Nossos 28 Dias Com Vontade de MorrerOne Shot – Capítulo 6 – Capítulo 6: 31 de Outubro
Capítulo 6Chegara o dia do julgamento.
A previsão indicava tempo limpo o dia todo e que as estrelas estariam visíveis à noite.
Eu nunca mais passaria tempo naquele quarto.
Achava que não tinha mais laços que me prendessem à minha família ou aos meus amigos, mas, agora que sabia que aquele era o fim, peguei-me perguntando por que sentia aquela leve solidão.
Não é como se houvesse algo que eu ainda quisesse dizer à minha família.
Se eu morresse, talvez eles ficassem um pouco tristes no início.
Eles eram uma família gentil. Tenho certeza de que chorariam por mim.
Mas, com o passar do tempo, eu tinha certeza de que até a lembrança da minha morte acabaria se apagando.
Além de nossa família passar de quatro para três pessoas, nada mudaria muito, e imaginei que a vida deles simplesmente continuaria a partir daquele dia. Mas...
“Ara, que coisa incomum. Você já está de pé num sábado?”
Quando entrei na sala de estar, minha mãe soltou uma risadinha.
O tom dela me irritou, mas, ao ver o café da manhã que ela havia preparado para mim sobre o balcão, fiquei sem palavras.
“Espere um pouco. Vou esquentar para você agora.”
“Por que você fez para mim também?”
Fiquei surpresa ao encontrar o café da manhã à minha espera, já que ninguém poderia saber a que horas eu acordaria.
Mas minha mãe apenas sorriu, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo, e colocou o prato no micro-ondas.
“Eu queria deixar tudo pronto para que você pudesse comer assim que levantasse.”
“Huh... Espere, você sempre faz isso?”
“Claro. Você não sabia?”
Eu não sabia.
Eu nem sequer tinha tentado saber.
“Então…”
Minha mãe continuou enquanto colocava meu café da manhã sobre o balcão.
“Eu queria conversar sobre o que você planeja fazer depois de se formar.”
“Isso não importa muito, não é...?”
“Seu pai e eu apoiaremos qualquer caminho que você escolher, Ema. Já reservamos o dinheiro para isso.”
“Hã?”
Minha mãe falou calmamente, observando-me com um olhar gentil e um sorriso suave.
“Então, veja bem: se houver algum lugar aonde você queira ir ou algo que queira fazer, pode fazer o que bem entender. Seja entrar na universidade, fazer um curso profissionalizante ou arranjar um emprego, nós apoiaremos o caminho que você escolher. Eu só queria te dizer isso.”
Eu não era tão criança a ponto de não saber que pagar a mensalidade da universidade não era uma obrigação automática dos pais.
Eu também tinha uma noção aproximada de quanto isso custava.
Ao ouvir que eles apoiariam qualquer caminho que eu escolhesse, finalmente compreendi o quanto eu deveria ser grata e o quanto eu era realmente amada.
Eu sempre me sentira desconfortável, como se houvesse uma distância entre nós, apesar de sermos uma família.
Cheguei até a sentir inveja da minha irmã mais nova, pensando que, se eu fosse tão cativante quanto ela, poderia passar meus dias sentindo que pertencia naturalmente à família.
Mas eu estava enganada.
Mesmo sem me comparar à minha irmã mais nova, eu realmente era amada.
E talvez, pela primeira vez, eu tenha percebido isso de verdade.
Eu também havia passado a valorizar minha família.
“Entendo...”
“Hm?”
“Não... obrigada.”
Fiquei feliz por finalmente saber que era amada.
Fiquei feliz por perceber que também os amava.
Naquela noite, saí de casa escondida.
Eu havia deixado meu quarto impecavelmente arrumado.
Pensei em escrever uma carta, mas não queria nada muito dramático, então desisti da ideia.
Em vez disso, deixei apenas uma frase em um cartãozinho.
【Obrigada.】
Guiada pela luz dos postes, saí sentindo-me estranhamente leve.
Inúmeras estrelas brilhavam acima de mim.
Perguntei-me se aquela garota também havia se sentido assim em seu último dia.
