O Cuidador da Ojou-sama — Capítulo 53: Volume 8 – Capítulo 2 – Capítulo 2: A Entrevista Começou

O Cuidador da Ojou-sama
Cap. 53
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O Cuidador da Ojou-sama

Volume 8 – Capítulo 2 – Capítulo 2: A Entrevista Começou

Capítulo 53

12.121 palavras~53 min de leitura

NO DIA SEGUINTE à convocação para a sala do conselho estudantil.

— Bom dia, Tomonari-san.

Quando eu estava prestes a entrar na sala da Classe A, uma aluna me chamou.

— Sou da equipe de imprensa do conselho estudantil. Também sou a vice-presidente. Hoje vou acompanhar você durante todo o dia, então conto com sua colaboração.

— Prazer em conhecê-la.

Era a mesma pessoa que havia me servido chá na sala do conselho estudantil no dia anterior.

Ela segurava uma prancheta nas mãos, e uma pequena câmera aparecia do bolso em seu peito. Parecia exatamente uma jornalista profissional.

— A aula está prestes a começar. Ficarei observando, então, por favor, aja normalmente, Tomonari-san.

— Você não deveria estar assistindo às aulas, vice-presidente?

— Estou dispensada durante entrevistas.

Aquilo era mais profissional do que eu havia imaginado. Ainda assim, como a vice-presidente sugerira, decidi agir como sempre. Afinal, o objetivo daquela entrevista era mostrar aos alunos quem eu realmente era, sem máscaras nem encenações.

A primeira aula foi de Química.

O professor da Classe C entrou na sala.

À medida que a aula avançava, os alunos tomavam notas diligentemente. O cansaço deixado pelo Management Game ainda persistia, mas, mesmo assim, os estudantes da Academia Kiou conseguiam manter a concentração.

Como esperado, eram um grupo extremamente dedicado.

Naquela época, eu costumava rezar desesperadamente para não ser chamado...

Sempre que era escolhido para resolver um exercício na frente de todos, eu ficava tenso. Achei que jamais escaparia daquela ansiedade na Academia Kiou, mas...

— Certo, questão sete... Tomonari-kun.

— Sim, senhor.

Ao ser chamado, levantei-me e escrevi a resposta no quadro-negro.

— Correto. Você estudou bem.

— Obrigado, professor.

Recebendo alguns aplausos discretos, voltei ao meu lugar.

Quando você se prepara e revisa a matéria adequadamente, não apenas perde o nervosismo, como quase passa a desejar ser chamado pelo professor. Era uma mudança surpreendente, até para mim. Ganhar um pouco daquela confiança tornara as aulas genuinamente divertidas. Se eu não tivesse me esforçado tanto para acompanhar meus colegas, jamais teria aprendido a apreciá-las.

Ao olhar para o corredor, vi a vice-presidente anotando algo em uma folha presa à sua prancheta.

Eu esperava que aquilo resultasse em uma boa avaliação, mas encará-la por muito tempo poderia dar a impressão de que eu não estava prestando atenção na aula. Então voltei os olhos para o quadro.

A aula transcorreu sem problemas e, logo, chegou o intervalo.

A próxima é Educação Física...

Ao olhar para o corredor, encontrei o olhar da vice-presidente, que assentiu levemente. Pelo visto, ela também observaria a aula de Educação Física.

Se queriam registrar meu comportamento habitual, seria estranho ficar conversando demais. Por isso, fiz uma leve reverência e segui para o ginásio com Taishou e os outros.

A segunda aula começou.

Já tínhamos praticado badminton e basquete, mas naquele dia iniciávamos o tênis de mesa. Após alguns exercícios leves de troca de bolas e prática de saque, passamos para partidas de simples e duplas.

— Tomonari, agora!

— Entendido!

Formando dupla com Taishou, respondi ao seu chamado com uma cortada poderosa. A bolinha de pingue-pongue atingiu a mesa e saiu rolando até a parede.

— Boa! Você consegue fazer qualquer coisa, Tomonari!

— Foi só sorte.

Vencemos a partida, então Taishou e eu batemos as mãos em comemoração antes de seguirmos para os assentos dos espectadores.

Como a Academia Kiou era repleta de jovens damas e herdeiros da alta sociedade, eu imaginava que esportes intensos não fizessem parte da rotina escolar.

Mas eu estava completamente enganado.

Dos esportes com bola às artes marciais e ao atletismo, praticávamos de tudo nas aulas. Os alunos dali não possuíam apenas a elegância refinada cultivada em casa; também tinham a determinação adquirida por meio de um treinamento rigoroso.

— Ultimamente tem esfriado bastante, mas fazer exercício ainda faz a gente suar, não é?

— Com certeza.

Enxuguei o suor com uma toalha ao lado de Taishou. Na Academia Kiou, os alunos não limpavam o suor com as próprias roupas.

Exceto durante as partidas, todos usavam toalhas trazidas de casa. Era exatamente o tipo de refinamento que se esperava de um lugar como aquele.

Enquanto enxugava a testa, Kita se aproximou de longe.

— Tomonari-kun, tem alguma dica para sacar?

— Deixe-me pensar... No seu caso, Kita-kun, talvez seja melhor lançar a bola um pouco mais baixo...

Eu já me saía bem nas aulas de Educação Física desde que me transferira para cá, mas só recentemente as pessoas haviam começado a me procurar em busca de conselhos.

Ser bom em esportes e ser alguém em quem os outros confiam eram coisas diferentes. Provavelmente levou algum tempo para que as pessoas me conhecessem melhor depois da minha chegada, e era por isso que agora vinham falar comigo.

Isso fazia com que o artigo sobre a eleição do conselho estudantil — criado justamente para mostrar quem eu era — parecesse um sucesso estrondoso. Mas eu não era o único cuja imagem melhorava à medida que as pessoas me conheciam melhor. A transformação mais impressionante, sem dúvida, tinha sido a de Narika.

Ao olhar para o lado das garotas, vi Narika no meio de uma partida de duplas.

— Ah!?

A parceira de Narika balançou a raquete, mas errou a bola. Seu rosto empalideceu imediatamente, tomado pelo arrependimento de ter decepcionado Narika.

— M-Miyakojima-san, me desculpe!

— Ah, não se preocupe com isso.

Diante da colega que se curvava profundamente, Narika exibiu um sorriso tranquilizador.

— Você deu o seu melhor. Não há nada do que se envergonhar.

Ao ouvir aquelas palavras, as bochechas da garota ficaram vermelhas.

— Onee-sama...

Ela observou as costas de Narika enquanto ela ia buscar a bola, com uma expressão completamente encantada.E ela não era a única. Outras garotas que aguardavam sua vez ao lado da quadra também a observavam com olhares sonhadores.

— O que está acontecendo...? Ultimamente, sempre que vejo Miyakojima-san, sinto como se meu coração fosse explodir...

— Eu também... O que é essa sensação no peito?

Decidi ignorar a conversa que ouvi por acaso.

Depois de evoluir de forma impressionante desde o Management Game, Narika agora estava abalando a ordem da academia.

◆

A quarta aula terminou e chegou a hora do almoço.

No instante em que o sinal tocou, uma onda de tensão me atingiu.

Certo... e agora?

Ao olhar para o corredor, vi a vice-presidente me observando em silêncio. Eu esperava que ela se afastasse durante o almoço, mas parecia que continuaria me acompanhando até mesmo no intervalo.

Eu já havia me acostumado às aulas desde a minha transferência, mas ainda existia uma coisa com a qual tinha dificuldade.

— Tomonari, vai sair de novo hoje?

— Desculpe.

Quando tentei deixar a sala carregando meu bentô, Taishou e Asahi-san se aproximaram.

— Sabe que isso já está virando um rumor, não é? Para onde o Tomonari vai todo dia na hora do almoço...?

— Tem todo tipo de teoria circulando. Alguns dizem que ele vai estudar sozinho em segredo. Outros acham que é um comedor exigente que não quer comer na frente dos outros. Ah, e também tem a teoria de que o Tomonari-kun é um espião que faz relatórios para o quartel-general durante o almoço.

Quartel-general? E onde ficaria isso?

Para ser sincero, na Academia Kiou a existência de um espião não seria algo tão surpreendente assim, mas definitivamente não era o meu caso.

— Nenhuma dessas teorias está certa. Na verdade, ultimamente tenho ajudado nos negócios da família. Está sendo um período corrido.

— Ah, isso faz sentido.

Depois de dar aquela desculpa improvisada, deixei a sala.

E então... disparei escada abaixo.

— E-Espera!? T-Tomonari-san!?

A vice-presidente, que observava do corredor, soltou um grito de surpresa. Fingindo não ouvir, atravessei o corredor correndo em direção ao antigo prédio do conselho estudantil.

Quando cheguei ao terraço do antigo prédio, Hinako já estava lá.

— Itsuki... bom trabalho...

— Sim. Desculpe pela demora.

Sentei-me ao lado dela e abri minha marmita.

— Aaah~.

Com cuidado, levei um pedaço de comida até sua boca usando os hashis. Não havia a menor possibilidade de permitir que a equipe de imprensa registrasse aquela cena. Se o nosso relacionamento fosse descoberto por toda a academia, a eleição seria o menor dos nossos problemas.

Enquanto oferecia a Hinako uma fina fatia de carne, fiquei refletindo sobre a situação.

— Itsuki, aconteceu alguma coisa...?

— Não... Só estava pensando que preciso inventar uma nova desculpa em breve.

Eu já havia sido questionado inúmeras vezes sobre para onde ia durante o almoço. Tinha usado desculpas como precisar de um tempo sozinho ou tirar um cochilo, mas minhas ideias estavam se esgotando.

— Devíamos... parar durante a entrevista...?

— Nem pensar. Eu adoro passar esse tempo com você, Hinako. Vamos continuar.

Ao ouvir isso, Hinako sorriu suavemente.

— Eu... também gosto de escapar para nos encontrarmos assim... Parece algo saído de um mangá shoujo. É divertido.

Para Hinako, aquilo parecia ser uma emocionante fuga da rotina.

Depois disso, deixei que ela repousasse a cabeça no meu colo e ficamos relaxando juntos.

Ela adormeceu rapidamente, então fiquei observando o céu enquanto pensava nas aulas que ainda teria naquele dia.

