O Dilema de Um Arquidemônio: Como Amar sua Noiva Elfa — Capítulo 18: Volume 3 – Capítulo 2 – Capítulo 2: Um Cruzeiro Pode Criar uma Boa Atmosfera

O Dilema de Um Arquidemônio: Como Amar sua Noiva Elfa
Cap. 18
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O Dilema de Um Arquidemônio: Como Amar sua Noiva Elfa

Volume 3 – Capítulo 2 – Capítulo 2: Um Cruzeiro Pode Criar uma Boa Atmosfera

Capítulo 18

15.440 palavras~67 min de leitura

Afinal… quem era aquela garota, eu me pergunto…

No dia do baile noturno, Nephy estava se vestindo dentro de uma loja de roupas.

Zagan havia providenciado para que um novo vestido fosse feito especialmente para Nephy usar no baile noturno, mas nenhum dos dois sabia como se vestia um traje daquele tipo. Da última vez que Nephy havia usado um vestido, alguém o havia colocado nela por completo.

E quem apertava os cordões do espartilho de Nephy, com suas belas asas verdes tremulando enquanto se movia, era sua boa amiga Manuela. Havia um espelho de corpo inteiro à frente de Nephy, e ela apenas permanecia ali parada, com os braços estendidos, enquanto Manuela continuava a vesti-la com uma habilidade digna de elogios.

[Almeranto: Espartilho é como se fosse uma cinta modeladora que serve para definir a região do tronco. E é bem apertado.]

Depois de algum tempo ajustando a força do laço, sua amiga Manuela lhe fez uma pergunta.

“Esse espartilho está doendo?”

“Não. Estou bem.”

“Se você pretende comer bastante, posso afrouxar um pouco, sabia?”

“Eu não vou comer tanto assim”, respondeu Nephy, tentando esboçar um sorriso amargo enquanto as pontas de suas orelhas tremiam. No entanto, mesmo enquanto fazia isso, aquilo que ainda preocupava o coração de Nephy era a ‘Nephy Sombria’ que a atacara em Kianoides.

Zagan a havia confortado, mas aquela garota certamente estaria presente no baile noturno para o qual eles estavam indo. Ao pensar que a encontraria novamente, Nephy acabou ficando com medo.

Eu… sou você — o que exatamente aquilo significava? — Observando sua própria figura refletida no espelho, Nephy de repente tentou tocar a própria bochecha. Se as cores do rosto de Nephy fossem invertidas, então o daquela garota seria exatamente igual.

Acima de tudo, ela era uma criança amaldiçoada, com cabelos branco-neve exatamente como os de Nephy. Contudo, seus olhos estavam distorcidos pelo ódio. Em comparação com Nephy, que havia abandonado tudo e qualquer coisa, aqueles olhos eram como antípodas.

E mais do que isso, o poder que aquela garota empunhava era aterrador. Era uma feitiçaria que manipulava cristais. Sem dúvida, era um poder assustador, mas se perguntassem se ele superava a feitiçaria que Zagan e Foll utilizavam, a resposta seria um claro não. Ainda assim, tendo iniciado seus estudos em feitiçaria sob a tutela de Zagan, Nephy compreendia.

Eu consegui entender… exatamente o que aquela pessoa estava dizendo…

Aquele era um poder com uma estrutura diferente da feitiçaria que aqueles dois utilizavam — um poder próximo do misticismo. Enquanto pensava que aquilo era terrível, Nephy sequestrou o poder dela com “aquela linguagem” no instante seguinte e foi capaz de comandá-lo como se fosse seu.

Era por isso que as palavras da ‘Nephy Sombria’ atravessavam seu coração como lâminas. “Aquelas palavras” certamente eram algo ruim. E ainda assim, Nephy compreendia seu significado e, provavelmente, até mesmo apenas pronunciá-las…

Será que eu também… acabarei assim algum dia…?

Detestar algo, matar pessoas com calma, empunhando aquele poder aterrador de uma forma tão horrível. Zagan lhe daria seu amor se ela fosse assim? Não, com certeza não daria. Se ela se agarrasse a ele, ele definitivamente nunca abandonaria Nephy. Contudo, ela apenas se tornaria um parasita para ele… um estorvo.

Ser reduzida a algo inútil daquele jeito seria insuportável. A razão pela qual Nephy retornara ao serviço de Zagan após ser expulsa do castelo era porque queria apoiá-lo. Foi por isso que Nephy não conseguia abrir seu coração sobre aquilo, nem mesmo para Zagan. E, enquanto abraçava os próprios ombros e tremia, uma mão gentil envolveu seu braço.

“Nephy, você está bem?”

Era Manuela. Antes mesmo de Nephy perceber, ela já havia terminado de colocar o vestido. Era um vestido de tonalidade monocromática, que utilizava o branco como tema subjacente, enquanto seus principais detalhes eram ornamentos pretos. Havia também uma fita de um vermelho profundo disposta ao redor do peito, que transmitia uma impressão marcante. Somando-se ao fato de que havia sido preparado para ela por Zagan, Nephy achava que aquele vestido era mais do que ela merecia.

Mesmo assim, Nephy balançou a cabeça como se nada estivesse acontecendo.

“Estou bem. Eu só estava… pensando um pouco.”

“Você não parece nem um pouco bem…”

Manuela então beliscou as bochechas macias de Nephy.

“Nephy, mesmo nos melhores momentos, os músculos do seu rosto já são rígidos, mas agora parece que você está usando uma máscara. Acha que está tudo bem fazer essa cara quando vai a uma festa com o seu mestre?”

“Isso… não está… tudo bem.”

“Viu só? Então talvez seja melhor conversar sobre o que aconteceu.”

À sua maneira, Manuela estava dizendo a Nephy que lhe daria conselhos. Nephy era naturalmente grata por sua consideração, mas era algo que ela ainda nem havia contado a Zagan. Não era algo que pudesse ser colocado em palavras com tanta facilidade.

E, como se pudesse enxergar através do coração de Nephy, Manuela fitou o rosto dela refletido no espelho.

“É sobre… aquela feiticeira que perdeu o controle recentemente na cidade e que se parecia exatamente com você, Nephy?”

O corpo de Nephy estremeceu de surpresa. Não parecia que Manuela a tivesse visto pessoalmente, mas se ela tinha ouvido falar, então aquilo significava que já havia se tornado um boato na cidade ou algo do tipo. Manuela então exibiu um sorriso malicioso.

“O choque aparece no seu rosto na mesma hora, sabia?” disse Manuela, envolvendo o corpo de Nephy por trás com suas asas verdes. “Aquela garota… era família? Ou talvez uma conhecida?”

“…Não, eu não acho… que sejamos conhecidas.”

Nephy nunca a tinha visto na vila élfica onde viveu. E, honestamente, se ela fosse da vila, Nephy certamente teria ouvido rumores sobre uma garota que estivesse na mesma situação que ela.

“…É só que… eu realmente… não gostei dela.”

“Bem, ela é do tipo que lançaria um ataque de repente bem no meio da cidade, então isso faz sentido.”

“…Eu não… quero… nunca acabar como ela.”

Quando Nephy disse isso, mal conseguindo espremer a voz para fora, Manuela esfregou o rosto na bochecha de Nephy, do mesmo jeito que Zagan havia feito outro dia.

“Nephy bobinha. Não tem como você acabar daquele jeito, certo?”

Manuela não sabia… que Nephy entendia a linguagem que a ‘Nephy Sombria’ usava, nem que Nephy havia manipulado o poder daquela garota como se fosse seu próprio. Ainda assim, enquanto Nephy era incapaz de responder, Manuela continuou falando como se achasse aquilo estranho.

“Se você está tão preocupada assim, é só voltar para a minha casa de novo. Sua irmãzona vai te transformar de volta na Nephy de sempre quando quiser… Ou o quê, você não confia em mim?”

“Não é… isso.”

“Então está tudo bem, não está? Nephy, você tem a mim e o seu mestre ao seu lado. Tem também a pequena Foll e todas as pessoas da cidade!”

O peito de Nephy ficou quente. Ela, que havia fechado o próprio coração por causa da solidão, agora estava sendo tratada com bondade por Zagan, Manuela e todos na cidade.

“…Mas, se eu me agarrar a alguém desse jeito, sinto que acabarei me odiando.”

Quando Nephy disse essas palavras, gemendo de angústia, Manuela deu um peteleco em sua cabeça.

“Nephy, isso não se chama ‘se agarrar’. Chama-se ‘confiar em alguém’, certo?”

“Confiar em alguém…?”

Nephy a encarou, atônita, e Manuela afagou gentilmente sua cabeça.

“Isso mesmo. Você confia em nós. Não ter ninguém em quem confiar é realmente triste, sabia?”

Se agarrar e confiar… são coisas diferentes?

Para Nephy, que sempre estivera sozinha na vila élfica, as duas palavras não pareciam diferentes em nada. Se ela tentasse “se agarrar” a alguém, sem exceção, seria atingida e rejeitada, enquanto era olhada com frieza e desprezo. “Confiar em alguém” deveria ser a mesma coisa. Afinal, era um pecado uma criança amaldiçoada como ela sequer existir.

O fato de Nephy ter desistido de “se agarrar” e de “confiar” nos outros foi algo que aconteceu quando ela ainda era extremamente jovem.

Mestre Zagan… é diferente de todos os elfos.

Ela entendia isso, mas já havia esquecido há muito tempo até mesmo o conceito de confiar nas pessoas. Ela não sabia como “confiar” nos outros de forma alguma… E então, Manuela falou como se tivesse visto através dos pensamentos no coração de Nephy.

“Então, se o Zagan acabasse em uma situação como a sua, o que você gostaria de fazer?”

“Isso não é óbvio? Eu iria querer que ele me contasse sobre isso, não importa o quê, e eu o apoiaria… Ah…”

No meio de se empolgar para argumentar veementemente seu ponto, Nephy deixou escapar uma voz confusa.

“É assim que funciona. Não parece ruim, parece?”

“…Você está certa.”

Se Nephy avançasse por vontade própria, se ela não parasse e se agachasse, aquilo não seria “se agarrar” a alguém. Não seria o mesmo que ser um parasita unilateral. E essa percepção permitiu que Nephy finalmente desse um passo à frente.

“Eu vou… tentar conversar sobre isso direito com o Mestre Zagan.”

Esse era o problema de Nephy. Não importava quem aquela ‘Nephy Sombria’ fosse, e mesmo que algo em Nephy viesse a mudar ao se envolver com ela, Nephy precisava acertar as contas.

Sim, eu quero que o Mestre Zagan saiba.

Era por isso que ela não se preocuparia sozinha, e, em vez disso, abriria devidamente seu coração para Zagan. E, quando Nephy lhe informou isso, Manuela acariciou sua cabeça para elogiar sua adorável irmãzinha.

“Pronto, pronto. Se algum dia você sentir vontade de chorar, é só vir direto até mim. Eu até mantenho isso em segredo do seu mestre.”

“Se isso acontecer, ficarei sob seus cuidados”, respondeu Nephy obedientemente.

Achando a resposta inesperada, Manuela a encarou, surpresa. E, depois de um tempo, formou um sorriso como se tivesse pensado em uma travessura nada apropriada.

“Fufufu, eu estarei esperando, tá bom? Tenho uma quantidade enooooorme de roupas íntimas para recomendar, sabia?”

“Eu me absterei de tais coisas.”

Ao ver sua boa amiga puxar uma calcinha que parecia ser feita apenas de cordões, Nephy recusou categoricamente.

♱

Algumas horas depois, Zagan e os demais se reuniram a bordo de um luxuoso barco de passageiros que provavelmente conseguiria suportar até mesmo uma viagem de vários meses. O barco, que flutuava sobre a superfície do maior lago do continente, Suflighida, era o local do baile noturno realizado pelo Arquidemônio Bifrons. E, enquanto olhava para fora da janela de um dos quartos de hóspedes, Foll soltou um suspiro profundo.

“Estamos em um navio… certo? Tipo, no lago?”

O tamanho descomunal do lago a fazia acreditar que ele poderia engolir até mesmo uma ilha. Se partissem para o mar aberto, a costa se tornaria apenas um borrão, e a profundidade era tal que, não importava o que alguém fizesse, não seria possível mergulhar até o fundo.

Zagan e os outros foram conduzidos a uma grande cabine totalmente mobiliada. Ela possuía um salão que poderia rivalizar em tamanho com o saguão de entrada de um castelo, e havia até quartos privados disponíveis para todas as pessoas presentes. Foll estava espiando pela janela do salão. Era uma pequena janela embutida que não podia ser aberta, mas, devido à altura próxima ao convés do navio, era possível enxergar o exterior.

