Todas Essas Heroínas Perdedoras!Volume 5 – Capítulo 1 – Capítulo 1: Nem Chegamos a Tentar Passar a Perna um no Outro
Capítulo 49JÁ FAZIA QUATRO dias desde o início das provas finais. Restava apenas mais um.
Mas aquelas provas não eram o mais importante. Depois da aula, enquanto seguia apressado para a sala do clube, lembrei-me de como Kaju havia agido no dia anterior.
Kaju planejava dar chocolate honmei a um garoto no Dia dos Namorados. É claro que não havia nada de estranho em Kaju estar apaixonada por alguém.
Mas ela ainda estava no segundo ano do ensino fundamental. Não era um pouco cedo demais para dar um chocolate honmei?
E se o garoto não sentisse o mesmo por ela? Não, ele certamente sentia. Afinal, Kaju era adorável demais… Pensando nisso, entrei no prédio oeste. Assim que cheguei ao canto sombrio perto da escadaria, alguém agarrou meu braço e me puxou.
A pessoa que me arrastou sem hesitar para o canto escuro ao lado da escada era Tiara Basori, a vice-presidente do conselho estudantil. Ela me prensou contra a parede e me lançou um olhar severo.
— Nukumizu-san, você tem me evitado ultimamente?
— Hã? Claro que não...
Minha voz de repente vacilou, fazendo-me interromper a frase. Afinal, eu tinha um pouco de medo daquela garota. Quando permaneci em silêncio, Tiara-san baixou os olhos.
— Você realmente está me evitando, não está?
— Não! Não é isso. Tenho estado ocupado me preparando para as provas, então não tive tempo. Mas enfim, o que aconteceu?
Mudei de assunto de qualquer jeito. A expressão de Tiara-san pareceu aliviada. Ela era fácil demais de entender.
— Por favor, volte a me ensinar. É claro que não estou pedindo de graça. Vou recompensá-lo devidamente!
Hã? Ela não estava um pouco atrasada? As provas terminavam no dia seguinte.
De fato, as notas de Tiara-san não eram boas.
Ela não queria que os outros descobrissem isso. Até tivemos um pequeno desentendimento no fim do ano por causa desse assunto. Mesmo assim, por algum motivo, ela ainda me procurava de vez em quando para que eu a ensinasse.
Bem que ela poderia simplesmente conversar comigo normalmente.
— Hum, amanhã é principalmente estudos sociais, certo? Não sou muito bom nisso. Além do mais, é uma matéria baseada em memorização. Não seria melhor você estudar sozinha?
— Mas há outras matérias! Deixe-me ver. Quais são as outras...
Tiara-san tirou uma folha da bolsa e apertou os olhos para lê-la.
— Saúde e educação física.
O silêncio tomou conta do lugar. Tiara-san abaixou a cabeça de repente e começou a tremer. Suas orelhas estavam vermelhas.
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Sim, eu sei.
— Não foi isso que eu quis dizer!
— Ah, eu realmente sei. Então podemos simplesmente esquecer essa história de estudarmos juntos?
Tiara-san abriu os braços, impedindo-me de fugir.
— Mas, nesse caso, não poderei demonstrar minha gratidão!
...Hã? Tiara-san só estava propondo aquela sessão de estudos porque queria me agradecer?
— Na verdade, você não precisa fazer isso.
— M-Mas não é... na próxima semana? Você sabe, aquilo.
Tiara-san começou a desenhar um "の" no chão com a ponta do sapato. O que aconteceria na próxima semana? Tiara-san não tinha nada a ver com o Dia dos Namorados, certo?
...Ah, verdade.
— Você está falando do dia de visitação, no fim de semana? O conselho estudantil vai fazer alguma coisa por nós?
O Dia de Visitação do Colégio Tsuwabuki era um evento destinado a ajudar os estudantes do ensino fundamental da cidade a decidirem onde continuariam os estudos. Os visitantes também poderiam conhecer as atividades dos clubes. Por isso, estávamos pensando no que o Clube de Literatura deveria preparar.
Entendi. Ela queria fazer algo por mim em troca da ajuda com os estudos.
— Hã? Dia de... visitação?
Tiara-san pareceu confusa. Pelo visto, eu havia errado.
— Se não é isso, então o que...
Engoli o restante das palavras. Aquele canto da escadaria já era sombrio por natureza. Naquele momento, porém, pareceu ser envolvido por uma escuridão ainda mais profunda.
— Garota travessa... finalmente encontrei você...
A garota de corpo frágil que surgiu das sombras era Yumeko Shikiya, a secretária do conselho estudantil.
Shikiya-san apoiou o queixo no ombro de Tiara-san e deixou o corpo repousar suavemente sobre ela.
Muitas coisas haviam acontecido com aquela garota no fim do ano, também por causa de Tsukinoki-senpai. Desde então, ela parecia um pouco mais feliz. Provavelmente não era apenas impressão minha.
— Senpai!? Por que você está aqui...?
Tiara-san olhou ansiosamente para trás. Shikiya-san acenou para mim.
— Nukumizu-kun... quanto tempo...
— Pois é. Já faz três dias, não é?
Retribuí o cumprimento. Tiara-san me lançou um olhar descontente.
— Com licença. Poderiam não ficar flertando enquanto estou entre vocês dois?
— Mas nós não estamos flertando...? Não é, Nukumizu-kun...?
— É, não estamos.
Nós dois assentimos. A expressão de Tiara-san escureceu. Shikiya-san pareceu perceber e começou a acariciar a cabeça dela por trás.
— Que tal eu ajudar você a estudar...?
— Hã? Hum, mas isso...
Tiara-san se sobressaltou. Seu corpo estremeceu antes de ficar rígido. Shikiya-san acariciou delicadamente suas costas. Então, Shikiya-san inclinou a cabeça, confusa.
— Tiara-chan... o que aconteceu... com o seu sutiã...?
— Fufu...
Tiara-san levantou a cabeça com um sorriso arrogante.
— Senpai, se acha que pode continuar fazendo o que bem entende e desabotoar meu sutiã, está muito enganada.
Tiara-san virou-se rapidamente e estufou o peito, cheia de orgulho.
— Que pena. Troquei por um sutiã com fecho na frente! Agora você não pode mais abri-lo quando quiser!
Espere, o que estava acontecendo ali? Eu ainda estava presente.
— Entendo... Esse também... é bom...
Shikiya-san estendeu lentamente a mão. Então, passando-a entre as fitas alinhadas na camisa de Tiara-san, enfiou os dedos pela abertura e começou a mexer em alguma coisa.
— Senpai, por que está colocando a mão aí? Hã...?
— Abriu... não foi?
Tiara-san pressionou o peito às pressas.