Quando o sol desapareceu atrás de uma nuvem, consultei o horário no meu smartphone.

— Está na hora de voltarmos.

— Mm.

Nós sempre deixávamos o antigo prédio do conselho estudantil vinte minutos antes do sinal.

Ainda havia algum tempo sobrando, mas eu não podia correr o risco de fazer Hinako se atrasar, então aquele era o momento perfeito.

Depois de sairmos do prédio juntos, meu olhar acabou se voltando para o jardim próximo.

Quando nos aproximamos do lago do jardim, algumas carpas emergiram à superfície da água.

— Ah, é verdade. Nós costumávamos alimentar as carpas daqui, não é?

— Mm... Era relaxante.

Na época em que eu havia acabado de me tornar seu cuidador, Hinako costumava comprar pão na loja da escola depois das aulas e jogar migalhas para as carpas.

— Você disse que queria ser como uma carpa, não foi?

— Disse...

Ela havia comentado que tinha inveja delas, já que bastava abrirem a boca para receber comida.

— Mas eu não penso mais assim. ...Graças a você, Itsuki, muita coisa mudou.

— Por minha causa?

— Sim. ...Eu mudei muito.

Hinako colocou uma das mãos sobre o peito enquanto falava.

— Por sua causa, acho que meu interior... passou por uns dois Big Bangs.

— Tudo isso de mudança?

Pelo visto, o coração dela havia sofrido explosões grandes o suficiente para criar alguns universos.

Mas ela tinha razão: Hinako havia mudado.

Ela agora se abria mais com as pessoas, e suas emoções pareciam muito mais ricas. Se eu havia contribuído nem que fosse um pouco para isso, já me sentia honrado.

Enquanto conversávamos, as carpas nadavam graciosamente pelo lago. Elas pareciam exatamente iguais a quando visitei aquele jardim pela primeira vez. De certa forma, era reconfortante encarar algo que permanecia inalterado em meio a tantas mudanças ao nosso redor. Havia algo agradável em se conectar com algo constante.

— Ah, falando nisso, ouvi dizer que o antigo conselho estudantil construiu este lago.

— Sério...?

— Durante o Management Game, visitei uma empresa de TI, e o presidente da companhia, que também era ex-aluno da Academia Kiou, me contou essa história.

Aparentemente, fazer parte do conselho estudantil concedia influência suficiente para construir algo tão grandioso quanto aquele lago. Claro, ainda seria necessária a aprovação dos alunos e dos professores, mas aquilo continuava sendo um poder impressionante.

Ao ouvir isso, Hinako mergulhou repentinamente em pensamentos profundos.

— Itsuki. Por que você não tenta se tornar presidente do conselho estudantil...?

— Hã? E por que eu faria isso?

Quando perguntei, seus olhos começaram a brilhar.

— Porque, se você se tornasse presidente... eu gostaria que construísse uma sala de cochilos...!

— Uma sala de cochilos?

— Uma sala cheia de almofadas macias e fofinhas...! Ah, e também um buffet de batatas fritas!

— Os dois parecem pedidos bem difíceis.

Bem, uma sala de cochilos talvez até fosse algo relativamente útil. Era uma possibilidade remota, mas, se eu me tornasse vice-presidente, poderia sugerir a ideia casualmente ao presidente.

Enquanto continuávamos conversando, alguém se aproximou vindo do prédio da escola.

Era a vice-presidente.

— Tomonari-san, eu estava procurando por você...!

Ela me lançou um olhar severo.

— Francamente, se você não quer que investiguemos sua vida pessoal, bastava dizer isso desde o começo. Não estamos tentando invadir sua privacidade, então podemos ser flexíveis.

— D-Desculpe...

Então eu poderia simplesmente ter contado?

Eu havia imaginado que dizer qualquer coisa apenas aumentaria as suspeitas dela, mas parecia que aquela preocupação tinha sido desnecessária.

Depois de descarregar sua frustração, a vice-presidente pareceu mais tranquila e voltou sua atenção para Hinako, que estava ao meu lado.

— A propósito, vocês se encontraram por acaso, Konohana-san?

— Sim.

— Mesmo….?

Tanto para alguém que dizia não querer se intrometer. Ainda assim, ela parecia culpada, como se soubesse que não deveria perguntar, mas não conseguisse evitar.

Enquanto eu hesitava sobre como responder, Hinako tomou a palavra.

— É verdade. Eu estava passeando e encontrei Tomonari-kun por acaso, então estávamos conversando enquanto voltávamos para a sala.

— Entendo.

Diante da aura pura e elegante de uma verdadeira jovem dama que Hinako emanava, a vice-presidente recuou sem dificuldade.

Depois disso, nós três seguimos para a sala de aula.

...No caminho, aproveitei um momento para sussurrar para Hinako, tomando cuidado para que a vice-presidente não ouvisse.

— Desculpe. Eu deveria ter inventado uma desculpa melhor.

— Não é um problema só seu...

Hinako balançou a cabeça, indicando que estava tudo bem.

— Além disso... se rumores estranhos sobre você começarem a se espalhar por minha causa... isso pode acabar afetando a eleição...

Rumores estranhos?

Tipo... fofocas sobre um romance secreto?

Eu não achava que precisássemos nos preocupar tanto assim... mas, considerando o ambiente extremamente sério da Academia Kiou, até mesmo um simples rumor de romance poderia acabar se transformando em um grande incidente.

— Obrigado por me ajudar a esconder isso.

— Mm. Eu sou uma mulher que sabe se controlar...!

Hinako declarou aquilo com um sorriso cheio de orgulho.

Entramos no prédio da escola e seguimos pelo corredor. Foi então que ouvi a voz de Tennouji-san vindo da sala da Classe C.

— Entendo! Então todas as conquistas recentes da Tennouji-san aconteceram graças ao Tomonari-san...!

— Sim! Exatamente!

— Você é profundamente grata ao Tomonari-san por ter resolvido seus problemas...! Isso significa que existe um forte vínculo entre vocês dois...!?

— Exatamente! Exatamente!

Tennouji-san assentiu energicamente, claramente animada durante sua entrevista com o conselho estudantil.

...

Ao ver aquilo, toda a vitalidade desapareceu dos olhos de Hinako. Com uma expressão completamente vazia, ela se virou para a vice-presidente.

— Sobre o que eu disse antes, posso corrigir uma coisa?

— Hã? Ah, claro.

— Na verdade, Tomonari-kun e eu passamos todos os intervalos de almoço sozinhos juntos...

— S-Sozinhos...!?

Ei, ei, ei, ei.

Então era esse o autocontrole da senhorita que dizia saber se controlar?

◆

Depois das aulas.

Enquanto meus colegas iam embora um após o outro, guardei meus livros na bolsa.

— Tomonari-kun.

Enquanto me preparava para sair, Kita me chamou.

— O que foi, Kita?

— Estava pensando que este livro combinaria com você, então queria emprestá-lo.

Ele me mostrou um livro sobre tecnologia da informação. Mas, ao ver a capa, fiz uma careta. Parecia um manual técnico voltado para engenheiros. O antigo eu o teria pegado emprestado sem pensar duas vezes, mas agora que havia decidido me tornar consultor, aquilo já não era uma prioridade.

— Obrigado, mas provavelmente não vou mais seguir na área de TI...

— Acho que este livro ainda seria útil para você, Tomonari-san — quando tentei recusar educadamente, Suminoe-san entrou na conversa. — É difícil perceber apenas pela capa, mas este livro é mais voltado para gestores e líderes empresariais do que para aspectos técnicos. Acho que aborda muitas das coisas que você quer estudar.

— Sério...?

Ao abrir o índice, percebi que ela estava certa. O conteúdo era completamente diferente do que a capa fazia parecer. Kita olhou para Suminoe-san.

— Então você também lê livros desse tipo, Suminoe-san?

— Sim. A empresa da minha família trabalha frequentemente com etapas iniciais dos processos produtivos. ...Parece que você prioriza bastante o aprendizado técnico, não é, Kita-san?

— Sim. A empresa da minha família tem muito orgulho da sua capacidade técnica, então meus pais sempre me disseram que, se eu não tivesse conhecimento técnico próprio, não conseguiria liderar meus subordinados...

— Entendo. É uma visão bastante rígida, mas também parece muito gratificante.

Quando Suminoe-san disse isso, Kita assentiu satisfeito. Ele não parecia carregar nenhum complexo de inferioridade; provavelmente sempre enxergara aquele trabalho como algo recompensador.

— Enfim, como eu estava dizendo, mesmo dentro da mesma indústria de TI, a forma de administrar uma organização pode variar completamente dependendo da natureza da empresa. Esse é o ponto principal do livro. Acho que vale a pena você lê-lo também, Tomonari-san.

— Foi uma explicação muito esclarecedora.

Inclinei a cabeça em agradecimento a Suminoe-san, que havia resumido o conteúdo do livro durante nossa conversa casual.

— Kita, me empreste esse livro.

— Claro.

Kita soltou uma risada ao me ver aceitar o livro e então olhou para Suminoe-san.

— Suminoe-san, você está torcendo pelo Tomonari-kun, não está?

— Hã!? Claro que não! Não é nada disso!

Ela negou com uma veemência impressionante. Os olhares dos colegas ao redor imediatamente se voltaram para nós. Percebendo isso, Suminoe-san pigarreou de propósito para disfarçar.

...Ela não chegava ao nível de Hinako, mas também era bastante habilidosa em esconder o que realmente sentia.

— É só que ele já me derrotou uma vez, então não quero vê-lo passar vergonha. Só isso.

— Como eu já disse várias vezes, aquilo nunca foi realmente uma questão de vitória ou derrota...

— Oho, oho, oho, oho... Sabe, humildade demais também pode virar um defeito.

— Essa era exatamente a minha fala...

Se eu simplesmente aceitasse o mérito e começasse a agir com arrogância, tinha a impressão de que Suminoe-san perderia completamente a compostura.

E foi nesse momento que—

— Ohohohoho! A sua VIP chegou!!

— Hiaff!?

Assim que ouvi aquela voz familiar, Suminoe-san soltou um grito estranho e deu um salto. Uma garota loira de cachos verticais, Tennouji-san, entrou na sala de aula com passos confiantes.

— Ora, Suminoe-san. Boa tarde.

— B-B-B-B-Boa tarde...!!

