Sinph StarVolume I – Capítulo 36 – Capítulo 36: Finalmente
Capítulo 37— Você demorou muito.
A voz me alcançou antes que eu pudesse sequer dizer de onde ela vinha.
— Eu sabia que isso te faria vir, só não esperava que fosse em termos tão bons. — Essa voz é com certeza uma das que eu não esperava escutar, não de novo. — De novo, Reid. Você não é nada demais, sempre uma peça, sempre um cordeiro.
— Você me impressiona, Lotus. Não sei nem o que dizer.
Eu com certeza estava tremendo. Poeira estava bem ali, nas mãos da Lotus. Caralho. Como eu pude deixar isso acontecer? Merda! Odeio me sentir impotente.
— Nervoso, sim? Calma aí, não quero matar esse carinha. — ela acariciou o flanco esquerdo do Poeira. — Mas bem que eu poderia, não? — a mão esquerda dela apertou o pescoço do gato. — O que mais te quebraria, Reid? O que nesse mundo mais te faria sofrer? Seria o certo, não? Você me fez sofrer. — um sorriso vago circulava a cara pálida de Lotus. Seus cabelos estavam maiores agora. Quase passando do ombro.
— Você é louc...
— Louca, é? Todos vocês dizem isso. Eu estou cansada. — ela puxou uma adaga, de algum lugar. Meu corpo reagiu antes de minha mente e vi minha mão sacando a espada. — Calma aí, herói. Eu mato essa coisa antes que você consiga me alcançar.
Caralho! Minha mente me forçou a guardar a espada. Não posso ser refém dela, esse show todo, o que será que ela quer? Eu não... tenho reforços, nunca tive.
— Boa, amorzinho, guarda essa espada bem devagar. — ela segurou o Poeira de maneira mais confortável, guardando a adaga. — Agora senta bem devagarinho. — a garota soltou uma risada bizarra pra caralho. — Quem foi, hein? Foi aquele elfo de merda? Ou aquela ruiva filha da puta? Era pra gente estar juntos agora, Reid. A gente ia ganhar uma casa e ia ser feliz pra sempre, lá no Império.
— Você realmente acha isso? Você sabe que iam nos matar no momento que tudo fosse pra merda. Eles foderam sua mente, Lotus.
— Cala a boca! Me diz qual dos dois foi! Eu vou fazer questão de matar os dois, por você, Reidzinho. — os olhos dela divagaram por algum tempo. — Eu juro que eu vou matar essa porra de gato se você meter a mão nessa espada de novo! Agora, seja um bom garoto, e joga ela pra cá.
Eu não vou jogar nem fodendo. Ela vai me matar. Caralho. Tinha que ser uma maluca, Allastor? Não podia ter me apresentado uma princesinha normal?
— Eu não... posso.
Tão rápido quanto um bater de asas, Lotus sacou a adaga e começou a cortar a coxa do Poeira. — Agora, porra! — O barulho que ele soltou machucou minha alma. Mais do que eu esperava. Minha mão agiu sem hesitar. A espada foi lançada em direção aos pés dela.
— Humm. Que espada bonita, Reid. Eu nunca ganharia uma dessa. Deixa eu adivinhar. Foi o papaizinho mago que te deu? Claro que foi. E o papaizinho Rei, cadê ele? Não quero intrusos. Não quando a diversão acabou de começar.
A garota segurava o gato de maneira desesperada agora, de um modo que ele não pudesse arranhá-la. A adaga foi guardada. — Deixa eu dar uma olhada nessa espada. Combina comigo, não? Mais pelo cabelo. Sabia que meus pais não tinham essa cor de cabelo? "Você é especial, Lotus." Era o que eu mais escut... — ela se perdeu em sua própria mente. Quando recobrou, a mão foi direto no cabo da espada. Inesperadamente, escutei a garota gritar de susto. A espada, que sempre me julgava, parecia ter recusado a mão dela.
— Como caralhos... foi Jin quem fez isso? Você sabe que ele não pode ficar gastando mana, não sabe, Reidzinho? O Palor nos disse tudo. Que pena, logo logo vão invadir essa merda de cidade e vão arrancar a cabeça daquele imundo.
Eu estou com raiva dela, muita raiva. Sinto minha língua sangrando. Devo ter mordido com bastante força. Esse gosto de metal é entorpecente. Caralho, por que eu joguei a espada? Me matei, não?
— Você não precisa fazer isso. Se você largar ele, eu vou embora, e você nunca mais vai ouvir falar de mim. — minha mão veio direto no meu peito. Ou sei lá, deve ter sido isso. — Juro.
