Peças Sobre um Tabuleiro — Capítulo 12: Volume I – Capítulo 12 – Capítulo 12: Promoção

Peças Sobre um Tabuleiro
Cap. 12
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Peças Sobre um Tabuleiro

Volume I – Capítulo 12 – Capítulo 12: Promoção

Capítulo 12

3.138 palavras~14 min de leitura

— Agradeço o convite de ambas, mas terei que recusar.

Yulia se curvou o máximo possível diante de Hanae e Daniela.

— Foi isso o que ela disse! — Daniela começou a imitar um choro exagerado que me lembrou da Saori no primeiro dia de aula.

— Eu avisei que ela só queria estudar in peace.

— Ela disse que vai começar a treinar com um professor particular, então não teria tempo para um clube — Beatrice explicou.

Daniela deixou a cabeça cair sobre a mesa.

— Se eu tivesse encontrado um treinador pro clube a tempo…

— Você acha que ela ia mudar de ideia se a gente tivesse um treinador? — indaguei.

— Se tivéssemos alguém capaz de agregar valor ao xadrez dela, nossas chances seriam maiores.

— Daniela, que tal deixarmos a Yulia um pouco de lado e focarmos no Queen Chess Open? — Beatrice aconselhou.

Daniela se ergueu novamente e bateu nas próprias bochechas, como se tentasse acordar.

— Tem razão! Depois eu foco na Yulia. Por agora, concentração total no Queen Chess Open!

Faltava pouco mais de uma semana para o evento.

Eu achei que quanto mais treinasse, mais confiante ficaria para o grande dia. Mas não importava o número de jogos nem de sessões de meditação. Quanto mais a data se aproximava, mais inquieta eu ficava.

Daniela aproveitou o momento para acertar alguns detalhes. O primeiro ponto foi o transporte. Ela afirmou que tinha um “plano” para que todas nós — incluindo nossa conselheira, a professora Bardin — coubéssemos no mesmo veículo.

O segundo ponto era algo que eu não estava nada animada para abordar.

— Vamos sair pra fazer compras?

— Eu topo! — Beatrice respondeu. — Estava pensando na mesma coisa!

— No way! Não vou gastar uma nota num evento rinky-dink desses.

— Como assim? É um evento de xadrez! Tenho certeza que você gasta uma fortuna em roupas pra ir nos eventos da FIDE.

— Aí é outra história.

Daniela fez uma cara contrariada, mas não durou nem três segundos. Logo surgiu um sorrisinho de quem teve uma ideia esperta.

— Rachel… esqueceu que seu irmão vai estar lá?

Rachel sentiu um arrepio tão forte que deu pra ver de longe.

— O que isso tem a ver?

— Ele não vai ficar desapontado de te ver mal vestida num evento importante?

— Não é um evento importante! E quem é ele pra julgar minhas roupas?

— Ele pode repassar isso para os seus pais… Eles vão se perguntar: “o que essa menina está aprendendo nesse intercâmbio? Parece que ela regrediu!”

— Isso é até bom. Vai que eles se arrependem e me levam de volta pra America?

— Mas seus pais se esforçaram tanto pra te colocar nesse intercâmbio… seu irmão vai ficar mais decepcionado ainda.

Outro arrepio atingiu Rachel.

— P-Para de falar nonsense! Se me der na telha de comprar uma roupa, eu vou sozinha!

Daniela era especialista em convencer a Rachel, mas, dessa vez, desistiu no meio do caminho.

— Tá bom então… Parece que vai ser só nós quatro.

— Eh oui…

“Espera aí!”

— Você disse “nós quatro”?

— Sim. Eu, você, a Beatrice e a Esmeralda.

Eu estava rezando para que elas não me convidassem! Não porque eu não queria sair com elas, mas porque elas com certeza não iam a lojas que plebeus eram capazes de bancar.

— Obrigada pelo convite… mas eu não pretendo comprar roupas novas. Meu closet está cheio de roupas que eu mal uso, sabe?

“Por que você está falando isso, Yuuko? Ninguém perguntou!”

— Você também vai recusar meu convite? — Daniela ameaçou chorar.

— É que não cabe mais nada no meu closet! Nem adianta eu ir comprar.

Ela começou a me sacudir pelo ombro.

— É só doar umas roupas, sei lá! Pelo menos vai lá pra experimentar! Pra tomar um sorvetinho com a gente!

