Sinph StarVolume I – Capítulo 34 – Capítulo 34: Você sabe como...
Capítulo 35— Sabe que não vou desistir.
— Então diga adeus ao seu braço.
Valkyrie estava montada em cima de Reid, o garoto se via em uma chave de braço muito bem feita.
— Vocês podem me prometer que se quebrarem o braço um do outro, a culpa não vai vir para mim?
— Ah não, caro amigo elfo. Seu nome vai ser o primeiro a sair de minha boca. Logo depois, será o dessa ruiva sarnenta. — a chave de braço se apertou ainda mais. — Aiai!
— Eu ainda não consigo entender como vocês são assim. Como aquela conversa sobre o que pegamos na dungeon acabou virando isso?
— Porque o seu amigo aqui é um insensível. Quando eu contei o que peguei, ele deu risada.
Reid abafou uma risada, mas tarde demais. Mais força foi colocada no aperto.
— O quê você pegou, Valkyrie? Juro não rir.
A garota indicou com a cabeça, um canto da sala onde estava jogado um objeto.
— Você pegou um... livro?
Trevor nada mais disse, talvez temendo por sua integridade física devido a uma iminente risada, o garoto virou de costas.
— Por que só eu tô aqui?! Ele tá rindo também!
— Trevor! Você disse que não ia rir.
— Eu não tô... rindo. — embora o garoto dissesse isso, se passaram alguns longos e silenciosos segundos até que desse as caras. — Juro.
— O quê você pegou? Quero rir também! Esse tapado aqui escolheu um pergaminho mais velho que o grande Barba.
— Eu... não vou dizer.
— Qual é, cara? Não pode ser tão pior do que a Valk escolhendo um liv... — aperto — Aiai!
O elfo pegou algo do bolso de trás. Um formato de tubo, pálido e meio acabado surpreendeu os outros.
— O que é isso?
— Você pegou uma... flauta?
— Uma Flauta Élfica!
— Mas, é uma... flauta.
Valkyrie soltou o braço de Reid e os dois ficaram se encarando. Pode-se dizer que nenhuma seriedade foi mantida. Reid abafou uma risada muito grotesca, enquanto a garota mordeu, de forma cômica, seus lábios, visando evitar uma risada.
— Eu odeio vocês.
— A gente deve ser muito privilegiado, não? — Reid soltou no meio de um ataque de risos. — Quer dizer, quem nesse mundo escolheria essas coisas? Lembro de ver um arsenal naquela sala. Deviam ser de pessoas mortas e tal, mas creio que a criatura tinha bom olho.
— Tá bom. Cansei. Coloquem o que pegaram aqui no meio, vamos analisar. — Trevor tinha sentado no chão, com sua flauta.
Muito lentamente, Valkyrie caminhou em direção ao canto em que o livro tinha sido lançado. Reid retirou o pergaminho de dentro do anel dimensional. O elfo sorriu brevemente com a cena. Os três se sentaram um de frente para o outro, formando uma espécie de círculo. Os objetos foram colocados no centro.
— Como que isso funciona? — Valkyrie pegou o pergaminho, nada dentro dele parecia conter instruções.
— Jin disse que é só imbuir mana e pensar em um lugar seguro. — Reid levou a mão ao livro de Valkyrie. — E isso aqui? Sobre o que é?
— É um manual... sobre... — a garota corou muito. — Como ser um bom monarca.
— Isso não faz sentido algum. Um bom monarca não pode ser definido em um livro, Allastor é um bom rei aqui, mas pra outros lugares ele não deve ser. — Trevor entregou a flauta a Reid e pegou o livro. — Aqui diz que você deve ter homens a quem confiaria a sua vida. Bom, creio que não esteja totalmente errado.
Reid pegou a flauta de Trevor. — Cara, isso é osso? Que maneiro. — o garoto começou a assoprar e açoitar os ouvidos dos pobres coitados que estavam presentes.
— Para, pelo amor de Deus! É assim que se toca.
Reid sempre gostou de assistir Trevor tocando qualquer que fosse o instrumento, mas dessa vez, pareceu até mágico. Quanto mais escutava a melosa melodia, mais o garoto sentia seu corpo relaxar; e ele não era o único. Valkyrie se via deitada no chão, olhando para o teto, sem qualquer sinal de preocupação em sua face. A melodia era lenta e constante, hipnotizante ao ouvinte. Quando o garoto terminou, foi como se um balde de água fria o maltratasse.