Como sempre, Suminoe-san ficava extremamente nervosa perto de Tennouji-san.

...Porque a admirava demais.

Tennouji-san então se aproximou de mim.

— Tomonari-san, vim convidá-lo para um chá da tarde.

— Hã? Agora?

— Sim. Isso seria inconveniente?

— Não, tudo bem para mim, mas...

Se era uma festa do chá, provavelmente ela também estava reunindo os outros membros. Olhei para Hinako, e nossos olhos se encontraram; ela assentiu. Por sorte, Taishou e Asahi-san, que ainda estavam na sala de aula, ouviram a conversa e também concordaram com a cabeça.

Só faltava Narika, mas...

— A propósito, Miyakojima-san também participará.

Como esperado, ela era rápida para perceber essas coisas.

— Então parece que está tudo resolvido. ...Embora tenha sido uma decisão um pouco repentina, não acha?

— Durante o Management Game, nossas festas do chá serviam principalmente para reuniões, não é? Achei que já estava na hora de fazermos uma de verdade, para relaxar e aproveitar um pouco.

Era verdade. Durante o Management Game, passávamos a maior parte do tempo trocando informações, e quase não havia espaço para conversas tranquilas. A proposta original das nossas festas do chá sempre fora algo muito mais descontraído.

— E além disso...

Tennouji-san lançou um olhar para o corredor. Lá, os membros do conselho estudantil continuavam nos observando.

— Parece que o conselho estudantil já conhece o nome "Aliança do Chá". Achei que seria bom mostrar um pouco disso para eles, em benefício da cobertura.

— Entendo...

A Aliança do Chá.

Era o nome do grupo formado por mim, Hinako, Tennouji-san, Narika, Taishou e Asahi-san — ou melhor, um nome inspirado nas festas do chá que nós seis costumávamos realizar.

Eu não sabia quem havia inventado aquilo, mas o nome já havia se espalhado amplamente e, pelo que Tennouji-san acabara de dizer, até mesmo os alunos do terceiro ano já tinham ouvido falar dele.

Nossas festas do chá aconteciam de forma irregular, então existia a possibilidade de não realizarmos nenhuma durante o período eleitoral.

Mas... talvez eu estivesse sendo presunçoso, porém, considerando a fama que havíamos conquistado, era provável que muitos alunos estivessem curiosos para saber como elas eram.

Se a seção "Um Vislumbre da Rotina dos Candidatos", preparada pela presidente, não mencionasse a Aliança do Chá sequer uma vez, alguns estudantes poderiam acabar decepcionados.

Tennouji-san parecia ter isso em mente.

Como a cobertura tinha o objetivo de mostrar quem realmente éramos, eu já pretendia agir naturalmente. E, como fazíamos essas reuniões de vez em quando, não era como se estivéssemos encenando algo.

— Acho uma ótima ideia.

— Não acha?

Tennouji-san estufou o peito orgulhosamente. Quando pensei que já estava na hora de irmos ao café, uma garota da nossa turma se aproximou.

— C-Com licença, Tennouji-san.

— Sim? O que foi?

A aluna da Classe A falou com evidente nervosismo.

— Hum... será que... durante o Management Game, você e o Tomonari-kun estavam... em um encontro...!?

— U-Um encontro!?

Os cachos verticais loiros de Tennouji-san balançaram.

Meu coração também.

O quê? O quê!?

De onde saiu isso!?

— Tomonari-san — Suminoe-san me lançou um olhar glacial. — Explique. Em detalhes. Enquanto eu ainda estou em pleno uso da razão.

Ela se aproximou com movimentos assustadoramente rígidos, como se cada músculo de seu corpo estivesse tensionado.

Isso era ruim.

Muito ruim.

Eu sentia minha vida correndo perigo.

— Não, espere. Deve haver algum mal-entendido. Isso nunca...

— Mas eu vi! Vi vocês dois caminhando juntos pelo museu de arte...!!

Enquanto eu tentava me explicar, a garota da turma praticamente gritou aquilo para toda a sala ouvir. Em meio à agitação da classe, suas palavras despertaram uma lembrança.

Durante o Management Game, quando eu estava me sobrecarregando de trabalho, Tennouji-san havia me arrastado à força para descansar. Fomos a um museu de arte, a um café e até dançamos juntos...

— Ah…...

— Ah!? Você acabou de dizer "ah"!?

Suminoe-san agarrou a gola do meu uniforme.

— Kyaaa!!

As garotas da sala soltaram gritos empolgados. Eu conseguia ouvir comentários como:

— Um triângulo amoroso!?

— Uma rival no amor!?

...Ah, não.

Agora Suminoe-san também tinha sido arrastada para essa confusão. O ambiente mergulhou completamente no caos. Suor frio escorria pelo meu rosto como uma cachoeira.

— Parece que já temos o assunto principal da festa do chá, não é, Tomonari~~?

— Cara, Tennouji-san, você escolheu o momento perfeito para organizar uma festa do chá, hein~~?

Taishou e Asahi-san se aproximaram exibindo sorrisos maliciosos. Os olhos deles brilhavam como os de crianças que haviam encontrado um brinquedo novo.

— Tomonari-kun.

Hinako chamou meu nome com sua voz clara e cristalina. Mantendo seu modo de ojou-sama impecável e exibindo um sorriso cheio de elegância, ela declarou:

— Seu período de aproveitar tranquilamente a vida escolar acabou.

Suas palavras impiedosas atravessaram meu peito. Hinako havia me dito que eu poderia relaxar até o início do período eleitoral, mas, se eu não resolvesse bem aquela situação, acabaria passando dias extremamente constrangedores tanto na academia quanto na mansão.

◆

— E foi por isso que eu apenas acompanhei Tomonari-san para ajudá-lo a relaxar um pouco.

Assim que a festa do chá começou, Tennouji-san tratou de esclarecer rapidamente o mal-entendido.

— Hmmm... Bem, se foi isso mesmo, então faz sentido.

— Para ser sincero, parece algo que a Tennouji-san faria.

Taishou e Asahi-san assentiram em compreensão, e Tennouji-san soltou um suspiro de alívio.

Hinako e Narika haviam aceitado a explicação relativamente rápido, mas convencer Taishou e Asahi-san levou um pouco mais de tempo.

...Embora, para falar a verdade, eu suspeitasse que eles já tivessem entendido desde o início e apenas estivessem prolongando a situação por diversão.

Ainda assim, quando eu os via conversando tão descontraidamente com Tennouji-san agora, não podia deixar de pensar no quanto as coisas haviam mudado desde o primeiro semestre.

Peguei a xícara sobre a mesa e tomei um gole de chá.

Já estava morno.

O fato de termos nos esquecido completamente de beber o chá por estarmos tão envolvidos na conversa era uma prova de como havíamos nos aproximado.

E isso não era algo ruim. Por outro lado, assuntos como aquele faziam mal para o meu coração, então eu preferia evitá-los no futuro.

— Então, por favor, tomem cuidado ao escrever o artigo!!

— Pode deixar!

Tennouji-san dirigiu-se aos membros do conselho estudantil que observavam nossa mesa da mesa ao lado.

...Eu já havia pensado nisso quando passei pela Classe C durante o almoço, mas aquela integrante do conselho era realmente muito animada.

Talvez os membros do conselho estudantil também tivessem personalidades bastante peculiares.

Embora, considerando a Academia Kiou, praticamente todos os alunos fossem cheios de personalidade.

— Desculpe, Tennouji-san. Você acabou tendo que explicar tudo...

— Fui eu quem causou a confusão, então não me importo. ...Não me arrependo do que fiz naquela época, mas admito que não pensei nas consequências que viriam depois do Management Game.

Enquanto enxugava uma gota de suor frio, como alguém que acabara de concluir uma missão importante, Tennouji-san levou sua xícara aos lábios.

Algo na forma como ela falou chamou minha atenção.

O que ela quis dizer com "depois do Management Game"?

— Você provavelmente também percebeu, Tomonari-kun, mas depois do Management Game todo mundo ficou bem... relaxado, não foi?

Como se tivesse percebido minha dúvida, Asahi-san respondeu.

— Na Academia Kiou existe uma tradição antiga. Logo após o Management Game, costumam acontecer vários incidentes românticos.

— Incidentes românticos?

— Isso acontece porque todo mundo baixa a guarda, e o jogo acaba mexendo bastante com os relacionamentos entre os alunos. Depois, quando olham para trás, começam a pensar coisas como: "Agora que penso bem, aquela pessoa foi bem incrível", sabe?

— Entendo...

O Management Game havia sido um grande acontecimento. Eu mesmo sentira na pele o quanto ele mudara meus relacionamentos. Provavelmente, aquela tradição mencionada por Asahi-san era algo que todos os alunos da academia conheciam.

Era por isso que, nessa época do ano, qualquer rumor romântico acabava imediatamente sendo associado à tradição e gerava tanta empolgação.

Em outras palavras, os alunos da Academia Kiou estavam desesperadamente sedentos por romance.

— Sei que sou a última pessoa que deveria dizer isso depois de causar toda aquela confusão, mas, nessa época do ano, alguns alunos acabam se deixando levar pelo clima do momento e fazem coisas impulsivas. Portanto, tomem cuidado, todos vocês.

Ao ouvir o aviso de Tennouji-san, Taishou e Asahi-san assentiram seriamente. No entanto, entre todos nós, apenas duas pessoas trocaram um olhar discreto.

Eu e Narika.

Incidentes românticos logo após o Management Game. Alunos se deixando levar pela atmosfera e fazendo coisas impulsivas.

..Ela está falando da gente, não está?

Narika, aparentemente chegando à mesma conclusão, ficou vermelha como um tomate. Pelo visto, sem perceber, nós havíamos seguido a tradição à risca.

— Aconteceu alguma coisa, Tomonari-san? Miyakojima-san?

— N-N-N-Não! Não aconteceu nada!

— Sim... Nada... absolutamente nada...?

Nossa reação foi tão suspeita que praticamente gritava culpa. Mesmo assim, Tennouji-san apenas inclinou a cabeça, confusa.

— Mesmo deixando o romance de lado, o Management Game mudou muitos relacionamentos, não foi?

Foi Asahi-san quem comentou isso.

— De fato. Ultimamente, tenho notado que Miyakojima-san vem sendo admirada por todo tipo de pessoa.