— Daniela, para com isso — Beatrice ordenou. — Você não pode obrigar os outros a saírem com você.

— Eu sei… É que quanto mais gente, melhor!

— Mil desculpas, Daniela!

— Fica tranquila, Yuuko. A Daniela só está exagerando.

Daniela suspirou e falou:

— Relaxa, Yuuko. Está tudo bem. Mas não vejo a hora dessas suas roupas ficarem pequenas e você ser obrigada a comprar novas!

Uma culpa gigantesca pesou nas minhas costas, mas eu não podia de jeito nenhum revelar minha situação financeira. O que elas pensariam de mim?

♞

Era fato que eu precisava comprar roupas novas. Não qualquer roupa, mas alguma que estivesse à altura de uma estudante do Hoshikawa. Por sorte, meus pais eram bonzinhos até demais. Quando expliquei minha situação, eles adiantaram vários meses da minha mesada.

— Obrigada por virem. Não sei o que seria de mim sem vocês…

— Estamos aqui pro que der e vier! Né, Micchan?

— Claro.

Eu não conseguiria fazer sozinha o que estava prestes a fazer, então pedi a ajuda das minhas melhores amigas.

Eu precisava de uma loja que flutuasse na utópica área entre o luxuoso e o acessível para pessoas da minha classe social. Mika foi indispensável nessa pesquisa. Ela achou uma loja que parecia ser feita para mim.

Essa loja ficava num shopping chique. Já era um bom começo.

— Ainda não entendo por que esse medo de dizer pra elas que você é bolsista — Mika perguntou, enquanto caminhávamos no térreo do shopping.

— E você? Disse para as suas colegas de clube que é bolsista?

Mika olhou para o lado.

— Não… porque elas visivelmente são do tipo que não gostam de bolsistas.

— As meninas do clube de vôlei também têm cara de não ser muito amigáveis com o povão… — Saori contou. — Mas suas colegas parecem ser tão legais, mesmo eu não conhecendo elas direito.

— É… mas sei lá…

— É muito difícil fingir pra sempre ser alguém que você não é, ainda mais quando envolve dinheiro. Algum dia minhas colegas vão descobrir, assim como as suas e da Sacchan.

— E quando isso acontecer? O que vocês vão fazer?

— Se me expulsarem do clube de vôlei… talvez eu vá pro seu clube, Yuu.

— Você faria isso?

— Não tô muito a fim de ser jogadora profissional de vôlei mesmo… E você, Micchan? O que vai fazer se te expulsarem do clube de literatura?

— Vou denunciar para a diretoria. Elas vão ter que me engolir.

— Eita…

Subimos alguns andares via escadas rolantes, andamos mais um pouco e finalmente chegamos no nosso destino.

Aquela parte do shopping parecia outro planeta. O cheiro, as cores, as pessoas que transitavam… tudo gritava “riqueza! Riqueza!”.

As fachadas exibiam uma sequência de nomes famosos que até eu conhecia — apesar de nunca ter entrado em nenhuma. No meio delas havia uma única marca que nunca ouvir falar. A aparência, porém, era tão sofisticada quanto a das vizinhas.

Foi nessa loja que entramos.

— Com licença. Posso ajudá-las?

Como esperado, uma vendedora nos abordou assim que colocamos um pé na entrada da loja.

— É… É…

Minha língua travou.

Normalmente eu apreciava a ajuda das vendedoras, mas, naquela situação, eu não sabia se queria alguém me acompanhando pela loja e analisando cada escolha que eu fazia.

Ainda bem que eu não estava sozinha.

— Vamos só dar uma olhada — Mika respondeu.

— Se precisarem de ajuda, estarei aqui.

A vendedora se afastou.

"O que foi isso? A Mika sabe uma frase secreta que dispensa os vendedores educadamente?"

— Desculpa, Yuu. Você não parecia muito a fim da ajuda dela.

— Tudo bem!

— Vendedores só querem lucro — Saori comentou. — É melhor comprarmos por conta própria mesmo.

Era bom mesmo comprar sem a pressão do vendedor do lado… mas a parte ruim era que estávamos por conta própria numa área que não tínhamos um pingo de experiência.

— Hum…

Nós três paramos diante de uma fileira de manequins com vestidos.

Olhamos… e olhamos… e olhamos mais um pouco.

