O Cuidador da Ojou-sama — Capítulo 54: Volume 8 – Capítulo 3 – Capítulo 3: A Folga da Família Konohana

O Cuidador da Ojou-sama
Cap. 54
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O Cuidador da Ojou-sama

Volume 8 – Capítulo 3 – Capítulo 3: A Folga da Família Konohana

Capítulo 54

15.942 palavras~69 min de leitura

SÁBADO.

Ao acordar na cama, abri as cortinas e lancei um olhar para os documentos sobre minha mesa.

...Certo. Tenho dois dias para preencher este relatório.

Era um relatório de autoavaliação.

Ele havia sido entregue a mim pela presidente Minato no dia anterior. Tudo o que eu precisava fazer era anotar um esboço do meu fim de semana, mas havia um problema: eu morava na mansão da família Konohana.

Não posso deixar ninguém descobrir que estou morando com a Hinako...

Por isso, seria necessário fazer alguns ajustes. Por exemplo, se eu mencionasse casualmente o tamanho da mansão, alguém poderia perguntar: "Sua casa é tão grande assim?". Como eu supostamente era o herdeiro de uma empresa de TI de médio porte, provavelmente deveria reformular qualquer coisa relacionada ao trabalho de criado para mantê-la vaga.

Ainda assim...

Posso ajustar os detalhes amanhã à noite. Por enquanto, vou apenas registrar as coisas conforme acontecerem.

A presidente Minato havia dito para escrever aquilo como um diário. Uma abordagem mais descontraída provavelmente permitiria que minha personalidade aparecesse melhor.

Pensando nisso, lavei o rosto e vesti meu uniforme habitual de criado.

Seis horas da manhã.

As manhãs de fim de semana geralmente seguiam uma rotina fixa. Primeiro, eu saía do meu quarto para começar a limpar a mansão.

— Bom dia.

Outros empregados saíam de seus quartos, e trocávamos cumprimentos breves. Todos eram mais velhos do que eu. Os mais jovens tinham pouco mais de vinte anos, enquanto os mais velhos estavam na faixa dos quarenta ou cinquenta.

— Tomonari-san, poderia levantar este vaso para mim?

— Deixe comigo.

Enquanto eu limpava o corrimão da escada com um pano, uma das empregadas pediu ajuda, então fui até ela imediatamente. O vaso continha flores cosmos. Suas grandes pétalas rosa-claro eram marcantes, e elas tornavam o ambiente mais vivo quando expostas.

— Ainda podemos deixar essas flores aqui?

— Essas estão boas, mas as flores da entrada e da sala de recepção precisam ser trocadas. Aparentemente, o convidado de hoje gosta de ciclames, então estamos fazendo alguns ajustes.

— Entendido. Vou buscá-las com o jardineiro.

— Isso ajudaria muito.

Deixei o vaso de lado e fui encontrar o jardineiro da mansão. A família Konohana trocava os quadros e as flores para cada visitante, com o objetivo de chamar sua atenção e causar uma boa impressão.

— Com licença.

Ao sair para o jardim, chamei o jardineiro que cuidava das plantas.

— Poderia me dar alguns ciclames?

— Claro. Quantos você precisa?

— Para o convidado, na entrada e na sala de recepção...

— Cerca de dez hastes devem bastar. Os vasos atuais provavelmente não combinarão, então vou preparar alguns novos. Talvez Meissen ou Herend sejam uma boa escolha...

Meissen, fundada na Alemanha do século XVIII, e Herend, originária da Hungria do século XIX, eram ambas marcas de porcelana. Eram famosas não apenas por seus vasos, mas também por seus conjuntos de chá.

Desde que me tornara o cuidador da Hinako e passara a morar na mansão dos Konohana, eu lidava frequentemente com porcelanas. Vasos, xícaras de chá — a maioria dos objetos era feita desse material. E existiam inúmeras marcas de porcelana: Meissen, Herend, Wedgwood...

Familiarizar-me com elas parecia ser um privilégio reservado à alta sociedade.

Bem, eu não passava de uma pessoa comum agarrada a esse estilo de vida luxuoso...

— Algo assim?

O jardineiro trouxe os ciclames em vasos e os arranjou habilmente em um recipiente.

As pétalas vermelhas e rosas destacavam-se contra o vaso branco. Eu havia me perguntado se realmente era necessário trocar os vasos, já que os cosmos tinham cores semelhantes, mas, ao ver aquilo, a combinação parecia uma obra de arte única.

— Está magnífico.

— Haha, obrigado! Vou colocar os ciclames e os vasos em um carrinho agora, então poderia mostrar este modelo às empregadas?

Poucos minutos depois, peguei o carrinho com as dez hastes de ciclame e os vasos, juntamente com o vaso de amostra, e o levei de volta para dentro da mansão.

Entreguei as flores à empregada que estava limpando a entrada, e ela imediatamente começou a substituí-las. Bastou um rápido olhar para o modelo para que ela compreendesse toda a composição do arranjo — prova de que as empregadas da família Konohana estavam longe de ser comuns.

O treinamento rigoroso da Shizune-san certamente era o motivo disso.

Sete horas da manhã

Tomei café da manhã no refeitório dos empregados.

Comparado ao salão de refeições usado por Hinako e sua família, o refeitório dos empregados era um pouco mais simples, mas ainda assim muito mais luxuoso do que o de uma casa comum. Mesas antigas estavam alinhadas pelo salão, acomodando quase cinquenta empregados de uma só vez. Como fazíamos as refeições em horários alternados, nem todos estavam presentes, mas comer cercado por tantas empregadas e mordomos ainda era uma visão estranha.

Levei algum tempo para me acostumar.

— Sobre a limpeza da entrada, tenho um aviso: por favor, certifiquem-se de que os vasos estejam prontos até às dez horas de hoje...

Enquanto comíamos, a chefe das empregadas, Shizune-san, distribuía instruções de forma objetiva.

Como ela usava o horário do café da manhã para atualizações de trabalho, aparentemente fazia sua própria refeição antes disso. Era uma rotina pesada para alguém com tantas responsabilidades.

— Além disso, estamos com falta de pessoal para cuidar do lixo. Se alguém puder...

— Ah, eu faço isso.

Levantei a mão para me voluntariar, e Shizune-san assentiu.

Como eu era um cuidador que frequentava a Academia durante a semana, era difícil definir exatamente qual era minha função como empregado. Por isso, costumava ajudar onde quer que houvesse necessidade.

— Esses eram todos os avisos. Vamos dar o nosso melhor hoje.

Os que terminavam de comer voltavam ao trabalho um após o outro. Depois do café da manhã, ajudei com a coleta do lixo e então retomei a limpeza da mansão.

Dez horas da manhã

O alarme do meu smartphone vibrou no bolso, então voltei para meu quarto. Troquei de uniforme, arrumei minha aparência e saí. Percorrendo o longo corredor, abri a porta do meu destino.

— Hinako, já é de manhã.

— Mmm...

Afastei as grandes cortinas, deixando a luz do sol inundar o quarto. Hinako se virou na cama.

— Itsuki...

— Hum?

— Abraço….

Ainda de olhos fechados, Hinako abriu os braços.

— Tudo bem, tudo bem.

Peguei Hinako, que havia se sentado na cama, e a carreguei até o banheiro para lavar seu rosto.

Recentemente, eu havia percebido que ela ainda estava meio adormecida nesse estado.

Quando estava sonolenta, Hinako ficava ainda mais carente do que o normal. Como as manhãs frequentemente envolviam esse tipo de contato próximo, eu sempre trocava de roupa antes de vir acordá-la.

— Lava...

Prendi sua franja com uma faixa e lavei delicadamente seu rosto.

— Enxuga...

Sequei rapidamente seu rosto com uma toalha luxuosa que estava por perto.

...Ela está prestes a acordar.

Nos dias de semana, ela às vezes ia para a Academia ainda meio sonolenta, mas hoje era fim de semana e ela havia dormido bastante. Em dias assim, Hinako normalmente despertava depois de lavar o rosto.

Dito isso, a pele dela era... incrivelmente macia. Sério, parecia um mochi. Toquei meu próprio rosto para comparar, mas era completamente diferente.

Como a pele dela conseguia ser tão sedosa?

Enquanto eu acariciava suas bochechas macias como mochi através da toalha—

— Hã……?

— Você acordou.

Os olhos de Hinako se abriram de repente.

— Bom... dia...

— Bom dia. Seu rosto já está limpinho.

Dobrei a toalha e retirei a faixa de cabelo. Sua franja caiu de volta ao lugar e, sem sequer arrumá-la, Hinako se levantou.

Seu rosto estava completamente vermelho. Então ela saiu correndo do quarto.

Sem entender o motivo, fui atrás dela e encontrei Shizune-san no corredor, verificando o alinhamento de um quadro.

— S-Shizune...!

— Ojou-sama? Bom dia.

— P-Por que... por que você não me acordou antes de o Itsuki chegar...?!

— Eu tentei. Mas a senhorita disse que estava com muito sono e que hoje não precisava...

Hinako deu um leve tapa em Shizune-san. Shizune-san apenas a observou calmamente, sem se abalar.

…..Hmm.

Eu havia notado que, ultimamente, o cabelo de Hinako estava arrumado demais para alguém que acabara de acordar. Pelo visto, Shizune-san vinha despertando-a antes de eu chegar.

Mas por quê? Será que… Ela vinha estudando logo cedo pela manhã?

...Entendo. Entendo perfeitamente, Hinako.

Durante o Management Game, eu também havia começado a acordar mais cedo para me preparar para as aulas. Normalmente, o jogo ocupava tanto meu tempo que eu precisava criar momentos extras como esse para não ficar para trás nos estudos.

— Ugh... O-Itsuki está concordando com tanta convicção...! E-Ele sabe...!

— Está tudo bem, Ojou-sama. Essa expressão provavelmente significa apenas que ele está entendendo tudo errado.

Entendendo errado...?

Fiquei curioso sobre o que elas estavam falando, mas Hinako parecia querer esconder aquilo de mim.

Então decidi não insistir.

— Bem, então vou indo...

— Sim, eu cuidarei da Ojou-sama.

Deixando Hinako aos cuidados de Shizune-san, voltei aos meus deveres como empregado.

◆

Meio-dia

Naquele horário, fui até o salão de refeições para almoçar com Hinako.

Assim que Hinako acordava, eu priorizava minhas funções de cuidador acima das tarefas de empregado. Mas, depois de despertar às dez horas, ela costumava fazer um lanche leve e estudar em seu quarto.

Como não havia muito o que eu pudesse fazer nesse período, normalmente ajudava com os serviços da mansão até a hora do almoço.

Pouco antes, eu estava ajudando a recolher e secar a roupa de cama.

— Ahh~...

Levei uma fina fatia de vieira à boca de Hinako.

— Mmm, delicioso.

Enquanto Hinako mastigava, também experimentei um pedaço de vieira. O leve aroma de gengibre era perfeito. O almoço daquele dia era francês, e cada prato havia sido preparado e apresentado com extrema delicadeza.

...Mas como vou escrever isso no relatório?

Recordei a manhã: limpeza, coleta de lixo, lavanderia… Isso deveria servir, certo? Não era mentira e ainda escondia o fato de que eu trabalhava como empregado. Depois havia o momento de acordar Hinako e almoçar com ela daquele jeito...

— Itsuki...

— Aqui está... Ahh~.

Levei um pedaço de bonito grelhado à boca dela.

Desculpe, Hinako, mas... vou escrever que estava alimentando um animal de estimação ou algo assim.

Talvez eu dissesse que criava um hamster… Pensei nisso enquanto observava Hinako mastigar alegremente.

— Ah, isso está muito bom.

— Mmm... Agradeça ao chef...

Experimentei o mesmo bonito que havia dado a ela e fiquei surpreso com o sabor. Combinado com abacate e queijo, o prato ganhava uma textura rica e cremosa.

(N/SLAG: Bonito é um peixe da mesma família dos atuns e cavalinhas, muito utilizado na culinária de vários países.)

Meu paladar estava ficando mimado. Será que eu ainda acharia macarrão instantâneo saboroso depois disso...?

◆

Uma da tarde

Depois do almoço, Hinako voltou aos estudos.

Segundo ela, as sessões da manhã eram mais leves, mas, após o almoço, precisava se dedicar seriamente.

Eram ordens de Kagen-san, parte do esforço para manter sua imagem de ojou-sama perfeita. Ao ouvir isso, tudo o que eu podia fazer era incentivá-la: — Você consegue!

Quanto a mim...

— Espera, foi você que preparou esse prato?

— Sim. Bem gostoso, não acha?

Eu lavava a louça na cozinha enquanto conversava com Yuri. Claro, minhas mãos continuavam trabalhando; não era apenas minha boca que estava ocupada.

Eu lavava pratos desde pequeno, então já estava acostumado.

— Você melhorou de novo...

— Eu melhoro todos os dias.

Yuri bateu nos próprios bíceps e sorriu com orgulho.

Estávamos lavando a louça de cerca de trinta pessoas — a de Hinako, a minha e a dos empregados.

Era um trabalho para duas pessoas. O problema era que todos aqueles utensílios eram de marcas renomadas. Alguns eram feitos de materiais especiais, então precisávamos trocar detergentes e esponjas conforme o tipo de peça.

Quando Yuri me explicou isso pela primeira vez, fiquei chocado. E vê-la lidar com tudo aquilo com tanta naturalidade me impressionou ainda mais.

— Ultimamente, quando temos tempo e ingredientes sobrando, os chefs fazem competições para ver quem cozinha melhor. É uma ótima motivação e deixa todo mundo animado.

— Parece divertido. Qual é a sua taxa de vitórias?

— Na maioria das vezes eu perco. Mas me saio muito bem quando o tema é comida caseira.

