Todas Essas Heroínas Perdedoras!Volume 5 – Capítulo 2 – Capítulo 2: Acelerando a Toda em Marcha à Ré
Capítulo 51NA SEMANA SEGUINTE, a primeira aula de segunda-feira era Educação Física. E, mais uma vez, teríamos uma corrida de longa distância.
Enquanto corríamos pelos arredores da escola, o ar frio da manhã atravessava minha garganta ressecada como uma lâmina.
Eu já estava exausto, então comecei a diminuir o ritmo.
Dar três voltas era difícil demais. Eu realmente não levava jeito para aquilo. Será que não dava para ficar uma volta para trás e enrolar um pouco...?
Enquanto eu corria lentamente no fim do grupo, uma fragrância de verão passou por mim. Algo completamente deslocado naquela estrada de inverno. Em meio à minha confusão, um corpo bronzeado surgiu ao meu lado.
— Nukkun, você já está cansado?
Era Lemon Yakishio.
Uma esquisitona que ficou empolgadíssima quando soube da corrida de longa distância e apareceu na escola usando o uniforme de Educação Física logo pela manhã. No fim, Amanatsu-sensei lhe deu uma bronca. E, quando ela voltou para a sala para trocar de roupa, suas amigas começaram a zombar dela.
— Olha, esta é só a primeira aula. Você precisa economizar energia. Não vai ficar cansada correndo uma distância tão grande logo de manhã?
— Hã? Correr de manhã é a melhor coisa que existe. Vamos, corre mais rápido!
Yakishio se colocou atrás de mim e começou a empurrar minhas costas com força.
Por favor, pare.
— As meninas deveriam estar correndo no pátio. Por que você veio para o percurso dos garotos?
— Eu já tinha chegado à linha de chegada, mas não foi suficiente. Então convenci o professor a me deixar correr no percurso dos garotos.
Cheia de energia, como sempre.
Ao mesmo tempo que fiquei impressionado, também não consegui esconder minha perplexidade. Yakishio parou de me empurrar e se aproximou.
— Fiquei sabendo pela Yana-chan. Sua irmãzinha está namorando?
...Que língua solta, Yanami.
— Não. Eu só estou desconfiado. Acho que ele não existe quando não está sendo observado. Em outras palavras, isso tem o mesmo significado que dizer que minha irmãzinha não tem namorado...
Não dava. Eu não conseguia conversar enquanto corria… Àquela altura, já estava completamente sem fôlego. Yakishio correu para a minha frente e aproximou o rosto do meu.
— Nukkun, não entendi nada. Então você quer dizer que sua irmãzinha vai ter um namorado se você observar?
— Acho... que a questão... é se dá para perceber... se ela tem namorado... ou não...
Mal consegui responder. Yakishio falou com toda a naturalidade:
— Então por que a gente simplesmente não observa?
Hã? Como assim?
Mesmo com meu cérebro sofrendo pela falta de oxigênio, tentei desesperadamente encontrar uma resposta. Yakishio continuou:
— Como parte da minha recuperação, preciso escrever um relatório sobre uma "Atividade de Contribuição Social".
— Tem... uma coisa dessas... na recuperação?
— Eu não conseguiria passar numa recuperação normal. Por isso, só me resta usar a técnica secreta. Amanatsu-chan disse que era perigoso e que eu não deveria contar para ninguém. Então é segredo, está bem?
Acho que você também não deveria ter contado para mim...
— E isso... tem alguma coisa a ver comigo?
— Tem a ver com a observação. O Clube de Atletismo de Momozono me deixou assistir ao treino deles. Posso usar isso no meu relatório.
Escola Municipal de Ensino Fundamental Momozono. Eu e Yakishio estudamos lá. Kaju ainda estudava lá também.
— Em outras palavras... eu também vou...
— Isso mesmo. Podemos segui-la e conseguir informações sobre o namorado dela. Sua irmãzinha participa de algum clube?
— Conselho... estudantil...
Ah, eu tinha chegado ao meu limite. Não conseguia mais falar enquanto corria. Meus passos começaram a ficar cada vez mais instáveis...
— Ah, eu não sabia que sua irmãzinha fazia parte do conselho estudantil. Bem, vou avisar os professores de Momozono que estaremos lá!
Yakishio deu alguns tapinhas nas minhas costas e acelerou. Sua silhueta rapidamente desapareceu ao longe. Por fim, desisti de correr e comecei a caminhar.
*
Naquela noite, eu mexia uma panela na cozinha de casa. Como meus pais e Kaju chegariam tarde, fiquei responsável pelo jantar.
Desliguei o fogo e coloquei os tabletes de curry na panela. Enquanto observava os tabletes se dissolvendo lentamente, a porta da sala se abriu.
— Onii-sama, cheguei.
Kaju entrou no cômodo com as bochechas avermelhadas por causa do frio.
— Bem-vinda. Você chegou bem tarde.
— Sim. Tivemos bastante trabalho no conselho estudantil. Hoje fizemos a despedida dos formandos.
Kaju correu na minha direção e me abraçou por trás.
— Ei, não faça isso enquanto estou cozinhando.
— Não. A bateria de onii-sama da Kaju está em zero por cento.
Dizendo isso, ela pressionou o rosto contra as minhas costas.
...Ora, ora. Esse lado dela nunca mudava. No entanto, aquela mesma Kaju tão grudenta estava começando a esconder segredos de mim.
Eu sabia que esse dia acabaria chegando...
— Pronto, recarga completa. Agora Kaju está cheia de energia. Onii-sama, teremos curry hoje à noite?
Depois de dizer isso, Kaju se afastou e abriu a geladeira.
— Então Kaju fará a salada. Devo colocar broto de feijão?
Kaju estava tão alegre quanto sempre. Enquanto mexia o curry em fogo baixo, perguntei casualmente:
— Ah, é verdade. Kaju era responsável pelos assuntos gerais do conselho estudantil, não era?
— Eu me tornei vice-presidente no mês passado. O novo mandato começa no Ano-Novo em Momozono, lembra?
...Era mesmo? Algumas lembranças vagas surgiram em minha mente, mas Kaju fez uma expressão descontente.
— Onii-sama, você se formou em Momozono no ano passado. Já se esqueceu da doce vida escolar que passou ao lado da Kaju?
Doce o quê? Tudo de que eu me lembrava era de tentar escapar da mania de Kaju de ficar grudada em mim.
— Não, eu fazia parte do Clube de Ir Direto para Casa. Não tinha nenhuma ligação com o conselho estudantil. Se Kaju é a vice-presidente, quem é o presidente?
— É o Kawai-kun, da minha turma. Onii-sama, por que está perguntando isso?
— Ah, por nada. Só fiquei um pouco curioso.
...Hum, então o presidente não era Tachibana-kun? Mas havia outros membros no conselho estudantil. Tachibana-kun podia ser um deles. Também era possível que ele fosse colega de turma dela...
— Onii-sama, é melhor abaixar o fogo.
Não acredito que me esqueci disso. Diminuí o fogo rapidamente. Kaju lavava o repolho enquanto cantarolava. Olhei discretamente para ela.
— Você vai continuar chegando tarde por causa do trabalho no conselho estudantil?
— Provavelmente durante toda esta semana. Devo chegar em casa mais ou menos neste horário.
— Hum, entendi.
Mexi lentamente o curry no fundo da panela. Amanhã, depois da aula, eu e Yakishio iríamos até a Escola Momozono. Hoje Kaju havia chegado pouco antes das sete da noite. Caso acontecesse o mesmo no dia seguinte, eu teria tempo suficiente para observar como ela se comportava na escola.
— Onii-sama, você está se sentindo sozinho porque Kaju está chegando tarde?
— Hã?
Kaju soltou uma risadinha e esfregou a cabeça em meu braço.
— É complicado quando alguém é mimado demais. Kaju também se sente sozinha quando não consegue ver onii-sama, sabia?
— Está bem, mas não fique se mexendo enquanto estou cozinhando.
...Bem, não era como se eu precisasse negar.
