Peças Sobre um Tabuleiro — Capítulo 10: Volume I – Capítulo 10 – Capítulo 10: Harmonia

Peças Sobre um Tabuleiro
Cap. 10
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Peças Sobre um Tabuleiro

Volume I – Capítulo 10 – Capítulo 10: Harmonia

Capítulo 10

2.325 palavras~10 min de leitura

— Ué? Cadê a menina que senta atrás de você, Yuuko?

— Eu também queria saber…

— Eu soube que ela se mudou por motivos pessoais — contou a colega que ficava atrás da Beatrice. — Ninguém sabe ao certo o motivo.

Assim que chegou, a professora confirmou a notícia:

— Como algumas de vocês já devem saber, nossa colega Miyasato precisou sair da escola por motivos de força maior. Porém, a carteira dela não ficará vazia por muito tempo. Hoje receberemos mais uma intercambista que busca a excelência da nossa instituição.

Ela fez um gesto na direção da porta.

Assim que a nova aluna cruzou a entrada, uma onda de sussurros e conversas paralelas percorreu a sala. Não era para menos: a aparência dela parecia uma obra de ficção.

Sua pele era tão branca quanto porcelana, mas o que realmente prendia a atenção eram os olhos cor violeta e os cabelos prateados, que repousavam sobre os ombros e balançavam graciosamente a cada passo.

Ela caminhou até a lousa, escreveu seu nome em hiragana e então se virou para a turma.

— Meu nome é Yulia Sviridova. Venho da Rússia. Conto com vocês daqui em diante.

Para finalizar, fez uma breve reverência.

— Meu Deus… — Daniela cobriu a boca com as mãos.

Beatrice cutucou o ombro da Daniela e sussurrou:

— Será que é ela?

— Com certeza!

“Ela quem?” — perguntei-me.

— Por favor, sente-se naquele lugar vazio.

Depois que ela se acomodou, Daniela não perdeu tempo.

— Oiê!

Beatrice também a cumprimentou.

— Você é “aquela” Yulia Sviridova?

— Como? — Yulia reagiu, confusa.

A professora não demorou a perceber Daniela importunando a aluna nova.

— Albuquerque-san, deixe a conversa para outra hora.

— Desculpa…

Pelo resto da aula, Daniela fez um esforço sobre-humano para não se virar e bombardear a novata com sua pergunta misteriosa.

Como era de se esperar, o intervalo da troca de aula transformou Yulia no centro das atenções. No Hoshikawa, porém, isso aconteceu de maneira diferente.

Uma porção de alunas se reuniu ao redor da carteira da novata. Em vez de perguntas atropeladas e gritaria, a conversa era elegante e comedida, como damas em um evento social.

É claro que a Daniela destoava desse cenário.

— Ei, Yulia-san!

Assim que ela chamou a recém-chegada pelo primeiro nome, todo mundo arregalou os olhos ou franziu a testa diante da falta de cerimônia. Ninguém disse nada, mas a reação foi evidente.

— Eu conheço você! Você é uma grande mestre de xadrez!

— É… sim… — Yulia confirmou, um pouco assustada com a expressividade da Daniela.

— Como você sabe, Albuquerque-san? — uma colega perguntou.

— Ela é famosa no xadrez. Joga em alto nível!

As outras reagiram positivamente à revelação.

— Não sou tão famosa assim… — Yulia amenizou, rindo de nervoso.

— Deixa de modéstia, vai. Aliás, eu sou presidente do Clube de Xadrez. Quer se juntar a nós?

Antes que a Yulia dissesse qualquer coisa, uma colega se colocou entre as duas.

— Permita-me discordar, Albuquerque-san.

Daniela piscou algumas vezes antes de perguntar:

— Quem é você?

— Hanae Atsuo, vice-presidente do Clube de Cultura Eslava. Antes de pensar no seu clube, gostaria de apresentar à Sviridova-san o meu.

— O quê? A Yulia-san é uma enxadrista, é claro que ela vai querer vir pro meu clube!

— Não é bom decidir pelos outros, sabia?

— Por que tanto interesse em recrutar a Yulia-san, hein?

— Porque ela é russa, oras.