Se fosse necessário classificá-la, certamente seria uma cabine de primeira classe. Em um canto do salão havia um refrigerador que utilizava feitiçaria para impedir que o gelo derretesse, e dentro dele havia até uma seleção de bebidas alcoólicas resfriadas. Além disso, também havia presunto, queijo, chocolate e todo tipo de doces delicados, de modo que seria possível sobreviver ali mesmo se ficassem presos por vários dias.

Além de Foll, que estava grudada à janela, Zagan, Nephy e Raphael também estavam reunidos no local. Os três estavam sentados como bem entendiam, cada um em uma cadeira diferente. Chastille ainda não havia chegado. Afinal, como uma Cavaleira Angélica, se fosse vista se dando bem com o Arquidemônio Zagan em público, não havia como prever quantos inimigos ela faria. Por isso, decidiram se encontrar apenas no local do evento.

Zagan vestia seu manto habitual, mas Nephy e as outras estavam usando vestidos, embora tenha sido Manuela quem decidiu tudo unilateralmente e organizou as roupas de todas. Nephy usava um vestido de estilo monocromático, enquanto Foll vestia um vestido com uma saia curta e cheia de babados.

Quando os olhos de Zagan se encontraram com os de Nephy, as pontas de suas orelhas pontudas ficaram vermelhas, e ela desviou o olhar para baixo. Quando foi se trocar, ela parecia levemente confusa, o que o deixou preocupado, mas agora aparentava estar bem. Seus problemas haviam sido resolvidos… ou melhor, parecia que ela havia reunido alguma determinação.

E apenas por isso, Nephy parecia ainda mais bonita. — O traje de empregada que ela costuma usar é adorável, mas esse vestido é realmente lindo, não é?!

E como, exatamente, ele deveria colocar esses sentimentos em palavras?

Zagan não conseguiu fazer nada além de soltar um suspiro. O sol já havia se posto, mas ainda havia um pouco de tempo antes do início do baile noturno. E assim, decidiram esperar. Enquanto matavam o tempo sem fazer nada, Zagan baixou o olhar para o selo em sua mão direita.

Será que Bifrons já chegou?

Desde que embarcara no navio, o Selo do Arquidemônio de Zagan pulsava de tempos em tempos, como se retivesse calor. Talvez a proximidade de outro selo estivesse causando algum tipo de reação. Dito isso, Nephy e os outros provavelmente estavam se sentindo tão inquietos quanto ele.

E sendo assim, não havia como nem mesmo ele fazer uma expressão dessas.

Tentando se distrair, Zagan desviou sua atenção para Foll. Os olhos âmbar de sua jovem filha brilhavam, e dava para perceber que ela estava absorta em alguma coisa.

“É a sua primeira vez em um barco?”

“Sim… Quer dizer, não havia necessidade de andar em um.”

“Entendo. Isso é verdade.”

Não vinha à mente de Zagan nenhum motivo real para que um dragão como Foll se desse ao trabalho de andar em um barco humano. Talvez fosse possível fazê-lo por diversão, mas, como uma jovem dragão, Foll provavelmente nem sequer descia sozinha até os habitats humanos, e seu pai era o dragão reverenciado como o Sábio Dragão Orobas. Era um pouco difícil imaginar que ele se disfarçaria de humano apenas para andar de barco.

“Você está gostando?”

“Mm. Ele balança bastante. E é divertido.”

“É isso que você gosta…?” Zagan pensou que ela estivesse apreciando a paisagem, mas parecia que era o balanço do barco que a divertia.

Nephy então inclinou a cabeça para o lado.

“Mestre Zagan, o senhor já andou em um navio antes?”

Pelo jeito que ela perguntou, parecia que essa também era a primeira vez de Nephy em um barco.

Bem, dizem que a vila élfica oculta fica ainda mais ao norte, nas montanhas, do que Norden, então isso fazia sentido. — Ela provavelmente nunca tivera a oportunidade de entrar em contato com barcos. Pensando nisso, Zagan assentiu com seriedade.

“Quando eu era um moleque, caí dentro de um carregamento enquanto mexia nele tentando roubar comida, e então alguém fechou a tampa e me colocou a bordo junto com a carga. Foi bom ter conseguido algo para comer, mas quase acabei sufocando.”

Depois disso, um marinheiro percebeu alguns sons e o resgatou da carga, mas então ele foi confundido com um clandestino e acabou apanhando… embora Zagan tivesse comido toda a comida que conseguiu catar lá dentro, então não podia realmente culpá-los por isso.

As orelhas de Nephy caíram, como se ela achasse aquilo de partir o coração, e então ela assentiu profundamente, como se fosse algo que tivesse acontecido com ela mesma.

“Eu entendo. Eu também, certa vez, não consegui suportar a fome e tentei lamber um pouco de mel no depósito de alimentos, mas fui trancada lá dentro e quase morri congelada.”

Zagan tentou imaginar a cena de uma jovem Nephy lambendo mel às escondidas, e seu peito começou a se aquecer com uma sensação agradável, mas então ele respondeu àquelas palavras imperdoáveis com uma voz perigosa.

“Dê-me uma descrição detalhada de quem fez isso com você. Eu os farei provar da mesma agonia.”

“Agradeço sua consideração, mas acredito que eles já tenham falecido.”

Os elfos da vila de Nephy foram atacados por humanos, e a maioria deles foi morta. Naturalmente, eram justamente aqueles que abusavam de Nephy, então Zagan não sentia sequer um pingo de pena por eles, e Nephy também vinha se esforçando recentemente para não se importar com isso. Ainda assim, Zagan balançou a cabeça.

“E daí se estão apenas mortos? Existem incontáveis feitiçarias capazes de despertar os mortos. Não é nada demais, na verdade. É verdade que os mortos-vivos não possuem os cinco sentidos, mas suas personalidades permanecem. Há muitas maneiras de conceder-lhes agonia.”

Não era a especialidade de Zagan, mas, se fosse necessário, ele começaria a estudar aquilo imediatamente. Contudo, Nephy balançou a cabeça enquanto seus cabelos branco-neve ondulavam.

“Não há necessidade de o senhor passar por todo esse trabalho apenas para se vingar.”

“Hmph… você é tão gentil, Nephy.”

“Mestre Zagan, o senhor também não retaliou quem o trancou no barril, certo?”

Zagan ficou um pouco desnorteado diante da lógica impecável dela.

“Bem, as frutas que eu roubei estavam deliciosas…”

“Sim. O mel também era muito doce.”

“…Vocês dois… tiveram uma vida difícil.”

Enquanto os dois simpatizavam um com o outro, Foll voltou sua atenção para eles de maneira um tanto surpresa. Zagan então pigarreou, como se estivesse tentando disfarçar a situação.

“Raphael. Imagino que você pelo menos já tenha andado em um barco antes.”

Raphael, para quem Zagan voltou seu foco, não vestia seu habitual fraque, mas sim uma armadura completa. Era a armadura de Valefor.

O rosto de Raphael era conhecido demais entre os feiticeiros. Por isso, ele estava usando a armadura que Foll havia manipulado anteriormente. Além do fato de que combinava com seu braço artificial, ela também era a melhor escolha para esconder seu rosto e assumir outra identidade.

Por isso, agora ele era “Valefor”. Ele retirara o capacete dentro da cabine, porém. E, depois de pensar um pouco, Raphael assentiu em resposta.

“Sempre que eu terminava de caçar feiticeiros até a exaustão, era imediatamente despachado para a próxima frente de batalha. Matar feiticeiros sobre navios também não era algo raro.”

Como Raphael em si não nutria hostilidade contra eles, aquilo soava praticamente como uma piada. Então ele murmurou com sinceridade.

“O lago é agradável. O vento também é refrescante. A brisa salgada do oceano gruda até mesmo na Armadura Ungida. O desconforto disso tudo acabava deixando minha expressão sombria sem que eu percebesse.”

A Armadura Ungida era uma armadura criada pela igreja para se opor aos feiticeiros. Dizia-se que quem a vestisse seria capaz de esmagar rochas com as próprias mãos, ao obter força sobre-humana.

Se a expressão daquele homem ficasse ainda mais sombria, ele certamente pareceria um carrasco encarando suas vítimas com a foice em mãos. Isso fez Zagan sentir pena das pessoas que estavam viajando no mesmo navio que ele.

Zagan então voltou sua atenção para a armadura de Valefor.

“Falando em armaduras, essa não é nem um pouco incômoda?”

“Não. Pelo contrário, ela até parece melhor do que a Armadura Ungida que fui obrigado a usar por tanto tempo. Com isso, não ficarei atrás daquela maldita ralé de feiticeiros.”

Raphael era um Cavaleiro Angélico. Após perder o braço esquerdo na batalha anterior e se desfazer de sua Armadura Ungida, ele seria encurralado até mesmo por um feiticeiro de baixo escalão. Foi por isso que Zagan reconstruiu a armadura de Valefor como uma Armadura Ungida. Raphael então murmurou, bastante interessado.

“No entanto, meu senhor, o que exatamente é isto? O processo de fabricação da Armadura Ungida é mantido em segredo dentro da igreja. Mesmo para um Arquidemônio, não deveria ser algo que possa ser criado de improviso.”

“Bem, vejamos. Em primeiro lugar, é uma tecnologia que não tem significado algum para os feiticeiros.”

Ao ouvir isso, Raphael inclinou a cabeça para o lado.

“A Armadura Ungida é um poder raro capaz de se opor a um feiticeiro. Um indivíduo como o senhor é uma coisa, mas não seria um poder digno de pesquisa para um feiticeiro de baixo escalão?”

“Isso é irracional. Espadas Sagradas e Armaduras Ungidas possuem uma estrutura fundamentalmente diferente da feitiçaria, entende? Não importa o quanto se pesquise, isso não pode ser aplicado à feitiçaria. E deixando isso de lado, um feiticeiro novato não conseguiria sequer compreender como pesquisá-las, então não há benefício algum em investigá-las.”

Mesmo Zagan precisou dos livros do Palácio do Arquidemônio, de uma Espada Sagrada de verdade e da presença de Nephy para finalmente chegar àquele ponto. E mesmo depois de passar por todo esse trabalho para compreender o processo de fabricação, tratava-se de um poder que não se harmonizava com a feitiçaria de forma alguma.

Em outras palavras, mesmo que um feiticeiro o pesquisasse, não haveria nada a ganhar. Por isso, nem mesmo os Arquidemônios jamais pensaram seriamente em pesquisá-lo. Mesmo no legado de Marchosias, os livros relacionados a Espadas Sagradas e Armaduras Ungidas eram poucos.

Enquanto conversavam sobre isso, Foll desceu da janela e se jogou no colo de Nephy. Parecia que ela se interessara ao ouvir as palavras “Espada Sagrada”. E, ao fazer isso, Nephy naturalmente acompanhou o fluxo e começou a acariciar a cabeça da jovem garota. Zagan então começou a explicar desde o início.

“Vejamos, Raphael. Você sabe exatamente por que a Armadura Ungida da igreja possui poder?”

Em resposta, Raphael balançou a cabeça.

“Lamento dizer que não. Uma inscrição é desnecessária para uma espada que mata.”

“Bem, você tem razão. Provavelmente é assim para todos aqueles Cavaleiros Angelicais.”

Afinal, nem mesmo Chastille parecia saber como a Armadura Ungida funcionava.

O quarto de hóspedes dispunha de papel e caneta. E, ao pegá-los da mesa, Zagan começou a desenhar um certo design de brasão.

“Sua Armadura Ungida tinha este desenho de brasão gravado nela.”

A Armadura Ungida que Raphael usava havia sido despedaçada na última batalha. Como havia perdido seu poder, Zagan a aceitou para fins de pesquisa, mas, ao tentar analisá-la, encontrou dentro dela uma configuração de talismã com um brasão gravado.

Raphael e Foll observaram atentamente o brasão que Zagan desenhou.

“Isto é… o brasão gravado na Espada Sagrada?”

“Sim. Não é exatamente o mesmo, mas são o mesmo tipo de letras. Parece que gravar essas letras concede poder. Isso significa que as Espadas Sagradas e as Armaduras Ungidas utilizam o mesmo princípio para obter força.”

Em outras palavras, Celestian. E então, com um “no entanto”, Zagan fez uma expressão como se todo o processo fosse extremamente problemático.

“Aparentemente, isso não pode ser usado como um circuito. Não houve absolutamente nenhum efeito quando eu despejei mana nele. Também não houve sentido em adicionar circuitos, e parece que ele pertence a uma categoria diferente da feitiçaria dracônica.”

Nesse caso, do ponto de vista de um feiticeiro, ele perdia todo o sentido como objeto de pesquisa. Quando Zagan olhou para Foll, as tranças verdes da jovem garota balançaram enquanto ela sacudia a cabeça.