Acrescentei um pouco de missô hatchou para temperar e, em seguida, tampei a panela. Eu precisava tomar cuidado durante a "observação" do dia seguinte. Teria de agir como o irmão mais velho gentil e bondoso de sempre.
*
No dia seguinte, depois das aulas, fui até o pátio da minha antiga escola, a Escola de Ensino Fundamental Momozono. Não havia tempo para nostalgia. A voz enérgica de Yakishio ecoava por todos os lados.
— Como vocês estão, pessoal!?
— Ótimas!
Yakishio ergueu o punho, e o grupo de garotas imediatamente imitou seu gesto.
Era o Clube Feminino de Atletismo da Escola Momozono. Aquelas garotas pareciam tão animadas quanto Yakishio. Também havia algumas alunas usando uniforme escolar. Deviam ser estudantes do terceiro ano que já haviam se aposentado do clube.
Yakishio realmente conhecia muitas pessoas. ...Apesar de aquelas garotas mais novas parecerem um pouco trabalhosas...
— De fato, isso tem relação com o comportamento dela. Uma maneira mais delicada de dizer seria que Yakishio-san é um anjo.
A pessoa que assentia repetidamente, fazendo a testa reluzente balançar, era Chihaya Asagumo.
Ela era uma garota de elite que namorava o rapaz por quem Yakishio era apaixonada. No entanto, àquela altura, também se podia dizer que era a melhor amiga dela. ...Mas o que ela estava fazendo ali? Asagumo-san não havia se formado em Momozono, certo?
— Hã... Asagumo-san. É um pouco difícil perguntar isso, mas por que você está aqui...?
Foi então que percebi dezenas de olhos voltados para mim. As garotas do Clube de Atletismo me encaravam fixamente.
— Hã...? O que foi...?
Recuei, assustado, quando uma série de vozes agudas atingiu meus ouvidos.
— Senpai, quem é esse garoto?
— Ele é seu namorado?
— Que injustiça!
— Ele é tão magrinho!
Uau... Alunas do ensino fundamental eram sempre tão barulhentas assim? Olhei para Yakishio em busca de ajuda. Ela, porém, soltou uma risadinha e, de repente, abraçou meu braço.
— Ei!?
Tentei escapar, mas Yakishio manteve o braço firmemente preso ao meu.
— Hum, o que vocês acham, meninas? Vamos, quero ouvir a opinião sincera de vocês!
Uma explosão de gritos animados irrompeu no grupo.
— Namorado! Namorado!
— Você veio aqui só para se exibir, não foi!?
— Que inveja!
— Que injustiça!
Hã...? O que estava acontecendo ali? Enquanto eu permanecia perplexo, Yakishio piscou para mim e soltou meu braço.
— Que pena! Ele não é meu namorado! A resposta certa é: Nukkun!
O que foi isso? Nem mesmo uma estudante do fundamental acreditaria em uma resposta dessas, certo?
— Olá, Nukkun!
— Nukkun, você tem namorada?
— Conta para a gente!
— Nukkun é tão magrinho!
As garotas acenaram enquanto se aproximavam de mim. Funcionou. Elas realmente eram discípulas de Yakishio. Contive minhas emoções enquanto Yakishio dava um passo à frente.
— Bem, vamos começar a correr! Todo mundo pronto?
— Prontas!
Ora, ora. Finalmente começariam o treino. O plano era escapar discretamente enquanto elas estivessem ocupadas. Eu já estava prestes a me afastar quando Yakishio jogou o paletó do uniforme em cima de mim.
— Hã? Ei, Yakishio!
Não tive escolha a não ser chamá-la. Yakishio começou a desabotoar a camisa no meio do pátio. Ignorando minha tentativa de impedi-la, tirou rapidamente a gravata e removeu a camisa.
Por baixo, ela já estava usando o uniforme do Clube de Atletismo de Tsuwabuki.
— Viu? Eu estava usando por baixo.
Yakishio riu enquanto abria o zíper da saia. Só porque estava usando outra roupa por baixo não significava que aquilo era aceitável. Eu estava prestes a impedi-la quando Asagumo-san tocou meu ombro.
— Isso mesmo, Asagumo-san. Diga alguma coisa para ela...
— Certo, segure isto também, por favor.
Depois de dizer isso, ela me entregou a camisa e a gravata de Yakishio.
— Ah, isto...
— Bem, Lemon-san, vou dobrar seu uniforme e deixá-lo ali.
Asagumo-san pegou a saia de Yakishio e caminhou até um canto do pátio.
— Obrigada, Chiha-chan! Muito bem, pessoal, deem o melhor de vocês!
— Sim!
Permaneci parado, segurando as roupas de Yakishio. Asagumo-san acenou para mim. Quando corri até ela, mostrou-me um sorriso travesso.
— Nukumizu-san, vamos embora depois de dobrarmos as roupas, está bem? Não se preocupe. Todas já se esqueceram completamente de nós.
Ah, entendi. Aquela era nossa oportunidade de escapar. Será que Yakishio havia tirado a roupa na frente de todo mundo justamente para criar essa chance...? Não. Ela provavelmente só era desligada mesmo.
Olhei de lado sem perceber. Asagumo-san sorria enquanto segurava o uniforme de Yakishio.
— Asagumo-san, você parece muito feliz.
— Mitsuki-san estudava nesta escola, não é? Para ser sincera, estou muito animada. Preciso encontrar todos os vestígios deixados por Mitsuki-san.
Asagumo-san acelerou os passos, empolgada, e eu a acompanhei. Bem, ter alguém comigo era menos preocupante do que investigar a escola sozinho.
Ainda assim… Por que ela estava ali?
*
Espreitei o corredor a partir do banheiro masculino do segundo andar. Depois de confirmar que não havia ninguém por perto, soltei um suspiro de alívio e saí.
Hesitei por um instante antes de desabotoar o botão da gola e respirar fundo. De fato, eu não estava usando o uniforme da Tsuwabuki. Em vez disso, vestia o uniforme masculino da Escola Municipal de Ensino Fundamental Momozono.
— As mangas estão um pouco curtas demais, não estão...?
Para esconder uma árvore, o melhor lugar era uma floresta. Eu investigaria secretamente usando meu antigo uniforme escolar. Embora a ideia de Yakishio me deixasse nervoso, não era um plano ruim, já que eu não gostava de chamar atenção.
...A propósito, ela ainda não havia terminado? Voltei-me para a entrada do banheiro feminino.
Pouco depois, uma garota surgiu dali. Ela vestia o uniforme feminino de peça única de Momozono e deu uma volta completa diante de mim.
— O que achou? É um pouco constrangedor.
A pessoa diante de mim era Asagumo-san, vestindo o uniforme feminino de Momozono.
— Sim, ficou bom. Você consegue se passar perfeitamente por uma estudante do fundamental.
— Ora, obrigada. ...Mas isso não foi exatamente um elogio, foi?
Sua testa reluzia enquanto ela exibia um sorriso afetado. Sério? Achei que as garotas gostassem de ouvir que pareciam mais jovens. Diziam isso o tempo todo na internet. Pelo visto, não dava para confiar em tudo que se lia por lá.
— Este é o uniforme de Lemon-san, então a saia ficou um pouco comprida. Olhe, as mangas também estão largas demais.
Asagumo-san estendeu os braços e segurou as pontas das mangas.
— Ah, mas acho que ninguém perceberia normalmente.
...Ainda assim, mangas largas tinham certo charme, não tinham? Também havia uma garota no Clube de Literatura que usava roupas folgadas, mas a sensação era completamente diferente.
Asagumo-san parecia flutuar de tanta empolgação. Ela fechou os punhos diante do peito.
— Muito bem, vamos começar nossa aventura. Onde fica a sala da turma 3-4?
— Hã? Minha irmãzinha está no segundo ano.
— Essa era a antiga sala de Mitsuki-san. Já que surgiu uma oportunidade tão boa, quero conhecer melhor o meu namorado.
Afinal, o que ela ia fazer lá? E, mais importante, por que estava aqui?