— Hã, espere!? Abriu mesmo...
Ela ficou paralisada e se virou desajeitadamente na minha direção.
— Ah, bem... Nukumizu-san. Você viu?
É claro que vi. Assenti.
— Então, que tipo de brincadeira é essa?
— Não é brincadeira nenhuma! Pare de olhar, está bem!?
Mesmo que você peça, não é como se eu pudesse simplesmente deixar de ver. Shikiya-san acenou para Tiara-san e sussurrou:
— Tiara-chan... o tamanho do seu sutiã... não está certo...
— O quê!? E-Eu não estava tentando parecer maior nem nada disso!
...Tiara-san, você não precisa explicar em detalhes. Pensando bem, se eu continuasse ali, acabaria interrompendo o flerte das duas, não é? Afastei-me lentamente.
— Bem, já vou indo. Divirtam-se, vocês duas.
— Uhum... vá com cuidado...
— Espere!? Nukumizu-san! Não é isso! Nós não temos esse tipo de relação!
— Tudo bem, eu sei. Vocês não são assim, certo?
Depois de dizer isso, fui embora às pressas.
Eu não fazia ideia do que poderia ser, se não fosse aquilo. No entanto, até eu sabia que qualquer homem ousado o bastante para se intrometer em uma relação yuri merecia morrer.
*
Prédio oeste. Sala do Clube de Literatura.
Parei diante da porta e recuperei o fôlego. Estávamos prestes a realizar uma breve reunião.
Ainda era período de provas, mas a situação daquela vez era séria. As provas não eram nada comparadas à crise de Kaju.
— Desculpem a demora.
Abri a porta. Havia duas garotas lá dentro: Anna Yanami e Chika Komari. Por algum motivo, as duas estavam lado a lado, olhando fixamente para a parede. Em silêncio, mordiam algo preto: um rolo inteiro de sushi.
...O que estava acontecendo ali?
Pouco depois, Komari começou a tossir e colocou o rolo pela metade sobre um prato.
— E-Eu não consigo comer uma coisa t-tão grande...
Com os olhos marejados, ela terminou o chá da xícara e me lançou um olhar irritado.
— V-Você demorou demais. D-Deixamos um para você.
Para mim?
Olhei na direção indicada por Komari. Havia um grosso rolo de sushi embrulhado em plástico sobre a mesa.
— Um rolo inteiro para cada pessoa? E desse tamanho?
— C-Cale a boca e coma tudo d-de uma vez.
Não... o tamanho daquele rolo seguia os padrões de Yanami.
Mesmo assim, nem Yanami conseguiria comer uma coisa daquelas de uma só vez, certo...?
— Ufa... Como Nukumizu-kun demorou, comecei a comer antes.
— Hã!?
Virei-me e encontrei Yanami sentada tranquilamente, de pernas cruzadas. Ela limpava os lábios com um lenço.
Ela havia terminado o rolo inteiro enquanto Komari discutia comigo?
Sentei-me na cadeira em frente, um pouco impressionado. Yanami apontou para a parede atrás de mim.
— A direção da sorte fica atrás de você. Aqui. Coma tudo de uma vez.
Então... aquele rolo de sushi era um ehomaki?
(N/SLAG: Eho significa "direção da sorte". Segundo a tradição, deve-se comer o rolo inteiro em silêncio, voltado para essa direção. Normalmente, ele leva sete ingredientes, representando os Sete Deuses da Sorte. O ehomaki não deve ser cortado, pois isso simbolizaria cortar a própria sorte.)
— Mas o Setsubun foi ontem, não foi?
— Foi. Estes são os que sobraram. Eu os trouxe para cá.
Yanami rasgou o plástico que envolvia o rolo e o entregou para mim.
— Certo, nada de falar. Coma tudo de uma vez. Rápido. Coloquei bastante sakura denbu no seu, sabia?
(N/SLAG: Sakura denbu é um condimento adocicado feito de peixe, com uma coloração rosa.)
Sério? Mas eu não gostava muito de sakura denbu...
Hesitei. Komari me encarou furiosamente.
— C-Coma como se sua vida dependesse disso.
Você também não terminou o seu.
— Hum, vou comer quando tiver tempo. Além disso, onde está Yakishio? Ela não veio?
— Lemon-chan ainda está na aula de reforço.
— Aula de reforço? Ainda não estamos no período de provas?
Com uma expressão solene, Yanami começou a devorar o restante do sushi de Komari. Aquela garota realmente comia muito.
— Já divulgaram as notas do primeiro dia. Os professores do Tsuwabuki montaram uma turma especial. Se ela não começar a estudar agora, não vai conseguir passar de ano.
...Yakishio havia chegado a esse ponto?
— Certo, vamos deixar Yakishio nas mãos dos professores. Há um motivo para eu ter chamado vocês duas aqui hoje.
Enquanto imaginava um futuro em que Yakishio me chamava de senpai, retirei uma caixa da bolsa.
— O que é isso, Nukumizu-kun?
— Shhh. Experimentem um primeiro.
Yanami soltou uma exclamação animada quando abri a caixa.
A caixa achatada era dividida em vários compartimentos menores, todos preenchidos por chocolates coloridos.
Era o conjunto especial de chocolates variados da Kaju, experimento número três.
— Hã, o que é isso? Que bonitinho. Posso pegar um? Sou muito exigente quando se trata de chocolate, sabia?
Eu sabia, mas com que aspecto exatamente ela era exigente?
— Ah, este é amargo, e aquele tem gosto de leite? Uau, tem até um com calda de caramelo. Rápido, Komari-chan. Se não pegar logo, vão acabar.
Um pouco constrangida, Komari colocou um chocolate na boca.
— E-Este é de pistache, certo? F-Foi feito à mão?
— Foi. É uma amostra dos chocolates de Dia dos Namorados da minha irmã mais nova. Além disso, este aqui...
Peguei um chocolate vermelho em formato de coração e o ergui diante delas.
— Ela disse que vai dar este para outra pessoa. Não para mim.
Yanami e Komari interromperam os movimentos ao mesmo tempo. Encarei as duas com calma.
— Ela também não quer me dizer para quem vai entregar. Então, como irmão mais velho, quero entender o que se passa na cabeça de uma estudante do segundo ano do ensino fundamental quando ela pretende dar chocolate honmei para o garoto de quem gosta.
...Nenhuma resposta.
— Komari-chan, o que tem dentro deste aqui?
— N-Não sei. Talvez a-amêndoas.
Croc. Croc. Croc.
As duas continuaram comendo os chocolates.
— Hum... vocês ouviram o que eu acabei de dizer?
Yanami e Komari trocaram um olhar e responderam com indiferença.
— A Imouto-chan provavelmente está apaixonada por alguém.