“Talvez o papai soubesse algo sobre isso, mas não é algo que ele tenha me ensinado.”

Por isso, sua pesquisa havia chegado a um limite temporário. E, com um “hm”, Raphael também assentiu.

“Então, por que agora o senhor é capaz de manipulá-la?”

“É graças à Nephy”, respondeu Zagan, antes de continuar. “Nephy olhou para a sua Espada Sagrada e leu ‘Metatron’ nela.”

Ela fez isso mesmo que o portador original da espada, Raphael, sequer soubesse que a gravação era apenas o nome da espada. Nephy então assentiu humildemente.

“Sim. É diferente das letras usadas na vila élfica, mas talvez eu já as tenha visto em algum lugar antes… Contudo, não é como se eu tivesse aprendido a lê-las ou escrevê-las, então não entendo realmente o significado.”

Além das letras de Metatron e daquelas gravadas dentro da Armadura Ungida, Nephy não conseguia escrever mais nada. Ainda assim, o fato de conseguir lê-las já era uma pista enorme. Isso porque a extensão de cada letra e os pontos onde as delimitações ocorriam haviam sido esclarecidos.

Alguns dias depois de Nephy ter deixado claro como lê-las, a pesquisa de Zagan sobre o Celestian avançou rapidamente. E agora, até mesmo Zagan já conseguia ler e escrever a língua até certo ponto.

"Ser capaz de lê-la sem compreender o significado deve indicar que, de alguma forma, essas letras estão relacionadas à Nephy", declarou Zagan, então fez uma pausa antes de continuar. "Eu pensei que, se talvez fosse a Nephy quem reproduzisse o desenho do brasão, então ele passaria a conter poder."

E essa foi a razão pela qual conseguiram preparar uma Armadura Ungida para Raphael.

Além disso, de acordo com Raphael, seu desempenho aparentemente era superior ao de uma Armadura Ungida comum.

Isso provavelmente significava que, em vez de alguém que não compreendia o significado apenas reproduzi-la, era mais eficaz quando alguém que entendia as letras as escrevia.

"Então, sendo esse o caso, quem reconstruiu sua armadura como Armadura Ungida foi a Nephy. Se a Nephy não estivesse aqui, essa pesquisa não teria avançado tanto."

"Fico feliz em ser útil ao senhor, Mestre Zagan."

Eram palavras humildes, mas ela também estava feliz por ser elogiada. Suas orelhas estavam rigidamente erguidas e tremiam levemente, repetidas vezes. Raphael então levou a mão ao peito e curvou-se reverentemente diante dela.

"Como era de se esperar da Lady Nephy, a mulher que recebe o afeto de meu senhor."

"Q-Quê..."

E, como esperado, ela não conseguiu suportar os elogios vindos dos dois. Nephy cobriu o rosto corado e, enquanto observava aquilo com satisfação, Zagan continuou a falar.

"É provável que essas sejam palavras dos elfos, ou de uma raça próxima a eles. Existe algum sacerdote ou algo do tipo na igreja com uma linhagem próxima a essa?"

Era provável que algum parente próximo de um elfo ou algo semelhante tivesse fabricado a Armadura Ungida, mas o Celestian deveria ser uma língua perdida até mesmo para a igreja. Certamente era por isso que eles não conseguiam compreender seu significado com tanta precisão quanto Nephy.

E provavelmente é por isso que existem apenas doze Espadas Sagradas.

Como o Celestian se perdeu, eles não conseguiam produzir mais nenhuma. Ao perceber isso, Foll arregalou os olhos.

"Então, a Nephy também consegue reproduzir uma Espada Sagrada?"

Era uma pergunta óbvia, à qual Nephy balançou a cabeça em negativa.

"Não. Eu tentei fazê-lo, mas não funcionou."

"Hm... Provavelmente precisa de um ritual que envolva um local ou condição específicos. Se fosse algo tão fácil de fazer, então a igreja e os elfos certamente já teriam cooperado para criar mais."

Claro, ela conseguia conceder certo grau de poder, mas isso não se comparava nem de longe à Espada Sagrada original.

Mesmo Nephy, que conseguia criar Armaduras Ungidas com mais poder do que as originais, só conseguia reproduzir uma fração do poder destrutivo das espadas originais. A menos que um grande número de condições fosse atendido, era improvável que ela algum dia produzisse uma décima terceira Espada Sagrada.

Bem, não é como se eu realmente quisesse uma Espada Sagrada ou algo assim, então tanto faz.

No máximo, Zagan estava buscando uma contramedida contra demônios e os segredos do Selo do Arquidemônio. A razão pela qual ele investigava as Espadas Sagradas era porque o Selo do Arquidemônio e as Espadas Sagradas tinham um ponto de semelhança em seus desenhos de brasão.

No entanto, Nephy também não conseguia reconhecer as letras no Selo do Arquidemônio. O selo se assemelhava ao Celestian, mas parecia que não podia ser completamente desvendado apenas por meio daquela língua.

Ainda assim, não acho que sejam completamente não relacionados.

A razão pela qual Zagan veio ao baile noturno de Bifrons foi, em grande parte, porque ele esperava obter novas informações sobre isso. E, após pensar por um tempo, Zagan cerrou firmemente o punho direito.

"De qualquer forma, a pesquisa está começando a mostrar resultados. Nephy, a partir de agora, com certeza farei você cooperar comigo nisso regularmente. Foll, Raphael, também farei vocês dois ajudarem."

"Hm. Vou dar o meu melhor."

"Como desejar. Pode deixar todos os assuntos domésticos comigo."

"...Espero muito de vocês."

Ao contrário de sua aparência demoníaca, Raphael era capaz de lidar perfeitamente com todas as tarefas domésticas como um mordomo. Isso acabou acendendo inadvertidamente uma chama de rivalidade no coração de Nephy.

Bem, com o fardo das tarefas domésticas que ela precisa fazer diminuindo, eu passo mais tempo com a Nephy, então sou grato por isso.

Zagan estreitou os olhos mais uma vez enquanto se jogava em uma cadeira.

"No entanto, o problema atual é o baile noturno de Bifrons."

Não havia como terem convidado Zagan apenas para fazer amizade.

"Bifrons provavelmente está planejando iniciar alguma coisa inútil durante o baile noturno. Nosso oponente é um Arquidemônio, então não percam o foco."

Enquanto ele os instruía a se prepararem, Foll e Raphael assentiram em resposta. E ao ver isso, Nephy apertou firmemente a saia, então abriu a boca para falar, como se finalmente tivesse chegado a uma conclusão.

"Um, Mestre Zagan. Há algo que eu gostaria de conversar com—"

"Perdão pela interrupção."

Sem sequer bater, a porta da sala se abriu, interrompendo o que Nephy estava prestes a dizer. — Você ousa interromper justo quando a Nephy ia falar algo? Não consegue ler o clima?!

Quem abriu a porta foi apenas um jovem feiticeiro, mas Zagan lançou-lhe um olhar cheio de ódio.

"Eek, ah não..."

O jovem feiticeiro provavelmente percebeu que havia acabado de fazer algo errado, pois caiu sentado no chão e começou a tremer ruidosamente.

Devo simplesmente estrangulá-lo até a morte aqui mesmo? — Zagan começou a reunir mana em sua mão, mas Nephy balançou a cabeça como se não fosse nada demais.

"Mestre Zagan, por favor, controle sua raiva. Essa pessoa não tem algum tipo de assunto com o senhor?"

O jovem feiticeiro assentiu rapidamente, como se tivesse sido salvo pelas palavras gentis de Nephy.

"U-Um, o acompanhante do Arquidemônio Zagan acabou de chegar."

Acompanhante...? Chastille, então. — Nesse caso, ele não podia simplesmente ignorar. Assim, Zagan se levantou relutantemente.

"Entendido. Vou agora."

Então, ele olhou para Nephy.

"Desculpe. Então, o que você ia dizer?"

"...Não, não era nada", disse Nephy, enquanto suas orelhas caíam. Estava claro que seu ânimo havia sido completamente abatido.

E eu achando que ela finalmente ia me contar sobre quem a atacou na cidade também… — Parecia que ela finalmente ia falar sobre isso, então o feiticeiro que interrompeu a conversa só se tornou cada vez mais irritante para Zagan.

E então, justamente quando estavam saindo da sala de convidados...

"Kekekekeke..."

Ele ouviu uma risada familiar que soava completamente antinatural.

"Zagan. O que foi?" Zagan parou, e Foll inclinou a cabeça para o lado com curiosidade ao lhe fazer a pergunta.

"...Não é nada."

Por acaso, já estamos presos na teia de Bifrons, hein?

Com uma apreensão no peito que não combinava nem um pouco com o início de um banquete, Zagan seguiu em direção ao convés do navio.

♱

"...Zagan, há algumas coisas que eu gostaria de deixar claras", disse Chastille. Parecia que ela estava esperando por eles no convés. Ela usava um vestido escarlate que combinava com o cabelo, e tinha um pano decorativo branco puro enrolado na cintura. Visto objetivamente, não era um conjunto ruim.

Sua Espada Sagrada parecia estar escondida em algum lugar, já que ela não carregava uma espada grande consigo.

Ela aparentemente foi a última convidada a embarcar, pois o barco começou silenciosamente a se afastar do porto pouco depois de se encontrarem. O lago se estendia para vários rios, e um deles até mesmo levava a Kianoides. Chastille provavelmente usou um desses para chegar até ali.

O rosto de Chastille parecia à beira das lágrimas enquanto ela permanecia imóvel no convés, e ela não continuou sua frase, o que deixou Zagan bastante confuso.

"Hmm, o quê? Vamos ouvir."

Chastille olhou ao redor do convés com uma expressão pálida enquanto ele a questionava.

"Este é... realmente o local do baile noturno, certo?"

"Sim, é isso mesmo. Bifrons tem um gosto refinado para realizá-lo no topo de um barco."

O sol já havia se posto completamente enquanto o grupo conversava na sala de convidados. Assim, o lago estava tingido pelas cores do entardecer e, talvez porque a lua estivesse escondida por nuvens, a única fonte de iluminação eram as velas colocadas sobre as mesas. Era um espaço sombrio onde, ao se afastar alguns passos de outra pessoa, tornava-se impossível distinguir seu rosto.

Entre os preconceitos contra feiticeiros propagados pela igreja, existia algo chamado sabá. Era um ritual suspeito em que feiticeiros, que supostamente adoravam o diabo, se reuniam.

Na realidade, a maioria dos feiticeiros nem sonhava em cooperar entre si, então jamais realizariam algo como uma assembleia. Além disso, nenhum deles adorava algo como um diabo. Ainda assim, a atmosfera desse local se assemelhava tanto a um sabá que qualquer tentativa de defender os feiticeiros seria inútil.

Além disso, o barco de passageiros flutuava completamente isolado em um enorme lago. Se um assassino de algo como a igreja se aproximasse, eles perceberiam imediatamente, ou poderiam mover o barco a qualquer momento e jogá-lo ao mar. Qualquer pessoa que causasse problemas também poderia ser expulsa da mesma forma, então realmente era o local ideal.

À medida que todos esses fatos se acumulavam em sua mente, Zagan observou mais uma vez o estado do barco. Seu comprimento total era aproximadamente do tamanho de uma arena, de uma extremidade à outra. Certamente poderia acomodar até dois mil passageiros.

Era um navio à vela com três mastros aparentemente robustos e várias velas penduradas neles. E no convés principal, várias mesas estavam alinhadas, decoradas com cruzes chamativas e uma variedade de garrafas e copos de bebida. Talvez por estar sendo operado por feitiçaria, ele não conseguiu identificar nada que se assemelhasse a uma tripulação.

No geral, provavelmente não existiam nem cinco navios dessa escala em todo o continente.

Parece que eles também prepararam um bom licor… — Zagan pegou um dos copos para experimentar e descobriu que era uma bebida de excelente qualidade. Ele ainda não sabia nada sobre marcas e afins, mas de forma alguma era inferior ao que Barbatos havia trazido antes. E enquanto verificava o estado do convés, Zagan inclinou a cabeça para o lado.

"Então, há algum problema ou algo assim?"

"Não, quero dizer..."

Chastille fez uma expressão aflita e olhou novamente ao redor do convés, então disse: "V-vamos apenas dizer que... a escuridão está bem... mas por que há uma música tão arrepiantemente perturbadora?"

Havia um piano em um canto do convés, e ao lado dele estavam vários músicos alinhados com violinos, flautas e todo tipo de outros instrumentos, tocando uma música sinistra. A cantora era uma undine... Não, uma variedade de sereia. Ela era uma bela garota de cabelo azul, mas a metade inferior de seu corpo lembrava a de uma cobra, um peixe ou algo semelhante.

