempo demais sobrando. Finalmente entendi por que o Rui-kun tinha perguntado “O que a gente vai fazer?” naquela hora.
“Hmm, quem sabe?”
Certamente havia tempo suficiente para ir para casa primeiro, mas...
Lancei um olhar furtivo para o Rui-kun.
Pensando na situação dele em casa, havia a chance de que ele não conseguisse sair novamente depois de entrar.
Suspeitei que Rui-kun não dizia nada porque achava que eu tentaria dar um jeito de ajudá-lo caso ele admitisse que não queria voltar.
Eu já tinha passado tempo suficiente com Rui-kun para entender isso.
“Então, que tal a gente matar o tempo em algum lugar? É um saco ter que ir para casa e depois sair de novo.”
O Rui-kun franziu a testa com a minha sugestão.
“Você está sendo atenciosa?”
“Não. Se eu for para casa primeiro, vão perguntar aonde eu vou, e vai ser uma chateação. É mais fácil ficar na rua do que ir para casa e ter que responder a um monte de perguntas.”
Tendo acreditado ou não na minha resposta, Rui-kun apenas soltou um “Hmm?” e olhou para a frente.
Continuamos caminhando lado a lado em direção a casa, em silêncio, como sempre fazíamos.
“Pensando bem...”
Depois de um tempo, Rui-kun falou, como se tivesse se lembrado de algo.
“Quando você me convidou para o grupo da viagem da escola hoje, Ema, você me chamou de ‘Rui-kun’, não foi?”
Rui-kun disse isso em um tom provocador.
“Eh, ah, é... é verdade. Pode ser que eu tenha chamado.”
A promessa era que eu o chamaria de Kiryu-kun quando estivéssemos na escola.
E, no entanto, eu havia quebrado essa promessa.
“Desculpa!”
“Ah, não, não estou te culpando. É só que... bem... eu não odiei. Na verdade, se você tivesse me chamado de ‘Kiryu-kun’ naquela hora, talvez eu tivesse recusado o seu convite para entrar no grupo.”
“Como assim?”
“É segredo.”
[Sol: Ahhh, resenhudo de plantão. Você vai me contar agora o porquê!]
Eu tinha começado a achar que entendia um pouco do que Rui-kun estava pensando, mas, no fim das contas, eu ainda não o entendia nem um pouco.
Talvez ele estivesse dizendo aquilo de propósito para que eu não me preocupasse por tê-lo chamado acidentalmente de “Rui-kun”.
Analisei a expressão de Rui-kun, mas a resposta continuou sendo um mistério.
“Então, temos tempo até as seis. Aonde vamos? Tem algum lugar que você queira ir, Ema?”
Não consegui pensar em nenhum lugar de imediato quando ele perguntou.
“Não tenho nenhum lugar em mente. E você, Rui-kun?”
“Se você não tem nada planejado, tudo bem irmos à livraria em frente à estação?”
“A livraria?”
A estação não ficava longe dali, e certamente seria um bom lugar para passar o tempo.
“Tem algum livro que você queira comprar?”
“Mais para ‘pesquisar algo’ do que ‘comprar’, eu acho.”
“Pesquisar algo?”
Ele assentiu com um vago “Bem...”, então parei de insistir e seguimos em direção à estação.
Depois de caminhar cerca de dez minutos na direção oposta ao nosso caminho habitual de volta para casa, chegamos à estação da nossa cidade.
Dentro do complexo comercial conectado diretamente à estação havia uma livraria de tamanho razoável, e nós entramos.
Depois de dar uma olhada nas estantes, Rui-kun foi para a seção de revistas, onde havia várias fileiras de revistas de viagem.
Rui-kun pegou uma revista que trazia “Hokkaido” na capa.
“Oh.”
“O quê?”
“N-Nada.” Eu nunca teria imaginado que ele queria vir a uma livraria só para olhar uma revista de viagem sobre Hokkaido.
Será que isso significa que ele está animado para a viagem da escola, nem que seja um pouquinho?
Se for esse o caso, fico feliz.
Espiei a revista, ficando ao lado dele.
“Ah.”
“O que foi?”
Rui-kun inclinou a cabeça com curiosidade quando deixei escapar aquele som.
Peguei uma revista que estava exposta na prateleira e a entreguei ao Rui-kun.
“Essa é boa, mas seria melhor pegar uma que mostre Otaru e Hakodate. Ela vai ter mais detalhes sobre os lugares que realmente vamos visitar na viagem.”
