O Cuidador da Ojou-samaVolume 10 – Capítulo 2 – Capítulo 2: O Tipo CEO
Capítulo 67ASSIM QUE A PRIMEIRA aula da tarde terminou e o intervalo começou, Taishou e Asahi-san vieram até a minha carteira.
— Ei, Tomonari. Qual era a daqueles panfletos que distribuímos hoje?
— Também fiquei curiosa. Eles eram totalmente diferentes do normal, não eram?
Os dois pareciam intrigados com o conteúdo incomum dos panfletos. Como tinham ajudado na distribuição, eu queria ser completamente honesto com eles, mas…
— Desculpem. Se possível, eu gostaria de manter isso em segredo por enquanto.
— O quêêê?! Mas eu estou morrendo de curiosidade!
— Eu fiquei tão curioso que nem consegui me concentrar na aula!
— Taishou-kun, isso não é só o seu estado normal?
Asahi-san cutucou Taishou com frieza. Como eles disseram, os panfletos que distribuímos naquela manhã eram completamente diferentes do habitual. Tanto o panfleto de Tennouji-san quanto o de Narika tinham apenas uma frase curta escrita.
No panfleto de Tennouji-san, lia-se: "Depois da aula, no campo esportivo."
E no de Narika: "Depois da aula, no pátio interno."
Nenhum dos dois dizia o que aconteceria.
Os panfletos, que indicavam apenas um horário e um lugar, despertaram a curiosidade de muitos alunos e se tornaram o principal assunto em todos os intervalos. Asahi-san e Taishou não foram os únicos que vieram me perguntar diretamente o que estava acontecendo.
O intervalo terminou, e a última aula do dia começou.
No instante em que a aula acabou e as atividades escolares se encerraram, eu disparei para fora da sala.
Ao mesmo tempo, Tennouji-san e Narika também saíram correndo de suas salas no segundo andar. Nossos olhares se cruzaram por uma fração de segundo, assentimos uns para os outros e cada um seguiu para o local designado.
A chave dessa estratégia era a sensação de estar vendo algo ao vivo.
Tudo precisava ser feito com rapidez… e de forma espontânea, ou não funcionaria.
Corri até o vestiário usado nas aulas de educação física, tirei uma fantasia da bolsa e me troquei às pressas. Depois de conferir minha roupa no espelho, segui direto para o meu primeiro posto: o campo esportivo. Eu precisava terminar os preparativos antes que os alunos começassem a ir embora.
Quando cheguei ao campo, Suminoe-san estava no meio da montagem do palco. Agradeci rapidamente por ela ter instalado os alto-falantes com tanta eficiência e me juntei a ela para ajudar.
Pouco depois, Tennouji-san chegou ao campo esportivo.
Vestindo um vestido azul, Tennouji-san atravessou o campo com elegância. Sua presença certamente deve ter cativado inúmeros alunos. Aqueles que estavam prestes a sair das salas e ir para casa com certeza mudaram de planos no momento em que viram aquela figura deslumbrante passar. Perguntando-se o que estava prestes a acontecer, com o coração acelerado pela expectativa, eles a seguiram.
E assim, Tennouji-san conduziu uma grande multidão de alunos até o campo esportivo.
No mesmo instante, um homem de fraque apareceu no portão da academia.
…Na hora certa. Perfeito.
(N/SLAG: O fraque é o traje formal diurno mais tradicional para homens. É caracterizado pelo paletó curto na frente com uma cauda longa na parte de trás, acompanhado de calça risca de giz e colete.)
Os preparativos estavam concluídos. A atenção dos alunos estava completamente garantida. Olhei para Tennouji-san e assenti. Tennouji-san abriu um sorriso ousado.
— Lá vamos nós!
Quando o homem de fraque se aproximou de Tennouji-san, a música começou a tocar pelos alto-falantes.
Em meio aos suspiros surpresos dos alunos, Tennouji-san começou a dançar uma dança de salão com o homem diante dela.
A valsa lenta e graciosa realçava os movimentos refinados de Tennouji-san, encantando instantaneamente os estudantes atônitos. Os murmúrios rapidamente desapareceram, dando lugar ao silêncio. No centro do campo esportivo, formou-se um espaço sagrado, quase intocável.
Marketing de guerrilha.
Ousado, pouco convencional e, como o próprio nome sugere, uma estratégia publicitária de ataque surpresa. Era isso que significava marketing de guerrilha, e esse foi o plano que colocamos em prática.
Quando decidi enfrentar Joutou, do tipo político, usando os métodos de um tipo CEO, elaborei uma estratégia para vender Tennouji-san e Narika como produtos. O objetivo era fazer com que esses dois produtos gerassem mais demanda do que o produto chamado Joutou Ren. Essa era a nossa condição de vitória.
O valor de produto de Tennouji-san estava em sua postura nobre. Para tornar isso conhecido por mais alunos, fiz com que ela realizasse uma apresentação de dança.
Sua elegância não poderia ser plenamente transmitida apenas por discursos. Seus colegas de classe talvez conhecessem sua graça pelas aulas do dia a dia, mas os alunos mais novos e os veteranos provavelmente não tinham muitas oportunidades de ver esse lado dela. Por isso, fazê-la se apresentar diante de todos tinha um valor imenso.
A promessa de campanha de Tennouji-san era transformar a academia em um lugar onde todos pudessem viver com nobreza.
Mas o que significa viver com nobreza?
Neste exato momento, Tennouji-san mostrava a resposta.
…Isto é incrível. O campo esportivo parece um salão de baile.
Fiquei tão hipnotizado pela dança de Tennouji-san que quase me esqueci de que estávamos ao ar livre. Seus movimentos fluidos e artísticos arrancaram de mim um suspiro de admiração.
Seu parceiro de dança, pelo que ouvi dizer, era um instrutor de dança de salão com laços estreitos com a família Tennouji. Aquela apresentação também servia como promoção: se Tennouji-san se tornasse presidente do conselho estudantil, poderia convidar esse instrutor para a academia.
Havia rumores, espalhados em campanhas negativas, de que os honorários do instrutor de etiqueta poderiam acabar indo parar nos bolsos de Tennouji-san, mas isso não era verdade. Apesar da proximidade entre eles, o instrutor era uma parte externa. Para começo de conversa, não havia nenhum rastro suspeito de dinheiro.
Depois de três músicas, Tennouji-san e seu parceiro fizeram uma reverência.
Banhada por aplausos estrondosos, Tennouji-san olhou para mim com os olhos brilhando.
— Tomonari-san!
Seu leve suor reluzia sob o pôr do sol, fazendo Tennouji-san brilhar ainda mais. Chamado por Tennouji-san, ajustei a gola do meu fraque.
Em seguida, seria a minha vez de dançar com ela.
A ideia de dançar comigo, e não apenas com o dançarino profissional, partiu da própria Tennouji-san. Na noite anterior, depois que expliquei a estratégia, ela insistiu nisso com entusiasmo. Como seu objetivo era ensinar boas maneiras aos alunos, ela argumentou que precisávamos de um exemplo prático.
Em outras palavras, eu seria um aluno transferido comum, sem nenhuma característica especial, dançando de forma impressionante o bastante para acompanhar Tennouji-san.
Mostrar essa cena a todos daria credibilidade à sua promessa de campanha.
Soltei um pequeno "fuu", expirando para tentar acalmar o nervosismo que borbulhava dentro de mim.
…Vamos lá!
Reunindo coragem, encarei Tennouji-san. Coloquei a mão direita em sua escápula, assumindo a posição de condução. Quando a música começou, girei lentamente o corpo no sentido horário.
No instante em que iniciei o giro natural, meu corpo se moveu por conta própria.
Lembrei-me de quando Tennouji-san me ensinou a dançar, antes das férias de verão. As técnicas que ela havia me feito praticar naquela época pareciam gravadas no meu corpo. Dançar com ela agora trouxe aquelas lembranças de volta com nitidez.
Eu não estava com medo. A tensão que sentira momentos antes, de alguma forma, havia desaparecido. Não foi por muito tempo que Tennouji-san me ensinou a dançar. Ainda assim, eu sentia como se tivesse dançado com ela dezenas de milhares de vezes. Era esse o tamanho da força com que a lembrança de dançar ao seu lado estava marcada em minha mente.
— Itsuki-san.
Tennouji-san me chamou com uma voz suave.
— Você melhorou muito.
— Graças a você, Tennouji-san.
Ela era ousada. …Fiquei um pouco surpreso por ela me chamar pelo primeiro nome diante de todos aqueles alunos, mas, naquela situação, ninguém conseguiria ouvir nossa conversa particular.
Este era o nosso santuário. Um palco deslumbrante, onde nos destacávamos mais do que qualquer um, inalcançáveis pelos demais.
— O quanto seus esforços me inspiraram…
Tennouji-san murmurou, fitando-me diretamente. Passamos para um giro reverso, retornando ao centro do campo.
— Por você também, eu me tornarei presidente do conselho estudantil.
Ao expressar sua profunda convicção, Tennouji-san se portava com a mais absoluta dignidade.
Seus olhos, que normalmente ardiam com um espírito competitivo feroz, estavam diferentes agora. Eram serenos, como um lago imóvel, sem uma única ondulação. Para Tennouji-san, tornar-se presidente do conselho estudantil já não era uma busca imprudente, mas uma missão que ela estava destinada a cumprir.
— Por favor, colaborem com a pesquisa!
A voz de Suminoe-san ecoou. Olhando de relance enquanto dançava, vi-a entregando questionários aos alunos, exatamente como havíamos planejado.
O encanto do marketing de guerrilha está na emoção de um evento incomum. Para preservar a ideia de um acontecimento repentino, reduzimos ao mínimo o número de colaboradores, aumentando o grau de sigilo.
Cheguei a considerar envolver Taishou e Asahi-san como ajudantes, mas acabei desistindo. Eles eram alunos comuns, próximos da realidade de todos. Em vez de transformá-los em colaboradores, achei que deixá-los aproveitar o evento da mesma perspectiva dos demais acabaria, a longo prazo, gerando uma divulgação melhor.
Meu palpite provavelmente estava certo. Asahi-san assistia à nossa dança junto de suas colegas de classe. O fato de ela estar genuinamente se divertindo com o evento certamente influenciava os outros alunos de forma positiva.
Não consegui ver Taishou, mas ele provavelmente foi ao evento de Narika.
Depois de ver Suminoe-san entregar um questionário a Asahi-san, voltei a me concentrar na dança com Tennouji-san. Eu daria tudo de mim no trecho final e dançaria perfeitamente até o fim.
A análise de dados por meio de pesquisas era outra tática na qual o tipo CEO se destacava. Com apenas alguns dias restantes no período eleitoral, realizaríamos pesquisas todos os dias, dali até o último dia, perguntando regularmente aos alunos o que desejavam de Tennouji-san e Narika.
Quando a dança terminou, fomos recebidos por aplausos estrondosos.
— Um sucesso, não acha?
Em meio à chuva de aplausos, Tennouji-san sorriu satisfeita. Eu provavelmente estava com uma expressão parecida.
Quando tive a ideia do marketing de guerrilha, senti minha perspectiva se ampliar.
Campanhas eleitorais não se resumem a discursos. Podemos tentar uma variedade muito maior de coisas. Joutou, do tipo político, se prende aos discursos porque é bom nisso, mas nós, do tipo CEO, temos outra forma de lutar. Na verdade, criar o próprio campo de batalha é a nossa verdadeira força.
Acredito que o mercado dos eleitores estava secretamente cansado das atividades eleitorais atuais, todas centradas em discursos. Por isso, um evento como aquele tocou algo dentro deles.
No mercado de hoje, discursos estavam sendo oferecidos em excesso. Então, nós ofereceríamos um novo tipo de oferta.
— Tennouji-san, eu preciso ir…
— Para o evento de Miyakojima-san, correto? Desejo sucesso a você lá também.
Estávamos executando uma estratégia semelhante com Narika, embora o conteúdo fosse completamente diferente.
Comecei a seguir em direção ao pátio interno, onde Narika estava. Pouco antes de eu partir, Tennouji-san falou.
— Erga a cabeça.
Seu rosto, levemente coberto de suor, fixou-se no meu.
— Você já é meu igual.
Aquelas palavras ressoaram profundamente em meu coração. Não havia tempo. Afrouxei um pouco a gola do fraque e corri até o pátio interno. No caminho, minha visão ficou turva.
…Ah, não.
Eu estava à beira das lágrimas. Tennouji-san havia dito as palavras que eu mais queria ouvir.