Considerando tudo o mais no barco, ela era a única flor em plena floração naquele baile noturno sombrio. Foi uma decisão de bom gosto.

"É porque este é um baile noturno. Há muitos aqui que desejam conversar sem serem ouvidos por outros. Isso provavelmente ajuda a ocultar as vozes desse tipo de pessoa."

Em primeiro lugar, se um feiticeiro estivesse realmente tentando espionar, esse nível de ruído não significaria nada. Ainda assim, fazia diferença na sensação do ambiente. E depois que ele explicou isso a ela, o rosto de Chastille ficou ainda mais sombrio enquanto ela apontava para os músicos.

“Então… o que são esses músicos? Hum, eles não parecem estar vivos…”

Os que tocavam os instrumentos eram esqueletos com roupas bastante simples envolvendo seus corpos. Ao que tudo indicava, usavam ossos bem conservados, de modo que não apresentavam sinais de deterioração nem exalavam cheiro de podridão. Ainda assim, ossos não deveriam ser capazes de produzir voz. A cantora sirena estava cercada por mortos-vivos e tremia no lugar. Mesmo assim, considerando que sua canção não era afetada, até mesmo Zagan podia admirar o profissionalismo dela.

“Bem, provavelmente são familiares do Bifrons ou algo do tipo. A cantora com certeza é uma sirena contratada, já que a voz dela não é nada ruim.”

À medida que a peça avançava rumo ao clímax, uma voz semelhante ao grasnar moribundo de um corvo ecoou. O simples fato de que a garganta dela não tivesse parado de funcionar com aquilo já era impressionante. Chastille, então, fez uma expressão como se não pudesse acreditar no que via.

“Feiticeiros… dançam ao som desse tipo de música?”

“Hã…? Dançar? Do que você está falando?”

Zagan inclinou a cabeça para o lado, achando a ideia dela estranha do fundo do coração, enquanto as orelhas de Nephy começaram a se mexer com um leve espasmo.

Será que ela tem interesse em dança?

No entanto, Zagan nunca havia dançado antes. Enquanto se preocupava com o que deveria fazer, Chastille começou a tremer enquanto continuava falando.

“Já que estamos aqui… o que exatamente é um baile noturno para você?”

“O que quer dizer…? Não é obviamente um lugar onde feiticeiros fazem acordos entre si?”

Chastille ficou completamente chocada com essas palavras.

“Se é assim, então me diga isso antes! Eu acabei vindo vestida desse jeito, não acabei?!”

Chastille havia comparecido ao baile noturno usando um vestido que uma nobre usaria em uma festa. Observando novamente o traje dela, Zagan assentiu.

“Bem, não está ruim, não é?”

“S-Sério? Você acha que combina comigo… Espera, não é isso que eu quis dizer!”

Zagan inclinou a cabeça novamente, como se não entendesse onde ela queria chegar.

“Nephy e Foll estão usando roupas do mesmo tipo. Tem algum problema?”

Mesmo que fosse diferente de um baile noturno da nobreza, ainda assim era uma reunião formal. Os termos “feiticeiros” e “etiqueta” pareciam contraditórios, mas era senso comum usar roupas formais em situações assim… Bem, Zagan estava vestindo seu manto habitual, mas aquilo era um traje formal para um feiticeiro.

Olhando ao redor do convés, ele também podia ver outros feiticeiros vestidos com esmero aqui e ali. Ao que parecia, nem todos ignoravam a própria aparência como Zagan e Barbatos. Nephy então tentou confortar Chastille.

“Combina muito com você, Chastille.”

“O-Obrigada, Nephy, o seu vestido também combina… E-eu já disse, não é isso que eu quis dizer.”

Chastille parecia prestes a cair em lágrimas a qualquer momento enquanto apertava a saia do vestido, e então baixou a voz para reclamar.

“Por mais que eu pense nisso, eu sou uma Cavaleira Angelical, e todos ao meu redor são feiticeiros, sabe?”

Depois de ouvir isso, Zagan finalmente entendeu o que ela queria dizer… Não, se fosse possível, ele preferia não ter entendido. Zagan então encarou-a com espanto, como se não pudesse acreditar.

“…Não acho que seja possível, mas… você veio desarmada?”

É claro que, usando aquele vestido, era evidente que ela não carregava uma espada grande, mas ele imaginara que ao menos a teria trazido como bagagem. Para se opor às capacidades físicas dos feiticeiros, os Cavaleiros Angelicais da igreja usavam uma armadura chamada Armadura Ungida, sobre a qual milagres eram lançados. Até mesmo a armadura de Raphael fora especialmente reconstruída para esse propósito. Ainda assim, mesmo sem a Armadura Ungida, Chastille possuía uma quantidade considerável de poder. Por isso, Zagan achava a coragem dela admirável, mas…

Chastille começou a tremer enquanto assentia.

“Eu trouxe… ao menos minha Espada Sagrada. Mas… nada além disso…”

Ao ouvir isso, Zagan levou a palma da mão ao rosto.

“Eu tenho certeza de que mencionei que isso era um baile noturno…”

“Mas um baile noturno normalmente é uma festa, não é?! Por isso… eu achei que você tivesse me convidado para… esse tipo de coisa…”

Não teria sido tão estranho assim a igreja atacar um baile noturno. Foi por isso que Zagan nunca imaginou que um Arcanjo — mesmo alguém como Chastille — não conhecesse a verdadeira natureza do convite.

Como Zagan não conseguiu pensar no que dizer, Raphael, com o rosto oculto pelo capacete de Valefor, soltou uma gargalhada alta e ergueu a voz em seu lugar.

“Absurdo! Se for a sua espada, exaltada como a mais rápida entre os Arcanjos, então você poderia derrubar essa ralé maldita de feiticeiros antes mesmo que eles lançassem um feitiço, correto? Eles não merecem tamanha timidez.”

“Foi você quem me disse para ser o estandarte da Facção da Unificação, não foi?! Então por que está falando como se eu fosse matá-los?!”

“Porque toda a minha carreira foi assim!”

Esse ex-Arcanjo, Raphael, era um homem que havia abatido quase quinhentos feiticeiros em legítima defesa.

Depois de gritarem um com o outro, Chastille de repente ficou em silêncio. No entanto, todos os feiticeiros ao redor voltaram seus olhares para ela ao mesmo tempo.

Bem… se alguém grita tão alto assim, é óbvio que todos vão ouvir…

Se quisesse, um feiticeiro podia enxergar tudo claramente mesmo em um ambiente tão escuro. E, apesar da música barulhenta tocada pelos artistas, as vozes de Chastille e Raphael ecoaram por todo o convés.

Após aquela cena, todos os feiticeiros que estavam no convés passaram a observá-la atentamente.

“Aquela mulher… ele disse que ela é uma Cavaleira Angelical, não foi?”

“Ela parece familiar… Ah, eu sei. É a única Arcanja mulher.”

“Essa maldita igreja… você não acha que eles estão marchando para dentro de um baile noturno patrocinado por um Arquidemônio, acha?”

“Não seja tão arrogante… Vamos matá-la?”

Como era de se esperar, as pessoas convidadas para um baile noturno de um Arquidemônio eram bastante brutais. Em vez de hesitar, todos os feiticeiros fervilhavam de raiva.

Zagan então soltou um suspiro, como se toda a situação fosse extremamente cansativa.

Se ela for expulsa sem sequer a Armadura Ungida, quem sabe o que pode acontecer com ela…

Por dentro, Chastille estava à beira do colapso, mas sua aparência externa permanecia bem composta. Afinal, ela sabia que a maioria dos feiticeiros não era nem de longe bondosa o suficiente para simplesmente deixar uma inimiga que entrara desarmada sair ilesa.

Zagan então abriu sua capa enquanto falava.

“…Que garota problemática. Suponho que não tenho escolha, então… venha comigo.”

Como não sabia o que Bifrons estava tentando provocar, Zagan não queria se destacar desnecessariamente. No entanto, ele acabara de perder essa oportunidade.

Cruzando deliberadamente para o centro do convés, começou a caminhar em direção à proa do navio. Nephy e Foll se alinharam atrás dele, e Raphael seguia logo atrás, na retaguarda.

E, como se aquele fosse o momento adequado, os artistas trocaram a música e começaram a tocar uma peça solene, enquanto Raphael soltava uma exclamação de admiração.

“Oh… Esta peça é a ‘Marcha do Rei Demônio’, não é? Parece que esses músicos entendem um pouco.”

Zagan não conhecia a música, mas aparentemente era uma composição criada para representar a invasão do rei dos demônios com seus servos a reboque. Era uma peça que provocava uma sensação indescritível de inquietação apenas pelo som.

E justamente por isso, olhares reverentes começaram a se concentrar em Zagan enquanto ele avançava ousadamente pela multidão. Chastille ergueu a voz, aflita.

“H-Hey, o que você está pensando ao simplesmente entrar no meio deles?!”

“Em momentos como este, é preciso agir com ousadia. Pelo menos, se eu demonstrar hesitação agora, como um Arquidemônio, eles mirarão na minha cabeça imediatamente.”

“I-Isso pode até ser verdade, mas…”

Chastille deixou escapar uma voz ansiosa, mas ainda assim seguiu adiante. E, observando Zagan avançar como se estivesse exibindo seu grupo, os feiticeiros começaram a cochichar.

“Droga, é o Zagan.”

“O novo Arquidemônio, hein? Olha lá, aquele atrás dele é a Aparição Valefor.”

“Havia um rumor de que ele tinha sido morto, mas parece que escolheu servir ao Zagan…”

Com o rosto oculto por um capacete em forma de serpente, Raphael foi reconhecido como a Aparição Valefor. Ainda assim, ele caminhava atrás de Zagan com uma expressão despreocupada. Em seguida, os olhares se voltaram para Nephy.

“Quem é aquela elfa de cabelo branco?”

“É a noiva daquele cara. Cuidado. Dizem que Purgatório foi despedaçado membro por membro por tentar algo com ela.”

“Sim. Dizem que, depois de ser torturado por sete dias seguidos, O Purgatório foi autorizado a viver após jurar obediência absoluta a ele.”

Purgatório era o segundo nome de Barbatos. Era verdade que Zagan o havia derrotado, mas parecia que rumores estranhamente exagerados estavam circulando.

Pensando bem, se a Chastille está aqui, isso quer dizer que o Barbatos também veio junto?

Aquele homem parecia incapaz de conter sua raiva por não ter sido convidado para o baile noturno. Era totalmente possível que ele tivesse vindo usando a desculpa de ser o escolta dela. Depois disso, toda a atenção se voltou para Foll, que cambaleava ao lado de Nephy.

“Aqueles chifres… Aquela pequena atrás dele é um dragão?”

“Parece que sim… Não sei exatamente quem é, mas dizem que Zagan matou Raphael por causa da posse daquela garota.”

“Então é verdade que ele derrotou aquele caçador de feiticeiros?”

A história de Zagan derrotando Raphael foi algo que ele próprio fez questão de espalhar. O fato de ter dado fim ao “mais temível” Arcanjo era eficaz para conter a hostilidade dos tolos que tentariam usurpá-lo. E, ao que parecia, o plano funcionara exatamente como ele esperava. Depois de terminarem de comentar sobre esse feito, a atenção dos feiticeiros finalmente se voltou para Chastille.

“Se aquela mulher está alinhada com ele, então quer dizer que Zagan até colocou a Donzela da Espada Sagrada sob seu controle?”

Chastille fez uma expressão de desagrado.

“‘Sob seu controle’… Não me lembro de ter concordado em virar sua subordinada.”

“Deixe assim. Se não, você vai morrer.”

“Eek!” Chastille se agarrou ao braço de Zagan e soltou um pequeno grito. Ao ver aquilo, os feiticeiros suspiraram em uníssono.

“Olhem só. Esse é o rosto de uma amante.”

“Entendo… então isso quer dizer que ela é a concubina de Zagan, né?”

Ao ouvir esses rumores, o rosto de Chastille ficou vermelho como um pimentão.

“Q-Quem você está chamando de amante?!”

“Cala a boca, Cabeça de Cavalo. Quer morrer?” disse Foll, dando um tapa na bunda de Chastille.

Se Chastille não aparentasse fazer parte do grupo de Zagan, não havia a menor chance de os feiticeiros daquele baile noturno deixarem-na viver.

“U-Ugh! Hic…”

Repreendida até mesmo por Foll, Chastille soltou um gemido constrangido, com os olhos marejados. Felizmente, a hostilidade dos feiticeiros ao redor havia ao menos desaparecido. Assim que atravessaram todo o convés, Zagan tomou seu lugar no assento preparado na proa do navio. Ele pretendia sentar-se e relaxar, mas Chastille não soltava seu braço.