— Isso foi muito foda! Quando você aprendeu a tocar isso?
— Quer dizer, a gente tinha uma aula ou outra de música, você que nunca se interessou.
— Eu fiz algumas aulas e ainda sou uma negação, você que tem talento. Falando nisso, o que vocês acham que os adultos escolheram?
— Eu vi Elise pegando uma espécie de saquinho de pano. Não me disse o que era, mas deve ser muito foda.
Os três concordaram com a cabeça.
— Allastor pegou algo para Maria. Tenho certeza disso. Ele passou a viagem de volta inteira se perguntando se ela ia gostar. Mas, algum de vocês já viu ele usando um anel dimensional?
— Não. Quer dizer, ele sempre tira aquelas coisas do nada, mas talvez ele tenha muitos bolsos. Lembram da adaga?
Os três concordaram verbalmente.
— E o Jin? Ele pegou alguma arma?
— Não faço ideia do que ele pegou. Só me disse pra continuar andando quando saímos da Cripta.
O dia estava ameno, em Qudu. Por mais que não quisesse admitir, Reid preferia os dias assim. Uma vez, disse amar dias frios para os amigos e até hoje é conhecido como o "cara do frio". Bobagens que a adolescência lhe traz. O trio tinha saído mais algumas vezes para explorar a área, depois da incursão na Cripta dos Antigos. Foram três vezes em um intervalo de três dias? Sim, mas foram muito importantes, tendo em vista que conseguiram permissão dos adultos para irem sozinhos. Obviamente tal feito só foi permitido com a promessa de que só iriam em masmorras mais fáceis, mas ei? Tudo tem um começo. E sempre há um fim.
Mais uma vez, Reid se via na sala de reuniões, cercando seu mestre.
— Olha, eu não quero saber do que você pensa, Reid. Você não pode ter tudo no seu tempo.
— Me diz o por quê. Você sempre foge das minhas perguntas. Eu não mereço saber o que aconteceu com minha mãe?
— Não é hora para isso. Eu já te disse que minha memória me engana em muitas coisas.
— Ah, qual é?! É sempre esse mesmo papinho. "Reid, eu era amigo da sua mãe.", "É, na verdade a gente nem era tão próximo assim.", "Ah, que não sei o que lá." — o garoto estava visivelmente fervendo em ódio. — Vai se foder! Eu não sou o errado em perguntar sobre ela! Se imagine no meu lugar!
Elise entrou na sala, depois de ouvir o tom mais alto da discussão. Ela não parece muito bem, não nesses últimos dias. Enjôos e tontura lhe torturavam em dias ímpares.
— O que que tá rolando aqui, hein? Vocês estão falando meio alto.
— É Jin, o que tá rolando aqui? Você vai se "abster" de nossa "prosa" e não me falar nada da minha mãe, de novo?
— Reid, eu não quer...
— Eu sabia. Sinceramente, eu esperava mais do Jin que eu conheci naquela noite. O cara irado e super fodão que me enganou. De você, esse Jin de agora, só sinto... pena.
— Reid, você tá indo longe de...
— Qual é, Elise?! Vai mentir e dizer que não é isso que sente, também? Eu te vi naquela viagem, todo olhar que você dava nele, como se fosse a coisa mais miserável que já tinha visto na sua vida. — Reid apontou para Elise, enquanto dizia isso. A mulher se encolheu levemente com um tímido olhar de culpa. — Se você não me disser nada sobre a minha mãe ou sobre o meu pai, eu vou sair por aquela porta e você nunca mais vai me ver.
Jin estava em um estado bem deplorável, por consequência de sua doença. Núcleos de mana precisam... se alimentar. Núcleos brancos de mana comem muito mais do que o normal para se manterem estáveis. Jin tossia sangue dia sim e dia não, sua pele estava pálida.