— S-Sim. Acho que é verdade. Eu mesma consigo sentir as mudanças ao meu redor. ...E sou muito grata por isso.

Narika respondeu com um sorriso feliz. Para ser sincero, a situação já havia ultrapassado o simples nível de admiração, mas preferi não comentar isso em voz alta.

O importante era entender que, no caso de Narika, seus relacionamentos não haviam mudado por acaso. Foi ela quem mudou primeiro. E, por causa dessa transformação, as pessoas ao seu redor também mudaram. Aquilo era o resultado direto dos esforços dela.

— Todo o seu esforço valeu a pena, Narika.

Quase sem perceber, voltei meu olhar para ela ao dizer aquilo. Eu queria tanto transmitir esse sentimento que acabei me esquecendo do constrangimento que existia entre nós.

Os olhos de Narika se arregalaram por um instante, mas logo ela exibiu um sorriso suave.

— Sim... graças a você, Itsuki.

Nossos olhares se encontraram. Dessa vez, não senti vergonha. Em vez disso, uma sensação tranquila e acolhedora envolveu meu peito.

— Ei, o que é esse clima? Será que não é só com a Tennouji-san? Tomonari-kun, você também tem alguma coisa acontecendo com a Miyakojima-san...?

— F-Falando em mudanças, a Konohana-san também mudou bastante, não acham!?

Para escapar da assustadora intuição de Asahi-san, troquei de assunto às pressas. Hinako me lançou um olhar afiado. Seu olhar dizia claramente: "Você me usou para fugir da pergunta..."

Pedi desculpas repetidas vezes dentro da minha cabeça.

— Sim, a Konohana-san mudou bastante. Só de observar a nossa turma, parece que muito mais pessoas conversam com ela agora do que antes.

Sem perceber minhas intenções, Taishou apoiou minha mudança de assunto.

— De fato... Como você disse, mais pessoas têm falado comigo do que antes.

Percebendo o rumo da conversa, Hinako decidiu colaborar.

Desculpe, Hinako.

E obrigado, Taishou.

Mas, sinceramente, eu já queria falar sobre as mudanças de Hinako há algum tempo.

Depois do Management Game, os relacionamentos dela também haviam mudado bastante.

— Pelo que ouvi, isso aconteceu por causa da assembleia realizada perto do final do jogo. ...Pensando agora, eu nunca havia contado tanto com todos daquela forma antes. Acho que isso acabou me aproximando deles.

— Sim, sim. Todo mundo da turma comentava como se sentiu honrado por poder ajudar a Konohana-san.

Asahi-san assentiu enquanto falava. A assembleia a que ela se referia era, obviamente, a reunião realizada para reconstruir a Konohana Automotive após o escândalo do recall.

Em casa, Hinako era uma garota preguiçosa que dependia constantemente dos outros. Mas, na escola, ela raramente pedia ajuda. Para manter sua imagem de ojou-sama perfeita, ela acreditava que precisava resolver tudo sozinha.

Por isso, ser procurado e necessário por alguém como ela certamente deixou seus colegas felizes. Como seu cuidador, eu entendia perfeitamente esse sentimento. Ser necessário para alguém que carregava um fardo tão pesado era uma honra. Algo de que se podia sentir orgulho. Por isso, eu tinha certeza de que muitos alunos da academia sentiam algo semelhante, cada um à sua maneira.

Todos queriam estar ao lado de Konohana Hinako como iguais. No fundo, era isso que desejavam.

— Grrr... Se a Konohana Hinako também dominar a arte de depender dos outros, minha marca registrada vai desaparecer...

Tennouji-san murmurou sua frustração em voz baixa. Hinako não possuía aquilo que Tennouji-san tinha: carisma.

Eu havia dito isso para Tennouji-san na praia durante as férias de verão, e ainda pensava da mesma forma. Mas, dependendo de como Hinako continuasse evoluindo, isso talvez pudesse mudar.

— Como filha da família Konohana, percebi que ainda tenho muitos aspectos nos quais preciso melhorar. Preciso continuar me esforçando para acompanhar o crescimento de todos aqui.

Hinako exibiu um sorriso radiante. Era um sorriso tão puro e luminoso que parecia quase divino.

— Ah... q-que... nobre...

— Konohana-san... é realmente um anjo...

Taishou e Asahi-san começaram a se curvar diante dela como fiéis devotos diante de uma divindade. Mas, sendo realista, era difícil imaginar Hinako desenvolvendo o mesmo tipo de carisma de Tennouji-san.

Porque ela simplesmente não tinha interesse nisso. Ela já era péssima em socializar. Eu conseguia imaginá-la perfeitamente dizendo: — Depender dos outros dá tanto trabalho… — enquanto se jogava preguiçosamente sobre alguma almofada.

◆

— Até mais, pessoal~.

— Sim. Até segunda-feira.

Hinako sorriu e fez uma leve reverência enquanto Asahi-san acenava e entrava em seu carro. Depois da festa do chá, todos seguiram para casa em seus respectivos veículos.

Hinako e eu também estávamos prestes a partir, mas...

— I-Itsuki!

Enquanto caminhávamos em direção ao portão da escola, Narika me chamou.

— E-Eu... eu preciso conversar com você...!

— Ah, claro. Tudo bem.

Assenti, um pouco confuso com o fato de Narika parecer ainda mais nervosa do que o habitual. Mas eu tinha uma ideia do que ela queria falar. Lancei um olhar para Hinako, que estava ao meu lado.

— Konohana-san, hum...

Provavelmente Narika queria conversar comigo a sós, então eu precisava que Hinako se afastasse. Percebendo minhas intenções, ela assentiu silenciosamente.

— Então, eu me despeço aqui. Até logo para vocês dois.

Nossos olhares se encontraram enquanto ela se curvava. Pode ir para casa primeiro, transmiti apenas com o olhar. Hinako respondeu com um pequeno aceno de cabeça e atravessou o portão.

Agora sozinhos, Narika e eu caminhamos até a extremidade do campo esportivo. Enquanto observava o gramado tingido pelas cores do pôr do sol, virei-me para ela.

— Então, Narika. Essa conversa... é sobre aquilo, não é?

— S-Sim. Sobre o que aconteceu logo depois do Management Game...

Como eu imaginava… O motivo pelo qual as coisas haviam ficado estranhas entre nós. O beijo que Narika havia me dado na bochecha.

— Hum... eu só queria confirmar uma coisa… — Narika perguntou hesitante. — Itsuki... você não... me odeia, odeia...?

A pergunta me pegou completamente de surpresa. Foi algo tão inesperado que toda a tensão que eu carregava desapareceu de uma vez.

— Te odiar? Por que você pensaria isso...?

— P-Porque eu fiz uma coisa dessas tão de repente...!! — Narika respondeu com os olhos quase cheios de lágrimas. — Eu venho sofrendo por causa disso desde aquele dia...!! Agi impulsivamente sem pensar nos seus sentimentos...!! Ahh... o que foi que eu fiz...!?

Fiquei completamente atordoado. Minha boca se abriu involuntariamente enquanto eu permanecia imóvel. ...Então era isso que ela estava pensando. Nós dois havíamos percebido o clima estranho que surgiu entre nós.

Mas, aparentemente, o constrangimento que eu sentia e o que Narika sentia eram diferentes. Ela estava preocupada com a possibilidade de eu ter passado a odiá-la.

— N-Na festa do chá, a Tennouji-san comentou aquilo, não foi? Que nessa época do ano muitas pessoas acabam se deixando levar pelo clima do momento... E-Eu sou exatamente esse tipo de pessoa...!!

Na verdade, eu também havia pensado a mesma coisa. Embora, para ser mais preciso, eu não estivesse pensando apenas em Narika. Estava pensando em nós dois.

Antes de tentar acalmá-la, primeiro precisei organizar meus próprios sentimentos.

Quando Narika me chamou mais cedo… Eu havia me preparado para a possibilidade de precisar dar uma resposta definitiva ali mesmo. Mas, para ela, aquilo nem sequer parecia estar em questão.

Aquele beijo realmente havia sido repentino. Mas imaginar que eu passaria a odiar Narika por causa disso...?

— Eu não odeio você.

Olhei diretamente em seus olhos enquanto dizia aquilo. Mas, logo depois, as palavras me faltaram.

Dizer que eu não sentia nada seria mentira. Pedir que ela simplesmente esquecesse o que aconteceu não parecia correto. E admitir que eu tinha ficado feliz… Bem, isso praticamente soaria como uma resposta por si só.

O beijo havia acontecido apenas anteontem. Mesmo que eu quisesse responder aos sentimentos dela, sentia que ainda precisava de um pouco mais de tempo para organizar minhas próprias emoções.

Se ainda tivéssemos a mesma relação de antes, eu poderia simplesmente ter dito: "Não se preocupe com isso."

E o assunto teria terminado ali. Mas, considerando a situação atual entre nós, parecia que inúmeras palavras haviam se tornado proibidas.

— S-Sério? Você não me odeia...?

Ao perceber minha dificuldade em continuar falando, Narika perguntou com a voz trêmula, incapaz de esconder sua ansiedade.

Eu não a odiava. Essa era uma verdade absoluta.

— Sim. Claro que não.

— Que... que alívio...

Narika soltou um profundo suspiro enquanto levava a mão ao peito. Fiquei feliz por aquele mal-entendido finalmente ter sido resolvido.

— Mas, falando sério, eu fiquei muito surpreso naquela hora. Nunca imaginei que você faria algo assim, Narika...

Achando que já podia ser sincero, admiti o quanto aquilo me surpreendera. E era verdade. Naquele momento, minha mente havia ficado completamente em branco.

— N-Naquela hora, eu… — Narika começou a mexer inquieta nas mãos, lutando para encontrar as palavras. — Eu...

Eu?

— Eu... não consegui me conter...

Com as bochechas completamente vermelhas, ela desviou o olhar ao dizer aquilo. Ao vê-la daquele jeito, voltei imediatamente à realidade.

O que exatamente estávamos discutindo?

Isso era vergonhoso demais...

Senti meu rosto esquentar.

Provavelmente eu estava tão vermelho quanto ela. Ver aquela expressão tão sincera e pura em Narika despertava em mim uma honestidade semelhante.

— Ah!? M-Meu carro chegou! — De repente, Narika olhou para o smartphone e exclamou. — E-Enfim, eu vou indo! ...Fico muito feliz por você não me odiar, Itsuki!