— Só por isso?

— Ela é uma intercambista russa! Você faz ideia de como isso é valioso para um clube dedicado à cultura do povo eslavo?

— E você faz ideia de como é valioso ter uma enxadrista russa no Clube de Xadrez?

— Ela pode compartilhar costumes, literatura, culinária, música...

— Defesa Petroff, Gambito da Dama e os segredos da Escola Soviética também!

As duas ficaram frente a frente, encarando-se como boxeadoras antes de uma luta.

— Por favor, senhoritas, não briguem — A representante da turma solicitou. — Vamos decidir isso pacificamente.

— Tem razão — Hanae disse. — Que tal deixarmos ela decidir?

As duas se viraram para a russa. O restante da turma seguiu o exemplo, como se aguardasse uma decisão importante para o país inteiro.

Yulia olhou para todos os lados, mas estava cercada. Não tinha fuga.

— É… Posso pensar no assunto?

Sob pressão da representante da turma, Daniela e Hanae aceitaram dar um tempo para Yulia decidir com calma. Mal sabíamos que elas não ficariam paradas vendo o tempo passar.

♞

O horário do almoço deveria ser um momento tranquilo, mas, daquela vez, eu não conseguia relaxar. Estava o tempo todo atenta, com medo de que a disputa silenciosa entre Daniela e Hanae terminasse em algum desastre.

“Elas são damas. Com certeza nada de ruim vai acontecer… certo?”

Antes do intervalo, a representante da turma solicitou que Beatrice acompanhasse Yulia nos primeiros dias de adaptação, já que as duas se sentavam lado a lado. A Bia, por sua vez, me convocou para ajudá-la nessa missão. Nenhuma de nós tinha muita presença ou capacidade de impor autoridade, mas, unindo forças, talvez conseguíssemos fazer a nova colega se sentir acolhida e protegida.

Yulia, no entanto, estava em outra sintonia: em pé com a cara quase colada na janela, contemplando a paisagem com a melancolia de quem não pode brincar lá fora por causa da chuva — embora aquele fosse um dos dias mais ensolarados do mês.

— Vocês devem gostar de comer ao ar livre todos os dias… sob esse céu azul e Sol vibrante…

A pedido dela, passaríamos o intervalo dentro da sala de aula, contrariando nosso costume de ir ao jardim.

— Você não precisa ficar só olhando — falei. — Podemos almoçar lá fora também.

— Infelizmente, tenho que me contentar em observar.

— Por quê? — Beatrice perguntou, preocupada.

— Pelo mesmo motivo dela ter esse cabelo prateado e cor de olhos — Daniela respondeu.

Hanae juntou as peças e deu seu palpite:

— Tem relação com a sua saúde?

Yulia se virou para nós e assentiu.

— Eu tenho uma síndrome genética chamada Snegurochka.

— “Donzela da neve”? — Hanae traduziu.

— É referência a uma lenda russa que tem esse nome. Até agora só mulheres que nasceram no permafrost têm essa síndrome, então os médicos nos chamam de “donzelas da neve”.

— Tem uma lenda japonesa com um nome parecido, não tem? — Beatrice perguntou.

— Sim — respondi. — É a lenda da Yuki-onna.

Yulia apontou para os próprios olhos.

— Em compensação pela sensibilidade ao Sol, minha visão noturna é excelente.

— Se você é sensível ao Sol, você pode ficar aí na janela?

— Posso. Não sou tão sensível quanto um vampiro.

Ela riu da própria brincadeira, e essas risadas deixaram o clima mais leve.

Quando terminamos de organizar as mesas, finalmente começamos a almoçar. Mas a paz durou pouco.

A cada mastigada, Daniela e Hanae aproveitavam para fazer uma nova investida sobre Yulia: ora elogiavam suas qualidades, ora exaltavam as atividades dos respectivos clubes, numa batalha cada vez menos discreta para convencê-la a se juntar a um deles.

♟

— O que ainda tem pra ela pensar? É lógica básica! Ela é uma enxadrista e nós somos um clube de xadrez, então ela tem que se juntar a nós!

Desde a sala de aula até a sala do clube, Daniela não parava de se queixar da mesma coisa.