Dizê-las naquele lugar, naquele momento, era injusto. Ao me lembrar do meu eu inexperiente da época em que ela me ensinou a dançar, suas palavras me atingiram em cheio.
Enquanto eu corria, as lembranças transbordaram em minha mente.
A vez em que ela corrigiu minha postura. As aulas de estudos e etiqueta. O tempo que passamos estudando juntos durante o curso de verão. E a pausa que fizemos durante o management game, quando ela aceitou me acompanhar em um capricho meu.
Foi naquela pausa, durante o management game, que contei a Tennouji-san meu objetivo de me tornar seu igual. Naquela época, assim como hoje, dançamos juntos.
Desde então, parece que consegui crescer de verdade.
Eu sei… este ainda não é o meu ponto de chegada.
Eu ainda não me tornei, de fato, igual a Tennouji-san. Apenas parecemos iguais neste momento específico, nesta situação em particular.
Ainda assim, ter meus esforços reconhecidos me deixou tão feliz que eu poderia chorar.
…Ainda havia muito trabalho a fazer. Eu não podia desabar ali.
Quando cheguei ao pátio interno, uma multidão enorme já havia se reunido. Assim como no evento de Tennouji-san, o de Narika também atraíra muita gente, o que me deixou aliviado. Além disso, para minha agradável surpresa, alguns alunos tinham me seguido desde o campo esportivo. Eu não tivera tempo de trocar de roupa, então corri usando o fraque, mas parece que isso acabou funcionando como uma boa divulgação.
Abrindo caminho pela multidão até o centro do pátio, encontrei Kita preparando tudo.
— Kita, desculpa por deixar todos os preparativos com você.
— Tudo bem.
O suor escorria pela testa de Kita. Mesmo assim, com um sorriso satisfeito, ele continuou:
— Eu também estou apoiando Miyakojima-san, então quero ajudar.
Aquele sentimento puro certamente chegou até Narika.
Graças aos preparativos de Kita, havia pouco para eu fazer. Fiz os ajustes finais nos tatames estendidos no chão e peguei o microfone.
— Pois bem, a partir de agora—
Olhei para Narika, que aguardava no centro do tatame. Ela assentiu brevemente.
— A candidata à presidência do conselho estudantil, Miyakojima Narika, realizará uma demonstração de iaidô.
Vestida com um uniforme preto de dojô, Narika encarava o alvo de palha diante dela. Bastou um único olhar para sua expressão penetrante, e os alunos ao redor prenderam a respiração.
Aquele olhar intenso já havia sido um símbolo de medo. Mas, desde o festival atlético, Narika vinha dissipando os mal-entendidos pouco a pouco, e agora sua presença digna se transformara em uma arma única.
Neste marketing de guerrilha, queríamos apresentar o encanto humano de Tennouji-san e Narika. Embora o objetivo fosse o mesmo, planejamos abordagens diferentes.
No caso de Tennouji-san, a estratégia era tornar mais palpável um charme que já era conhecido. O resultado disso foi a dança de salão.
Na Academia Kiou, bailes eram algo familiar aos alunos. Se Tennouji-san se tornasse presidente e implementasse vários programas, talvez um dia os estudantes também pudessem dançar com a mesma graça que ela. Essa era a visão concreta que queríamos oferecer a eles.
Por outro lado, eu sentia que o encanto de Narika ainda não havia sido transmitido por completo.
Ou melhor, o que tínhamos mostrado até então não era suficiente.
Como Kita mencionara em seu discurso, o maior encanto de Narika estava em seu crescimento contínuo. Mas esse encanto era claro apenas para aqueles que conviviam com ela diariamente, não tanto para os demais.
Mesmo que a ideia fosse transmitida, "crescimento contínuo" poderia ser interpretado como "ela não tem nada agora". No management game, ela havia apresentado resultados, então a maioria dos alunos provavelmente não via isso de maneira tão pessimista. Ainda assim, esperar que desconhecidos confiassem nisso parecia um salto de fé, e era natural que houvesse resistência.
Por isso, decidi mostrar um dos encantos de Narika que podia ser visto naquele exato momento.
Como já havíamos contado a possíveis membros do conselho, como Nishi-san e Abeno-san, Narika era de nível altíssimo em artes marciais e arranjo floral. Nessas áreas, ela era praticamente incomparável.
— Suu…
Narika respirou em silêncio. Naquele instante, pude sentir sua concentração se afiar, como a espada que segurava.
Silenciosa, profunda, mergulhando cada vez mais fundo, a concentração de Narika se intensificou.
Apesar da multidão, um silêncio absoluto caiu sobre o pátio. Era tão quieto que se podia ouvir as folhas farfalhando ao vento.
— Ha—!!
Um único lampejo. Narika brandiu a espada. Deve ter sido um golpe de uma beleza arrebatadora. …Digo "deve" porque não consegui ver a lâmina. Eu estava olhando fixamente, mas devo ter piscado bem no instante anterior.
Então, percebi algo estranho. O alvo de palha, que supostamente havia sido cortado, não caiu.
Não pode ser… ela errou? Não, Narika podia ser pouco confiável em outras áreas, mas, nas artes marciais, era um gênio absoluto. Ela jamais cometeria um erro desses diante de uma multidão…
Enquanto a ansiedade crescia lentamente dentro de mim, Narika embainhou a espada e fez uma reverência graciosa.
Em seguida, tocou o alvo de palha com a bainha. A metade superior do alvo balançou e caiu no chão.
— Hã?
O que acabou de acontecer?
Então, Narika havia cortado o alvo perfeitamente. Mas seu golpe fora tão preciso que o alvo não caiu, permanecendo equilibrado sobre o corte mesmo depois de ser fatiado.
…Hã?
Um ser humano consegue mesmo fazer algo assim…?
Alguns segundos depois, aplausos dispersos começaram a surgir, até se transformarem em uma ovação estrondosa. Parecia que todos tinham precisado de um tempo para processar o que havia acontecido.
Narika exibia uma expressão presunçosa, como se tudo tivesse saído exatamente conforme o planejado, mas eu vi. Até os aplausos começarem, ela estava em pânico, pensando: "Será que eu estraguei tudo?"
Pensando bem, Narika sempre foi assim. No management game, ela também esmagou seus concorrentes sem nem perceber.
…Ela era o tipo de pessoa que ia do oito ao oitenta.
…Bem, foi um sucesso.
Com tantos aplausos assim, não dava para chamar aquilo de fracasso.
A superfície cortada do alvo de palha sobre o tatame era inacreditavelmente limpa. Nem parecia humanamente possível. Era tão impressionante que chegava a ser quase intimidador.
De qualquer forma, havíamos mostrado que Narika possuía algo verdadeiramente único.
Em uma academia repleta de alunos talentosos, possuir uma habilidade incomparável certamente deve ter ressoado fundo na multidão.
Enquanto eu soltava um suspiro de alívio pelo sucesso do marketing de guerrilha, uma palma especialmente alta ecoou.
Ao me virar, vi Joutou parado ali.
— Uma habilidade impressionante.
Dizendo isso, Joutou se aproximou de Narika.
— Já que estou aqui, se importa se eu tentar também?
— Hã…?
Pegando a espada das mãos de Narika, Joutou ficou diante de um alvo de palha reserva. Ele fechou os olhos, respirou fundo e, em seguida, sacou rapidamente a espada da bainha.
— Fu—!!
Com um grito cheio de energia, sua lâmina cortou o alvo na diagonal. O pedaço de palha cortado rolou sobre o tatame.
— Bem… como esperado, não consigo me comparar a Miyakojima-san.
Embainhando a espada, Joutou passou a mão pela superfície cortada do alvo. Aplausos choveram novamente. Mas, desta vez, eram para Joutou, não para Narika.
…Ele nos pegou.
Eu deveria ter investigado isso antes. Joutou também tinha experiência em iaidô.
É claro que ele não era tão habilidoso quanto Narika. Mas, para alguém que invadiu o evento de repente, sua apresentação foi mais do que suficiente.
O marketing de guerrilha é uma estratégia publicitária baseada no elemento surpresa. Havíamos planejado uma apresentação que o grupo de Joutou não perceberia nem teria tempo de contra-atacar. Mas, de certo modo, Joutou acabou realizando a intervenção mais "guerrilheira" de todas.
A multidão foi ao delírio com o golpe vistoso daquele intruso repentino. Devolvendo a espada a Narika, Joutou pegou um microfone das mãos de Rintarou, que estava por perto.
— Miyakojima-san, tenho uma proposta.
A voz de Joutou ecoou pelo pátio interno através do microfone e dos alto-falantes.
— Que tal competirmos com a mente da próxima vez?
— C-Com a mente…?
O rosto de Narika empalideceu.
…Idiota. Não mostre sua fraqueza de forma tão óbvia na frente de todo mundo.
As notas de Narika não eram desastrosas, mas, comparadas às de Tennouji-san ou Joutou, ela ficava para trás. No entanto, ao ver a expressão tensa de Narika, Joutou esclareceu:
— Não estou falando de notas. Que tal um debate amanhã, depois da aula, entre os três candidatos à presidência do conselho estudantil? O tema será as tradições da Academia Kiou.
Os primeiros a reagir à proposta de Joutou não fomos eu nem Narika, mas o público. Os gritos animados dos alunos fizeram uma pontada de frustração surgir dentro de mim.
…Não há como recusar nesta atmosfera.
Se eu recusasse agora, trairia as expectativas dos alunos, e a influência de Narika sofreria um golpe.
Joutou nunca teve a intenção de nos deixar dizer não desde o início. Ele usou a apresentação de Narika para atrair a atenção dos estudantes e, em seguida, propôs habilmente uma competição que os deixaria empolgados. Era um artista calculista.
Assenti em silêncio para Narika, que olhava em minha direção. Ela parecia um pouco ansiosa, mas encarou Joutou e declarou:
— Está bem. Eu aceito o desafio.
— Então aguardarei ansiosamente por amanhã. Transmita meus cumprimentos a Tennouji-san também.
Com isso, Joutou finalmente foi embora.
…Tennouji-san também não parecia ser o tipo de pessoa que recuaria diante desse desafio.
Era possível que Joutou tivesse previsto até isso e, por esse motivo, convidado Narika primeiro.
Como Narika talvez pudesse recusar, ele precisava criar uma atmosfera em que ela não conseguiria fazê-lo, usando a energia da multidão a seu favor.
Por um instante, quase pude ver a sombra de Minato-senpai, que sequer estava ali, posicionada atrás de Joutou.
◆
Rapidamente, compartilhei com Tennouji-san o convite de Joutou para o debate.
Como esperado, Tennouji-san decidiu aceitar o desafio. O debate ficou marcado para depois da aula do dia seguinte. Com pouco tempo para nos prepararmos, decidimos realizar imediatamente uma reunião estratégica na academia.
Depois de entrar em contato com Shizune-san e fazer Hinako voltar para casa mais cedo, segui Tennouji-san pelo corredor da escola.
— Esta é a sala de estudos.
Tennouji-san abriu a porta, e Narika e eu entramos.
Ela havia mencionado que conhecia um lugar perfeito para nossa reunião estratégica, e aquela sala era realmente conveniente. A sala de estudos era equipada com vários computadores, e havia um grande quadro branco na frente.
— Eu não sabia que existia um lugar assim.
— Sim. Mas, como pode ver, ela não é muito usada. A maioria dos alunos desta academia vai embora logo depois da aula.
A sala de estudos estava completamente vazia. Era útil para discutir assuntos delicados sem ninguém por perto, mas ter uma sala tão grande só para nós passava uma sensação um pouco solitária.
Ao que parecia, aquela sala não era usada para as aulas. Servia apenas para estudos individuais, mas, como os alunos da Academia Kiou eram muito ocupados, normalmente iam embora assim que as aulas terminavam.
— Se eu me tornar presidente, gostaria de aproveitar melhor lugares como este.
Tennouji-san murmurou, aparentemente inspirada pela visão da sala de estudos. Já que o espaço era todo nosso, decidi ocupar o assento central. Liguei o computador no meio da sala e me sentei diante dele.
— Vamos começar nossa reunião estratégica para vencer o debate.
Tennouji-san e Narika se sentaram, uma de cada lado de mim.
— O tema são as tradições da Academia Kiou, correto?
— Sim. …Não importa por qual ângulo se olhe, é um tema que favorece o lado deles. Mas, se conseguirmos apresentar ideias convincentes, podemos aumentar significativamente nosso apoio.
