Todas Essas Heroínas Perdedoras! — Capítulo 53: Volume 5 – Capítulo 3 – Capítulo 3: Tentei Atirar no General, Mas o Cavalo É Forte Demais

Todas Essas Heroínas Perdedoras!
Cap. 53
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Todas Essas Heroínas Perdedoras!

Volume 5 – Capítulo 3 – Capítulo 3: Tentei Atirar no General, Mas o Cavalo É Forte Demais

Capítulo 53

10.624 palavras~46 min de leitura

NO DIA SEGUINTE, depois da aula, eu estava na biblioteca do centro da cidade, não muito longe da estação. A biblioteca ocupava o segundo e o terceiro andares do prédio. Havia até espaços para atividades e cafeterias nos patamares das escadas.

No começo, lugares modernos como aquele eram meus inimigos. No entanto, ainda era uma biblioteca. A atmosfera misturava energia e tranquilidade. Era um ambiente confortável.

Eu estava sentado em uma mesa para duas pessoas. Abri o livro enquanto me lembrava do que havia acontecido ontem.

A investigação secreta na Escola de Ensino Fundamental Momozono.

No fim, descobri uma coisa: Tachibana-kun era uma pessoa de verdade. Só esse fato já havia me levado ao meu limite, e, para piorar, ainda ouvi Kaju flertando com ele.

Infelizmente, eu não era um siscon. Por isso, o dano não era fatal, mas eu ainda estava me recuperando.

...Bem, Kaju ainda era uma aluna do segundo ano do ginásio. Era normal ela ter um amigo homem, não era?

Isso mesmo. Mesmo que eu nem sequer tivesse um amigo naquela época, não havia nada de estranho em Kaju ter um amigo do sexo oposto. Eles eram apenas amigos. Comparado a isso, a visita ao dia de portas abertas no fim de semana era muito mais importante.

Tentei fugir da realidade enquanto virava para a página de informações do romance. O rascunho da revista do clube continuava sem progresso, outro fato impossível de negar.

Anotei algumas ideias no meu caderno. Então, a tela do meu celular brilhou sobre a mesa. Olhei para ela. Era uma mensagem da Komari no Line.

"Onde você está matando as atividades do clube?"

...Ora, ora, que mal-entendido. Isso também fazia parte das atividades do clube.

Não havia tempo para dar atenção à Komari. Depois de responder que estava escrevendo o rascunho na biblioteca, virei o celular de cabeça para baixo. Eu estava pensando no conto que seria publicado na revista do clube.

O cenário era sobre uma protagonista misteriosa e bonita que aparecia ao lado da protagonista feminina, mas eu ainda não havia decidido quem seria a heroína principal.

— Uma boa ideia não surge simplesmente do nada...

Fechei o livro, espreguicei as costas e olhei pela janela. A janela ficava do lado direito da sala. Era possível ver a paisagem através das cortinas. Do lado de fora do prédio havia uma praça pavimentada com pedras. Um monte de estudantes do ensino médio voltava para casa.

...Aliás, havia casais por toda parte.

Aquela também era uma mesa para duas pessoas. Pensando bem, as mesas à minha frente e atrás de mim também pareciam ocupadas por casais.

Se ao menos essas pessoas tivessem que pagar mais imposto sobre consumo… Foi isso que pensei. Nesse momento, uma mochila da Tsuwabuki foi colocada sobre a mesa.

— Hein? Komari, o que você está fazendo aqui?

A dona da mochila era Chika Komari. Ela olhou ao redor antes de sussurrar:

— E-Ei... passa mais p-pra dentro.

Mesmo um pouco confuso, obedeci. Ela se sentou na ponta do banco.

— V-Você não foi ao clube. E-Então... o q-que vai fazer sobre o dia de portas abertas de d-domingo?

— Eu disse que estava pensando no rascunho da revista do clube. Estou pesquisando, mas não consigo pensar em uma boa protagonista feminina, por mais que tente.

Komari estendeu a mão para o livro que eu acabara de ler.

— V-Você está falando desse livro ilustrado sobre micróbios?

— Sim. Acho que protagonistas misteriosas estão ficando populares. Talvez isso me dê alguma inspiração.

Komari folheou algumas páginas. Depois balançou a cabeça e fechou o livro.

— M-Mesmo assim... isso não é difícil demais? V-Você devia considerar as suas próprias capacidades.

Eu sentia a mesma coisa. Tudo bem. Dessa vez, vou simplesmente usar uma empregada de orelhas de gato usando óculos como protagonista. O mais importante era ser honesto com os próprios desejos.

— Bem, e você, Komari? Já terminou?

— E-Eu escrevi a continuação da aventura isekai do Mishima e do Dazai.

...? Esse não era o romance da Tsukinoki-senpai?

— Ah... é tipo um romance em revezamento?

— A s-senpai não concordou com isso. O M-Mishima começou primeiro.

...Não acredito que essa garota teve coragem de seguir por esse caminho proibido.

Bem, entrar em contato com os alunos do terceiro ano nessa época era bem complicado. A Tsukinoki-senpai já havia se inscrito em cinco universidades. Ela já tinha sido rejeitada por uma delas.

Quanto ao Tamaki-senpai, ele já havia terminado o Exame Nacional de Admissão às Universidades e estava se preparando para a segunda fase das universidades nacionais. Pelo visto, ele já havia atingido a nota mínima necessária, mas aquilo era apenas o começo da disputa.

— De qualquer forma, vou terminar antes de domingo. Pode ficar tranquila.

— Q-Quando você vai e-encadernar?

Cocei a bochecha e desviei o olhar.

— Ah... os romances da Komari e da Yanami-san podem ser impressos primeiro. Vou imprimir a minha parte numa loja de conveniência e deixar os visitantes encadernarem.

— V-Visitantes?

Assenti com um sorriso satisfeito.

— Uma experiência de montar uma revista de clube. Até eu acho que é uma boa ideia.

— I-Isso é só trabalho braçal. V-Vire a noite escrevendo.

Komari estava surpreendentemente fria.

— Não fui à sala do clube justamente por causa disso. Amanhã é feriado. Dá um desconto. Na sexta-feira eu apareço.

Comecei a escrever no caderno com determinação. Então, Komari juntou as pontas dos dedos, inquieta.

— O que foi? Tem mais alguma coisa?

— A-Ah... a Yanami disse que queria fazer outra coisa além da revista do clube.

A Yanami disse isso? Em outras palavras...

— Seja lá no que ela esteja pensando, deve dar trabalho. Dá um chiclete para ela enquanto escuta. Ela vai esquecer rapidinho.

Mesmo depois do meu conselho, Komari continuou mexendo nos dedos, de cabeça baixa.

— Se for algo que nem chiclete resolva... a gente pode dar arroz frito ou alguma coisa...

— O d-dia de portas abertas é no Dia dos Namorados. P-Por isso ela quer fazer chocolates de obrigação... e t-trazer para cá.

Dia dos Namorados... é mesmo. Era neste fim de semana.

Meu estado mental ainda estava abalado por causa da Kaju. Pensando bem, toda essa confusão havia começado por causa de chocolates caseiros...

— Mas, afinal, o que chocolates de obrigação têm a ver com o dia de portas abertas?

— E-Ela disse que, se fosse assim... também poderíamos dar alguns aos visitantes. ...A-Acabar com eles usando o poder feminino.

...Qual é, impossível. As garotas do Clube de Literatura eram as pessoas mais distantes do conceito de "poder feminino". A Yanami certamente conseguiria esmagar alguém se a competição fosse comer chocolate sem parar.

— Mas distribuir chocolates também parece uma boa ideia. Bem, faça o seu melhor.

Ignorando as outras duas, a Komari provavelmente daria conta. Eu estava prestes a voltar ao meu rascunho quando Komari abaixou a cabeça. Aos poucos, seu corpo foi deslizando na minha direção.

— A-A propósito... e-eu ouvi falar daquela perseguição... pela Yakishio.

Ela já soube disso tão rápido? Suspirei e larguei a caneta mais uma vez.

— Não foi perseguição. Foi uma investigação secreta. Estou do lado da justiça, mesmo que pareça um perseguidor.

Komari olhou discretamente ao redor antes de abaixar ainda mais a voz.

— V-Você não quer saber mais sobre o garoto de quem a sua irmãzinha gosta?

— Hein... isso...

Ainda não era certo que Kaju gostasse do Tachibana-kun. Mas, pela conversa que eles tiveram ontem, essa possibilidade certamente existia.

Depois que Komari disse aquilo, já não consegui mais fugir da realidade. Engoli em seco. Ouvi o som vindo da minha garganta como se não tivesse nada a ver comigo antes de responder, em voz baixa:

— Estou ouvindo.

Komari tirou um livro da mochila e o colocou silenciosamente sobre a mesa. O título era "Estratégias para Descobrir os Verdadeiros Sentimentos da Pessoa por Quem Você Tem Interesse".

Que livro era aquele? Inclinei a cabeça, mas Komari estufou o peito com orgulho.

— E-Eu posso perguntar para ela sobre esse garoto... u-usando as minhas habilidades de comunicação.