— Do que você está reclamando? — Rachel perguntou, interrompendo a leitura de um livro.

— Sabe a Yulia Sviridova?

— Who?

— A Yulia Sviridova! Ela se transferiu para o Hoshikawa e caiu justamente na minha turma!

Demorou um pouco para Rachel entender de quem Daniela estava falando.

— O que ela está fazendo aqui???

— Não sei, mas o problema é outro. Convidei ela para entrar no nosso clube e ela não aceitou!

— Não foi bem isso — Beatrice corrigiu. — Ela disse que ia pensar, porque também recebeu convite de outro clube.

— Um tal de Clube de Cultura Eslava... — Daniela contorceu a cara como se estivesse proferindo uma ofensa.

Esmeralda, sentada sobre um travesseiro e em posição de lótus, comentou sem abrir os olhos:

— Você precisa aceitar que o xadrez não é a prioridade de todo mundo.

— Olha quem fala! — Daniela apontou para Esmeralda. — E vocês ouviram o que eu disse? Estamos falando da Yulia Sviridova! Uma das melhores enxadristas da Rússia! É óbvio que ela deveria entrar no Clube de Xadrez!

— E se ela simplesmente não quiser entrar em clube nenhum? — Rachel rebateu. — Talvez ela só queira estudar undisturbed.

— A vida dela gira em torno do xadrez, por que ela deixaria passar a oportunidade de jogar xadrez também na escola?!

— Daniela, relaxa. Respiiiraaa…

Foi só então que ela percebeu que Esmeralda estava imóvel no chão.

— Por que você tá sentada desse jeito?

— Estava esperando vocês chegarem.

Ela abriu olhos.

— Vamos meditar.

— E o treino de xadrez? — perguntei.

— Faz parte do treino.

Olhei para Rachel, esperando que ela contestasse a ideia. Para minha surpresa, ela disse:

— Meditação ajuda bastante na concentração.

Daniela respirou fundo.

Depois de toda a agitação, talvez alguns minutos de silêncio fossem uma boa ideia.

Sem reclamar pela primeira vez naquele dia, ela se sentou ao lado da Esmeralda — no chão mesmo. Todas nós fizemos o mesmo, formando um círculo.

— Cruzem as pernas. Se essa posição incomodar, podem sentar do jeito que quiserem.

Daniela tentava imitar exatamente a postura dela.

— Assim?

— Assim mesmo.

Beatrice estava arrumando a postura também, quando pareceu lembrar de alguma coisa.

— Ah! Esperem um pouquinho.

Ela caminhou até a própria bolsa e voltou segurando uma pequena caixa de madeira. Ao abrir a tampa, um aroma suave e floral escapou dali.

— Um incenso ajudaria?

— É mesmo! Você disse que traria — Daniela recordou.

— É incenso de quê? — Esmeralda perguntou.

— Lavanda, chá branco e um pouquinho de cedro.

— Hum… não manjo muito disso, mas o cheiro é bom.

Com a aprovação implícita, Beatrice colocou o conjunto — um suporte de vidro esmaltado azul e as varetas aromáticas — no centro da roda. Em seguida, usou um isqueiro para acender as varetas uma a uma.

— A família da Bia que fabrica esses incensos, sabia? — Daniela comentou, olhando para mim.

— A gente fabrica quase todo tipo de produto aromático — Beatrice ressaltou, sorrindo com orgulho. — Se algum dia quiser perfumes, incensos ou difusores, é só procurar a Maison Bardin mais próxima.

“Com certeza essa loja não foi feita pra gente como eu…” — pensei, enquanto sorria de volta.

Uma fumaça fina começou a subir, disseminando o perfume delicado pela sala. Meu nariz jurava que existia um abismo entre a qualidade daquele aroma refinado e dos incensos baratos vendidos no mercado da esquina.

Rachel inspirou discretamente.

— Good… Ficaria ótimo no meu banheiro.

Beatrice franziu a testa.

— Isso foi um elogio?

Sem esperar a resposta, Esmeralda chamou nossa atenção de volta.

Com o olfato bem servido, voltamos à meditação.