Dizendo isso, Narika se afastou apressadamente. Soltei um suspiro discreto.

Mesmo depois de nos separarmos, percebi que meu coração ainda estava tenso. Pelo visto, eu ainda não havia me recuperado completamente do nervosismo.

..Hã?

Enquanto observava Narika se afastando, um pensamento surgiu de repente em minha mente.

..O que exatamente eu devo fazer agora?

Livre de suas preocupações, Narika seguia em direção ao portão da escola com passos leves e animados. Parecia alguém que não carregava mais nenhuma preocupação no mundo.

...Ela não se importava em receber uma resposta?

Eu ainda não havia respondido aos sentimentos dela… Será que ela já havia encerrado toda aquela questão dentro da própria cabeça?

..Não. Não pode ser.

Aquele beijo tinha sido uma confissão, não tinha? Então eu precisava lhe dar uma resposta.

Mas, pela forma como Narika estava agindo… Será que ela não estava esperando uma? Ela mesma havia dito que o beijo fora resultado de um impulso. Será que…

Narika sequer tinha pensado no que aconteceria depois?

...É possível.

Muito possível. Narika podia ser um pouco distraída.

Não.

Para ser sincero, ela era bastante distraída. Somando isso à sua natureza pura e inocente, talvez ela nem tivesse considerado a possibilidade de nossa relação se tornar algo romântico.

Não pude evitar levar uma das mãos à testa. Se fosse esse o caso… O que eu deveria fazer?

...Não.

Espere.

Numa situação dessas, não era minha obrigação dar uma resposta adequada?

Eu estava começando a ficar confuso.

Se Narika não espera uma resposta...

Só de pensar nisso, senti meu coração ficar um pouco mais leve.

Mas aquele alívio não era covardia? Não passava de um desejo egoísta de evitar responsabilidade? Ou talvez fosse uma forma de consideração por Narika?

Se ela não estava pedindo uma resposta, talvez não responder fosse a atitude mais sincera.

...Não.

Não era isso. Lembre-se. O que Narika havia me dito naquele dia?

"Eu... eu não vou ouvir sua resposta! Mas depois não adianta se arrepender!"

Se ela realmente não tivesse pensado no futuro, a palavra "arrepender" jamais teria surgido.

Naquele momento, Narika havia reunido toda a coragem que possuía. Ela parecia extremamente envergonhada, mas mesmo assim me encarou diretamente.

"Foi você quem me disse para dar tudo de mim, Itsuki!!"

Narika havia dado tudo de si. Aquele beijo foi o resultado disso. Não havia como ela não ter pensado no que viria depois. Se realmente não tivesse pensado, não teria precisado reunir tanta coragem.

Narika podia ser distraída e inocente. Mas sua característica mais marcante sempre foi o pessimismo. Eu deveria saber disso melhor do que ninguém. Narika era o tipo de pessoa que colocava o medo de incomodar os outros acima dos próprios sentimentos.

— Narika….

Chamei seu nome. Mas ela já estava longe demais para me ouvir. Então comecei a correr em direção ao portão da escola.

Ainda dava tempo...!!

— Narika!!

Gritei em voz alta enquanto corria para alcançá-la. Ao ouvir sua voz, Narika se virou surpresa e caminhou na minha direção.

— I-Itsuki? O que aconteceu? Você parece tão desesperado...

— Eu vou te dar uma resposta.

Os olhos de Narika se arregalaram. Como se eu tivesse acertado exatamente o ponto que ela tentava ignorar. Como se eu tivesse tocado numa possibilidade que ela vinha empurrando para o fundo da mente.

Ela ficou nervosa. Se a outra pessoa realmente não quisesse uma resposta, talvez não responder pudesse ser uma forma de sinceridade. Mas Narika havia reunido coragem por minha causa.

A Narika insegura.

A Narika pessimista.

A Narika tímida, sempre à beira das lágrimas.

Ela ouviu minhas palavras e decidiu dar tudo de si.

Por isso… Eu também precisava reunir coragem.

— Ainda estou tentando entender meus próprios sentimentos... mas vou te responder adequadamente. Então, por favor, espere por mim.

Falei olhando diretamente nos olhos dela.

— Tudo bem se eu esperar….? — Narika perguntou baixinho. Seus olhos vacilantes encontraram os meus. Então ela falou mais uma vez. — Certo... Eu vou esperar.

Depois disso, Narika deixou os terrenos da academia. Dessa vez, apenas observei sua partida em silêncio.

Não havia mais nada que precisasse ser dito.

Mas...

...Cara, eu escolhi um caminho bem complicado, não foi?

Pela reação de Narika, dava para perceber que existia a opção de não lhe dar uma resposta. Mas, já que eu havia decidido fazê-lo, agora precisava enfrentar meus próprios sentimentos e chegar a uma conclusão por conta própria.

Por enquanto, eu deveria ir para casa.

Comecei a caminhar pelo portão em direção ao local onde os carros aguardavam os alunos.

Mas então avistei Hinako logo à frente.

— Hinako? Ainda não foi embo… — murmurei para mim mesmo, mas minhas palavras morreram no meio do caminho quando percebi quem estava ao lado dela.

A outra pessoa pareceu me notar ao mesmo tempo e abriu um sorriso amigável.

— Olá, Tomonari-kun. Estava esperando por você.

— Presidente Minato?

Ao lado de Hinako estava a presidente Minato.

— Estive conversando com Konohana-san enquanto esperava você aparecer. Vi você falando com Miyakojima-san perto do campo há pouco. Já resolveram tudo?

— Ah, sim. Está tudo resolvido, mas...

Por que ela estava me esperando?

— Eu me esqueci de lhe entregar isto. Por favor, fique com ele.

A presidente Minato me entregou algumas folhas de papel. Passei os olhos rapidamente pelo conteúdo.

— Um relatório de autoentrevista?

— Exatamente. Como expliquei antes, durante os fins de semana vocês mesmos farão entrevistas sobre suas próprias rotinas. Preencha os itens listados aí com detalhes sobre como costuma passar seus dias de folga.

A primeira página continha uma agenda em branco. A segunda trazia várias perguntas em formato de perguntas e respostas.

Parecia que eu só precisava preencher tudo.

— Entreguei isso aos outros durante o almoço, mas você não estava na sala. Pretendia lhe dar depois das aulas, mas aquela pomposa festa do chá surgiu de repente, então resolvi esperar terminar. ...E depois começou seu pequeno encontro com Miyakojima-san.

— Ah... desculpe por fazê-la esperar.

— Não, não precisa se desculpar. Isso apenas prova o quanto você é popular.

A presidente Minato certamente era uma pessoa muito ocupada, mas mesmo assim havia esperado todo aquele tempo.

Quanto ao "encontro" com Narika… Eu não podia exatamente negar, então preferi deixar passar. Guardei os papéis na bolsa, e então a presidente Minato observou a mim e a Hinako.

— Eu estava comentando isso com Konohana-san agora há pouco, mas... vocês dois parecem passar bastante tempo juntos, não é? A vice-presidente também mencionou que estavam juntos durante o almoço. Vocês são bem próximos, hein?

— Bem... acho que sim.

Depois de toda a conversa sobre a festa do chá e minha troca de palavras com Narika, por um instante interpretei aquilo num sentido romântico.

Mas provavelmente ela estava falando apenas da nossa amizade. Ao meu lado, Hinako estufou o peito orgulhosamente.

— A presidente tem um olhar bastante aguçado, não acha?

— ? Ah, suponho que sim?

— Sim.

A expressão extremamente satisfeita de Hinako fez a presidente Minato inclinar a cabeça, confusa.

— Eu observei a festa do chá discretamente e... como posso dizer? Foi bem mais normal do que eu esperava.

A presidente Minato escolheu cuidadosamente as palavras.

— Não interpretem mal. Eu tinha ouvido rumores de que vocês passavam o tempo discutindo política ou assuntos militares com extrema seriedade, então fiquei surpresa.

— Hahaha... Então existem rumores desse tipo por aí?

Sorri de forma constrangida. Ikuno havia dito algo parecido quando conversamos pela primeira vez.

— No fim das contas, é realmente só uma festa do chá. Nós apenas conversamos normalmente.

— Entendo... Talvez seja exatamente disso que vocês precisem.

Enquanto falava, a presidente Minato lançou um olhar para Hinako. A aluna mais famosa da Academia Kiou.

A Ojou-sama perfeita.

A filha do Grupo Konohana.

Essa era Konohana Hinako.

Com tanta atenção voltada para ela, até mesmo encontrar um lugar tranquilo para conversar com alguém já era difícil. O mesmo podia ser dito de Tennouji-san e Narika. Ter um lugar onde todas elas pudessem se reunir e conversar amigavelmente era algo precioso.

Talvez a Aliança do Chá fosse um equilíbrio quase milagroso de circunstâncias. Mesmo que apenas vagamente, todos provavelmente percebiam isso.

— Se você se tornar vice-presidente, é esse o tipo de academia que pretende construir?

A pergunta foi feita de maneira casual, mas carregava um significado profundo. Aquele tipo de academia… Uma academia parecida com a nossa despretensiosa Festa do Chá.

Quando me perguntaram se era isso que eu buscava, eu...

— Não. Ainda não sei.

Balancei a cabeça.

— O que eu quero é me tornar vice-presidente. Quanto a conduzir a academia, deixarei isso para quem se tornar presidente.

— Entendo. É uma forma bastante sólida de encarar as coisas.

Claro, se o presidente tentasse conduzir a academia por um caminho errado, eu gostaria de impedi-lo. Mas eu simplesmente não conseguia imaginar alguém assim chegando à presidência daquela escola.

Eu tinha muitas ideias sobre o que poderia ser um caminho errado. Por outro lado, minha visão do caminho certo ainda era vaga. Mesmo assim, isso não me incomodava. Os alunos daquela academia eram todos extraordinários.

Se eu me tornasse vice-presidente, poderia trabalhar lado a lado com o presidente e encontrar a resposta junto com ele.

Eu ainda não sabia quem seria eleito presidente. Mas, fosse quem fosse, sentia que seria capaz de confiar nessa pessoa e apoiá-la. Provavelmente era simplesmente parte da minha natureza.

Ao perceber minha determinação, a presidente Minato assentiu com satisfação antes de se voltar para Hinako.

