Todas Essas Heroínas Perdedoras!Volume 5 – Prólogo
Capítulo 48O SOM REPENTINO da chuva crepitando arrancou minha consciência do mundo dos sonhos e a trouxe de volta à realidade. As gotas batiam contra a janela da sala de estar.
Alonguei as costas no sofá e fechei silenciosamente o livro de estudos. Estávamos na reta final das provas de fim de período. Embora tivesse sobrevivido ao dia de hoje, ainda não podia baixar a guarda.
— Faltam dois dias...
Murmurei para mim mesmo e olhei para o calendário pendurado na parede. Uma das datas imediatamente prendeu meu olhar.
O domingo seguinte seria dia 14 de fevereiro. Dia dos Namorados.
Como todos sabem, o Dia dos Namorados é a data em que os familiares presenteiam uns aos outros com chocolates. Não aceito objeções.
Entretanto, as coisas seriam diferentes este ano. No Natal passado, eu havia recebido presentes de aniversário das garotas do Clube de Literatura. Seguindo essa tendência, era bem provável que também recebesse chocolates de cortesia.
Mas, por favor, não entendam errado. Eu não estava tentando me gabar de ser popular ou de receber chocolates da garota por quem era apaixonado. Não importava se alguém estava sozinho ou não tinha interesse em relacionamentos amorosos de verdade.
No Dia dos Namorados, todo mundo ficava um pouco inquieto. As pessoas verificavam as gavetas das carteiras e até o interior dos armários de sapatos. Ainda assim, quanto maiores as expectativas, maior seria a decepção caso nenhum chocolate aparecesse.
De qualquer maneira, eu deveria me concentrar nas provas neste momento.
...Por outro lado, meus estudos para o dia seguinte estavam avançando muito bem.
Talvez fosse uma boa ideia ler alguma light novel para espairecer.
Se bem me lembrava, "Vamos Conversar sobre os Cem Dias que Levei para Perceber que Esta é uma Escola Só para Garotos" estava no meu quarto.
Era uma obra ambiciosa na qual todas as "heroínas" eram garotos vestidos de mulher. Ainda assim, o apoio dos fãs mais fervorosos havia mantido a série em publicação. Além disso, aquele livro pertencia ao Clube de Literatura. Não era uma propriedade pessoal minha.
Esse detalhe era extremamente importante.
— Bem, acho que vou fazer uma pausa.
Deixei o livro de estudos sobre o sofá e me levantei. Naquele momento, um aroma adocicado vindo da cozinha fez cócegas em meu nariz.
Minha irmã mais nova, Kaju, cantarolava enquanto parecia misturar alguma coisa.
Seus cabelos negros balançavam como fios de seda. Com seu corpo pequeno e o rosto ainda mais delicado e perfeitamente proporcionado, ela ficava impecável usando um avental, apesar de ser minha irmã mais nova.
Aproximei-me inconscientemente e observei o que ela tinha nas mãos.
— Kaju, o que você está fazendo?
Havia várias tigelas coloridas diante dela. Kaju mexia uma substância verde-clara.
— Estou testando novas receitas de chocolate para o Dia dos Namorados. Onii-sama, por favor, experimente.
Ela pegou um pouco da mistura com uma colher e a ofereceu para mim.
Provei uma pequena quantidade. Uma doçura refrescante espalhou-se pela minha língua, enquanto um aroma verde e suave subia até meu nariz.
— Que sabor é esse?
— Pistache.
Ela continuou mexendo a mistura enquanto explicava:
— Triturei o pistache até virar uma pasta e misturei com chocolate branco. Mas a textura ainda deixa um pouco a desejar depois que endurece. Este outro leva pasta de groselha-preta. Por favor, abra a boca e experimente.
Abri a boca obedientemente. Senti um leve amargor acompanhado de certa acidez sobre a língua.
— Os dois estão perfeitos. O Onii-sama acha todos os chocolates da Kaju deliciosos, não é?
Kaju mal conseguiu conter o sorriso. No entanto, logo assumiu uma expressão séria e pigarreou.
— Ara, o Onii-sama consegue receber chocolates na escola mesmo sem a Kaju dar nenhum para você, não é? Ou será que...?
As bochechas de Kaju ficaram levemente coradas. Seus olhos brilhavam com uma curiosidade impossível de controlar.
— Você pretende dar chocolate para outra pessoa?
Por que eu faria uma coisa dessas? Às vezes, Kaju dizia coisas bastante confusas.
— Não sei se vou receber chocolates ou não. Chocolates de cortesia são como cartões de Ano-Novo ou presentes: tudo depende do clima do momento. O Dia dos Namorados vai cair em um domingo neste ano, mas...
Fiz uma breve pausa antes de continuar.
— Talvez as pessoas entreguem chocolates de cortesia porque também será o dia de portas abertas da escola, mas não tenho certeza. Quer dizer, não é como se eu quisesse receber chocolates. Estou apenas analisando a situação de maneira geral.
Kaju sorriu depois de ouvir meu discurso.
— Sim, foi o que a Kaju imaginou. Neste ano, existe uma pessoa para quem a Kaju quer dar chocolate.
Ah, entendi. Kaju queria dar chocolate para alguém...
— Kaju, você quer dizer que...
Ela me interrompeu, tocando delicadamente a própria bochecha com o dedo.
— Há um pouco de chocolate doce e delicioso na bochecha da Kaju. Onii-sama, você poderia limpá-lo para mim?
Ela não tinha acabado de colocar chocolate no próprio rosto de propósito...?