O debate provavelmente tomaria a forma de uma discussão formal. Primeiro, cada candidato à presidência do conselho estudantil apresentaria sua visão sobre as tradições da Academia Kiou; depois, todos passariam para uma discussão. Precisávamos prever os possíveis questionamentos: se nossas ideias eram realmente válidas ou se talvez deixassem de atender às necessidades de certos alunos.
No mínimo, não seria uma conversa tranquila em que os três candidatos simplesmente compartilhariam suas opiniões e dariam o assunto por encerrado. Se fosse esse o caso, um discurso bastaria.
— Para começo de conversa, o que exatamente são as tradições da Academia Kiou?
Narika perguntou, seus olhos refletindo o brilho do monitor. Era uma pergunta pura e penetrante, que ia direto ao cerne da questão. Como Narika havia dito, precisávamos começar por ali.
— Por enquanto, vamos listar tudo o que vier à mente.
Abri o aplicativo de bloco de notas já instalado no computador e comecei a anotar, em tópicos, as tradições da Academia Kiou.
No fundo da minha mente, eu também pensava nas atividades além do debate.
Com o debate marcado, talvez fosse difícil fazer discursos depois da aula no dia seguinte.
Dito isso…
…Graças às nossas contramedidas contra a campanha difamatória, a divulgação dos detalhes da nossa plataforma acabou funcionando bem. A esta altura, os discursos já não são nossa prioridade máxima.
Para combater a campanha negativa iniciada por Rintarou, compilamos nossa plataforma e a disponibilizamos livremente online. Como resultado, os alunos passaram a conhecer por conta própria as promessas de Tennouji-san e Narika.
A campanha difamatória me fez suar frio, mas, agora que conseguimos virar o jogo, ela se transformou em vento a nosso favor. Ironicamente, aquela campanha negativa acabou ajudando a espalhar nossa plataforma.
— Em linhas gerais, é mais ou menos isso.
Disse Tennouji-san, encarando o monitor. Por enquanto, eu havia listado quatro tradições da Academia Kiou que me vieram à cabeça.
• Muitos alunos são filhos de executivos ou políticos.
• O currículo é significativamente mais avançado que o de escolas de ensino médio comuns.
• A aula característica chamada "Management Game".
• A existência inegável de disparidades baseadas no histórico familiar.
Incluí tanto as tradições boas quanto as ruins que eu havia notado recentemente. Olhando para o texto no monitor, uma pergunta me ocorreu de repente.
— Devemos apagar esses dados depois?
— Não é necessário. Os computadores daqui são restaurados ao estado inicial quando reiniciados.
Nesse caso, eu deixaria como estava.
— Esses quatro pontos também foram os que me vieram à mente, mas é provável que sejam óbvios para o outro lado também.
— Sim. Tudo o que está listado aqui foi mencionado nos discursos de Joutou-kun.
Se esses eram os pontos principais, o verdadeiro desafio seria a forma como nos aprofundaríamos neles.
— O quarto ponto… vamos precisar tratar com delicadeza.
Narika disse em voz baixa. Disparidades baseadas no histórico familiar. Ao ver aquelas palavras, Narika provavelmente percebeu mais uma vez que o status de sua própria família era mais elevado que o da maioria dos alunos.
Mas eu não concordava que ela agisse como se fosse a culpada por isso.
— Não acho que nenhuma de vocês precise se sentir culpada por isso.
Narika pareceu confusa, então continuei explicando.
— As disparidades baseadas no histórico familiar não são sentidas apenas por quem está embaixo. Elas também afetam quem está no topo. …Narika, você não sofreu durante muito tempo por causa de mal-entendidos? Parte do motivo pelo qual as pessoas mantinham distância de você provavelmente era o alto status da sua família.
— Agora que você mencionou, é verdade.
Por causa de seu status elevado, elas não podiam falar de qualquer jeito. …Mas quem era a verdadeira vítima ali? Eram sempre os alunos de origem mais baixa que escolhiam manter distância. Aqueles de origem mais alta muitas vezes acabavam isolados de forma unilateral.
Quando os outros mantêm distância, a compreensão ao redor também se afasta.
…De certo modo, Hinako também sofre com isso.
Talvez não fosse exatamente discriminação, mas Hinako sem dúvida carregava a maior desvantagem causada pelo alto status de sua família.
A pressão de agir como a Ojou-sama perfeita cobrava um preço imenso dela. Era justamente por isso que existia o papel de seu cuidador.
— Em relação a essa questão das disparidades baseadas no histórico familiar, minha abordagem é completamente oposta à de Joutou-san.
— Exato.
Eu tinha a sensação de que esse tema seria o ponto central do debate. Para deixar clara a posição de cada um, coloquei em palavras meu entendimento.
— No momento, a Academia Kiou possui disparidades baseadas no histórico familiar. Joutou acredita que todos deveriam se ajustar ao menor denominador comum.
Seu objetivo era trazer plebeus para a academia e fazer com que todos se adaptassem a esse ambiente, ensinando até mesmo os alunos de status mais elevado a se comportarem de uma forma alinhada aos que estavam abaixo deles.
— Por outro lado, Tennouji-san acredita que todos devem ser treinados para alcançar o topo.
Tennouji-san pensava que até mesmo os alunos de origem mais baixa deveriam ser moldados para prosperar em um ambiente de elite.
— E Narika quer criar uma academia onde o histórico familiar não importe de forma alguma.
Narika buscava promover um ambiente onde as pessoas pudessem mudar a si mesmas com facilidade por meio de interações ativas. Se aqueles que sofrem com disparidades de status conseguissem se transformar, isso poderia levá-los à libertação dessas diferenças.
Na verdade, Narika havia se libertado da solidão causada por seu status ao mudar a si mesma.
— Três abordagens distintas.
Observou Tennouji-san. Com três abordagens distintas, era inevitável que aquilo gerasse um debate acalorado.
— Tomonari-san, eu gostaria de usar isso como nosso ângulo de ataque.
— Entendido. …Narika, você está de acordo?
— Sim. Acho que posso me apoiar nas minhas próprias experiências para falar com confiança sobre esse tema.
Depois de ter superado a adversidade, Narika agora podia transformar a notoriedade dessa luta em uma vantagem. Os alunos que antes a temiam provavelmente levariam suas palavras a sério justamente por causa disso.
O único problema era…
— Narika, você vai ter que falar na frente das pessoas de novo. Vai ficar tudo bem?
— E-Eu vou ficar bem. Melhorei bastante em comparação a antes. …Acho.
A atitude dela não inspirava muita confiança.
— Então tente fazer um discurso agora, em pé ali.
— Hmph… Está bem. Vou provar que consigo.
Narika foi até o quadro branco. Eu sabia que ela era capaz quando conseguia se sair bem. Mas também sabia que, quando falhava, a diferença era assustadora.
— Sobre as tradições da Academia Kiou, o que eu penso é—
Narika começou seu discurso. Mas, no meio do caminho, parou e olhou para mim.
— I-Itsuki? Por que você está me encarando desse jeito?
— É para ajudar com o seu nervosismo. Continue.
Vamos ver o quanto ela consegue lidar com o fato de estar sendo observada.
— A-As tradições da Academia Kiou, ao meu ver…
…...
— Por exemplo, quando se trata das disparidades de histórico familiar…
….......
Como esperado, ela ainda não estava acostumada a ser encarada, e começou a se remexer nervosamente.
— E-Espera!!
Com o rosto vermelho, Narika gritou.
— Eu não consigo falar direito quando você fica me olhando desse jeito!
— Você não disse que não ficaria nervosa?
— N-Não é nervosismo! É… outra coisa que está me distraindo…!!
Outra coisa?
— Dar desculpas não pega bem.
— Ugh… Uuuugh…!!
Narika começou a tremer. Hã, que estranho. Eu achei que ela tivesse melhorado um pouco, mas parecia ainda mais atrapalhada do que antes.
Enquanto eu inclinava a cabeça, observando os olhos inquietos de Narika, a porta da sala de estudos se abriu.
— Com licença. …Tomonari-san, terminamos de organizar os questionários.
Suminoe-san entrou na sala de estudos segurando uma pilha de formulários. Kita estava atrás dela. Eu havia pedido aos dois que recolhessem e organizassem os questionários. Era uma quantidade enorme, então fiquei grato por terem terminado tão rápido.
— Suminoe-san, Kita, obrigado.
Peguei a pilha de formulários das mãos deles. Ao olhar de relance para Narika, vi-a suspirar aliviada, murmurando:
— Salva…
Se tivéssemos tempo, eu precisaria verificar isso de novo mais tarde.
— Miyakojima-san, dê o seu melhor.
— Obrigada, Kita-kun. Você sempre ajuda muito.
Kita incentivou Narika antes de deixar a sala de estudos. Ele poderia ter ficado para conversar, mas provavelmente saiu para nos dar espaço, sabendo que estávamos com pouco tempo antes do debate.
— Tennouji-sama, estou torcendo pela senhorita.
Suminoe-san ofereceu uma palavra de apoio a Tennouji-san.
— Obrigada. …Mas por que o "-sama" de repente?
— É hábito. Parece que não consigo me livrar dele.
Suminoe-san sorriu docemente, mas o sorriso de Tennouji-san se contraiu de forma constrangida.
…Ela estava em estado grave. Alguém, por favor, leve Suminoe-san a um hospital. Até pouco tempo atrás, ela era conhecida por sua imagem refinada e graciosa…
— Tomonari-san.
Pouco antes de ir embora, Suminoe-san me chamou com um gesto. Ela tinha algo particular para dizer? Curioso, saí da sala de estudos junto com ela.
— Se você não fizer Tennouji-sama vencer, eu não vou perdoá-lo.
— Vou dar o meu melhor.
— Se for preciso, podemos colocar laxante na comida daquele tal Joutou Ren. Se você não tiver coragem, eu faço isso por você.
— Por favor, não faça isso.
Até conhecer Rintarou, eu achava que ninguém nesta academia recorreria a táticas tão desleais… Acontece que havia alguém bem aqui, no meu próprio círculo.
— Sério, não faça isso, entendeu?
— Tsc.
Espera, ela acabou de estalar a língua? Ainda bem que eu confirmei.
Depois que Suminoe-san foi embora, soltei um suspiro profundo e voltei para a sala de estudos. …Mentalmente falando, ela era um furacão.
— O que foi aquilo?
— Ela sugeriu uma estratégia, mas era extrema demais, então eu recusei.
Desconversando de forma vaga, comecei a revisar os questionários organizados.
A pesquisa era simples: perguntava que tipo de presidente os alunos queriam que Tennouji-san e Narika fossem. Ainda não tínhamos feito uma pesquisa direta como aquela antes. No entanto, já havíamos contabilizado uma para avaliar os verdadeiros sentimentos dos apoiadores de Hinako.
Eu também precisava começar a pensar no discurso final. O último dia da eleição seria na segunda-feira, no início da semana seguinte.
Hoje era quarta-feira, então, excluindo hoje e o fim de semana, tínhamos mais três dias para garantir a vitória.
Refletir imediatamente os resultados dos questionários e mudar nossa postura poderia causar confusão. Esse risco sempre existiu, mas, com apenas três dias restantes, não havia tempo para apaziguar qualquer caos que surgisse. Nesta fase, precisávamos ser cautelosos ao fazer mudanças.
Eu pretendia revisar todos os resultados da pesquisa ainda naquela noite, mas pensaria com cuidado sobre como incorporá-los até o último dia. Agir às pressas poderia levar à autodestruição justamente naquele momento crítico.
…Hm?
Enquanto eu examinava as respostas dos questionários, algo me pareceu estranho.
Isto provavelmente era…
— Itsuki, o que foi?
— Hmm… Não, não é nada.
Ao notar minha testa franzida, Narika inclinou a cabeça, mas decidi ficar em silêncio.
…Não há necessidade de mencionar isso agora.
Aquilo não estava relacionado ao debate. Dependendo da situação, talvez fosse algo que eu deveria guardar para mim.
◆
Depois da aula, no décimo primeiro dia do período eleitoral, o debate organizado por Joutou estava prestes a começar.
— Que montagem sofisticada.
Ao chegar ao auditório, não consegui evitar murmurar diante da cena à minha frente.
O debate seria realizado no auditório. Durante o almoço, Rintarou me disse que a equipe de Joutou cuidaria dos preparativos, então deixamos tudo nas mãos deles. Ainda assim, o palco estava muito mais elaborado do que eu esperava.