— Eu era da turma 2, então não tenho certeza.
Não, espere. Será que eu também era da turma 2 no meu segundo ano...?
— Bem, onde ficam as salas do terceiro ano?
— Acho que ficam no terceiro... Não, devem ser no prédio novo, certo? Estamos no prédio antigo?
— Nukumizu-san, você realmente estudou nesta escola?
Que grosseria. Minhas lembranças do ensino fundamental apenas estavam um pouco vagas. Asagumo-san recuperou o entusiasmo e apontou para o fim do corredor.
— Bem, vamos verificar. As salas do primeiro ano ficam no segundo andar, então as do terceiro ano devem estar no quarto, certo?
Asagumo-san seguiu em direção às escadas com passos leves, quase como se estivesse deslizando.
— Não me importo muito, mas seria um pouco constrangedor encontrar algum conhecido vestida assim.
— Você conhece alguém daqui?
— Não.
Asagumo-san assentiu serenamente e começou a subir as escadas, bastante animada.
Corri atrás dela. Depois de passarmos pelo terceiro andar e nos aproximarmos do quarto, fui tomado por uma estranha mistura de desconforto e nostalgia.
As lembranças começaram lentamente a ganhar forma em minha mente. Todas as manhãs, eu costumava subir aquelas escadas de cabeça baixa.
A sétima faixa antiderrapante, que havia ficado descolada durante um ano inteiro, agora estava perfeitamente consertada. Respirando levemente, cheguei ao quarto andar e contemplei o longo corredor vazio.
Ele era iluminado pela luz fraca do entardecer. Apesar de ainda não ter se passado sequer um ano, tudo parecia muito estranho. Era como se eu observasse aquela paisagem através da tela de um celular.
— A sala de Mitsuki-san é a última do corredor. Vou dar uma olhada.
Com os olhos e a testa reluzindo, Asagumo-san me deixou para trás. Caminhei lentamente pelo corredor até parar diante da placa da turma 3-2.
Aquela havia sido minha sala. No instante em que comecei a mergulhar na melancolia, ouvi alguém subindo as escadas.
Se eu permanecesse parado ali, acabaria sendo visto… Depois de verificar que não havia ninguém dentro, entrei rapidamente na sala. Minha carteira ficava na terceira fileira a partir do fundo, ao lado da janela.
Hesitei por um instante antes de me sentar. A prefeitura visível do lado de fora da janela não havia mudado, mas a carteira que eu costumava usar agora parecia surpreendentemente pequena.
— Ainda nem se passou um ano...
A partir daquele momento, comecei a sentir que não pertencia àquele lugar. Eu sempre ficava olhando pela janela. Meus colegas de turma pareciam tão distantes quanto os desconhecidos no pátio…
*
Escola Municipal de Ensino Fundamental Momozono, turma 3-2, Kazuhiko Nukumizu.
Esse era o nome que me haviam dado. Minha identidade como estudante do ensino fundamental terminaria em março.
Portanto, eu não precisava me preocupar por não ter nenhum amigo. Não havia motivo para preocupação. Era o intervalo entre as aulas. Apoiei o cotovelo sobre a carteira e abri o livro que havia pegado emprestado na biblioteca.
Eu estava completamente mergulhado na série "O Reino de Lápis-Lazúli". Era uma história de aventura sobre Ryoko, uma estudante do ensino médio que reencarnava em um mundo inspirado na China antiga.
A trama havia acelerado de vez no segundo capítulo do sétimo volume. O imperador da nação rival pedira Ryoko em casamento. Sinceramente, eu precisava muito saber o que aconteceria em seguida.
...Ryoko, você já está ficando inquieta só porque aquele imperador misterioso e bonito está tratando você com gentileza? Esqueceu-se do general tsundere e másculo que está esperando por você em casa?
Virei a página, preocupado. Naquele momento, porém, uma voz vinda da carteira ao lado interrompeu minha mão.
— Sério!? Foram cinco voltas!
A dona daquela voz alegre era minha colega de turma, Lemon Yakishio. Ela fez uma pose com seus braços e pernas esguios e bronzeados. A garota girava como se estivesse dançando balé. Antes que eu conseguisse dizer qualquer coisa, Yakishio bateu na minha carteira.
— Ai! Desculpa!
— Ah, não, tudo bem...
Fechei o livro e murmurei.
— Francamente, o que você está fazendo, Lemon?
— Aqui, sente-se.
— Hã? Mas...
Embora Yakishio me olhasse com uma expressão arrependida, para ser sincero, eu só queria que ela me deixasse em paz. Eu queria continuar sendo apenas parte do cenário da sala.
— Desculpa mesmo.
Yakishio juntou as mãos em um gesto de desculpas e voltou para o lugar dela. Muito bem, agora eu poderia retomar a leitura.
Abri o livro novamente, mas percebi que não conseguia mais me concentrar.
Lemon Yakishio. Acho que ela era a capitã do Clube de Atletismo. Durante as reuniões de turma, recebia elogios constantemente.
Atlética, habilidosa em tudo, popular e muito bonita. Era o meu completo oposto.
Alguém de quem eu jamais seria amigo. ...A propósito, a aparência de Yakishio sempre me lembrava alguma coisa. O rosto bronzeado. O uniforme de Momozono, com aquela saia de peça única e linhas peculiares...
— Ela não parece um cogumelo enoki bonitinho?
Acabei murmurando sem perceber e levantei a cabeça. Não havia um cogumelo enoki diante de mim. Era o rosto de Yakishio.
— Cogumelo enoki?
— Hã!? Não, bem...
Yakishio encarou meu rosto, que havia ficado sem expressão.
— O que você está lendo, Nukumizu?
— Hã? Bem, é um livro da biblioteca...
— Ei, Lemon. Vamos.
A voz de outra garota encobriu as palavras que eu mal havia conseguido pronunciar.
— Já estou indo! Desculpa incomodar, Nukumizu!
— Hã? Ah, sim.
...Não acredito que aquela garota sabia o meu nome. Yakishio desapareceu como uma rajada de vento. O silêncio voltou a tomar conta da sala.
Muito bem. Agora eu finalmente poderia me concentrar na leitura.
A batalha que decidiria o destino de Ryoko e a paz de todo o continente estava prestes a começar.
…….
………
...A propósito, não estava silencioso demais?
Levantei a cabeça do livro. Eu era a única pessoa na sala.
— Ah, a próxima aula é de Música.
Tirei uma flauta doce da mochila e corri em direção à sala de música.
*
Olhei ao redor da sala enquanto permanecia mergulhado nas lembranças. No fim, passei todo o tempo até a formatura lendo romances e livros didáticos ou olhando pela janela.
Não era como se eu me arrependesse profundamente disso. Agora eu já era um estudante do ensino médio. Conseguia entender ao menos aquela parte.
Gostasse ou não, aquele havia sido o lugar onde eu existira. Já o lugar onde eu estava agora era um pouco mais agitado.
O meu eu do passado provavelmente teria fugido. Dei um sorriso amargo e olhei pela janela.
As garotas do Clube de Atletismo não estavam mais no pátio. Hã? Será que haviam saído para correr fora da escola?
— Yakishio, por favor, não cause nenhum problema...
— Você me chamou?
— Uá!?
Yakishio surgiu do nada. Puxou a cadeira ao meu lado e se sentou.
Ela parecia estar sentindo bastante frio com aquela roupa de atletismo. Ainda assim, um pouco de vapor subia de seu corpo por causa do suor.
— Ufa, corremos bastante. As calouras estão indo muito bem. Fiquei aliviada.
— Hã? Por que você está aqui? O treino do Clube de Atletismo já acabou?
— Todo mundo está brincando de pega-pega. Disseram que vou ter que pagar um suco para cada uma caso consigam me pegar.
— Dentro... da escola?
Eu tinha a sensação de que elas estavam prestes a causar algum problema. Yakishio abanou a mão diante do rosto e encarou o quadro-negro.
— Deve ser este o ângulo. Ei, acho que eu costumava sentar aqui, não é?