Isso era absolutamente impossível. Respondi imediatamente dentro da minha cabeça, mas não falei em voz alta. Aquela era a reação de um adulto maduro. Peguei o livro e comecei a examiná-lo.

Vejamos. A autora tinha formação em Psicologia por uma universidade americana. Trabalhava como conselheira em uma empresa estrangeira. Eu não entendia nada daquilo, mas parecia confiável. Além disso, ela também era muito bonita na foto.

— Entendi. Mas como vocês duas vão se encontrar? Você não conhece a minha irmãzinha, conhece?

— A-Ah...

Komari colocou a mão sobre o peito e respirou fundo.

— O-O chocolate que comemos na sala do clube da última vez e-era muito bom. E-Eu queria que a sua irmãzinha me ensinasse a fazer.

Depois de dizer isso, Komari suspirou e mostrou uma expressão de alívio. Em outras palavras, ela queria conseguir algumas informações sobre Kaju usando o preparo de chocolates como desculpa. Mas quem faria isso era a Komari...

— Hum, minha irmãzinha pode ser bem direta. Você vai ficar bem com isso?

Meu conselho sutil foi completamente ignorado. Komari estufou o peito com orgulho mais uma vez.

— D-Deixe comigo. Tenho muita experiência sendo irmã mais velha.

Eu também tinha muita experiência lidando com a minha irmãzinha, sabia? Embora eu estivesse um pouco preocupado, a sugestão não parecia nada ruim.

— Onde vocês vão aprender a fazer chocolate?

— B-Bem... n-na casa do N-Nukumizu... e-eu...

Komari começou a brincar com os dedos. Abaixou a cabeça e ficou imóvel.

Hum... não ouvi direito, mas imagino que ela quisesse usar a minha casa como local, certo? Pensando bem, meu pai e minha mãe tinham dito que iriam ao cinema no feriado de amanhã.

— Tudo bem. Meus pais também não vão estar em casa amanhã. Pode ir lá para casa, Komari.

Perfeito. Minha brilhante sugestão fez Komari dar um pulo. Ela ficou completamente vermelha.

— Hã!? S-Seus pais não vão estar em casa!?

Eu não tinha acabado de dizer isso? Por que ela ficou tão surpresa?

— Você quer aprender a fazer chocolate com a minha irmãzinha, não é? Vai ser mais prático lá em casa. E também vai ser mais fácil para você sem os meus pais por perto.

— S-Sério? A-A sua irmãzinha vai estar lá?

— Claro. Você iria lá por outro motivo?

— S-Se mata!

Por que ela estava me xingando?

Mas isso acabava sendo conveniente. Ontem eu quase não havia conversado com a Kaju.

Achei que, se ela soubesse que eu tinha escutado a conversa, demonstraria algum tipo de reação. No entanto, Kaju havia agido de maneira completamente normal. No fim das contas, quem estava evitando falar com ela era eu.

Pensei em simplesmente deixar aquilo de lado. Porém, quanto mais tempo eu adiava, mais difícil ficava tocar nesse assunto.

— Seria uma grande ajuda se você pudesse conversar um pouco com a minha irmãzinha. Eu preparo todos os ingredientes. Você só precisa aparecer lá em casa, Komari.

— A-Aparecer!? V-V-Você faz ideia do q-que está dizendo!?

Hã? Eu tinha falado alguma coisa estranha?

— Enfim, primeiro se acalme. Eu vou continuar escrevendo o rascunho. E você, Komari, vai fazer o quê?

— E-Eu vou ler!

Depois de dizer isso, entreguei um livro para ela.

Komari pegou o livro e o abriu. Certo, então eu também deveria estudar um pouco para me preparar para amanhã.

Depois de um tempo, olhei discretamente para ela. Komari já estava completamente absorta na leitura.

Agora amanhã vou conseguir ouvir os verdadeiros sentimentos da Kaju...

...Ah, espera. Eu tinha entregado justamente o livro sobre micróbios.

— Com licença, Komari. Esse livro...

Ela não demonstrava o menor interesse pelo livro didático. Murmurava baixinho enquanto lia.

— Z-Zooplâncton... c-cromistas... c-campylobacter... hehe...

...Ela parecia estar se divertindo. Melhor não atrapalhá-la e me concentrar no meu rascunho.

Voltei calmamente para o meu caderno e continuei escrevendo.

*

Relatório do Clube de Literatura – Edição Extra

"Dentro de um Mundo Sujo e Corrompido", Por Chika Komari

[NT: Contém conteúdo de BL.]

Existiam pessoas que não deveriam existir neste mundo. Elas eram conhecidas como "Irregulares". Controlavam poderes que ultrapassavam a lógica deste mundo e desafiavam até mesmo a magia.

Essas pessoas também eram chamadas de reencarnados. Estavam destinadas a vagar sem fim.

Academia Real de Magia Zavit. Meia-noite. Um homem vestindo um quimono caminhava cambaleando ao sabor da brisa noturna.

Lentamente, ele tirou uma pequena garrafa de dentro da roupa e abriu a tampa. O homem — Dazai — deu de ombros e disse de repente:

— Você não morreu de meningite?

Alguns instantes depois, outro homem surgiu da escuridão atrás dele.

— Você também morreu, não foi? Mesmo assim, continua parecendo uma cavala nadando no ar.

O nome daquele homem era Chuuya. Ele estreitou os olhos para Dazai, claramente irritado, antes de diminuir calmamente a distância entre eles.

— Cheguei em boa hora. Vim buscá-lo. Não gosto de você, mas os velhotes da guilda querem a sua ajuda.

A expressão de Dazai endureceu ao ouvir aquilo.

— Não vou. Desculpe. Diga isso a eles.

Chuuya ignorou a resposta e estendeu a mão. Dazai afastou a mão dele por reflexo. No instante seguinte, Chuuya desapareceu.

— !?

A surpresa de Dazai não foi causada apenas pelo desaparecimento de Chuuya. Até um momento atrás, ele estava ao lado do prédio da escola. Agora, ambos estavam na floresta de treinamento da academia.

Levaria uma hora de caminhada para chegar ali.

— Chuuya, o que...

— Desde quando você anda bebendo uma bebida tão boa? Resolveu se render à hegemonia?

Chuuya pegou a garrafa e começou a beber o saquê de uma só vez.

— Ah! Esse é o meu saquê!

Por algum motivo, a garrafa que Dazai segurava já estava nas mãos de Chuuya.

— Apenas venha comigo. Diferente daquele outro mundo, as pessoas da guilda entendem minha poesia. Talvez você fique um pouco mais animado se vier comigo.

— Não, eu estou muito bem...

Chuuya estendeu a mão novamente para Dazai. Naquele instante, uma luz branca brilhou entre os dois. A garrafa partiu-se ao meio. O líquido âmbar espalhou-se pelo ar, cintilando sob a luz da lua.

— Meu saquê!

Os dois gritaram ao mesmo tempo. Logo em seguida, um homem vestindo uniforme militar apareceu diante deles com a espada desembainhada.

— Por favor, não se aproxime desse homem, Dazai-san.

— Mishima-kun? Ainda bem. Eu já estava cansado desse sujeito entediante.

Chuuya lançou um olhar afiado para Mishima. Mishima assumiu posição de combate.

— Então você é o capanga do Dazai? Vai pegar leve comigo?

Sem dizer uma palavra, Mishima balançou a espada. Durante seus dias como aventureiro, ele havia aprendido a técnica Enate.

Um clarão rasgou o céu e disparou em direção a Chuuya, que permanecia parado à distância.

— Vamos, dê o seu melhor! Não precisa pegar leve só porque ele é o líder da guilda. É só uma luta de espadas, então não se preocupe em acertá-lo.

— Dazai-san... eu realmente quero acertá-lo. Não... mais do que isso...

Mishima estava nervoso. Chuuya soltou um bufar de desprezo.

— Então você usa algum tipo de habilidade? Que habilidade de merda é essa?

— Minha habilidade é "Convicção". Enquanto minha determinação permanecer firme, meus ataques jamais errarão o alvo. Não existe nada que eu não possa cortar.

Mishima abaixou a espada e ajustou novamente a postura, apontando diretamente para Chuuya. O sorriso debochado de Chuuya apenas aumentou.

— Nenhum dos seus ataques vai me atingir enquanto eu estiver sob o efeito da minha habilidade "Intoxicação". Um sujeito como você não conseguiria nem cortar tofu.

Mishima continuou desferindo golpe após golpe. No entanto, nenhum deles acertava, como se ele estivesse preso em um pesadelo. Chuuya passou tranquilamente por Mishima, que permanecia atônito, e caminhou até Dazai.

— Espera, vamos conversar! Que tal encerrarmos por hoje?

— Tudo bem. Vou deixar o Mishima em paz... mas você vem comigo. Ainda temos contas a acertar.

— Aah!?

Dazai virou-se e saiu correndo. Chuuya caiu na gargalhada e foi atrás dele.

— Você não vai escapar!