No centro do auditório, três mesas haviam sido dispostas a intervalos iguais, voltadas umas para as outras. Era como um triângulo, com uma mesa e uma cadeira em cada vértice. Provavelmente, os três candidatos à presidência se sentariam ali.
Os assentos da plateia cercavam completamente a estrutura.
Eu havia imaginado que os candidatos debateriam sobre uma plataforma elevada, mas parecia que aquele "combate" aconteceria no centro do auditório, como se fosse um ringue de boxe ou uma arena de luta livre.
Cercados por olhares de todos os ângulos… Isso é algum tipo de tática psicológica?
Era uma configuração inquietante. Não havia como terem criado aquele ambiente de tensão por acaso. Pelos discursos anteriores, eu sabia que Joutou estava acostumado a ser observado.
Provavelmente por isso ele escolheu deliberadamente um palco que intensificava a consciência dos olhares da plateia. Para ele, não era problema algum, mas para Tennouji-san… e especialmente para Narika, era um ambiente difícil.
— Tomonari-san, eu vou indo.
— Eu… também vou.
As duas concluíram sua preparação mental. Tennouji-san exibia um sorriso ousado, enquanto Narika parecia visivelmente nervosa.
— Vou assistir daqui. Vamos seguir a estratégia.
Tennouji-san e Narika assentiram e seguiram para o centro do auditório, onde Joutou as aguardava.
Infelizmente, com o tempo limitado, não conseguimos elaborar uma jogada que garantisse a vitória. Mas criamos táticas para aumentar nossas chances.
Classificamos as tradições da Academia Kiou em vários grupos e nos concentramos em preparar argumentos para aquele sobre o qual nos sentíamos mais confortáveis para discutir. Assim que o debate começasse, precisaríamos direcionar a conversa para essa categoria. Se conseguíssemos, isso nos daria uma grande vantagem.
— Agora, daremos início ao debate entre os três candidatos à presidência do conselho estudantil. Eu, Asahi Rintarou, candidato a vice-presidente, atuarei como moderador.
No centro do local, Rintarou pegou o microfone e cumprimentou a plateia.
— O tema são as tradições da Academia Kiou. Ao longo da próxima hora, os três candidatos discutirão esse assunto.
A plateia, incluindo eu, olhou para os três candidatos sentados às suas mesas. Joutou, Tennouji-san, Narika… os três estavam com expressões sérias.
— Vamos começar.
Rintarou sinalizou o início do debate. O auditório mergulhou em silêncio. Sem aplausos, sem gritos de torcida. Os olhares dos alunos brilhantes, que um dia liderariam este país, estavam fixos diretamente no centro do auditório.
— Tomarei a iniciativa, já que fui eu quem propôs este debate.
Joutou foi o primeiro a falar.
— Acredito que muitas das tradições da Academia Kiou ampliam as inseguranças dos alunos. Por exemplo, o sistema que admite principalmente estudantes vindos de famílias prestigiadas. Como o histórico familiar é avaliado no ingresso, todos acabam aceitando as disparidades resultantes depois da matrícula. Essa atmosfera, na qual os problemas raramente vêm à tona, é em si uma tradição nociva, não acham? Por isso, meu objetivo é democratizar a Academia Kiou e, no fim, remover o histórico familiar como critério de admissão. Quero eliminar pela raiz as inseguranças ligadas ao status familiar que todos carregam em segredo.
Como esperado… o argumento de Joutou atingia em cheio alguém plebeu como eu.
Eu podia esconder isso, mas, no fundo, era apenas um cara comum. Por isso mesmo, havia me esforçado tanto para trabalhar mais duro, mas nem todos conseguiam fazer o mesmo. Alguns alunos talvez fossem esmagados pelo peso das disparidades de status. Eu poderia facilmente ter sido um deles se tivesse dado um passo em falso.
Mas democratizar a Academia Kiou não era a única forma de lidar com esse problema.
— Em relação a essas disparidades…
Tennouji-san ergueu a voz.
— Desejo resolvê-las de uma maneira completamente oposta à abordagem de Joutou-san.
— Pensando bem, Tennouji-san, você também mencionou algo sobre linhagem familiar no seu primeiro discurso, não foi?
Sim, Tennouji-san assentiu.
Como Joutou havia dito, Tennouji-san também tinha identificado bem cedo o problema das disparidades causadas pela linhagem familiar. No entanto, mesmo que ambos reconhecessem o mesmo problema, as soluções propostas eram diferentes.
— Ouvi seus discursos várias vezes, então acredito compreender sua visão de tornar a Academia Kiou mais acessível às pessoas comuns. …Não sou contra a ideia de aprender sobre o mundo exterior. Porém, forçar-nos a nos adequar ao mundo exterior me parece excessivamente agressivo. Se vamos nos adaptar, deve ser de uma forma que esteja alinhada à identidade única da Academia Kiou. Caso contrário, qual é o sentido de estarmos aqui?
— A identidade única da Academia Kiou, hein?
Joutou soltou um sorriso frio.
— Nem todos aqui estão nesta academia porque quiseram estar.
Dizendo isso, Joutou passou os olhos pela plateia que os cercava.
— Tenho uma pergunta para todos os presentes. …Algum de vocês teve outra escolha além de se matricular na Academia Kiou?
Nenhum aluno assentiu em resposta à pergunta de Joutou. Por mais maravilhoso que fosse o ambiente da Academia Kiou, isso não significava que os alunos necessariamente o desejassem. Essa verdade acabara de se tornar dolorosamente clara.
Talvez… houvesse alunos ali que frequentavam aquela academia contra a própria vontade.
— Você fala como se todos aqui se orgulhassem de ser alunos da Academia Kiou, mas a realidade é esta que estamos vendo — continuou Joutou. — Tennouji-san, você fala partindo da premissa de que as tradições da Academia Kiou são inerentemente corretas, mas onde está a prova disso? Você e seu grupo se recusam teimosamente a mudar o sistema atual. Não é por isso que são chamados de conservadores?
— Tsc.
Apenas escolhendo bem as palavras, Joutou conseguira se posicionar de forma extremamente vantajosa.
Ele estava explorando ao máximo a impressão enérgica transmitida pelo termo "reformista". A palavra "conservador" não deveria ser negativa, mas, de alguma forma, criava uma atmosfera que nos pintava como preguiçosos.
Mas Narika cortou aquela atmosfera com um único golpe.
— Não estamos dizendo que a academia não precisa mudar. Na verdade, se eu me tornar presidente, quero criar uma academia onde qualquer aluno possa transformar a si mesmo.
Narika não estava exatamente defendendo Tennouji-san.
A eleição ainda permanecia em um impasse entre três lados. Como se para enfatizar isso, os assentos dos três candidatos estavam posicionados a distâncias iguais. No entanto, fora Joutou quem primeiro agrupou Tennouji-san e Narika como "conservadoras".
Foi o próprio Joutou quem criou aquela situação, que podia ser vista como dois contra um. Sendo assim, ele dificilmente poderia reclamar. Com esse pensamento, eu observava o debate entre os três com confiança, mas—
— Miyakojima-san, sua proposta depende demais da autonomia dos alunos.
O contra-ataque de Joutou foi muito mais afiado do que havíamos previsto.
— Para os alunos da Academia Kiou, que há tanto tempo não tiveram a oportunidade de mudar a si mesmos, ouvir de repente que podem mudar só causará confusão. Mesmo que você se torne presidente e cumpra suas promessas, tudo o que consigo enxergar é um futuro em que ninguém a seguirá, tornando tudo sem sentido.
— N-Não, não é…
— Estou ciente de que Miyakojima-san já foi temida por causa de mal-entendidos. Mas a sua perspectiva, por ter conseguido sair dessa situação, está contaminada pelo viés do sobrevivente.
Joutou falava com intensidade, como se fosse movido por uma indignação justa.
— Você tinha, desde o início, a base necessária para mudar a si mesma. Em outras palavras, você tinha sua linhagem familiar!
Narika prendeu a respiração.
Em essência, Joutou estava dizendo o seguinte: provavelmente havia muitos alunos nesta academia, além de Narika, que também queriam mudar a si mesmos. Mas a maioria deles fracassou. Narika foi a única que conseguiu, e isso não teria acontecido por causa de seu histórico familiar privilegiado, e não apenas por seus próprios esforços?
Normalmente, uma opinião assim provocaria raiva, mas tanto Narika quanto eu ficamos sem palavras.
Era vergonhoso admitir, mas… essa perspectiva não havia nos ocorrido. Narika conseguira mudar a si mesma porque continuou avançando apesar de inúmeras falhas.
Por ter estado ao lado de Narika, eu sabia disso. Mas havia muita gente nesta academia que não sabia. Para essas pessoas, as palavras de Joutou deviam ter soado extremamente convincentes.
— Se você quer criar uma academia onde os alunos possam mudar a si mesmos, comece mudando a própria academia. Essa é a minha visão de tornar a Academia Kiou mais acessível às pessoas comuns.
Narika não teve resposta diante da declaração ousada de Joutou.
A situação havia tomado um rumo ruim. …Mas, mais do que pânico, eu sentia uma sensação de desconforto.
…O que está errado?
Havia algo estranho. Por que estávamos sendo encurralados desse jeito? Não era como se eu fosse arrogante a ponto de achar que dominaríamos o debate.
As habilidades de Joutou eram reais, e aquele debate havia sido ideia dele desde o início. Lutar no terreno dele significava que já sabíamos muito bem que havia uma chance considerável de derrota. Tennouji-san, Narika e eu, todos sabíamos disso.
Mesmo assim…
…Os contra-ataques dele são precisos demais.
O tema deste debate deveria ser as tradições da Academia Kiou. A questão das disparidades causadas pela linhagem familiar era apenas um tópico derivado desse tema, e havia muitos outros ângulos que poderiam ser discutidos.
Falar dos pais dos alunos, do currículo, do Management Game — entre incontáveis assuntos possíveis, escolhemos nos concentrar nas disparidades de linhagem familiar como ponto de entrada para tomar a ofensiva. Foi por isso que preparamos argumentos sobre esse tema com antecedência.
Então, quando o debate rapidamente se voltou para as disparidades de linhagem familiar, eu comemorei por dentro: "Isso!". Era o fluxo perfeito para discutir o assunto no qual estávamos mais preparados.
Ainda assim, Joutou estava acompanhando nossos argumentos preparados no improviso. Não, ele não estava apenas acompanhando. Ele nos atingia com ainda mais informações do que nós tínhamos.
Sua habilidade no debate era boa demais. Mesmo que Joutou fosse um talento político raro, aquilo era quase perfeito demais.
— Eu me oponho!!
A voz aguda de Tennouji-san cortou o ar.
— Joutou-san, o que você busca não é reforma. É uma reconstrução imprudente que trará uma destruição massiva! Suas promessas, sem dúvida, causarão muito mais caos do que as de Miyakojima-san jamais poderiam causar!
Se o problema era causar caos, então a abordagem de Joutou não seria ainda mais problemática? Era isso que Tennouji-san estava afirmando.
— E você não acabou de dizer isso agora há pouco? Onde está a prova de que as tradições da Academia Kiou estão corretas?
— Sim, eu disse isso. Essa prova está nas conquistas dos nossos formandos.
A sobrancelha de Joutou se contraiu levemente. O ímpeto passou para Tennouji-san.
…Esperta. Ela conduziu a conversa para o fluxo que havia preparado.
Se possível, precisávamos quebrar o ritmo de Joutou ali. Tennouji-san vocalizou a crítica a Joutou que havia planejado de antemão.
— Os formandos da Academia Kiou têm prosperado de maneira notável na sociedade atual. A glória acumulada por eles é a prova da correção desta academia. Sua visão de tornar a Academia Kiou mais comum irá desmantelar essa glória. Chamar a si mesmo de reformista soa bonito, mas suas reformas podem garantir o futuro dos alunos que estão aqui agora?
Os alunos presentes realmente seriam capazes de acompanhar as reformas de Joutou? Como Tennouji-san dissera, as reformas de Joutou eram enormes. Chamá-las de "demolir e reconstruir" não era exagero. Reformas assim vinham acompanhadas de riscos significativos.
Se as reformas fracassassem, não seria possível simplesmente voltar ao sistema antigo.
A visão de Joutou para uma Academia Kiou mais acessível era como um navio que ou alcançava novas terras ou afundava no meio do caminho. Uma vez que deixasse o porto, não haveria como voltar para casa.