— Ah, então é um homem.
...Elas não entendiam a gravidade da situação.
Limpei a garganta e voltei a encará-las.
— Muito bem. Vou dar algumas pistas especiais para vocês. Minha irmã mais nova vai se encontrar com um amigo no dia quatorze. No entanto, acho que isso é apenas uma distração. Dar chocolate para ele em uma situação tão óbvia seria como uma armadilha em um romance ou filme, não seria? Não existe a possibilidade de ela estar sendo enganada por pessoas perigosas ou arrastada para algum jogo mortal? Sou o irmão mais velho dela, afinal. Preciso intervir de maneira adequada...
Meu apelo sincero não surtiu efeito algum. As duas tiraram livros didáticos e cadernos das bolsas.
— Hum, talvez. Komari-chan, você quer as questões das provas anteriores para amanhã?
— Hã? V-Você tem uma coisa dessas?
As duas começaram a estudar para as provas.
— Vocês não podem pensar nisso com um pouco mais de seriedade?
Yanami soltou um suspiro impaciente enquanto girava a caneta esferográfica vermelha entre os dedos.
— A resposta não é óbvia? Você também sabe, não sabe? Ela deve estar nervosa, tentando decidir se os dois devem começar a namorar. Deixe que eles resolvam isso sozinhos.
Komari assentiu.
— V-Você precisa demonstrar maturidade numa hora dessas. S-Se a família tentar impedir, eles só vão ficar ainda mais teimosos.
— Mas pensem bem. Ela está fazendo os chocolates bem na minha frente. Talvez queira contar alguma coisa ao irmão mais velho. Essa possibilidade existe.
— Não, Nukumizu-kun nem sequer sabe o que é o amor.
— P-Pelo visto, você não entende mesmo. R-Reflita sobre isso.
Vocês duas também passaram a vida inteira solteiras...
Enfim, aquelas duas estudantes do ensino médio compartilhavam a mesma opinião. Tentando analisar a situação de maneira objetiva, Kaju provavelmente estava apaixonada por alguém. Talvez fosse realmente isso. Além do mais, havia uma grande possibilidade de essa pessoa ser o tal Tachibana-kun, com quem ela se encontraria no dia quatorze.
Por outro lado, aquilo que chamamos de objetividade não passava do maior denominador comum entre diferentes pontos de vista subjetivos. Os membros do Clube de Literatura viviam da criatividade. Será que poderíamos aceitar uma conclusão tão simples sem questioná-la?
Afinal, só porque ela entregaria chocolates feitos à mão no dia quatorze não significava necessariamente que fossem chocolates honmei. Eliminar esse tipo de mal-entendido também estava diretamente ligado às futuras atividades do Clube de Literatura, não estava?
...Perdi-me nesses pensamentos sem nem perceber. Quanto tempo havia se passado?
Komari olhou de relance para o relógio na parede, pegou a bolsa e se levantou.
— Komari-chan, você já vai embora?
— P-Pediram para eu cumprir meu turno na biblioteca.
— Ah, é verdade. Hoje é o dia da Komari.
Recentemente, o Clube de Literatura vinha ajudando na biblioteca. Embora não fosse permitido pegar livros emprestados durante o período de provas, a sala de estudos continuava aberta.
— Komari-chan, tem certeza de que quer fazer isso durante as provas? Que tal mandar Nukumizu-kun no seu lugar?
Não tente simplesmente me empurrar para lá, garota.
— E-Eu só vou ficar sentada na recepção. A-Ainda consigo e-estudar.
Depois que Komari foi embora, Yanami estendeu a mão para os chocolates enquanto lia o livro didático.
— Nukumizu-kun, você está tranquilo quanto às provas? Está inquieto desde esta manhã.
— Kaju está em perigo. Como eu poderia me concentrar nos estudos? Preciso mostrar àquele imprestável com quem ele está se metendo.
Minha lógica era impecável. Ainda assim, por algum motivo, Yanami balançou a cabeça e abriu um sorriso constrangido.
— Então, quando a Imouto-chan vai entregar os chocolates para ele?
— Hum? No Dia dos Namorados, dia quatorze, é claro.
— Neste ano, o Dia dos Namorados cai num domingo, sabia? Em outras palavras, ela vai se encontrar com um garoto no fim de semana para lhe dar chocolate. Isso não significa que eles já estão namorando ou prestes a começar?
Fwap.
Yanami abriu o livro didático com um movimento rápido.
— Mas escute. Nunca percebi nenhum sinal de que Kaju estivesse apaixonada por alguém. Nós moramos na mesma casa. Tenho absoluta certeza disso.
— Então significa que eles estão se aproximando na escola. Já devem estar quase chegando à última parada, não acha? Não tente se intrometer.
De jeito nenhum. Balancei a cabeça.
— Talvez ela também vá se encontrar com outros amigos no dia quatorze. Ao contrário de mim, Kaju tem muitos amigos.
— Então é só confirmar os planos dela. Se não fosse uma confissão ou um encontro, a Imouto-chan teria contado a você, não teria?
Entendi. Aquilo fazia sentido.
Peguei o celular.
— Talvez ela tenha colocado alguma coisa no calendário. Deixe-me ver.
Yanami franziu a testa e ergueu o rosto.
— Por que o celular do Nukumizu-kun tem acesso à agenda da Imouto-chan?
— Não sei. Compartilho o calendário e o espaço de armazenamento na nuvem com a minha irmã.
Yanami afastou lentamente a cadeira da minha.
— Nukumizu-kun, isso já é um pouco demais.
— Foi minha irmã que configurou tudo. Ela até colocou uma senha. Eu não consigo mudar...
Abri o calendário de fevereiro. O Dia dos Namorados seria no fim de semana seguinte.
...Não havia nada. Minha busca não dera resultado algum. No entanto, meus dedos pararam no instante em que eu estava prestes a desligar a tela. Havia um compromisso desconhecido marcado para aquele sábado.
"Ir ao Toyokawa Inari com Tachibana-kun♡"
...!
Por puro reflexo, virei o celular com a tela para baixo e o bati contra a mesa. Certo. Primeiro, eu precisava me acalmar e organizar as informações.
............
............
...Aquilo só podia ser um encontro. Tachibana-kun devia ser a pessoa com quem Kaju estava falando ao telefone.
Se ela o chamava de "-kun", então provavelmente era um garoto. Além disso, devia ser da mesma série ou de uma série abaixo da dela. Também havia a possibilidade de ser algum sujeito esquisito que gostava de obrigar garotas mais novas a chamá-lo de "-kun". Mas deixaria essa hipótese de lado por enquanto.
Então era assim que se escrevia Tachibana... Entendi... Tachibana-kun... um garoto...