Pelo visto, os chefs da família Konohana eram adversários difíceis. Parecia que aprimoravam suas habilidades como se estivessem disputando uma competição esportiva.

Shizune-san provavelmente sabia disso e fazia vista grossa. Uma disputa séria, independentemente de vitória ou derrota, estimulava o crescimento. Eu achava que era uma abordagem bastante válida.

...Será que Narika também havia crescido em um ambiente assim?

Narika, que à primeira vista parecia tímida, treinava artes marciais diariamente em casa. Para ela, competição e desafios provavelmente sempre estiveram presentes. Talvez fosse por isso que era tão imparável nos esportes, mesmo quando competia contra Hinako, e por que demonstrava uma coragem quase inacreditável nos momentos decisivos.

...Droga.

Ergui o olhar para o teto e soltei um suspiro silencioso. Ultimamente, tudo me fazia lembrar de Narika. Enquanto secava cuidadosamente as gotas de água dos talheres, tentei acalmar minha mente.

— Itsuki….

— Hum?

— Está preocupado com alguma coisa?

Pelo visto, eu estava cercado de pessoas bastante perspicazes. Ou talvez eu simplesmente fosse fácil demais de ler.

— Sim, um pouco.

Eu não conseguia esconder as coisas da Yuri. Mas isso não era algo que eu pudesse discutir facilmente com qualquer pessoa.

Que tipo de resposta eu deveria encontrar para Narika...?

A superfície polida de uma colher refletia meu rosto como um espelho. Minhas sobrancelhas estavam franzidas, e minha expressão demonstrava claramente preocupação.

...Eu não queria que Hinako me visse daquele jeito.

Yuri já tinha visto, mas, nesse caso, não havia muito o que fazer. Com a Yuri, já não adiantava mais fingir...

— Hmm... Por enquanto, não vou insistir.

Disse Yuri, passando-me um prato já lavado. Não consegui evitar encará-la.

— O quê?

— Não, é que eu achei que você fosse tentar arrancar a resposta de mim...

— Você estava com uma cara de "não pergunte". É algo que você quer resolver sozinho, não é? Se acabar ficando sem saída, eu escuto. Até lá, vou esperar.

Peguei o prato e comecei a secar a água restante. Como Yuri conseguia perceber tão bem o meu estado de espírito? Às vezes ela insistia sem cerimônia, mas, quando eu precisava de espaço, como naquele momento, sabia exatamente quando recuar.

Será que eu era tão fácil de entender assim?

— Desculpa.

— Não é nada. Afinal, eu sou sua onee-san.

— Faz tempo que eu não ouvia essa.

— Vou repetir quantas vezes forem necessárias se você começar a relaxar demais — Yuri riu, meio brincando. — Na verdade, quem deveria pedir desculpas sou eu. Você sempre me ajuda com a louça.

Disse ela enquanto lavava cuidadosamente o interior de uma xícara de chá.

— Pelo menos me deixe fazer isso. Você não faz ideia de quanto já me ajudou.

— Ah? Então você realmente se sente grata?

— Claro. Sinto que nunca vou conseguir retribuir tudo.

— Hã.

Por um instante, Yuri ficou em silêncio.

— Bem... talvez eu simplesmente deixe você continuar me ajudando para sempre.

Suas bochechas ficaram levemente vermelhas ao dizer aquilo. Terminei de guardar um copo na prateleira e voltei para perto dela para responder.

— Nossa... isso foi uma coisa bem pesada de se dizer do nada.

Recebi um chute na canela.

— Ai!?

— Você também vive falando coisas pesadas assim, idiota!

Bem, era verdade que eu costumava dizer esse tipo de coisa para Yuri… Mas, pensando melhor, não era justamente influência dela?

◆

Depois de terminarmos a louça.

Enquanto caminhava pelo corredor, lancei um olhar para a canela onde Yuri havia me chutado.

Eu tinha gritado por reflexo, mas, infelizmente para ela, a dor desapareceu rapidamente. Um chute daquele nível não era suficiente para afetar um corpo forjado por suor e treinamento.

Falando em treinamento...

Pensando bem, eu não praticava autodefesa havia algum tempo. Desde que o Management Game começara, algumas das aulas de Shizune-san haviam sido canceladas. Eu simplesmente continuara seguindo a rotina como estava, mas talvez devesse pedir para retomá-las.

...Mas, quando a eleição começar, as coisas vão ficar agitadas de novo, não vão?

Sem que eu percebesse, minha própria agenda havia ficado bastante apertada. Quando me tornei cuidador pela primeira vez, eu apenas tentava desesperadamente me adaptar àquele ambiente.

Mas agora eu havia estabelecido objetivos muito mais elevados para mim mesmo. Naturalmente, isso significava menos tempo livre. Ainda assim, eu gostaria de me exercitar de vez em quando.

Enquanto refletia sobre isso, vi Shizune-san caminhando em minha direção pelo outro lado do corredor.

— Ah, Itsuki-san. O que está fazendo?

— Eu estava distribuindo algumas das flores que foram substituídas para os convidados a quem quisesse ficar com elas. Ainda sobraram algumas. Gostaria de uma, Shizune-san?

— Cosmos, hein? ...Sim, aceito uma.

Na residência dos Konohana, quando havia visitantes, as flores eram trocadas para combinar com as preferências deles.

As flores retiradas costumavam ser distribuídas aos funcionários para evitar desperdício. Dessa vez, as flores da entrada e da sala de recepção haviam sido substituídas por ciclames, então os cosmos que estavam lá originalmente sobraram.

Como ainda restavam algumas flores, sugeri que Shizune-san levasse uma.

— Onde devo deixá-la?

— No meu quarto, por favor.

— Certo... — esperei um instante. — Espera, o quê?

Eu estava prestes a concordar casualmente, mas parei no meio do movimento. O... quarto da Shizune-san?

— Pensando bem, você nunca visitou meu quarto, não é, Itsuki-san? ...Vou lhe mostrar o caminho.

Segui Shizune-san enquanto ela me guiava pelo corredor.

◆

Duas horas da tarde

Pela primeira vez, visitei o quarto de Shizune-san.

— C-Com licença.

Abri a porta segurando o vaso.

— Não precisa ficar tão nervoso. É apenas o quarto de uma empregada.

— Eu não acho que a senhorita seja apenas uma empregada comum...

Afinal, ela era a chefe das empregadas. O quarto de Shizune-san era um pouco maior do que o quarto de empregado que eu utilizava, mas a diferença de tamanho não era tão grande quanto eu havia imaginado.

Ainda assim, como esperado, o cômodo estava impecavelmente organizado apesar da visita repentina.

A decoração transmitia uma atmosfera tranquila e, a julgar pelas cortinas, pela mesa e pelas almofadas, parecia que ela tinha preferência por tons terrosos de marrom.

— Onde devo colocar o vaso?

— No parapeito da janela, ao lado da escrivaninha, por favor.

Coloquei cuidadosamente o vaso de cosmos sobre o parapeito. Enquanto fazia isso, meu olhar acabou se voltando para a mesa de estudos de Shizune-san.

— A senhorita também estuda administração de empresas, Shizune-san?

Sobre a escrivaninha havia um livro de administração.

Não...

Olhando melhor, não era apenas administração.

Havia livros de diversas matérias alinhados sobre a mesa. Parecia que Shizune-san estudava exatamente os mesmos campos que nós aprendíamos na Academia Kiou.

— Faço questão de estudar tudo o que a Ojou-sama aprende na academia. Caso contrário, não conseguiria auxiliá-la adequadamente.

— Entendo.

Pensando bem, Shizune-san sempre esteve ao lado de Hinako durante o Management Game, apoiando-a em cada etapa do processo.

Quando pedi o registro de acionistas da Konohana Automotive, Shizune-san o providenciou imediatamente. Ela não teria conseguido responder tão rápido sem estudar administração por conta própria.

...Isso era impressionante.

Essa mulher realmente era uma empregada de elite.

Conseguir acompanhar os estudos da Academia Kiou enquanto desempenhava suas funções como chefe das empregadas...

— Esse quadro branco...

No quarto de Shizune-san havia um grande quadro branco, como os que se encontram em salas de reunião. Ele estava coberto por textos e diagramas escritos com marcador preto.

— Eu o utilizo para anotar informações importantes. Na maioria das vezes, instruções para meus subordinados.

Equipe da cozinha, equipe de recepção, equipe de limpeza... até mesmo os horários dos assistentes estavam registrados de forma organizada. Ela havia desenhado um simples organograma, detalhando as funções e responsabilidades de cada pessoa.

Como chefe das empregadas, provavelmente precisava acompanhar as atividades de todos os funcionários da mansão.

— Está quase na hora do seu intervalo, não é, Itsuki-san? Gostaria de beber alguma coisa?

Disse Shizune-san, lançando um olhar para o quadro branco. E, de fato, até mesmo o horário do meu próximo intervalo estava anotado ali.

— Bem, já que está oferecendo...

— Um momento, por favor.

Shizune-san abriu a geladeira. Aliás, naquela mansão, todos os quartos dos empregados possuíam uma geladeira própria. A cozinha ficava distante demais, uma peculiaridade de uma propriedade tão vasta.

...Fiquei curioso sobre o que Shizune-san costumava beber. Assim, discretamente, olhei por cima de seu ombro para dentro da geladeira. Lá dentro havia fileiras de garrafas de vidro, cada uma com uma etiqueta adesiva indicando nomes de chás como Darjeeling e Assam.

— Isso tudo é chá?

— Também há café. De vários tipos. Grãos, torras, moagens... Preciso conhecer todos eles para servir a Ojou-sama adequadamente.

Agora que ela mencionara isso, percebi uma coleção de grãos de café alinhados em uma das laterais. Aquilo também fazia parte de seus estudos, ao que parecia.

— Com tantas variedades... a Hinako não tem dificuldade para diferenciá-las?

— Não.

Shizune-san pegou uma garrafa de vidro e continuou:

— Levei muito tempo para treinar meu paladar a ponto de distinguir cada uma delas, mas... a Ojou-sama parece possuir uma aptidão natural para perceber diferenças sutis tanto em chás quanto em cafés.

— Sério?

— Aparentemente, isso é comum entre pessoas da alta sociedade. Elas nascem com sentidos refinados e aguçados. Seja em comida ou em arte, sua capacidade de discernir valor é excepcional.

Era mesmo? Pensando bem, fazia sentido. Não apenas Hinako, mas também Tennouji-san e Narika pareciam possuir um olhar extremamente apurado para reconhecer valor. Em uma palavra, elas tinham bom gosto.

— Falando nisso, fiquei surpresa com o senso de paladar da Hirano-san. Sinceramente, achei que ela levaria muito mais tempo para se tornar uma cozinheira competente, mas...

Agora ela já preparava pratos destinados à própria Hinako. Quando o assunto era paladar, Yuri provavelmente já estava no mesmo nível das pessoas da alta sociedade.

Ontem eu havia descoberto que Yuri sentia que "não podia se dar ao luxo de perder" para mim...

Mas talvez fosse eu quem já estivesse perdendo? Pensar nisso era meio deprimente.

— Nós dois acabamos entrando em um mundo bastante difícil, não é?

— Eu diria que você está mais do lado deles, Shizune-san.

— De forma alguma. Comparada aos verdadeiros exemplares, continuo sendo apenas uma imitação.

Recebi a xícara de chá que ela me entregou. Ela havia tido o cuidado de aquecê-lo em um pequeno fogareiro. Aproveitei o aroma rico do Darjeeling e tomei um gole lentamente.

Quem imaginaria que eu acabaria compartilhando preocupações e dificuldades com Shizune-san daquela forma?

Quando me tornei cuidador pela primeira vez, jamais teria imaginado algo assim.

— Hm?

Nesse momento, algo estranho chamou minha atenção. Um pedaço de tecido branco estava saindo debaixo da cama.

— O que houve?

— Ah... Só fiquei curioso para saber o que é isso.

Levantei-me e segurei a ponta do tecido que aparecia sob a cama. Provavelmente era alguma peça de roupa que havia escorregado acidentalmente para debaixo da cama.

Se ficasse ali por muito tempo, poderia amassar, então comecei a puxá-la para fora—

— Ah!? E-Espere, por favor! Isso é—

Shizune-san gritou com uma voz mais alta do que qualquer uma que eu já tinha ouvido dela, tentando me impedir.

Mas eu fui mais rápido. E puxei a peça para fora.

— Hã?

Era um vestido gothic lolita. Um vestido gothic lolita cheio de babados, absurdamente fofo e inconfundivelmente feminino.

...Isso é alguma variação do uniforme de empregada dela?

Meu cérebro, à beira de entrar em curto-circuito, tentou desesperadamente encontrar uma explicação plausível. Mas, ao olhar melhor, percebi que ainda havia várias outras roupas escondidas sob a cama.

Hesitante, puxei algumas delas para fora.

Um uniforme de enfermeira.

Um uniforme escolar estilo marinheira.

Uma fantasia de garota mágica.

— Ugh... ughhh...

Massageando as têmporas, respirei fundo para me acalmar. Eu tinha visto algo que não deveria ter visto.

Por que eu sempre ficava tão curioso em momentos como aquele?

Eu deveria ter fingido que não tinha visto o vestido gothic lolita e recuado imediatamente. Eu não queria olhar para o rosto de Shizune-san atrás de mim.

Mas também não podia ficar parado para sempre.

Lentamente... muito lentamente...

Virei-me.

Shizune-san estava me encarando.

Então abriu a boca.

— Mas...

— Hã?

— Eu gosto de cosplay. Tem algum problema com isso?

Ela simplesmente dobrou a aposta. Aquilo era uma revelação pesada demais para ser ignorada. Eu não podia fingir que não tinha ouvido.

— Eu mencionei antes que minha família trabalha com o ramo de vestuário, não mencionei?