Mishima jogou a espada no chão e abriu os braços. Ele pretendia derrubá-lo usando o próprio corpo.

Então, Mishima sentiu uma tontura por um instante. Dazai, que deveria estar fugindo, lançou o próprio corpo contra Mishima. Os dois rolaram pelo chão.

— Dazai-san!? Você precisa fugir...

Mishima percebeu, antes mesmo de terminar a frase, que a cena diante de seus olhos já não era a floresta familiar. Em vez disso, havia um penhasco sem fim.

Ele teria despencado dali se Dazai não o tivesse impedido.

— Isto é...?

Mishima ficou confuso. Dazai o ajudou a se levantar. Chuuya permanecia à distância. Ele segurou a aba do chapéu de marinheiro e cuspiu no chão.

— Hmph. Eu teria assistido a um fracasso numa travessia de corda bamba no ar se vocês não tivessem percebido.

— Entendo. Agora entendo.

Dazai falou em um tom tranquilo.

— O que isso quer dizer?

— Sua "Intoxicação" não serve apenas para desviar de ataques. Ela combina interferência na percepção com manipulação da realidade. E o gatilho para ativá-la é... quando um ataque é direcionado a você, certo?

Chuya permaneceu em silêncio por um momento. Estalou a língua, claramente contrariado.

— Como você descobriu?

— Acontece que eu sou um pouco covarde. Por isso acrescentei um pouquinho de um remédio para despertar.

Dazai tirou uma segunda garrafa de saquê de dentro da roupa.

— Sua "Intoxicação" só funciona em pessoas comuns. É até gentil da sua parte com beberrões solitários como nós.

Dazai apanhou a espada caída no chão e a enfiou nas mãos de Mishima.

— Certo, eu perdoo você. Vamos lhe dar uma pequena lição.

— Mas, Dazai-san, a habilidade dele vai ser ativada se eu atacá-lo.

— Não é grande coisa quando se conhece o segredo. A sua habilidade é "Convicção", não é, Mishima-kun? Habilidades são diferentes de magia. Elas envolvem realidade e conceitos. Quando duas habilidades entram em conflito, o resultado depende da força mental de seus usuários.

Dazai tomou um gole de saquê. Era praticamente como se estivesse lambendo a garrafa.

— Você pode balançar a espada enquanto acreditar na sua habilidade. Porém, a lâmina precisa estar apontada para cima. Se golpear de forma imprudente, até o seu interior vai recuperar a sobriedade.

Dazai encarou a lâmina sem se mover. Então resmungou.

— Não vou cair nessa. Sua habilidade é "Mentira", não é? Um capanga de terceira categoria como você não conheceria as regras das habilidades.

— Ah, você tem razão. Kawabata-sensei manteve a boca fechada. Tive que me esforçar bastante na cama para fazê-la abrir o bico.

Mishima interrompeu Dazai antes que ele continuasse falando. Então deu um passo à frente.

— Dazai-san, deixe o resto comigo.

A lâmina de sua espada... continuava apontada para baixo. Chuuya encarou os dois por alguns instantes. Então seus ombros relaxaram.

— Tudo bem. Vocês dois são fortes demais. Vou deixar vocês irem embora hoje.

Enquanto dizia isso, Chuuya limpou a poeira de sua capa. Em seguida, virou-se e foi embora. Mishima quis persegui-lo, mas Dazai balançou a cabeça e o impediu.

— Vamos parar por aqui. Quem sabe que armadilhas eles prepararam mais à frente?

Mishima lançou um último olhar para a escuridão onde Chuuya havia desaparecido e embainhou a espada.

— Mas, Dazai-san, você conhece aquele cara?

— Chuuya? Muita coisa aconteceu com ele no outro mundo. Vamos apenas voltar e beber. Venha comigo, Mishima-kun.

Dazai coçou a cabeça enquanto caminhava. De repente, Mishima agarrou a gola de sua roupa.

— Ei, o que foi, Mishima-kun?

— Ouvi dizer que não aconteceu nada entre você e Kawabata-san. Isso é verdade?

— Tudo aquilo foi mentira. Não me diga que você acreditou... Ei, você está me ouvindo?

Os braços fortes de Mishima envolveram a cintura de Dazai.

— Eu sei que você é um mulherengo. A verdade só pode ser confirmada pelo seu corpo.

— Espere! Pense onde nós estamos!

— Onde estamos? Só há nós dois aqui. Igual à cama de ontem.

O peito exposto de Dazai era iluminado pelo luar. Mishima segurou o queixo de Dazai e o obrigou a encará-lo nos olhos.

— Dazai-san, a culpa de tudo isso é sua.

*

Amanhã seria quinta-feira e também o Dia da Fundação Nacional. Teríamos folga. Para meu alívio, Kaju também estava livre hoje. Komari viria à minha casa durante a tarde para aprender a fazer chocolate.

Comprei os ingredientes no caminho de volta da caminhada. Ergui os olhos para o céu tranquilo e ensolarado e, em seguida, olhei para o chão. Havia um pó branco espalhado por toda parte.

...Pensando bem, hoje era o principal dia do festival.

O Festival dos Fantasmas de Toyohashi era um festival histórico realizado desde o período Heian e reconhecido como um Importante Patrimônio Cultural Imaterial do Japão.

Também havia fantasmas circulando perto da nossa casa. Por isso, Kaju e eu costumávamos participar da brincadeira quando éramos pequenos.

Olhando com mais atenção, percebi que as pessoas ao redor estavam com pó branco na cabeça.

Talvez você esteja se perguntando do que se tratava, mas esse festival consistia em fantasmas vagando pela cidade enquanto espalhavam pó branco e balas. Por isso, todo mundo ia até lá para acabar completamente coberto de pó.

Além disso, existia um aplicativo que mostrava a localização exata dos fantasmas. Graças a isso, as pessoas conseguiam ser extremamente eficientes em ficar cobertas de pó.

Naquele momento, ouvi ao longe o gemido fofinho de uma garota. Ela devia ter sido atingida pelo pó branco. Eu também gostaria de ser coberto por ele... Se ao menos tivesse tempo.

Certo, preciso me apressar. Komari logo chegaria. Peguei minhas coisas e voltei rapidamente para casa.

*

Quando abri a porta de casa, tudo o que vi na entrada foram os sapatos de Kaju. Ao que parecia, Komari ainda não havia chegado.

— Estou de volta.

Por um instante, minha voz foi engolida pelo corredor silencioso. Então, de repente, a porta da sala se abriu. Kaju saltou para fora.

— Bem-vindo de volta, onii-sama!

Kaju correu até mim e pegou as sacolas das minhas mãos.

— Sua amiga, Komari-san, chegará em breve. Rápido! Precisamos nos preparar para recebê-la!

— A-Ah... certo.

Kaju estava agindo normalmente. Ultimamente eu achava estranho lidar com ela, mas talvez tudo não passasse da minha imaginação...

Observei Kaju, tão animada, enquanto tirava os sapatos. Nesse instante, a campainha tocou. Será que Komari já chegou? Calcei os sapatos novamente e abri a porta. Como esperado, era mesmo Komari. No entanto, seu corpo inteiro estava coberto de pó branco.

— Ei!? O que aconteceu, Komari!?

— A-A multidão me arrastou quando eu q-queria ver os fantasmas de p-perto.

Komari tossiu, espalhando pó branco por todos os lados. Aliás, era impressionante como ela conseguira ficar tão coberta. Enquanto eu admirava a cena, ouvi um pequeno grito vindo de trás de mim.

— Komari-san!? Onii-sama, por favor, encha a banheira com água quente!

— Hã? Ah, certo!

Realmente, aquele não era o momento para ficar parado olhando. Enquanto corria para o banheiro, ainda conseguia ouvir a conversa delas.

— Certo, venha para cá, Komari-san! Vou preparar uma troca de roupas.

— Ueh?... M-Mas o p-pó...

— Não se preocupe com isso. Venha, rápido!

Soltei um suspiro de alívio depois que a banheira ficou pronta. Kaju entrou no vestiário e me entregou um casaco completamente coberto de pó.

— Deixo o casaco com você, onii-sama. Aqui, Komari-san. Tire isso também.

— E-Espere! O N-Nukumizu a-ainda e-está a-aqui!

— Por favor, saia, onii-sama.

Ah, claro. Você tem razão. Saí rapidamente do vestiário improvisado. A porta se fechou com força atrás de mim. Toda aquela sequência de acontecimentos me deixou parado no corredor, segurando o casaco.

...Ah, preciso cuidar desse pó primeiro.

— Ei, Kaju, posso usar o aspirador para tirar o pó?

Perguntei através da porta. Logo em seguida, ouvi o som de um tecido caindo no chão.

— Onii-sama, você ainda está aí!?

— Hã? Mas eu não sei o que fazer com o pó que ficou no casaco. Se houver outras roupas, por favor...

Antes que eu terminasse a frase, a voz de Komari abafou a minha.

— M-Morra!

...Ela me amaldiçoou na frente da minha irmãzinha.

Tudo bem. Eu simplesmente sacudiria o pó no jardim. Soltei um suspiro e caminhei em direção à porta da frente.