Rui-kun comparou as duas revistas e depois disse “Obrigado” ao pegá-la da minha mão.
“Você já foi a Hokkaido, Ema?”
Rui-kun perguntou enquanto folheava as páginas.
“Quando eu era pequena.”
Memórias da infância vieram à tona enquanto eu falava.
Uma viagem a Hokkaido que fiz com minha família.
Eles me levaram a todo tipo de ponto turístico.
Era uma experiência repleta de lembranças brilhantes, como uma caixa de joias.
Eu não conseguia esquecer os lugares que visitamos e, depois de voltar para casa, pesquisei sobre cada um deles.
Relembrar a diversão e a comida deliciosa enquanto organizava minhas anotações já era algo prazeroso por si só.
Graças a isso, mesmo não tendo mais tanto interesse quanto antes, aquelas memórias permaneceram comigo.
“Aliás, qual lugar deixou a impressão mais forte em você?”
“Isso... erm...”
O motivo de eu ter hesitado não foi falta de memória.
Foi porque lembrar daquilo traria outras memórias à tona também.
“Ema? O que houve?”
“Ah... não. Hum, não sei se está aí.”
Eu torcia para que não estivesse.
Apesar desse desejo, encontrei o lugar enquanto folheava as páginas.
Eu poderia ter fingido que não.
Mas...
“Aqui.” Segurei a mão do Rui-kun e abri a página que mostrava um céu repleto de estrelas.
“A Vila das Estrelas Cadentes?”
“É, fica na cidade de Ashibetsu.”
Era o nome de uma cidade em Hokkaido onde as estrelas pareciam incrivelmente nítidas.
“Eu gosto de observar as estrelas.”
“É verdade... pensando bem, naquele dia também teve uma chuva de meteoros, não foi?”
“A chuva de meteoros das Dracônidas. Isso mesmo... eu saí de casa porque queria ver as estrelas cadentes e acabei naquela situação.”
Eu jamais imaginei que aquela chuva de meteoros seria o ponto de partida de tudo isso.
Pensando bem, naquele dia também...
Era o inverno do meu oitavo ano do ensino fundamental.
Certo dia, com as férias de inverno prestes a começar, eu voltava para casa a pé com uma colega de classe.
Não éramos próximas o suficiente para sermos chamadas de melhores amigas, mas éramos mais do que apenas colegas de classe.
Era confortável estar perto dela; ela era o tipo de pessoa sempre atenciosa com quem estava ao seu redor.
O sol já havia se posto, pois tínhamos ficado até mais tarde para ajudar a pedido do professor.
Mesmo com luvas e cachecol, o frio estava intenso, e eu queria chegar em casa o mais rápido possível.
“Ei, ei.”
De repente, ela apontou para o céu.
“Aquela estrela brilha tanto!”
“Você tem razão. Será que é Sirius?”
“Sirius?”
Ela inclinou a cabeça ao ouvir minha resposta.
“É, a estrela mais brilhante do céu noturno de inverno é Sirius. Se você ligar Sirius, em Cão Maior, Betelgeuse, em Órion, e Procyon, em Cão Menor, forma-se o Triângulo de Inverno.”
“Já ouvi falar do Triângulo de Verão, mas não sabia que existia um triângulo de inverno também.”
Ela desviou o olhar do céu noturno e virou-se para mim, com os olhos cheios de admiração.
Sinceramente, era apenas algo de um livro de ciências.
Era o tipo de coisa que até uma criança do ensino fundamental poderia saber — nada demais.
“Eu não entendo nada dessas coisas, então me surpreendeu a facilidade com que você falou tudo isso, Ema-chan!”
Batendo palmas com as mãos enluvadas, ela falou, com as bochechas vermelhas de frio.
Não era nada demais, na verdade.
Mas ser admirada daquela forma me deixou um pouco sem jeito.
“Eu gosto do céu estrelado.”
Foi por isso que acabei falando sobre coisas que ela nem tinha perguntado.
“Eu também gosto de planetários, mas acho que eles nunca se comparam ao céu de verdade. Quando você se deita na grama e olha para o céu noturno, parece que vai ser engolida por aquela imensidão de estrelas. Eu adoro essa sensação.”
“Você tem alguma recomendação?”
“Hmm, aqui por perto, o leito do rio é um bom lugar, já que a luz dos postes não atrapalha tanto. Mas, falando sério, quando penso no lugar em Hokkaido onde as estrelas eram mais lindas... ainda não consigo esquecer o céu que vi lá.”