— Sim...

— Então, desde pequena, cresci cercada por todos os tipos de roupas. Isso inclui uniformes de empregada como o que estou usando agora... e também os trajes de cosplay guardados ali.

Shizune-san olhou pela janela para a paisagem do lado de fora e respirou profundamente. Então voltou o olhar para mim.

— É natural desenvolver interesse por isso, não acha?

— Não, não é...

Se eu concordasse naquele momento, senti que minha vida acabaria. Era esse o nível de pressão que eu estava recebendo.

— Quer dizer, foi surpreendente, claro, mas eu não acho estranho nem nada do tipo!

........

— Eu entendo perfeitamente o que está dizendo e... se cresceu em um ambiente tão específico, faz ainda mais sentido desenvolver um hobby assim!

..........

Por favor, diga alguma coisa. O rosto de Shizune-san estava completamente vermelho, e ela permaneceu em silêncio. Eu não fazia ideia de onde estavam as minas terrestres naquela conversa, então precisava evitar dizer qualquer coisa imprudente.

Mas, se eu também ficasse em silêncio, o constrangimento acabaria me matando. Precisava encontrar algum assunto.

— Ah, espera. Então parte do motivo de você trabalhar para a família Konohana é porque queria um lugar onde pudesse usar uniforme de empregada...?

Assim que as palavras saíram da minha boca, percebi. Não tinha como aquilo ser verdade. Como eu havia pensado antes, Shizune-san era uma empregada de elite.

Ela certamente havia enfrentado inúmeras dificuldades para alcançar sua posição atual. Eu não conseguia acreditar que tivesse superado tudo isso apenas porque gostava de uniformes de empregada.

Mas os olhos de Shizune-san se arregalaram. E seus lábios se fecharam firmemente. Aquele silêncio… Será que significava que ela estava concordando?

— Ei, fala alguma coisa.

………..

— Isso é... realmente verdade? Não existe um motivo mais sério ou algo assim...?

Até aquele momento, Shizune-san havia mantido a expressão inalterada, mas finalmente suas bochechas começaram a ficar vermelhas.

Não podia ser. Será que ela realmente tinha entrado nessa só por causa do uniforme?

— Espera, você não disse antes que era porque as aulas da universidade eram entediantes ou porque admirava o Takuma-san naquela época?

Durante as férias de verão, quando fomos fazer compras juntos no supermercado, ouvi sobre o passado de Shizune-san. Não foi assim que ela acabou se tornando empregada da família Konohana?

— Bem…. isso também fez parte.

Com as orelhas agora completamente vermelhas, Shizune-san desviou o olhar ao responder.

— O uniforme de empregada corresponde a cerca de noventa por cento... os outros motivos somam talvez dez por cento.

Isso era demais. A porcentagem do uniforme era absurda. Basicamente, tudo girava em torno do uniforme. Era como se ela estivesse trabalhando apenas para poder usá-lo.

Agora que eu pensava nisso, durante aquele passeio de compras no verão, Shizune-san havia ficado encarando um vestido feminino muito bonito exposto na vitrine de uma loja. Na época, ela disse que estava interessada porque sua família trabalhava com roupas.

Mas talvez ela simplesmente quisesse vestir aquilo.

— Kuh... kuh...

Nesse instante, Shizune-san soltou um som sufocado. Ao olhar melhor, percebi lágrimas se acumulando em seus olhos.

— E-Ei, você está chorando!?

— Kuh... É humilhante... Ninguém jamais descobriu isso antes...

— Está tudo bem! Eu não vou contar para ninguém, eu juro!

— Nem mesmo meus pais sabem...

Aparentemente, aquilo era um segredo de proporções monumentais. Durante todo esse tempo, Shizune-san havia me confortado inúmeras vezes. Ela me guiara em questões de etiqueta, estudos e em todas as minhas deficiências, às vezes com rigor, muitas vezes com gentileza.

Mas pensar que eu acabaria sendo a pessoa a confortá-la...

Depois de algum tempo, Shizune-san finalmente se acalmou.

— Desculpe por perder a compostura.

— Não, quem deveria se desculpar sou eu...

Sinceramente, se Shizune-san não tivesse perdido a calma, provavelmente eu estaria muito mais desesperado naquele momento.

— Aqui, um lenço...

— Obrigada….

Fruuu!

Shizune-san assoou o nariz. Pensar que a Shizune-san estava ali, assoando o nariz daquele jeito...

Olhei para a mulher à minha frente sob uma nova perspectiva. Shizune-san. Sobrenome: Tsumuri.

Seu longo cabelo preto e liso era lindo, mas, mais do que isso, sua presença era tão refinada que rivalizava até mesmo com Hinako quando ela assumia sua postura perfeita de jovem dama.

...Mas ela ainda era uma universitária, não era?

Diferentemente de Kagen-san ou Takuma-san, ela ainda não era uma adulta completamente madura.

Talvez Shizune-san fosse mais uma garota comum do que eu imaginava.

...Nem pensar.

Isso não podia ser verdade. Não havia como Shizune-san ser apenas uma garota comum. Afinal, ela havia alcançado o cargo de chefe das empregadas dentro do Grupo Konohana.

— Olha, eu realmente não me importo — falei para Shizune-san, que já havia terminado de assoar o nariz. — Todo mundo tem uma ou duas coisas que prefere esconder. O hobby de cosplay foi uma surpresa, claro, mas... para mim, você continua sendo a empregada perfeita, de mais alto nível.

O surgimento de um hobby peculiar não era suficiente para abalar a imagem que eu tinha dela. Para mim, Shizune-san continuaria sendo alguém digna de admiração, uma mentora que apoiava Hinako ao seu lado.

Eu ainda tinha muito a aprender com ela.

— Então não vou tratá-la de forma diferente. Por favor, continue me orientando com o mesmo rigor de sempre.

Curvei-me profundamente, transmitindo meu respeito inalterado. Shizune-san ficou me observando por alguns instantes.

— É exatamente disso que estou falando.

— Hã?

— Nada. Você realmente é a personificação ambulante da sinceridade, não é?

Disse Shizune-san com um leve sorriso. Não soube dizer se aquilo era um elogio ou uma provocação. Mas, desde que ela tivesse voltado ao normal, não me importava.

— Ultimamente, vendo a Ojou-sama se divertir tanto, às vezes penso... que talvez eu também devesse me abrir um pouco mais.

Ela queria dizer compartilhar seus hobbies com alguém? Aquilo havia acontecido por acidente, mas me senti honrado por ter sido a pessoa com quem ela escolheu compartilhar aquilo.

— Então, Itsuki-san. Posso lhe pedir um favor?

— Se for algo que eu possa fazer.

O que seria?

Parecia que estávamos prestes a encerrar aquela conversa em um tom agradável...

Mas aquele rumo não me passava uma sensação muito boa. Sem perceber minha inquietação, Shizune-san continuou, mexendo os dedos de forma tímida.

— Acontece que, enquanto fazia cosplay, eu... acabei me interessando por fotografia. Você poderia... me ajudar com isso...?

...

.........

........................Ugh... ughhh...

— Entendido.

◆

— Desculpe por fazê-lo esperar.

Do nada, a sessão de fotos de Shizune-san começou. Segurando a câmera que ela havia me entregado, fiquei aguardando por alguns minutos no quarto.

Então a porta da área de troca de roupas se abriu. E ela apareceu.

Sua roupa não era o habitual uniforme de empregada. Ela vestia um hábito de freira, como aqueles vistos em igrejas.

— Ugh... oh...

— Tem alguma coisa errada?

Minha reação estranha fez Shizune-san inclinar a cabeça, confusa.

— Não, é só que... combina muito com a você...

— O-Obrigada.

Seu rosto ficou levemente vermelho ao ouvir o elogio. E, honestamente, eu não estava exagerando. O hábito preto e branco combinava perfeitamente com seus longos cabelos negros e sua atmosfera serena e elegante.

Se alguém me dissesse que ela era uma freira de verdade, eu provavelmente acreditaria sem questionar. Aquele traje parecia ter sido feito especialmente para ela.

Talvez ela não estivesse acostumada a receber elogios sobre seus cosplays, porque Shizune-san fez uma pequena reverência desajeitada.

Sinceramente, aquilo realmente combinava com ela. Shizune-san já possuía uma aura pura e refinada, então vê-la usando um hábito de freira parecia tão natural que mal parecia um cosplay.

Se eu tivesse que apontar algum detalhe, diria que a saia era um pouco mais curta do que a de uma freira de verdade… Mas isso provavelmente fazia parte da adaptação para cosplay.

— Sobre os ângulos da câmera... poderia fotografar mais ou menos assim?

Shizune-san abriu um notebook sobre a mesa e exibiu algumas imagens de referência.

— Entendido. ...Você realmente pesquisou bastante sobre isso, não é?

— Sim.

Ela assentiu, parecendo um pouco envergonhada. Como eu estava ajudando, provavelmente sentia que deveria ser sincera comigo. Mas ver essa versão tão honesta de Shizune-san parecia... de certa forma, adorável.

Ainda assim...

— Hum, você não pretende publicar essas fotos na internet, certo? Acho que isso poderia ser problemático...

— Não vou. De forma alguma. Isto é apenas um hobby pessoal.

Eu já imaginava que ela não faria isso, mas, se Shizune-san publicasse suas fotos de cosplay online, alguém poderia reconhecê-la na rua um dia e dizer: — Ei, é aquela cosplayer!

A partir daí, a situação poderia sair de controle e até afetar a reputação da família Konohana. Afinal, tecnicamente éramos funcionários da residência Konohana. Precisávamos ter isso em mente mesmo ao aproveitar nossos hobbies.

— Certo, vamos começar a sessão.

Usando as imagens do notebook como referência, comecei a fotografar Shizune-san. Logo depois, mostrei algumas das fotos que havia tirado, mas...

— Não, assim não está certo. Poderia inclinar um pouco mais a câmera para baixo e à direita?

— S-Sim, senhora.

— Vamos ajustar a iluminação. ...Não precisa focar tanto no meu rosto. Priorize destacar o traje.

— Entendido...

Lá estava ela. O modo "chefe das empregadas" da Shizune-san havia despertado. Mesmo com um hobby tão inesperado, Shizune-san continuava sendo Shizune-san.

Enquanto ouvia suas instruções sérias, acabei ficando igualmente concentrado na sessão. Pensando bem, Shizune-san usava um uniforme de empregada todos os dias. Eu já estava tão acostumado a vê-la assim que havia me esquecido de algo: Aos olhos da maioria das pessoas, um uniforme de empregada também era praticamente um tipo de fantasia.

Então não era tão surpreendente vê-la usando roupas elaboradas como aquelas. Claro, o fato de que tudo ficava incrivelmente bem nela ajudava bastante...

— Ah... Shizune-san, há uma dobra aqui.

Havia um pequeno vinco no véu que ela usava. Era difícil explicar exatamente onde estava, então me aproximei e alisei cuidadosamente o tecido. Depois de corrigir o problema, abaixei o olhar.

E nossos olhos se encontraram.

— !

Seu rosto refinado e delicado ocupou completamente meu campo de visão.

...Droga, eu tinha chegado perto demais.

Mas, enquanto eu entrava em pânico por dentro, Shizune-san apenas sorriu suavemente.

— Obrigada. Se tivéssemos continuado assim, a roupa acabaria parecendo descuidada.

Suas palavras carregavam uma sinceridade inconfundível.

...Ah.

Essa mulher realmente amava roupas, não é? Ela mesma havia dito isso antes, mas a profundidade dessa paixão era muito maior do que eu imaginava. Eu já pretendia levar aquilo a sério, mas perceber o quanto aquilo significava para ela me motivou ainda mais.

Ergui a câmera e tirei outra foto de Shizune-san.

— Ficou boa?

— Sim. Assim está ótimo. Perfeito. Certo, vou trocar para a próxima roupa.

A próxima era um uniforme de enfermeira. Era rosa e possuía saia em vez de calças. A impressão geral era mais fofa do que profissional. Shizune-san parecia um pouco tímida, provavelmente por não estar acostumada a usar algo assim diante de outras pessoas.

Mesmo assim, continuei fotografando com toda a concentração.

— Ficou ótimo. Combina muito com você.

— Obrigada. Vamos para a próxima...

Talvez porque ambos estivéssemos tratando aquilo com profissionalismo, a sessão avançou rapidamente. Vestido gothic lolita, uniforme escolar estilo marinheira, fantasia de garota mágica, qipao...

O rosto de Shizune-san continuava ligeiramente vermelho, mas seu desejo de mostrar cada roupa da melhor forma possível brilhava ainda mais. Eu queria corresponder àquele entusiasmo e continuei fotografando.

— Itsuki-san, como está ficando?

— Perfeito. Shizune-san, qualquer roupa fica bem em você.

— S-Sério? ...Certo, vou trocar para a próxima então.

Parecendo discretamente satisfeita, Shizune-san foi se trocar mais uma vez. Enquanto ela estava ausente, aproveitei para revisar as fotos que havia tirado.

...Espere um pouco. Essas fotos não estão um pouco... ousadas?

Eu não havia percebido enquanto fotografava, mas, olhando agora, algumas delas pareciam potencialmente problemáticas. A minissaia da fantasia de garota mágica, a abertura lateral do qipao...

Agora que eu observava com calma, eram roupas bastante chamativas.

...Talvez seja melhor não comentar isso agora.

Finalmente havíamos encontrado um bom ritmo.

Além disso, embora ainda estivesse um pouco envergonhada, Shizune-san claramente estava se divertindo. Ela nunca havia compartilhado seu hobby de cosplay com ninguém antes. Para ela, aquele era provavelmente o primeiro dia em que podia mergulhar completamente em seu hobby de cosplay e fotografia.