*

Já fazia quase trinta minutos desde que Komari chegara. Kaju desceu correndo as escadas carregando alguma coisa nas mãos.

— Komari-san, aqui estão algumas roupas para você trocar. Por favor, use-as.

Parei de limpar o corredor.

....... ...

...Pensando bem, Komari estava tomando banho naquele momento.

Não havia me dado conta disso quando ela estava apenas trocando de roupa. Mas ter uma colega de classe tomando banho na minha casa me deixou um pouco... inquieto.

Isso mesmo, inquieto. Aquela era uma situação totalmente inesperada. Resolvi preparar um café na cozinha para espairecer. Não havia nenhum motivo especial. Eu apenas queria moer alguns grãos de café.

Girei o moedor enquanto olhava para o casaco de Komari pendurado na parede. Depois de bater nele algumas vezes e usar o aspirador, retirei cuidadosamente o restante do pó com uma escova.

Parecia novo em folha. Ninguém diria que havia passado por aquele acidente. Aposto que Kaju me elogiaria...

Dei de ombros e parei de girar a manivela.

...Talvez fosse justamente por isso que as pessoas achavam que eu tinha complexo de irmã.

Mas Kaju preparava doces para mim desde que éramos pequenos. Não era como se eu fosse completamente indiferente ao carinho dela.

Depois de moer os grãos, pensei em fazer o café, mas percebi que nem queria bebê-lo. Eu só queria continuar moendo os grãos. Quanto ao motivo...

Droga. Eu estava começando a ficar nervoso de novo. Será que ainda havia mais grãos? Se houvesse, eu moeria todos eles. A porta da sala se abriu quando comecei a procurar nas gavetas.

Kaju entrou saltitando e, de repente, virou-se para a porta e acenou.

— Tudo bem, Komari-san! Não precisa ficar com vergonha. Entre!

— M-Mas... e-essa roupa...

Ela devia ter pegado emprestadas as roupas de Kaju. Talvez fosse um pouco constrangedor vestir roupas de uma estudante do ensino fundamental, mas, sinceramente, Komari parecia uma.

Komari hesitou a cada passo que dava para dentro da sala. Sem perceber, olhei para ela duas vezes.

Ela vestia um vestido preto que ia um pouco acima dos joelhos — um típico estilo gothic lolita. Também usava meias estampadas, e uma faixa rendada enfeitava sua cabeça. Seu cabelo também não estava tão bagunçado quanto de costume. A tiara mantinha os fios presos, e parte da franja havia sido trançada.

— Kaju, você não tinha outras roupas para ela?

— Como eu poderia deixar uma convidada usar minhas roupas velhas? Essa é a única roupa nova que eu tenho. Não teve jeito.

Kaju puxou meu braço e me obrigou a ficar na frente de Komari.

— Vamos, o que você achou?

Hã? Minha opinião sobre a roupa dela? Mas quem estava usando era a Komari… As bochechas de Komari ainda estavam levemente avermelhadas por causa do banho. Ela abaixou a cabeça, envergonhada.

Tentou mexer na própria franja, mas seus dedos não encontraram nada. Isso fez seu rosto corar ainda mais. Ela segurava a barra da saia com força. Hã...? Komari estava um pouco diferente do habitual...

— B-Bem... é... você ficou muito fofa...

— Una!?

As palavras escaparam da minha boca, fazendo o rosto de Komari ficar completamente vermelho.

— N-Não! Quero dizer... essa roupa combina muito com você! Foi isso que eu quis dizer! Ficou ótima!

Corrigi-me às pressas, mas não adiantou.

— E-Então... c-combina...

Komari parou de falar no meio da frase. Droga... Será que eu tinha acabado de provocar outro incidente digno de #MeToo?

— Você ficou muito bonita, Komari-san! Essa roupa é usada exclusivamente para conquistar o coração do onii-sama... cochicho, cochicho.

— Fueh!?

Kaju sussurrou alguma coisa no ouvido dela. No mesmo instante, Komari perdeu todas as forças e sentou-se no chão. Hã? O que foi que Kaju disse? Será que eu estava prestes a ser processado?

— Ei, Komari, você está bem?

Estendi a mão para ajudá-la. Komari ergueu os olhos marejados para mim.

— I-Idiota.

Ah... O jeito como ela falou era um pouco diferente do normal. Por algum motivo, fiquei inquieto outra vez… É melhor eu não contar isso para ninguém.

*

A aula de confeitaria da Kaju finalmente começou. Ela retirou o termômetro do chocolate derretido, sorriu e assentiu.

— Certo, agora está a quarenta e cinco graus. Coloque a tigela sobre a água com gelo e misture o chocolate lentamente, mexendo de baixo para cima.

— Hã... a-ah.

Komari respondeu enquanto colocava a tigela na água gelada. Era difícil dizer se aquilo tinha sido uma resposta ou apenas um murmúrio. Ao vê-la mexendo o chocolate com tanta habilidade, Kaju não conseguiu esconder sua admiração.

— Komari-san, você leva jeito para isso. Já fez chocolate antes?

— Ueh? B-Bem... ah... eu já fiz... e... b-bolos também...

...Ela parecia prestes a desmaiar. Parei de lavar a louça.

— Ela sempre faz biscoitos e bolos, mas nunca chocolate. Não é, Komari?

Sim, sim, sim. Komari assentiu repetidas vezes.

— Entendo. Então, da próxima vez, precisamos fazer um bolo juntas.

Komari voltou a assentir com toda a força. ...Eu tinha me esquecido. Era assim que Komari agia quando havia um estranho por perto. Como conseguiríamos descobrir o que Kaju realmente pensava se Komari continuasse desse jeito?

Enquanto secava os utensílios já lavados, observei as duas.

— O segredo está todo no controle da temperatura, tanto da água quente quanto do chocolate. Se fizer os preparativos corretamente, Komari-san aprenderá isso rapidinho. Ah, o resfriamento ficou muito bom. Agora vamos aumentar a temperatura para trinta graus.

Komari apenas assentiu em silêncio. Acho que ela já tinha desistido de falar.

— Agora coloque uma folha de papel-manteiga naquela assadeira. Vamos endurecer metade do chocolate e usar a outra metade para fazer nama chocolate, certo?

…….. ...

Pisca. Pisca.

Os olhos de Komari pediram socorro. Hã? Só com esse olhar eu não fazia ideia do que ela queria. Ela continuou alternando o olhar entre a assadeira e eu. Ué... o que havia de errado com a assadeira?

— Ei... Kaju, a assadeira...

— Hum? O que há de errado com a assadeira?

Continuei depois que Komari assentiu repetidas vezes.

— Se colocarmos tudo isso na assadeira, vai virar uma grande placa de chocolate, não vai? O que vamos fazer depois disso?

— Isso mesmo. Depois precisaremos cortar o chocolate em pedaços menores e cobri-los com outra camada de chocolate. Assim podemos mudar o sabor e a aparência. Além disso, a quantidade é muito importante se quisermos trocar os chocolates ou distribuí-los para as visitas, certo?

Entendi. Pelo visto, Komari também havia entendido. Ela assentiu várias vezes. Mas será que as duas podiam parar de me usar como tradutor...?

No fim das contas, acabei sendo arrastado para a atividade como o responsável por interpretar a Komari.

— Então, Kaju. Posso aquecer o creme de leite assim? Depois é só misturá-lo ao chocolate e deixar esfriar, certo?

— Isso mesmo.

— Hum... Fazer nama chocolate é surpreendentemente fácil.

Ao que parecia, Komari também já havia se acostumado com a nossa cozinha. Ela fazia sua parte com bastante habilidade.

Olhando novamente, a roupa daquela garota era um verdadeiro exagero. Ela usava um vestido no estilo gothic lolita com um avental fofo por cima. Gothic lolita não fazia exatamente o meu tipo, mas, usando aquele avental, ela parecia uma empregada doméstica.

Uma colega de classe da mesma série havia tomado banho na minha casa e agora estava cozinhando usando saia e meias. É... Aquilo era exatamente o tipo de fantasia de um estudante do ensino médio.

Por outro lado, dava para dizer que eu havia realizado um sonho. Talvez ela tivesse percebido que eu a encarava. Komari lançou um olhar desconfiado em minha direção.

— Ueh... P-Por que você está olhando tanto para mim...?

— Não é nada. É só que eu quase nunca vejo você mostrando a testa.

Ah… Será que eu tinha acabado de provocar outro incidente digno de #MeToo? Já estava preparado para levar uma bronca, mas Komari continuou mexendo a tigela enquanto murmurava:

— Q-Qual fica melhor...?

— Hã?

Que tipo de conversa era aquela?

Olhei discretamente para Kaju. Ela estava do outro lado da cozinha, procurando algo na prateleira dos ingredientes.

— Bem, você está muito bonita desse jeito, mas eu já estava acostumado com a sua aparência de sempre.

— E-Eu entendo...

— A-Ah...

...Como eu já tinha dito, que tipo de conversa era aquela?