Talvez fosse apenas uma lembrança idealizada pela nostalgia da infância.
Ainda assim, quando se tratava do ‘melhor’ lugar, aquele era o único que me vinha à mente.
“Entendo... Então aquela estrela é a mais brilhante.”
Olhando para o céu noturno mais uma vez, ela falou baixinho.
“Deve ser maravilhoso. Um dia, quero ir ao lugar onde as estrelas são mais lindas.”
Ela estendeu a mão em direção ao céu noturno, como se tentasse agarrar uma estrela.
“Eu também quero me tornar uma estrela.”
Suas palavras sussurradas se dissiparam, como se engolidas pelo ar frio.
Uma semana depois, ela tirou a própria vida.
Numa noite em que as estrelas brilhavam, sob o olhar de Sirius.
Como se ela realmente tivesse se tornado uma das estrelas do céu noturno.
Eu me perguntava o que ela estava pensando, o que estava sentindo, quando olhava para as estrelas comigo.
Eu nunca ouviria a resposta.
“Hmm, acho que ir até Ashibetsu é complicado, afinal.”
A voz de Rui-kun me trouxe de volta à realidade.
Falar sobre aquele lugar nostálgico parecia ter puxado minha mente de volta para aquelas lembranças.
“Se fôssemos tão longe durante o tempo livre, teríamos que voltar imediatamente.”
“É, eu sei. Tudo bem.”
Eu sabia desde o início que era impossível.
Mesmo que pudéssemos ir, provavelmente seria durante o dia.
Não haveria como ver o céu estrelado.
Além disso, eu não queria mais pensar nas estrelas.
Sempre que eu olhava para o céu noturno, lembrava dela.
Meu coração era arrastado de volta. De volta aos dias em que ela estava viva, e ao dia em que ela pôs fim a tudo.
Foi por isso que tranquei essa parte do meu coração e deixei no passado os dias em que eu amava as estrelas. Eu já não estava mais tão interessada.
Não sentia mais a mesma paixão de antigamente.
Eu repetia para mim mesma que o céu estrelado era apenas algo de que eu gostava no passado.
“Obrigada por se importar. Mas não se preocupe com isso.”
“...Tudo bem.”
Inclinei a cabeça quando Rui-kun assentiu, ainda parecendo insatisfeito.
Fiquei imaginando se havia algo errado.
Ah, talvez ele achasse melhor que eu encontrasse algo de que eu gostasse, para que ele pudesse morrer e eu, viver.
Porque Rui-kun e eu éramos iguais: ambos queríamos que o outro vivesse para que nós pudéssemos morrer.
Depois disso, matamos o tempo até encontrar os outros, folheando livros e guias de referência na livraria.
Quando chegou a hora, fomos para a cafeteria, onde os outros quatro já estavam.
Ver os quatro divididos entre meninos e meninas, sentados frente a frente e parecendo se dar bem, me deixou aliviada.
Aquele grupo só havia se formado por causa do meu egoísmo.
Não é que eu não sentisse culpa em relação a eles.
Mas, ao observá-los, tive a certeza de que tudo correria bem no dia do passeio, mesmo que eu não estivesse lá.
Se fosse possível, eu queria que Rui-kun entrasse naquele círculo e se divertisse com os cinco.
Cheguei até a desejar que Rui-kun se apaixonasse pela Honami ou pela Kiho-chan.
Eu tinha certeza de que, se ele encontrasse alguém que amasse, não iria mais querer morrer.
Sim, se ele ao menos conseguisse uma namorada...
“……!”
Naquele momento, senti uma pontada aguda no fundo do peito. Aquela dor era...
Eu não queria reconhecer a verdadeira natureza daquela dor, então a sufoquei dentro do meu coração.
Eu não podia admitir aquele sentimento.
Se o fizesse, tinha certeza de que Rui-kun se tornaria um apego do qual eu não conseguiria me libertar.
[Sol: Opa… Coração acelerou ai?]
Se eu pensasse, nem que fosse por um instante, que não queria morrer, então seria Rui-kun quem morreria em meu lugar.
Eu não queria isso.
Foi por isso que esmaguei aquele sentimento minúsculo que havia surgido em mim.
Porque a coisa mais importante para mim, naquele momento, era fazer o Rui-kun querer viver.
Juntei-me a Honami e aos outros com o Rui-kun e passei cerca de uma hora conversando com eles.
Embora estivéssemos, teoricamente, na mesma turma há quase meio ano, fiquei surpresa com o pouco que sabíamos uns sobre os outros.