Honami talvez ficasse brava ao saber que eu morri.
Tenho certeza de que a Kiho-chan choraria.
Era uma pena que eu nunca poderia contar a ninguém que não morri na miséria. Eu mesma escolhi a morte. Para proteger a vida de alguém precioso para mim.
Por isso, não me arrependia.
A uma curta distância de casa, vi uma silhueta.
“Desculpe fazer você esperar.”
“Eu também acabei de chegar.”
Rui-kun me deu um sorriso forçado.
Tínhamos prometido ir juntos, já que aquele era o fim.
Segurei gentilmente a mão que ele me estendeu.
“Essas quatro semanas passaram voando, não é?”
“Passaram mesmo. Pareceu muito tempo e, ao mesmo tempo, acabou num instante.” Ao relembrar aquelas quatro semanas, parecia que tanta coisa havia acontecido.
Eu conheci Rui-kun e, sem perceber, acabei me apaixonando por ele.
Mas talvez Rui-kun já fosse especial para mim desde o início.
“Eu simplesmente não quero viver.”
Ele nunca riu desses sentimentos nem zombou deles; ele simplesmente os aceitou.
Rui-kun provavelmente não fazia ideia de quão mais leve meu coração havia ficado naquele momento.
Olhei para cima e vi uma estrela cadente.
“Rui-kun, o que você pediria a uma estrela cadente?”
“Eh? De onde veio isso?”
“Bem, sabe, caíram tantos meteoros naquele dia também. Então, fiquei pensando no que você desejaria agora.”
Eu torcia para que ele tivesse um desejo diferente de querer morrer.
Quando fiz a pergunta da maneira mais casual possível, Rui-kun desviou o olhar e respondeu com uma voz tão baixa que só eu conseguia ouvir.
“...Eu queria poder ficar com você para sempre, Ema.”
“Rui-kun...”
Senti a mão dele apertar a minha.
Fiquei tão feliz por o desejo mais profundo de Rui-kun ter mudado para algo voltado ao futuro.
Fiquei tão feliz que a ideia de ele sonhar com um futuro ao meu lado me trouxe lágrimas aos olhos.
Mesmo sabendo que aquele futuro jamais se tornaria realidade.
“Obrigada.”
“Pelo quê?”
“Por sentir isso. Fico muito feliz. ...Eu sinto o mesmo.”
Imaginei como eu seria feliz se isso pudesse acontecer.
Como eu seria feliz se pudesse caminhar ao lado de Rui-kun amanhã, e no dia seguinte também.
“Seria bom se isso se realizasse, não é?”
“Hum?”
O Rui-kun virou-se para mim ao ouvir aquelas palavras que me escaparam.
Então, forcei um sorriso rapidamente.
“Vamos fazer isso acontecer.”
Mudei um pouco as palavras.
Rui-kun franziu a testa, desconfiado, mas quando disse “Isso mesmo!” para dar ênfase, ele assentiu em silêncio.
“Eu vou fazer acontecer.”
Suas palavras determinadas despertaram em mim uma onda de culpa.
Guardei aquele ‘sinto muito’ bem no fundo do peito.
Porque eu não podia deixar transparecer aquilo ainda.
O parque surgiu à vista, e soltei a mão de Rui-kun.
“Não quero que o Haku desconfie.”
Rui-kun pareceu insatisfeito quando disse isso.
“Mas acho que não importa se ele nos vir.”
“Mas se ele achar que estamos dizendo que não queremos morrer porque estamos tentando salvar um ao outro, a situação vai ficar complicada, não é?”
“Talvez, mas...”
Eu sabia exatamente como ele se sentia — ele entendia a lógica, mas não conseguia aceitá-la. Então, usei uma frase bem escolhida.
“Porque eu quero que nós vivamos, juntos. Eu não queria que nada parecesse suspeito.”
“...Sim.”
Quando Rui-kun se afastou um passo de mim, voltamos à nossa distância habitual.
Ao entrarmos no parque lado a lado, vimos Haku sentado em um banco.
“Vejo que vocês dois vieram juntos hoje.”
“Por acaso nos encontramos na entrada.”