Não sei o que passou na cabeça dela. Aqueles olhos me encararam por alguns segundos. Como sempre, me pego pensando em tudo e em nada ao mesmo tempo; encarar aqueles olhos me traz uma sensação que eu quero que se foda. Talvez até demais. Eu sinto algo por ela? Quer dizer, no começo, talvez. Merda, o que que eu tô pensando?
— Reid. Você não percebeu? Nenhum de nós dois pode voltar... nenhum dos dois conseguiria. Você ainda não sofreu...
Em um instante, Poeira reagiu. Eu esperava isso mais do que ela. O gato se contorceu, arranhando tudo o que conseguiu de Lotus. Eu avancei. Meio sem pensar. Agarrar minha espada foi fácil. Ela não me rejeitou, graças aos céus. Pareceu quase... aliviada. Por algum motivo, a espada me... orientou a algo. Eu não sei dizer o que. Mas era como se ela guiasse meu punho, direto ao pescoço de Lotus. Eu... quero isso. Mas ela não... quer dizer, a Lotus não merece morrer. Merece? Com cer... não! Que porra...
Eu não sei o que aconteceu nesses segundos que nos vimos parados. Eu devo ter hesitado. Acho que Allastor estava certo. Lotus me encarou durante todo o processo. Cara... ela tá um caco. Olheiras gigantes, hematomas na cara, o cabelo não parece muito sedoso; reparando melhor, os olhos me parecem tão tristes quando me encaram. O que fizeram com você? Por que teve que ser assim?
— Ah, Reid. Que pena não termos nascido em um mundo diferente. — escutei a garota dizer, enquanto avançava para cima de mim. A espada direcionada ao meu peito. Rápida pra caralho.
O primeiro golpe foi refletido sem muita dificuldade. A garota parecia estar atordoada com tudo o que aconteceu. Partes de seu fino antebraço sangravam com os arranhões de Poeira. Eu ataquei em seguida. Minha espada parecia cortar manteiga, navegando pelo ar. Embora Lotus estivesse desviando meus golpes, consigo sentir que não está sendo tão fácil para ela. Duvido que nossas forças estejam equiparadas. Quer dizer, a garota não parece comer há alguns dias. Desferi um corte vertical mirando seu ombro esquerdo. Ela desviou o golpe com a espada; quase todo o impacto foi absorvido por ela, no entanto, nem todo.
— Você tá melhor, Reidzinho. Que bom que você não ficou parado por todo esse tempo.
— E você parece pior, Lotus. Você comeu hoje? Ou melhor, nessa semana?
— Ah, cala a boca. Você não é meu pai.
Mais um golpe foi trocado. Mais uma falha na guarda. Eu não sei o que eu tô fazendo. Poderia ter arrancado o braço dela com essa brecha.
— O que aconteceu com a sua cara? Quem te bateu?
— Eu... não é culpa do Logan. Eu falhei com minha tarefa e mereci ser punida. — Lotus desviou o olhar da minha cara, encarando só os pés.
— Você só pode tá brincando. Você mereceu ser punida? E aí? Ele te jogou fora e você ainda acha que a errada é você? Caralho, cara! Eu tenho pena de você, Lotus.
— Vai se foder! É fácil pra você falar, Reid. Sua vida sempre foi fácil, você nunca entenderia. Aquilo era tudo que eu tinha.
— Você tá deixando mais fácil pra mim, essa coisa de lutar contigo. Você não sabe o que é uma vida difícil. — eu voltei a atacar. Cada vez mais rápido. Cada vez com mais peso nos meus golpes. Lotus sentiu a diferença.
A espada parecia estar gostando dos meus golpes, mesmo que eu mesmo não estivesse. Em algum momento, um golpe meu atingiu o flanco esquerdo da Lotus. Só reparei porque ela levou a mão no corte e se assustou com o sangue.
— Você não precisa morrer aqui, Lotus. — eu realmente estou com pena da garota. Ela me lembra... eu mesmo.
Ela estava encurralada em um canto, apenas se defendendo dos golpes. Pude ver um pingo de medo em seus olhos.
— Eu já morri, Reid. Eu morri naquele lago. Com aquelas batatas. Isso aqui... é só o meu inferno.
Eu levantei minha espada. Não sei bem o que eu ia fazer, mas algo me acertou. Por trás. Meu mundo ficou embaçado. Tudo começou a girar. Só me lembro de cair no chão.
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