Mas, à medida que fui conhecendo cada um deles, comecei a gostar de todos mais do que antes.
Eu não desgostava daquela sensação.
Quando chegou a hora de ir embora, acabei voltando a pé em direção ao parque com Rui-kun e Kiho-chan.
“Aliás, Rui-kun. Você se lembra da Tsu-chan?”
“Ah — quem era ela mesmo? Aquela garota do clube de vôlei?”
“Exatamente. Por acaso, cruzei com ela outro dia.”
Como tinham estudado na mesma escola de ensino fundamental II, Rui-kun e Kiho-chan conversavam animadamente sobre a antiga escola.
Diminuí um pouco o passo para não atrapalhá-los.
Rui-kun olhou para trás algumas vezes, como se estivesse preocupado, mas eu simplesmente não conseguia me sentir à vontade para participar da conversa deles.
Depois de um tempo, o parque de sempre surgiu à vista.
Era ali que eu me despediria deles.
“Bom, então... até amanhã!”
Acenei enquanto falava, e Kiho-chan retribuiu acenando com as duas mãos e dizendo: “Até mais!”
Por algum motivo, Rui-kun apenas ficou me encarando, sem dizer uma palavra.
“Rui-kun? Você queria...”
Antes que eu pudesse terminar, Rui-kun se aproximou rapidamente e parou bem ao meu lado.
“R-Rui-kun?”
“Semana que vem, tem um lugar aonde eu quero ir só com você.”
“Hã? Só nós dois...?”
Minha voz falhou por reflexo.
Vi Kiho-chan chamando “Rui-kuun?” por cima do ombro dele, mas Rui-kun continuou andando sem dar atenção a ela.
“Então, deixe sua agenda livre.”
“E-Espera. Aonde vamos?”
Perguntei apressada, tentando não deixar transparecer meu nervosismo. Mas...
“É segredo.”
Rui-kun deu um sorriso de canto e disse apenas “Até amanhã” antes de se afastar.
Fiquei para trás, sem saber o que fazer, apenas pressionando as mãos contra o rosto que queimava, tentando escondê-lo, enquanto meu coração batia tão forte que chegava a incomodar.
[Sol: Ehhhhh, que beleza hein. Dato~]
No sábado à noite, bem quando eu estava prestes a ir ao parque, como nas semanas anteriores, minha mãe me barrou na saída de casa.
“Ei, aonde você vai?”
“Hum, vou à loja de conveniência.”
“Você disse isso e saiu no sábado passado também, não foi?”
“Isso é...”
Eu não esperava levar uma bronca por algo assim, então fiquei sem palavras.
“Ema, aconteceu alguma coisa recentemente?”
“Nada em particular.”
“Sério? Se tem algo te incomodando, pode contar para a mamãe...”
“Eu disse que não é nada.”
Não é que eu me sentisse culpada, mas não sabia o que responder se ela perguntasse o que eu estava fazendo.
Se eu dissesse que ia ao parque porque queria morrer, ela não apenas me proibiria de sair à noite; provavelmente restringiria tudo o que eu fizesse.
Como eu deveria mentir...?
Se tivesse sido apenas naquele dia, eu poderia ter dito que queria ver a chuva de meteoros das Dracônidas, mas...
“Ah...”
“Hm? O que foi?”
Não consegui conter o som que escapou, e minha mãe olhou para mim com curiosidade.
Respirei fundo e olhei diretamente nos olhos da minha mãe.
“Sabe, você sabia que a chuva de meteoros das Dracônidas passou no começo deste mês?”
“Dracônidas...? Ah, agora que você falou, vi algo no noticiário sobre estrelas cadentes.”
Ótimo, ela sabia disso.
Sentindo uma leve pontada de culpa, continuei minha história.
“Naquele dia, eu saí escondida para ver a chuva de meteoros.”
“É? Não ouvi falar nada disso.”
“Desculpa. Achei que você fosse me impedir se eu contasse.”
“Bom, é claro que eu impediria.”
Enquanto a testa da minha mãe se franzia, dei a ela um sorriso sem graça.
“E então, eu as vi no parque aqui perto, e eram tão lindas... ──Isso me lembrou o céu estrelado de Hokkaido, para onde fomos em família há muito tempo.”
Ao ouvir minhas palavras, as rugas profundas na testa da minha mãe se suavizaram, e vi o rosto dela se iluminar.
“Agora que você falou, você era obcecada pelo céu estrelado naquela época, não era, Ema? Vivia dizendo que queria vê-lo de novo. Que nostalgia.”