— Afinal, quem diabos é esse Tachibana-kun!?
Agarrei a cabeça com as duas mãos e mergulhei no desespero. Yanami bateu na mesa.
— Nukumizu-kun, pode se acalmar e estudar? Pare de se preocupar tanto com a Imouto-chan.
— Não, isso é sério! Kaju tem um encontro marcado para o fim de semana!
Entreguei o celular a ela. Yanami estreitou os olhos enquanto examinava a tela.
— Um encontro? Isso não é uma sessão de estudos com os amigos?
...?
Do que ela estava falando? Olhei para a tela, incrédulo. O compromisso que eu vira havia desaparecido. No lugar dele, agora estava escrito:
"Sessão de estudos com amigos"
...Hã? O que aquilo significava?
— Espere, espere, espere! Agora mesmo estava escrito aqui: "Ir ao Toyokawa Inari com Tachibana-kun"! Tinha até um coração no final!
Kaju teria alterado o compromisso para impedir que eu o visse? Nesse caso, significava que o relacionamento dos dois precisava ser escondido da família. Como irmão mais velho, como eu poderia simplesmente...
Yanami se levantou de repente, parou ao meu lado e deu alguns tapinhas em meu ombro.
— Você deve estar cansado, Nukumizu-kun.
— É verdade. Kaju vai ter um encontro secreto com Tachibana-kun no fim de semana...
Antes que eu terminasse, Yanami enfiou um pedaço de chocolate na minha boca. O sabor agridoce da groselha-preta espalhou-se pela minha língua.
— Vamos nos acalmar, está bem? Aqui. Preparei um chá para você.
— Obrigado... É verdade, talvez seja mesmo apenas uma sessão de estudos.
Sim, só podia ser isso. De repente, tive essa impressão.
— Devo ter visto coisas.
— Sim, exatamente.
Yanami assentiu com gentileza.
— Kaju está apenas no segundo ano do ensino fundamental. Ainda é cedo demais para ela ter namorado ou sair em encontros.
— Sim, sim. Exatamente.
— Isso mesmo. Além do mais, é impossível que Kaju se apaixone por alguém tão cedo. A nossa Kaju é uma estudante dedicada, que não tem tempo para romance. Ela se concentra nas atividades do conselho estudantil. Komari e Yanami-san é que não conseguem parar de pensar em amor, certo?
— Cale a boca…..
Yanami resmungou em voz baixa.
— Hã? O que você disse?
— Você ainda não entendeu, Nukumizu-kun. Eles devem estar indo a um encontro. Sim, um encontro.
De repente, ela mudou completamente de lado.
— Mas no calendário está escrito "sessão de estudos".
Yanami se jogou na cadeira e cruzou as pernas de maneira deliberada.
— A sessão de estudos é apenas uma distração. A Imouto-chan e Tachibana-kun vão ter um encontro no Toyokawa Inari. Como o Dia dos Namorados está se aproximando, eles querem confirmar de uma vez por todas o que sentem um pelo outro.
— Não…. Eu apenas tive uma alucinação. Não pode ser um encontro.
Naquele momento, a única prova existente estava dentro da minha cabeça. Era uma teoria perfeita e impossível de refutar.
— Mesmo que tenha sido uma alucinação, a Imouto-chan é popular. Não seria estranho ela começar a namorar alguém, seria?
Minha teoria perfeita desmoronou imediatamente.
— Talvez isso aconteça algum dia, mas é impossível que o encontro seja exatamente no mesmo horário e lugar que apareceram na minha alucinação, não acha? Além do mais, ao contrário de Yanami-san, Kaju é uma garota séria. Ela não sairia escondida para um encontro sem me contar.
Tump.
Yanami ergueu as sobrancelhas.
— Ah, é...? Nesse caso, vamos apostar.
Uma aposta? Olhei para Yanami, confuso. Ela me encarava de maneira provocadora.
— É neste sábado, certo? Eu ganho se a Imouto-chan estiver num encontro. Nukumizu-kun ganha se ela não estiver. Que tal?
— Não me importo de apostar, mas como vamos confirmar o resultado?
— Eles vão se encontrar no Toyokawa Inari, certo? As provas terminam naquele dia. É só irmos até lá verificar, não acha?
Ela pretendia observar os dois e confirmar tudo com os próprios olhos.
— Muito bem, eu aceito. Mas posso garantir que Kaju não estará lá. Minha vitória é absoluta.
Yanami ergueu levemente o canto dos lábios, aceitando a provocação.
— Então, que tal assim? Há várias comidas famosas nos arredores do Toyokawa Inari. Quem perder terá de pagar tudo o que o vencedor pedir.
— Bem, isso...
Nós só ficaríamos comendo enquanto caminhávamos, mesmo que um tivesse de pagar pelo outro. Eu só precisaria comprar um ou dois inari sushi...
— Espere. Isso não é muito injusto comigo?
— Nukumizu-kun não acredita que seja um encontro, certo? Eu acho que eles estão saindo juntos, então as condições são perfeitamente justas. Na verdade, talvez eu até esteja em desvantagem, já que podemos acabar não encontrando a Imouto-chan.
— Entendi. É, parece justo.
Concordei. Yanami voltou a estudar para a prova enquanto cantarolava.
— Sabia que existe um restaurante especializado em inari sushi criativo? Há vários tipos, mas cada um pode ser comido em uma única mordida. Acho que conseguiremos experimentar todos. Ah, Nukumizu-kun, você quer as questões antigas da prova de História Mundial?
— Hum, se você as trouxe, vamos dar uma olhada.
Peguei as folhas enquanto uma suspeita crescia dentro de mim.
...Espere. Havia alguma coisa errada. Aquela aposta era mesmo justa?
— Hum, Yanami-san. Pensando bem, vamos cancelar. Perseguir minha irmã desse jeito é um pouco...
— Aqui, Nukumizu-kun. Este é o seu.
Yanami me interrompeu, entregando-me um rolo de sushi.
— Mas eu não estou com fome...
— Espero que faça sol no fim de semana.
Ao ver o sorriso dela, só me restou comer o rolo em silêncio, de frente para a parede.
*
O longo período de provas finais finalmente havia terminado. Era manhã de sábado.
Diante do espelho na entrada de casa, Kaju girou o corpo de um lado para o outro. Em seguida, ajeitou a gola do casaco com alguns tapinhas. Ela usava um casaco marrom-claro com bordas brancas e felpudas, além de botas de cano curto. Havia até um enfeite de flor em seus cabelos.
Uma sessão de estudos com os amigos... Ela parecia ter se arrumado demais para isso.
Percebendo que eu a observava, Kaju sorriu para mim.