— Konohana-san, posso lhe fazer uma pergunta um pouco delicada?

— Delicada?

— Ah, não me entenda mal. Na verdade, quem está nervosa sou eu.

A presidente Minato continuou:

— Konohana-san, muitas pessoas dependem de você, não é?

— Não posso negar isso….

— Então, você já precisou depender do conselho estudantil alguma vez?

Hinako ficou em silêncio por alguns instantes antes de balançar a cabeça.

— Não. Felizmente, até agora não houve necessidade.

— Era o que eu imaginava... E esse é exatamente o estado atual desta academia.

A presidente Minato falou com uma expressão séria.

— Esta academia está repleta de pessoas influentes, mesmo fora do conselho estudantil. Por isso, quase ninguém sente necessidade de recorrer a nós. A autoridade do conselho estudantil só tem efeito dentro da escola, mas alguém como a filha da família Konohana, cuja influência se estende para além dos muros da academia, acaba sendo muito mais confiável. Infelizmente, o cargo de membro do conselho estudantil não consegue competir com o peso de um sobrenome poderoso.

Pensando bem, eu também nunca havia recorrido ao conselho estudantil.

Se Hinako...

Não, se o Grupo Konohana realmente decidisse exercer sua influência sobre a Academia Kiou, provavelmente conseguiria fazê-lo sem dificuldades. O prestígio de um grande nome alcançava até mesmo o interior da academia. Por isso, como a presidente Minato havia dito, era natural questionar qual era exatamente o papel do conselho estudantil.

— Foi por isso que, durante muito tempo, o conselho estudantil desempenhou o papel de herói anônimo nos bastidores. Mas eu quero mudar isso. Tenho trabalhado discretamente para tornar essa mudança possível.

A voz da presidente Minato carregava uma intensidade sutil.

— O problema foi que tudo levou mais tempo do que eu esperava. Por causa disso, mal conseguirei concluir tudo durante o meu mandato. Ainda assim, tenho certeza de que isso será extremamente útil para a próxima geração.

Ela fez uma breve pausa antes de continuar.

— É por isso que não posso tratar a próxima eleição como um problema de outra pessoa.

Eu não conhecia os detalhes, mas parecia que a presidente Minato havia decidido confiar tudo o que construíra à próxima geração. Provavelmente não era algo que eu deveria ouvir naquele momento. Talvez fossem informações reservadas apenas para aqueles que ingressassem no conselho estudantil.

Algo importante.

— O relatório deve ser entregue na segunda-feira. Ficarei ansiosa para lê-lo.

Depois de dizer isso, a presidente Minato se afastou. Quando ouvi a história sobre o lago construído dentro da academia, fiquei impressionado com o poder do conselho estudantil.

Mas talvez a presidente Minato tivesse sentimentos mais complexos sobre isso. Talvez ela acreditasse que construir algo assim não era suficiente.

...Foi uma conversa que me fez refletir bastante.

Ainda assim, eu não podia simplesmente inventar coisas para preencher o relatório.

O período eleitoral já estava próximo.

Mesmo que eu mudasse completamente meu estilo de vida a partir daquele momento, não havia garantia de que continuaria assim depois de assumir um cargo.

Por isso, no relatório de autoentrevista, eu escreveria sobre quem eu realmente era.

Sem filtros.

Sem enfeites.

Eu apenas faria o que precisava ser feito, com cuidado e dedicação.

— Depois dessa conversa… — Hinako falou em voz baixa. — Acho que consegui entender um pouco do tipo de vice-presidente que Itsuki quer ser.

— É mesmo….? Para falar a verdade, nem eu tenho certeza disso ainda.

Hinako balançou a cabeça suavemente.

— Se Itsuki se tornar vice-presidente... você vai cuidar do presidente, não vai?

Quando ela colocou a questão daquela forma... sim, talvez fosse exatamente isso.

Apoiar.

Orientar.

Essa visão realmente existia dentro de mim. Enquanto essa percepção se acomodava em algum lugar profundo do meu coração, Hinako de repente encostou o corpo no meu.

— H-Hinako?

— Não se esqueça de cuidar de mim também, está bem?

Então era isso que a preocupava...

— Te esquecer? Não existe a menor chance disso acontecer.

— Mm..

Quando murmurei aquilo baixinho para que ninguém mais ouvisse, Hinako se afastou com uma expressão satisfeita.

Não havia como eu me esquecer dela.

Afinal, a razão pela qual eu queria me tornar membro do conselho estudantil era justamente me tornar alguém digno de permanecer ao lado de Hinako mesmo depois de nos formarmos na academia.

Não era como se eu visse o cargo apenas como um degrau para alcançar outro objetivo. Mas, ainda assim, também era importante manter uma visão ampla das coisas.

— Ah, é mesmo. Hinako, se não se importar, você poderia me ensinar sobre gestão empresarial?

— Gestão empresarial...?

— Sim. O Management Game já acabou, mas eu quero continuar estudando administração. Se você tiver alguns dos livros que usou para aprender, gostaria muito de pegá-los emprestados.

— Mm, tudo bem. Tenho vários. Quando voltar para o meu quarto, vou procurar alguns para você.

Vários, hein...

Eu já sabia disso, mas ver de perto a habilidade de Hinako durante o Management Game havia me feito perceber ainda mais claramente que aquilo não era algo que se aprendia da noite para o dia.

Quantos anos eu levaria para alcançar tudo o que ela havia construído?

Não.

Se eu não tomasse cuidado, a distância entre nós talvez continuasse aumentando. Ficar lado a lado com Hinako realmente era um objetivo difícil. Mas era justamente isso… Que fazia valer a pena.

◆

Naquela noite.

Como de costume, Hinako e eu jantávamos juntos.

— Hinako... trate de comer os legumes, está bem?

— Fui pega…..

Essa foi por pouco.

Se eu baixasse a guarda, ela tentaria passar seus vegetais menos favoritos para o meu prato. Ultimamente, ela vinha comendo essas coisas por conta própria com mais frequência, ainda que contrariada, mas a cada três dias mais ou menos ainda tentava uma pequena manobra.

Pensando bem, talvez tivesse conseguido algumas vezes sem que eu percebesse.

Hm? Esse sabor...

O jantar daquela noite tinha um estilo mais japonês.

Enquanto comia um prato de espinafre cozido servido com mariscos, refinado o bastante para parecer algo de um restaurante de alto padrão, percebi que aquele sabor me era familiar.

— Shizune-san.

— Sim?

— Yuri está aqui por acaso?

Perguntei à Shizune-san, que estava por perto. Ela arregalou levemente os olhos.

— Como você descobriu?

O tempero me lembrava imediatamente a culinária da família de Yuri.

Hinako e eu já havíamos terminado o jantar.

Naquele momento, eu e Hinako já havíamos terminado o jantar. Como Hinako normalmente passava o pós-refeição apenas relaxando sem fazer nada em especial, decidi aproveitar esse tempo para ir falar com Yuri.

Segui em direção à cozinha e encontrei Yuri já trocada para roupas casuais, aparentemente prestes a ir embora.

— Yuri.

Ao ouvir sua voz, ela se virou. Aproximei-me dela.

— Você poderia ter me avisado que estava aqui.

— Bem, tecnicamente eu estava trabalhando, sabe? Além disso, vamos nos ver amanhã de qualquer forma.

Era verdade, mas...

— E, bem... eu queria me esforçar um pouco sem chamar atenção.

— Se esforçar? ...Ah, espera. Hoje é sexta-feira, não é? E a escola?

— Foi o último dia das provas de meio de período. Elas terminaram de manhã, então vim para cá durante a tarde.

Agora que ela mencionava isso, lembrei que as provas da escola dela realmente aconteciam naquela época do ano.

— Você veio trabalhar logo depois de terminar as provas?

— Basicamente — Yuri sorriu discretamente e assentiu. — Você se saiu muito bem no Management Game, não foi?

— Provavelmente.

— O que foi esse "provavelmente"? Você sempre é modesto demais quando o assunto é você mesmo. ...Então isso o aproximou do conselho estudantil, não foi?

— Sim, acho que sim. Mas ainda não posso baixar a guarda.

Eu não podia relaxar até vencer a eleição que se aproximava. Ainda assim, era inegável que eu estava mais próximo do conselho estudantil do que antes. Caso contrário, a presidente Minato não teria me chamado.

— Quando percebi isso... pensei que também não podia ficar para trás.

Yuri falou em voz baixa. Então era por isso que ela estava trabalhando logo depois das provas.

Pelo visto, ela tinha planejado ir embora sem falar comigo naquele dia, mas, como estava se sentindo competitiva, acabou achando um pouco constrangedor me encarar.

Não era só eu. Yuri era outra pessoa que avançava em direção aos próprios objetivos com tudo o que tinha. O sonho dela era transformar o restaurante da família, o Hiramru, em uma rede presente em todo o país.

Era um objetivo tão ambicioso e difícil quanto o meu sonho de me tornar consultor para apoiar Hinako e os demais.

— Estou torcendo por você.

— Você não precisa torcer por mim. Em vez disso, vamos continuar avançando juntos.

As palavras dela me fizeram rir. Era verdade. Essa era simplesmente a forma de Yuri ser.

— A propósito, o que você tem feito ultimamente?

— Ultimamente... tenho participado de entrevistas.

— Entrevistas?

Quando expliquei a situação, o rosto de Yuri se iluminou de interesse.

— Uau, então o conselho estudantil está entrevistando você?

— Bem, na maior parte do tempo eles só ficam me observando à distância...

Mas talvez fosse assim que entrevistas de verdade funcionassem. Não estavam me filmando nem nada do tipo, mas eu apostava que estavam reunindo todo tipo de informação sobre mim.

— Muito bem! Uma pergunta para Tomonari-san!

Yuri ergueu o punho como se fosse um microfone e se aproximou.

— Conte para nós: qual é o segredo por trás dos seus excelentes resultados no Management Game?!

— Bem... se eu tivesse que apontar alguma coisa, diria que foi todo o trabalho que construí até aqui. Recebi ajuda de pessoas com quem trabalhei antes do jogo, e sou muito grato a elas.

Entrando na brincadeira, respondi da mesma forma descontraída.

— Quando penso nas pessoas mais próximas de Tomonari-san, Konohana-san é a primeira que me vem à mente. Vocês dois tiveram uma grande discussão diante de todos no final, não tiveram? Como foi aquilo?