“…Ei, para com isso.”

“V-Você está enganado! É que… hum… meu braço ficou completamente rígido, então…”

Provavelmente, essa garota tímida ainda não sentia nenhum alívio após atravessar um grupo inteiro de feiticeiros estando desarmada. Zagan não conseguia se livrar da mão que o apertava com força. Ao observar isso, em um raro momento, as orelhas de Nephy começaram a tremer nervosamente.

“Então… devo ajudá-la?”

“Eek, d-desculpa…”

A expressão de Nephy era a mesma de sempre, mas havia uma frieza irritada em sua voz. Talvez por isso, Chastille se assustou e conseguiu se afastar do braço de Zagan.

[Almeranto: Fiquei com pena da Chastille namoral kkkkk. É muita pressão em cima dela.]

De certa forma, esse tipo de reação da Nephy é bem refrescante…

Nephy sempre se dedicava com bravura pelo bem de Zagan, mas eram raras as ocasiões em que demonstrava abertamente o desejo de monopolizá-lo. Além disso, ela tinha dificuldade em expressar suas próprias intenções. Fundamentalmente, Zagan e Nephy sempre estavam juntos a sós.

Por isso, não havia muitas oportunidades para ela demonstrar esse tipo de atitude.

Mesmo estando irritada, Zagan acabou ficando estranhamente satisfeito por ver um lado dela que normalmente não via. Enquanto a observava, ele se sentou na cadeira. Por estar localizada na parte mais profunda da proa, ela ficava em um nível mais alto e oferecia uma visão desobstruída de todo o convés — era, sem dúvida, o lugar destinado ao convidado de honra.

Com Zagan sentado, Nephy e Foll se alinharam à sua esquerda, enquanto Chastille e Raphael ficaram à direita. Apoiado no braço da cadeira, ele cruzou as pernas de forma majestosa e lançou um olhar dominante sobre o convés. Ao formar um sorriso destemido, os feiticeiros engoliram em seco.

“Então esse é… o Arquidemônio Zagan e seus confidentes, hein?”

“Zagan era praticamente um ninguém até poucos meses atrás. Como ele conseguiu subjugar esse grupo?”

Manter essa postura imponente era cansativo, mas vê-los tomados pelo temor também tinha algo de agradável. Depois de observar o navio, Zagan pegou uma taça de vinho da mesa e voltou sua atenção aos feiticeiros reunidos. Como se fosse um sinal, os músicos interromperam a música de repente.

O convés mergulhou em completo silêncio.

“Parece desnecessário dizer meu nome, mas eu sou Zagan. Aquele a quem foi confiado o assento mais baixo entre os Arquidemônios.”

Sua voz não era alta, mas ecoou calmamente até a popa do navio. Em seguida, Zagan ergueu a taça de vinho.

“O patrocinador ainda não chegou, mas vamos aproveitar a noite, senhores.”

[Almeranto: Fino, senhores.]

Os feiticeiros pegaram taças sem se importar com a quem pertenciam e brindaram entre si. Ainda que fosse algo superficial, aquele foi o momento em que os feiticeiros reunidos aceitaram Zagan como um Arquidemônio.

♱

Depois de esvaziar sua taça, a música barulhenta voltou a tocar. Graças ao blefe ostensivo de Zagan, a hostilidade direcionada a Chastille parecia ter desaparecido. Confirmando isso, ele soltou um suspiro cansado.

Não sou muito bom em fingir esse tipo de palhaçada.

O tempo que passava no castelo, lendo todos os grimórios que conseguia e relaxando com Nephy e Foll, era centenas de vezes mais valioso. Ainda assim, tentando encontrar algum mérito na situação, Zagan voltou a observar os feiticeiros no convés.

Usando feitiçaria para ampliar levemente a luz dentro de seus olhos, ele garantiu que sua visão fosse equivalente à de pleno dia.

Tem vários rostos familiares aqui…

Zagan não era muito informado sobre outros feiticeiros, mas ao menos conhecia os nomes e rostos dos antigos candidatos a Arquidemônio — muito graças às informações que Barbatos lhe dera.

Entre os presentes estavam Black Blade Kimaris e alguém semelhante à Feiticeira Gremory, embora… sua aparência e idade parecessem completamente diferentes de antes.

A aparência externa de um feiticeiro realmente não é confiável.

Da última vez que a viu, foi em um leilão mal iluminado. Ele sequer confirmara direito seu rosto, então a sensação de estranheza fazia sentido. Enquanto observava o convés, Foll de repente se aproximou de seu rosto.

“Zagan, Zagan!” gritou ela, girando no lugar de forma brincalhona, como se quisesse chamar sua atenção.

Pensando bem… eu ainda não elogiei o vestido dela.

Infelizmente, antes que pudesse fazê-lo, o deslize verbal de Chastille havia ocorrido — ainda assim, isso foi uma falha como pai. Zagan então assentiu de forma exagerada.

“Combina muito com você. Gostou?”

“Mm. Essas roupas… são fofas.”

São fofas porque é você quem está usando…

A jovem dragão era encantadora de uma forma diferente da Nephy. Naturalmente, Zagan começou a acariciar sua cabeça enquanto a elogiava. Foll fechou parcialmente os olhos, apreciando o carinho, e então puxou a barra do vestido de Nephy.

“E o vestido da Nephy?”

“Mm. Não é óbvio que é lindo?”

“…Mestre Zagan, isso é constrangedor.”

As pontas de suas orelhas ficaram levemente vermelhas, e Nephy se remexeu. Seu jeito tímido era ainda mais encantador do que antes, e Zagan acabou ficando involuntariamente fascinado. Após pigarrear para se recompor, ele voltou a observá-las.

“Ah, de qualquer forma, como é usar esse vestido?”

“Bem, acredito que seja fácil de me movimentar e bastante bonito… Um… é… muito melhor do que aquele que eu usava quando o conheci, Mestre Zagan.”

“E-Entendo…”

Se você fala assim, eu perco o controle!

O vestido branco puro que Nephy usava quando eles se conheceram também era bonito, mas Zagan queria que ela vestisse algo um pouco mais alegre. Como o próprio Zagan não conseguia explicar exatamente o que isso significava, ele teve de pedir ajuda a Manuela, o que foi um tanto irritante, mas... ainda assim, aquela funcionária frívola preparou um traje que correspondia perfeitamente às expectativas de Zagan. O vestido desta vez tinha um acabamento esplêndido que simplesmente o fazia querer suspirar.

Em momentos como este, eu só quero ficar a sós com ela...

Esse tipo de pensamento era bastante inadequado em um baile noturno de feiticeiros, mas Zagan amava tanto Nephy que simplesmente não conseguia evitar. Para se distrair desses pensamentos, Zagan voltou o olhar para Chastille.

“Por enquanto, é improvável que existam idiotas que se atrevam a provocar a minha ira. Desde que você aja com cautela, deve ser seguro. Faça o que quiser a partir daqui”, disse Zagan, insinuando que ela deveria agir com tato.

Chastille passou a mão pelos cabelos, jogando a franja para trás, e encarou-o de volta.

“Deixe-me perguntar em troca: você realmente acha que isso é suficiente nesta situação?”

Chastille falou com determinação... ou melhor, longe disso, com os olhos cheios de lágrimas, e Zagan não conseguiu impedir um suspiro.

Se você tem consciência disso, então não deveria tentar consertar? — Era melhor do que cometer grandes erros sem perceber, mas...

Enquanto Zagan levava a palma da mão ao rosto, Nephy segurou a mão de Chastille e a ergueu até o peito.

“Que tal conversarmos aqui por mais um tempo, até você se acalmar um pouco?”

Ele queria ficar completamente a sós com Nephy, mas se era ela quem estava dizendo isso, então não havia o que fazer. De qualquer forma, percebendo que acabaria afastando Chastille se continuasse daquele jeito, Zagan começou a se preocupar e já não conseguia se sentir relaxado. Chastille então apertou com força a mão de Nephy, como se estivesse tomada pela emoção.

“Oh, obrigada. Nephy, você é sempre tão gentil.”

“...Cabeça de Cavalo, você não sente vergonha de ser uma chorona inútil o tempo todo?”

“Claro que sinto, mas isso não é algo que se resolva tão facilmente!”

Foll olhou para ela com um olhar cheio de desprezo, e Chastille finalmente desabou em lágrimas. E, como era de se esperar, ao achar aquilo lamentável, Nephy repreendeu Foll.

“Foll, você não pode dizer coisas tão cruéis. Parece que Chastille não tem muita margem para manter a compostura agora, então você deveria ser gentil com ela.”

“Cabeça de Cavalo alguma vez já teve compostura?”

“Eu não sei, mas agora parece mais sério do que o normal.”

“...Nephy, eu agradeço a intenção, mas realmente parece que você está chutando quem já está caído.”

Bom, acho que esse é apenas o jeito da Foll de dizer: ‘Se você não se recompor, não vai conseguir se proteger’.

Fundamentalmente, tanto Nephy quanto Foll eram péssimas comunicadoras e não eram boas em expressar seus sentimentos. Um comentário atravessado desse nível certamente era algo trivial. Isso pareceu ter sido transmitido a Chastille também. Depois de enxugar o rosto, ela finalmente se levantou.

“Chegar ao ponto de fazer uma criança pequena se preocupar comigo é patético demais. Eu... estou bem agora.”

A ponta do nariz dela ainda estava vermelha, mas quando Chastille sorriu, Foll balançou a cabeça como se não fosse nada.

“Eu apenas dei um conselho adequado para alguém mais nova. Não se preocupe com isso.”

“Conselho, você diz... Não, agora que mencionou isso, quantos anos você tem? Você não parece ter mais de dez anos para mim...”

Dragões eram uma raça lendária que supostamente viviam eternamente. Seu crescimento era proporcionalmente lento em relação à sua longevidade, então Foll, que ainda era jovem como dragão, já teria vivido um tempo considerável.

Bom, convertendo para idade humana, ela provavelmente tem algo em torno de dez anos. — Zagan convenceu a si mesmo dessa forma. E então, Foll encarou Chastille fixamente.

“Você não conhece o ditado de que é falta de educação perguntar a idade de uma dama? Cabeça de Cavalo.”

“Acho que é um argumento válido, mas quem começou a falar disso foi você, não foi?”

Depois de pensar que ela finalmente havia se recomposto, aquela garota desabou mais uma vez. E, com os olhos já começando a se encher de lágrimas, Zagan lhe lançou uma pergunta.

“Pensando bem, onde estão aqueles três idiotas que sempre ficam ao seu redor?”

Chastille sempre estava acompanhada pelos Três Idiotas do Céu Azul... ou melhor, pelos Três Cavaleiros do Céu Azul. Eles pareciam bem tolos, mas como Cavaleiros Angelicais, possuíam certo nível de força e ocupavam posições razoavelmente altas. Ao ouvir a pergunta, Chastille assentiu de um jeito estranhamente desconfortável.

“Eu os deixei no porto de Suflaghida.”

“Ah, afinal, não dá para deixar aquele bando causar problemas com feiticeiros.”

“Não, não é por isso...” Chastille começou a juntar os dois dedos indicadores, então ficou vermelha como um tomate e abaixou a cabeça.

“Se eles estivessem aqui, eu não conseguiria conversar com você direito, certo?”

Zagan franziu a testa. — O que essa garota quer dizer com isso...?

Era verdade que eles não conseguiriam ter nenhuma conversa produtiva se os três idiotas estivessem presentes, mas depois de passar um tempo com Nephy e Foll, Zagan sentia que havia se tornado melhor em entender as sutilezas das emoções alheias.

De alguma forma, parecia que ela não quis dizer isso no sentido de conversas de trabalho ou amigáveis. Não era como se Zagan não tivesse nenhum sentimento por ela, mas, se tivesse de dizer, era algo mais próximo do desejo de proteção que ele sentia por Foll.

De qualquer maneira, Chastille era desajeitada a um ponto tal que dava a impressão de que, se ninguém a salvasse, ela poderia simplesmente cair e morrer bem na frente de seus olhos.

Dizia-se que Chastille era bastante popular entre o povo, apesar de ser da igreja, mas Zagan começou a suspeitar se isso vinha justamente desse sentimento de não conseguir deixá-la sozinha que ele estava sentindo. De todo modo, seus sentimentos eram algo diferente de amor.

Bom, tanto faz. — Desde que não atrapalhe Zagan e Nephy, não importa o que ela sinta. A própria Chastille certamente não era tola a ponto de não conseguir discernir isso também.

...Além disso, ela provavelmente estava tentando esconder esse fato por conta própria. De qualquer forma, mesmo que ele recebesse afeto de uma mulher que não fosse Nephy, ele não saberia o que dizer ou fazer, então era melhor simplesmente deixar isso de lado. E, fingindo que não havia percebido nada, Zagan continuou a conversa.