— Onii-sama, o almoço está na geladeira. Por favor, esquente antes de comer.
— Certo, entendi. Tome cuidado no trem.
Fiquei em silêncio por um instante. Então percebi que ela esperava que eu acariciasse sua cabeça. Comecei a afagar os cabelos de Kaju.
— Ehehe. Então, estou indo. Até mais tarde.
Depois de confirmar que Kaju havia acenado e saído, olhei para o relógio. Eram exatamente dez da manhã. Peguei o celular e fiz uma ligação.
...Chamou duas vezes. A pessoa do outro lado atendeu como se já estivesse esperando.
— Qual é a situação, Nukumizu-kun?
A voz de Yanami veio pelo telefone. Ela parecia mais séria do que o normal, o que acabou me deixando nervoso também.
— Sim, Kaju saiu conforme o planejado. Ela está muito bem-arrumada, mas agiu como sempre. Talvez seja mesmo apenas uma sessão de estudos, e não um encontro, certo?
— Como é a bolsa da Imouto-chan?
— Ela está levando uma bolsa de mão pequena.
— Isso não é apropriado para uma sessão de estudos, é? Onde estão os livros e o material escolar?
...Eu não conseguia acreditar que Yanami fosse tão perspicaz. Enquanto isso, eu me esforçava ao máximo para fugir da realidade.
— Talvez, mas também é possível que ela só vá passear com os amigos.
Yanami ignorou minha tentativa inútil de resistência.
— Talvez. Mas nosso objetivo é justamente confirmar isso, certo? Prepare-se.
— Precisamos mesmo ir juntos? Por que não posso ir sozinho?
— E o que você vai dizer se esbarrar na Imouto-chan?
— Hum...
Fiquei sem palavras. Yanami lançou outro ataque com uma voz animada.
— Muito bem, Nukumizu-kun. Vamos começar nossa disputa?
*
Olhei para o relógio. Já passava um pouco das onze da manhã. Fui o primeiro a sair da Estação Toyokawa. Meu corpo estremeceu com a brisa gelada. Durante o inverno, o vento oeste da região de Higashi-Mikawa era forte e seco.
— Eu devia ter trazido um cachecol.
Não consegui evitar o resmungo. Eu havia ganhado um cachecol de Tiara-san no Natal. O motivo de não estar usando era porque me sentia um pouco envergonhado...
— Que frio! Nukumizu-kun, por que saiu na frente?
Yanami desceu as escadas da estação, segurando com força a parte da frente do casaco. Ao chegar ao meu lado, deu-me uma leve cotovelada.
— Porque você estava olhando o mapa antes das catracas. Achei melhor não atrapalhar.
— Nós não viemos juntos? Deveríamos olhar o mapa juntos, não acha? Você não está com frio?
Yanami deu um tapa nas minhas costas.
Ah, qual é... Eu devia mesmo ter vindo sozinho.
— Desculpe. Estou quase congelando. Vamos logo. Olhe, é por ali.
Encerrei a conversa de qualquer jeito e apontei para o outro lado das estátuas de raposas de bronze. Havia ali um torii com a inscrição "Toyokawa Inari Monzencho", marcando a entrada da rua comercial.
Quando eu estava prestes a atravessar o torii, Yanami apontou para mim e falou com seriedade:
— Nukumizu-kun, está preparado? A disputa já começou, sabia?
— Sim. Yanami-san vence se Kaju estiver em um encontro. Eu venço se ela não estiver.
Entramos na rua. Como era fim de semana, havia muitos visitantes. Sem perceber, meus olhos começaram a seguir os casais. Voltei a mim e abri um sorriso amargo.
...Eu devia estar pensando demais. Por que uma garota com complexo de irmão como Kaju sairia para um encontro com outro rapaz?
Desculpe, Yanami. A vitória desta disputa já é minha.
Enquanto caminhávamos, murmurei aquilo para tentar me tranquilizar. De repente, Yanami falou comigo.
— Ei, ei, Nukumizu-kun. Por que aquela livraria tem tantas máscaras?
Eu estava prestes a me virar para olhar quando Yanami puxou meu braço novamente. O que foi agora?
— Esqueça isso. Olhe só como a placa daquela farmácia é bonitinha! Tire uma foto minha!
Por que aquela garota estava tão animada naquele dia? Sinceramente, aquilo começava a me irritar…
Yanami fez uma pose. Eu não tive escolha além de tirar a foto.
— Ficou boa?
Sim, a placa aparecia perfeitamente. Ela cobria metade do corpo de Yanami.
— Ficou ótima. Depois mando para você. Vamos.
A multidão ficava cada vez mais densa conforme nos aproximávamos do fim da rua. Mesmo que Kaju estivesse ali, seria impossível encontrá-la.
Retiro o que disse. Apesar de achar impossível que fosse um encontro, eu ainda estava um pouco nervoso...
— Ei, Yanami-san. Se avançarmos mais um pouco...
Virei-me. Yanami não estava mais lá. Hã? Para onde ela foi? Comecei a olhar ao redor. Então Yanami correu até mim, segurando um senbei em cada mão.
— Aqui. Este é do Nukumizu-kun. Acabou de sair da grelha, sabia?
Peguei-o por reflexo, mas aquele senbei era enorme. Tinha quase o tamanho do rosto de Kaju.
— Por que comprou um para mim também?
— Não combinamos que comeríamos enquanto caminhávamos? Termine logo. Caso contrário, não poderemos visitar a próxima loja.
Entendi. Mas, se possível, gostaria que ela tivesse me perguntado antes de decidir a minha porção.
Yanami triturava o senbei com os dentes. Já estava quase terminando.
— Pensando bem, por que você não convidou Komari e Yakishio hoje?
— O quê? Não gosta de sair sozinho comigo?
Yanami terminou o senbei e me lançou um olhar afiado. Aquela garota era sensível demais.
— As provas terminaram ontem. Pensei que poderíamos trazer todos como uma espécie de comemoração.
— Nós quatro chamaríamos muita atenção, não acha? A Imouto-chan não fugiria se nos visse?
Yanami enrolou a ponta do cabelo em um dedo e continuou, um pouco constrangida:
— Além disso, eu estava ansiosa para vir aqui hoje, sabia?
— Hã? Isso...
Yanami estava realmente ansiosa para sair comigo? ...O que aquilo significava? Surpreso, olhei para ela. Yanami assentiu suavemente.
— Uhum. Na verdade, existe uma filial do Toyokawa Inari em Akasaka, Tóquio. Dizem que é um ótimo lugar para romper vínculos.
Eu tinha acabado de ouvir algo sinistro?
— Espere, do que você está falando? Romper vínculos?
— Estou falando das bênçãos. Este lugar é como a sede principal, então sinto que o efeito deve ser ainda mais forte.