Mas ninguém dizia nada!

— Vocês já usaram um vestido desses? — Saori perguntou.

— Não que eu me lembre… — Mika respondeu.

— Só usei uma vez, em uma festa. Mas nem fui eu que escolhi…

Sem nenhuma conclusão, pulamos para outro conjunto de roupas, dessa vez penduradas em cabideiros. Contemplamos, tocamos o tecido, debatemos qual cor era mais bonita… mas nenhuma de nós tinha coragem de pegar uma peça.

— Com licença…

Um arrepio percorreu minha espinha.

A primeira coisa que pensei foi que uma vendedora percebeu que eu estava com muita dificuldade de escolher uma roupa. Mas, quando me virei, me deparei com um desastre pior do que tudo o que eu podia imaginar: era a Yulia Sviridova!

— Você é a Yuuko Hanamura, certo?

— S-S-Sim! Sou eu!

— Quem é ela, Yuu?

— É-É-É…

Fiquei tão nervosa que nem conseguia falar direito.

— Por que está tão nervosa? — Mika estranhou.

— Deixa que eu resolvo.

Saori agarrou meus ombros e me sacudiu com vontade, como se eu fosse algum aparelho eletrônico antigo que só precisava de uma pancada no lugar certo para voltar a funcionar.

Para a surpresa de todas, isso funcionou.

— Desculpa. É que eu… fiquei muito emocionada de encontrar você aqui.

— Emocionada?

Yulia segurou a risada.

— Se é assim, eu também fiquei “emocionada” de encontrá-la em um lugar tão inesperado.

Apresentei Yulia às minhas amigas. Quando Saori descaradamente perguntou se ela pintava o cabelo, também expliquei sobre a síndrome dela.

— Eu estava escolhendo umas roupas ali e não pude deixar de notar que você está com… certa dificuldade pra escolher.

— Então… é que…

— É isso mesmo — Mika se intrometeu. — Geralmente quem escolhe as roupas pra ela é a mãe, mas dessa vez ela decidiu escolher sozinha.

— Embora tenha convidado a gente pra vir junto — Saori acrescentou, entrando na onda sem qualquer hesitação.

— Eu sei como é. Geralmente saio com minha mãe para fazer compras, mas, como estamos longe uma da outra, tenho que comprar alguma coisa sozinha. Dá um certo nervoso escolher sem ajuda, né?

— É… tipo isso…

— Se não for incomodar, posso ajudar você. Não sou estilista, mas acho que consigo escolher tão bem quanto minha mãe.

— Sério?!

Vi asas e luz divina saírem dela. Ela era minha anja salvadora, com certeza.

Yulia parecia muito mais confiante do que nós três juntas na hora de escolher uma roupa. Mas lembrei de um detalhe: ela também tinha contato com Daniela e Beatrice.

— Antes de continuarmos…

— Sim?

— Preciso pedir um favor enorme.

— Qual?

— Ninguém do clube de xadrez pode saber que estou comprando roupas novas, tá bom? É uma longa história.

— Hum… tudo bem.

Ela passou os dedos nos lábios, simulando fechar um zíper.

— Segredo guardado.

Depois, ela perguntou:

— A roupa vai ser para qual ocasião?

— Vou para um evento de gala.

— Posso saber qual é o tema? Isso ajuda na hora de escolher algo apropriado.

— É um evento de xadrez.

— Nossa… Não seria o Queen Chess Open?

— Esse mesmo!

— Outra coincidência. Eu também vou participar.

— Sério? As meninas do clube de xadrez também vão!

— Que ótimo! Fico feliz de saber que terei tantas conhecidas lá comigo. Na verdade, foi ingenuidade minha não imaginar que vocês participariam também.

Antes de começarmos de verdade, Yulia se virou para o outro lado da loja e chamou:

— Ei! Anfisa!

Uma mulher que, até então, mexia nas roupas como qualquer outra cliente ergueu a cabeça. Assim que percebeu o chamado, veio até nós.

— Esta é Anfisa, minha guarda-costas.

— Prazer em conhecê-las.

Anfisa fez uma breve reverência.

Nós três ficamos olhando para ela.

— Eu sei que é estranho. Meus pais são superprotetores.

— Estranho? Isso é legal demais! — Saori afirmou. — Assim você não precisa andar com medo de um assalto ou sequestro.