Estragar isso seria impensável.

— Estou pronta. Pode começar a fotografar.

— Deixe comigo... hã...?

A determinação que eu havia reunido desapareceu instantaneamente ao ver a nova roupa de Shizune-san.

— Parece algo saído de um anime. Mas o tecido parece um pouco fino...

Ela estava tão focada nas roupas que aparentemente nem conhecia muito bem o anime no qual aquele cosplay era baseado.

Mas chamar aquela roupa de "tecido fino" era um enorme eufemismo. O peito e a parte superior das coxas estavam completamente expostos. A silhueta cheia de babados e movimentos era fofo, sem dúvida, mas não escondia absolutamente nada do que realmente importava.

A saia era tão curta que dava para ver por baixo… E aquilo era para parecer um biquíni?

Aquilo sequer podia ser considerado um cosplay normal?

Não era apenas revelador.

Praticamente não havia roupa alguma.

— Hã... tem certeza de que está tudo bem fotografar isso?

— Sim.

— É que... bem... o nível de exposição parece um pouco alto...

— Está tudo bem. Ninguém além de nós verá essas fotos.

É disso que estou falando!

Mas eu também não tinha confiança suficiente para convencê-la a trocar de roupa.

A essa altura, provavelmente seria melhor terminar a sessão o mais rápido possível.

Levantei a câmera e comecei a fotografar.

— Itsuki-san, não tenha pressa. Temos tempo, então fotografe com calma.

— S-Sim...

"Com calma" era exatamente o oposto do que aquela roupa me fazia sentir.

Além disso, meu intervalo estava quase terminando, então não tínhamos tanto tempo assim.

...Shizune-san havia esquecido completamente dos horários, não havia?

...Controle-se.

Eu tinha bastante confiança no meu autocontrole. Afinal, não era à toa que eu dividia o banho com Hinako praticamente todos os dias. Mas ver Shizune-san — alguém normalmente tão reservada — usando uma roupa daquelas?

Nem eu conseguia permanecer totalmente tranquilo.

E então surgiu uma ameaça ainda maior.

Toc, toc.

Alguém bateu à porta.

— Shizune, você está aí?

Era Hinako.

◆

Duas e meia da tarde

Hinako apoiou a caneta sobre a mesa e alongou as costas rígidas.

— Ufa...

Os estudos que vinha encarando desde a manhã finalmente haviam chegado a um bom ponto de parada. O ritmo das aulas havia diminuído um pouco por causa do Management Game, mas logo voltaria ao normal.

Por isso, ela vinha revisando e se preparando diligentemente para continuar à frente.

Vamos ver... quais tarefas ainda preciso fazer?

Ela abriu o notebook e verificou seus e-mails. Na caixa de entrada havia uma mensagem de seu pai, Kagen, contendo uma lista de atividades.

Todos os meses, no início do mês, seu pai lhe enviava uma relação detalhada de estudos.

Língua e cultura, interpretação lógica da língua japonesa, literatura clássica, geografia, história mundial, matemática, física, biologia, química, ciências da Terra, educação cívica, ética, política e economia, música, artes, artesanato, caligrafia, inglês, economia doméstica, informática...

Além disso, agricultura, indústria, comércio, pesca, enfermagem, assistência social e educação física.

Seu pai sempre identificava exatamente os pontos nos quais Hinako precisava se concentrar.

Hinako não gostava muito de estudar.

Na verdade, odiava.

Se pudesse, trocaria sem hesitar cada segundo diante da escrivaninha por uma soneca confortável na cama.

Mas, ainda assim, ela não ressentia o pai por pressioná-la.

Analisar seu desempenho e preparar uma lista tão detalhada de tarefas não era algo simples.

Mesmo ocupado, seu pai certamente dedicava um tempo precioso entre seus compromissos para organizar tudo aquilo para ela. Sabendo disso, ela não conseguia simplesmente ignorar seus esforços.

Além do mais...

…..Hehe, isso não é nada.

Desde que Itsuki se tornara seu cuidador, Hinako vinha avançando de forma impressionante. Ela estava até mesmo superando as expectativas do próprio pai.

Era estranho. Para superar desafios difíceis, não bastavam inteligência, resistência ou força de vontade. Era preciso ter alguém importante para quem se esforçar.

Certa vez, uma heroína de um mangá shoujo dissera:

"Uma garota apaixonada é invencível."

Hinako começava a entender o significado daquela frase. Existiam forças neste mundo que transcendiam a lógica.

...Onde foi que eu coloquei aqueles materiais?

Ela começou a procurar sobre a escrivaninha, mas não conseguiu encontrá-los. Então se lembrou de algo. Algum tempo atrás, Shizune havia ajudado a reorganizar sua estante.

Quando separaram alguns livros de administração para Itsuki, encontraram vários materiais que ela não utilizaria por um bom tempo e os guardaram em outro lugar.

Acontecia que agora ela precisava justamente de alguns deles. Hinako saiu do quarto à procura de Shizune. No corredor, uma empregada limpava o carpete.

— Ah, Ojou-sama. Aconteceu alguma coisa?

— Shizune... onde ela está?

— A chefe das empregadas? Eu a vi entrando em um quarto com Itsuki-san mais cedo.

Os olhos de Hinako se arregalaram.

— Com Itsuki... em um quarto...?

— S-Sim... aconteceu alguma coisa?

A empregada esqueceu completamente de mencionar um detalhe importante: Eles estavam carregando flores que haviam sido substituídas.

— Leve-me até lá.

— C-Claro, imediatamente.

Percebendo a urgência na expressão de Hinako, a empregada a conduziu nervosamente até o quarto de Shizune.

— É... é aqui.

— Mm... obrigada.

Ao chegar diante da porta, Hinako bateu imediatamente.

— Shizune, você está aí?

No mesmo instante em que chamou, ouviu-se uma série de ruídos apressados vindos do interior do quarto.

— Shizune-san! Rápido, troque de roupa...!

— I-Itsuki-san! Não fale nada agora...!

Era a voz de Itsuki. Sem hesitar, Hinako girou a maçaneta. A porta estava trancada. Hinako talvez não conhecesse bem todos os cômodos da mansão, mas já havia visitado o quarto de Shizune algumas vezes antes.

Assim, ela sabia. Como chefe das empregadas, Shizune recebia muitas visitas e, durante o expediente, normalmente não trancava a porta do quarto. Naquele momento, porém, ela estava claramente escondendo alguma coisa.

— Shizune?

— O-Ojou-sama, peço desculpas. Estou no meio de uma troca de roupa...

— Com o Itsuki aí dentro?

...................

Shizune ficou em silêncio.

O que… Aquele silêncio significava?

— Abra a porta.

Toc, toc.

Hinako bateu na porta.

— Abra a porta.

Toc, toc.

Bateu novamente.

— Abra a porta.

Toc, toc.

Mais uma vez.

— Abra a porta.

Toc, toc.

Continuou batendo.

...........

— Shizune? Você não está... me traindo, está...?

.............

...................

Bam Bam!

Ela começou a socar a porta.

A empregada que a havia conduzido até ali empalideceu.

Bam! Bam!

Outro golpe. A porta chegou a ranger, mas Hinako continuou batendo. Uma heroína de mangá shoujo certa vez dissera: "Uma garota apaixonada é invencível."

Uma porta daquelas? Ela a destruiria sem dificuldade.

— D-Desculpe pela demora, Ojou-sama!

Justo quando Hinako ergueu o punho para golpear ainda mais forte, Shizune saiu do quarto. Itsuki também apareceu logo atrás.

Os dois pareciam visivelmente nervosos… E cobertos de suor.

— Acontece que... o meu uniforme de empregada rasgou...

— É... então eu estava... costurando para consertá-lo...

— Quando falei em "trocar de roupa", quis dizer apenas trocar o avental removível...

— Não é como se a Shizune-san tivesse se trocado na minha frente ou algo assim...

Os dois continuavam falando, mas nenhuma daquelas palavras chegava aos ouvidos de Hinako. Era outono e o clima estava fresco. Mesmo assim, ambos suavam de forma anormal.

Além disso, por algum motivo, o uniforme de empregada de Shizune estava desalinhado. Ela sempre o usava de maneira impecável, mas agora a região do peito parecia ligeiramente aberta.

Duas pessoas cobertas de suor. Shizune com a aparência de alguém que havia vestido as roupas às pressas.

Uma cena de um mangá shoujo que Yuri lhe emprestara atravessou sua mente.

Aquele mangá...

Era de um gênero diferente dos que ela costumava ler.

"Konohana-san, sobre o mangá que te emprestei hoje. Ele é meio picante, então talvez seja melhor não mostrar para a Shizune-san."

"Entendido. Vou levá-lo escondido para o meu quarto."

Seguindo o aviso de Yuri, Hinako o levara secretamente para o quarto e o lera sozinha. Aquele mangá lhe ensinara, pela primeira vez, como funcionava a intimidade entre um homem e uma mulher.

Ela sabia que essas coisas existiam. Mas os detalhes, as etapas e a forma como aconteciam eram novidades para ela. Seu cérebro quase entrou em curto-circuito diversas vezes. Ela desviava o olhar repetidamente, mas, pensando no próprio futuro, obrigou-se a continuar lendo.

Por isso, naquele momento, tudo o que conseguia enxergar eram duas pessoas que haviam acabado de fazer exatamente aquilo.

A porta trancada.

O comportamento desesperado.

Tudo apontava para a mesma conclusão.

..........

Sua mente se recusou a processar a situação. Os olhos de Hinako reviraram.

E ela desmaiou.

— A-A Hinako morreu!?

— Claro que não! Mas vamos levá-la para a enfermaria por precaução!

◆

Três horas da tarde

— Por enquanto, não parece haver motivo para preocupação.

Disse Shizune-san enquanto observava Hinako dormindo na cama da enfermaria. Segundo o médico, não apenas sua vida não corria perigo, como sua saúde estava completamente normal.

Ao ouvir isso, Shizune-san e eu soltamos um suspiro de alívio. O suor frio que escorria pelo meu corpo finalmente começou a diminuir. Como cuidador dela, talvez fosse melhor que eu permanecesse ali para cuidar de Hinako, mas...

— Hehe, Itsuki...

Hinako estava completamente adormecida.

Ela parece bem.

No começo ela havia se mostrado inquieta, mas agora dormia tranquilamente como sempre.

Que tipo de sonho estaria tendo?

Parecia até que eu fazia parte dele...

— A Ojou-sama costuma tirar uma soneca nesse horário, então provavelmente continuará dormindo por algum tempo. ...Devemos voltar ao trabalho?

— Sim.

Eu sabia que Hinako costumava cochilar naquele horário. Provavelmente era a melhor decisão.

— Sei que você já entendeu, mas... por favor, mantenha meu hobby em absoluto sigilo.

— Entendi perfeitamente.

Diante do olhar sério de Shizune-san, como se quisesse reforçar a importância do assunto, assenti profundamente. Eu não tinha o menor interesse em revelar os segredos de outras pessoas.

— Ah, falando nisso.

— O-O quê? Não me diga que existem condições para manter isso em segredo...?

— Não, não é isso.

Neguei rapidamente enquanto Shizune-san se preparava para o pior. ...Ao que parecia, seu hobby de cosplay era uma fraqueza tão grande que a deixava excessivamente cautelosa.

Eu apenas havia me lembrado de algo que queria consultar com Shizune-san.

— Shizune-san, será que poderíamos retomar as aulas de autodefesa? As coisas podem voltar a ficar corridas em breve, então não sei se conseguiremos manter uma rotina regular, mas...

— Vai ficar tudo bastante agitado quando o período eleitoral começar, não é?

Era realmente útil como ela entendia as coisas tão rápido.

Tornar-me consultor.

Entrar para o conselho estudantil.

Quando eu priorizava esses objetivos, as aulas de autodefesa, sinceramente, não ficavam muito no topo da lista. Ainda assim, abandonar os treinos por completo parecia um desperdício. Afinal, eu havia dedicado tanto tempo e esforço para desenvolver aquele corpo que deixá-lo enferrujar não parecia uma opção.

— Na verdade, tenho uma sugestão perfeita.

Disse Shizune-san.

— Você se lembra de quando quase foi demitido do cargo de cuidador e derrotou os guardas da propriedade?

— Derrotei... Eu não diria que cheguei a tanto, mas... bem.

Foi quando invadi à força a propriedade para reencontrar Hinako. Pensando agora, já haviam se passado seis meses desde aquele dia.

— Eu lhe disse que, depois daquele incidente, os guardas ficaram motivados e começaram a treinar ainda mais seriamente, não foi? Recentemente, eles vêm pedindo uma oportunidade para testar seus progressos.

— Progressos?

O que isso tinha a ver comigo?

— Eles querem uma revanche.

— Hã?

— Itsuki-san. Aceitaria lutar contra eles novamente?

◆

Quatro horas da tarde

No dojo da família Konohana, eu me encontrava diante de três guardas.

— Ossu! Contamos com você para uma boa luta!!

— S-Sim... conto com vocês também...

Diante dos gritos vigorosos daqueles homens de aparência intimidadora, vestidos com uniformes de caratê, fiz uma reverência desajeitada.

Fui eu quem pediu para retomar as aulas de autodefesa depois de tanto tempo sem praticar. Mas não esperava passar diretamente para um combate de verdade.

Meus oponentes eram os três guardas da propriedade Konohana que eu havia derrotado seis meses antes. Dois eram responsáveis pelo portão principal, enquanto o terceiro patrulhava o interior da propriedade.

Pensando bem, naquela ocasião, depois de superar os guardas da entrada e invadir o terreno, eu havia derrubado, arremessado e chutado várias pessoas que tentaram me impedir.