Os alunos ali realmente tinham coragem de embarcar nesse navio? E, mesmo que tivessem, Joutou possuía habilidade suficiente para corresponder a essa coragem?
Inúmeros olhares perfuravam Joutou. Ainda assim, ele permaneceu ereto, inabalável.
— Vejam isto.
Com as palavras de Joutou, um documento apareceu na tela do palco. Parecia que ele o havia preparado com antecedência. Ao ver o conteúdo do documento, nossos olhos se arregalaram.
— Isto é…!
— É um gráfico mostrando os caminhos de carreira dos nossos formandos.
Um grande gráfico de pizza foi exibido na tela, mostrando claramente qual porcentagem de formandos havia escolhido cada caminho.
No nível do ensino médio, quase todos os formandos prosseguiam para o ensino superior, mas o problema vinha depois disso: após a universidade.
— Diz-se que a maioria dos formandos da Academia Kiou herda os negócios dos pais ou segue caminhos semelhantes, como políticos ou burocratas. …Mas, nos últimos anos, essa tendência tem mudado. Como este gráfico mostra, cada vez mais formandos dos últimos anos estão abrindo seus próprios negócios do zero.
Então era isso…
Muitos alunos, assim como eu, provavelmente estavam descobrindo aquilo pela primeira vez. Todos observavam o documento de Joutou com grande interesse.
— Com os avanços tecnológicos, os estilos de trabalho se diversificaram. As barreiras para o empreendedorismo diminuíram, e o número de mercados aumentou em comparação ao passado. …Mesmo que a Academia Kiou não mude, os tempos estão mudando. Então, não deveríamos adaptar esta academia a esses tempos?
Quase assenti em concordância, mas, no último instante, uma falha no documento me trouxe de volta à realidade. Aquele documento… está polido para esconder isso, mas, olhando com atenção, o conteúdo é superficial…
Para um documento apresentado a tantos alunos, sua qualidade não era tão alta. Provavelmente fora montado às pressas ontem ou hoje.
Mas, se era esse o caso… por quê? Por que aquele documento havia sido feito com tanta pressa? Quase como se tivesse se tornado necessário de repente…
…Isto não é coincidência.
A inquietação que eu vinha sentindo desde antes e essa nova sensação estavam conectadas.
Os contra-ataques precisos demais. E agora aquele documento, preparado como se fosse uma resposta direta aos argumentos de Tennouji-san.
Nossa estratégia… vazou. Essa era a única explicação.
— Cada vez mais alunos estão se desviando dos caminhos traçados por seus pais. É exatamente por isso que devemos aprender sobre o mundo exterior! O que eu busco não é uma reconstrução imprudente que cause caos! É uma nova estratégia de sobrevivência para esta academia!
Joutou encadeava palavras atraentes. Mas, ao perceber a verdade por trás da minha inquietação, lancei a ele um olhar feroz. No centro do auditório, Tennouji-san e Narika estavam pálidas, completamente silenciadas por aquela derrota esmagadora.
Eu queria correr até elas e dizer que não haviam perdido. Mas como isso pareceria aos olhos dos alunos ao redor?
— Já basta!!
A voz de Rintarou ecoou pelo auditório.
— O tempo acabou, então passaremos às considerações finais. Se alguém tiver palavras finais, por favor, prossiga.
Mesmo ele dizendo isso, Tennouji-san e Narika não tinham mais nada a dizer. Joutou se levantou e pegou o microfone.
— Este debate não foi para decidir qual ideologia é superior.
Ele passou os olhos pelos alunos enquanto falava.
— Mas… acredito ter mostrado quem é a pessoa mais confiável.
Com isso, Joutou se sentou. Uma pequena palma foi ouvida. Então, essa palma cresceu até se transformar em uma onda imensa, sacudindo o auditório. Os aplausos intermináveis caíam como se fossem esmagar Tennouji-san e Narika.
— Com isso, encerramos o debate. Agradeço a todos pela atenção.
Rintarou deu o debate por encerrado. Eu queria ir até Tennouji-san e Narika para confortá-las. Mas havia algo que eu precisava fazer primeiro. Enquanto os alunos começavam a se dispersar, segui na direção de Rintarou.
— Rintarou.
— Tomonari-senpai?
— Vem comigo um instante.
Rintarou pareceu confuso, mas me seguiu em silêncio. Saímos juntos do auditório e seguimos para os fundos do prédio da escola. Eu queria confrontá-lo publicamente, mas isso talvez fizesse Rintarou se fechar.
Por enquanto, eu só queria confirmar a verdade.
— Como você roubou?
Diante da minha pergunta, Rintarou inclinou a cabeça.
— Roubou? Do que você está falando?
— A folha de respostas que preparamos para o debate… você está com ela, não está?
Os olhos de Rintarou se arregalaram em choque. A reação dele também me surpreendeu. Ele não estava se fazendo de desentendido.
— Você não sabia, Rintarou?
— Não. …Pelo menos, eu não.
Rintarou respondeu com uma expressão séria. Nesse momento, passos se aproximaram.
— Os computadores da academia são configurados para serem restaurados a cada reinicialização, por motivos de segurança.
Uma aluna surgiu de trás da esquina do prédio.
— Mas e se essa configuração tivesse sido desativada com antecedência?
A garota sorriu com confiança. Se a configuração de restauração fosse desativada, quaisquer dados criados naquele computador permaneceriam mesmo após a reinicialização. Ou seja, alguém poderia extrair depois os dados que desejasse.
Devia ter sido assim que ela roubara nossa estratégia.
— Que descuido, Tomonari-kun. Deixar informações tão importantes serem roubadas com tanta facilidade.
— Minato-senpai.
A ex-presidente do conselho estudantil, Minato-senpai, apareceu diante de nós com uma confiança serena.
Pelo tom dela, era provável que Rintarou não estivesse envolvido nisso. A mente por trás de tudo provavelmente era Minato-senpai.
— Como você sabia que estávamos usando a sala de estudos?
— Heh, você ainda me superestima, não é?
Minato-senpai riu.
— Eu já disse: sou diferente daquela pessoa. …Eu não fazia ideia de que vocês usariam a sala de estudos. Mas era fácil prever que, depois de serem forçados ao debate, vocês fariam uma reunião estratégica aqui na academia para economizar tempo. Então, alterei as configurações de segurança de todos os computadores da academia, reiniciando-os um por um para verificar os vestígios depois que vocês foram embora. …Graças a isso, estou sem dormir.
Não havia tempo suficiente para fazer aquilo depois que aceitamos o debate. Minato-senpai devia estar mexendo nos computadores da academia antes mesmo de Joutou propor o debate, enquanto estávamos ocupados com nosso marketing de guerrilha.
Mas fazer isso de uma forma tão bruta…
— Bem trabalhoso, não acha? Nada elegante, certo? Mas é assim que eu sou. Você está sempre cercado de pessoas naturalmente talentosas, então jamais entenderia minha persistência. E, para minha inveja, você também é uma dessas pessoas talentosas.
— Não é…
— Não diga que não é. Afinal, aquela pessoa reconheceu você.
Minato-senpai já não escondia as emoções que rodopiavam em seu peito. Uma intensidade sombria se agitava no fundo de seus olhos, ameaçando me engolir por inteiro enquanto conversávamos.
Eu estava enganado. O que tornava Minato-senpai assustadora não era sua capacidade de previsão, como ela mesma afirmava.
Ela provavelmente tinha apenas uma capacidade de previsão comum. Mas compensava isso com uma tenacidade pura e implacável. Mesmo que houvesse uma diferença de talento, ela a superava com determinação bruta.
Era assim que Minato Maki lutava. Era assim que ela vinha lutando todo esse tempo na Academia Kiou, repleta de gênios.
— Tomonari-kun, você provavelmente não sabe disso, mas já houve um aluno que tentou concorrer ao conselho estudantil subornando outras pessoas.
Eu não sabia disso. Mas, agora que eu havia visto o tipo de conspiração que acontecia nesta academia, aquilo não parecia estranho. Provavelmente existiam alunos aqui capazes de fazer esse tipo de coisa, e eu simplesmente não sabia.
— O que aconteceu com esse aluno?
— Fiz com que ele desistisse. Ainda bem que percebi antes do início da eleição.
Como se estivesse aliviada por ter evitado um desastre, Minato-senpai suspirou.
— Há pessoas nesta academia que jogam sujo. E o conselho estudantil precisa ter a capacidade de impedir esses esquemas.
Ao ouvir aquelas palavras, finalmente entendi aonde Minato-senpai queria chegar. Se você não consegue enxergar conspirações, não tem qualificação para ser presidente do conselho estudantil.
Era isso que ela estava dizendo.
— Então isso justifica você usar táticas sujas?
— Exatamente. Eu concordo com as ideias do Ren-kun, sabe. …Vocês são puros demais.
Vocês são puros demais para serem adequados ao conselho estudantil. Foi isso que Minato-senpai veio nos dizer, chegando ao ponto de revelar seus próprios truques. Ela estava ali para quebrar nosso espírito, dizendo-nos para conhecer nosso lugar.
Mesmo que fôssemos pessoas inocentes, intocadas pela corrupção, isso não dava a Minato-senpai o direito de recorrer a métodos sujos. Ela devia saber disso. Ela fazia aquilo plenamente consciente de que era errado. Usava táticas sujas com total consciência de sua injustiça.
— Joutou-kun sabe disso?
— Sabe. Ele até me deu uma mensagem para quando você fizesse essa pergunta.
Uma mensagem…?
— "Desta vez, é pela minha própria vontade." …Foi isso que ele disse.
Com isso, Minato-senpai se afastou. Rintarou murmurou um breve "desculpa" e foi atrás dela.
…É, eu imaginei, pensei comigo mesmo.
A campanha negativa fora obra de Rintarou sozinho. Mas, por trás dela, estava seu desejo ardente de apoiar Joutou, que nunca parecia levar a vitória a sério.
Joutou devia ter se arrependido profundamente de deixar que sua própria hesitação levasse Rintarou a sujar as mãos. Por isso, decidiu que desta vez seria diferente. Desta vez, ele nos derrubaria por vontade própria.
— Haa.
Deixado sozinho, soltei um suspiro baixo. Um pouco tarde, percebi que poderia simplesmente denunciar aquilo. Por que não pensei em algo tão óbvio de imediato?
Eu poderia contar tudo aos professores.
…Mas como eu explicaria?
Provavelmente não restava nenhuma prova. Ela revelara tudo porque tinha confiança de que todos os rastros haviam sido apagados.
Será que eu deveria ter gravado…?
Se eu tivesse gravado nossa conversa no smartphone, aquilo poderia servir como prova. Como a cumplicidade de Joutou estava confirmada, uma acusação bem-sucedida poderia derrubar os dois.
Então restariam apenas Tennouji-san e Narika, travando uma batalha limpa…
— Haha.
De repente, tudo pareceu completamente ridículo. Provas, acusações. Gravações, derrubadas.
No que eu estava pensando…? Era mesmo esse tipo de coisa que alguém deveria considerar durante uma eleição?
— Hahaha…!
A risada seca não parava. Parecia que, se eu não fizesse ao menos aquilo, perderia a sanidade.
— Droga.
Isso sequer era justo?
◆
Ao retornar dos fundos do prédio da escola para o auditório, fui recebido por Tennouji-san e Narika, que me olharam preocupadas e perguntaram:
— Aconteceu alguma coisa?
Só então percebi o quanto minha aparência devia estar péssima.
Senti culpa por fazer as duas, que já estavam abatidas, se preocuparem comigo. Mas, naquele momento, eu precisava desesperadamente de tempo para organizar meus pensamentos.
Se tentasse explicar a elas o que acabara de acontecer, eu tinha a sensação de que minha cabeça superaqueceria até ferver.
— Desculpem. Preciso de um tempo para esfriar a cabeça, então vamos encerrar por hoje.
Doía dissolver o grupo por minha própria conveniência, mas eu simplesmente não estava em condições mentais de conversar com calma. Tennouji-san e Narika aceitaram sem fazer uma única reclamação.
Passei pelo portão da escola e caminhei por um tempo antes de ser apanhado pelo carro da família Konohana. Ao me afundar no banco de trás, Hinako, sentada ao meu lado, me encarou atentamente.
— Itsuki… aconteceu alguma coisa?
Com Hinako, senti que conseguiria explicar tudo com calma. Justamente por ela não estar diretamente envolvida na eleição, eu podia expor tudo sem reservas.