— Agora fechem os olhos.

Obedecemos.

— Prestem atenção apenas na respiração. Inspirem… Expirem...

O silêncio tomou conta da sala. Só era possível ouvir nossa respiração e o canto distante de alguns pássaros do lado de fora.

— Não tentem impedir os pensamentos de aparecer. Deixem que eles venham. Depois deixem que vão embora, como nuvens passeando no céu.

No começo parecia simples, mas minha cabeça começou a trabalhar sem pedir licença.

"Será que a Yulia vai entrar no clube?"

"Ainda preciso revisar minhas partidas de ontem."

"Será que o Queen Chess Open vai ser difícil?"

“As provas do bimestre estão chegando…”

"Nossa… esse incenso é muito cheiroso."

"Espera… Eu tenho que focar na respiração, não nos pensamentos!”

Abri um dos olhos discretamente.

Daniela também tinha aberto um. Assim que percebeu que eu a observava, fechou o olho correndo.

Segurei uma risada.

— Se perceberem que a mente divagou, apenas tragam a atenção de volta para a respiração — disse Esmeralda, como se tivesse previsto exatamente aquilo.

Tentei outra vez. Dessa vez consegui permanecer alguns instantes sem pensar em absolutamente nada.

Era uma sensação estranha… Como se o volume do mundo tivesse diminuído. Como se não existisse mais pressa nem prazos a serem concluídos, apenas o canto dos pássaros e o aroma do incenso.

Depois de algum tempo, Esmeralda voltou a falar.

— Agora prestem atenção aos sons. Ao cheiro do ambiente. Ao peso do corpo no chão. À temperatura do ar.

Graças à meditação, percebi o quão caótica minha mente era. Qualquer coisa servia de combustível para a ansiedade: o futuro, o passado, o xadrez, o que teria no jantar…

Seguindo as instruções da Esmeralda, senti, pela primeira vez, aquele fluxo incessante de pensamentos desacelerar até quase desaparecer. Quando isso aconteceu, senti que finalmente estava enxergando o que sempre esteve diante dos meus olhos.

Me dei conta de onde estava: um colégio prestigiado em que muita gente daria um rim para estudar. Lembrei que o clube onde estava prometia ser o ponto final da minha jornada de autodescoberta. Lembrei que eu era uma pessoa privilegiada com muitas amizades saudáveis e experiências legais.

Era gratificante sair, ainda que por alguns instantes, daquele turbilhão dentro da minha cabeça e perceber que o mundo real não era tão acelerado nem tão opressor quanto a minha mente fazia parecer.

Quando Esmeralda pediu que abríssemos os olhos, a luz do fim de tarde parecia um pouco diferente: mais vibrante, mais calorosa, mais nostálgica…

Daniela espreguiçou os braços.

— Caramba... eu realmente me acalmei!

— Eu quase dormi... — confessou Beatrice.

— Antes de treinar xadrez, precisamos acertar as contas com a nossa mente.

Esmeralda olhou para cada uma de nós e continuou:

— Uma posição difícil não exige apenas cálculo. Exige calma. Não adianta ter a precisão de uma máquina se você tem o autocontrole de uma onça com fome.

— Precisão, velocidade, calma… — Daniela murmurou para o ar, enquanto fazia alguma conta com os dedos. — Podemos dizer que esses são os pilares do xadrez!

— All right, sábia Esmeralda. Qual é o próximo passo, agora que nos deixou calmas feito coalas?

— Mais uma sessão de partidas no Luchess. Por último, uma simultânea contra mim.

Daniela cruzou os braços.

— Se você não dormir antes, igual ontem…

Esmeralda olhou para longe, fazendo um biquinho.

— Não posso prometer…

Daniela e Rachel assumiram um trabalho inesperado: impedir nossa treinadora de adormecer antes do fim do treino. As duas revezaram cutucões, beliscões e chamados de atenção sempre que Esmeralda começava a cochilar.

A estratégia funcionou. Graças a ela, conseguimos concluir com sucesso mais um dia de treinamento.

Fim da leitura

Capítulo 10 concluído

Volume I – Capítulo 10 – Capítulo 10: Harmonia