— Não... talvez?
Não consegui evitar uma resposta vaga. Lembrar onde uma garota se sentava parecia meio assustador, considerando que não tínhamos nenhuma relação naquela época.
— Olha, você ainda se lembra, não é? Nukkun sentava ao meu lado.
— Hã? Você já me conhecia naquela época?
— Não é óbvio? Você não falava com ninguém e passava o tempo inteiro lendo. Eu achava que havia alguma coisa errada com você.
...Bem, não tinha como discordar.
— Pensando bem, a única impressão que você tinha de mim era a de um cara que lia sozinho?
— Acho que não era só isso. Bem...
Yakishio cruzou os braços e começou a pensar. Então, de repente, pareceu se lembrar de alguma coisa e bateu as mãos.
— Ah! Nukkun era um perseguidor, não era!?
O quê!? Do que ela estava falando?
— Não, não, não! Isso nunca aconteceu!
— Hã? Não, espere. Nukkun é que estava sendo perseguido. Foi mal.
Que mal-entendido enorme… Hã?
— Alguém me perseguia? É a primeira vez que ouço falar disso.
— Sim. Era uma garota baixinha e bonita, de cabelos compridos. Tem alguma ideia de quem seja?
...Eu tinha pistas demais. Mantive a calma e perguntei:
— Essa pessoa estava sempre por perto?
— Ela aparecia na maioria dos intervalos. Às vezes até durante as aulas.
Sério? Eu nunca havia percebido.
— Nossa, isso é muito amor. Nukkun, ela já chegou a visitar sua casa?
Ela estava lá todos os dias. Nós até morávamos juntos.
— Provavelmente era a minha irmãzinha.
Até a expressão de Yakishio desanimou depois de ouvir aquilo.
— Por que sua irmãzinha estava agindo como uma perseguidora?
Também queria saber. Não fazia ideia.
— Mesmo sendo uma perseguidora, minha irmãzinha é do tipo mais saudável. Então está tudo bem.
— Hã? Existe um tipo saudável?
...Desculpe, não existe. Meu coração doeu diante dos olhos cristalinos de Yakishio.
— Você não conheceu minha irmãzinha durante os preparativos para o Festival de Tsuwabuki? Ela foi até a nossa sala, lembra?
— Ah, é verdade. Então tenho certeza de que aquela garota era a perseguidora do Nukkun.
Ao dizer isso, ela pareceu perceber alguma coisa e me encarou diretamente.
— O quê?
— Então hoje é o Nukkun quem está sendo o perseguidor.
...Eu não tinha como rebater. No entanto, eu estava fazendo aquilo para proteger minha irmãzinha. Podia-se dizer que eu era um perseguidor justo. Um cavaleiro branco.
— A propósito, agora não é hora de ficar sentado. Você ainda está brincando de pega-pega, não está, Yakishio?
Antes que ela pudesse responder, uma garota usando roupa de ginástica apareceu na entrada.
— A senpai está aqui!
— Ei, encontramos ela!
— Acho que eles estavam flertando!
Yakishio saltou da cadeira.
— Droga! Bem, a gente se fala depois, Nukkun!
Ela saiu correndo pela porta dos fundos, que ainda não estava bloqueada. Levantei-me devagar enquanto observava as garotas do Clube de Atletismo correndo atrás dela.
Agora não era hora de ficar mergulhando em nostalgia. Eu precisava começar a investigação. O certo seria me reunir com Asagumo-san. No entanto, aquela garota era péssima em investigações secretas.
Talvez fosse melhor eu ir sozinho...
Como se tivesse lido meus pensamentos, a cabeça de Asagumo-san surgiu pela porta da sala.
— Nukumizu-san, vocês dois estavam flertando, não estavam?
— Asagumo-san, poderia parar de brincar comigo?
— Ora, não estou brincando. Muito bem, já consegui as informações. Vamos.
Asagumo-san acenou para mim, e eu saí para o corredor.
— Hã? Bem... aonde você foi?
— Eu não queria ser interrompida, então fiquei andando pelo campus. Por sorte, encontrei a biblioteca.
— Tem uma professora de plantão na biblioteca durante a tarde, não é? Você não teve problemas?
— Não. Nós já somos amigas. Ela me mostrou os relatórios da escola, das turmas e dos clubes... Já verifiquei todos os alunos desta escola.
Hã? Do que essa garota estava falando? Corri atrás de Asagumo-san enquanto ela descia as escadas.
— Hã? Você quer dizer que já verificou todos os alunos da escola? Em tão pouco tempo?
— Sim. Tenho um truque especial.
Asagumo-san bateu de leve na própria testa e continuou:
— Primeiro, memorizo as páginas necessárias como imagens. Depois, releio tudo lentamente dentro da minha mente. Assim, reduzo ao mínimo o tempo necessário para memorizar as informações.
Entendi. Quer dizer, eu entendia a explicação, mas havia uma coisa que ainda não compreendia. Asagumo-san era mesmo humana? Fiquei um pouco assustado.
Ela sorriu.
— Você está investigando a relação entre sua irmãzinha e Tachibana-san, não é? Existe apenas uma pessoa chamada Tachibana nesta escola, incluindo professores e funcionários.
Ao chegar ao fim das escadas, Asagumo-san se virou de repente. A saia dela balançou suavemente.
— Satoshi Tachibana, da turma 2-4. Um aluno do Clube de Jardinagem.
*
A sala do Clube de Jardinagem parecia ficar atrás do prédio da escola.
Eu achava.
Como aquela era a primeira vez que eu sequer descobria a existência do Clube de Jardinagem, Asagumo-san provavelmente conhecia Momozono melhor do que eu, já que conseguira memorizar o mapa da escola.
...Ela não poderia ser a ex-aluna no meu lugar?
Enquanto caminhávamos lado a lado pelo corredor, Asagumo-san cumprimentava com leves acenos de cabeça os alunos do terceiro ano que passavam por nós.
— Esta biblioteca é realmente grandiosa. É maior que a de Tsuwabuki, não é?
— Durante a reforma, ela foi unida a algumas outras salas. A escola também se tornou algo chamado "escola-modelo". Foi assim que conseguiram deixá-la daquele tamanho.
Eu ainda sabia bastante coisa, viu? Asagumo-san parou e olhou pela janela do corredor.
— Ali fica a horta do Clube de Jardinagem. Veja, ao lado da estufa.
Olhei na direção indicada. Era uma horta com aproximadamente metade do tamanho de uma sala de aula. Ao lado dela, havia também uma estufa.
Um garoto usando o uniforme azul de Educação Física estava no meio da horta, espalhando um pó branco de um saco que segurava nos braços.
— Aquele deve ser Tachibana-kun, não é? A fotografia dele apareceu na apresentação do clube.
Então aquele era Tachibana-kun? Minha garganta se contraiu. Ele parecia ser um pouco mais baixo do que os outros garotos da mesma idade.
Tinha um corpo esguio, típico de um estudante do ensino fundamental. Seus olhos eram alongados, o que lhe dava uma aparência bonita. Além do ar jovial, havia nele uma espécie de charme difícil de descrever.
...Ele provavelmente era popular. Garotos populares nunca prestavam. Pelo menos era esse o meu preconceito. Eu precisava revelar sua verdadeira natureza.
— Bem, vamos, Nukumizu-san.
— Hã? Espere.
Asagumo-san saiu do prédio e se aproximou do Tachibana-kun sem a menor hesitação. Parei por um breve instante antes de segui-la.
— Olá. Com licença.
— Olá. Posso ajudar?
O jovem Tachibana ergueu a cabeça. Asagumo-san juntou as mãos diante do peito e o cumprimentou.
— Somos os irmãos Watanabe, do primeiro ano. Sei que é um pouco repentino, mas gostaríamos de conhecer o Clube de Jardinagem.
O quê!? Até onde ela pretendia levar aquela história absurda de que éramos alunos do primeiro ano? E por que havia me incluído nisso?
Um enorme ponto de interrogação pairou sobre minha cabeça. Asagumo-san lançou um olhar travesso em minha direção.