“É mesmo? É bom ver que se dão bem.”
Eu não fazia ideia do que Haku estava pensando enquanto soltava uma risadinha.
“Hoje é o último dia. Que tal ouvir como vocês dois estão se sentindo?”
Ficando de pé no banco para poder olhar nos nossos olhos, Haku perguntou com um sorriso largo: “Rui, vou perguntar a você primeiro. Seu desejo de morrer mudou?”
“Eu...”
Haku pareceu um pouco surpreso quando Rui-kun não conseguiu responder.
“Ora, ora? Rui, será que você parou de querer morrer?”
“...!”
Rui-kun olhou para mim.
Fechei com força a mão que eu acabara de soltar e voltei meu olhar para Haku.
“É impossível para a Ema e para mim... que nenhum de nós morra?”
“Tanto o Rui quanto a Ema? Hmm, isso seria um pouco difícil.”
Apesar de franzir a testa, Haku parecia encantado por algum motivo.
Como se estivesse apreciando a angústia de Rui-kun.
“Com certeza levarei a alma de um de vocês. Eu disse isso no começo, não disse?”
“Mas...!”
“Ou o Rui ou a Ema morrerão. Sem exceção.”
O desespero passou pelo rosto de Rui-kun e, em seguida, ele lançou um olhar furioso para Haku.
“Nesse caso...”
“Sou eu quem vai morrer.”
Interrompi Rui-kun e dei um passo à frente.
Ouvi Rui-kun ofegar atrás de mim, mas não olhei para trás.
“Ah, Ema. Eu já lhe disse isso antes, não é? ‘Com certeza levarei uma das suas almas. Mesmo que ambos decidam que não querem morrer’.”
“Você disse isso, sim. É por isso que sou eu quem vai morrer. Eu...”
Afastei a hesitação.
“Nada mudou. Não... na verdade, agora eu quero morrer ainda mais.”
“Ema...? Isso é mentira, não é...?”
“Eu não diria algo assim se fosse mentira.”
Respondi à pergunta de Rui-kun em voz baixa.
Sim, não era mentira.
Eu realmente queria morrer.
Não porque não entendesse o motivo de viver.
Mas para impedir que Rui-kun morresse.
“Por que... Por que! Ema!”
Ele segurou meus ombros e me virou para encará-lo.
Rui-kun me olhava fixamente com uma expressão que eu não conseguia distinguir se era de choque ou de raiva.
Eu só conseguia sorrir para ele.
Eu sabia que não podíamos viver os dois.
Se fosse esse o caso, eu tinha apenas um desejo.
Eu quero que você, Rui-kun, viva.
Eu queria que ele vivesse e encontrasse a felicidade.
Eu queria que ele sonhasse com um futuro.
Era só isso.
“De fato, Ema, você está tomada pelo desejo de morrer.”
“Certo. Então acho que sou eu quem você deve levar.”
“Concordo. Eu também acho.”
“Pare de brincadeira!”
Rui-kun gritou com Haku, que assentia em concordância.
“Por que! Por que a Ema...!? Então me mate! Eu morro no lugar da Ema! Isso serve, não serve!?”
“Hmm, Rui. Você é barulhento.”
Haku falou com uma expressão de irritação e depois riu.
No instante seguinte, Rui-kun desabou onde estava.
“Rui-kun!?”
“Está tudo bem. Eu só o fiz dormir. Seria um incômodo se ele continuasse latindo daquele jeito.”
“Um incômodo...?”
Cada fibra do meu ser queria gritar com Haku e perguntar o que ele achava que os sentimentos de Rui-kun significavam.
Mas, de alguma forma, contive-me no último segundo.
Se eu me deixasse dominar pela raiva agora, Haku poderia mudar de ideia.
“Entendo... Seria um problema se ele continuasse fazendo escândalo.”
“Exatamente. Bem, seria um pouco lamentável deixá-lo caído ali; que tal o trazermos para cá?”
Haku saltou do banco e deitou Rui-kun onde ele estava de pé há poucos instantes.