Olhando em retrospectiva… Eu realmente não tinha pegado leve. Eu queria tanto reencontrar Hinako que simplesmente avancei sem pensar nas consequências. Talvez eu devesse ter refletido um pouco mais naquela época.

— Itsuki-kun. Você se lembra de mim?

Um dos guardas tomou a palavra.

— Ah... você era um dos guardas do portão, certo?

— Exatamente.

— Mas faz tempo que não o vejo por aqui.

Depois de trabalhar na propriedade Konohana por seis meses, eu já sabia que, exceto por funções especiais como a de acompanhante pessoal, os funcionários normalmente permaneciam em postos fixos.

Aquele homem deveria estar trabalhando no portão, mas eu quase não o via. Como acompanhava Hinako até a academia todos os dias úteis, passava pelo portão diariamente.

Diante da minha pergunta, o guarda respondeu:

— Eu estava treinando nas montanhas.

.........

O quê?

— Eu estava treinando nas montanhas.

Eu não deveria ter perguntado.

— Ah... desculpe por isso.

— Não foi culpa sua. Pelo contrário, graças a você percebi minha própria fraqueza. ...Implorei à chefe das empregadas e passei seis meses treinando nas montanhas. Agora, testemunhe a evolução que alcancei.

Olhei de relance para Shizune-san. Ela levou uma das mãos à testa e suspirou. Pelo visto, havia autorizado o treinamento nas montanhas, mas não deixava de se sentir exasperada com aquilo.

— Dito isso, ouvi da chefe das empregadas que você não tem treinado ultimamente. Nós pedimos essa revanche, mas tem certeza de que está bem entrando em uma luta assim?

— Pratiquei com Shizune-san por cerca de uma hora para recuperar os reflexos, então...

Como aquecimento, Shizune-san me ajudara a revisar as técnicas de autodefesa. Recuperei na memória tudo o que ela havia me ensinado. Para minha surpresa, meu corpo respondeu muito bem.

Então...

— Acho que vou ficar bem….

Ao ouvir isso, os dois guardas arregalaram os olhos. Logo em seguida, sorriram com confiança.

— Hmph... Essa presença. Então não foi sorte que você nos derrotou.

— Você age com humildade, mas está transbordando espírito de luta. Foi exatamente isso que nos pegou da última vez.

Eu tinha a impressão de que eles estavam me entendendo completamente errado. Quando disse que ficaria bem, quis dizer: "Vou conseguir lutar sem me machucar."

Não: "Posso derrotar vocês sem dificuldade."

Parem de me tratar como algum personagem absurdamente forte.

— Os dois lados estão prontos?

No centro do dojo, fiquei frente a frente com o Guarda A. Shizune-san, atuando como árbitra, observou-nos.

As regras eram simples.

Como lesões poderiam atrapalhar o trabalho de todos, ataques a áreas vitais eram proibidos.

A vitória seria decidida por rendição ou pela marcação de um ponto, seguindo regras inspiradas no judô e no caratê. Como Shizune-san parecia conhecer muito bem regulamentos de artes marciais, ela havia definido tudo dessa forma.

Eu e o Guarda A assumimos nossas posições.

Então Shizune-san abaixou a mão.

— Primeira luta... comecem!

Como se estivesse buscando um ataque preventivo, o Guarda A avançou imediatamente para me agarrar. Afastei-me rapidamente para recuperar distância. Porém, como se tivesse previsto minha reação, ele deu um passo largo à frente e invadiu meu espaço.

Droga...!

Eu pretendia reorganizar a situação antes de atacar, então aquela aproximação repentina me pegou desprevenido. Minha postura ficou desequilibrada após o recuo. O guarda aproveitou a abertura e me empurrou com a palma da mão.

No instante seguinte, enquanto eu caía, ele avançou para me imobilizar. Tentei afastá-lo. Mas não consegui escapar.

— E-Eu me rendo...

— Chega!

Bati nas costas dele em sinal de desistência. Shizune-san encerrou a luta.

— Eu venci! Eu realmente venci!!

— Isso aí! Finalmente conseguimos nossa revanche!!

Os guardas se abraçaram e comemoraram a vitória. Como esperado de profissionais. Quando lutavam seriamente, eu simplesmente não conseguia acompanhá-los.

Mas...

O que era essa sensação?

Vê-los comemorando de forma tão aberta...

Ufa...

Soltei discretamente o ar preso em meus pulmões. Precisava esfriar minha cabeça aquecida.

— Então você também consegue fazer essa expressão, Itsuki-san.

Shizune-san murmurou algo enquanto me observava. Mas não consegui ouvir direito. Continuei encarando os guardas em silêncio.

— Itsuki-san, quer fazer uma pausa?

— Não. Quero começar imediatamente.

Como perdi tão rápido, ainda tinha bastante energia. Além disso, embora tivesse esfriado a cabeça, eu não queria apagar o fogo que começava a arder dentro do meu peito.

— Certo! Agora é a minha vez!

Talvez por causa da vitória na primeira luta, o Guarda B avançou até o centro do dojo cheio de entusiasmo. Ele também era um dos guardas do portão. Posicionei-me diante dele enquanto controlava minha respiração.

— Segunda luta... comecem!

Shizune-san deu o sinal. No mesmo instante, o Guarda B encurtou a distância. Provavelmente acreditava que tomar a iniciativa era a chave para vencer.

Não me subestime!

Afastei com um tapa a mão que ele estendia em minha direção. Ele tentou agarrar-me primeiro com o braço direito, depois com o esquerdo.

Desviei e redirecionei cada tentativa. Pelo jeito, ele era especialista em jiu-jítsu. Ignorava ataques diretos e concentrava-se em encontrar uma oportunidade para me agarrar.

Cotovelo.

Cintura.

Gola.

Se ele estava usando jiu-jítsu, os pontos que tentaria segurar eram previsíveis. Se eu conseguisse antecipar seus alvos, bastava escolher o momento certo para neutralizar suas investidas.

— Tch!

Frustrado com o impasse, o Guarda B avançou de maneira mais impaciente. Era exatamente isso que eu estava esperando. Agarrei o braço que ele estendeu. Eu também era razoavelmente bom em jiu-jítsu. Durante todo aquele tempo, desviei de suas tentativas de agarrão justamente para fazê-lo baixar a guarda contra a possibilidade de ser agarrado.

Segurei firmemente seu braço descuidado e torci a articulação para fora.

— Aaai! Aaaai! Aaaai!

A postura dele desmoronou imediatamente. Aproveitando a abertura, executei um O-soto-gari.

THUD!

Suas costas bateram com força no tatame.

— Chega!

Shizune-san sinalizou o fim da luta. Derrotado, o Guarda B permaneceu sentado no chão, atordoado.

— N-Não pode ser... Eu perdi...!?

— Uma sequência montada numa velocidade absurda, cheia de fintas sobrepostas... e ele lidou com tudo aquilo com tanta calma. Pensar que alguém tão jovem conseguiu superar nossas técnicas...!?

Os dois guardas que assistiam à luta ficaram atônitos. Eu sabia que havia várias fintas misturadas nos movimentos dele. Não conseguia explicar direito, mas… Ao observar sua expressão, de alguma forma consegui enxergar através delas.

Recentemente eu tivera uma sensação parecida. ...Isso mesmo. Durante o Management Game, quando deixei de olhar apenas para os números e passei a observar os rostos dos executivos por trás dos dados. A sensação era estranhamente semelhante.

— Itsuki-san, está tudo bem continuar sem descansar?

— Desculpe. Vou fazer uma pausa rápida.

Aquela luta havia consumido um pouco mais de energia. Enxuguei o suor da testa e respirei profundamente algumas vezes.

— Sinceramente, foi por pouco. Venci graças a alguns truques psicológicos, mas não sei se conseguirei fazer o mesmo na próxima...

— O simples fato de você derrotar um profissional já é algo absurdo.

Disse Shizune-san, parecendo ligeiramente impressionada. O Guarda B parecia tão abatido que nem conseguia se levantar sozinho. Os outros guardas precisaram carregá-lo até a lateral do dojo.

Bem, era compreensível. Perder para um estudante devia ser um golpe duro para o orgulho de um guarda profissional.

Pensando bem, o fato de profissionais desafiarem um estudante para uma revanche já era meio estranho.

...Espera.

Será que eu estava sendo arrastado para algo bastante infantil?

— Agora, vamos começar a última luta.

Após o breve intervalo, retornei ao centro do dojo. O Guarda C posicionou-se à minha frente.

— Sou responsável pela segurança interna da propriedade.

O Guarda C fez uma reverência educada.

— Provavelmente você não se lembra de mim, Itsuki-san... mas minhas costas ainda doem por causa daquele chute que você me deu.

Ele exibiu um sorriso destemido. Eu, porém, encarei-o diretamente e respondi:

— Não, eu me lembro. Você foi quem me deu aquela investida, não foi?

Depois que invadi a propriedade, aquele homem avançou contra mim sem a menor piedade. Por pouco consegui me esquivar e acertar um chute em suas costas. Mas bastaria um único erro para que eu tivesse sido derrotado.

Se eu tivesse recebido aquela investida naquela época… Jamais teria conseguido chegar até Hinako.

— Então estamos quites.

— Heh. Exatamente.

Trocamos sorrisos desafiadores e assumimos nossas posições.

— Terceira luta... comecem!

Quando Shizune-san abaixou a mão, nós dois avançamos ao mesmo tempo. O Guarda C lançou um golpe feroz. Girei o corpo e o evitei por pouco.

Golpes de palma.

Chutes circulares.

Golpes de mão transformando-se em ganchos.

Diretos.

Ele misturava técnicas de caratê, boxe e diversas outras artes marciais. Considerando que havia tentado me derrubar com uma investida seis meses antes, provavelmente ainda escondia outros recursos.

Se esses recursos incluíssem projeções ou técnicas de submissão, aproximar-me descuidadamente seria perigoso.

..É exatamente isso que ele quer que eu pense, não é?

Parecia que ele estava tentando me manter à distância. Criava uma zona segura para atacar enquanto aguardava pacientemente que eu cometesse um erro. Provavelmente confiava bastante na própria resistência física. Esperava que eu me desgastasse antes dele.

Usei o jogo de pés para manter a distância. Ou melhor… Fingi que manteria a distância. Então avancei um passo.

— !?

Os olhos do Guarda C se arregalaram de surpresa. Mas ele reagiu instantaneamente, levantando o joelho direito para se defender.

Uma guarda sólida.

Eu pretendia acertá-lo com um golpe de palma, mas aquela defesa não seria rompida facilmente. Ele recuperou a distância imediatamente.

— Hehehe...

O Guarda C soltou uma risada.

— Que tal eu acabar com suas esperanças primeiro? Tenho cinquenta por cento de vitórias contra a chefe das empregadas.

Só conseguir vencer metade das vezes contra uma profissional já me fazia questionar que tipo de pessoa Shizune-san realmente era… Mas ainda assim era impressionante.

Depois de aprender autodefesa com ela, eu compreendia perfeitamente o quanto aquilo era extraordinário. No entanto, a própria Shizune-san, que atuava como árbitra, resolveu comentar:

— Itsuki-san é mais forte do que eu.

— O quê….?

— Mesmo durante o combate de aquecimento antes das lutas, ele venceu cerca de sessenta por cento das vezes.

Não, aquilo provavelmente tinha sido apenas sorte… Eu mal havia conseguido ganhar mais vezes do que perder. Mas era verdade que, em comparação com a época em que me tornei cuidador de Hinako, eu já conseguia derrotá-la ocasionalmente.

Eu sentia que havia melhorado bastante em jogos psicológicos. Em termos de técnica pura de autodefesa, ainda estava longe de alcançar Shizune-san. Mas, em lutas reais, minha taxa de vitórias já havia se aproximado da dela.

— H-Heh... hahaha...

O Guarda C soltou uma risada seca.

— M-Mesmo assim... não tem como eu perder...

Gotículas de suor frio surgiram em sua testa. Foi ele quem iniciou aquela guerra psicológica. Mas um contra-ataque inesperado havia abalado sua confiança. Jogos mentais realmente eram perigosos.

O Guarda C avançou. Talvez por estar ficando desesperado, seus movimentos passaram a apresentar várias brechas. Porém, justamente por isso, tornaram-se ainda mais agressivos. Não consegui desviar adequadamente de um chute frontal. Minha postura vacilou e fui forçado a recuar.

— Agora...!!

O Guarda C partiu para uma investida. Investidas eram técnicas complicadas. Uma execução descuidada podia resultar facilmente em um joelho no rosto. Mas ao me ver perder o equilíbrio, ele deve ter concluído que finalmente podia encurtar a distância.

No entanto...

Eu induzi você a fazer isso...!!

Minha postura vacilante era apenas uma armadilha. No instante em que ele mergulhou em direção ao meu tronco, deixei meu peso cair sobre ele de cima para baixo.

No momento seguinte, rolei para trás. E o projetei por cima da minha cabeça.

— Guh!?

As costas do Guarda C atingiram o tatame do dojo com violência. Era uma técnica de judô chamada Tawara-gaeshi.

— Chega!

A técnica saiu exatamente como planejado. Shizune-san declarou o fim da luta. O normal seria fazermos uma reverência após o combate. Mas o guarda parecia tão atordoado que permaneceu imóvel, encarando o teto.

— Ha... haha... impossível...

— Eu treinei tanto...

— Vou ter que voltar a me esconder nas montanhas para treinar de novo!?

Os dois guardas derrotados cerraram os punhos em frustração.

Duas vitórias e uma derrota, hein...

Para alguém que entrou no dojo preparado para perder todas as lutas, aquele resultado era excelente.

Não. Era mais do que excelente. Competir contra guarda-costas profissionais e sair vencedor...

Que tipo de situação absurda era aquela?

— Itsuki-san.

Shizune-san me chamou. Sua expressão era estranhamente complicada.