Meu plano era conseguir alguma informação sobre aquele rapaz, Tachibana, através da Kaju. Por isso...

— Ei, Komari. Como está indo? Você perguntou para a Kaju de quem ela gosta?

Falei aquilo meio de brincadeira, mas Komari estufou o peito, cheia de confiança.

— Ueh? A-A-Ah, é mesmo. D-Deixe comigo. E-Eu consigo.

Por favor, pelo amor de Deus, não se force.

Eu só precisava que Komari criasse uma oportunidade. Se ela conseguisse isso, eu faria Kaju abrir o jogo usando todas as habilidades de comunicação que havia aprendido naquele livro...

— Sobre o que vocês dois estão conversando? A Kaju também pode participar?

Kaju voltou carregando um pacote de castanhas mistas. Naquele instante, nossos olhares se cruzaram antes de ela dar mais um passo à frente.

— K-Kaju...-chan!

— Sim?

Boa, Komari. Vamos falar sobre amor com calma… Komari deu um pequeno passo à frente e gritou com sua voz aguda:

— A-A pessoa de quem você gosta! P-Por favor, me conte!

Ei, o que você está fazendo!? Entrei em pânico e me coloquei na frente dela. Os olhos úmidos de Kaju piscaram algumas vezes.

— A pessoa por quem a Kaju está apaixonada... certo?

— S-Sim! — respondemos nós dois ao mesmo tempo.

Nós dois acabamos respondendo em uníssono. Kaju deu uma risadinha.

— Não é exatamente um segredo, mas, se eu contar para outras pessoas, isso só vai causar problemas para ele.

— Hã? Então a pessoa de quem você gosta realmente é...

Kaju colocou um dedo sobre meus lábios e sorriu inocentemente.

— Hum... Não é que eu não possa contar. Mas, ultimamente, uma elfa bem inconveniente vive voando atrás da Kaju.

— Hã!? — dissemos os dois ao mesmo tempo. Tanto eu quanto Komari demos um passo para trás sem pensar.

— S-Sua irmãzinha é m-muito estranha...

Não que você esteja errada... mas era um pouco diferente disso. Kaju sorriu enquanto observava nossos rostos.

— Essa elfa vai aonde quer que a Kaju vá. Às vezes ela muda de aparência para enganar os amigos da Kaju. Outras vezes tenta investigar os segredos da Kaju. Aqui... abram a boca.

Kaju colocou alguns pedacinhos de chocolate na boca de Komari e na minha.

— Ela está sempre aprontando. O que vocês dois acham?

Depois disso, exibiu o sorriso mais precioso e angelical que eu já tinha visto. A tímida Komari agarrou meu braço com força. Mas, sinceramente... eu também estava morrendo de medo.

— B-Bem... mesmo que pregar peças não seja uma coisa boa... talvez essa elfa seja uma elfa boa, sabe? Algo como uma stalker da justiça.

— I-Isso é r-ruim. V-Você precisa aprender uma lição.

Komari contornou Kaju e começou a me repreender. Essa garota simplesmente me apunhalou pelas costas. Kaju segurou minhas bochechas com as duas mãos. Ela soltou um leve suspiro enquanto aproximava o rosto do meu.

Estávamos quase nos tocando.

— Por isso... eu não vou contar para uma criança má como você.

*

As noites de inverno eram curtas. Quando as roupas de Komari finalmente secaram, já estava completamente escuro lá fora. Fechei a porta e me virei. Komari permanecia inquieta sob a luz branca do poste.

— E-Ei... você n-não precisa mesmo me a-acompanhar...

— Nada disso. Já está bem escuro. Vou levar você até a estação.

...Além disso, Kaju ficaria brava comigo se eu não fizesse isso.

Sorri de forma sem graça, peguei a bolsa de Komari e comecei a andar. Então percebi que ela continuava parada, completamente imóvel.

— Ah, foi mal. Eu sempre faço isso quando saio com a Kaju...

Estendi a bolsa para ela, mas Komari simplesmente a ignorou e começou a caminhar ao meu lado.

— O-Obrigada...

— Hã? Ah... não foi nada...

Ué? Eu achei que ela fosse me lançar alguma maldição. Aquilo estava começando a me assustar… Sem perceber, continuamos caminhando em silêncio pela tranquila rua residencial.

...Hum, eu precisava dizer alguma coisa.

— Obrigado por ajudar minha irmã hoje, Komari.

— B-Bem... pode d-deixar esse tipo de c-coisa comigo quando quiser.

Envergonhada, Komari brincava com a trança de três mechas que Kaju havia feito em seu cabelo.

— Mesmo assim, não conseguimos arrancar nenhuma informação da Kaju...

Murmurei em tom de autodepreciação. Komari assentiu com um sorriso convencido.

— A-Ah... já estamos b-bem perto.

Sério...? Bem, se ela dizia isso... então acho que sim...

— E-Então... qual é a próxima etapa d-do plano?

— Hã? Nós ainda vamos continuar com isso?

Sinceramente, eu já estava convencido de que não havia a menor chance de Komari e eu conseguirmos derrotar Kaju sozinhos.

— Eu já revelei minhas intenções. Por enquanto, o melhor é observar a situação.

— S-Sério?

— Em situações assim, é preciso parar um pouco e se acalmar.

Pensando bem, havia outra coisa que eu queria perguntar a ela. Abaixei a cabeça e olhei para Komari ao meu lado.

— O-O que foi?

— Não é nada. Só fiquei me perguntando por que você está me ajudando tanto com isso, Komari.

— Ueh?... B-Bem...

Se fosse a Yanami ou a Yakishio, eu imaginava que elas só estariam fazendo isso porque achavam a situação engraçada. Mas por que Komari estava se empenhando tanto? Ela abriu a boca para responder, mas apenas algumas palavras conseguiram sair.

— V-Você não f-foi ao c-clube quando estávamos c-conversando sobre a v-visita deste fim de semana.

— Ah... é que eu andei meio ocupado a semana inteira...

— S-Se não entrarem novos membros, o clube vai acabar. V-Você precisa refletir sobre isso.

...Fiquei sem palavras. Nem todos os visitantes acabariam estudando na Tsuwabuki, mas alguns certamente prestariam o exame de admissão. O melhor era causar uma excelente primeira impressão.

— Eu nunca participei de uma visita guiada da Tsuwabuki. Como costuma funcionar?

— E-Eu também nunca participei. N-Não levo jeito para conversar com e-estranhos...

...É, faz sentido.

Pelo que eu sabia, Yakishio estaria ajudando o Clube de Atletismo durante o evento. Yanami guiaria alguns visitantes separadamente do Clube de Literatura e depois se juntaria a nós no meio da visita. Será que duas pessoas com dificuldades de comunicação conseguiriam cuidar bem da recepção...?

— Aliás, vai ter tanta gente assim?

— P-Pelo que ouvi dos veteranos, sim. A-Acho que eles visitam os clubes seguindo uma ordem.

Entendi. Então não era como se todos já estivessem interessados em entrar no clube. Muitos apenas passariam para conhecer. E eu era péssimo em lidar com esse tipo de interação casual. Talvez fosse melhor começar mostrando as fotos dos gatos e só partir para algo mais sério quando Yanami chegasse...

Enquanto pensava nisso, chegamos à avenida depois de atravessar o bairro residencial. A estação ficava logo depois do cruzamento. Acho que podia me despedir ali mesmo. Eu ainda precisava voltar para casa e terminar um rascunho que estava atrasado.

Quando estendi a bolsa para Komari, ela saiu correndo e atravessou a rua.

— O-O sinal vai fechar, sabia?

— Hã? Espere!

Não tive escolha senão correr atrás dela. Assim que chegamos ao outro lado, o semáforo mudou.

...Ainda teríamos que esperar um pouco até o trem chegar.

Enquanto eu observava distraidamente os carros passando pela avenida, Komari colocou a mão dentro da bolsa.

— O que foi, Komari?

— A-Ah... o chocolate que eu fiz hoje...

Em seguida, ela tirou um saquinho muito bem embrulhado. Era o chocolate que ela havia preparado naquele dia.

— Hã? Quando foi que você embalou isso?

Em vez de responder, Komari desviou o olhar e estendeu o pacote para mim.

— P-Prove.

— Se era só para eu experimentar, podia ter pedido antes... Tá bom, já entendi.

Como ela conseguia ser tão direta em momentos tão estranhos? Às vezes essa garota ficava surpreendentemente decidida. Sem muita alternativa, aceitei o presente. Depois de desfazer o laço da embalagem, encontrei quatro tipos diferentes de chocolate.

Eu já devia ter provado todos eles...

...Hã?

Hoje nós só não tínhamos feito três tipos? Havia o de leite, o amargo, o de framboesa… Além deles, também havia um chocolate vermelho-vivo em formato de coração.

Será que eu estava perdendo a memória? Muita coisa tinha acontecido nos últimos dias.

Abri a embalagem e, sem pensar, coloquei o chocolate em forma de coração na boca. Um sabor levemente amargo e adocicado se espalhou pela minha boca.

Groselha-negra.

Claro.