— É que…
No fundo, eu devia querer colocar tudo para fora. Contei tudo a Hinako: como Minato-senpai havia armado contra nós e como Joutou havia consentido com aquela estratégia.
— Isso é horrível.
Depois de ouvir tudo, Hinako murmurou baixinho. Sim, era horrível, não era? A voz dentro de mim assentiu com força, concordando. Mas dizer isso não mudaria o resultado do debate.
— Vou voltar para o meu quarto agora.
Assim que chegamos à mansão, fui direto para o meu quarto. Meu coração ainda estava longe de se acalmar, mas o tempo não se importava com meus sentimentos. Ele continuava avançando. Eu precisava começar a pensar em como virar o jogo a partir de amanhã, e precisava fazer isso agora.
— Eu também vou.
Hinako puxou de leve minha roupa enquanto falava.
— Tudo bem, acho.
Ela normalmente me acompanhava de qualquer forma. Quando estava atolada nas tarefas passadas por Kagen-san e acabava sendo levada por Shizune-san, era uma coisa, mas, ultimamente, isso não vinha acontecendo tanto.
— Estou bem ocupado hoje, então não vou conseguir conversar muito, tudo bem?
— Mm. Só ficar ao seu lado já basta.
Se eu estivesse no meu estado normal, talvez tivesse ficado envergonhado. Mas o eu que estava se afogando em uma ansiedade sem fundo respondeu com um tom surpreendentemente vazio, dizendo apenas "entendo", enquanto assentia.
De volta ao meu quarto, liguei imediatamente o notebook.
Eu preciso relatar a situação a Tennouji-san e Narika o quanto antes.
Já fazia uma hora desde que nos separamos, e eu ainda não tinha confiança de que conseguiria manter a calma. Então, em vez de ligar, escolhi deliberadamente enviar uma mensagem por escrito, detalhando o que havia acontecido.
Contei a elas como Minato-senpai havia armado contra nós, mantendo meus sentimentos pessoais o mais afastados possível.
Depois de enviar a mensagem para as duas, soltei um suspiro baixo.
— Itsuki, você está… bem?
— Sim, me acalmei bastante.
Era mentira. Eu não estava nem perto de estar calmo. Mas, se eu não fingisse ao menos estar composto, o calor na minha cabeça jamais esfriaria.
…Preciso compilar os resultados dos questionários.
Os questionários que distribuímos durante o marketing de guerrilha ainda não haviam sido totalmente revisados, por causa da reunião estratégica para o debate.
Comecei a examinar os questionários que Kita e Suminoe-san haviam organizado. No meio do processo, uma folha específica me causou uma sensação esmagadora de inquietação.
Era exatamente a mesma sensação que eu tivera durante a reunião estratégica para o debate.
Isto—!
A raiva que fervilhava no fundo do meu peito se conectou à inquietação irradiada por aquela folha de questionário. A fúria, que quase havia se assentado, voltou à superfície de uma só vez por causa daquilo.
— Droga!!
Dominado pela frustração, gritei e rasguei a folha do questionário em pedaços. Hinako, sentada na cama, se encolheu assustada, o corpo tremendo. Ao perceber sua reação pelo canto do olho, senti como se tivessem jogado água fria em mim.
— Desculpa, Hinako. Desculpa mesmo…
— Está tudo bem… Eu só me assustei um pouco.
Fiquei chocado com o tamanho da minha raiva. Olhando para a folha rasgada, levei a mão à testa. Talvez fosse a primeira vez na vida que eu ficava tão abalado. Nem mesmo quando meus pais fugiram no meio da noite eu tinha ficado tão furioso.
— O que aconteceu?
Hinako perguntou. Como eu a havia assustado — e provavelmente amedrontado —, tinha a obrigação de explicar. Ainda com a mão na testa, respondi.
— Eu já tinha percebido isso ontem depois da aula, mas, entre os questionários que recolhemos, há respostas feitas deliberadamente para nos desorientar.
À primeira vista, elas pareciam nos apoiar. Mas, olhando com atenção, guiavam-nos sutilmente rumo à ruína. Uma armadilha astuta havia sido escondida entre os questionários.
— O grupo de Joutou… o alcance deles chega até aqui…
Era um grupo capaz de mexer nos computadores da academia para roubar dados. Eu deveria ter previsto que eles também distorceriam os resultados da pesquisa.
Hinako ficou sem palavras. Eu também fiquei atordoado quando percebi.
Pensar que eles iriam tão longe—
Mesmo que eu percebesse, não adiantava nada se não conseguisse impedir. Talvez eu tivesse descartado aquilo como algo trivial, mas, antes que eu notasse, os esquemas de Joutou já haviam rachado minhas defesas mentais. Talvez tudo isso fizesse parte de uma estratégia fora do tabuleiro para nos desgastar psicologicamente.
…Eu não queria usar esse tipo de tática porque não queria sobrecarregar ninguém.
Recorrer a esquemas mancharia a reputação de Tennouji-san e Narika. Considerando a personalidade das duas, elas provavelmente se recusariam a cooperar se eu sequer sugerisse algo assim.
Mas…
…Será que estou sendo ingênuo demais?
Ficar calado depois de ser levado tão longe era realmente a escolha mais inteligente? Se eu tentasse usar táticas desleais, Tennouji-san e Narika provavelmente me impediriam. Nesse caso, eu poderia simplesmente fazer como Rintarou: executar tudo de uma forma que elas não descobrissem.
Era uma escolha que eu havia descartado por causa dos riscos. Mas agora eu começava a pensar que temer esses riscos era tolice. Eu perdi para Minato-senpai, que assumiu riscos.
Sofri uma derrota esmagadora e inegável. Olho por olho, dente por dente. Quando Minato-senpai se voltou contra nós, eu equilibrei os índices de aprovação com a ajuda de Hinako. Então, se eles usaram truques sujos, eu não deveria revidar com truques sujos também?
Eu havia evitado conspirações porque não queria arrastar os nomes de Tennouji-san e Narika pela lama. Mas, pensando com calma, não era tarde demais para isso? Eu já havia arrastado os nomes delas pela lama.
O que mais me enfurecia—
Era eu mesmo, por ter feito Tennouji-san e Narika parecerem humilhadas.
— Não posso decepcionar essas duas mais do que já decepcionei.
Minha determinação escapou pelos meus lábios. Eu já não me importava com autopreservação. Por enquanto, deixaria de lado o que os outros pensavam de mim.
Meu único foco era o caminho mais curto para fazer aquelas duas vencerem. Pensando bem, Takuma-san vinha me incentivando a usar conspirações desde o início. Hinako e Shizune-san talvez não gostassem dele, mas suas habilidades eram reais. Na verdade, eu havia alcançado bons resultados no Management Game graças aos conselhos dele.
Se eu tivesse simplesmente seguido o conselho dele desde o começo…
Talvez… eu devesse considerar isso.
Decidi tentar pensar em uma estratégia. Não apenas os métodos diretos que eu vinha usando até agora, mas também táticas que ignorassem completamente a moralidade…
E então—
Ha, haha…!
Enquanto elaborava estratégias sem nenhum freio, não consegui evitar um sorriso enviesado.
Por que será? As ideias simplesmente continuavam surgindo.
Que tal preparar falsas promessas? Promessas que soassem ótimas para os alunos, mas que não precisassem ser cumpridas. Depois, eu poderia inventar desculpas para descartá-las.
E quanto a fabricar provas de que o grupo de Joutou estava trapaceando? Eu havia desistido de acusá-los pelo incidente do debate porque não tinha provas, mas, se não havia evidências, eu poderia simplesmente criá-las. Forjar provas que eles não conseguissem negar facilmente e causar confusão até o dia do discurso final parecia um plano sólido.
Eu poderia encontrar o aluno do grupo de Joutou que entregou as respostas falsas aos questionários e transformá-lo em um agente duplo.
Ameaçá-lo com acusações de sabotagem eleitoral talvez o tornasse obediente. Tecnicamente, aquilo não violava as regras, mas ele com certeza iria querer evitar arruinar a própria reputação na academia. Eu precisaria rastrear o culpado, mas, de algum modo, sentia que esse era meu ponto forte.
As ideias continuavam fluindo, sem parar. Táticas imorais, planos desprezíveis que nenhuma pessoa íntegra jamais conceberia. Takuma-san disse uma vez que eu tinha talento para enxergar através dos dados.
Se eu tinha talento para enxergar através dos dados, então também devia ter talento para falsificá-los. Porque eu entendia como as pessoas interpretavam dados. Conseguia sentir suas suposições, o contexto de quem os criou, os ideais embutidos, os pontos-chave, os números fáceis de manipular… Eu simplesmente sabia como as pessoas tentavam ler nas entrelinhas.
Se eu explorasse isso, poderia criar dados que ninguém jamais conseguiria enxergar por trás. Eu poderia descobrir uma forma de mentir com tanta perfeição que jamais seria exposto. Se eu tinha o poder de espiar por trás da cortina, era lógico que também tivesse o poder de impedir que os outros espiassem.
Não é à toa que Takuma-san recomendou isso.
Lembrei-me da conversa com Takuma-san sobre tipos políticos e tipos CEOs. Ele também havia dito que as conspirações eram o campo onde meus talentos brilhariam mais intensamente.
Eu não me senti muito bem ao ouvir aquilo. Na verdade, preferia ter algum outro talento. Mas talvez eu estivesse errado? Talvez meu talento… existisse justamente para este momento?
— Itsuki.
No instante em que meu nome foi chamado, senti como se meu coração tivesse sido apertado por uma prensa. Desculpa — quase deixei escapar por reflexo, mas cerrei a boca. Eu ainda não havia feito nada de errado, mas me sentia terrivelmente inquieto.
Meu coração disparava, e suor frio escorria pela minha testa. Enquanto eu tentava agir com calma, Hinako me encarava atentamente.
— No que você está pensando?
— Estava pensando na próxima estratégia. É uma jogada muito boa.
Eu não estava mentindo. Mas Hinako não desviou o olhar nem por um segundo.
— É só isso mesmo?
Seu olhar puro e inabalável me prendeu no lugar.
— Agora há pouco, Itsuki… você estava com a mesma expressão do meu irmão quando ele pensa em algo ruim.
A mesma expressão de Takuma-san… Eu sabia o que Takuma-san representava para Hinako. Em outras palavras, ela havia me enxergado por completo. Sabia que eu estava prestes a recorrer a conspirações.
— Era tão óbvio assim?
— Mm. Mas o fato de você não tentar disfarçar prova que ainda é o Itsuki.
Hinako sorriu suavemente, como se estivesse aliviada.
— Itsuki, fique parado.
— Hã…?
Hinako se levantou e veio até mim. O que ela estava planejando? Queria espiar a tela do meu notebook?
Enquanto eu me perguntava isso, Hinako de repente envolveu os braços ao meu redor com força. Ela me puxou para perto, embalando a parte de trás da minha cabeça. Meu rosto ficou enterrado em seu peito delicado.
— Hi-Hinako!?
— Está tudo bem.
Uma voz gentil, tão gentil, caiu sobre mim de cima.
— Itsuki… está tudo bem.
A mão de Hinako acariciou suavemente minha cabeça.
— Você não pode deixar que um único fracasso faça você desistir.
Meu coração enfurecido começou a se acalmar, quase como por magia. O calor do toque dela derretia lentamente o ódio que apodrecia dentro de mim. Aquela garota, que havia suportado sofrimentos centenas de vezes maiores que os meus, estava me abraçando daquele jeito. Culpa e vergonha se misturavam dentro de mim.
— Mas…
As palavras escaparam da minha garganta sem permissão.
— Mas… esse era o único fracasso que eu não podia cometer…
Foi um fracasso imenso. Eu havia criado uma cena em que Tennouji-san e Narika pareciam se curvar diante de Joutou. Reverter aquela imagem de derrota nos poucos dias restantes seria quase impossível.
Se fosse apenas o meu fracasso, eu não me importaria. Mas eu havia imposto uma derrota às duas pessoas que eu admirava do fundo do coração. Era o único fracasso que eu não podia cometer—
— Isso não existe.
Hinako olhou diretamente nos meus olhos e falou com firmeza.
— Lembre-se de quando eu cometi aquele erro com a regra dos três segundos.
Eu não sabia aonde ela queria chegar, mas fiz como ela pediu.
Foi durante um jantar com parceiros de negócios, quando Hinako deixou um doce cair sem querer e o pegou de volta, citando a regra dos três segundos, apenas para ser repreendida por isso. Agora parecia bobo, mas, naquela época, ela tinha acabado de me conhecer e estava fascinada pela cultura dos plebeus. Aquilo devia ter escapado por hábito.