Templos também funcionavam assim?
— Hum, vou perguntar só por precaução. Existe algum relacionamento que você queira romper? Não precisa responder caso não queira.
— Quem sabe?
Yanami sorriu e caminhou em direção à loja de inari sushi criativo.
Ela era assustadora. Um pouco apreensivo, decidi observar as pessoas que passavam pela rua. Não havia apenas idosos e famílias com crianças. Também era possível ver vários casais jovens.
...Kaju estava muito bem-humorada naquela manhã. Ela até havia pedido para a mamãe pintar suas unhas. Embora não tivesse usado maquiagem, passara bastante tempo se arrumando. Até eu conseguia perceber que...
— Hã? Yanami-san?
Ela desaparecera novamente enquanto eu estava distraído. Para onde tinha ido? Não havia o que fazer. Eu esperaria por ela enquanto terminava aquele senbei. Era a primeira vez que eu comia um senbei recém-saído da grelha. Estava quente, e o aroma subia pelo meu nariz. Era melhor do que eu esperava.
...Mas aquilo era realmente enorme. Yanami o engolira como se fosse uma folha de papel, mas, para mim, não estava sendo tão fácil. Quando finalmente consegui terminar, Yanami voltou com os braços cheios de coisas.
Ela até carregava um bolinho de peixe no espeto entre os dentes, parecendo um cachorro de rua de algum anime antigo.
Eu não fazia ideia do que ela queria dizer. No entanto, ela continuava projetando o queixo para a frente. Provavelmente queria que eu tirasse o espeto de sua boca. Mesmo contrariado, fiz o que ela queria. Yanami soltou um suspiro de alívio.
— Ufa, foi por pouco. Comprei um para o Nukumizu-kun também, já que você estava aí distraído.
Eu não tinha pedido nada.
— Você comprou muita coisa. Vai comer tudo isso agora? Tudo mesmo?
— Sim. Eu não disse que comeria enquanto caminhávamos?
Mas para onde exatamente ela estava caminhando?
— Tem muita coisa aí. Warabimochi, inari sushi grelhado, almôndegas de inari e... este aqui é um hambúrguer kitsune.
Warabimochi era semelhante ao mochi tradicional, mas feito de amido em vez de arroz.
— Hambúrguer kitsune?
Dei uma olhada. O recheio era um hambúrguer comum, mas, no lugar do pão, usavam duas fatias de tofu frito. Comida frita prensada entre mais comida frita. Parecia um prato criado especialmente para Yanami, assim como o bolinho de arroz envolto em carne...
— Também temos isto. Há dez tipos de inari sushi criativo aqui dentro. Quero dividir metade com você.
Hum, devia ser aquela caixa, certo? Peguei uma embalagem no meio da montanha de comida.
— Só tem cinco aqui.
— Sim, estavam deliciosos.
Ela já havia comido metade.
— Aqui, Nukumizu-kun. Não precisa ser educado. Pode comer o bolinho de peixe também.
Hã? Ela queria que eu comesse aquilo? O mesmo em que acabara de dar uma mordida?
— Não, obrigado. Aqui, coma você, Yanami-san.
Aproximei o bolinho de peixe dos lábios dela.
— Ah, faça-me morder na horizontal, está bem? Um pouco mais para cima. Certo, pare aí.
Yanami começou a morder o bolinho como se estivesse comendo uma espiga de milho.
Acho que as galinhas da minha escola primária costumavam comer daquela maneira. Era um pouco engraçado… No entanto, fazendo aquilo no meio da rua, as pessoas provavelmente pensariam que ela era maluca. Eu tinha a impressão de que todos estavam olhando para nós.
— Yanami-san, agora que você terminou de comer, deveríamos ir logo ao templo.
— Primeiro vamos acabar com isto. Aqui. Esforce-se também, Nukumizu-kun.
Ainda havia pedacinhos do bolinho de peixe nos lábios de Yanami. Seu sorriso era bastante encantador.
...Ah, eu também precisava comer?
*
Estávamos no caminho de pedras que levava ao salão principal. Ao passarmos por baixo do enorme torii de pedra, Yanami ergueu a cabeça e o admirou.
— Uau, é gigantesco. Não é à toa que este é um dos melhores santuários de Mikawa.
— Yanami-san, o Toyokawa Inari é um templo.
Na realidade, o local reunia características tanto de templo budista quanto de santuário xintoísta.
— Sério….?
— Sim.
Ela não sabia daquilo? Mesmo conhecendo tanto sobre romper vínculos?
— Então não preciso fazer nenhuma oferenda?
— Não, precisa.
Por que aquela havia sido a primeira coisa em que ela pensara?
Nossa conversa sem sentido continuou enquanto colocávamos algumas moedas na caixa de oferendas diante do salão principal. Batemos as mãos e começamos a rezar.
Que minha família permaneça em segurança.
Desde que conseguia me lembrar, aquele sempre fora o meu pedido.
Sem perceber, lancei um olhar para o meu lado. Yanami murmurava alguma coisa com os olhos fechados.
Ela parecia muito concentrada. Fiquei imaginando qual seria o seu pedido... embora também não tivesse muita vontade de descobrir.
Por fim, Yanami terminou sua maldição... quer dizer, sua prece. Então abriu os olhos, satisfeita.
— O que você pediu, Yanami-san? É claro que não precisa responder, dependendo da situação.
— Quem sabe?
Ela inclinou a cabeça e se virou. ...Tudo bem. O assunto terminou ali.
Estreitei os olhos enquanto observava o amplo terreno do templo do alto das escadas do salão principal. Não vi ninguém que se parecesse com Kaju.
— O que foi, Nukumizu-kun? De repente, você ficou com uma cara suspeita.
— Nosso objetivo inicial é confirmar se Kaju está ou não num encontro aqui. Não é hora de ficar conversando, certo?
Yanami olhou para mim, interessada.
— Ora? Você não disse que era impossível a Imouto-chan sair para um encontro? Está começando a ficar preocupado?
— E se eu estiver? Preciso pegá-la em flagrante. Kaju ainda é nova demais para encontros.
Yanami deu de ombros, como se não houvesse o que fazer.
— Sabia que um encontro não é algo com que você precise ficar tão nervoso? Nukumizu-kun, acho que você não entende nada disso.
Pessoal, quem estava dizendo aquilo era alguém que nunca teve um namorado.
— Então o que é um encontro?
— É simples. Um garoto e uma garota passam um tempo juntos, olhando para as mesmas coisas. Assim, confirmam os pensamentos e sentimentos um do outro. Isso é um encontro.
Yanami começou a descer as escadas com passos leves. Eu a segui.
— Eles conseguem saber disso só por saírem juntos...?