Minha mãe estava assimilando minha história — uma mistura de mentiras e verdades — e ela a absorvia à medida que a conectava às suas próprias memórias.
“Eu era assim mesmo?” Então, interpretei o papel da filha que recorda momentos felizes, mesmo que fosse um pouco constrangedor. Era a filha que minha mãe queria ver.
“Você era assim mesmo. Olhava os livros sobre estrelas que pegava na biblioteca e reagia a cada detalhe, dizendo coisas como: ‘Vi essa estrela em Hokkaido!’ ou ‘Eu queria ver essa também!’”
“É verdade. Pois é, talvez eu fosse assim.”
Se eu tinha chegado até ali, provavelmente daria certo.
“E então, como eu queria muito ver o céu estrelado de novo, acabei saindo escondida para o parque na semana passada também. Desculpe.”
“Então era isso.”
Com as mãos na cintura e soltando um suspiro de resignação, minha mãe parecia muito mais branda do que antes.
“Mesmo assim, não aprovo que você saia escondida à noite.”
“Sim...”
“Então, daqui para a frente, você vai me contar a verdade antes de sair, em vez de mentir? E, mesmo que seja só para ir ao parque, é perigoso uma garota ficar andando por aí tão tarde; por isso, certifique-se de voltar em uns trinta minutos. Combinado?”
“Tá bom! Obrigada!”
Enquanto eu assentia obedientemente, minha mãe disse: “Eu achava que você tinha crescido, mas continua igualzinha àquela época”, com um olhar profundamente emocionado.
Aquilo não podia ser verdade.
Eu já não conseguia olhar para o céu estrelado com a mesma pureza de sentimentos de antigamente.
Embora as estrelas continuassem brilhando no céu noturno como sempre, a única coisa que havia mudado era o meu coração.
“Bom, então não se atrase. Está com o celular? Entre em contato se acontecer alguma coisa.”
“Certo, estou indo então!”
Respondi à minha mãe enquanto ela acenava e eu saía pela porta da frente.
Sentia o olhar dela sobre mim até o momento em que a porta se fechou; a sensação era insuportavelmente sufocante, e rapidamente lhe dei as costas.
Olhei as horas no celular: 8h45.
Estava mais tarde do que na semana passada. Enquanto eu me apressava em direção ao parque, vi Rui-kun parado na entrada.
Ao me aproximar dele, senti um alívio por termos chegado praticamente ao mesmo tempo e diminuí o passo.
“Você está atrasada.”
“Eh?”
“Não, não é nada. Vamos?”
Um tanto inquieta com as palavras de Rui-kun, entrei no parque e encontrei Haku sentado no banco, como de costume.
“Ema, você está atrasada hoje.”
“Acabei sendo detida bem na hora de sair. Espera, só eu?” Eu tinha acabado de encontrar Rui-kun lá fora.
Enquanto eu pensava nisso, Haku abriu um sorriso largo.
“O Rui chegou trinta minutos atrás. Ele ficou preocupado com o seu atraso e até saiu do parque para te procurar.”
“Sério?”
Será que o que acabou de acontecer não foi coincidência, e ele estava me esperando?
De propósito? Mas por que...
“Não foi nada. Eu só estava preocupado que você tivesse sofrido outro acidente, já que estava atrasada.”
Mesmo na resposta curta dele, pude perceber que ele estava preocupado comigo.
“Semana que vem, tem um lugar aonde quero ir só com você.”
Naquele momento, as palavras do Rui-kun — aquelas que eu tanto tentei reprimir e esquecer — vieram à tona com força total.
“Ema?”
“……! Não é nada! Estou bem, não se preocupe! Vamos lá, podemos começar.”
Afastei aqueles pensamentos às pressas e olhei para Haku. Como sempre, ele nos observava com aquele sorriso que não revelava nada do que se passava em sua mente.
“Hehe, você tem razão. Então, que tal ouvirmos as histórias de vocês?”
Incentivados pelo Haku, começamos a conversar, embora o clima entre nós continuasse estranho.
No entanto, não era como se algo tivesse mudado desde a semana passada.
Ainda assim, embora o desejo de morrer de Rui-kun não tivesse desaparecido, senti que seu anseio pela morte havia diminuído um pouco.
E Haku também tinha percebido isso.
“Rui? Você não quer mais morrer?”
“Não, não é isso.”
Ele negou, mas havia uma certa hesitação em sua voz.
Talvez ele estivesse começando a sentir, aos poucos, que não queria morrer.
