Peças Sobre um TabuleiroVolume I – Capítulo 13 – Capítulo 13: Par de torres
Capítulo 13Eu não ligo muito para roupas. O público, porém, se importa.
Quando apareço diante das câmeras em entrevistas ou competições, aquilo que visto se torna parte da imagem que transmito: credibilidade, habilidade, imponência… Quem levaria a sério uma enxadrista que usa roupas esfarrapadas?
As pessoas adoram repetir que aparência não importa, que não se deve julgar um livro pela capa. No entanto, essa mentalidade tenta negar um instinto primitivo do ser humano.
Em suma, eu não estava comprando roupas porque a Daniela mandou, muito menos porque pretendia ser mais bonita do que as outras. Eu só queria aparentar aquilo que de fato eu era: uma enxadrista respeitável e digna de ser temida pelo adversário.
— Essa blusa caiu muito bem em você — disse a vendedora, posicionando a peça diante do meu corpo para que eu pudesse visualizá-la melhor.
Observei meu reflexo no espelho.
— Talvez funcione… Mas quero ver outras opções.
— Claro. Vamos continuar.
Não sou de distribuir elogios a vendedores, mas aquela mulher merecia algum reconhecimento. Ela tinha um bom gosto e valorizava muito minha opinião e bem-estar ao vestir as peças.
Saí da loja com uma sacola de papel suspensa no meu antebraço.
Olhei o relógio do celular. A compra foi mais rápida do que eu esperava. Se eu fosse direto para casa, sentiria que a ida ao shopping não foi bem aproveitada.
“Está quente hoje…”
A conclusão lógica era óbvia: gelato.
Desci até a praça de alimentação. É claro que não parei no primeiro quiosque que encontrei. Só gente preguiçosa escolhe comida dessa maneira, como se todos os estabelecimentos que vendem o mesmo produto fossem equivalentes.
Experimentei gelatos suficientes para ter critérios. Até então, só uma marca no mundo me agradava.
NONNO MARIO
Da 90 anni produciamo il miglior gelato della vostra vita.
“Há noventa anos fazendo o melhor gelato da sua vida.”
Sim, o lema deles era um pouco exagerado, mas não chegava a ser mentira. Depois que experimentei o Nonno Mario pela primeira vez, nenhum outro gelato conseguiu superá-lo.
— Um de tres leches, please.
— Casquinha ou copo?
— Casquinha.
— Cone, cesta ou flor?
— Flor.
Outra coisa de que eu gostava naquele lugar era o espaço.
Os estabelecimentos do Nonno Mario costumavam ser pequenos, mas quase sempre havia alguma mesa vazia. Não porque faltavam clientes. O problema era que a maioria comprava o gelato e saía andando, comendo no caminho, tratando décadas de refino e trabalho duro como se fosse mais uma casquinha ordinária.
Escolhi um lugar nos fundos, onde o ruído da praça de alimentação chegava enfraquecido.
Coloquei minha sacola na cadeira ao lado. Depois, voltei toda a minha atenção ao que realmente importava.
Peguei a colherzinha de madeira e pressionei lentamente contra a superfície do gelato. A resistência estava perfeita: nem muito dura, nem muito mole.
Peguei uma pequena porção e levei à boca.
No instante em que tocou minha língua, tive a breve sensação de que todas as decisões que tomei na vida tinham o único propósito de me conduzir até aquele momento.
Eles não dependiam de uma quantidade absurda de açúcar para tornar o produto agradável. Um paladar mal-acostumado com alimentos industrializados talvez considerasse aquele sabor sem graça. Eu, por outro lado, entendia tudo muito bem.
Cada elemento da composição era valorizado, como instrumentos que trabalham juntos para produzir a harmonia ideal. Nenhum violino, nenhuma flauta tentava se sobressair. O açúcar era só mais um integrante, e não o centro das atenções.
Deixei o gelato derreter lentamente sobre a língua. Engolir muito cedo seria desperdício. Só quando a textura desapareceu por completo é que terminei a primeira colherada.
Peguei outra porção. Depois outra.
A sacola de compras do meu lado passou a ser um detalhe distante. Fiquei convencida de que o verdadeiro motivo de ter ido ao shopping era apreciar aquele gelato.
Estava tudo perfeito… até alguém decidir profanar meu momento de paz.
— Não acredito que ele mandou mensagem pra você!