— É o que meus pais dizem. Mas, sinceramente, nunca aconteceu nada comigo. A Anfisa atua mais como dama de companhia. Não que isso seja ruim, claro.

— Sua guarda-costas provavelmente faz bem o trabalho dela, por isso nunca aconteceu nada — Mika deduziu.

— É, tem razão.

Yulia sorriu na direção da Anfisa, que ficou um pouco corada, embora fizesse um esforço admirável para manter a expressão séria.

Ela avançou pelas seções sem hesitar, examinando tecidos, comparando cortes e puxando cabides como se soubesse exatamente o que procurava.

— Esse… Esse também… Talvez esse...

Em poucos minutos, Anfisa carregava uma sacola lotada.

Seguimos para os provadores.

A primeira tentativa foi um vestido longo azul-claro, feito de um tecido acetinado que refletia suavemente a iluminação da loja.

Olhei para mim mesma no espelho. Não parecia ruim…

Quando abri a cortina, as três estavam posicionadas como um júri.

Yulia inclinou levemente a cabeça.

— Ficou bonito, mas…

— Parece que você pegou emprestado da sua mãe — Mika concluiu.

— Concordo com você — Saori disse, analisando com uma seriedade que não possuía cinco minutos atrás.

— Não precisam ser cruéis!

— Desculpa, Yuu, mas isso é pro seu bem — Saori justificou.

“Elas estavam tão perdidas quanto eu antes da Yulia aparecer. De onde surgiu toda essa autoridade?”

Voltei para o provador.

A segunda tentativa foi uma saia social escura, daquelas que associamos a funcionárias de escritório, combinada com uma camisa marrom de botões presa por dentro da cintura.

Yulia levou a mão ao queixo.

— Não ficou ruim… Mas está muito corporativo.

Saori e Mika assentiram ao mesmo tempo.

A terceira tentativa… com certeza era piada.

Abri a cortina só o suficiente para colocar a cabeça para fora.

— Você não está falando sério, né, Yulia?

— Do que você está falando? — Yulia fez uma cara de desentendida.

— Essa roupa… é brincadeira, certo?

— Sai de trás da cortina pra descobrirmos — Saori pediu.

Eu estava totalmente certa de que não abriria a cortina mais do que já estava, mas Yulia aproveitou uma distração minha e recolheu meu único escudo contra a humilhação pública.

— Yulia, sua…!

Meus braços inconscientemente tentaram, mas não conseguiram esconder o vestido vermelho-vivo com brilho suficiente para refletir cada lâmpada da loja, com uma abertura lateral que deixava parte da minha perna exposta e com umas estruturas arredondadas nos ombros que pareciam duas pequenas almofadas costuradas em mim.

— Imaginem ela com batom, brincos e um pouco de maquiagem.

Saori levou a mão à boca.

— Vai fazer sucesso com os rapazes, hein.

Mika gargalhou como se tivesse visto a melhor piada da vida dela.

— S-S-Suas descaradas!

Fechei a cortina com toda a força.

As três pediram mil desculpas depois. Yulia disse que era só pra descontrair, já que eu estava “muito rígida”. Perdoei elas com a condição de que não me fariam mais vestir nenhuma roupa estranha.

Todas as combinações seguintes tinham alguma falha: muito infantil, madura demais, excesso ou falta de cores, de detalhes, de harmonia…

Eu reconhecia que sinceridade fazia parte do processo, mas as opiniões ásperas estavam me cansando.

A sacola da Anfisa estava quase vazia, nenhuma das roupas que eu tinha experimentado me agradava de verdade.

O pior era que não existia “plano B”. Minha memória não conseguia achar nada do meu guarda-roupa que servisse para o evento…

Uma possibilidade absurda começou a parecer perfeitamente razoável.

“Talvez eu simplesmente não possa ir.”

Meu peito apertou.

“Mas o que elas vão pensar?”

“É óbvio que vão ficar decepcionadas.”

“Decepção… Estou prestes a decepcionar outro clube?”

Como uma simples compra de roupas conseguiu me levar até esse cenário?

Abri a cortina sem ânimo algum. Minha cabeça estava ocupada demais afundando em uma espiral de negatividade.

Esperei as opiniões… mas não ouvi nada.

— O que foi? Acabaram as opiniões sinceras?

— Yuu… — Saori não falou nada além do meu nome.