— Quem me ajudou naquela hora?
Pensei por um instante antes de responder.
— Shizune-san.
— Hehe… Não dizer que foi você é tão típico de você, Itsuki.
Hinako riu. Eu sabia o que ela queria dizer. Acho que eu também a ajudei. Mas, como me sentia parcialmente responsável pelo incidente, não conseguia reivindicar esse mérito com facilidade.
— Quem me ajudou foram você, Shizune, Tennouji-san, Miyakojima-san, Asahi-san e Taishou-kun.
Hinako listou cada nome com cuidado, como se oferecesse uma oração.
— Mas acho que, diretamente, quem me ajudou foram só você e Shizune.
O que ela queria dizer com isso?
— Acho que Tennouji-san e os outros ajudaram você.
— A mim…?
— Mm. Você me ajudou, Itsuki. E Tennouji-san e os outros ajudaram você.
Hinako disse aquilo com alegria.
— Itsuki… não se apresse. Sempre há pessoas ao seu redor prontas para ajudar você.
Seus olhos gentis refletiam meu rosto, afundado em desespero.
— Ninguém acha que você é um fardo.
Logo depois que Hinako disse isso—
Um pequeno toque soou no meu notebook, sinalizando a chegada de uma chamada de vídeo. Quem ligava era Tennouji-san.
— Viu?
Hinako sorriu, como se tivesse previsto exatamente aquele momento. Aceitei a chamada em silêncio.
"Tomonari-san!!"
A voz alta de Tennouji-san explodiu pelos alto-falantes do notebook.
"Da próxima vez, nós vamos vencer!!"
Ela falou com uma determinação ardente. Fui pego tão desprevenido por sua energia que fiquei imóvel por um instante.
"Hã?"
"Não venha com "hã"!! Aquela humilhação que provamos no debate… só de pensar nisso, minhas mãos tremem!! Vamos acertar as contas o mais rápido possível!!"
Ao ouvi-la, finalmente entendi o estado mental de Tennouji-san. Ela já estava pensando no que viria a seguir.
"Hm, é que…"
"O que foi!?"
"Quero dizer… você não sente nada sobre isso? Fomos completamente manipulados pela armadilha de Minato-senpai…"
"Isso é óbvio que faz meu sangue ferver!!" Um grito furioso ecoou. "Mas e daí!?"
Aquele grito era, em parte, direcionado à própria Tennouji-san.
"Infelizmente, estou bastante acostumada à derrota. Desde que entrei nesta academia, foi uma perda atrás da outra."
Só havia uma pessoa para quem Tennouji-san perdera repetidas vezes. A Ojou-sama perfeita: Konohana Hinako. A garota que estava bem ao meu lado.
"Já passei por humilhações que fizeram meu corpo tremer mais vezes do que consigo contar. Então, uma adversidade desse nível? Mal vale a pena mencionar!!"
É claro que devia haver frustração. Mas, para ela, não era algo no qual valesse a pena ficar presa. Para Tennouji Mirei, sentir frustração era apenas uma companheira constante em sua vida cotidiana.
Enquanto eu era engolido pela intensidade de Tennouji-san, o computador emitiu outro aviso de chamada recebida.
"…Narika?"
"Oh? Que momento perfeito, não acha?"
Narika estava solicitando entrada na nossa chamada de vídeo. Como também usávamos aquele aplicativo no Management Game, Tennouji-san, Narika e eu já estávamos familiarizados com ele.
Quando aprovei a solicitação de Narika, seu rosto apareceu no monitor, e sua voz veio pelos alto-falantes.
"Desculpem interromper a chamada."
"Não, tudo bem. …Então, hm, você precisava de alguma coisa?"
"Bem, não é tanto uma questão de precisar de algo. É mais uma declaração."
Uma declaração?
Inclinei a cabeça, e a expressão de Narika se tornou mortalmente séria.
"Itsuki. Nós temos que vencer."
Com uma determinação feroz e um ar digno, Narika deixou clara sua resolução.
"Minato-senpai pode ter tido suas próprias intenções, mas, independentemente das circunstâncias, usar métodos desleais para sabotar os outros é imperdoável. Joutou-kun, que fechou os olhos para esses métodos, também carrega responsabilidade."
Narika continuou:
"Quando recebi sua mensagem, Itsuki, lembrei-me da ocasião em que fiz minha demonstração de iaijutsu. …A técnica de espada de Joutou-kun era realmente impressionante. É exatamente por isso que precisamos colocá-lo no caminho certo. Talvez eu esteja interpretando demais, mas ele não parece alguém naturalmente íntegro? Se um homem assim recorre a táticas tão tortuosas, precisamos pôr fim a isso agora mesmo. Para alguém que almeja ser presidente, desviar-se do caminho justo não é nada menos que uma falha de honra."
"…Você fala como se fosse uma samurai ou algo assim."
"Você se esqueceu? A família Miyakojima descende de uma linhagem de samurais."
Ah, é mesmo. Era verdade.
Seu jeito exageradamente dramático de falar parecia estranhamente adequado, porque a postura habitual de Narika carregava uma dignidade que lembrava a de uma samurai.
Lembrei-me de quando, durante o Management Game, ela me entregou um pergaminho pendurado com os Cinco Preceitos Miyakojima, o código de sua família. Uma daquelas linhas dizia algo assim, não dizia?
O espírito da nossa companhia deve ser defender a justiça.
Defender a justiça… Com a crença inabalável de Narika nesse princípio diante de mim, eu nem conseguia pensar em me rebaixar a conspirações. Suponhamos que eu recorresse às mesmas táticas de Joutou e seu grupo. Nesse caso, provavelmente acabaria sendo metaforicamente cortado ao meio pela própria Narika.
"…Entendi."
Sim, era isso mesmo. Por que eu estava agindo como se tivesse sido encurralado sozinho?
Eu tinha pessoas tão confiáveis ao meu lado…
Quando olhei de relance para Hinako, ela me ofereceu um sorriso gentil e assentiu em silêncio. Assim como Hinako havia dito, eu estava cercado de pessoas dispostas a me ajudar. Soltando o ar devagar, eu—bati nas duas bochechas com toda a força.
"T-Tomonari-san!?"
"I-Itsuki!?"
Talvez eu tivesse exagerado um pouco, porque Tennouji-san e Narika soaram genuinamente preocupadas.
"Desculpem, foi só para me animar."
"S-Se animar? Seu rosto está inchando…!"
"Ainda não foi o suficiente. Eu estava pensando se devia usar os punhos."
Mas, com aquilo, senti como se o antigo eu, afundado em desânimo, tivesse morrido. Se eu voltasse a cair em desespero… então, mais uma vez, eu contaria com elas para me puxarem de volta.
"Vamos vencer. Quero começar a pensar em estratégias agora mesmo."
"Sim…!"
"Nem precisava dizer duas vezes!"
Ao ver o entusiasmo delas, encontrei uma centelha de esperança. Ainda não acabou. Nós não perdemos. Ainda podemos virar o jogo.
"Vai ser uma noite longa, então vou pegar algumas bebidas!"
Dizendo isso, levantei-me e saí do quarto em direção à cozinha. No instante em que dei um passo para fora, quase esbarrei em Shizune-san, que empurrava um carrinho de chá.
— Shizune-san?
— Parecia que seria uma noite longa, então trouxe algumas bebidas.
— Como você sabia?
— Eu simplesmente sei. Afinal, estou ao seu lado há muito tempo.
Por algum motivo, as palavras dela me deixaram um pouco envergonhado. No carrinho de chá, havia bebidas preparadas também para Hinako. O bule provavelmente continha chá, certo? Ter algo tão refinado em um momento como aquele era uma salvação. Aquilo realmente levantou meu ânimo.
— Itsuki-san.
Shizune-san chamou meu nome em um tom formal.
— Não se deixe levar pela presunção. Nem Tennouji-sama nem Miyakojima-sama dependem de você. Só porque você está abatido, isso não significa que as outras duas ficarão perdidas.
— Você tem razão. Acho que fui um pouco arrogante.
Por causa daquele erro, eu havia ficado tão abatido que pensei que todos nós estávamos condenados. Mas isso era arrogância da minha parte. O que para mim parecia o fim do mundo talvez não fosse o mesmo para Tennouji-san ou Narika.
Por mais fundo que eu mergulhasse no desespero, para aquelas duas, aquilo talvez fosse apenas mais um obstáculo que ainda podiam superar. Eu havia deixado passar uma possibilidade tão óbvia.
— Relaxe os ombros.
Shizune-san me ofereceu um sorriso gentil.
— Por meio de um esforço incansável, você cresceu o bastante para carregar o futuro de outra pessoa nas costas. Mas carregar esse peso nem sempre é a escolha correta. Mesmo que tenha força para isso, às vezes é melhor não assumir esse fardo.
Era um conselho precioso.
Depois do Management Game e de superar algumas tempestades nesta eleição, eu havia começado a sentir meu próprio crescimento, mesmo que só um pouco.
Então talvez eu tivesse me deixado levar um pouquinho.
Fui enganado por Minato-senpai? Fui abalado pelos esquemas de Joutou?
Desde quando eu me tornei o tipo de pessoa que perde a calma por algo assim? Minato-senpai, a ex-presidente do conselho estudantil, estava muito acima de mim desde o começo. E Joutou era um cara excepcionalmente talentoso. A possibilidade de perder sempre existiu desde o início.
Não havia problema em querer denunciar as táticas obscuras deles. Mas ficar remoendo o fato de ter sido superado? Aquele não era o momento para isso.
O que eu mais lamentava era ter decepcionado Tennouji-san e Narika. Mas aquelas duas não eram do tipo que deixava o espírito ser abatido com tanta facilidade.
Voltei para o quarto junto com Shizune-san. Hinako olhou para trás, e Shizune-san lhe fez uma reverência educada antes de posicionar o carrinho de chá no centro do quarto.
Peguei uma xícara com pires, coloquei-a sobre a mesa e me sentei.
"Desculpem pela demora."
"Oh, você já trouxe?"
"Sim, Shizune-san preparou para nós."
Tennouji-san sabia sobre Shizune-san. Quando revelei minha verdadeira origem, ela mencionou especificamente consultar Shizune-san em vez de Kagen-san.
Tomei um gole do chá. Ele tinha um leve toque de gengibre, aquecendo meu corpo e aumentando minha energia.
A propósito, enquanto eu pegava o chá, a imagem de Narika havia desaparecido do monitor. Para onde ela foi? pensei. Então ouvi passos altos, e Narika se jogou de volta no assento.
"Consegui permissão da minha mãe!! Podemos virar a noite!!"
"Hm, eu preferiria evitar virar a noite, já que isso vai atrapalhar a gente amanhã…"
"O quê!? M-Mas eu estava ansiosa por isso…"
Ao ver Narika murchar como uma criança decepcionada, dei um sorriso amargo. Eu não queria virar a noite, mas aquela atitude cheia de vontade sem dúvida elevava nosso moral.
Enquanto uma atmosfera animada começava a preencher o quarto—
— Então eu também emprestarei minha modesta força à causa.
— Hi—Ko, Konohana-san!?
Quase a chamei de Hinako como de costume, mas me corrigi às pressas. O comentário repentino de Hinako me assustou tanto que quase pulei da cadeira, mas—
…Bem, acho que tudo bem com essas duas.
Ao contrário do resto da academia, Tennouji-san e Narika sabiam que eu era apenas um plebeu e que morava na casa de Hinako. Ao perceber que não precisava entrar em pânico, acalmei-me, mas…
"Khh…!"
"Mgh…!"
Por algum motivo, as expressões de Tennouji-san e Narika ficaram sombrias.
"E-Eu sabia que vocês dois moravam no mesmo lugar, mas…"
"Ver isso com meus próprios olhos… atinge direto o peito…!"
Tennouji-san parecia ter mordido algo amargo, enquanto Narika apertava o próprio peito de forma dramática.
Bem, agora que elas mencionavam, ver Hinako e eu com roupas casuais, passando tempo no mesmo quarto, provavelmente dava uma sensação de proximidade muito maior do que aquilo que elas estavam acostumadas a ver na academia.
Ao notar a reação das duas, Hinako exibiu um breve sorriso triunfante.
— Tomonari-san, gostaria de uma massagem nos ombros?