— Somos gêmeos fraternos. Não é mesmo, Kazu-kun?
— Hã? S-Sim, onee-san.
Espere. Por que precisávamos acrescentar uma configuração tão complicada? Assenti de maneira desajeitada. O jovem Tachibana me encarou com certa desconfiança enquanto colocava o saco no chão.
— Bem, visitantes são sempre bem-vindos. Sou Tachibana, do segundo ano. Vocês dois se interessam por jardinagem?
— Sim, sempre tive muita curiosidade. Senpai, o que está fazendo agora?
Asagumo-san olhou para os pés do jovem Tachibana.
— Estou preparando a terra para plantar repolhos. Temos algumas mudas sendo cultivadas na estufa. Vocês gostariam de vê-las?
— Sim, adoraríamos.
O jovem Tachibana seguiu em direção à estufa com passos leves. Antes que Asagumo-san pudesse acompanhá-lo, segurei seu braço.
— Espere, Asagumo-san. Por que inventou essa história de gêmeos?
— Existem seis alunos chamados Watanabe no primeiro ano. Será mais difícil verificarem nossa identidade.
— Mesmo assim, gêmeos não seriam ainda mais suspeitos?
— Então prefere que eu seja sua noiva? Isso parece uma comédia romântica. É tão emocionante, Kazu-kun.
...Asagumo-san estava se divertindo com aquilo?
A estufa tinha aproximadamente o tamanho de 13 metros e era muito bem-organizada.
— Estou cultivando as mudas a partir das sementes. Agora estamos na etapa final do desbaste.
Com uma expressão satisfeita, o jovem Tachibana apontou para a grande bancada no centro da estufa. Vários pequenos vasos estavam organizados em bandejas, formando aproximadamente um conjunto inteiro.
Eram recipientes de plástico usados para cultivar mudas antes de transplantá-las para a terra. Dentro deles, havia brotos com algumas folhas. Em certos vasos, várias mudas cresciam juntas. Asagumo-san as observou com os olhos brilhando.
— Desbaste significa arrancar algumas das mudas?
— Isso. Deixamos apenas a maior e retiramos as demais. Vocês dois também podem tentar.
— Sim, adoraria.
Asagumo-san começou a trabalhar, empolgada.
— Asa... Onee-san se interessa bastante por esse tipo de coisa.
— É porque a prática proporciona conhecimentos que não podem ser obtidos apenas com livros. Por exemplo, até mesmo para escolher a maior muda, é preciso considerar vários fatores, como altura, espessura do caule e largura das folhas, certo? Kazu-kun, não fique apenas pensando. Use as mãos também.
Até o jeito de falar de Asagumo-onee-san havia mudado. Permaneci parado, atordoado. O jovem Tachibana falou comigo em um tom gentil.
— Você é o irmão mais novo, não é? Gostaria de ajudar?
...Ei, um estudante do ensino fundamental estava preocupado com um estudante do ensino médio.
— Ah, sim. O que devo fazer?
— Pode retirar as mudas extras desta fileira? Faça com calma.
Hum, então eu precisava deixar apenas a maior muda de cada vaso. Era aquela do lado...? Não, devia ser esta. Mas a folha daquela outra parecia melhor...
— Não precisa hesitar tanto. Apenas siga sua intuição.
— Mas ela não vai murchar se eu escolher a errada?
O jovem Tachibana sorriu gentilmente.
— A escolha estará certa desde que tenha sido você quem a fez. Isto é apenas uma atividade de clube. Não importa como as cultivemos, tudo fará parte da experiência. Não precisa se preocupar.
...Por que eu tinha a sensação de que aquele garoto era mais maduro do que eu? Pelo menos sua idade mental parecia ser maior que a de Yanami.
Nós três continuamos trabalhando por cerca de dez minutos. Asagumo-san enxugou o suor da testa com um sorriso encantador.
— Ufa... Senpai, terminei.
— Eu também terminei. Quanto ao irmão mais novo... Ah, acho que está bom.
Era exatamente o que as pessoas diziam quando não estava bom. O jovem Tachibana colocou a bandeja de mudas em uma prateleira e bateu as mãos para tirar a terra.
— Vamos transplantar as mudas na próxima semana. Venham nos visitar novamente. De qual turma vocês são?
— Hã?
...Droga.
Não havíamos desenvolvido nossa história até esse ponto. Sem saber o que responder, permaneci em silêncio. Asagumo-san puxou meu braço.
— Kazu-kun, precisamos encontrar o professor. Desculpe, senpai, mas já vamos embora.
— Ah, entendo. Sempre há alguém aqui depois das aulas. Podem voltar quando quiserem.
O jovem Tachibana exibiu um sorriso despreocupado.
— Sim, voltaremos. Agradeça também, Kazu-kun.
— Ah, sim. Obrigado por cuidar de nós.
Nós nos curvamos profundamente e deixamos a horta do Clube de Jardinagem. Tive a sensação de que alguém nos observava até entrarmos no prédio. Assim que chegamos ao corredor, recuperei o fôlego e soltei meu braço das mãos de Asagumo-san.
— Aquilo foi muito suspeito, não foi? Fomos embora de repente assim que ele perguntou de qual turma éramos.
— Sim, mas não havia como evitar. Na verdade, Lemon-san acabou de me mandar uma mensagem.
Yakishio havia mandado uma mensagem? Quando ela...? Asagumo-san sorriu e estendeu o braço em minha direção.
— Tcharam. A onee-chan tem um relógio inteligente.
Um smartwatch. Acho que era um dispositivo conectado ao celular e que permitia fazer várias coisas. Na tela, estava exibida uma mensagem secreta de Yakishio.
...O que aquilo significava? Diante da minha expressão confusa, Asagumo-san balançou o dedo.
— Kazu-kun, embora Lemon-san pareça estar apenas correndo sem rumo, na verdade ela está explorando o campus enquanto procura pelo alvo.
Categoria S...
O "S" seria de sister, "irmã" em inglês?
— Ah, precisamos sair daqui se Kaju estiver vindo.
Virei-me e tentei correr, mas quase esbarrei em alguém.
— Uau, desculpe! Estou com pressa.
— Não, eu também. Você está bem?
A pessoa que se desculpou era uma garota alta, carregando uma enxada sobre o ombro.
Eu tinha a impressão de já ter visto aquela garota antes...
— Gon-chan, onde você...
— Eek!
Acho que nem precisava dizer a quem aquela voz pertencia. Segurei a mão de Asagumo-san e saí dali às pressas. Viramos no corredor e nos escondemos em um ponto escuro para observar os movimentos dela. Pouco depois, uma garota baixinha correu na direção do lugar onde estávamos havia instantes.
Cabelos negros e brilhantes, rosto pequeno, membros esguios e uma corrida lenta. Nem precisava dizer. Era Kaju.
— Nuku-chan? O que houve?
— Ouvi do professor que Gon-chan tinha ido ao Clube de Jardinagem, então...
Conseguíamos ouvir a conversa delas, ainda que de forma abafada. Inclinei o corpo para a frente o máximo que pude e prestei atenção.
— A enxada nova chegou. Quero entregá-la ao Satoshi.
— Entendi. Kaju também tem algo para tratar com Tachibana-kun. Posso ir com você?
— Claro, mas por quê, Nuku-chan?
— Quero conversar sobre os preparativos para o dia 14. É um pouco inconveniente falar sobre isso na sala. Então posso ir?
Eu sabia. Eles planejavam se encontrar no Dia dos Namorados. Além disso, era algo que não podiam discutir na sala de aula...?
Gon-chan, diga não. Diga não agora mesmo.
— Hum... Então, que tal você entregar a enxada para ele também?
— Hã? Tem certeza de que não quer ver Tachibana-kun?
— Não tem problema. Bem, vou deixar isso com você.
— Certo, entendi. Deixe com a Kaju.
Minhas preces foram em vão. Kaju e o jovem Tachibana ficariam sozinhos. Gon-chan seguiu na direção de onde Kaju havia vindo.
