Peças Sobre um TabuleiroVolume I – Capítulo 11 – Capítulo 11: Grande mestre
Capítulo 11Eu estava no Japão há alguns meses. Mais tempo do que um turista comum, mas não o bastante para dizer que tinha me acostumado a tudo.
Nos primeiros dias, passei noites em claro e tardes lutando contra o sono. Quando o Sol raiava, às vezes me trancava no quarto com dor de cabeça e uma vontade vampiresca de fugir de qualquer claridade.
Quando meu relógio biológico entrou nos eixos, começaram outros pequenos choques de realidade. No café da manhã, por exemplo, descobri que era possível encontrar todo tipo de pão francês, menos o pão francês que todo brasileiro conhece.
Eu adorava a comida japonesa, principalmente os pratos quentes e reconfortantes — ramen, oden e companhia. Mesmo assim, de vez em quando meu estômago sentia saudade de casa. Feijão preto, carne de sol e outros ingredientes brasileiros não eram encontrados em qualquer esquina. E, se batesse aquela vontade de comer uma coxinha ou um pão de queijo, as opções eram fazer em casa ou caçar algum estabelecimento da comunidade brasileira.
Também descobri que a terra do Sol nascente não era tão vibrante e colorida quanto os animes me fizeram acreditar. Tóquio era tão cinza e monótona quanto qualquer outra metrópole engolida pela modernidade.
Mesmo assim…
Bastava andar um pouco para lembrar por que aquele país me fascinava: os templos, as relíquias arquitetônicas, Akihabara… Era prazeroso andar numa praça e ver que estava tudo bem cuidado, sem nenhum lixo no chão nem brinquedos abandonados pelo governo. Ou caminhar às margens de um rio que, mesmo cortando quilômetros de uma metrópole gigantesca, ainda era cristalino e cheirava bem.
Mesmo se eu tivesse a oportunidade de ir para qualquer lugar do mundo, algo me dizia que aquela cidade era a mudança de perspectiva que eu precisava.
— Na direita! Na direita!
— Tá bom, tô indo!
— Ele tá bem ali, naquele prédio!
— Beleza, vou te dar cobertura.
Xadrez não era o único jogo que eu jogava. Era meu trabalho, e todo mundo precisa descansar do trabalho de vez em quando.
Por isso, eu e Evandro — o mais próximo que tenho de um amigo — frequentemente sentávamos na frente dos nossos respectivos setups para jogar qualquer coisa que não envolvesse sessenta e quatro casas. Sim, nós carregamos nossos computadores em uma viagem internacional.
O apartamento que dividíamos ocupava o andar inteiro, então transformamos um dos vários cômodos em nosso “escritório gamer”. Ali, na escuridão iluminada por LEDs e monitores, gastávamos algumas horas atirando e explodindo os inimigos.
Nossos headsets eram bons, mas não faziam milagre. Por isso, mesmo com tiros e estrondos preenchendo minhas orelhas, ouvi o toque espalhafatoso do celular do Evandro.
— Peraí.
Ele largou o personagem no fogo cruzado.
— Evandro, não fica aí!
Tarde demais. O combatente dele levou um tiro na cabeça.
— E aí! Por que ligou direto pra mim e não pelo interfone? Ah, tá, eu não ouvi. Ah, é? Sim, ele tá aqui.
— Evandro, bora! Eles estão chegando!
Ele afastou o celular da orelha.
— Edu, você conhece alguma Yulia Sviridova?
O nome soava familiar, mas distante demais para eu dizer que a conhecia.
— Não.
— Ele disse que não conhece. Ah, é? Edu, ela disse que é enxadrista.
Yulia Sviridova. Enxadrista…
A Yulia Sviridova que eu conhecia era uma prodígio russa. Notícias sobre ela eram comuns na internet. Já havia cruzado o caminho dela em torneios online, mas nunca pessoalmente.
— Isso é alguma pegadinha?
— Se é, eu não tô sabendo.
Sem esperar minha opinião, Evandro liberou a entrada.
Com certeza receberíamos xingamentos dos colegas de time, mas, felizmente, não estávamos disputando nenhum e-sport valendo milhões. Deixamos o jogo do jeito que estava e fomos receber a visita inesperada.
Evandro foi quem abriu a porta. Do outro lado estavam duas moças: uma adolescente e uma na casa dos trinta anos.
Cabelos prateados, olhos cor de rubi… e um uniforme escolar japonês. Uma combinação inusitada.
Não restava dúvidas. A garota que eu via só através de fotos e vídeos se sentou no nosso sofá.