Procurei por lenços de papel, mas, por algum motivo, não consegui encontrar nenhum. Tudo bem. Tirei um lenço de pano do bolso e limpei a bochecha de Kaju.
— Pronto, agora está limpa.
— É justamente essa parte do Onii-sama que eu não gosto.
Por que Kaju estava irritada? Eu não entendia, mas aquilo devia ser coisa da puberdade, certo?
— A propósito, para quem você pretende dar o chocolate?
Naquele momento, um toque de celular que eu não reconhecia começou a soar.
— Ah! Onii-sama, pode segurar isto por um instante?
Sem esperar pela minha resposta, ela me entregou a tigela que estava no banho-maria.
— Ei, o que eu devo fazer com isto?
— Por favor, continue mexendo devagar até chegar aos quarenta e cinco graus! A Kaju deixa isso nas suas mãos!
Kaju pegou o celular e saiu lentamente da sala de estar.
Hã? Era só isso mesmo que eu deveria fazer? Bem, por enquanto, parecia melhor continuar mexendo...
Mexi o chocolate lentamente e respirei fundo para me acalmar. Ela havia dito que queria dar chocolate para alguém. Será que não pretendia entregá-lo a um garoto?
Não, não havia a menor possibilidade.
Além disso, momentos antes ela praticamente dissera: "O Onii-sama não precisa dos chocolates da Kaju". Aquilo era um pouco preocupante. Será que ela não pretendia me dar chocolate?
Não que eu estivesse realmente ansioso pelos chocolates da minha irmã mais nova, é claro.
Mesmo assim, Kaju nunca havia deixado de me presentear desde que tinha um ano de idade. Caso houvesse algum tipo de mal-entendido, precisávamos nos sentar e conversar com calma.
— Ah, esqueci de verificar a temperatura.
Droga. Seria ruim se Kaju ficasse brava comigo. Coloquei rapidamente o termômetro na mistura. A tela marcava exatamente quarenta e seis graus.
Sim, aquilo estava dentro da margem de erro. Retirei a tigela de chocolate do banho-maria e olhei para a porta pela qual Kaju havia acabado de sair.
...O que eu deveria fazer agora? Ela ainda estava ao telefone?
Mesmo depois de algum tempo, Kaju não havia voltado. Por isso, levei a tigela até a entrada do corredor.
— Ei, Kaju...
Chamei-a em voz baixa antes de espiar para fora. Então, vi Kaju parada de costas para mim, falando baixinho com alguém perto da porta.
— Uhum, sim, mas... Hm, é verdade. Mas você tem certeza de que não tem problema? A Gon-chan... Certo, ela também concorda, não é?
O celular estava pressionado contra sua orelha. Ela assentia várias vezes enquanto falava.
Embora parecessem estar tendo uma conversa séria, ela não poderia ao menos esperar que eu lhe devolvesse a tigela de chocolate...?
— Vamos conversar sobre os detalhes quando nos encontrarmos, está bem? Afinal, não é muito bom falar sobre isso por telefone.
Ah, eles estavam terminando a conversa. Soltei um suspiro aliviado e avancei pelo corredor.
— Certo, entendi. Estarei livre no dia 14. Bem, vejo você na escola, Tachibana-kun.
...Hã?
Aquela última frase congelou meu corpo por inteiro. Kaju guardou o celular no bolso do avental e se virou em um movimento gracioso.
— Hã? Onii-sama, há quanto tempo você está aí?
— Ah, não... Acabei de chegar. O chocolate está a quarenta e cinco graus...
Menti com a maior naturalidade e lhe entreguei a tigela. Kaju correu até mim com um sorriso.
— Obrigada. Desculpe, acabei demorando demais ao telefone.
Com passos alegres, ela voltou para a cozinha e colocou a tigela em um recipiente com água gelada.
— Agora preciso diminuir a temperatura com isto... Aconteceu alguma coisa, Onii-sama?
Ao que parecia, eu estava encarando Kaju sem perceber. Desviei os olhos às pressas.
— Não, bem... Com quem você estava falando ao telefone?
— Com um amigo da escola. Estávamos conversando sobre uma coisa relacionada às aulas.
Hum, um amigo.
Pela maneira como ela se dirigira a ele, parecia ser um garoto. Além disso, a conversa aparentemente envolvia deixar o dia 14 livre.
Observei Kaju cantarolar enquanto mexia o chocolate. Um suor frio começou a escorrer pelas minhas costas.
Todo o esforço que ela estava colocando naqueles testes de chocolate... e o compromisso marcado para 14 de fevereiro com um amigo do sexo masculino...
Será que... poderia ser...?
— Ei, Kaju. Para quem você pretende dar o chocolate?
Perguntei no tom mais casual que consegui. Kaju imediatamente parou o que estava fazendo.
— Quem o Onii-sama acha que é?
Sua voz estava estranhamente serena. Engoli em seco.
— Ah, deve ser alguma amiga sua... certo?
Sem pensar direito, acabei dizendo justamente o contrário do que temia. No entanto, Kaju me mostrou um sorriso levemente envergonhado.
— É segredo.
(N/Shisuii: Só para dar contexto a quem não conhece no Japão, durante o Dia dos Namorados, existem dois significados principais por trás da entrega de chocolate a alguém. O Honmei representa uma confissão de sentimentos, geralmente com intenção romântica. Já o Giri é entregue por consideração, amizade ou obrigação social, sem necessariamente envolver interesse amoroso.)
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