“Então, a liderança dessa Facção de Unificação ou seja lá o que for está indo bem?”

Zagan mudou o assunto para esse ponto, o que fez Chastille encará-lo com surpresa.

“Que inesperado. Nunca pensei que você se preocuparia com esse tipo de coisa.”

“É mesmo?”

“Como posso dizer... Você realmente não se importa nem um pouco com a igreja, não é?”

Zagan respondeu com um aceno afirmativo.

“Se eu vir alguém cair depois de ser envenenado, vou demonstrar um pouco de simpatia.”

“Hã? V-você... estava... preocupado comigo...?”

Ao responder em um tom gentil, o rosto de Chastille ficou vermelho até as orelhas.

Hã? Eu estraguei isso? — Mesmo sem intenção alguma de iludi-la, seria cruel criar um mal-entendido estranho. Mesmo nos melhores momentos, essa garota era de alguma forma excessivamente lamentável. E enquanto Zagan entrava em pânico internamente, Chastille pigarreou e endireitou as costas.

“Sou grata por se preocupar comigo, mas não houve problemas... Quero dizer, não é como se estivessem me forçando a fazer algo. Já se passou um mês desde então, e realmente não houve muitos movimentos.”

“É assim?” Zagan a encarou com surpresa diante da resposta inesperada.

Raphael então falou em seu lugar.

“Isso não é óbvio? O objetivo da Facção de Unificação é evitar qualquer conflito desnecessário com esses malditos feiticeiros. O que você busca é demonstrar uma relação unificada com feiticeiros, o que faz de você perfeita exatamente como está agora.”

Em outras palavras, parecia que estava tudo bem desde que ela simplesmente se desse bem com Zagan.

Quando ouvi falar disso pela primeira vez, parecia algo muito mais importante do que isso...

No entanto, quem contou a ele foi Raphael. Ele era um homem cuja falta de jeito levava a mal-entendidos e preconceitos por onde passava. Se Barbatos estivesse ali, provavelmente diria de forma irritante: “Você é o último a falar!”, caso Zagan mencionasse isso, mas talvez não estivesse tão longe da verdade.

Chastille então fez uma expressão complicada, como se não estivesse totalmente convencida.

“Mas nós não sabemos quando os demônios serão revividos, certo? Então, não é urgente construir relações amigáveis entre a igreja e os feiticeiros?”

“Isso será resolvido quando o poder do meu senhor crescer.”

Embora tivesse renunciado ao posto de Arcanjo, não era como se Raphael estivesse se fazendo de importante na aposentadoria.

Provavelmente foi por isso que ele fez questão de se tornar meu mordomo.

Como ajudar Zagan a construir sua autoridade estava ligado ao cumprimento da vontade do Sábio Dragão Orobas, ele obedecia a Zagan. Zagan entendia isso, mas ainda assim soltou um resmungo.

“Você fala bastante sobre seus objetivos, mas se alguém ficar no meu caminho, seja um Arcanjo, um feiticeiro ou quem quer que seja, eu não tenho a menor intenção de aliviar.”

Ele gostava dela o suficiente para considerá-la uma amiga, mas a existência de Chastille não era absoluta em sua lista de prioridades. Enquanto Chastille fosse uma serva da igreja e uma Cavaleira Angelical, ela poderia se tornar uma inimiga dependendo das ordens da igreja. E qualquer mudança nesses objetivos declarados estava diretamente ligada a qualquer perigo ao qual Nephy ou Foll fossem expostas. Se necessário, Zagan cortaria qualquer um que julgasse preciso.

Bom, se ela se tornar uma inimiga, Nephy ficaria triste, então vou tentar lidar com isso com cuidado, pelo menos...

Depois que Zagan deixou isso bem claro, Raphael soltou uma risada.

“É isso que faz de você o meu senhor. Se você não fosse assim, os outros feiticeiros jamais o seguiriam.”

E esse mordomo astuto parecia obedecer a Zagan enquanto compreendia completamente sua personalidade. Sua fala e conduta eram certamente estranhas, mas ele era um homem capaz de agir como se tivesse previsto tudo de antemão em certos momentos.

Zagan então deu de ombros enquanto respondia.

“Bom, não importa o que você pense, desde que não fique no meu caminho, eu não me importo.”

“Eu já prometi minha espada a você. Ainda não apodreci a ponto de trair meu juramento como cavaleira.”

Bem, sua lealdade a Zagan provavelmente não era mentira.

Se não fosse assim, não haveria como Foll ter se afeiçoado a ele também. Ela certamente havia se cansado dessas conversas complicadas. Foll subiu em Raphael e se acomodou de maneira voluntariosa em seu ombro, cochilando... Certamente era a hora de crianças começarem a ficar com sono. De qualquer forma, Foll antes odiava Raphael, pois ele era seu alvo de vingança. No entanto, agora ela podia aceitá-lo como família, exatamente como fazia naquele momento, então era razoável confiar nele.

Chastille então bateu no peito e assentiu.

“Zagan, você tem coisas que precisa fazer, certo? Eu não pretendo ser fraca a ponto de te segurar, então... Não, eu posso não ser forte também, mas, hum... o que quero dizer é...” Por alguma razão, Chastille estava murmurando coisas ininteligíveis, mas, ainda assim, acabou assumindo uma postura resoluta e continuou: “Eu acho... que quero me tornar alguém em quem você possa confiar.”

Zagan ficou surpreso com suas palavras diretas, e Nephy também a encarou com espanto.

“Confiar em você... é?” — Zagan fez uma expressão carrancuda enquanto refletia sobre aquilo. — “Não posso dizer que realmente entendo o conceito de confiar nos outros. Nunca sequer tentei fazer isso.”

“É mesmo?”

“...O que você está querendo dizer?” Zagan fez uma expressão desconfiada ao questioná-la, então Chastille voltou sua atenção para Nephy.

“Vocês dois já não confiam plenamente um no outro? Você pode não perceber, mas acho que você já está confiando na Nephy.”

Por algum motivo, Zagan não conseguiu negar essas palavras.

“...Talvez você esteja certa.”

Naquele dia, quando Zagan enfrentou os Arquidêmonios pela primeira vez, ele os temeu e manteve Nephy à distância. Ele a feriu e a deixou sozinha.

Mas, mesmo assim, Nephy voltou para mim. — Naquele momento, ele sentiu que havia entendido o que significava “ter o coração salvo”. Também havia uma sensação real de estar sendo sustentado.

Certamente, isso também era o mesmo que confiar em alguém. E não era apenas Nephy. Além de pesquisar as Espadas Sagradas e o Sigilo do Arquidêmonio, Zagan havia dito claramente que tinha grandes expectativas em relação a Foll e Raphael.

Diante disso, seria irracional afirmar que ele não confiava neles. Bem, se perguntado se o dia chegaria em que Zagan confiaria em Chastille dessa forma, ele só conseguiria inclinar a cabeça de lado. Foi por isso que Zagan soltou um resmungo.

“Antes de fazer esse tipo de afirmação, chegue ao ponto em que consiga cuidar de si mesma.”

“...O que você continua achando que eu sou?” disse Chastille, antes de soltar um suspiro.

Ainda assim, dessa vez ela não caiu no choro. E, lançando-lhe um olhar de soslaio, Zagan desviou a atenção para o outro lado da mesa.

“Então, o sujeito que está se esgueirando por ali há um tempo. Você precisa de alguma coisa?”

Havia um feiticeiro que estava observando Zagan o tempo todo, nas sombras que levavam à proa do barco.

♱

“Eek?”

Ao ser chamado por Zagan, o feiticeiro soltou um grito e caiu para trás.

Pela aparência, parece ser um garoto de cerca de doze ou treze anos... Não, ou talvez seja uma garota? — Sua constituição era delicada como a de uma garota, e seus ossos não pareciam muito salientes, mas pelas calças e gravata que usava, era um garoto. Nessa idade, também era possível que ele simplesmente estivesse atrasado no desenvolvimento físico.

É aquele que veio nos chamar mais cedo, hein?

Naquele momento, Zagan estava preocupado com Nephy, então não prestou muita atenção, mas seria ele um subordinado de Bifrons?

Enquanto o feiticeiro, fosse garoto ou garota ou o que fosse, se levantava atrapalhado, ele esfregou as mãos e forçou um sorriso.

“B-Boa noite, prazer em conhecê-lo. Eu me chamo Nero. E-eu queria cumprimentar o novo Arquidêmonio e me apressei para aparecer diante do senhor.”

Zagan lançou um olhar avaliativo sobre Nero, examinando-o da ponta dos pés até o topo da cabeça. Nero tinha cabelos dourados e olhos verdes. Seus traços faciais eram bem proporcionados, mas estranhamente pareciam tanto de um garoto quanto de uma garota. E, ainda assim, Zagan não conseguia sentir nada que se assemelhasse a mana vindo dele.

O que é isso...?

A mana que ele conseguia sentir em Nero era a de uma pessoa comum, sem relação com a feitiçaria. Seria adequado dizer que Nero estava no nível de um candidato a feiticeiro. Ele não era alguém no nível dos convidados para o baile noturno de um Arquidêmonio. Na verdade, era claramente uma pessoa comum. E exatamente por isso, a cautela de Zagan aumentou.

“Que estranho. Por que um bastardo como você está a bordo deste barco?”

“Ugh, i-isso é, hum...” Nero murmurou enquanto colava as mãos e a cabeça contra o convés.

“Desculpe! Por favor, me perdoe. Como pode ver, eu sou um feiticeiro novato, mas não tenho talento algum, então não consigo usar magia mesmo depois de tentar arduamente por um ano inteiro! É por isso que eu gostaria que o estimado Arquidêmonio talvez me aceitasse como discípulo!”

Um baile noturno era um local onde feiticeiros faziam negociações. Depois que Zagan estabeleceu sua presença de forma tão ousada no barco, era inevitável que feiticeiros aparecessem tentando entrar em contato com ele.

Chastille então franziu a testa.

“Em outras palavras, você é um clandestino? Não sou exatamente alguém para falar, mas isso é bem imprudente...”

“E-eu entendo que é imprudente, mas isso é tudo o que posso fazer agora!”

Zagan estreitou os olhos de forma aguda. Entendo. Agora faz sentido. E, chegando a uma conclusão, ele assentiu.

“Infelizmente, eu não tenho tempo para aceitar um discípulo.”

Zagan ensinou feitiçaria a Nephy porque queria que ela tivesse um meio de se proteger. Fora isso, até mesmo Foll estava aprendendo sozinha enquanto lia todos os livros do castelo. Ao informar Nero disso em um tom autoritário, Nero se agarrou a ele, como se estivesse disposto até a lamber as botas de Zagan.

“P-Por favor, de alguma forma, faça algo! Eu carregarei sua bagagem ou prepararei suas refeições ou farei qualquer coisa que quiser! S-Se desejar, eu até lamberei suas botas!”

...Ele realmente não esperava que Nero mencionasse lamber botas.

Olhando para Nero, que parecia prestes a chorar e berrar a qualquer momento, Nephy soltou um som que parecia demonstrar pena.

“U-Um, Mestre Zagan. Não seria aceitável ao menos ouvir um pouco do que essa pessoa tem a dizer?”

“Não há necessidade. Esse sujeito—”

Zagan ouviu uma voz chamá-lo por trás, interrompendo o que ele estava prestes a dizer.

“Keeheehee, seria melhor você não confiar em um feiticeiro, sabia? Afinal, feiticeiros são todos mentirosos.”

Antes que percebessem, um único feiticeiro havia surgido atrás de Zagan, parado bem na ponta da proa do navio.

Uau... Conseguir se aproximar tanto sem que eu percebesse é impressionante... — Zagan soltou um suspiro de admiração. E, com aquela figura diante de seus olhos, Nero caiu para trás.

“E-Eeek?”

Parada na ponta da proa estava uma velha segurando uma enorme foice na mão. Ela usava um manto que parecia um trapo velho da cabeça aos pés, e seus dedos ásperos e ossudos estavam cobertos por vários anéis com grandes gemas incrustadas. Seus braços e pernas eram ressequidos como os de uma árvore morta, e suas costas estavam curvadas. Ainda assim, a foice que ela empunhava era cerca de duas vezes maior que seu próprio corpo. E, saindo de sua cabeça, havia chifres retorcidos como os de um bode.

Uma fomoriana, hein? Que raro.

Eles eram uma raça que dizia-se herdar o sangue dos demônios e, nos dias atuais, uma espécie bastante rara e de número escasso, assim como os elfos. Também eram famosos por seu alto nível de mana, condizente com sua suposta ligação com os demônios.