— Desculpem-me pelo meu traje. É que eu estava muito ansiosa, então vim logo depois de sair da escola.
— Tá de boa. Né, Eduardo?
— S-Sim. Está tudo bem.
Sentada ao lado dela estava Anfisa, uma mulher alta, vestida a caráter de uma reunião em uma grande empresa e com a cara de um mafioso protegendo seu chefe durante uma transação perigosa. Era a guarda-costas da mocinha — com uma mulher daquela por perto, Yulia não devia ter muitas preocupações com a própria segurança.
— Aqui está o homem que você procura — Evandro anunciou, colocando as mãos sobre meus ombros.
Yulia levantou-se e me reverenciou.
— É uma honra conhecê-lo, senhor da Rocha.
“Uma honra? Sou tão importante assim?”
— Me chama só de Eduardo.
— Então me chame apenas de Yulia.
Ela se sentou de novo.
— Sobre o motivo da minha visita, venho fazer um pedido. Gostaria que você se tornasse meu treinador.
Ela fez aquele pedido com tanta naturalidade que meu filtro de coisas ilógicas demorou bastante para funcionar.
— Olha só que legal, Edu!
Evandro aceitava as coisas muito rápido… Mas eu não.
— Eu? Seu treinador?
— Seu trabalho será remunerado, é claro.
— Não é esse o problema…
Todos ficaram esperando eu continuar.
— Por que eu?
— Você é o pupilo de Xavier Prates. Isso é motivo mais do que suficiente.
Ela abaixou ligeiramente a cabeça.
— Aproveito para dizer que sinto muito pela sua perda.
— Obrigado. — também abaixei meu olhar. — Olha só… não quero te decepcionar, mas eu não chego nem aos pés do Xavier.
— Eduardo... — Evandro olhou pra mim de canto, como se eu tivesse falado uma coisa que merecia bronca.
— Todos dizem que você é o sucessor dele.
— É um exagero da mídia. Além do mais, ensinar e jogar são habilidades completamente diferentes. Eu jamais conseguiria guiar uma enxadrista do seu calibre.
As coisas ficaram um pouco tensas. Cada vez mais eu me sentia em uma negociação perigosa.
Até que o clima tenso foi quebrado por risadas repentinas da Yulia.
— Meu avô acertou em cheio.
— Seu avô?
— Ludomir Sviridov.
Pisquei algumas vezes.
— Espera... o Ludomir?
— Sim. Ele era amigo do senhor Xavier e falou muito sobre você.
Evandro abriu um sorriso.
— Quero saber dessa.
— O vovô disse que o Eduardo é um enxadrista excepcional... mas humilde em excesso. Falta “um pouco de ego” em você.
— Isso vai completamente contra meus princípios — deixei claro.
— E então? — Evandro perguntou. — Vai aceitar? Claro que sim, né?
Balancei a cabeça.
— Continuo achando que não sou a pessoa certa.
A expressão radiante da Yulia vacilou.
— Quer que eu dê um jeito nisso, senhorita? — Anfisa perguntou.
Só de ouvir a voz dela, senti um arrepio…
— Não precisa. Deixa comigo.
— Como desejar.
A guarda-costas voltou a ficar rígida como uma estátua.
Yulia respirou fundo antes de perguntar, num tom melancólico:
— Posso saber o motivo da recusa?
— Porque sua carreira está em jogo. Se eu fizer um trabalho ruim, o que é muito provável, quem vai pagar a conta é você.
Ela se levantou e exclamou, apertando os punhos:
— Eu não ligo pra isso!
— Como é?
— Se esse é o problema, então você está isento de qualquer responsabilidade sobre meus resultados!
— Espera aí, Yulia. Você não está pensando direito.
Ela inflou as bochechas e começou a me encarar como uma criança birrenta. Nem parecia mais que eu estava conversando com uma das enxadristas mais maduras e promissoras do momento.
Eu não sabia mais como convencê-la a desistir da ideia… Até que Evandro tomou a iniciativa:
— Moças, podem nos dar licença um minutinho?
Evandro me puxou para a cozinha. Assim que ficamos longe o bastante da sala, ele começou a falar aos sussurros:
— Por que você não quer aceitar? É uma proposta incrível!
— Incrível? Pode até ser, mas ela está colocando muita expectativa em mim. Eu não levo jeito pra ser professor.
— Você ouviu o que ela disse. Ela te isenta de qualquer responsabilidade sobre os resultados dela.