— Conseguem, Nukumizu-kun. Só pelo ritmo e pela velocidade dos passos já dá para sentir se a outra pessoa combina com você.
Yanami parou de repente no meio da escada. Desviei de suas costas às pressas.
— Hum, então é aquela coisa de o garoto caminhar do lado mais próximo da rua?
— Isso é um pouco diferente, não acha? Bem, é importante sempre ter consideração um pelo outro.
Por algum motivo, Yanami me encarava com uma expressão de censura.
— Ah, mas garotas como a Kawasaki-chan preferem os tipos dominadores. Elas não querem alguém que acompanhe o ritmo delas. Então acho que varia de pessoa para pessoa.
Quem era Kawasaki-chan? Eu não a conhecia. Será que ela gostava de caras arrogantes...? Enquanto caminhava pensando naquela desconhecida Kawasaki-chan, Yanami puxou minha mão com força.
— Olhe, é o Reikozuka! Vamos dar uma olhada!
Reikozuka... Se não me enganava, era um monte dedicado a incontáveis estátuas de raposas.
— Está bem, mas não precisa me puxar com tanta força.
Impulsionado por Yanami, segui pela pequena trilha que levava até o monte. Não sabia se era coincidência, mas não havia outros visitantes por perto. Inúmeras bandeiras se erguiam ao longo do caminho. Parecia que estávamos sendo conduzidos para outro mundo.
...De repente, enquanto caminhávamos lado a lado, lancei um olhar para o perfil de Yanami.
Anna Yanami. Como ela sempre agia daquela maneira, eu costumava me esquecer, mas ela era uma garota bonita e popular.
Eu sabia que ela havia entrado para o Clube de Literatura como uma forma de fugir da realidade depois de ser rejeitada por seu amigo de infância, Sosuke Hakamada.
No entanto, ultimamente ela vinha saindo com Hakamada e Himemiya-san. O Clube de Literatura já havia cumprido o seu papel como refúgio. Então por que Yanami ainda permanecia em um clube tão insignificante e estava até disposta a sacrificar seu precioso dia de folga por causa da Kaju...?
— Hum, o que foi, Nukumizu-kun?
— Hã?
Quando ela me chamou, finalmente percebi que estivera encarando Yanami. Ela também aproximou o rosto do meu.
— Eu sei que você ficou enfeitiçado por mim, mas não acha que está encarando demais?
— Hã? Não, eu só estava olhando um pouco para o seu perfil...
Espere, o que eu acabei de dizer? Um sorriso malicioso surgiu no rosto de Yanami.
— Ah, então estava olhando para o meu perfil?
— Hã? Não, isso foi só...
— Este ângulo está bom? Que tal se eu prender o cabelo? O que acha?
Yanami aproveitou a oportunidade para exibir o perfil para mim.
Droga. Aquele havia sido o maior erro da minha vida no ensino médio.
Não era nada do que vocês estavam pensando, está bem? Eu só tinha dado uma olhadinha. Era como assistir a vídeos de gatos. Eu não me sentia atraído por ela. Além do mais, eu preferia cachorros... Ah, qual é, Yanami, pare de bater no meu ombro.
Fugi dela até o fim da trilha.
*
O Reikozuka ficava no centro de um espaço cercado por mais de mil estátuas de raposas. Aquelas esculturas de pedra haviam sido oferecidas por pessoas cujos desejos tinham se realizado.
A visão era de tirar o fôlego. Yanami e eu permanecemos lado a lado, de boca aberta.
— Uau, são muitas. Vamos nos separar e contar todas. Você começa pela esquerda, Nukumizu-kun.
— Hã? Não precisamos contar, certo?
— Ah! Aquela raposa se parece muito com o Nukumizu-kun, não acha? Olhe, é a vigésima quinta a partir dali.
— Não vou contar só porque você disse isso.
Francamente, como ela era ingênua ao achar que suas palavras teriam algum efeito sobre mim. Estava enganada. Eram todas estátuas de raposas. Era difícil até decidir por onde começar a contagem.
Aquela raposa realmente se parecia comigo? A que estava ao lado dela também parecia tão esguia e elegante...
Perguntei baixinho a Yanami:
— Então, a partir de qual delas devemos contar até a vigésima quinta?
*
Depois de voltarmos à rua comercial, desabei sobre um banco numa loja de manju.
Eu tive que impedir Yanami de dar nomes às estátuas das raposas e ainda ficar de olho nela enquanto alimentava as carpas. Aquilo havia sido exaustivo.
— Nukumizu-kun, não importa o que aconteça, eu não vou comer ração de carpa, está bem?
Yanami me entregou um pacote com a inscrição "Manju Pérola" antes de se sentar ao meu lado. Aquela garota havia comprado outra coisa para mim sem perguntar...
— Então por que você pesquisou "ração de carpa" e "pode comer?" no celular?
— Parecia deliciosa enquanto as carpas comiam. Por isso fiquei curiosa para saber qual era o gosto. Nukumizu-kun também ficou curioso, não ficou?
Não fiquei. E não tente pedir a minha opinião.
— Além disso, você ainda vai continuar comendo, Yanami-san? Já não comeu bastante antes de visitarmos o templo?
— Antes estávamos caminhando enquanto comíamos. Agora estamos sentados. É diferente.
Bom, de fato, um manju não era nada para Yanami. Pouco antes, ela demonstrara com perfeição o verdadeiro significado de "comer enquanto caminhava". Até os turistas estrangeiros pareciam prestes a aplaudi-la.
Olhei distraidamente para fora. A entrada da loja ficava de frente para a rua, por onde inúmeros visitantes iam e vinham.
Procurei Kaju no meio da multidão, mas aos poucos fui desistindo. Meus olhos apenas acompanhavam as pessoas sem propósito algum.
...O que eu estava pensando?
Eu havia ido até ali com base numa informação tão incerta. Mesmo que Kaju estivesse por perto, não havia como encontrá-la daquela maneira.
— É. Kaju não está aqui.
Falei com calma.
— É. A Imouto-chan não está aqui.
Yanami repetiu, como se quisesse confirmar minhas palavras. Foi só então, ao perceber o tom de sua voz, que entendi que Yanami tinha ido até ali por minha causa.
Não era fácil aceitar algo e permitir que aquilo penetrasse lentamente no coração.
Não bastava compreender com a cabeça. O coração também precisava de tempo para digerir tudo com calma.
Aquilo levava tempo.
Então Yanami não estava apenas preocupada comigo. Ela se dera ao trabalho de me acompanhar como minha veterana, certo?
Depois de engolir o manju, Yanami falou com tranquilidade:
— Leva tempo para se acostumar com a sensação de que você deixou de ser a pessoa mais importante no coração de alguém.