“Você é... a Encantadora Gremory, correto?”

Quando jovem, ela talvez tivesse uma aparência condizente com a de uma encantadora, mas... uma velha de cem anos... Como era uma feiticeira, provavelmente havia vivido várias vezes mais do que isso. Ainda assim, ser chamada de encantadora era tão cruel que até mesmo Zagan sentiu um pouco de pena. Apesar disso, ele tinha a impressão de que ela parecia um pouco mais jovem da última vez que a vira.

Agora que penso nisso, Barbatos também não disse nada sobre Gremory ser uma velha... — Na época em que ele havia acabado de acolher Foll no castelo, quando Barbatos ouviu falar de uma filha adotiva, o nome de Gremory havia surgido. Se fosse esse o caso, ela realmente era bastante descarada por chamar os outros de “mentirosos”. Essa aparência de velha não parecia ser sua verdadeira forma. Provavelmente era o mesmo tipo de feitiçaria que Foll usava para assumir a forma humana. E, ainda apoiando a foice no ombro, a velha se curvou respeitosamente pela cintura.

“Keehee, ser reconhecida por um Arquidêmonio é algo extremamente prazeroso. Meu nome é Gremory. Pensei em vir dar minhas saudações ao novo Arquidêmonio, entende?”

“Eu não preciso da sua bajulação descarada.”

“Keeheehee, descartar hierarquia dessa forma é realmente impressionante.”

A velha mostrou seus dentes amarelados enquanto ria e elevava a voz. No entanto, embora estivesse de frente para Zagan, sua consciência estava focada na jovem garota montada no ombro de Raphael. Era um olhar que demonstrava que ela havia descoberto algum tipo de tesouro.

“...Você tem algum interesse na minha filha?”

Para os feiticeiros, a raça conhecida como dragões era uma existência extraordinariamente valiosa, até a última gota de sangue e cada escama. Mesmo estando diante de um Arquidêmonio, era possível que ela tentasse enganá-lo.

Quando Zagan elevou a voz, deixando claro que a mataria caso colocasse as mãos em Foll, os ombros da velha tremeram enquanto ela ria com um “kukuku”.

“Não é nada, eu apenas estava me perguntando se as belas borboletas que o Arquidêmonio mantém ao seu redor foram sequestradas ou não. Foi apenas uma preocupação. Parece que era uma intromissão desnecessária, não foi?”

Enquanto murmurava isso, quem Gremory lançou um olhar de soslaio foi Nero. O fato de Nero estar prostrado e chorando como uma tentativa de ganhar simpatia era algo que pelo menos Zagan sabia. Foi exatamente por isso que ele quis expulsá-los imediatamente. Lançando um olhar lateral para o Nero trêmulo e batendo os dentes, Zagan murmurou de forma cansada.

“Se vai demonstrar preocupação, então direcione isso para ela.”

“Eeek, você está me entregando, Zagan?!”

Ao mudar o foco da conversa para Chastille, ela saltou e soltou um grito. Chastille já estava encolhida com aquela velha assustadora bem diante de seus olhos. No entanto, Gremory franziu o nariz como se a detestasse.

“Eu odeio Cavaleiros Angelicais. Como se eu me importasse se ela vive, morre ou continua por aí.”

E isso deixou Chastille sem palavras. A sensação de profunda afeição que ela direcionava a Nephy e Foll havia desaparecido em algum lugar, sendo substituída por uma hostilidade crua.

Se Bifrons não tivesse convocado Chastille para cá, nenhuma dessa porcaria irritante teria acontecido... — Ao que parecia, Zagan tinha mais um motivo para dar uma boa surra naquele Arquidêmonio. E, enquanto ele se atormentava com isso, uma sombra se projetou sobre a velha.

“Senhorita Gremory, é indelicado da sua parte dizer coisas tão mesquinhas.”

Era uma voz jovem, como a de um garoto... mas, quando Zagan ergueu o olhar para o dono daquela voz, ficou sem palavras. Diante dele estava um grande homem com a juba viril de um leão.

Esse sujeito é... a Lâmina Negra Kimaris, eu acredito?

Como um teriantropo, ele não tinha o rosto de um humano, mas o de uma besta envolta por uma pelagem negra como azeviche. O brilho dourado em seus olhos possuía uma nitidez que parecia aterradora o suficiente para fazer até o rei das feras fugir com o rabo entre as pernas.

Ele era um gigante que se equiparava a Raphael em tamanho, e Zagan conseguia distinguir seu corpo bem trabalhado mesmo sob o manto. E aquele gigante estava habilmente equilibrado sobre o corrimão na proa do navio.

“É um prazer conhecê-lo, Arquidêmonio Zagan. Meu nome é Kimaris. Como pode ver, sou um feiticeiro leonino”, disse Kimaris educadamente ao se apresentar, antes de pegar a velha pela nuca com suas garras grossas.

“Peço desculpas, Senhor Zagan. Esta pessoa tem uma língua venenosa, mas, na verdade, ela é uma boa pessoa. Ao ver todas essas crianças de raças raras como dragões e elfos, ela se preocupou achando que poderiam ter passado por algo terrível. Por favor, perdoe-a.”

“S-Solte-me, Kimaris! Eu não fiz nada que mereça um pedido de desculpas!”

O leão viril curvou-se repetidas vezes enquanto defendia a velha.

“Ah, então vocês dois se conhecem?” murmurou Zagan, um tanto surpreso.

“Sim. Embora eu possa parecer bastante feroz, sou na verdade muito covarde, então tenho dependido da Senhorita Gremory há bastante tempo.”

“Entendo...”

De alguma forma, fosse pelo impacto de sua aparência externa ou pelo porte de seu corpo, parecia para Zagan que ele estava olhando para um Raphael tímido. Se juntasse esse sujeito e Raphael em uma única pessoa, então teria um indivíduo razoável...

Não, não teria, né?

Isso só produziria uma criatura inexplicável: um gigante de comportamento covarde, semblante maligno e incapaz de dizer qualquer coisa além de comentários autoritários.

Zagan lançou um olhar para a velha, que estava brandindo a foice enquanto se debatia e fazia birra violentamente.

“Eu simplesmente amo animais! Quem ajudaria alguém como você só porque gosta dele?!”

“Senhorita Gremory, se você falar de amor numa situação dessas, até eu vou me sentir constrangido.”

Enquanto observava aquela combinação peculiar de uma velha e uma besta, Zagan sentiu que se manter firme diante deles era algo completamente ridículo.

Se esses caras se tornassem Arquidemônios, então o mundo não ficaria mais pacífico? — Mesmo que Zagan não tramasse uma coisa ou outra, ele sentia que aqueles dois protegeriam Nephy e Foll. Chastille então abriu a boca para falar, como se também achasse aquilo um tanto decepcionante.

“Como posso dizer isso... Mesmo entre os feiticeiros, há caras que passam uma boa impressão, né?”

“Muito obrigado. Contudo, se você tentar ferir os outros feiticeiros aqui, Senhorita Cavaleira Angelical, eu também apostarei minha vida para lutar contra você.”

“Eeeek, por que só eu?!”

Ao ver o brilho dourado no olho do leão se acender com sede de sangue, Chastille mais uma vez soltou um grito.

Afinal, Cavaleiros Angelicais são inimigos naturais dos feiticeiros.

E, como se não tivesse outra escolha, Zagan começou a explicar para mediar entre eles.

“Gremory, Kimaris, como vocês já perceberam, essa garota é uma Cavaleira Angelical da igreja, Chastille. Uma das Arcanjos... Bem, ela é uma usuária de Espada Sagrada.”

Ao ser apresentada dessa forma, os dois demonstraram hostilidade direta em relação a Chastille. No entanto, Zagan simplesmente continuou de maneira indiferente.

“Pela aparência, ela parece uma chorona, mas ao que tudo indica quer cooperar com os feiticeiros.”

“...Sinceramente, sinto que a forma como você disse isso só piorou as coisas.” Chastille soltou uma voz insatisfeita, e Gremory e Kimaris fizeram expressões como se estivessem olhando para um vigarista suspeito.

“Você está dizendo que ela está abandonando a igreja e tentando ganhar o favor dos feiticeiros?” respondeu Gremory.

“Como era de se esperar, até eu acho essa história conveniente demais”, Kimaris complementou.

Os dois devolveram palavras de negação como se fosse algo natural, mas Zagan inclinou o copo e falou como se não fosse nada demais.

“Isso é inconsequente. Se uma usuária de Espada Sagrada me obedecer, não terei problemas. Se ela fizer algo como me trair, posso simplesmente torcer o pescoço dela e jogá-la fora.”

“N-Não tem como eu te trair ou algo assim, certo?!”

Tendo sua base completamente removida, Chastille não tinha mais nenhuma dignidade.

Bem, suponho que ela ao menos tenha poder suficiente para cortar os dois à frente dela ao meio... — Gremory e Kimaris eram ambos feiticeiros cujos nomes haviam sido registrados como candidatos a Arquidemônios, mas se Chastille balançasse seriamente sua Espada Sagrada, mesmo sem sua Armadura Ungida, eles provavelmente nem conseguiriam reagir. Após fitá-la por um tempo, Kimaris estreitou bruscamente seus olhos dourados e falou com uma voz gentil.

“Também estou preocupado com a Senhorita Cavaleira Angelical, mas, por favor, seja cuidadoso, Sr. Zagan. Você parece ser bondoso, então acredito que existam pessoas por aí que tentarão se aproveitar disso.”

E a pessoa para quem Kimaris lançava aquele olhar ao dizer isso era, mais uma vez, Nero.

Nero ficou tão pálido e tremia tão violentamente que parecia que poderia se sujar a qualquer momento. Ainda assim, Zagan franziu as sobrancelhas.

“Bondade, é? Acredito que essa seja uma palavra sem relação com feiticeiros, quanto mais com Arquidemônios.”

“O coração capaz de sentir afeição por outro é o que as pessoas chamam de ‘bondade’. Sr. Zagan, essa não é exatamente a mesma emoção que você direciona a cada um de seus seguidores?”

Diante de palavras tão diretas, Zagan foi incapaz de refutar.

Que coisa constrangedora de se dizer com tamanha honestidade. — Incapaz de manter a compostura, Zagan desviou o olhar enquanto coçava a bochecha.

“Ah, hum... Bem, agradeço o aviso. Farei o possível para ter cuidado.”

“Sim. Então, com isso, nos retiraremos”, disse Kimaris, afastando-se pesadamente enquanto ainda segurava a nuca de Gremory. Suas figuras de alguma forma lembravam bastante uma velha solitária e seu amado cachorro.

Será que aquele cara... veio aqui para proteger a Gremory?

As emoções que ele direcionava àquela velha eram semelhantes às que Zagan sentia por Nephy e Foll. Zagan sentiu que o motivo de Kimaris ter se dado ao trabalho de vir até ali era porque estava preocupado com a segurança de Gremory ao vê-la falar de forma ríspida diante de um Arquidemônio.

Feiticeiros são vilões, mas talvez nem todos tenham uma personalidade quebrada como a minha... — Se isso viesse à tona, seriam facilmente explorados, então talvez todos estivessem apenas escondendo esse lado secretamente.

Zagan ponderou seriamente sobre essa ideia enquanto permanecia em silêncio.

♱

Após se despedirem de Kimaris e Gremory, os ombros de Chastille caíram de forma abatida.

“...Achei que estivesse preparada para todo esse abuso, mas realmente estou sendo tratada de maneira cruel.”

“É culpa sua por revelar que é uma Cavaleira Angelical sem motivo algum.”

“Não fui eu quem disse as palavras ‘Cavaleira Angelical’, fui?” Chastille lançou um olhar de reprovação a Raphael ao dizer isso, mas tudo o que o gigante fez foi dar de ombros, indiferente.

Depois disso, Zagan voltou sua atenção para Nero. Talvez por ter sido completamente dominado por Kimaris, Nero havia voltado a se esconder perto da escadaria, espiando Zagan e os outros. Embora os demais feiticeiros estivessem lançando olhares em sua direção, provavelmente tiveram seu entusiasmo esmagado por Gremory e Kimaris. Não parecia que alguém pretendia ir falar com Zagan. Então, ele puxou uma cadeira próxima e fez sinal para Nephy.

“Pois bem, parece que todos os empecilhos desapareceram. Pode se sentar, Nephy.”

“O quê...? Eu estou bem ficando em pé.”

“Então... Chastille deveria se sentar aqui?”

“...Eu vou me sentar.”

Inflando as bochechas com um bufar, Nephy sentou-se ao lado de Zagan. Nesse momento, Foll abriu os olhos sonolentos enquanto ainda estava pousada no ombro de Raphael e então olhou para a mesa perto da cabine, onde havia uma fileira de comidas.