Mika ajeitou os óculos, com a mão levemente trêmula.

Yulia juntou as mãos diante do peito e declarou:

— Está perfeito!

“Perfeito? O que está perfeito?”

Aquela palavra… desintegrou minha espiral negativa.

Olhei para baixo. Eu nem tinha reparado na roupa quando a vesti.

A calça tinha cintura alta e um tecido fino, leve o bastante para acompanhar qualquer movimento. Em volta dela havia uma faixa do mesmo tecido, amarrada como um cinto, cuja ponta caía discretamente sobre um dos lados da cintura.

A blusa, colocada para dentro da calça, tinha mangas curtas e uma gola redonda ampla, sem chegar perto de ser decotada. O tecido era igualmente leve e dava ao conjunto um ar menos rigoroso do que todas as roupas formais que eu experimentei até então.

Era diferente de todas as combinações anteriores. Não era de escritório nem de festa. Não aumentava nem diminuía minha idade. Se eu tivesse que descrever a destinação dela… era algo que eu poderia usar para passear com minhas amigas num dia ensolarado.

Mas havia um detalhe peculiar nela: tudo era verde-limão, absolutamente tudo.

— Vocês… estão sendo irônicas?

— Que nada! — Saori respondeu. — Você está maravilhosa!

— É sério, Yuu — Mika reforçou.

— Mas… essa cor…

— É a melhor parte! — Yulia afirmou. — Vai levar um ar alegre e jovial para o evento!

Voltei a olhar para mim mesma.

— É sério? Não está forte demais?

Mika se aproximou até ficar bem na minha frente, e então olhou nos meus olhos.

— Nunca tive tanta certeza na minha vida.

Saori e Mika jamais fizeram mal a mim. Então, se elas diziam que aquela cor ficou boa, eu não tinha motivo para desconfiar.

Quanto a Yulia… Ela tinha me obrigado a vestir aquela roupa vermelha estrambólica. Mas, mesmo assim, ela não parecia o tipo de pessoa que se diverte com o sofrimento dos outros. Se aquilo era uma armação, ela merecia um prêmio de atuação.

Olhei mais uma vez para o espelho. A cor ainda parecia ousada demais. Mas, aos poucos, fui percebendo o charme que ela tinha.

— Se vocês dizem...

Devolvemos as roupas que reprovaram. Coloquei na minha sacola apenas aquele conjunto verde-limão.

Para mim, a missão estava encerrada, mas Yulia não queria terminar o passeio tão cedo.

Acabamos concordando em ajudá-la a escolher algumas roupas também — o que foi muito mais fácil, já que tudo ficava bom nela. O objetivo inicial dela também era encontrar alguma coisa para usar no Queen Chess Open, mas Yulia gostou de tantas peças que desistiu de escolher apenas uma combinação.

Quando chegamos ao caixa, a sacola dela estava cheia. Ela pagou tudo com um imponente cartão preto.

Eu, por outro lado, assisti a praticamente todo o dinheiro adiantado pelos meus pais desaparecer diante dos meus olhos.

— Seu troco é mil ienes — A moça do caixa disse.

Para mim, foi uma vitória extra. Eu esperava sair da loja sem nenhum tostão.

— Yulia, nem sei como posso agradecer pela sua ajuda.

— Eu me diverti bastante, isso é suficiente.

Ela olhou para os meus pés.

— Aliás, você não gostaria de comprar calçados novos comigo?

Eu foquei tanto nas roupas que nem pensei em comprar calçados. Mas eu não conseguiria nem se eu quisesse…

— Desculpa. Meu plano de hoje era só a roupa mesmo.

— Tudo bem. Quando quiser ajuda nas compras de novo, é só me chamar.

Yulia acenou para nós e seguiu com Anfisa até uma loja de calçados logo ao lado.

— Você tem uma amiga interessante — Mika comentou.

Olhei para a sacola nas minhas mãos.

Antes de entrar na loja, eu estava tão preocupada com preços, aparências e com a possibilidade de dar tudo errado que tinha certeza de que aquele dia seria tudo, exceto prazeroso. Mas o encontro com Yulia comprovou que a realidade nunca será exatamente como esperamos.

Pagar a conta doeu um pouco, mas experimentar as roupas, ouvir as opiniões e passar vergonha na frente das amigas acabou sendo… divertido.

Fim da leitura

Capítulo 12 concluído

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