— Sinceramente... você parece mais adequado para ser guarda-costas do que consultor.

……

— Claro, você também tem talento como consultor... mas, como guarda-costas, parece possuir o tipo de talento capaz de dominar o mundo.

— Por favor, pare.

Você está me fazendo hesitar...

◆

Sete horas da noite

Depois que as lutas contra os guarda-costas terminaram, retornei silenciosamente às minhas tarefas de empregado.

Quando percebi, já era hora do jantar.

Hinako, que havia desmaiado mais cedo, já estava completamente recuperada.

Assim, fui com ela para o salão de jantar. Quando Hinako se sentou à mesa, os pratos começaram a ser servidos.

— Ahn~.

Levei até sua boca um pedaço de carpaccio. O jantar daquela noite parecia ser italiano. O prato principal ainda não havia sido servido. Provavelmente seria trazido após terminarmos as entradas.

— Está gostoso?

— Mmm... delicioso.

Como cuidador de Hinako, eu fazia minhas refeições no salão principal da família Konohana enquanto estava acompanhando-a.

Normalmente eu comia o mesmo cardápio servido aos empregados. Mas, quando estava com Hinako, podia comer exatamente os mesmos pratos que ela. No começo, aquilo me deixava desconfortável. Parecia que eu estava recebendo um tratamento especial injustificado.

Mas já não me sentia assim. Isso porque, para mim, aquelas refeições eram oportunidades de praticar etiqueta. Diferentemente dos outros empregados, eu frequentemente precisava demonstrar boas maneiras em público, seja na Academia Kiou ou em eventos da alta sociedade.

Aquelas refeições funcionavam como uma espécie de ensaio. Portanto, não era exatamente como se apenas eu estivesse saindo no lucro.

Bem… O fato de eu estar alimentando Hinako daquele jeito destruía completamente qualquer aparência de etiqueta refinada.

Pelo menos decidi cuidar da minha própria postura.

Ajustei discretamente a posição dos talheres.

— A propósito, Itsuki.

— O que foi?

— Esta tarde... você sabe se aconteceu alguma coisa?

Abaixei a mão e deixei o garfo que segurava cair sobre a mesa.

— É que eu acho que fui ao quarto da Shizune... mas depois disso minha memória está meio confusa.

— É mesmo? Bem, eu não sei de nada sobre isso...

— Hmm... mas sinto que alguma coisa aconteceu...

— Talvez seja só imaginação sua? Você costuma tirar uma soneca nesse horário, não é? Pode ter sido apenas um sonho.

Convenientemente, Hinako parecia ter esquecido que eu estava no quarto da Shizune-san. Mas suas lembranças não haviam desaparecido completamente, pois ela inclinava a cabeça com curiosidade.

De jeito nenhum eu permitiria que ela se lembrasse do que realmente aconteceu.

— Hey, Hinako! Olha, o próximo prato chegou! Ahn!

— Mmm...

Uma generosa porção de sopa minestrone foi servida. Peguei um pouco com a colher e a levei cuidadosamente até sua boca.

O rosto de Hinako se iluminou. Devia estar delicioso.

Troquei de colher e comecei a comer minha própria porção.

Os jantares italianos costumavam ter dois pratos principais. O primeiro geralmente era uma massa, enquanto o segundo era carne ou peixe. Mas mesmo para a família Konohana, servir um curso completo todas as noites seria exagerado. Por isso, normalmente um dos dois pratos era omitido.

Enquanto apreciava a acidez refinada do minestrone, a massa foi servida. Pelo visto, naquela noite haviam pulado o prato de carne.

— Vocês dois continuam tão próximos quanto sempre, hein?

Uma voz surgiu repentinamente atrás de mim. Ao me virar, quase cuspi a sopa.

— Ah... Papai.

— Kagen-san!?

Já fazia algum tempo. Eu estava ocupado com o Management Game, e Kagen-san vinha permanecendo na residência principal por causa do trabalho. Por isso, não tínhamos tido oportunidade de nos encontrar.

— Shizune, vou jantar aqui esta noite também.

— Entendido. Providenciarei sua refeição imediatamente.

Shizune-san, que estava de prontidão ao lado da mesa, dirigiu-se à cozinha. Kagen-san sentou-se à minha frente.

— O que foi, Itsuki-kun? Continue comendo com minha filha normalmente. Como sempre.

Kagen-san sorriu gentilmente ao perceber que eu havia parado de comer. Mas, observando melhor… Seus olhos não estavam sorrindo.

— Itsuki... quero comer este agora...

Hinako apontou para a massa.

Por favor, Hinako… Pelo bem do meu coração, coma sozinha desta vez...!!

◆

Com uma sensação constante de tensão, o jantar chegou ao fim. Hinako, sentada ao meu lado, começou a demonstrar sinais de sono.

— Hinako, está com sono?

— Mmm...

Desde que eu lhe dera o tiramisù de sobremesa, ela parecia cada vez mais sonolenta. Agora, finalmente havia chegado ao limite. Eu também já havia terminado de comer. Estava pensando em carregá-la até seu quarto quando—

— Shizune, leve Hinako para o quarto.

— Como desejar.

Ao ouvir a ordem de Kagen-san, Shizune-san assentiu. Quando ela se aproximou para ajudar Hinako a levantar-se, Hinako voltou-se para mim.

— Itsuki, venha também...

— Itsuki-kun e eu temos algo para conversar.

Ao ouvir isso, Hinako fez um pequeno som de protesto.

— Muu...

Mas acabou seguindo Shizune-san pelo corredor até desaparecer de vista.

...Conversar? Sobre o quê?

Depois que Shizune-san saiu, restamos apenas eu e Kagen-san no salão de jantar. Como ele havia começado a refeição mais tarde, ainda estava comendo seu prato principal de massa.

O suave tilintar dos talheres ecoava pelo ambiente. Seus modos impecáveis eram belos de se observar. Hinako e Tennouji-san também possuíam uma etiqueta perfeita. Mas Kagen-san transmitia algo diferente.

Uma confiança profunda, construída por anos de experiência. Aquilo não era um evento formal, então ele provavelmente estava mais relaxado do que o normal. Mesmo assim, sua elegância era inegável. Era o resultado de hábitos refinados que já faziam parte de seu corpo.

— Pensando bem, você está com esse olhar desde que cheguei — disse Kagen-san enquanto me observava. — O olhar de alguém que respeita sinceramente os outros e tenta aprender com eles. Não é de admirar que você absorva as coisas tão rápido. Seus modos melhoraram bastante, não é?

— Obrigado…

Aquilo era um elogio... certo?

Com aquela atmosfera tão solene, eu não sabia até que ponto deveria me sentir feliz. Kagen-san raramente me elogiava. Por isso, fiquei sem saber exatamente como reagir.

— Você já passou por tantas situações que nem parece mais ficar nervoso.

Disse ele antes de levar um pouco de massa à boca.

— Não, eu definitivamente estou nervoso.

Só estava escondendo isso. Ao ouvir minha resposta sincera, Kagen-san arregalou os olhos. Então soltou uma breve risada.

— Então você não é exatamente como Takuma.

O que aquilo queria dizer? Mas, pensando bem, se fosse Takuma-san quem estivesse sentado diante de mim em vez de Kagen-san… Ele provavelmente teria percebido meu nervosismo interno imediatamente.

Quando Kagen-san terminou a massa, a sobremesa foi servida.

Tiramisù.

Depois que a empregada recolheu os pratos e desapareceu na cozinha, Kagen-san finalmente começou a falar.

— Estou realmente feliz por não ter demitido você — disse Kagen-san enquanto retirava um pequeno pedaço de tiramisù com uma colher de sobremesa. — Mas estou hesitando em dizer isso tão facilmente — continuou ele, levando a colher à boca. — Desde que você chegou, Hinako começou a demonstrar expressões que nunca havia mostrado antes. Como pai, isso é algo que eu deveria receber com alegria. ...Mas também sou o presidente do Grupo Konohana. Sinceramente, observar Hinako ultimamente tem me deixado um pouco inquieto.

Kagen-san falou calmamente. No entanto, ele não parecia inquieto nem um pouco...

— Para você, Kagen-san, Hinako está mudando para pior?

— Não posso dizer isso de forma tão direta, e é justamente por isso que estou preocupado. Às vezes sinto que ela é mais imatura do que eu imaginava, mas, ultimamente, tenho me surpreendido com muito mais frequência ao ver o quanto ela está crescendo de maneiras inesperadas. ...Ela até tem concluído sem dificuldade as tarefas mensais de estudo. Embora finja ter dificuldades para evitar que lhe deem mais trabalho.

Hinako estava fazendo isso...?

— Mas minha posição não me permite simplesmente comemorar essas surpresas. Se Hinako se tornar incontrolável, talvez eu não consiga prepará-la para se tornar alguém adequada ao Grupo Konohana. ...Se eu pensar apenas em quão fácil é controlá-la, as coisas eram infinitamente mais simples antes de você aparecer.

Eu tinha a sensação de que ele não estava esperando um pedido de desculpas. ...Então não pedi desculpas. Não era nada tão grave. Kagen-san apenas estava dividido.

Ao ver as mudanças recentes de Hinako, ele não sabia ao certo o que deveria sentir — expectativa, alegria, ansiedade ou urgência. Talvez nem soubesse qual dessas emoções seria a resposta correta.

Ele estava apenas desabafando preocupações muito humanas. Como eu provavelmente era uma das causas dessas mudanças... Kagen-san deve ter escolhido se abrir justamente comigo.

— Eu não sei por quais dificuldades você passou, Kagen-san.

Por isso, eu também não sabia qual seria a emoção "correta" para ele sentir.

— Mas acho que ainda não é tarde para você se libertar dessa posição.

Kagen-san já havia me dito algo certa vez. Que havia colocado a família acima da própria filha. Que, naquele momento, havia se tornado apenas uma engrenagem da máquina chamada família Konohana.

Mas...

— Ainda não é tarde para deixar de ser uma engrenagem da família Konohana e simplesmente ser um pai.

Os olhos de Kagen-san se arregalaram.

— Você está começando a ultrapassar seus limites.

— Já enfrentei muitos problemas que não poderiam ter sido resolvidos sem ultrapassar limites.

Os últimos seis meses foram o período mais intenso da minha vida. As pessoas que conheci, os desafios que enfrentei e as respostas que encontrei são coisas que jamais esquecerei.

Kagen-san era apenas mais uma pessoa carregando seus próprios problemas. Quando me tornei o cuidador de Hinako, pensei que seria arrogância da minha parte tentar me aproximar dele... mas agora eu achava que talvez pudesse ajudá-lo, nem que fosse um pouco.

Eu sempre havia pensado nisso. Kagen-san parecia carregar um peso excessivo. Ao longo daqueles seis meses, eu havia conhecido outros adultos em posições semelhantes — os pais de Tennouji-san, os pais de Narika. Eles ocupavam cargos parecidos com o de Kagen-san. Mas, comparado a eles, Kagen-san parecia não possuir a mesma tranquilidade. Definitivamente havia algo acontecendo com a família Konohana.

— Se houver alguma coisa que eu possa fazer...

— Ainda é cedo demais — Kagen-san interrompeu com firmeza. — Isso não é como o Management Game. Para você se envolver com a família Konohana... ainda é cedo demais.

Ele traçou uma linha muito clara. Pensando bem, embora eu tivesse me aproximado bastante de Hinako durante aqueles seis meses, não havia tido muitas conversas profundas com Kagen-san.

Quanto a Takuma-san, sua personalidade evasiva fazia com que eu sentisse que ainda não o compreendia de verdade.

E, para começar… Esta mansão era apenas a residência secundária da família Konohana. Os assuntos realmente importantes da família eram tratados na residência principal, não ali. Eu havia vivido com a família Konohana durante seis meses, mas... talvez ainda não soubesse absolutamente nada sobre eles.

— Se você conseguir entrar para o conselho estudantil da Academia Kiou, eu considerarei isso…. — disse Kagen-san, demonstrando uma leve hesitação.

Meus olhos se arregalaram involuntariamente. Aquilo era algo que Kagen-san jamais teria dito ao antigo eu, independentemente das circunstâncias.

Ele também estava me observando. Estava reconhecendo o meu crescimento.

— Entendido.

Assenti, fortalecendo minha determinação. Um novo objetivo havia sido estabelecido. Entrar para o conselho estudantil e me envolver mais profundamente com a família Konohana.

Durante aquela conversa com Kagen-san, tive um pressentimento vago. Se as coisas continuassem daquele jeito, talvez chegasse um momento em que eu não conseguiria mais apoiar Hinako.

...Foi essa a sensação que tive.

— Perdoem a interrupção durante a refeição.

Naquele momento, Shizune-san, que havia levado Hinako até seu quarto, retornou.

— Kagen-sama, Ojou-sama deseja sair amanhã.

— Sair? Por quê?

— Mais cedo, Tennouji Mirei-sama a convidou para uma sessão de estudos. Ela deseja retribuir Itsuki-san pela ajuda durante o Management Game, mas...

Provavelmente era sobre ela ter me feito companhia quando eu estava à beira do esgotamento por causa do jogo.

— Peça para ela vir aqui — disse Kagen-san. — Nós já visitamos a casa deles antes, não foi? Está na hora de convidá-la para esta mansão.

— Entendido.

Enquanto Kagen-san tomava seu café, Shizune-san assentiu profundamente.

◆

E então, no domingo… Tennouji-san chegou à mansão da família Konohana.

— Estávamos aguardando sua chegada, Tennouji-sama.

— Com certeza! — Tennouji-san estufou o peito com orgulho enquanto Shizune-san fazia uma profunda reverência. — Eu cheguei!

Ela estava ainda mais animada do que de costume. Seus cachos loiros dourados em formato de broca pareciam, de alguma forma, brilhar mais do que nunca.