Como ela sabia disso? Será que Hinako contou?

As duas vinham se dando muito bem ultimamente.

— Sinceramente, eu estava nervoso. Parecia um tipo diferente de distância da habitual, quase como se ela não fosse a Konohana-san que eu conheço. ...Mas a personalidade dela não mudou nem um pouco. Como somos próximos, acho que consegui conversar com ela de forma mais tranquila do que conseguiria com qualquer outra pessoa.

Mesmo quando estava atuando completamente como uma jovem dama perfeita, eu conhecia a verdadeira Hinako e as preocupações que ela carregava naquela época.

Por isso consegui lidar com aquela conversa, pelo menos até certo ponto.

— Mas fazer algo tão grandioso assim deve ter atraído muita atenção, não é?

— Sim, acho que sim.

— Talvez você até esteja recebendo mais investidas do sexo oposto agora, hein?

Yuri abriu um sorriso travesso e aproximou ainda mais seu "microfone". Eu desviei o olhar.

— Não, nada disso.

— O que foi essa pausa? — A expressão de Yuri ficou séria. — Espera, o quê? O que isso quer dizer? Sou a única trabalhando duro por aqui?

— Não é como se eu estivesse me distraindo com esse tipo de coisa...

— Esse tipo de coisa?

Isso era ruim. Não importava o que eu dissesse, só estava cavando minha própria cova.

— E-Ei, você não deveria ir para casa logo? Está ficando tarde...

— Ugh...! É verdade, mas...

Provavelmente havia um carro esperando por ela. Se eu prolongasse aquilo por mais algum tempo, ela seria obrigada a ir embora.

...Esta rodada era minha.

— Hirano-san, o carro está pronto...

Shizune-san apareceu naquele momento. Pelo visto, Yuri finalmente iria para casa. Ao ver a expressão frustrada dela, soltei um suspiro de alívio. Mas então Shizune-san olhou para nós dois e comentou:

— Vocês parecem estar tendo uma conversa bastante animada. Itsuki-san, gostaria de ir junto com ela?

— Hã?

Uma ajuda inesperada. Mas não para mim. Para Yuri. Ela imediatamente abriu um sorriso malicioso.

— Vamos fazer isso. Certo, Itsuki...?

— Espere, calma aí...

◆

— Hm... então você só está recebendo mais atenção das garotas ultimamente, mas nada realmente importante aconteceu, é isso?

— Algo assim.

Dentro do espaçoso carro, enxuguei discretamente o suor frio da testa para que Yuri não percebesse.

...Consegui escapar dessa.

Por enquanto, mantive a confissão de Narika em segredo.

O carro parou.

Eu estava tão concentrado em desviar da enxurrada de perguntas de Yuri que nem percebi que já havíamos chegado ao destino. Depois de agradecer ao motorista e sair do carro, Yuri foi seguida por mim.

— Vou acompanhá-la até em casa.

— Entendido.

O motorista respondeu de forma formal. Não precisava ser tão cerimonioso comigo, que era apenas o cuidador de Hinako.

Mas, bem… Era a família Konohana. Até os motoristas eram impecavelmente educados.

Yuri me lançou um olhar surpreso.

— Você não precisava me acompanhar, sabia?

— Não tem problema. Já que estou aqui, achei que daria uma olhada pelo bairro.

— O quê? Ficou nostálgico?

— Não sei. Estive aqui no verão, então não chega a ser nostalgia...

Enquanto caminhávamos em direção à casa dela, observei a paisagem da cidade.

— Parece meu antigo território.

Yuri inclinou a cabeça. Era difícil explicar. Mas, se eu tivesse que colocar em palavras...

— Eu cresci aqui, mas... sinto uma espécie de desconexão. Como se este lugar já não fosse mais o meu lugar.

— Hmm... isso é algo bom?

— Acho que sim.

Talvez pudesse ser chamado de sensação de deslocamento. Eu sentia nostalgia, mas estar ali parecia... estranho. No final das férias de verão, tomei a decisão de sobreviver no mundo da elite onde Hinako e os outros viviam.

Foi essa determinação que me levou a dar tudo de mim no Management Game. Talvez fosse por isso.

Este lugar já não representava meu presente. Representava meu passado. Como para provar isso, agora eu enfrentava um tipo de problema que o antigo eu, que vivia ali, jamais teria imaginado.

Narika.

...O que eu deveria fazer em relação aos sentimentos daquela garota?

Eu ainda não sabia sequer se tinha o direito de respondê-los. Quando morava ali, estava ocupado demais tentando sobreviver para me preocupar com algo assim. Na verdade, no meu primeiro ano do ensino médio, cheguei a recusar uma confissão porque não queria "arrastar alguém para os problemas da minha família".

Agora aquela desculpa não existia mais.

E era justamente por isso que eu estava sofrendo.

...Droga, a Yuri está bem aqui.

Não era hora de me perder em pensamentos. Se eu não tomasse cuidado, todo o esforço para escapar das perguntas dela teria sido em vão. Percebendo que precisava escolher melhor os momentos para refletir sobre aquilo, procurei outro assunto.

— Ah, falando nisso, como foram as provas?

— Acho que fui bem. Provavelmente vou ficar entre os melhores colocados desta vez.

— Impressionante. E ainda consegue conciliar isso com os estudos de culinária?

— Claro. Não quero que pensem que estou sacrificando todo o resto só por causa da cozinha. ...Embora eu provavelmente esteja dando trabalho para bastante gente. Ouvi dizer que os chefs da família Konohana normalmente não trabalham em horários de meio período como os meus.

— Espera, sério?

— Sim. O normal é trabalhar em regime integral e morar no local. Sou a única que trabalha apenas nos fins de semana, então às vezes me sinto um pouco culpada.

— Bem, você também ajuda no restaurante da sua família, não é?

Não era apenas a escola. Yuri precisava conciliar os estudos, o restaurante da família e ainda o trabalho como chef da família Konohana.

Naturalmente, isso reduzia o tempo que podia dedicar a cada uma dessas coisas.

— Não entenda errado. Eu me sinto culpada, mas não estou sofrendo por causa disso.

— O que quer dizer?

— Quero dizer que fui eu quem escolheu tudo isso. Sou gananciosa, então vou continuar vivendo da forma que eu quero, custe o que custar.

Yuri respondeu com um sorriso destemido. Ela dizia que estava vivendo para si mesma, mas aquilo não soava egoísta.

Seus objetivos eram ambiciosos demais para isso. Transformar um pequeno restaurante local em uma rede nacional era um sonho que a maioria dos chefs chamaria de pura imprudência.

Era preciso ter muita determinação para sequer tentar. Ainda assim… Suas palavras me fizeram inclinar a cabeça.

— Não tenho tanta certeza disso.

— Hã?

— Você pode ser gananciosa, mas... no fundo, é gentil demais. Do tipo que acaba cedendo para os outros de vez em quando.

— Sério? Eu não me vejo assim.

— Quando costumávamos comer karaage juntos, você sempre deixava o último pedaço para mim, mesmo sendo sua comida favorita. Você percebia que eu ainda estava com fome.

— Claro, mas esse é um exemplo tão pequeno.

Será mesmo? Para mim, eram justamente esses pequenos momentos que revelavam quem uma pessoa realmente era.

— Fazia tempo que não conversávamos assim, não é?

Havia um leve tom nostálgico na voz de Yuri.

— É verdade. Nós nos vemos todos os fins de semana, mas raramente temos a chance de ficar conversando tranquilamente desse jeito.

— Nós dois estamos ocupados demais, não é? ...E, para não ficar insistindo no assunto, mas como eu já recebo tantas regalias, é difícil simplesmente relaxar sem me preocupar com o que os outros vão pensar.

Yuri parecia pensar dessa forma. Ela estava cercada por funcionários que moravam e trabalhavam na mansão em tempo integral, enquanto ela era apenas uma funcionária de meio período.

Já se sentia culpada por isso, então não queria ser vista relaxando diante dos outros. Mas, como alguém que realmente morava e trabalhava na residência dos Konohana, eu achava que ela se preocupava demais.

O ambiente de trabalho ali era excelente. O salário era bom, o equilíbrio entre vida pessoal e trabalho era saudável, e os relacionamentos entre os funcionários também eram agradáveis.

Todos estavam ali porque queriam. Por isso, duvidava que alguém tivesse inveja da situação de Yuri. Provavelmente compreendiam suas dificuldades e torciam por ela. Ainda assim, eu entendia por que ela se preocupava tanto com a opinião dos outros.

— Então por que você não vai para o meu quarto da próxima vez?

— Hweh?

Quando expus a ideia que acabara de surgir na minha cabeça, Yuri soltou um som estranho.

— Se você quer um lugar para relaxar sem se preocupar com quem está olhando, pode usar o meu quarto. É só perguntar para a Shizune-san onde fica.

— Você sabe que não pode sair falando esse tipo de coisa para qualquer pessoa, não sabe?

— Eu sei. Só estou falando isso para você.

— Ughhh! Qual é a sua, hein?!

Por algum motivo, Yuri bateu o pé no chão, frustrada.

Enquanto conversávamos, chegamos à frente da casa dela. Mesmo na escuridão da noite, eu conseguia perceber que seu rosto ainda estava vermelho.

Yuri virou-se para mim.

— Então até amanhã!

— Até amanhã.

Ela começou a se afastar em passos largos. Então gritei uma última coisa para suas costas.

— Pode aparecer quando quiser, ouviu~?

— Argh! Cala a boca!! E obrigada!!

◆

Enquanto isso, naquele mesmo momento… Depois do jantar, Hinako normalmente teria mergulhado direto na cama, pronta para dormir à vontade.

Mas naquela noite ela estava silenciosamente organizando os livros de sua estante. Pegou alguns volumes cobertos de poeira e os levou até a escrivaninha.

— Ufa... acho que peguei tudo.

Limpando o suor da testa com as costas da mão, sentiu uma pequena sensação de realização. Os livros que havia retirado eram justamente os manuais de administração que Itsuki lhe pedira para procurar.

Devia haver cerca de cinquenta livros ao todo. Ela havia se desfeito de muitos outros ao longo do tempo e substituído alguns por versões digitais, então aquilo era tudo o que ainda possuía em formato físico.