Acho que Kaju havia feito exatamente esse sabor algum tempo atrás. Será que ela aproveitou o restante da calda? Agora eu entendia de onde tinha vindo, mas ainda não conseguia me lembrar de quando o tínhamos preparado.

Enquanto tentava puxar aquela lembrança da memória, percebi que Komari me encarava fixamente.

— O que foi, Komari?

— Ueh!? E-Eu não estava o-olhando.

Estava, sim.

— O chocolate ficou muito bom. Vai dar tudo certo no domingo, não vai?

— D-Domingo...?

— As meninas do Clube de Literatura não combinaram de trocar chocolates de cortesia no domingo? Você comentou algo sobre entregar chocolates aos visitantes para mostrar o charme feminino de vocês.

— S-Sim... m-mas quem disse isso foi a Yanami. E-Eu só... não sei se posso ser considerada alguém que entrega chocolates de cortesia...

A voz de Komari foi desaparecendo aos poucos. Sem perceber, suavizei o tom.

— Do que você está falando? A Yanami-san e a Yakishio são suas amigas, não são?

Entreguei o pacote de chocolates de volta para Komari. Ela continuou de cabeça baixa por alguns instantes. Então assentiu em silêncio e pegou um dos chocolates.

— É gostoso, não é?

Perguntei em tom triunfante. Komari respondeu:

— E-Eu ainda nem experimentei...

Ela colocou o chocolate na boca. Um sorriso tímido e delicado surgiu em seu rosto.

*

No dia seguinte, o doce aroma de cacau ainda parecia impregnado na gola do meu uniforme. As aulas de sexta-feira terminaram enquanto aquela sensação permanecia comigo. Era hora da reunião de classe.

Na noite anterior, Komari e eu quase não tínhamos conversado. Passamos os últimos minutos apenas esperando o trem chegar. Pelo menos, tive a impressão de que ela já havia me perdoado pelo que fiz recentemente no Clube de Literatura.

Enquanto eu ainda lembrava do leve amargor da groselha-negra na língua, Amanatsu-sensei entrou na sala, como sempre, com seu habitual ar de preguiça.

— Hum... Muito bem, todos estão aqui. Tenho alguns avisos sobre o dia de portas abertas de domingo.

— Cof, cof.

Amanatsu-sensei limpou a garganta e continuou:

— Nesse dia, apenas os alunos designados para acompanhar os visitantes e aqueles responsáveis pelas visitas aos clubes deverão vir à escola. Os demais, não se confundam. Não venham. Ei, responsável pela escala de hoje, distribua estes panfletos.

O aluno encarregado começou a distribuir os folhetos. Era o cronograma do evento, junto com os preparativos necessários.

...Hum.

O dia de portas abertas começaria à uma da tarde. Na primeira metade do evento, nós, alunos, guiaríamos os visitantes pela escola. Depois disso, eles teriam tempo livre para conhecer o restante do campus como quisessem.

Eu não fazia ideia de quando os visitantes apareceriam na sala do Clube de Literatura. Além disso, eu não havia me inscrito como guia. Então, provavelmente, ficaria apenas esperando na sala do clube.

Depois que todos receberam os folhetos, Amanatsu-sensei começou a explicar os detalhes do evento.

— Os alunos responsáveis por guiar os visitantes devem se reunir no ginásio assim que eu terminar a explicação. Os demais podem começar os preparativos. Nossa turma ficará encarregada dos murais do primeiro andar. Sigam a tabela de distribuição. Assim que terminarem, podem ir para casa...

Depois de dizer isso, Amanatsu-sensei sentou-se na cadeira como se já tivesse concluído seu trabalho.

— Ah, como todos sabem, vocês, alunos, são as verdadeiras estrelas do dia de portas abertas. Todo esse evento existe para mostrar aos estudantes do ensino fundamental que desejam ingressar na Tsuwabuki como é a vida no ensino médio.

...Hã? Era raro ver a sensei falando tão seriamente. Até nós ficávamos apreensivos quando ela entrava no seu raro "modo sério", que aparecia uma vez a cada milagre.

— É por isso que o conselho estudantil organiza todo o evento. Os guias também são todos voluntários.

Amanatsu-sensei sorriu e olhou ao redor da sala.

— E nós, professores... também somos voluntários.

Seu "modo sério" terminou na mesma hora. Uma aura sombria passou a envolvê-la.

— Não, não é que eu esteja reclamando. Só perdi um domingo. Depois disso não ganhamos folga e também não recebemos hora extra. Então por que discutimos isso na reunião dos professores? Tenho um monte de coisas para dizer, mas o trabalho de um professor é ajudar os alunos...

De repente, Amanatsu-sensei começou a bater na mesa do professor.

— Não tínhamos combinado que isso não era considerado trabalho!? Então sigam as regras, certo!?

Ah… A sensei de sempre havia voltado. Ela apoiou o corpo sobre a mesa e resmungou:

— A sensei... ainda nem terminou de corrigir as provas finais. Vou passar o sábado enterrada em provas e, no domingo, ainda preciso trabalhar como voluntária. Quando é que eu vou descansar...?

Mesmo entendendo perfeitamente como ela se sentia, não havia nada que pudéssemos fazer. Já era o terceiro trimestre, mas aquela professora ainda não conseguia se acostumar. Ela parecia nem perceber que a sala inteira a observava em silêncio e continuou:

— A sensei não está solteira porque não faz sucesso. É porque nem sequer tem oportunidade de conhecer alguém. Uma amiga minha perguntou por que eu simplesmente não escolhia um homem decente e o "devorava"... Mas homens não são edamame, sabiam?

Essa amiga só podia ser a Konuki-sensei. Tinha que ser. Amanatsu-sensei já parecia completamente bêbada. Escorada na mesa, continuava folheando os panfletos.

— Enfim... era só esse o desabafo da sensei. Os materiais para os murais estão na sala de impressão. Preparem-se. Dispensados.

...Como sempre, ela terminou de um jeito totalmente sem graça. Levantei-me junto com os outros alunos, que ainda pareciam meio desnorteados. Hum... Eu não era um dos guias, então minha função seria preparar os murais, certo?

Vamos ver a tabela… Certo. Só precisava colocar os mapas de orientação perto da entrada. Ótimo. Era melhor terminar aquilo logo para depois ir ao Clube de Literatura ajudar nos preparativos...

— Nukumizu, você também ficou responsável pelos mapas de orientação, né? Vamos juntos.

Quem falou foi Sosuke Hakamada. Ele deu um tapinha no meu ombro com aquele sorriso refrescante de sempre.

— Hã? Você não ficou responsável pela recepção dos visitantes?

— Ah... Tenho um compromisso no domingo. Também estou bem ocupado.

Hakamada respondeu com um sorriso amargo. Afinal, domingo era Dia dos Namorados. Quem se voluntariava para recepcionar visitantes certamente não tinha nenhum compromisso romântico.

— Ah, Nukumizu-kun. Assim que eu terminar lá no ginásio, vou direto para a sala do clube, tá?

Yanami deu um tapinha no meu ombro.

— Ah, certo. Eu também vou para lá depois de terminar isso aqui.

— Sosuke, não fique implicando com o Nukumizu-kun, viu?

A garota que também não tinha nenhum compromisso no Dia dos Namorados acenou e saiu da sala.

— Ei, Nukkun!

A outra garota igualmente sem compromissos acertou um tapa nas minhas costas.

Doeu.

— Ai! O que foi? Isso dói.

— Depois da explicação, vou direto para o Clube de Atletismo.

Entendi… Mas por que ela estava me contando isso?

— Ah... Você vai ajudar o Clube de Atletismo no domingo, né?

— Isso! Vou quitar toda a minha dívida com você. Até mais!

Yakishio juntou as mãos diante do peito e saiu saltitando da sala. Ela continuava tão animada quanto sempre. Fiquei olhando sem reação. Hakamada deu uma leve cutucada no meu braço.

— Ei, Nukumizu. Você anda bem popular.

— Ah... Para de tirar sarro de mim, Hakamada.

— Desculpa, desculpa. Mas você era completamente diferente no primeiro trimestre, não era?

Primeiro trimestre...

Respondi apenas com um sorriso sem graça enquanto caminhávamos pelo corredor. Nós dois precisávamos passar na sala de impressão para pegar os materiais de divulgação.

Enquanto andávamos, senti vários olhares femininos voltados para mim. Não era imaginação. Algumas garotas até cochichavam enquanto olhavam para nós. Seria esse o famoso "Efeito Hakamada"?

— O que foi, Nukumizu-kun? Vou acabar ficando envergonhado se você continuar me encarando.

— Não é nada... Só estava pensando que deve ser difícil ser você. Mesmo andando pelo corredor, todas as garotas ficam olhando.

Contei a piada de um cara bonito. Hakamada fez uma expressão confusa.

— Não. Elas estavam olhando para você.

— Hã?

Como assim? Será que alguma foto minha tinha viralizado na internet? Ontem fiquei sorrindo igual um idiota segurando o mangá recém-lançado na seção da Seibunkan.