Depois de esperar um pouco, observei o corredor. Kaju já havia desaparecido. Eu deveria ir atrás dela? Mas não havia nenhum lugar onde pudesse me esconder no Clube de Jardinagem.
Também não conseguiria me aproximar o suficiente para ouvir a conversa… Enquanto eu pensava, Asagumo-san balançou a cabeça de repente.
— Kazu-kun, aquela garota alta era amiga da sua irmãzinha?
— Hã? Acho que sim. Ela já foi à minha casa algumas vezes... Ainda vamos continuar com essa história de gêmeos?
— Eu gostei bastante dessa configuração. Muito bem, preciso ajustar o dispositivo.
...Ajustar o dispositivo? Com os olhos brilhando, Asagumo-san começou a tocar na tela do smartwatch.
— Espere. Não me diga que você fez alguma coisa no Clube de Jardinagem. Não tinha prometido que não usaria mais GPS?
— Sim, já aprendi a lição. Perseguir alguém por GPS é um ato que viola a dignidade da pessoa. É imperdoável.
Isso mesmo. Ainda bem que ela havia entendido.
— Então o que está fazendo?
— Nukumizu-san, você culparia alguém caso essa pessoa tivesse ouvido nossa conversa agora há pouco?
...Hã? Não consegui evitar olhar ao redor. Não havia ninguém no corredor vazio. Apenas os gritos distantes dos clubes esportivos podiam ser ouvidos.
— Não tem problema. Afinal, estamos no corredor. É inevitável que alguém acabe ouvindo.
Asagumo-san assentiu vigorosamente.
— Exatamente. A parte externa de um prédio pode ser vista livremente por qualquer pessoa, certo? Então, ouvir por acaso uma conversa em público também não deveria ser motivo para levar uma bronca, não é?
Entendi...? Acho que havia compreendido a lógica geral.
— Em outras palavras, em vez de um GPS, você instalou um aparelho de escuta?
Asagumo-san balançou lentamente a cabeça.
— Os seres humanos são criaturas guiadas pelas palavras. Não é um aparelho de escuta, mas um Smartbug. Foi assim que eu o batizei.
O que era aquilo? O nome parecia incrivelmente legal.
— Então, em resumo, escutar a conversa deles é moralmente aceitável. ...É isso que está dizendo, certo?
— Sim, exatamente.
— Bem, nesse caso não há o que fazer. Mas não conte para mais ninguém, está bem?
— Eu sei. Este será um segredo só nosso.
Depois que o aparelho foi ajustado, nós dois aproximamos os ouvidos do smartwatch.
"Tem-certeza-de-que-isso-vai..."
Havia bastante interferência, mas aquela parecia ser a voz do jovem Tachibana. Ainda com os ouvidos próximos do relógio, eu e Asagumo-san nos deslocamos de maneira suspeita até a janela.
A interferência desapareceu.
"Bem, então vamos seguir o plano?"
Aquela era definitivamente a voz de Kaju. Eu jamais a confundiria. Prendi a respiração sem perceber.
"Sim, vou deixar por sua conta. Desculpe por fazer você vir até o Clube de Jardinagem."
"Kaju não se importa. É um pouco constrangedor falar sobre isso na frente de outras pessoas."
Um pouco constrangedor falar sobre aquilo na frente dos outros...? Não, espere. Só porque algo era constrangedor não significava que estivesse relacionado a romance.
Eu também já havia sido um estudante do ensino fundamental. Uma vez, cheguei a chamar uma professora de "mãe".
Meu cérebro confuso entrou completamente em pane com a conversa seguinte.
"Hum, sobre isso, o seu irmão…"
"Fufu... Não se esqueça de manter em segredo do onii-sama o que vai acontecer no dia 14, está bem?"
O quê!? Ela queria esconder de mim alguma coisa constrangedora!?
— Onii-chan jamais vai permitir uma coisa dessas!
Gritei a plenos pulmões. Asagumo-san se assustou.
— Nukumizu-san, eles não conseguem ouvir você daqui, certo?
— Ah, é verdade? Então vou até lá e...
— Se fizer isso, eles verão você. Tem certeza?
Aquilo era ruim. Eu precisava me acalmar e pensar direito. Coloquei a mão sobre o peito e respirei fundo. Kaju estava ali para conversar com o jovem Tachibana sobre o Dia dos Namorados.
Era apenas algo difícil de discutir na frente de outras pessoas. Algo constrangedor. Por isso, ela estava escondendo de mim...
— Não, definitivamente tem alguma coisa errada. Você não acha, Asagumo-san?
— Desde o começo, a única pessoa agindo de forma estranha é você, Nukumizu-san.
Talvez fosse verdade, mas meus joelhos ainda tremiam. Pela conversa, os dois pareciam bastante próximos. Mesmo sem saber se estavam namorando, não existia garoto neste mundo que não acabaria se apaixonando por Kaju.
— Em outras palavras, ele vai se tornar meu irmão mais novo… Onii-chan está prestes a virar cunhado...?
— Muito bem, vamos fazer uma pausa.
Asagumo-san colocou as mãos em minhas bochechas pálidas.
— Hã? Pausa em quê...?
— Certo, respire fundo.
— Ah, sim.
Respirei profundamente.
— Agora solte o ar! Solte!
Respirei fundo mais duas vezes. Somente na terceira consegui me acalmar um pouco.
— Está melhor? Sua irmãzinha só está flertando um pouco. Onee-chan e você também fazem isso, não fazem?
— Não. Nunca.
Você não é minha irmã mais velha.
— Bem, podemos fazer isso depois, está bem? Agora vamos, Kazu-kun. Precisamos nos encontrar com Lemon-san e voltar. Aqui, vista o uniforme direito.
Asagumo-san estendeu a mão até meu pescoço e fechou o botão superior da camisa.
Hã...? Ela realmente era minha irmã mais velha? Era, não era...? Eu era Kazu-kun… Kazu-kun era eu...
Enquanto eu encarava distraidamente a testa diante de mim, uma estudante baixinha passou pelo corredor.
A garota parou. Seus olhos se arregalaram, incrédulos.
— Hã? Hããããã!?
Ela segurou minha mão e começou a saltitar.
— Kya! Onii-sama!? O que aconteceu com você!? Voltou a ser estudante do fundamental!?
Onii-sama… Ah, é verdade… Eu tinha uma irmãzinha… Essa garota era... minha irmãzinha...?
— Você é a Kaju...?
Finalmente recuperei a consciência, mas Kaju já havia se agarrado com força a mim.
— Uau, uau! Onii-sama também fica tão bonito com o nosso uniforme! Desculpe, podemos tirar uma foto...?
Com os olhos brilhando, Kaju pegou o celular.
— Hã? Você é Asagumo-san, não é? Kaju já viu você em casa. Por que está usando o uniforme da nossa escola?
Asagumo-san sorriu e respondeu:
— Quanto tempo. Hoje eu sou a irmã mais velha de Kazu-kun.
...Espere. Não complique ainda mais as coisas.
Ao ouvir as palavras "irmã mais velha", os olhos de Kaju começaram a brilhar de maneira sinistra.
— Irmã mais velha de onii-sama...? Isso é injusto! Kaju também quer ser a irmã mais velha!
Viu? Eu avisei. Completamente empolgada, Kaju começou a sacudir minha mão.
— Não, por favor, acalme-se.
— De jeito nenhum! Se eu for a irmã mais velha, preciso dar comida na boca de Kazu-kun, trocar a roupa dele, lavar suas costas e dormir junto com ele... Ah, francamente, um único dia não é suficiente!
Uma irmã mais velha normal não costumava fazer nada disso. Bem, o que ela queria fazer também não era muito diferente do comportamento habitual de Kaju.
— Certo, já entendi. Vamos fazer uma pausa. Aqui, Kaju. Olhe para os meus dedos.
Ergui os indicadores das duas mãos.
— Estes dois dedos estão perseguindo um ao outro. Este está se aproximando... E tocou no outro.
— Está indo atrás do outro... Ah, eles se tocaram...