Jin olhou para aqueles olhos firmes, os mesmos olhos dela. Eles não transmitiam somente ódio, mas também medo e um pingo de esperança. Jin sabia que Reid não iria embora de verdade se ele ficasse calado agora, mas era isso mesmo que queria? Desde o começo de sua vida, foi para isso que o homem lutou? Ele estaria sendo diferente do homem que sempre odiou? Uma figura paterna falha? Mas a outra metade da balança pesava como o sol. A verdade. A tão desejada e devastadora verdade. Jin temia que, uma vez que viesse à tona, Reid poderia, de maneira permanente, se afastar. E isso seria o que mais machucaria sua alma, sua pobre e despedaçada alma.
Ali, mais uma vez, Jin sucumbiu a uma antiga e conhecida amiga. Indecisão. Ah, como ela já o machucara. O garoto entendeu aquilo como uma resposta. Primeiro, ele olhou para Elise. A mulher estava com os olhos encharcados, olhando para ele e de volta para o marido, esperando que qualquer um dos dois dissesse algo. Reid olhou para Jin. Mesmo que odiasse isso, ainda conseguiu ver dor nos olhos do homem. Uma dor que sabia não compreender. Esperou. Esperou mais um pouco, talvez devido à minúscula parte de esperança que lhe mantinha vivo, mas, no fim, o garoto já sabia qual resposta receberia. Todo esse teatro fora apenas por esperança de uma mudança.
Sem esperar mais um segundo, Reid se virou de costas, mais para esconder possíveis futuras lágrimas do que para partir de imediato.
— Eu queria nunca ter te conhecido. Você devia ter me deixado morrer de fome naquela cidade.
Jin ficou ali com o coração sangrando, esperando que palavras mais frias açoitassem seus ouvidos, mas elas nunca vieram.
———
A cabeça de Reid estava, surpreendentemente, bem focada. Passando e repassando passos e instruções. Quer dizer, o garoto sabia que um dia esse momento chegaria. Jin sempre se negou a falar sobre isso. O garoto caminhou a passos lentos e vagarosos pela propriedade do Rei Allastor, uma última vez. Talvez andasse devagar porque queria se despedir mentalmente da propriedade, ou talvez esperasse que Jin viesse atrás dele. Embora este último fosse o menos real.
Seu quarto estava vazio, ele agradeceu por nenhum de seus dois amigos estar ali, não agora. Reid não tinha muitas coisas, a maioria delas eram presentes. O garoto considerou colocar na mochila apenas o que comprou sozinho, mas presentes eram dados, não devolvidos. Não demorou nem dois minutos para colocar o jaquetão que ganhou de Valkyrie e as roupas que ganhara de Allastor na mochila. O resto ia bem guardado dentro de seu anel dimensional. A espada, o pergaminho e algumas besteiras. O colar, no entanto, ia sempre no seu pescoço, por debaixo da roupa.
Algo estava ocupando a mente de Reid, mais do que tudo; ou melhor, a falta de alguém. Poeira. O gato tinha sumido o dia todo. Quer dizer, na viagem à Cripta ele já tinha sumido, mas voltara um dia após a partida do grupo, pelo que os empregados tinham dito. Bom, Reid não iria embora deixando um membro de sua família sozinho, não o último deles; não como tinham feito com ele.
Enquanto saía da propriedade, o garoto não encontrou resistência alguma. Machucou seu peito, mas nada que não esperasse. Algo que lhe deixava menos apreensivo quanto ao Poeira era que o gato tinha lugares preferidos no reino. Embora Reid tivesse se esforçado em mudar isso, o gato ainda era um pouco da rua, assim como o garoto, talvez.
O lugar número um estava vazio. Reid tinha certeza de que encontraria o companheiro na parte de trás do forte, na entrada do açougue. O segundo lugar, no entanto, fez algo se agitar no peito de Reid. Quer dizer, nada muito sério à primeira vista; mas um tufo bem grande de pelos que coincidentemente se pareciam com os de Poeira estava no chão.
Bom, o gato era um brigão por natureza, cenas como essa não eram incomuns, a não ser que... Poeira nunca perdeu uma briga. Era para ter pelos do outro gato por perto, mas... nada. Reid ficou ajoelhado ao lado do tufo de pelos. Enquanto analisava a cena, percebeu algo vermelho no chão. Era sangue. Reid esfregou o polegar no sangue. Ainda estava fresco. Ele olhou ao redor, esperando ver Poeira surgir de trás de uma caixa, com algum arranhão orgulhoso e um rato na boca. Mas nada se mexeu.
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