“Estou com fome. Zagan, posso comer aquilo?”

Zagan assentiu, e Foll saltou rapidamente para o convés e correu até lá. Em seguida, Raphael deu um passo à frente.

“Pois bem, exijo que me permita agir a meu próprio critério. É uma boa oportunidade para avaliar os padrões desses malditos feiticeiros.”

Ele falava com uma voz terrível e pesada, que soava mais como uma ordem do que um pedido, mas provavelmente queria dizer que pretendia julgar o valor de todos os feiticeiros a bordo ou algo do tipo.

“Eu permito. Faça como quiser.”

“Meu senhor concedeu permissão. Você pode vir junto, Chastille.”

“N-Não, e-eu vou ficar aqui só mais um pouco...!” Chastille ergueu a voz de forma histérica diante do convite repentino.

“Seria prudente aprender a técnica de ler a maldita atmosfera. Se fosse um pouco mais sábia, certamente não teria exposto sua vida ao perigo aqui.”

Ele provavelmente quis dizer: ‘Se você não ler melhor o clima aqui, Zagan vai acabar te repreendendo.’ E Chastille fez uma cara emburrada em resposta.

“...É bem constrangedor ser repreendida sobre isso por você...”

Raphael foi quem matou quase quinhentos feiticeiros por causa de seu discurso e comportamento enganosos. Não era nada injusto que Chastille reclamasse. E assim, fazendo uma expressão extremamente descontente, ela deixou o lado de Zagan e Nephy em lágrimas.

Depois que todos ao redor da mesa se afastaram, o ambiente caiu em silêncio. Parecia que uma música acabara de terminar, e aquele era o breve intervalo silencioso antes da próxima começar.

O som das ondas do lago ao entardecer ecoava suavemente. Diferente da brisa salgada do oceano que grudava na pele, o vento que soprava sobre o lago era suave e agradável. Ao erguer o olhar para o céu, a lua espreitava por entre uma abertura nas nuvens.

Parecia haver uma lua cheia. Uma luz pálida iluminava o convés sombrio e, mesmo sem feitiçaria, tornava possível enxergar todo o navio.

Na noite do dia em que conheci Nephy, não havia uma lua crescente? — Mesmo agora, Zagan se lembrava claramente da imagem dela estendendo as mãos em direção à lua fina. E, ao recordar isso, Zagan chamou Nephy.

“Ah, hum, Nephy.”

“Sim?”

“Você... quer sentar aqui?” perguntou Zagan, completamente perdido.

Que diabos eu estou dizendo?!

Tudo o que ele queria dizer era que queria ficar um pouco mais perto dela... Ainda assim, quando Zagan bateu na própria coxa, a ponta das orelhas de Nephy avermelharam-se, como se ela estivesse perturbada com a sugestão.

“É... constrangedor fazer isso aqui.”

Embora houvesse uma pausa no momento em que outros feiticeiros se aproximavam deles, isso não mudava o fato de que todos os olhares estavam voltados para Zagan. Em pânico, ele assentiu.

“S-Sim. Eu sei.”

E enquanto tentava fazer uma expressão indiferente, Nephy voltou a inflar as bochechas.

“Mestre Zagan, você tem sido um pouco maldoso ultimamente.”

“Isso é porque você tem me mostrado todos os tipos de novos rostos ultimamente, Nephy.”

Essas foram palavras que vieram diretamente de seu coração. Ao receber esse ataque surpresa, Nephy ficou vermelha e baixou os olhos.

“...Mestre Zagan, isso é injusto.”

Não parecia que ela estivesse realmente insatisfeita, mas, ainda assim, estranhamente não conseguia aceitar aquilo. As pontas de suas orelhas avermelhadas começaram a tremer levemente.

Agora que penso nisso, como será que as orelhas da Nephy estão se sentindo agora...? — Da última vez, quando ele encostou a bochecha na dela, estavam bem duras. Contudo, quando ela estava relaxada, ele sentia que pareciam macias. Incapaz de esconder a curiosidade por mais tempo, Zagan tentou tocar gentilmente a orelha de Nephy.

“Hyaaa?” O corpo de Nephy tremeu enquanto ela soltava um grito adorável. Quanto à orelha, era ainda mais macia do que ele esperava. E, ainda assim, estava quente e ruborizada.

Quando ela não está fora de si de susto, é inesperadamente macia, hein? — Da última vez, ela certamente estava muito além de apenas assustada. Talvez aquela tensão tivesse alguma relação com a rigidez de suas orelhas. Enquanto Zagan fazia essas observações, os olhos de Nephy começaram a se mover nervosamente.

“Hum, ah, Mestre Zagan?”

Já fazia bastante tempo desde a última vez que Zagan ouvira Nephy falar com uma voz tão confusa. Talvez não ouvisse algo assim desde que ela abrira seu coração para ele sobre misticismo. Por causa disso, Zagan voltou a si imediatamente.

“Ah, hum... Desculpe. Eu só fiquei curioso, sabe.”

“Curioso sobre... minhas orelhas?” disse Nephy, tocando curiosamente suas próprias orelhas pontudas. Em resposta, Zagan assentiu vigorosamente.

De certo modo, é o ponto mais fofo da Nephy, então por que eu não ficaria?!

Quando queria saber como Nephy estava se sentindo, a primeira coisa que Zagan observava eram suas orelhas. Assim, ao ver as reações ricamente expressivas que elas tinham, era natural que sua beleza se multiplicasse. E talvez esses sentimentos tenham sido transmitidos, pois Nephy olhou fixamente para Zagan com os olhos levemente erguidos.

“...Se isso lhe agrada, então, por favor.” declarou Nephy, aproximando o rosto dele e apresentando suas orelhas de forma indefesa.

Isso está mesmo bem? —Claro, Zagan foi quem expressou seus pensamentos sobre o assunto, mas nunca imaginou que ela diria que estava tudo bem tocá-las. Após respirar fundo para acalmar os nervos, Zagan encarou Nephy mais uma vez com determinação.

“E-Então, eu vou tocar, tudo bem?”

“Sim.”

Com extrema timidez, Zagan tentou tocar ambas as orelhas de Nephy como se as envolvesse por baixo. Aquelas orelhas, tingidas de um vermelho febril, estavam muito mais quentes do que antes. Ele então confirmou a sensação macia em seus dedos.

Não consigo sentir nada como um pulso, então não há artérias ali, certo?

O rosto completamente ruborizado de Nephy e a forma como ela pressionava o peito deixavam claro que seu coração batia como um martelo em prego, mas o pulso não era transmitido até suas orelhas. E, quando Zagan tentou estimulá-las de maneira inquisitiva, as orelhas em sua mão estremeceram levemente.

As orelhas macias começaram gradualmente a ficar mais duras. Ele conseguia perceber que a tensão de Nephy estava se acumulando.

“Haaah... Haaa...”

Um suspiro escapou dos lábios de Nephy. — Talvez fosse porque fazia cócegas? — Nephy mordeu o próprio dedo e fechou os olhos com força, tentando aguentar, mas isso só a tornava desnecessariamente mais encantadora.

O que é isso? Parece que estou fazendo algo extremamente obsceno agora...

Ainda assim, Zagan queria ver mais dessas reações de Nephy e deslizou os dedos da base de suas orelhas até as pontas afiadas.

“Hyaaafuuu?” Os olhos de Nephy se arregalaram, e seu corpo arqueou para trás. Ao ver lágrimas se acumulando em seus olhos, Zagan soltou as mãos em pânico.

“D-Desculpa. Doeu?”

E, enquanto ele estava completamente abalado, Nephy balançou a cabeça.

“Não, está tudo bem. Hum, é só que... é a primeira vez que sou tocada em um lugar assim, então...”

“E-Entendo...”

Parecia que Nephy estava confusa com uma sensação inédita.

Pensando bem, orelhas são sensíveis até para humanos, certo? — Zagan teria recusado imediatamente se alguém pedisse para tocar as dele. E ao pensar que Nephy permitiu que ele tocasse uma parte tão preciosa de seu corpo, de alguma forma ele começou a se sentir estranho. Incapazes de se encarar diretamente, os dois desviaram o rosto.

“Hã?” Então, ambos finalmente perceberam que toda aquela troca estava sendo observada por todos no convés. A sereia do grupo musical havia até esquecido de cantar, com a boca escancarada. Chastille tentava pegar alguma comida, com o garfo vazio parado no ar. Raphael usava seu corpo grande para bloquear a linha de visão de Foll. Foll pisoteava o chão violentamente, como se estivesse extremamente descontente. E Kimaris e Gremory desviaram o olhar, como se já não fossem mais capazes de assistir àquela cena.

Zagan e Nephy então se afastaram um do outro com extrema rapidez. Enquanto abanava o rosto com a mão, Nephy murmurou algo em voz baixa.

“...Da próxima vez, hum, por favor deixe isso... para quando estivermos sozinhos...”

Em vez de dizer que estava tudo bem tocá-las novamente, Zagan entendeu suas palavras como um pedido para que ele fizesse isso outra vez.

“Fuwah?”

Quando Zagan se virou reflexivamente, Nephy estava de rosto virado e cobria as orelhas, mas o que ele conseguia ver através dos espaços entre seus dedos estava tingido de um vermelho vivo.

Então, ela não odiou isso nem nada...

No entanto, será que Zagan conseguiria manter sua compostura habitual depois de testemunhar uma reação dessas? Parecia que ela não estava tão insatisfeita por ter suas orelhas tocadas, mas, dito isso, se aceitaria quaisquer atos posteriores era outra história.

...Espere, eu ainda não disse ‘eu te amo’ para ela nenhuma vez, disse?

Como era de se esperar, a ordem dos acontecimentos estava bastante invertida. E enquanto Zagan se preocupava infinitamente com seus erros, Nero esfregava as mãos, aproximando-se dele aos poucos.

“Eheh, eheheh, Lorde Zagan e Lady Nephy realmente têm um relacionamento harmonioso, pelo que vejo. Ah, seu copo está vazio, sabia? Quer que eu encha de novo para você?”

Parecia que Nero ainda não havia desistido. Depois de pegar uma garrafa de vinho da mesa, Nero começou a encher o copo de Zagan de forma arbitrária.

No entanto, Zagan apenas fez uma expressão claramente descontente em resposta.

“Não preciso disso. Já chega, suma daqui.”

“V-Vamos lá. Eu só queria oferecer um pouco de serviço a vocês dois. Sim, podem simplesmente pensar em mim como um espantalho ou algo do tipo!”

…Que cara sem vergonha. Será que eu simplesmente devo socar esse sujeito?

No entanto, depois de ter se dado ao trabalho de criar um clima tranquilo com Nephy, ele não queria fazer algo tão grosseiro. Enquanto Zagan gemia diante disso, Nephy timidamente virou a cabeça de volta.

Ela olhou para Nero apenas por um instante e, talvez achando cruel simplesmente expulsá-lo, abriu a boca com determinação para falar.

“Hum, Mestre Zagan. Há algo... de que eu gostaria de falar com você.”

Só de ouvir isso, Zagan pôde perceber imediatamente que se tratava do que havia acontecido em Kianoides no outro dia. Ela havia permanecido em silêncio e nem sequer tocara no assunto com Zagan, mas parecia que finalmente sentia vontade de se abrir.

“Prossiga. Quero ouvir.”

Depois que ele assentiu para ela, Nephy soltou um suspiro, como se estivesse de alguma forma aliviada. Em seguida, fez uma expressão determinada e começou a falar.

“Mestre Zagan, é sobre o que aconteceu outro dia. Quando fui a Kianoides com Foll, fomos atacadas por uma certa pessoa.”

“...Um dos subordinados de Bifrons?”

“Eu não... sei ao certo. Mas acredito que essa pessoa possa ser um pouco diferente de um feiticeiro.”

“Não era um feiticeiro?”

No entanto, pela forma como Nephy se expressou, também não parecia ter sido obra de um Cavaleiro Angélico.

E, justamente quando Zagan aguardava suas próximas palavras...

“Hã...? Que diabos é isso? Névoa?”

Uma névoa branca passou correndo pelos pés de Zagan e envolveu a área. Ao repelir a luz intensa da lua, seus movimentos lembravam até mesmo os de uma fera gigantesca. A névoa se expandiu num instante, e tudo além do alcance da respiração de Zagan foi completamente tingido de branco diante de seus olhos.

Antes que Zagan pudesse ouvir tudo o que Nephy tinha a dizer, um evento misterioso havia começado repentinamente.

Traduzido por Moonlight Valley

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Fim da leitura

Capítulo 18 concluído

Volume 3 – Capítulo 2 – Capítulo 2: Um Cruzeiro Pode Criar uma Boa Atmosfera