— Loucura, né? Nunca pensei que logo ele me mandaria uma mensagem.
— Meninas, vocês acham que morango e pistache dão match?
Um grupo de garotas barulhentas entrou no meu santuário.
Eu estava confiante de que era uma perturbação temporária. Elas pegariam os gelatos e iriam embora, como todos os outros medíocres do planeta…
Elas só não foram embora, como também pegaram uma mesa perto da minha.
— Deixa eu provar o seu!
— Nem pensar! Você sempre fala isso e come metade!
— Mentira!
— Da última vez você quase mordeu minha mão!
— Chitose, a esfomeada.
— Eu não sou esfomeada!
Respirei fundo.
Eu não tinha nada contra a amizade alheia. O que eu não entendia era por que algumas pessoas sentiam a necessidade de demonstrar para um raio de um quilômetro que eram best friends forever. Aproveitem essa amizade em silêncio!
Tentei relevar a situação e voltar a comer meu gelato.
— OLHA SÓ! OLHA SÓ! ELE CURTIU MINHA FOTO!
Minha colher parou no meio do caminho.
Cerrei os dentes…
Pedir educadamente que falassem mais baixo parecia uma péssima ideia. Pessoas barulhentas raramente aceitam que estão incomodando quando alguém avisa.
Eu não queria sair dali, mas meu gelato estava começando a derreter. Se era para salvar meu pequeno momento de felicidade, valia a pena.
Levantei-me e peguei minhas coisas. Ainda não sabia para onde ia. Só precisava encontrar algum lugar mais tranquilo antes que—
— Ouch!
Meu corpo atingiu alguma coisa… Não, não era alguma coisa. Era alguém.
Dei um passo para trás. Vi que minhas mãos estavam vazias. Olhei para baixo…
Minha flor perfeitamente moldada havia se transformado numa massa disforme sobre o piso do shopping!
Meu gelato… Meu querido gelato… Uma das poucas fontes genuínas de felicidade que aquele mundo miserável ainda tinha a oferecer…
— Quem foi o imbecil que fez isso?!
A pessoa na minha frente recuou.
— I’m sorry! I’m sorry!
Eu estava prestes a jogar todo o meu estresse da semana na cara daquele infeliz, mas algo me fez travar bruscamente.
A pessoa na minha frente também se calou.
“Não… não pode ser…”
Com certeza estávamos pensando na mesma coisa.
— YOU?!
— YOU?!
Falamos praticamente ao mesmo tempo.
Entre todas as pessoas que podiam atrapalhar meu dia… o infeliz era meu irmão.
Sim, era ele. Não tinha como confundir: olhos verdes, cara de poucos amigos, cabelo loiro cacheado e porte físico de quem não tem vergonha nenhuma de ser sedentário. Mas ser meu irmão não o livraria da minha fúria.
— You moron! Você não olha por onde anda?!
— Eu não sou o único culpado. Você saiu daí do nada sem nem olhar se alguém estava passando.
— Por acaso eu sou um carro pra ter que parar no cruzamento e checar os dois lados, huh?
Trocamos mais algumas acusações, até eu perceber que tínhamos plateia. As funcionárias da gelateria e aquele grupinho de besties de meia-tigela estavam assistindo nosso espetáculo.
Eu não pretendia servir de entretenimento para ninguém, então me obriguei a baixar o tom.
— Pelo menos tenha a decência de repor meu gelato.
Hans passou a mão pela nuca.
— All right…
Enquanto uma funcionária se aproximava para limpar o desastre no chão, agarrei o braço do meu irmão e o arrastei até o balcão. Como ele não sabia nem uma única palavra de japonês, sobrou para mim resolver a situação.
— Ele vai me pagar um gelato idêntico ao que derrubou.
— Não se preocupe, podemos fazer outro por conta da casa.
— Nada disso. Ele vai pagar.
Se não doesse no bolso, ele não aprenderia nada.
Alguns instantes depois, eu segurava um gelato novinho em folha. Talvez fosse impressão minha, mas aquele parecia mais caprichado que o anterior.
— E vê se olha por onde anda da próxima vez.
Hans respondeu apenas com um suspiro.
Apesar de toda a agitação, não era como se eu quisesse ficar brigada com ele para sempre. Então resolvi sinalizar a paz perguntando uma coisa simples:
— O que você está fazendo aqui?