A sessão de estudos daquele dia contaria com apenas três participantes: Tennouji-san, Hinako e eu.

O principal objetivo da sessão era revisar o Management Game. Provavelmente, Tennouji-san queria discutir o assunto com Hinako, que havia administrado uma empresa de porte semelhante durante o jogo, e por isso sugeriu o encontro. Eu também acabei sendo arrastado para isso.

— Bem-vinda, Tennouji-san.

— Fufufu... Konohana Hinako, vamos fazer deste um dia produtivo!

Hinako e Tennouji-san se encontraram na entrada da mansão. Então, Tennouji-san olhou para mim, que estava ao lado de Hinako.

— Vocês realmente estão morando juntos, não é?

Soltei uma risada constrangida. Eu já havia explicado qual era meu papel oficial, mas me ver tão à vontade dentro da mansão dos Konohana aparentemente a fez repensar a situação.

— Agora, Tennouji-sama, permita-me guiá-la.

— Com certeza!

Seguindo Shizune-san, nós três caminhamos pela mansão. Assim que entrou, os olhos de Tennouji-san começaram a percorrer o ambiente em todas as direções.

— E-Esta é a casa de Konohana Hinako... Como esperado, está repleta apenas de itens da mais alta qualidade...

Eu me perguntei o que exatamente ela estava observando, mas aparentemente estava avaliando os quadros e as peças de cerâmica expostos.

A casa de Tennouji-san também era bastante luxuosa, mas...

— A propósito, esta é apenas a residência secundária.

Quando sussurrei essa informação, Tennouji-san ficou chocada.

— A residência secundária!?

Sim, uma residência secundária desse tamanho era algo fora do comum. Não valia a pena ficar pensando nisso agora, mas... o simples fato de terem construído uma residência secundária dessa magnitude talvez fosse um dos mistérios da família Konohana.

Algum dia, eu perguntaria a Kagen-san a resposta para esse mistério.

— Para onde estou sendo levada agora?

— Para um dos quartos de hóspedes. Preparamos um ambiente propício para a concentração.

Ao ouvir a explicação de Shizune-san, Tennouji-san parou para refletir por um instante.

— O quarto de Konohana Hinako não é uma opção?

— Peço desculpas. O quarto da ojou-sama está atualmente em reforma.

— Em reforma?

Tennouji-san inclinou a cabeça, confusa.

Na verdade, não podíamos deixá-la entrar porque o quarto estava uma bagunça e acabariamos deixando escapar alguma coisa. ...Se ela encontrasse um pacote de batatas fritas ou algo do tipo, não teria graça nenhuma.

— Então que tal o quarto de Tomonari-san?

Uma sugestão inesperada foi lançada em minha direção. Shizune-san olhou para mim em silêncio, pedindo minha opinião.

— Eu não me importo, mas um ambiente mais apropriado não seria melhor...?

— Ora, eu sugeri justamente porque estou cansada de estudar nesses ambientes excessivamente formais que você está imaginando, Tomonari-san. É uma oportunidade rara, e uma mudança de ares não faz mal a ninguém.

Quando ela colocava dessa forma, meu quarto começou a parecer a única escolha possível. Troquei um olhar com Shizune-san, e ela assentiu.

— Tudo bem. Então será no meu quarto.

Eu não havia me preparado para receber visitas, mas tinha uma mesa capaz de acomodar três pessoas. Também não havia descuidado da limpeza, então deveria estar tudo certo.

— Então vou preparar algumas bebidas.

Ao chegar à bifurcação do corredor, Shizune-san fez uma reverência e começou a se afastar. Nesse momento, Hinako falou:

— Shizune, eu vou ajudar.

— Ojou-sama...?

— Tennouji-san sempre é tão gentil comigo, então quero preparar o chá pessoalmente.

Hinako disse isso com um sorriso gentil.

— Ko-Konohana Hinako...!!

Tennouji-san levou a mão ao peito, visivelmente emocionada. Lágrimas se acumularam nos cantos de seus olhos. Aparentemente, ser servida por Hinako era um acontecimento capaz de deixá-la imensamente feliz.

Ultimamente, Hinako havia adotado o preparo de chá como um hobby.

...Era apenas um palpite meu, mas, para Hinako, que sempre dependia dos outros, fazer algo por alguém talvez fosse surpreendentemente prazeroso.

Certa vez, pedi que ela preparasse chá para mim como forma de agradecimento por algo. Essa provavelmente era uma das mudanças das quais Kagen-san havia falado.

Como Shizune-san e Hinako seguiram em direção à cozinha, fiquei responsável por guiar Tennouji-san. Como o destino era apenas o meu quarto, não havia problema algum.

— Este é o meu quarto.

Abri a porta e deixei Tennouji-san entrar primeiro. Ela lançou um rápido olhar pelo interior do cômodo.

— Como esperado, comparado ao quarto que vi durante as férias de verão, este está muito mais arrumado.

— Bem, mesmo sendo um quarto de empregado, ainda faz parte da propriedade da família Konohana.

Este quarto era incomparavelmente melhor do que a casa onde eu costumava morar. O piso e as paredes estavam impecáveis, havia uma cama macia e confortável… Era praticamente o paraíso.

— Itsuki-san.

Ah...

Aquele era o sinal. Certo, estávamos sozinhos agora. Eu podia abandonar a formalidade.

— O que foi?

— Hehe, eu só queria tentar chamá-lo assim. ...Fiquei imaginando o que faria se você tivesse esquecido o nosso sinal.

Provavelmente eu jamais esqueceria.

...Quando estávamos sozinhos, eu deixava de usar linguagem formal. Era uma promessa importante entre mim e Tennouji-san, uma prova da proximidade genuína que compartilhávamos.

— Faz tempo que não conversamos a sós assim.

— Faz? Nós passamos um tempo juntos durante o Management Game...

— Isso já foi há meio mês.

Já tinha passado tanto tempo assim...? O Management Game havia sido tão intenso que o tempo parecia estar voando.

— Meio mês sem ficarmos sozinhos. E ainda por cima no quarto de Itsuki-san… — Tennouji-san pareceu perceber alguma coisa, e suas bochechas ficaram levemente coradas. — Sozinha no quarto de Itsuki-san...

Eu gostaria que ela parasse de murmurar coisas estranhas. Isso estava me deixando consciente da situação também.

— Hm? — De repente, Tennouji-san abaixou o olhar e soltou um som de estranhamento. — Chinelos, dois pares?

Um suor frio percorreu todo o meu corpo. Tennouji-san estava encarando os dois pares de chinelos próximos à entrada do quarto. Como as noites estavam ficando frias ultimamente, eu vinha usando chinelos...

Mas o problema era que um dos pares era claramente feminino e muito fofo. Naturalmente, pertenciam a Hinako. Em seguida, Tennouji-san voltou o olhar para a cama.

— Um cobertor feminino...?

Claro, aquilo também era de Hinako. Isso era péssimo. Eu precisava desviar o assunto. Ao notar alguns papéis deixados sobre a mesa, agarrei imediatamente a oportunidade.

— Ah, falando nisso! Até onde você avançou no relatório de autoavaliação!?

Forçando a mudança de assunto, Tennouji-san abriu a bolsa.

— Já preenchi a maior parte. Veja como está.

Pelo visto, ela também queria conversar sobre aquilo, já que havia trazido o relatório consigo. Peguei o documento para examinar seu conteúdo.

7h00 da manhã: acordar!!

Beber chá logo pela manhã!!

…........

...Até a escrita dela era extravagante.

Tudo estava escrito com traços grossos e marcantes, feitos com tanta força que chegavam a causar certa inquietação, apesar da elegância da caligrafia.

Aparentemente, ela tomava chá logo cedo e depois fazia uma caminhada leve pelo jardim para suar um pouco, tudo em nome da saúde e da beleza.

Pensando bem, Hinako não fazia exercícios praticamente nenhum, mas ainda assim mantinha uma ótima forma física.

Era um mistério...

— Então, o que achou!? Da minha elegante rotina diária!

— Hum... ela é cheia de energia.

— Não é mesmo? Não é mesmo!?

O que mais chamava atenção não era o conteúdo, mas a forma como estava escrito. Pensando bem, os relatórios financeiros que Tennouji-san havia feito durante o Management Game eram tão chamativos que pareciam panfletos de supermercado.

— Espere. Você faz todos os seus trabalhos desse jeito?

— Sim! Eu os deixo o mais impactantes possível!

Sério...? Bem, suponho que isso também fizesse parte do charme de Tennouji-san. Afinal, até o penteado dela já era extravagante.

Enquanto eu pensava nisso, Tennouji-san soltou um pequeno resmungo.

— Eu sei o que você está tentando dizer, Itsuki-san. Mas acredito que esta seja uma forma de chamar a atenção das pessoas.

— Acho que você já chama a atenção de todo mundo sem precisar fazer isso.

Expressei meu pensamento sincero. No mesmo instante, Tennouji-san ficou em silêncio. Por alguma razão, suas bochechas ficaram vermelhas.

— É-É mesmo...?

— Sim.

Assenti. Tennouji-san voltou a ficar em silêncio.

— Nos seus… — ela me encarou e perguntou. — Nos seus olhos... eu também me destaco?

Ela perguntou com um leve traço de nervosismo. Mas a resposta para aquela pergunta já estava clara em minha mente.

— Claro — respondi com firmeza, e Tennouji-san inflou as bochechas.

— Mmph~.

— O-O que foi?

— Essa não é uma pergunta que se responde tão facilmente!

Era mesmo...? Para mim, parecia uma pergunta cuja resposta vinha instantaneamente.

— Você já terminou seu relatório, Itsuki-san?

— Não. Estou pensando em preenchê-lo esta noite.

Mostrei a ela meu relatório em branco. Eu poderia tê-lo preenchido na noite anterior, mas achei que deixar passar um pouco de tempo me ajudaria a escrever com mais calma.

— Miyakojima-san provavelmente também está trabalhando no relatório dela neste exato momento — Tennouji-san falou em voz baixa.

— Você ainda está pensando nela, não é?

— Naturalmente. Somos rivais na disputa pela presidência do conselho estudantil.

Tennouji-san sempre havia visto Hinako como uma rival. Mas, na próxima eleição do conselho estudantil, sua verdadeira rival era Narika. Hinako não concorreria a cargo algum.

Provavelmente, Tennouji-san... não estava se permitindo baixar a guarda. Era possível perceber isso pela mistura de tensão e ansiedade estampada em seu rosto. Ela provavelmente considerava Narika uma rival do mesmo nível que Hinako.

Sinceramente, o desempenho de Narika no Management Game havia sido impressionante. Narika já era uma figura de destaque na Academia Kiou, principalmente por sua beleza e conquistas esportivas. No entanto, o Management Game transformou completamente essa imagem.

Em termos do impacto causado entre os estudantes, Narika havia superado tanto Hinako quanto Tennouji-san. Agora todos sabiam que Miyakojima Narika possuía talento para os negócios.

— Itsuki-san.

Tennouji-san me encarou com uma expressão séria.

— Você está do lado de qu—

— Com licença.

Antes que ela terminasse a pergunta, a porta se abriu e Shizune-san entrou.

— Itsuki-san, Ojou-sama está procurando as folhas de chá, mas...

— As folhas de chá? Acho que estão no fundo da prateleira...

Fingindo tentar me lembrar do local, mantive a compostura.

...Sinceramente, o momento da chegada de Shizune-san havia me salvado. Eu não tinha confiança de que conseguiria responder aquela pergunta.

— Elas estão em um lugar difícil de encontrar, então vou verificar pessoalmente.

Eu realmente me lembrava de onde estavam. Certa vez, conversei com outra empregada e guardamos as folhas de chá menos utilizadas no fundo da prateleira. Provavelmente eram essas que Hinako estava procurando.

Eu lembrava exatamente do local, mas era difícil explicá-lo apenas com palavras.

— Tennouji-san, desculpe. Vou me ausentar por um momento.

— Oh, eu esperarei aqui tranquilamente.

Como Shizune-san estava presente, voltei a usar um tom formal com Tennouji-san. Ela apenas sorriu suavemente.

◆

Depois que Itsuki e a Shizune saíram do quarto, Mirei soltou um pequeno suspiro.

Eu queria que ele dissesse que estava do meu lado... mas o fato de ele não dizer isso é justamente o que torna Itsuki-san tão incrível.

A empregada interrompeu sua pergunta. Mas ele provavelmente havia percebido o que ela estava prestes a perguntar. Por um instante, ela teve esperança. Esperança de que ele dissesse que estava ao lado dela.

Mas, ao mesmo tempo, também sentiu medo. Medo de que ele respondesse estar ao lado da outra candidata...

Miyakojima Narika.

Mas, pensando bem, ele não era o tipo de pessoa que daria uma resposta tão leviana. Itsuki era o tipo de rapaz que refletia cuidadosamente quando precisava. Ele não era especialmente rápido para tomar decisões, nem possuía uma quantidade extraordinária de conhecimento ou uma inteligência de nível genial.

Seu histórico familiar era, francamente, abaixo da média, ele não irradiava um carisma avassalador e sua aparência também não era de tirar o fôlego.

Mas… Ele era incansavelmente sincero e nunca poupava esforços para seguir aquilo em que acreditava. Foi por isso que ela se apaixonou.

...Me apaixonei.

Ela o amava. Não havia como mentir para si mesma sobre aqueles sentimentos. Transformá-los em palavras significava encará-los de frente. Esses sentimentos já haviam lhe causado inúmeras preocupações, mas, nesses momentos, era nele que ela pensava.

Ela queria se tornar alguém capaz de enfrentar as coisas com a mesma honestidade e determinação que ele demonstrava.

Agora então...