Kaju acompanhou os dedos com os olhos. Será que finalmente havia voltado ao normal? Ela recuperou a expressão séria e limpou a garganta.
— Já se acalmou?
— Sim. Agora, onii-sama, poderia explicar o que está acontecendo aqui?
— Hã? Bem...
Certo. Era isso que acontecia quando as coisas se acalmavam. Claro. Olhei para o lado em busca de ajuda. Asagumo-san assentiu e deu um passo à frente. Muito bem, onee-chan. Estou depositando grandes expectativas em você.
— Kaju-san. O motivo de Kazuhiko-san e eu estarmos vestidos dessa maneira é que...
— É que...?
— Estamos encenando uma brincadeira.
— Miau!?
Minhas expectativas foram traídas.
— Um garoto e uma garota do ensino médio invadindo a antiga escola com os velhos uniformes para brincar de irmãos... Eles devem estar se divertindo com algum tipo de encenação imoral. Definitivamente não se trata de uma investigação secreta. Eu jamais conseguiria inventar algo tão absurdo!
Asagumo-san disse tudo aquilo antes de me lançar um olhar satisfeito.
Hã...? Ela realmente achava que aquela era a resposta correta? Se acreditava que aquilo nos tiraria dali em segurança, eu sentia muito. Kaju abriu a boca, tossiu de leve e se esforçou para falar com calma.
— B-Bem, por favor, venham comigo. Vou entregar vocês dois ao professor responsável pela orientação disciplinar.
Asagumo-san inclinou a cabeça, curiosa.
— Ora, mas não viemos investigar nada, sabia? É apenas uma brincadeira.
...Já chega. Kaju estava me olhando de uma maneira que eu jamais havia visto antes. Eu já estava me preparando mentalmente para a reunião familiar daquela noite quando, de repente, o corpo de Kaju foi erguido do chão.
— Kya!?
— Peguei a vice-presidente! Os nikumans são meus!
Kaju estava sendo carregada no colo como uma princesa. Quem soltou o grito triunfante foi Yakishio. As garotas do Clube de Atletismo surgiram logo depois, aparecendo na curva do corredor.
— Ela passou na nossa frente de novo!
— Lemon-senpai tem energia demais!
— Esperem, ainda não acabou!
Yakishio lançou um sorriso arrogante para as calouras.
— Fufu... Os nikumans serão de vocês se conseguirem tirar a vice-presidente dos meus braços. Venham me pegar!
— Hã? Espere, Yakishio! O que você está fazendo?
— Deixe comigo!
Yakishio piscou para mim e começou a correr com Kaju nos braços. As garotas foram atrás dela imediatamente.
— Esperem, os nikumans!
— Meninas, deem a volta por aquele lado!
— Vou atacar pelo segundo andar!
...O que essas pessoas estavam fazendo?
Depois que Yakishio e suas discípulas desapareceram, apenas nós dois permanecemos ali, de queixo caído. Ficamos imóveis por algum tempo até Asagumo-san tocar meu ombro.
Bem, Kaju havia sido levada, mas Yakishio dissera para deixar tudo com ela.
...Então era melhor confiar.
Assenti solenemente e comecei a desabotoar a camisa.
*
Não tenho nenhuma lembrança da primeira infância.
Parece que isso acontece porque, mesmo que eu tenha me lembrado de algo naquela época, logo me esqueci. Ou talvez essas lembranças ainda existam, mas eu simplesmente não consiga acessá-las.
Eu tinha apenas um ano e meio quando Kaju nasceu. Em condições normais, não deveria me lembrar de nada. Portanto, esta é uma memória construída a partir das histórias contadas por meus pais e das coisas que recordo depois de ter crescido.
Eu era o centro da família e, de repente, fui substituído. Fiz um escândalo enorme.
Pensando agora, era natural. Deve ter sido difícil para meus pais cuidarem de mim, que mal sabia andar, enquanto Kaju chegava ao mundo.
O nome da minha irmãzinha era difícil de pronunciar.
Eu não conseguia dizê-lo direito. Acho que me sentia solitário e irritado com aquela nova personagem que havia surgido no mundo.
Então, no meu aniversário de dois anos, finalmente voltei ao centro do palco. No entanto, fiquei furioso quando mamãe precisou ir até Kaju depois que ela começou a chorar. Joguei fora a coroa de papel, me encolhi em um canto do quarto e acabei adormecendo.
Acho que não havia se passado muito tempo quando acordei.
— Bom dia, onii-chan.
Mamãe ignorou minha expressão emburrada e me pegou no colo. Depois, levou-me até o berço da Kaju. Dos braços da mamãe, observei Kaju lá embaixo. Apesar de ser muito menor do que eu, ela parecia um ser humano. Aquilo era inacreditável para mim.
— Kaju também acordou. Vamos, dê bom dia ao onii-chan.
Kaju despertou e estendeu sua mãozinha. Toquei-a cuidadosamente com os dedos. Kaju agarrou minha mão com força. Era pequena e quente, mas seu aperto parecia mais forte do que eu imaginava.
Fiquei paralisado. Então, de repente, Kaju sorriu. Foi naquele momento que percebi. Eu era o irmão mais velho. Minha primeira lembrança de ter me tornado um irmão mais velho começou quando eu tinha três anos.
Quanto a Kaju, mesmo depois de entrar no ensino fundamental, continuou me seguindo como sempre. Por isso, permaneci preso àquela lembrança e continuei adiando, por conta própria, o dia em que Kaju partiria.
Esse dia acabaria chegando. Mas não hoje. Era o que eu pensava.
*
Quando percebi, já era noite. As ruas estavam escuras. Mantive os olhos fixos nas placas de pedra da calçada e me concentrei apenas em continuar andando. A calçada terminou, e uma faixa de pedestres iluminada pelos postes surgiu diante de mim.
Quando estava prestes a atravessar, alguém segurou meu braço.
— Cuidado com o carro, Nukumizu-san!
Asagumo-san me deteve. Vestindo o uniforme de Tsuwabuki, ela me olhou confusa.
— Ei, aonde você está indo?
— Hã? Quero ir para casa.
Depois de responder, olhei ao redor. Aquele definitivamente não era o caminho para minha casa. Ao que parecia, eu havia caminhado sem perceber até a Estação de Toyohashi.
— Desculpe. Você me seguiu até aqui? A partir daqui vou ficar bem, então...
Asagumo-san balançou a cabeça com firmeza.
— Não posso deixar Nukumizu-san sozinho agora. Vamos descansar em algum lugar.
A maneira como ela disse aquilo poderia causar alguns mal-entendidos. Ela me levou até um lugar chamado Matterhorn, uma confeitaria ocidental de estilo retrô em Toyohashi.
Era a primeira vez que eu entrava na parte do estabelecimento que funcionava como cafeteria. Sentei-me e observei o interior decorado com móveis antigos. Asagumo-san mostrou o celular para mim.
— Yakishio-san também já se despediu das calouras. Ela está vindo para cá.
A garçonete colocou uma xícara de café diante de mim. Assenti em silêncio.
— Vai pedir apenas isso?
— Não estou com fome.
Diante de Asagumo-san havia uma fatia de bolo e um suco misto. Seu sorriso desapareceu rapidamente.
— Você precisa repor o açúcar. Um cérebro exausto necessita de nutrientes adequados.
— Eu sei. Desculpe por fazer você se preocupar comigo hoje.
Acrescentei açúcar ao café e comecei a mexê-lo. Asagumo-san estendeu um garfo com um pedaço de bolo na ponta.
— Aqui, aaaah...
— Hã? Espere. Tem gente olhando.
— Eu não disse que poderíamos flertar mais tarde? Onee-chan nunca quebra uma promessa.
Aquela brincadeira ainda estava acontecendo? Ela não parecia disposta a desistir. Tudo bem, eu comeria.
Uma doçura nostálgica se espalhou pela minha boca. Asagumo-san havia pedido um Matterhorn, bolo que levava o nome da loja. O pão de ló fino era recheado com creme e castanhas. Fazia muito tempo desde a última vez que eu o experimentara.