Será que exagerei...? Olhei para Hakamada, preocupado. Ele deu um tapinha no meu ombro.

— Nukumizu, fique em frente àquele mural.

— Hã? Ah... Tá.

Fiz o que ele disse e parei diante do mural do corredor. As garotas que estavam atrás de nós começaram a cochichar.

— Hã? Ele é bonito, né?

— Não, o que está do lado.

— Ah... Esse é normal.

— É, bem normal.

……… …

Continuavam me chamando de "normal".

Só podia estar falando de mim, já que eu estava ao lado de alguém completamente fora do normal.

Aliás… As garotas me consideravam "normal", é?

Era uma reputação surpreendentemente positiva. Depois que elas foram embora, Hakamada deu de ombros.

— Você virou assunto depois do que aconteceu no ginásio no fim do ano passado.

O ginásio… Ele estava falando do dia em que eu abracei Shikiya-san quando ela estava prestes a cair.

De fato… Ela era macia, fria e cheirava muito bem...

— Não tinha outro jeito. Aquilo definitivamente não foi assédio sexual.

— Do que você está falando? O pessoal anda dizendo que você está envolvido com as garotas do conselho estudantil. Tem até quem diga que você está saindo com duas ao mesmo tempo.

………….

Hã?

— Espera aí, isso não é verdade! Pensando bem, fui eu quem acabou sendo arrastado para toda aquela confusão!

— Eu sei. Você não é esse tipo de pessoa.

Hakamada assentiu. Acho que ele já tinha dito exatamente a mesma coisa no fim do segundo trimestre.

Se era assim… Então a próxima frase dele seria...

— Mesmo sabendo disso, você deveria aproveitar alguma oportunidade para explicar tudo. Se continuar mantendo distância ou deixando as coisas como estão, as pessoas vão acabar entendendo tudo errado.

— Tem certeza de que você realmente sabe?

— Sei, sei. Claro que sei.

…………

Esse cara definitivamente não sabia de nada.

Dei de ombros, imitando Hakamada, enquanto minha convicção só aumentava.

*

O trabalho nos murais terminou sem problemas. Depois disso, fui direto para a sala do Clube de Literatura. Do outro lado da mesa, Komari me encarava.

— C-Certo... entregue o rascunho.

Ela bateu de leve na mesa com a ponta do dedo. Era verdade. Agora precisávamos terminar a revista do clube. Assenti solenemente.

— Hum... É verdade. Uma revista do clube realmente precisa de um rascunho.

— O-O seu rascunho é o único que falta. A Yanami também já entregou o dela.

Como sempre, Yanami havia terminado seu romance de loja de conveniência. Agora só faltava o meu. Assenti mais uma vez, cheio de confiança.

— Eu sei que você está preocupada com o meu rascunho... mas será que não consegue perceber que eu ainda não terminei de escrevê-lo?

— E-Eu me recuso.

Que maldade. Eu nem tinha terminado de falar.

— Espere, me escute primeiro. Desta vez, vamos fazer uma revista do clube para os visitantes. O objetivo é mostrar a eles o que fazemos aqui, certo? É justamente por isso que quero caprichar na revista.

— I-Isso já foi rejeitado.

— Por isso mesmo eu disse para me ouvir até o fim. Desta vez, a revista será feita imprimindo os textos, grampeando as folhas e prendendo tudo junto, certo? Então, antes de qualquer coisa, só precisamos imprimir os rascunhos...

Tirei uma folha de papel da mochila.

— Fiz uma ficha de apresentação. Os visitantes podem escrever uma breve apresentação e anotar quais livros gostam. Depois, podemos colocar essas fichas dentro da revista. Assim, cada exemplar vai parecer único, como se tivesse sido feito especialmente para aquela pessoa.

Komari pegou a ficha e ficou encarando-a em silêncio.

— Isso também tem outra vantagem. Se soubermos quais livros eles gostam, podemos usar isso para puxar assunto.

Afinal, conversar sobre hobbies era uma das maneiras mais fáceis de aproximar duas pessoas. Apesar da minha confiança, Komari apenas me lançou um olhar cheio de desconfiança.

— E-Quem vai manter a conversa animada...?

— Hã?

A Yanami praticamente não lia, certo? Ou seja, sobrariam apenas Komari e eu.

Bem...

— Ah... podemos deixar os próprios visitantes animarem o clima.

— E-Entendo...

Não tinha a menor chance. Se dependêssemos disso, o ambiente morreria na hora. Pigarreei e voltei a encarar Komari.

— Enfim, era só isso. Vamos imprimir hoje todos os textos, menos o meu, certo?

— O-Ou seja... o seu rascunho...

Komari continuou me olhando com desconfiança. Então abaixei profundamente a cabeça.

— Vou terminar antes de domingo. Só peço que espere mais um pouco.

— D-Deveria ter dito isso desde o começo.

Aquilo devia ser considerado humilhação. Que pensamento superficial. Se bastava abaixar a cabeça para ser perdoado por perder o prazo, então aquilo era praticamente uma vitória.

Encostei a testa na mesa e sorri.

Nesse instante, a porta da sala do clube se abriu. Era Tiara Basori. Ela lançou um olhar para mim e para Komari, segurou a maçaneta por um instante e deu um passo para trás.

— Hum, vocês dois estão ocupados?

— Não, tudo bem. Em que posso ajudar?

Perfeito. Assim não precisaríamos mais falar sobre o rascunho. Levantei-me cheio de confiança. Tiara-san, porém, continuava me encarando com hostilidade.

— Certo. Vim dar uma bronca no Nukumizu-san. Podemos conversar um pouco lá fora?

Hã? Isso era assustador.

— Ah... na verdade ainda estamos ocupados. Estamos em uma reunião importante.

— Aquilo de agora há pouco?

— A mesa estava bem gelada. Ela ajuda a manter minha cabeça funcionando. Não é, Komari?

Olhei para Komari em busca de ajuda. No entanto, ela permanecia completamente imóvel no canto da sala. Ela era realmente boa em esconder a própria presença. Até a admirava por isso.

….

Espera.

Ela estava levantando a mão.

Tinha uma aura assassina ao redor dela.

Tiara-san empurrou minhas costas com força.

— Vamos. Venha logo.

— Hã? Espere.

Depois de praticamente me arrastar para fora da sala do clube, Tiara-san colocou as mãos na cintura e me encarou.

— Nukumizu-san, por que você não foi ao ginásio?

...Hã? Mas aquilo não era só para os guias?

— Eu não sou guia. Apesar de participar do evento, só fiquei responsável pela visita ao clube.

— Hã? Eu pedi à Amanatsu-sensei, que estava de plantão, para avisar você.

Hã...

Não tinha como aquela pessoa transmitir um recado desses. Afinal, era a Amanatsu-sensei. Ao perceber minha expressão, Tiara-san soltou um suspiro.

— Não tem jeito, já que o recado não chegou. Enfim, tome isto.

Antes mesmo que eu pudesse perguntar qualquer coisa, ela colocou um livreto da reunião de orientação em minhas mãos.

— Foi uma decisão de última hora, mas alguém pediu para que você fosse o guia hoje.

— Hã? Existe um sistema de indicação?

— Sim. Algumas pessoas preferem ser acompanhadas por alguém que já conhecem. Outras querem ouvir explicações sobre clubes específicos. Tentamos atender esses pedidos sempre que possível.

Alguém tinha pedido especificamente por mim? Não me diga que era algum veterano da minha antiga escola… Ou será que era alguém interessado no Clube de Literatura?

— E quem pediu para que eu fosse o guia? Espero que seja uma pessoa tranquila.

— Você vai descobrir quando encontrá-los. Agora ande logo. Foi um transtorno reorganizar a lista de última hora.

Tiara-san apontou para a lista no livreto com seu dedo fino. Hum… Eu seria o responsável pela Turma 5 da Escola de Ensino Fundamental Momozono.

Havia três nomes na lista.

Asami Gondou.

Satoshi Tachibana.

E...

Kaju Nukumizu.

*

Relatório do Clube de Literatura — Edição Especial

"Presente de Ano-Novo", Por Anna Yanami

Ultimamente, eu costumava tomar café da manhã na loja de conveniência. Meu favorito na área de descanso era o espetinho de frango grelhado no carvão (com sal).

Acho que nem preciso explicar o motivo. Quem tivesse curiosidade bastava olhar a tabela nutricional.

Isso mesmo. A linha dos carboidratos. Não lembrava dos números exatos, mas ele era um verdadeiro campeão de tão baixo que era.

Além disso, naquele dia eu estava tomando café preto quente em vez de um café com leite. Outro campeão em valores baixos.

Dois campeões consecutivos.

Hoje em dia, as lojas de conveniência deixavam escolher entre um café mais suave ou mais forte. Mas, naquele dia, o café parecia especialmente forte. Ultimamente eu também havia parado de sair cedo de casa.

Por isso, já não via mais o OO-kun indo para a escola pela janela.

— Ako-san, você parou de comer nikuman ultimamente, né?