— Isso não faz sentido. Se ela não espera resultados de mim, por que me contratar? É óbvio que, no fundo, ela espera que eu ajude a melhorar o desempenho dela. Essa história de "isenção" é só pra me deixar mais à vontade.
— Tá. Então o problema é você ter medo de não corresponder às expectativas dela. Que tal um período probatório?
— Como assim?
— Você treina ela por um tempo. Duas semanas, um mês, sei lá. Depois, ela mesma decide se está aprendendo alguma coisa com você. Se não estiver, cada um segue sua vida.
A proposta me fez pensar por alguns segundos, mas ainda havia outra coisa me incomodando.
— Tem mais um problema. Ela veio atrás de mim porque o Xavier não está mais entre nós. Se ele estivesse vivo, ela estaria sentada no sofá da casa dele agora.
— E daí? Não é pra isso que servem os discípulos? O mestre ensina, o discípulo aprende e, um dia, passa esse conhecimento adiante.
— É... até pode ser.
Evandro estreitou os olhos.
— Ou o problema é outro? Você não gosta da ideia de ser visto só como "o pupilo de Xavier Prates"?
— Nada a ver! Nunca tive a intenção de superar o legado dele.
— Então pronto!
— Pronto nada! A gente começou essa discussão ao contrário. Por que eu tenho que aceitar? Tá escrito isso em algum lugar? Eu tenho minha vida, minha carreira!
— Ué? Você não tá em hiato? Você não está aqui no Japão apenas descansando e “pensando na vida”?
— Tá aí mais um argumento a meu favor. Estou aqui pra me afastar do cenário competitivo. Ser treinador vai totalmente contra essa proposta.
— Ah, cara…
Evandro bufou e olhou para o lado.
Achei que finalmente tinha acabado com os argumentos dele, mas ele veio com mais uma cartada:
— Você mesmo diz que a vida é feita de experiências novas e enriquecedoras. Olha aí uma batendo na sua porta, literalmente.
— Se eu aceitar, vou estar "vivendo uma experiência nova" às custas da carreira de outra pessoa. A Yulia está começando uma carreira extremamente promissora. Eu sei o quanto uma sequência ruim de torneios, alguns pontos de rating a menos ou uma preparação malfeita podem pesar nessa fase.
Evandro ficou quieto mais uma vez.
Bufou. Olhou para o chão. Depois para o teto. Colocou as mãos nos bolsos…
Mas eu não me deixava enganar.
Ele era um argumentador muito melhor que eu. Não apenas porque conseguia articular as palavras rápido e com qualidade, mas porque sabia que palavras tinham seu limite. Quando falar não bastava, ele procurava evidências… E, pelo jeito, acabara de perceber que a evidência estava na sala de estar.
Sem dizer nada, ele voltou para a sala.
— Ei, onde você vai?
Fui atrás dele.
Evandro parou diante das visitantes e fez seu melhor sorriso.
— Senhoritas, nosso querido Eduardo, apesar de ser um excelente enxadrista, é um baita cabeça-dura. Não é à toa que ficou careca.
“Apelou pra minha careca, é?” — pensei, fingindo não ligar para o deboche.
— Por isso, Yulia, vou precisar da sua ajuda para convencê-lo.
— Claro. Como posso ajudar?
Evandro era um adulto independente. Portanto, permaneci na entrada da cozinha, cruzei os braços e assisti à palhaçada.
— O Eduardo está muitíssimo preocupado com o impacto que pode ter na sua carreira. Ele teme atrapalhar mais do que ajudar, já que nunca trabalhou como treinador.
Yulia olhou para mim.
— Eu já disse que ele está isento da responsabilidade pelos meus resultados.
— Pois é. E foi justamente isso que deixou ele intrigado. Se ele não terá responsabilidade nenhuma pelos seus resultados, então qual seria a função dele?
Yulia ficou em silêncio por um instante. Depois se endireitou no sofá.
— Acho que não expliquei direito.
Ela juntou as mãos sobre o colo.
— Eu não quero que o Eduardo mova as peças por mim. Também não preciso de alguém que simplesmente aponte quais lances foram erros e quais foram acertos. Se fosse só isso, bastaria consultar uma engine. O que eu quero é entender como ele pensa. Quero aprender suas técnicas, visão, paradigmas… segredos, quem sabe. Se eu vou ganhar ou não, isso é problema meu. Eu é que vou estar jogando, no fim das contas.
Evandro virou lentamente o rosto na minha direção e ergueu as sobrancelhas. Isso já dizia tudo:
“Qual é o seu próximo argumento, hein?”
♘
— Supondo que eu aceite ser seu treinador, como vai funcionar? Uma, duas vezes por semana?