Como imaginado, era muito bom. Eu sempre fora fã de chocolate, mas talvez naquele momento fosse melhor voltar ao clássico...
Quando estendi a mão para pegar o café, vi Asagumo-san sorrindo.
— Está se sentindo melhor?
— Obrigado. Estou bem melhor agora.
Não podia continuar deprimido enquanto ela demonstrava tanta preocupação comigo. Forcei um sorriso e percebi uma bolsa esportiva ao lado da cadeira de Asagumo-san.
— O que vocês dois estão fazendo?
Yakishio nos observava. Ela nos encarava de cima com seus grandes olhos castanhos.
Droga, ela nos viu fazendo algo estranho.
— Hoje sou a irmã mais velha de Kazu-kun.
— O quê? Parece divertido! Ah, desculpa!
Hã? Era só isso que ela precisava ouvir para entender?
Depois de fazer seu pedido, Yakishio se sentou ao lado de Asagumo-san.
— Então? Ouvi dizer que você estava bem deprimido, mas agora parece normal. Ainda tem energia suficiente para ficar flertando.
Ela apoiou o cotovelo na mesa e falou em tom provocador. As coisas ficariam complicadas caso Ayano descobrisse. Eu precisava mudar de assunto.
— A propósito, Yakishio, você levou Kaju... minha irmãzinha. O que aconteceu com ela?
— Imouto-san? Acho que ficou um pouco confusa.
É claro que ficou. Mas não era isso que eu queria saber.
— Bem... você soltou minha irmãzinha, certo?
— Eu a levei até a sala do conselho estudantil. Ganhei a competição!
Eu não conhecia as regras, mas ela havia vencido?
...Bem, pelo menos Kaju estava bem.
Tomei um gole de café. O chá-preto e o bolo de chocolate de Yakishio chegaram.
A sobremesa dela era uma mistura de bolo de chocolate com pão de ló, coberta por uma camada de chocolate. Sempre fora bastante popular.
Enquanto espetava o bolo com o garfo, Yakishio murmurou em um tom estranhamente calmo:
— Imouto-san... Como posso dizer? Ela está bem?
— Você conversou com minha irmãzinha?
— Não muito, porque eu estava ocupada correndo. Mas ela se dá bem com todo mundo ao redor e tem muitos amigos. Como posso explicar...?
Yakishio comeu um pedaço do bolo.
— Ela é uma garota confiável. Tem determinação e opiniões próprias. Sei que você está preocupado, mas deveria confiar mais nela.
Yakishio pegou um pouco do bolo com o garfo e o estendeu até minha boca.
— Aqui, Kazu-kun. Abra a boca.
— Ei, o que você está fazendo, Yakishio?
Desviei o rosto, assustado. Yakishio se aproximou ainda mais.
— Você consegue comer o bolo da Chiha-chan, mas não o da Lemon-onee-chan?
— Ei? Ei!?
Yakishio podia ser bastante insistente às vezes. Até Asagumo-san entrou na brincadeira.
Não havia o que fazer. Comi o bolo. Um sorriso satisfeito surgiu no rosto de Yakishio.
— Pronto, problema resolvido. Agora vamos aproveitar nossos bolos.
O que exatamente havia sido resolvido?
Ainda assim, como irmão mais velho, eu precisava confiar mais em Kaju. ...Além disso, só porque duas pessoas eram próximas não significava que estivessem namorando.
Eu mesmo era o melhor exemplo disso. Assenti sozinho. Por algum motivo, Asagumo-san olhou nervosamente pela janela.
— Está ficando tarde. Nukumizu-san, sua irmãzinha já deve ter chegado em casa, certo?
— Ela tem trabalho no conselho estudantil. Provavelmente ainda está na escola. Acho que chegará tarde durante toda esta semana.
— Então esta é a oportunidade perfeita.
...?
O que ela queria dizer com aquilo? Confuso, observei Asagumo-san mostrar o smartwatch em seu pulso.
— Chiha-chan, o que é isso?
— É um smartwatch. Com ele, consigo monitorar os dispositivos que espalhei por toda a Escola Momozono...
— Pare, Asagumo-san!
Interrompi-a às pressas. Asagumo-san assentiu com seriedade.
— São Smartbugs. Não são dispositivos comuns.
Eu não havia acabado de mandar que parasse? Yakishio observou o pulso de Asagumo-san com os olhos brilhando.
— O que é isso? Que legal! Parece uma ferramenta secreta de detetive, não é?
— Exatamente. Graças aos meus poderes de detetive, consigo ouvir vozes distantes por meio dele. Mais precisamente, os sons diante da sala do conselho estudantil.
Poderes de detetive eram assustadores. Hã, espere...
— Ainda conseguimos receber o sinal mesmo depois de sair de Momozono?
Fiz uma pergunta perfeitamente razoável. Asagumo-san respondeu com naturalidade:
— Deixei a unidade principal de um Wi-Fi móvel na escola. Os sinais das unidades secundárias são transmitidos a partir dela.
— Então foi por isso que você contratou um serviço de Wi-Fi? Só para isso? Sério?
Asagumo-san sorriu e começou a ajustar silenciosamente o smartwatch.
...Tanto faz. Faça o que quiser. Observei os poderes de detetive de Asagumo-san e admiti minha derrota.
— Ei, ei, Chiha-chan! O que é esse negócio? Ele acende?
— Posso adicionar algumas luzes de LED da próxima vez. Certo, está conectado.
Nós três aproximamos os ouvidos do smartwatch.
...Só era possível ouvir ruídos muito fracos.
— Não estou ouvindo nada. Será que não tem ninguém lá?
— Ah! Acho que captou alguma coisa agora!
Realmente ouvimos algo. Todos prendemos a respiração, mas nenhuma voz voltou a surgir. Então, Asagumo-san pareceu perceber alguma coisa e ergueu a cabeça de repente.
— Isso não está vindo pelo Wi-Fi. Na verdade, é o sinal direto do aparelho de escuta.
— Smartbug.
— Sim, Smartbug.
Ainda bem que havia entendido. Além disso, se o aparelho de escuta estava por perto, então...
— Será que alguém está usando o mesmo dispositivo por coincidência?
— Não. Este está conectado ao aplicativo. Não tem como.
Asagumo-san balançou o braço enquanto me observava. Então parou.
— Por que está me encarando?
— Nukumizu-san, o que tem dentro da sua bolsa?
— Hum? O uniforme de Momozono que usei agora há pouco.
Quando abri o zíper da bolsa, a testa de Asagumo-san reluziu. O sinal estava ficando mais forte.
Definitivamente havia alguma coisa ali dentro.
Hã? Não podia ser, certo? Tirei a camisa e comecei a examiná-la. No fim, algo caiu de trás da gola.
Peguei o objeto. Era um pequeno chip preto, do tamanho da ponta de um dedo mindinho.
Espere. Havia um número gravado nele.
— Número 1?
— Este é o Smartbug que instalei na porta da sala do conselho estudantil. ...Espere, então esse sinal significa...
Asagumo-san enfiou a mão na própria bolsa. Depois de algum tempo, retirou um chip exatamente igual.
— Número 2... Este é o que instalei no uniforme da Imouto-san.
Essa garota realmente havia feito uma coisa dessas? Acho que aquele já era o momento certo para chamar Asagumo-san de "essa garota", não era?
Nós dois ficamos em silêncio. Yakishio segurava o garfo e nos observava, confusa.
— Bem... afinal, o que aconteceu?
Asagumo-san colocou o indicador no queixo e inclinou a cabeça de maneira constrangida.
— Parece que o Watson-onii-san foi enganado pela adorável Moriarty.
— Sim, e a Watson-onee-chan também foi...
— Hum, não entendi muito bem, mas obrigada pela comida.
Yakishio juntou as mãos diante dos dois Watson-kun.
(N/SLAG: Watson é o parceiro de Sherlock Holmes, enquanto Moriarty é seu grande rival e um criminoso extremamente inteligente.)
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