— Hã? Ah, claro. Obrigado…
Por que ela estava oferecendo isso de repente? Não que eu fosse reclamar, já que era agradável, mas… Os braços finos de Hinako pousaram suavemente sobre meus ombros.
"Ah— Aaaah!? K-Konohana Hinako!? O que você está fazendo!?"
"Itsuki!! Por que você aceitou isso!? Isso é trapaça — quer dizer, é indecente!!"
Indecente, sério? Meus ombros estão perfeitamente limpos, muito obrigado.
— Hehe… Tomonari-san, seus ombros estão tão tensos.
"E-E-E-Espera, você não está tocando nele demais!?"
"Isso, isso!! Isso não é massagem, você praticamente está acariciando ele!!"
Certo, eu estava pensando a mesma coisa.
Parecia menos uma massagem e mais como se ela estivesse me acariciando delicadamente por toda parte, o que dava até um pouco de cócegas.
Depois de um tempo, Hinako finalmente soltou meus ombros.
— Ufa… Desculpe, estou ficando com um pouco de sono. Tomonari-san, sinto muito pedir, mas posso pegar sua cama emprestada?
— Hm, tudo bem, mas…
Espera…? Ela não tinha acabado de dizer que ia ajudar…?
"A-A-A cama do Tomonari-san!?"
"D-D-D-De jeito nenhum!! Isso é absolutamente indecente — de jeito nenhum!!"
Tennouji-san se inclinou para trás de forma dramática, e Narika apontou para nós com uma convicção feroz.
Os gritos altos das duas devem ter ecoado, porque ouvi portas se abrindo nos respectivos quartos delas, seguidas pelas vozes das criadas:
"Ojou-sama!?"
"O que houve!?"
Mas Tennouji-san e Narika estavam grudadas nos monitores, olhando fixamente para nós. Enquanto isso, Hinako se jogou na minha cama e murmurou, feliz:
— Hehe… Tem o cheiro do Tomonari-san.
"Eu vou perder a cabeçaaaaa!!"
"Haa… Haa, haa…! Por algum motivo, estou morrendo de vontade de pegar minha espada…!"
Tennouji-san estava praticamente arrancando os próprios cabelos, e Narika tremia de intensidade. As criadas atrás delas pareciam pálidas de preocupação. Ouvi algo sobre "perder os sentidos", mas elas vão ficar bem, certo?
Eu nem tinha dormido naquela cama desde que cheguei em casa naquele dia, então provavelmente ela só cheirava a sabão ou amaciante. Com o inverno se aproximando, as criadas trocaram nossa roupa de cama por edredons de plumas, que não podem ser lavados com amaciante, então provavelmente era apenas o cheiro do sabão.
Sinceramente, a cama de Hinako provavelmente tinha o mesmo cheiro, mas… Hinako sorria de forma travessa, claramente se divertindo com as reações atrapalhadas de Tennouji-san e Narika.
— Hehehehe…
Hinako…? Você… só está provocando elas…?
— Com licençaaa!
A porta se abriu de repente. Quem entrou no quarto com uma voz despreocupada foi Yuri.
— Trouxe alguns doces para o chá recém-assados!
— Obrigada, Hirano-san.
Hinako fez uma reverência elegante, completamente como a Ojou-sama perfeita. Enquanto isso, eu fui pego de surpresa, já que só agora descobria que Yuri estava na mansão naquele dia.
— Hina… Konohana-san, você sabia que Yuri estava aqui o tempo todo?
— Sim. Ela disse que ficaria praticando culinária até tarde hoje.
— Por que não me contou?
— Você parecia estar pensando demais nas coisas.
Então ela ficou quieta por minha causa, hein? Eu não sabia o que dizer, mas Yuri apenas riu.
— Se você está deixando todo mundo se preocupar com você desse jeito, ainda tem um longo caminho pela frente.
— É, você tem razão. Tenho muita coisa para melhorar.
— Exatamente. Coma um pouco de açúcar e volte logo a si.
Yuri colocou uma bandeja no carrinho de chá, carregada de biscoitos de todos os formatos. Peguei um e o coloquei na boca.
…Era reconfortante.
A gentileza de todos realmente penetrava fundo no meu coração. Saboreando a doçura do biscoito, voltei a me virar para o computador com o foco renovado.
— Vamos fazer isso.
Era para ser apenas um murmúrio para mim mesmo, mas Tennouji-san e Narika, visíveis no monitor, assentiram com expressões sérias.
A pausa havia acabado. A noite prometia ser longa.
— Tudo bem se eu ficar por aqui assistindo?
Yuri perguntou, um pouco hesitante.
— Claro. Provavelmente não vai ser tão empolgante assim, mas…
— Ah, vai ser empolgante.
Yuri disse aquilo como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
— Assistir ao Itsuki é divertido. Não é, Konohana-san?
— Sim. Nunca é entediante.
— Concordo plenamente.
— Eu poderia ficar observando-o o dia inteiro.
Por que todo mundo está tão de acordo com isso…? Sentindo o olhar de Yuri sobre mim, conferi os formulários da pesquisa.
— O período eleitoral chegou aos seus dois últimos dias. No último dia, teremos apenas os discursos da manhã, então amanhã é nossa única chance de agir.
No dia final, os candidatos fariam seus discursos no auditório pela manhã, seguidos imediatamente pela votação e pelo anúncio dos resultados.
Se quiséssemos executar uma estratégia ousada, amanhã seria nossa única oportunidade. Mas a situação — logo após uma derrota no debate — não nos permitia movimentos imprudentes. Até ontem, Joutou tinha uma leve vantagem no apoio. Graças à nossa vantagem inicial, a diferença não era enorme, mas, considerando que nosso apoio poderia cair amanhã, uma estratégia conservadora provavelmente não seria suficiente para virar o jogo.
"Quero fazer algo ousado, como nossa campanha de marketing de guerrilha."
Tennouji-san entrou na conversa.
"Isso é alto risco e alta recompensa… Tem certeza?"
"Sim. Se fizermos algo chamativo o bastante para fazer todos esquecerem o resultado de hoje, esse será o objetivo. Esconder nossa derrota não me agrada, mas, pelo que ouvi, esta não foi uma derrota que eu possa aceitar com elegância."
Era uma opinião racional, nascida de sua mentalidade voltada para o futuro.
Se conseguíssemos realizar algo grande o bastante para apagar a lembrança da derrota no debate, encontraríamos um caminho para a vitória.
"Narika, você está de acordo?"
"Sim, estou dentro."
"Certo. …Então vamos pensar em ideias com essa abordagem em mente."
Depois de conduzir a conversa para uma sessão de brainstorming, olhei novamente para os formulários da pesquisa.
(N/SLAG: O brainstorming é uma técnica de dinâmica de grupo ou individual que visa a geração de ideias, soluções ou insights criativos em um curto período de tempo.)
Enquanto tentava pensar em boas ideias, o rosto de Takuma-san surgiu na minha mente.
…Desculpe, Takuma-san.
Pedi desculpas ao meu mentor em silêncio. Toda essa provação me fez perceber uma coisa.
Eu simplesmente não sirvo para conspirações.
Quando Hinako chamou meu nome enquanto eu ponderava algo obscuro, quase pedi desculpas por reflexo. Meu coração ficou tão aterrorizado que eu quase chorei sem perceber.
Talvez eu fosse capaz de elaborar esquemas, mas não tinha coragem de colocá-los em prática. Isso não fazia parte de mim. …Eu não tinha nervos para armar contra as pessoas.
Só de imaginar alguém enxergando através das minhas más ações, eu ficava morto de medo. Provavelmente perderia a capacidade de encarar meus amigos nos olhos. Minhas mãos e minha voz tremeriam, e eu nunca mais conseguiria dormir à noite.
Então, se eu tenho algum talento… vou usá-lo apenas para o que é certo.
Talvez eu acabasse traindo as expectativas de Takuma-san. A relação de mestre e discípulo, formada de maneira tão casual, talvez finalmente chegasse ao fim. Mesmo assim, decidi manter distância de conspirações e tramas.
O talento para enxergar o lado oculto dos dados. Eu usaria isso para o que era certo.
Concentrei-me e li a pesquisa.
…Olhe para os sentimentos honestos dos alunos que responderam. Nas profundezas desta única folha de papel, os verdadeiros pensamentos dos estudantes certamente estão escondidos.
Concentre-se, concentre-se, concentre-se—
Então, percebi algo.
No início, descartei aquilo como algo trivial. Mas, conforme continuei encontrando coisas semelhantes, comecei a vê-lo como uma possível arma, uma que poderia virar o jogo.
Reuni as folhas da pesquisa em uma única pilha e me virei para Hinako.
— Konohana-san, você poderia separar estes questionários da forma que eu disser?
— Entendido.
Ufufu, que delícia, pensei, imaginando Hinako relaxando com Yuri, conversando sobre coisas gostosas. Pedir ajuda àquelas duas, que vinham ficando tão próximas ultimamente, parecia perfeitamente adequado.
Entreguei a pilha de papéis a Hinako e expliquei como separá-los.
— Por favor, separe aqueles que falam sobre a eleição daqueles que falam sobre o que vem depois da eleição.
Os olhos de Hinako se arregalaram levemente. Era um pedido estranho, mas carregava uma intenção clara. Se era esse o caso…
— Você enxergou alguma coisa, não foi?
— Sim. Vou ter que pensar em uma solução depois, mas…
Hinako deve ter sentido que eu tinha um plano. Sem perguntar mais nada, começou a separar as folhas da pesquisa.
— Só uma pergunta simples, mas o que exatamente o conselho estudantil faz?
A pergunta de Yuri me fez parar e pensar antes de responder.
— Muitas coisas. Compra de suprimentos, distribuição de orçamento, escolha de convidados para eventos…
— Eventos, tipo o festival cultural?
— Sim. O primeiro grande trabalho do conselho estudantil provavelmente é organizar o festival cultural.
— Oooh, que legal!
Yuri parecia genuinamente interessada.
— O festival cultural da Academia Kiou é só para convidados, certo? É melhor você me convidar direitinho, entendeu?
— Entendido.
— Ótimo. …Estou ansiosa por isso.
Yuri sorriu, claramente animada. Ao vê-la daquele jeito, tive certeza de que meu raciocínio não estava errado.
— Não é?
Minha afirmação repentina fez Yuri inclinar a cabeça, curiosa.
— Vai ser divertido, não vai? O festival cultural.
Yuri inclinou ainda mais a cabeça.
Naquela pequena troca, captei um indício da virada que eu tanto vinha procurando. Assim que Hinako terminasse de separar os questionários, eu conferiria o conteúdo deles mais uma vez, mas já podia dizer que minha próxima estratégia estava praticamente definida.
Olhei para o monitor, onde Tennouji-san e Narika apareciam.
"Eu pensei em um plano."
Expliquei os detalhes a elas. No início, as duas ficaram surpresas, mas, conforme continuei, suas expressões passaram a demonstrar compreensão.
Ambas pareciam entender o potencial que eu sentia naquele plano. Depois que pensei nele, parecia a única opção possível.
Como nenhum de nós conseguiu pensar em algo melhor, começamos a lapidar os detalhes. Revisei os questionários separados por Hinako, confirmei que aquele plano funcionaria e continuei elaborando a estratégia até quase virar a noite.
A empolgação de sentir que havia encontrado uma brecha continuava me empurrando para a frente, apesar do meu estado abalado.
Mas foi justamente por isso que não percebi até o último momento.
Quando Narika soube o que Minato-senpai havia feito conosco, ela disse: "Nós temos que vencer." Ela também disse: "Ele é alguém que precisamos colocar no caminho certo."
Nem uma única vez ela disse "eu".
E eu só percebi isso quando já era tarde demais.
◆
Depois que a chamada de vídeo terminou, Narika soltou um suspiro baixo.
Já era tarde da noite. Ela precisava dormir logo. Quando a conversa começou, estava pronta para virar a noite, mas agora que o sono começava a se insinuar, sua mente já não funcionava tão bem, e ela se arrependia da ineficiência daquilo.
— Mais dois dias, hein…
Ela murmurou os dias restantes do período eleitoral que Itsuki havia mencionado. Hoje era quinta-feira, então amanhã seria sexta, e depois viria a segunda-feira, após o fim de semana. A eleição terminaria nesses dois dias.
Até segunda-feira, eles precisavam chegar a uma conclusão.
— Este dilema… eu também preciso resolvê-lo.
(N/SLAG: Eu já estava suspeitando que isso ia acontecer. Mas não vou falar nada agora, não quero dar spoilers caso eu esteja certo.)
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