— O que você considerar melhor. Se pedir que nos encontremos todos os dias, por mim não há problema.
— Então eu também decido o cronograma?
— Minha única exigência é que seja fora do horário das minhas aulas.
— Beleza. Então…
Agora vinha a parte complicada.
Eu não queria fazer um trabalho ruim, então tinha que aprender do zero a ser o treinador que a Yulia queria.
O primeiro passo era ganhar tempo.
— Eu vou participar de um evento em breve, aí eu não estou com muito tempo esses dias… Será que podemos começar na semana que vem?
— Você se refere àquele evento no Queen's Promenade?
— Como você sabe?
— Eu sigo você nas redes sociais. Inclusive eu vou participar também.
— Sério? — Evandro se animou. — Vai ser ótimo ter mais uma profissional como você no evento!
Ela se levantou. Anfisa fez o mesmo.
— Eu gostaria de receber um pouco da sua orientação antes do evento, mas, se estará ocupado até lá, posso esperar.
— Agradeço a compreensão.
Oferecemos café, chá e água, mas ambas recusaram educadamente.
Sem mais nada a tratar, acompanhamos as duas até a saída do prédio.
— Até mais! — Evandro se despediu, acenando.
Yulia retribuiu através da janela do carro. Anfisa assumiu o volante e, poucos segundos depois, o veículo preto desapareceu pela rua.
Continuei olhando na direção dele mesmo depois que sumiu de vista.
— Quem diria, hein? — Evandro quebrou o silêncio.
— Pois é…
— Desse jeito, não demora muito pra aparecer alguma admiradora se declarando também.
Ele me deu um tapa nas costas e caiu na gargalhada.
Evandro era igual àquelas avós do "e as namoradinhas?". Não perdia uma oportunidade.
Eu preferia acreditar que, por trás das piadas, ele estava genuinamente tentando me dar alguma esperança.
Ele parou de rir e perguntou:
— Aliás... Por que você disse que está ocupado com o evento? Você não treinou um minuto sequer pra ele.
— Foi a melhor desculpa que encontrei pra ganhar tempo.
— Ahhh... malandrinho.
Voltamos ao apartamento.
Enquanto Evandro provavelmente pensava em retomar nossa gameplay, fui direto para o quarto e abri meu notebook de trabalho. Eu precisava descobrir como diabos se treinava uma enxadrista profissional.
Abri o aplicativo de “anotações inteligentes”. Durante anos, usei aquilo como uma espécie de segundo cérebro: ideias, partidas, estudos, análises, lembretes... Qualquer conhecimento que eu julgasse importante demais para confiar à memória humana acabava lá.
Naquele momento, agradeci a todas as versões passadas de mim que tiveram paciência para alimentar aquela monstruosidade.
Busquei as palavras-chave “projeto GM”. Não quero me gabar, mas sempre tive talento para dar nomes criativos às coisas.
Apareceu uma pasta com este exato nome. Ali dentro estava praticamente toda a minha trajetória até conquistar o título de grande mestre. Centenas de notas, partidas comentadas, posições, exercícios, reflexões… E, no meio delas, encontrei uma chamada “Rotina de treino”. Tudo o que aquela nota tinha era uma lista de tarefas com oito itens:
Exercício;
Revisar quebra-cabeças;
Jogar;
Revisar partidas e extrair quebra-cabeças;
Estudar alguma teoria;
Jogar;
Revisar partidas e extrair quebra-cabeças;
Descansar.
Parecia ridiculamente simples…
Na prática, nossa rotina tinha sido muito mais complexa. Mas Xavier insistia que o planejamento permanecesse daquele jeito. Segundo ele, um cronograma precisava indicar o caminho, não decidir cada passo milimetricamente.
Rolei o explorador de arquivos na lateral. Aquilo não tinha fim.
Havia mais de dez anos de anotações ali.
Conselhos. Métodos. Exercícios. Análises. Coisas que Xavier dizia durante nossos treinos e que eu registrava sem imaginar que, um dia, seria eu quem precisaria ensiná-las a outra pessoa. Passei tanto tempo organizando o conhecimento daquele homem que, sem perceber, construí uma espécie de manual sobre como ele havia me transformado em grande mestre.
Eu não sabia ser treinador, mas Xavier sabia. E aquelas anotações eram o mais perto que eu chegaria de poder pedir sua orientação novamente.
Me ajeitei na cama, apoiei o notebook no colo e comecei a ler tudo desde o começo.
"Tomara que eu consiga passar adiante tudo o que você me ensinou, Xavier..."
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