Estavam cobertos de poeira e não eram tocados havia muito tempo. Mas, anos atrás, ela os estudara diligentemente por ordem de seu pai. Ao lembrar disso, sentiu um leve toque de nostalgia.

Ou talvez não. Na verdade, aquelas sessões de estudo tinham sido apenas cansativas.

— Será que o Itsuki vai ficar feliz...?

Ela imaginou Itsuki recebendo aquela pilha de livros. Sem dúvida ele ficaria radiante.

Conhecendo o quanto Itsuki era esforçado e ambicioso, aquela montanha de material provavelmente o motivaria ainda mais, fazendo-o mergulhar imediatamente nos estudos.

E tudo aquilo era por causa dela. Ele estava estudando por ela.

— Heh.

Sentindo claramente o vínculo que compartilhava com seu cuidador, Hinako deixou escapar um sorriso suave e um tanto bobo.

Ainda era um pouco cedo para dormir, mas, como havia separado tantos livros, decidiu entregá-los no dia seguinte.

Com sua tarefa concluída, finalmente se jogou sobre a cama e rolou de lado com um suspiro satisfeito. Abraçando o travesseiro com força, começou a recordar os momentos que passara com Itsuki naquele dia.

"Não existe a menor chance disso acontecer."

Mesmo que se tornasse vice-presidente, ele jamais negligenciaria suas responsabilidades como cuidador. Ouvir aquela sinceridade em sua voz havia dissipado completamente o pequeno resquício de ansiedade que ainda permanecia em seu coração.

O Itsuki também estava tão incrível hoje~~~ ………

Ela apertou o travesseiro ainda mais forte.

Itsuki sempre era incrível. Todos os dias ele lhe mostrava uma nova faceta sua.

A forma como se concentrava durante as aulas. A forma como ria e conversava com os amigos. A maneira como escapava discretamente da sala para almoçar sozinho com ela. A maneira como ouvia as ideias da presidente do conselho estudantil e respondia com reflexões próprias.

Cada um daqueles momentos era admirável. Todos eles.

..Por que o Itsuki é tão incrível?

Hinako parou por um instante, mergulhando em um pensamento mais sério. Sinceramente, aquilo era um mistério. Talvez Deus tivesse dedicado um cuidado especial ao criá-lo.

— Mas...

Uma lembrança veio à tona. Algo que ela ouvira na academia naquele mesmo dia.

"Hum... será que... durante o Management Game, você e o Tomonari-kun estavam... em um encontro...!?"

Foi o que uma colega de classe havia soltado na sala.

"Ei, o que é esse clima? Será que não é só com a Tennouji-san? Tomonari-kun, você também tem alguma coisa acontecendo com a Miyakojima-san...?"

Foi o que Asahi-san havia comentado durante a festa do chá.

— Muu...

Às vezes, Hinako simplesmente não conseguia evitar pensar nisso.

Ultimamente, não havia rumores demais envolvendo Itsuki e outras garotas?

Ela não mencionara isso durante a festa do chá, mas não eram apenas Tennouji-san e Miyakojima-san. Existiam boatos envolvendo várias alunas. Diziam que ele havia sido visto conversando sozinho com Asahi-san em um café.

Ou que Suminoe-san tinha se curvado diante dele pedindo desculpas.

Era impossível distinguir o que era verdade e o que era apenas invenção.

E, ainda assim, ela nunca ouvira um único rumor sobre ela e Itsuki.

Eu também quero que façam fofocas sobre mim...

Hinako inflou as bochechas.

Quero que todo mundo pense que existe alguma coisa entre mim e o Itsuki...!!

Ainda abraçando o travesseiro, ela escorregou para fora da cama e sentou-se à escrivaninha. Durante o intervalo do almoço daquele dia, quase havia contado à vice-presidente que ela e Itsuki almoçavam sozinhos juntos todos os dias.

Itsuki a impedira às pressas, mas…

...Talvez uma pequena pista não fizesse mal?

Só uma bem pequena. Algo suficiente para que algumas pessoas mais observadoras percebessem...

Por exemplo... sair usando roupas combinando...

Ela anotou a ideia em seu caderno.

Segundo os mangás shoujo, existia algo chamado "roupas de casal".

Na Academia Kiou eles não usavam roupas casuais, mas e se saíssem juntos nos fins de semana usando roupas combinando?

Ou talvez irmos para a escola no mesmo carro uma vez por semana...

Atualmente, os dois viajavam juntos até as proximidades da academia. Então Itsuki descia antes e seguia a pé, fingindo ser apenas um aluno comum.

Hinako continuava até o portão principal, como se tivesse chegado normalmente de carro.

Mas talvez pudessem fazer isso uma vez por semana...

Desde que não prejudicasse sua imagem perfeita de ojou-sama, provavelmente conseguiriam inventar alguma desculpa plausível.

— Ughhh...

Ela queria ser alvo de rumores.

"Ouvi dizer que Tomonari-kun e Konohana-san estavam em um encontro outro dia!"

Algo assim.

"Será que aqueles dois estão namorando escondido!?"

Algo assim.

Ela queria que as pessoas cochichassem sobre ela dessa forma.

Hehe... tudo bem. Desde que ninguém descubra a verdade...

A partir do próximo dia de aula, colocaria seu plano em prática discretamente. Depois de pensar em inúmeras estratégias, Hinako fechou o caderno e voltou a se jogar na cama. No instante em que fechou os olhos para adormecer...

— Com licença — a porta se abriu, e Shizune entrou no quarto. — Esta noite vai esfriar, então trouxe um cobertor de inverno.

— Mm. Obrigada.

Ainda deitada de lado, Hinako puxou o edredom para baixo, até os pés.

— Coloque o cobertor.

— Entendido. Embora ainda seja um pouco cedo para dormir...

Shizune estendeu o cobertor sobre ela, e Hinako puxou novamente o edredom por cima. Shizune estava prestes a sair do quarto quando seus olhos pousaram sobre a escrivaninha.

Ali estava a pilha de livros de administração que Hinako acabara de separar.

— Estava estudando administração?

— Não. O Itsuki pediu alguns livros emprestados.

— Entendo.

Shizune pegou um dos livros e começou a folheá-lo.

— Eu havia sugerido que o Itsuki pegasse mais leve até o período eleitoral, mas... essa seriedade dele já virou praticamente parte da natureza dele, não é?

— Mm... Isso é bem a cara do Itsuki.

Mas aquela mesma seriedade havia feito Itsuki trabalhar até a exaustão durante o Management Game. E, ao que parecia, fora Tennouji-san quem o chamara a atenção por isso.

Que erro...

Ainda assim, Hinako precisava admitir que provavelmente só Tennouji-san seria capaz de fazer algo assim. Até mesmo Hinako reconhecia que Tennouji-san era a pessoa mais disciplinada da Academia Kiou. Talvez justamente por isso ela conseguisse perceber quando alguém estava se esforçando além dos próprios limites.

...Não vou agradecer a ela.

Ela sabia que estava sendo infantil. Mas estava irritada, e ainda levaria algum tempo até conseguir ser sincera quanto a isso. Afinal, como Tennouji-san havia saído na frente, toda a academia estava comentando sobre ela e Itsuki.

Mesmo naquele exato momento, enquanto ela rolava de um lado para o outro na cama, provavelmente havia alguém falando sobre Itsuki e Tennouji-san.

Só de imaginar isso, seu estômago se revirava de irritação.

Sou eu quem está mais perto dele... Sou eu quem fica ao lado do Itsuki...

— Oh? O que é este caderno?

A voz de Shizune veio da escrivaninha.

Caderno?

Será que ela tinha deixado algo ali...?

— Ah!?

Hinako se levantou num salto e correu para impedi-la. Mas já era tarde demais. Shizune já estava lendo o conteúdo do caderno.

Era justamente o caderno onde Hinako havia anotado todas as ideias que tivera enquanto pensava em maneiras de espalhar rumores. Depois de terminar a leitura, o rosto de Shizune endureceu.

Ela engoliu em seco.

— Ojou-sama. Isto aqui é... um plano para arruinar o Itsuki-san?

— N-Não é isso...!!

Arruiná-lo? Claro que não.

Mas, pensando melhor, dava para entender por que parecia aquilo. Itsuki havia se adaptado tão bem à vida na academia que era fácil esquecer, mas ele escondia sua verdadeira situação. Se alguém descobrisse que ele morava na mansão Konohana, seria imediatamente dispensado de seu cargo de cuidador.

— Ojou-sama, ficar dando "indiretas" está fora de questão.

— Indiretas?

Hinako inclinou a cabeça diante do termo desconhecido.

— É quando você tenta fazer os outros perceberem que tem uma relação especial com alguém, não de forma direta, mas sutilmente.

— Entendo... Então é isso que significa "dar indiretas".

Ela teria de pesquisar sobre isso mais tarde. Talvez até aparecesse em algum mangá shoujo.

— A propósito, nos mangás shoujo, quem costuma fazer isso normalmente é a vilã.

— O quê!?

— É uma tática sorrateira e pode parecer bastante desleal. Se pretende fazer alguma coisa, o melhor é ser direta e agir às claras.

— Direta... e às claras...

Não de forma escondida, mas direta.

Como seria isso? Sair normalmente para encontros? Andar de mãos dadas normalmente? Coisas assim?

— I-Isso... talvez seja um pouco cedo demais...

Seu rosto ficou vermelho. Só de imaginar aquilo já a deixava daquele jeito. Fazer de verdade seria impossível.

Ao ver sua reação, Shizune lançou-lhe um olhar severo.

— De qualquer forma, você não pode colocar em prática absolutamente nada do que está escrito aqui.

— Tudo bem...

— Francamente... mesmo sem fazer nada, já existem indiretas suficientes circulando por aí. Se começar a fazer isso de propósito, será um desastre...

Shizune pressionou a mão contra a testa enquanto suspirava.

Era uma pena que seus planos tivessem sido rejeitados. Mas, agora que pensava melhor, eles realmente pareciam um pouco desonestos.

Ela precisava estudar mais sobre romance.

Pensando nisso, Hinako estendeu a mão para o mangá shoujo que havia pegado emprestado de Yuri e que estava sobre a mesa

Fim da leitura

Capítulo 53 concluído

Volume 8 – Capítulo 2 – Capítulo 2: A Entrevista Começou