Ele enfiou as mãos nos bolsos e respondeu:
— Walking around, como qualquer outra pessoa desse shopping.
— Don't mess with me. O que você está fazendo nesse país? Você nunca nem cogitou pisar no Japão.
Ele franziu a testa.
— Achei que você estava sabendo.
— Sabendo do quê?
— Que eu vou participar da mesma competição que você.
— Que comp—
Parei no meio da frase.
Só havia uma competição a que ele poderia estar se referindo.
— Então é verdade? Que você vai participar daquele tal de Queen Chess Open?
— Yeah. E me disseram que você vai jogar lá também.
— Quem disse esse absurdo?
— Evandro Mendonça, o cara que me convidou.
“Evandro Mendonça?”
— Quem é esse dude?
— Um dos donos do clube onde vai acontecer a competição. É um cara branco, alto, com sotaque latino…
Tentei resgatar na memória alguém com essa descrição.
“No dia em que fui ao Queen’s Promenade…”
“Rachel-sama, gostaria de ser a garota-propaganda deste humilde estabelecimento?”
— That guy… será que é ele? — pensei em voz alta.
— Você conhece?
— Talvez. Mas, seja ele ou não, eu nunca confirmei que participaria. E você também devia reconsiderar sua participação.
— Why?
— First things first, por que você aceitou?
— Eu tinha espaço na agenda, o prêmio é interessante, viagem e estadia inclusos, um cachê adiantado… Por que recusar?
— Bro, você é um jogador de elite. Pra que se rebaixar a esse nível?
— Do que você está falando? Eu não sou o único jogador forte que vai participar.
— Você é diferente deles. Você deveria estar se preparando para alguma competição mais importante. Uma que pelo menos valha rating.
— É claro que esse evento vai valer rating.
— O tal do Evandro que disse? Você pelo menos se deu o trabalho de checar se é verdade?
— Sim. Eu chequei na FIDE.
— What? Isso não pode estar certo…
— É só um evento de três dias. Por que você está tão incomodada?
— Porque…
A resposta estava na ponta da língua: porque ele estava desperdiçando tempo; porque deveria escolher torneios melhores; porque alguém precisava impedir ele de tomar decisões idiotas.
— Porque…
Mas, parando para pensar, por que eu estava me preocupando tanto? Quando foi a última vez que ele se preocupou comigo?
— Quer saber? Faça o que quiser.
Voltei minha atenção ao gelato. Outra contagem regressiva tinha começado para que ele derretesse por completo, então tratei de salvar algumas colheradas enquanto ainda dava tempo.
Hans, porém, não foi embora.
Ficou parado ali, me observando comer, até enfiar as mãos ainda mais fundo nos bolsos.
Eu conhecia esse hábito. Ele fazia isso quando queria esconder alguma coisa — uma emoção, uma reação ou palavras que não conseguia fazer sair.
— Tá olhando o quê?
Hans desviou os olhos por um instante.
Ele não era do tipo que abria o coração para qualquer pessoa, muito menos em qualquer lugar. Por isso, a pergunta seguinte provavelmente lhe custou um esforço considerável:
— Como você está? Faz tempo que a gente não se fala.
Minha colher parou por um segundo.
Não era a primeira vez que ele queria saber se eu estava bem. Só que ele normalmente perguntava de maneiras muito mais indiretas. Se resolveu ser tão claro daquela vez, só podia haver um motivo.
— O dad e a mom pediram pra você conferir como estou?
Ele demorou um pouco para responder.
— Pediram… mas, mesmo se não pedissem…
Ele até podia estar mesmo interessado em saber, mas eu tinha certeza que qualquer coisa que eu falasse seria repassado para nossos pais.
“Se eu falar que estou bem, eles vão pensar que me conformei com essa besteira de intercâmbio.”
— Diga pra eles que eu quero voltar pra America.
Ele ficou em silêncio. Por um momento achei que tentaria argumentar, mas não tentou.
— Se não tem mais nada a dizer, goodbye.
Me retirei sem esperar a resposta.
Quando olhei de relance para trás, Hans ainda estava parado na frente do Nonno Mario, me observando ir embora. Depois de alguns segundos, ele se virou e seguiu na direção oposta.
Eu não me sentia bem sendo dura com meu irmão, mas era o que ele merecia.
“Ele merece… sim, ele merece. Não há o que duvidar nisso...”
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