Mas ainda não era o suficiente.
Ele precisava ter um desejo de viver muito mais claro.
Se ficasse decidido ali mesmo que eu seria a pessoa a morrer, então poderia chegar o dia em que Rui-kun escolheria a morte novamente.
E, quando isso acontecesse, eu já não estaria mais neste mundo.
Eu não conseguiria impedir o desejo de morrer de Rui-kun.
“Sério? Se o Rui não precisa morrer, então vou levar a Ema a partir de hoje...”
“Espera!”
Rui-kun interrompeu as palavras de Haku como se fosse por instinto.
“Rui? Aconteceu alguma coisa?”
“Ah, não, bem...”
Talvez tenha sido algo inconsciente da parte dele também.
Haku inclinou a cabeça em direção a Rui-kun, que exibia uma expressão confusa.
No entanto, o olhar de Rui-kun estava fixo em mim.
“Rui-kun?”
“……Eu não disse que não vou morrer ainda. ……Além disso, nós temos uma promessa, não temos?”
Rui-kun falou como se tivesse que forçar as palavras a saírem.
Essas palavras soaram como se ele estivesse me dizendo que não queria que eu morresse.
Talvez Rui-kun estivesse esperando pela nossa promessa de sair na semana que vem mais do que eu imaginava.
Se fosse esse o caso...
“Você tem razão. Nós fizemos uma promessa.”
Enquanto Rui-kun assentia com as minhas palavras, um lampejo de inquietação surgiu em seus olhos.
‘Se for decidido agora...’
Eu sabia que era uma covardia dizer isso.
Mas não conseguia pensar em mais nada.
Sinto muito por usar nossa promessa dessa forma, Rui-kun.
Mas é porque eu realmente quero que Rui-kun continue sorrindo, mesmo depois que eu partir.
Porque eu quero que ele viva.
É por isso que não posso morrer até saber que ele ficará bem sem mim.
Para isso, farei o que for preciso.
“Então, não vou conseguir cumprir nossa promessa para a semana que vem. Sinto muito.”
Sussurrei tão baixo que apenas Rui-kun, ao meu lado, pôde ouvir.
Naquele instante, senti os ombros de Rui-kun tremerem levemente.
“Não!”
Elevando a voz, Rui-kun deu um passo à minha frente e encarou Haku.
“Não é a Ema quem vai morrer. Sou eu. Não vou voltar atrás nisso.”
Mesmo enquanto as palavras de Rui-kun me traziam alívio, uma sensação de felicidade brotava dentro de mim.
“……!”
Eu percebi.
Aquele sentimento de impotência e egoísmo dentro de mim.
Depois de dizer que queria que Rui-kun tivesse um desejo claro de viver, fui forçada a admitir que, no fundo, eu estava ansiosa pela nossa promessa de sairmos juntos.
Sou tão dissimulada. Sou dissimulada e covarde.
“Hmm? Bem, vamos deixar assim por enquanto.”
Olhando de mim, em silêncio, para Rui-kun, que estava parado à sua frente, Haku soltou uma risadinha e saltou do banco.
“Então, nada ficou decidido esta semana. Vocês dois entendem, certo? A semana que vem é a do dia trinta e um. É então que vamos decidir, sem falta, quem morre.”
Dito isso, Haku desapareceu.
Sobramos apenas nós dois.
“......Vamos para casa?”
“É, acho que sim.”
Ao sairmos do parque, Rui-kun começou a caminhar em direção à minha casa.
Como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Talvez Rui-kun sentisse algo por mim.
Essa suspeita crescia cada vez mais dentro de mim.
Mas, quanto mais ela crescia, mais forte se tornava meu desejo de não deixar Rui-kun morrer.
Como eu queria morrer, eu queria que Rui-kun vivesse.
Isso certamente fazia parte, mas, mais do que isso, eu não queria que Rui-kun morresse.
Eu queria que ele vivesse e sorrisse.
Daqui para frente, a partir deste momento, para sempre...
Os sentimentos que eu deveria ter reprimido vieram à tona, inevitavelmente.
Mas eu não podia me permitir reconhecer esses sentimentos.
Por isso, caminhei ao lado dele fingindo ser sua rival.
Como uma oponente disputando quem iria morrer.
Mas apenas por um instante.
Enquanto guardava comigo um sentimento que não conseguia esconder: o de que eu queria conhecer Rui-kun profundamente — não dessa forma, mas como uma colega de classe comum.
Traduzido por Moonlight Valley
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