Mesmo sendo erguido no ar e colocado sobre o banco, Rui-kun não se moveu nem um pouco. Toquei a mão dele com hesitação, e o calor que emanava dela me alcançou.
Graças a Deus, ele estava quente.
Era a mão de alguém que estava vivo.
Sabendo que aquele era o fim, eu ansiava tanto por aquele calor que não conseguia soltá-la.
Eu realmente queria continuar segurando-a para sempre. Mas...
“Você está pronta?”
A voz fria de Haku atingiu minhas costas.
Apertei a mão de Rui-kun com força.
Transbordando todo o meu amor e um último adeus.
“Sim, estou pronta.”
Enxuguei delicadamente as lágrimas que brotavam no canto dos meus olhos e me virei para Haku.
Uma rajada de vento soprou, fazendo as árvores farfalharem.
“Então, vamos recomeçar a partir daquele dia?”
Quando Haku estalou os dedos, a paisagem — não, o mundo inteiro — começou a girar para trás, como se eu estivesse sendo engolida por um vórtice.
Eu não sabia o que estava acontecendo.
Mas me agarrei desesperadamente a Rui-kun, determinada a não deixar que o corpo dele fosse engolido por aquele vórtice.
Quando me dei conta, o mundo havia parado de girar e eu estava de pé no parque.
Nada ao meu redor parecia ter mudado.
Mas observar os rastros de estrelas cruzando o céu me deixou inquieta.
Havia alguma notícia sobre uma chuva de meteoros hoje?
Tantos meteoros... é exatamente como naquele dia...
“Não pode ser.”
A ficha caiu, e olhei para Haku. Ele me deu um sorriso que parecia dizer: “Exatamente.”
“Sim, agora é dia 3 de outubro. A noite daquele acidente.”
“O tempo... voltou...?”
“Exatamente. Afinal, o destino do Rui era morrer neste dia. A coleta dele nunca deveria ter acontecido em 31 de outubro. Então, tomei a liberdade de fazer as coisas voltarem para o dia 3.”
“E algo assim pudesse sequer...”
Perguntar se aquilo era possível parecia tolice.
Porque estava acontecendo ali mesmo, bem diante dos meus olhos. “Ah, então você estava cuidando do corpo do Rui para mim. Obrigado. Bem, então, vamos mandar o Rui de volta também?”
Haku estalou os dedos, exatamente como havia feito antes.
Naquele momento, o corpo de Rui-kun desapareceu dos meus braços.
“Rui-kun!?”
“Ele está bem. Neste exato momento, o Rui está dormindo na cama dele, em casa. Ele não deve acordar até de manhã.”
Se ele não acordaria até de manhã, então Rui-kun não cometeria suicídio.
Rui-kun estava a salvo.
Só de saber disso, senti um alívio tão grande que achei que fosse desmaiar ali mesmo.
“Quando o Rui acordar, você, Ema, não estará mais neste mundo.”
“É, eu sei.”
“E mais uma coisa. Vou apagar as memórias da Ema sobre estes últimos vinte e oito dias. Você agirá exatamente como agiu naquele dia e, então... por favor, morra.”
Pela primeira vez, senti pavor da maneira casual como Haku dizia algo tão monstruoso.
Mas eu não tinha medo de morrer.
“Eu entendo.”
Haku poderia tirar minhas memórias dos dias que passei com Rui.
Mas eu não deixaria que ele levasse o coração que havia se apaixonado por ele ao longo daqueles vinte e oito dias.
Mesmo que meu oponente fosse um deus da morte.
[ Sol: Pra cima dele garota, você consegue! ]
“Hehe, você parece alguém que já se decidiu.”
Pude ver um rubor surgindo nas bochechas de Haku.
Mas isso já não importava mais.
Parecia um desperdício até mesmo sentir coisas como medo ou repulsa.
Naquele momento, eu só queria pensar no Rui-kun.
“Bem, então, vou te levar de volta para onde estava originalmente também. Depois disso... você sabe o que fazer.”
Depois de me dar um último sorriso enquanto eu assentia silenciosamente, Haku estalou os dedos.
No instante seguinte, eu estava parada diante da janela do meu quarto.
Traduzido por Moonlight Valley
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