Mirei percorreu o quarto com o olhar. Estava sozinha. Não havia ninguém observando. Então Mirei expressou sem qualquer vergonha os sentimentos que carregava naquele momento.

Como planejado, consegui entrar no quarto de Itsuki-san—!!

Ela fez uma pose triunfante.

Na verdade, desde o momento em que a sessão de estudos foi marcada para acontecer na propriedade dos Konohana, Mirei já vinha elaborando um plano para entrar no quarto de Itsuki. Toda a conversa casual logo após sua chegada à mansão fazia parte daquela estratégia.

Se Itsuki tivesse recusado, ela teria desistido, mas felizmente ele permitiu.

Para conhecer melhor a pessoa que você ama, é preciso ver seu espaço privado. ...Foi isso que o livro dizia!!

Aquilo estava escrito em seu livro favorito: "Até um Macaco Pode Entender a Arte do Romance."

Mas aquela situação tinha um limite de tempo. Mirei rapidamente começou a observar o quarto de Itsuki.

Então é aqui que Itsuki-san estuda...

A primeira coisa que chamou sua atenção foi a mesa. Livros didáticos, materiais de referência e cadernos estavam organizados com extremo cuidado. Havia até notas adesivas listando tarefas, incluindo uma para revisar o Management Game.

Ele era meticuloso a ponto de revisitar acontecimentos passados para aprender com eles.

Que trabalhador dedicado. Nem um grão de poeira. Que caprichoso.

Ela passou o dedo pela superfície da mesa, mas nenhuma poeira ficou presa. E não era apenas a mesa. A mesa de centro, as cadeiras e até o chão estavam impecáveis. Ele devia limpar o quarto regularmente e cuidar muito bem de suas coisas.

...Então é assim que ele estuda, hein?

Ela se sentou suavemente na cadeira. Queria experimentar por si mesma a visão que ele tinha todos os dias.

Quando está cansado... talvez descanse assim...

Levantando-se da cadeira, ela se deixou cair sobre o carpete. Havia uma almofada macia ali, então a utilizou como apoio para as costas. Com a mesa à sua frente, era fácil imaginar Itsuki lendo livros naquele local.

Será que era assim que ele passava seus dias?

Tudo aquilo começou a parecer estranhamente surreal… Enquanto seu olhar vagava inquieto pelo quarto, ela avistou a cama.

..À noite... ele estaria deitado aqui assim...

Sem perceber, ela subiu na cama. Ergueu os cobertores e deslizou para baixo deles. Depois puxou-os novamente sobre o corpo, ficando completamente preparada para dormir.

Será que ele sempre dormia ali, daquele jeito...?

Soltando uma respiração suave, ela se viu envolvida por um aroma que não era o seu.

I-Itsuki-san... o cheiro de Itsuki-san... espera, isso não é o cheiro de Konohana Hinako?

Seu estado sonhador desapareceu instantaneamente.

Não pode ser………

Mas, para confirmar, enterrou o rosto nos cobertores e aspirou o aroma mais uma vez.

...Não havia engano. Era o cheiro de Konohana Hinako.

Isso é estranho...

Era improvável que eles usassem o mesmo detergente... essa teoria simplesmente não fazia sentido. Roupas e roupas de cama normalmente utilizavam produtos diferentes. Era estranho que o aroma das roupas de Konohana Hinako fosse igual ao cheiro presente naquela cama.

Mirei já havia dançado com Itsuki várias vezes. Durante uma dança, os corpos ficavam próximos o suficiente para que fosse fácil perceber o aroma da outra pessoa.

Por isso ela tinha certeza. Aquele não era o cheiro de Itsuki.

...Ele desconversou, mas aqueles chinelos femininos e aquele cobertor no quarto de Itsuki-san são definitivamente suspeitos.

O que exatamente ele estava escondendo? Enquanto refletia seriamente sobre isso—

— Com licença.

A porta se abriu de repente, e Shizune entrou. Para ser mais exato, ela havia batido antes, mas Mirei, perdida em pensamentos, não percebeu. E ela havia esquecido de onde estava naquele momento...

— Tennouji-sama, para acompanhar o chá, a senhorita prefere scones ou muffins...

Shizune congelou.

Mirei estava deitada de costas na cama de Itsuki. O cobertor estava cuidadosamente puxado sobre ela, cobrindo-a dos pés até o peito...

Um suor frio percorreu todo o corpo de Mirei.

— O-O Grupo Tennouji! Tem prosperado grandemente no desenvolvimento de roupas de cama!

— Sim.

— Verificar pessoalmente o desempenho da cama utilizada diariamente por Tomonari-san é, sem exagero algum, uma missão digna da filha da família Tennouji!

— Entendo.

— P-Então, isso definitivamente não aconteceu por causa de sentimentos impróprios...!!

— Compreendo.

……

………

……….

…........

……………….

— Por favor... não conte isso a ninguém.

— Entendido.

O chá acabou sendo servido com muffins.

◆

A sessão de estudos transcorreu sem problemas. Com o chá e os lanches preparados, Hinako, Tennouji-san e eu nos reunimos em meu quarto, abrimos nossos notebooks e começamos a discutir os resultados do Management Game.

O foco principal foi identificar pontos de melhoria, como "deveríamos ter feito isso" ou "aquilo teria sido melhor".

Também discutimos profundamente se aquelas estratégias poderiam realmente ser aplicadas no mundo real.

— Konohana Hinako. Sua abordagem certamente é eficiente, mas isso não torna mais difícil aumentar a motivação dos funcionários?

— Acredito que não necessariamente, desde que a visão da empresa seja compartilhada adequadamente com eles. Inclusive, aqui está uma pesquisa realizada com funcionários do Grupo Konohana...

— Você pretende compartilhar essa visão detalhadamente com todo o grupo? Tempo e custos de mão de obra não são gratuitos, sabia? Nesse caso, minha abordagem baseada em reformas claras e ousadas certamente seria—

— Em uma época em que o emprego vitalício está sendo questionado, reformas extravagantes não parecem combinar com os tempos atuais. Talvez funcionassem para startups, mas estamos administrando conglomerados extremamente sólidos...

As duas utilizavam dados do mundo real para sustentar seus argumentos.

— O que você acha, Tomonari-san?

O assunto acabou sendo direcionado a mim.

Pensei por um momento antes de responder.

— Talvez seja necessário reformar o sistema de recursos humanos. Tenho estudado consultoria de RH recentemente e encontrei um caso bastante semelhante...

Por acaso havia um livro de referência sobre a mesa, então o peguei para mostrar às duas. Ter realizado a sessão de estudos em meu quarto realmente havia sido uma grande vantagem.

E assim, a sessão prosseguiu de forma séria até o fim.

— Ah, parece que meu carro chegou.

Já era hora de Tennouji-san voltar para casa.

Saímos da mansão e atravessamos os portões, onde o carro da família Tennouji já aguardava.

Troquei olhares com o motorista e fiz uma leve reverência. Era um homem de aparência impecável, vestindo um terno preto, exatamente como se imaginaria de um funcionário da família Tennouji.

Até mesmo os motoristas deles pareciam elegantes.

— Ahem.

Tennouji-san pigarreou discretamente.

— Bem... hoje foi realmente muito divertido! Então... hum... vocês podem me convidar novamente quando quiserem, sabem?

— Claro. Vamos chamá-la de novo.

Quando Hinako respondeu com um sorriso, o rosto de Tennouji-san se iluminou de felicidade.

— E-Então! Com licença!!

Tennouji-san entrou no carro. De alguma forma, seus passos pareciam mais leves do que o habitual.

Depois de nos despedirmos dela, retornamos à mansão.

Eu segui para o meu quarto junto com Hinako.

Hinako entrou no quarto como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.

— Estudamos bastante hoje.

— Mmm... Estou cansada.

Mesmo assim, sua expressão carregava uma sensação de satisfação, como se considerasse o tempo muito bem aproveitado. Ela calçou os chinelos deixados em meu quarto como se fosse algo completamente normal e, em seguida, se enrolou no cobertor.

Para mim, aquela já era uma cena familiar, mas decidi que passaria a esconder essas coisas sempre que houvesse possibilidade de receber visitas.

— Certo... hora de escrever.

Sentei-me à mesa e observei os documentos diante de mim. Hinako, ainda enrolada no cobertor, aproximou-se arrastando os pés.

— Relatório... do conselho estudantil?

— Sim. Estava pensando em resumir o que aconteceu ontem e hoje.

O conteúdo já estava praticamente definido, então, assim que peguei a caneta, as palavras fluíram naturalmente. Recordei a programação do dia anterior e do dia atual, anotando os motivos por trás de cada atividade.

Como o fato de eu morar na residência dos Konohana precisava permanecer em segredo, escrevi a limpeza da mansão como limpeza do quarto, os cuidados com Hinako como cuidados com um animal de estimação e os treinos com os guardas como corrida ou treinamento de força.

As tarefas em si não eram tão diferentes, então, para demonstrar meu perfil pessoal, aquilo deveria bastar.

...Embora descrever os cuidados com Hinako como cuidados com um animal de estimação talvez fosse um pouco exagerado.

Em algum momento, Hinako havia se enroscado na cama e adormecido com uma expressão completamente satisfeita.

Durante um bom tempo, o único som presente no quarto foi o arranhar da caneta sobre o papel.

— Pronto…

Ao terminar o relatório, alonguei levemente as costas. No total, levei cerca de uma hora. Olhei para trás para verificar como Hinako estava, e ela continuava dormindo profundamente.

Pensando bem, ela havia participado da sessão de estudos naquele dia, então não tinha tirado seu cochilo habitual.

O sono provavelmente estava cobrando seu preço agora.

...Ah, é verdade. Pediram para eu organizar a cozinha.

Mais cedo, enquanto procurava as folhas de chá, Shizune-san havia me pedido para dar uma arrumada por lá.

Ela disse para eu fazer isso quando tivesse tempo livre.

Hinako... vou deixá-la descansar.

Ainda faltava um pouco para o jantar. Eu a acordaria quando chegasse a hora, então, por enquanto, deixaria que continuasse dormindo.

Tomando cuidado para não fazer barulho, abri a porta silenciosamente e saí do quarto.

◆

Ao sentir a porta se mover, Hinako abriu os olhos lentamente.

— Itsuki….?

Ele não estava ali. Talvez tivesse ido resolver alguma coisa. Ela pensou em voltar a dormir, mas já estava desperta demais para isso.

Ao olhar para o relógio, percebeu que já estava quase na hora do jantar. Talvez fosse melhor permanecer acordada. Saindo da cama ainda sonolenta, seu olhar recaiu sobre a mesa.

Havia um relatório ali, aparentemente relacionado ao conselho estudantil.

— Mmm.

Como parecia já estar concluído, ela decidiu lê-lo. A programação dos dois dias estava resumida de forma geral, mas...

...Então, Itsuki.

Um sorriso surgiu em seus lábios. A personalidade dele transparecia claramente na maneira como escrevia.

"Limpeza matinal. Porém, ainda não sei utilizar algumas das ferramentas adequadamente, então ainda tenho muito a aprender."

Algo assim.

"Concluí a preparação e a revisão das aulas. No entanto, ultimamente sinto que minhas notas em matérias que exigem memorização estão caindo, então ainda preciso melhorar meus métodos de estudo."

Algo assim.

Ele ainda estava longe de se considerar satisfeito consigo mesmo. O relatório praticamente irradiava sua determinação em continuar se esforçando cada vez mais.

Mas, na verdade, Itsuki já fazia mais do que o suficiente. Hinako frequentemente ouvia os funcionários da mansão elogiando-o.

Por exemplo, no dia anterior...

O jardineiro estava conversando com o mordomo.

"As flores de hoje estavam absolutamente magníficas. Os convidados ficaram encantados."

"Na verdade, Itsuki-kun passou por aqui esta manhã para buscar algumas flores. Não dá para relaxar na frente dele. Até mesmo para um simples jardineiro como eu, ele demonstra respeito... Tenho me esforçado mais para corresponder às expectativas dele."

As empregadas também conversavam entre si.

"Itsuki-kun já decorou a marca de todas as louças."

"Ele também memorizou as marcas dos vasos. É tão dedicado. Precisamos nos esforçar mais também."

E os guardas diziam:

"Proteger a Ojou-sama é o nosso trabalho, não o daquele cara!!"

"Exatamente!! ...Droga...!!"

"Não chorem, seus idiotas. Para superá-lo, vamos mirar ainda mais alto!!"

Desde que Itsuki chegou, as pessoas da mansão pareciam mais animadas. Talvez ele próprio não tivesse percebido essa mudança. Mas Hinako, Shizune e os demais funcionários — que viviam ali há anos — sabiam muito bem.

Era por isso que todos eram gratos a ele.

— Só um pouquinho.

Pegando a caneta, ela acrescentou uma pequena observação ao relatório. Apenas uma pequena observação não deveria causar problema algum.

Itsuki tinha o hábito de subestimar a si mesmo. Se os membros do conselho estudantil lessem sua autoavaliação e acreditassem que aquilo era tudo o que ele tinha a oferecer, isso não seria justo.

— Pronto….

Ela devolveu a caneta ao lugar. Nesse momento, a porta se abriu e Itsuki entrou no quarto.

— Ah, Hinako. Você acordou?

— Acabei de acordar.

— Ótimo momento. O jantar está quase pronto.

— Mmm... Vamos.

Hinako saiu do quarto ao lado de Itsuki. Houve um tempo em que, para ela, Itsuki era apenas um cuidador em quem podia se apoiar sem pensar muito.

Mas agora… Agora que havia se apaixonado por ele...

As costas de Itsuki lhe pareciam mais fortes e mais confiáveis do que as de qualquer outra pessoa.

Fim da leitura

Capítulo 54 concluído

Volume 8 – Capítulo 3 – Capítulo 3: A Folga da Família Konohana