Quem dizia coisas completamente desnecessárias era o XX-kun, meu colega de classe. Ultimamente, nós costumávamos comer juntos em um canto da loja.

Aliás, eu costumava comer butaman, não nikuman. Que amador. Ele sempre se sentava duas cadeiras de distância de mim.

Como era autoconsciente.

Que irritante.

Mesmo sendo alguém que normalmente não ligava para os outros, naquele dia ele estava ainda mais irritante. Não conseguia acreditar que alguém fosse tomar café da manhã com um cachorro-quente americano.

Exatamente.

Um cachorro-quente daqueles tinha mais de trinta gramas de carboidratos.

...Eu também queria comer um.

Além disso, naquele dia ele estava tomando café com leite em vez de café preto.

...Eu também queria beber um.

Pensei que talvez pudesse pedir uma mordida. Mas, naquele momento, uma garota da nossa escola se aproximou e começou a conversar com o XX-kun.

Os dois cochicharam alguma coisa. Pouco depois, a garota deu uma mordida no cachorro-quente dele e foi embora.

…….

Mesmo sem saber quem ela era, devia ser uma garota extremamente gananciosa e detestável para querer comer a comida dos outros. Depois que terminei meu espetinho, XX-kun deu uma risadinha.

— Ako-san, você ainda está com fome?

Como sempre, esse sujeito era terrivelmente mal-educado. Quando eu já estava prestes a ignorá-lo, XX-kun colocou alguma coisa na minha frente. Era um bastão de tofu sabor yuzu com pimenta.

Cada unidade tinha dez gramas de proteína. Além disso, era bem firme e mastigável.

— Acho que você anda tentando emagrecer ultimamente. Aqui, um lanchinho para você.

………

No fim das contas, essa pessoa realmente era muito mal-educada. Enquanto mastigava um bastão de tofu que outra pessoa havia me dado, lembrei-me daquela garota.

Comparando um bastão de tofu com uma única mordida em um cachorro-quente americano… Acho que fui eu quem saiu ganhando. Pelo menos era isso que eu dizia a mim mesma.

Mesmo assim...

Por algum motivo, meu coração ainda parecia coçar um pouquinho.

Que irritante...

*

Depois de imprimir os rascunhos, fiquei parado em frente à padaria que havia ao lado da rua, não muito longe da escola. Yanami tinha me chamado até ali quando eu já estava prestes a ir para casa.

Ultimamente ela vinha comprando pão naquela padaria, mas era a minha primeira vez ali… Olhei ao redor antes de entrar. Yanami estava terminando de pagar.

— Ah, você chegou. Nukumizu-kun, toma. É para você.

Dizendo isso, ela me entregou um pão. Era um Ogura Bread, recheado com pasta de feijão-doce. Yanami sempre comprava aquele. Quando estava em boa forma, chegava a comer oito por semana.

— Valeu. Vou pegar alguma coisa para beber. Pode ser leite?

— Pode.

Yanami acenou enquanto caminhava para a parte interna da loja. Havia algumas mesas e cadeiras ali, então dava para comer no local. Peguei uma caixinha de leite e me sentei na cadeira à sua frente. Yanami abriu a embalagem do pão e sorriu.

— Nukumizu-kun, você amadureceu.

— Hã? Como assim?

Enquanto encaixava o canudo na caixinha de leite, fiquei em alerta com aquele comentário.

— Antigamente, dois segundos depois de me encontrar, você já começava a fazer perguntas. Comparado àquela época, agora você consegue conversar normalmente.

Yanami deu uma grande mordida no pão. Não era simplesmente porque eu tinha aprendido que não adiantava lançar uma bola reta para ela, já que nunca receberia uma resposta direta de volta...?

Será que isso realmente podia ser chamado de amadurecimento?

— Depois de ouvir isso, até fiquei com peso na consciência por perguntar... Por que você me chamou aqui?

— Hã? Porque eu estava com fome.

Viu só? Ainda era impossível manter uma conversa normal com ela. Segurei o suspiro e abri a embalagem do meu pão.

— Yanami-san está sempre com fome, não está? Quer dizer... se você fez questão de me chamar, é porque queria conversar comigo, certo?

Enquanto mastigava o pão, Yanami tirou um pequeno livreto da bolsa.

Nhom, nhom, nhom...

Não fale de boca cheia.

Ah...

Esse livreto.

— É o manual dos guias, não é? Você trouxe um para mim.

Yanami engoliu o pão de uma vez.

— Nukumizu-kun, seu nome estava na lista e, mesmo assim, você não apareceu. Então pensei em fazer um resumo para você.

— A Basori-san já me explicou tudo, então está tranquilo. Vamos apenas nos encontrar à uma da tarde no ginásio.

— Hã?

Yanami parou no meio do movimento de colocar o canudo na caixinha de leite.

— Por que tinha que ser aquela garota? Ela foi atrás de você de propósito?

— O conselho estudantil é responsável pelo dia de portas abertas. Como eu faltei à reunião de orientação, ela só foi me procurar por causa disso.

Por algum motivo, Yanami me encarou com um olhar ressentido. Depois de alguns segundos, pareceu se convencer e deu de ombros enquanto abria o livreto.

— Tanto faz. Então você vai guiar o Tachibana-kun, né? Aquele garoto que teve um encontro com a Imouto-chan no Toyokawa Inari.

Minha expressão endureceu. Olhei fixamente para Yanami.

— Yanami-san, você conhece o Gato de Schrödinger?

Ela afastou a boca do canudo e inclinou a cabeça, intrigada.

— É aquele, né? O gato morre quando você abre a caixa.

Chegava perto… Mas não era exatamente isso.

— Em situações como esta, um acontecimento permanece indefinido até ser observado diretamente. Eu não nego que Kaju e Tachibana-kun sejam amigos, mas não existe nenhuma prova de que aquilo tenha sido um encontro, muito menos um passeio romântico.

Yanami balançou a cabeça, incrédula.

— Você ainda está dizendo isso? A Lemon-chan me contou o que aconteceu em Momozono, sabia? A Imouto-chan e o Tachibana-kun ficam agindo de um jeito todo suspeito. E ainda vão sair juntos no Dia dos Namorados...

De repente, Yanami pareceu perceber alguma coisa. Seus olhos se arregalaram.

— Ah! Então a promessa que Kaju e Tachibana-kun fizeram para o Dia dos Namorados devia ser justamente sobre o dia de portas abertas. É perfeitamente normal dois amigos que querem estudar na Tsuwabuki virem juntos, não é?

— Então como você explica aquelas coisas constrangedoras que ela disse que não podia contar na frente dos outros?

— A Kaju é uma garota na adolescência, certo? Não seria normal ela ficar com vergonha de o próprio irmão ser o guia dela?

— A Imouto-chan é mesmo esse tipo de garota?

— É, sim.

Yanami colocou a mão no queixo e inclinou a cabeça.

— E o chocolate caseiro que ela fez para a pessoa de quem gosta?

Droga...

Ela acertou em cheio. Virei o leite de uma vez só para reforçar meu cálcio.

— Veja bem... chocolates também podem ser dados para amigos, certo? Claro, não seria estranho se a Kaju estivesse apaixonada por alguém... Entendo o seu raciocínio, mas não dá para ter certeza enquanto ela mesma não disser nada.

— Hum... acho que isso também faz sentido.

Yanami respondeu com toda a calma antes de terminar o leite de um gole.

— Se você continuar negando tudo desse jeito, a Imouto-chan nunca vai conversar com você sobre essas coisas, sabia?

— Hum... talvez.

— É isso, Nukumizu-kun. É perfeitamente normal uma garota do ensino fundamental ter um namorado.

Não sei por quê… Mas, por algum motivo, senti que não conseguia discutir com Yanami sobre aquilo.

— Mas isso não significa que seja verdade, certo?

— Ah... você odeia mesmo admitir derrota.

Fale o que quiser. Rasguei um pedaço do pão e o coloquei na boca.

— Nukumizu-kun, por que você come tão devagar?

Yanami perguntou com um tom de voz completamente inocente.

— Não sei nem se vou conseguir terminar um. Além disso, se comer demais agora, depois não vou conseguir jantar.

— Vai, sim. Você consegue terminar.

Yanami respondeu com absoluta convicção.

— Hã? Mas...

— Você precisa acreditar mais em si mesmo. Até eu consegui comer um inteiro, mesmo tendo comprado dois sem perceber.

Então era por isso que ela tinha comprado aquele pão para mim. Percebendo que Yanami continuava me observando enquanto eu terminava metade do pão...

Comecei a ficar um pouco constrangido.

— Ah... você quer metade?

Perguntei, incapaz de suportar mais aquela pressão. Na mesma hora, Yanami abriu o sorriso mais encantador que eu tinha visto nela naquele dia e estendeu a mão.

— Fazer o quê... Acho que vou aliviar um pouco esse seu fardo, hein?

📖✨ Este capítulo foi traduzido por Slag e revisado por Shisui

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Fim da leitura

Capítulo 53 concluído

Volume 5 – Capítulo 3 – Capítulo 3: Tentei Atirar no General, Mas o Cavalo É Forte Demais