O sorriso de Yanami carregava um leve traço de confusão e solidão.
— Isso faz parte da vida...?
— Sim. A pessoa mais importante no coração de alguém pode mudar, mas quem é mais importante para você não muda tão depressa.
Talvez fosse um pouco narcisista da minha parte, mas eu sempre havia acreditado ser a pessoa mais importante para Kaju.
Algum dia, Kaju teria outra pessoa que seria a mais importante para ela.
Eu achava que seria capaz de compreender isso, mas não estava preparado para aceitar que aquele dia pudesse ter chegado agora.
O mesmo devia valer para Yanami. Ela provavelmente sentira algo semelhante quando Hakamada e Himemiya-san começaram a namorar...
Não, espere. Pensando bem, será que Yanami realmente havia sido a pessoa mais importante para ele...?
Talvez não. Mas acho que o resultado acabava sendo o mesmo, certo...? Enquanto eu pensava nisso...
— Ei, você não vai comer isso?
Yanami olhou para o meu manju. Voltando ao seu habitual tom animado, perguntou:
— Acabei de comer aquele senbei. Não estou com fome.
Yanami me encarou como se não pudesse acreditar no que acabava de ouvir.
— O senbei era bem fino. Aquilo nem conta como comida, certo? Alga também tem poucas calorias. Do meu ponto de vista, é praticamente zero.
Será que a Teoria de Yanami estava realmente correta? Eu tinha a impressão de que havia algo errado. Entreguei-lhe o manju em silêncio. Ela sorriu e o aceitou.
— Você é magro demais, Nukumizu-kun. Deveria comer mais. Pensando bem, quanto você pesa?
Peso? Eu não achava que prestava muita atenção nisso.
— Acho que... na última vez em que me pesei, estava com cinquenta e dois quilos.
— Hã?
Yanami deixou escapar um "hã". Ela parou de abrir a embalagem e permaneceu sentada em silêncio. O quê? Eu tinha dito alguma coisa estranha?
— O que foi, Yanami-san? Há algum problema com o meu peso...?
— Não é nada! Mostre a foto que acabou de tirar! Agora!
Hã...? Por que ela ficou irritada de repente?
A foto que eu tinha acabado de tirar... Ela devia estar falando daquela com a placa da farmácia, certo? Peguei o celular e abri a galeria. Nenhuma outra foto havia sido tirada depois daquela, então eu só precisava enviar a imagem mais recente...
— Hã?
Por algum motivo, havia uma foto desconhecida no álbum.
— Hum? O que foi, Nukumizu-kun?
Yanami se aproximou e olhou para o celular. Em seguida, inclinou a cabeça, incrédula.
— Nukumizu-kun, quando você tirou esta foto?
Eu não podia culpá-la pela surpresa. Havia uma foto de nós dois caminhando pela rua com senbei nas mãos. Em outras, aparecíamos comendo hambúrgueres, eu dando o bolinho de peixe para Yanami e até ela alimentando as carpas.
— Eu apareço nas fotos. Não fui eu quem tirou.
— Então por que essas fotos estão no celular do Nukumizu-kun?
Eu sabia quem havia feito aquilo. Ou melhor, só existia uma pessoa capaz de fazer algo assim. Alguém que compartilhava os aplicativos e as pastas do meu celular e sabia que eu iria até aquele lugar.
Enquanto ainda olhávamos para a tela, outra foto foi adicionada ao álbum.
— Hã!?
Levantei-me às pressas. A imagem mostrava um garoto e uma garota sentados num banco dentro de uma loja. Eram Yanami e eu, apenas alguns instantes antes.
*
Já era noite. Afundei os ombros na água da banheira de casa e soltei um suspiro.
— Hoje foi exaustivo...
Enquanto observava as gotas de água caírem do teto, recordei tudo o que havia acontecido naquele dia. Assim que recebemos as fotos tiradas às escondidas, Yanami e eu corremos para fora da loja. No entanto, Kaju não estava em lugar algum.
Ela certamente estiveva ali.
Em outras palavras, a anotação "Ir ao Toyokawa Inari com Tachibana-kun♡" no calendário não tinha sido uma alucinação minha.
— Bem, acho que acabou em empate, certo?
No fim, eu nem sequer sabia se aquilo realmente podia ser considerado um encontro. Como havia terminado empatado, cada um pagaria as próprias despesas.
Parecia justo...
………………
...Hum? Será mesmo?
Eu havia feito o que Yanami dissera, mas não me diga que ela me enganou...?
Enquanto começava a desconfiar, uma sombra escura surgiu de repente no vidro da porta.
— Kaju?
Levantei-me da banheira por puro reflexo.
— Onii-sama, como está a temperatura da água?
A voz familiar e alegre de Kaju ecoou do outro lado. Afundei o corpo novamente na banheira.
— Ah, está perfeita. Hum... aconteceu alguma coisa?
— O xampu acabou, então trouxe um frasco novo. Com licença.
Creeec...
A porta rangeu e se abriu lentamente. Kaju estendeu a mão pequena para dentro e colocou o frasco de xampu no chão do banheiro. Sua mão logo recuou, mas a porta permaneceu entreaberta.
— Obrigado, Kaju. Já estou terminando. Pode voltar agora.
Nenhuma resposta. Kaju permanecia imóvel do outro lado do vidro fosco. O silêncio era insuportável. Eu estava prestes a dizer alguma coisa quando ela perguntou, usando o mesmo tom de sempre:
— Onde o onii-sama foi durante o dia?
Hã? Por que ela estava perguntando aquilo? Não tinha sido Kaju quem tirou as fotos? Não importava como eu analisasse a situação, era impossível que ela não estivesse envolvida, certo...?
Hesitei antes de responder.
— Hum, saí com uma amiga. Por que a pergunta?
— Porque o almoço que deixei na geladeira continuava intocado. Fiquei preocupada, pensando que alguma coisa pudesse ter acontecido com você.
...Eu havia me esquecido completamente daquilo.
Por algum motivo, Yanami continuou empurrando todo tipo de comida para mim durante o caminho de volta. Por isso, eu não sentia fome alguma...
— Eu acabei comendo fora. E você, Kaju? Onde foi?
Perguntei casualmente. Após um breve silêncio, Kaju respondeu no mesmo tom despreocupado:
— Fui estudar com meus amigos.
Dessa vez, fui eu quem ficou em silêncio. O longo cabelo de Kaju balançou do outro lado do vidro fosco.
— O jantar é o prato favorito do onii-sama: inari sushi. Como você parece cansado, deixei-os um pouco mais doces.
Creeec...
A porta rangeu antes de se fechar.
— Aproveite o banho com calma, onii-sama.
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